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domingo, 8 de setembro de 2024

Crónica de Carlos Coutinho: ALGUMA vez alguém havia de ter sorte na sua encomenda

?  Carlos Coutinho 

ALGUMA vez alguém havia de ter sorte na sua encomenda. Ontem foi o meu furão de alimentos citáveis que cheirou e abocanhou delícias como esta que Jorge Luís Borges guardou na sua coletânea de contos que intitulou como “Livro de Areia” e que tem uma particularidade tão antiborgesiana quanto misteriosa, “porque nem o livro nem a areia têm princípio ou fim”. Foi, de resto, o que facultou a Albano Martins a grande oportunidade dar vazão ao seu voraz apetite de sempre pôr os pontos no is, escrevendo:
  
        “Há, na praia, um livro aberto onde se contam as histórias que ali tiveram seu fim e seu princípio. Cada grão de areia é uma letra dessa história. Levo para casa um punhado dessa areia.”

        Já Sophia de Mello Breyner Andresen sonetava na mesma altura de modo bem diverso. Assim: 

           Em todos os jardins hei-de florir,
           Em todos beberei a lua cheia,
           Quando enfim no meu fim eu possuir
           Todas as praias onde o mar ondeia.

          Um dia serei eu o mar e a areia,
          A tudo quanto existe me hei-de unir,
          E o meu sangue arrasta em cada veia
          Esse abraço que um dia se há-de abrir.

          Então receberei no meu desejo
          Todo o fogo que habita na floresta
          Conhecido por mim como num beijo.

          Então serei o ritmo das paisagens,
          A secreta abundância dessa festa
          Que eu via prometida nas imagens.

Nada disso obstou, no entanto, a que Lisboa fosse afogada por turistas, como antes acontecera a Veneza, bem como à sua herdeira Barcelona, e se prepara para o litoral algarvio. É o sobreturismo (overtourism, para os anglofalantes) de que ontem falava António Guerreiro numa assustada e assustante crónica jornalística, informando que na cidade dos doges “o ratio atual, segundo dados oficiais, é de 73,8 turistas por cada habitante”.    

          Na página o lado, também no “Público”, numa saborosíssima prosa com que não estou de acordo em menos de 10% das asserções, Ana Cristina Leonardo discorre sobre o uso do gerúndio no Brasil e no Alentejo, onde os respetivos falantes locais se arrogam no direito de mexerem no nosso idioma como lhes dá mais jeito. 

          Só que mexem também noutras coisas, mas disso evita a cronista falar. E sempre vai dizendo com algum excesso que “temos uma língua abastardada, desrespeitada” e que os brasileiros ultrapassam os 220 milhões, bem como “aqui no monte os avós queixam-se”, desabafando da seguinte forma: “Os meus netos no infantário já falam brasileiro.”

https://www.facebook.com/carlos.coutinho.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Guilherme d’Oliveira Martins - “A Menina do Mar”

OPINIÃO
 
* Guilherme d’Oliveira Martins

A primeira visita de Sophia de Mello Breyner a Teixeira de Pascoaes possui um sentido mítico. Ocorreu 12 anos antes da morte do Cenobita do Marão. Partindo de Amarante a cavalo, rumou a São João de Gatão, até à casa misteriosa e plena, que muitos de nós conhecemos. Contudo, Sophia perdeu-se entre nevoeiros nos “campos, caminhos e atalhos”, até que finalmente lhe apareceu a casa, de modo surpreendente, “grande, antiga, maravilhosa e branca”. E o espanto deveu-se ao facto de ter lá chegado pelo “lado de trás da casa”. A destemida jovem de então, esperava, como qualquer viajante comum, chegar à entrada brasonada do solar tão celebrado dos Teixeira de Vasconcelos, mas assim não aconteceu. O próprio Pascoaes ao recebê-la surpreendeu-se: “Por este caminho nunca chegou ninguém.” A literatura e o sonho misturam-se, naturalmente. Paisagem e poema tornam-se uma mesma realidade - como tantas vezes afirmou Gonçalo Ribeiro Telles, o paisagista por excelência. “Tudo naquele lugar era igual à poesia de Pascoaes.” E Sophia viu naquele surpreendente desvio um caminho que correspondia exatamente à leitura de um poema. Como diz Carlos Mendes de Sousa: “Os textos sobre os poetas e a poesia estão muito próximos dos contos que escreveu, concretamente pelo efeito de surpresa e pela força das imagens, como a espantosa chegada a cavalo à casa de Pascoaes.” Isto, para não esquecer a evocação da descoberta do amigo Ruy Cinatti, a dizer versos sobre a beira de um tanque…

Sophia é um exemplo de amor à língua e à cultura, como essências de uma autêntica educação para as pessoas. Como candidata a deputada, nas campanhas eleitorais, em vez de discursos sobre a democracia e a liberdade, preferia ler poemas - “porque, para mim, a poesia é a liberdade”. E assim compreendia as pessoas simples do campo e os mais exigentes. “Havia sempre um silêncio especial, mais profundo e mais atento para ouvir poesia.” Por isso, afirmou na revista Colóquio que “a poesia é a própria existência das coisas em si, como realidade inteira”.

Um dia, convidei Sophia para inaugurar a escola que tem o seu nome, em Carnaxide. Respondeu-me, com a amabilidade habitual e a fidalguia que sempre lhe conhecemos, que só aceitaria na condição de alunos e professores da escola prepararem uma representação de cor do conto A Menina do Mar. Não calculam a alegria que senti da parte dos membros da comunidade escolar ao conhecerem a disponibilidade da poeta e, poucos dias depois, confirmaram que tudo estava combinado e acertado.

Mas, cética, Sophia confessou-me: “Dizem-me que se desaprendeu o método de decorar nas escolas, esquecendo-se, etimologicamente, o que é aprender com o coração.” Veio o dia aprazado, entusiasmo total, alunas e alunos, professoras e professores, famílias, grupos cantando mornas e coladeiras, tudo em festa. E a homenageada segredou-me: “Recebem-me como uma rainha…” A inauguração consistiu nesse entusiasmo. No ginásio, em vez de discursos, apenas a presença dos jovens - e de um modo perfeito, numa adaptação adequada, ouvimos, de cor, sem uma dúvida ou hesitação: “Era uma vez uma casa branca nas dunas, voltada para o mar. Tinha uma porta, sete janelas e uma varanda de madeira pintada de verde. Em roda da casa havia um jardim de areia, onde cresciam lírios brancos e uma planta que dava flores brancas, amarelas e roxas.” Os jovens intérpretes figuravam o enredo. Nadavam e riam, o polvo, o caranguejo, o peixe e a menina. Sophia estava surpreendida e feliz. E quando a protagonista disse “Agora a tua terra é o mar” e quando, no epílogo, o Rei do Mar estava sentado no seu trono de nácar, as palmas e os aplausos irromperam espontâneos e Sophia levantou-se com alegria juvenil: “Vejo que a língua e as escolas estão vivas.” Valera a pena o desafio. A Educação precisa sempre da liberdade e da exigência.

Dedico esta lembrança à memória de uma amiga e incansável mulher da Educação - Maria Helena Valente Rosa.

16 janeiro 2024 


Administrador-executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

 https://www.dn.pt/7662928991/a-menina-do-mar/ 

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

Sophia de Mello Breyner - Pelo negro da terra e pelo branco do muro

* Sophia de Mello Breyner Andresen

 10 de Agosto de 2002, 0:00

Há uma beleza que nos é dada: beleza do mar, da luz, dos montes, dos animais, dos movimentos e das pessoas. Mas há também uma outra beleza que o homem tem o dever de criar: ao lado do negro da terra é o homem que constrói o muro branco onde a luz e o céu se desenham. A beleza não é um luxo para estetas, não é um ornamento da vida, um enfeite inútil, um capricho. A beleza é uma necessidade, um princípio de educação e de alegria. Diz S. Tomás de Aquino que a beleza é o esplendor da verdade. Pela qualidade e grau de beleza da obra que construímos se saberá se sim ou não vivemos com verdade e dignidade. A obra do homem é sempre um espelho onde a consciência se reconhece. Quando olhamos à nossa roda as aldeias, vilas e cidades de Portugal temos de constatar que quase tudo quanto se construiu nas últimas décadas é feio. Feio e - ai de nós! - para durar. Feias as obras públicas e feias as obras particulares. As excepções à regra de fealdade são raras. Costuma dizer-se que a nossa pobreza é a origem dos nossos males. Mas o que caracteriza grande parte da nossa arquitectura desta época é o novo-riquismo. Um novo-riquismo exibicionista - quase sempre sem funcionalidade e sempre sem cultura e sem sensibilidade. Isto é especialmente triste quando comparamos o presente com o passado: de facto olhando os antigos solares de pedra e cal vemos que a nossa arquitectura soube criar nobreza sem riqueza. Daí a pureza e a dignidade de tantas casas antigas. Agora não se trata evidentemente de copiar o passado: a arquitectura é uma arte e a arte é criação e não imitação. Continuar não é imitar e imitar é sempre ofender e trair aquilo que é imitado. Mas é necessário que exista aquela consciência do passado e do presente a que chamamos cultura. Somos um país antigo. Dizem-nos que somos um país pobre. É estranho que destas coordenadas resulte uma arquitectura de novos ricos. A construção da cidade moderna traz problemas difíceis de resolver: problemas de espaço e de circulação. Mas entre nós estes problemas só existem em Lisboa e no Porto. No resto do país os problemas são quase unicamente problemas de humanidade, de bom senso, e de bom gosto ou seja problemas de moral, de inteligência e de sensibilidade e cultura. A regra a seguir é esta: uma casa para todos e beleza para todos. E a beleza não é cara. É geralmente menos cara do que a fealdade que quase sempre se chama luxo, monumentalismo, pretensão. A beleza é simplicidade, verdade, proporção. Coisas que dependem muito mais da cultura e da dignidade do que do dinheiro. Penso neste momento especialmente na terra do Algarve, com suas praias, suas grutas, seus promontórios, seus muros brancos, sua luz claríssima. É preciso não destruir estas coisas. É preciso que aquilo que vai ser construído não destrua aquilo que existe.  arte é sempre a expressão duma relação do homem com o mundo que o rodeia. A arquitectura é especificamente a expressão duma relação justa com a paisagem e com o mundo social. Fora destas coordenadas só há má arquitectura. Afirma-se que é necessário desenvolver turisticamente o Algarve. Para isso será preciso construir. Mas é necessário que aqueles que vão construir amem o espaço, a luz e o próximo. Existem todas as condições para que se possa criar no Algarve uma boa arquitectura: ali temos uma paisagem e uma luz que pedem "arquitectura", ali encontramos um uso belo e tradicional do barro e da cal; ali temos uma arquitectura local lisa e pura como uma arquitectura moderna, uma arquitectura popular cujos temas o arquitecto poderá desenvolver duma forma mais técnica e mais culta: ali temos um clima que facilita a vida e propõe soluções de extrema simplicidade. Ali poderemos ter os materiais, as inovações, a técnica e a cultura do nosso tempo. Ali poderão trabalhar os arquitectos competentes que existem no nosso país. Mas é urgente evitar os seguintes perigos:- A incompetência- O saloísmo- As especulações com os terrenos- Os maus arquitectos- O falso tradicionalismo- A mania do luxo e da pompa- As obras de fachada Acima de tudo é preciso evitar a falta de amor. De todas as artes a arquitectura é simultaneamente a mais abstracta e a mais ligada à vida. Aqueles que não amam nem o espaço, nem a sombra, nem a luz, nem o cimento, nem a pedra, nem a cal, nem o próximo, não poderão criar boa arquitectura.

(Publicado em Janeiro de 1963, no nº 21 da "Távola Redonda")

https://www.publico.pt/2002/08/10/jornal/pelo-negro-da-terra-e-pelo-branco-do-muro-173555

terça-feira, 9 de março de 2021

Sophia de Mello Breyner - Retrato de Mónica

* Sophia de Mello Breyner


Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da «Liga Internacional das Mulheres Inúteis», ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.

Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem-se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.

Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.

De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.

A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.

Isto obriga Mónica a observar uma disciplina severa. Como se diz no circo, «qualquer distracção pode causar a morte do artista». Mónica nunca tem uma distracção. Todos os seus vestidos são bem escolhidos e todos os seus amigos são úteis. Como um instrumento de precisão, ela mede o grau de utilidade de todas as situações e de todas as pessoas. E como um cavalo bem ensinado, ela salta sem tocar os obstáculos e limpa todos os percursos. Por isso tudo lhe corre bem, até os desgostos.

Os jantares de Mónica também correm sempre muito bem. Cada lugar é um emprego de capital. A comida é óptima e na conversa toda a gente está sempre de acordo, porque Mónica nunca convida pessoas que possam ter opiniões inoportunas. Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez. Ou, mais exactamente: a sua inteligência é feita da estupidez dos outros. Esta é a forma de inteligência que garante o domínio. Por isso o reino de Mónica é sólido e grande.

Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleireiros. Quando ela chega a um cabeleireiro ou a uma loja, fala sempre com a voz num tom mais elevado para que todos compreendam que ela chegou. E precipitam-se manicuras e caixeiros. A chegada de Mónica é, em toda a parte, sempre um sucesso. Quando ela está na praia, o próprio Sol se enerva.

O marido de Mónica é um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo. Deste marido maçador Mónica tem tirado o máximo rendimento. Ela ajuda-o, aconselha-o, governa-o. Quando ele é nomeado administrador de mais alguma coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher. Não são o casamento. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma. O contrato que os une é indissolúvel, pois o divórcio arruína as situações mundanas. O mundo dos negócios é bem-pensante.

É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade. Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Às vezes, quando os casacos estão prontos, as crianças já morreram de fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica também. Ela todos os anos parece mais nova. A miséria, a humilhação, a ruína não roçam sequer a fímbria dos seus vestidos. Entre ela e os humilhados e ofendidos não há nada de comum.

E por isso Mónica está nas melhores relações com o Príncipe deste Mundo. Ela é sua partidária fiel, cantora das suas virtudes, admiradora de seus silêncios e de seus discursos. Admiradora da sua obra, que está ao serviço dela, admiradora do seu espírito, que ela serve.

Pode-se dizer que em cada edifício construído neste tempo houve sempre uma pedra trazida por Mónica.

Há vários meses que não vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela estivera muito tempo conversando com o Príncipe deste Mundo. Falavam os dois com grande intimidade. Nisto não há evidentemente, nenhum mal. Toda a gente sabe que Mónica é seriíssima toda a gente sabe que o Príncipe deste Mundo é um homem austero e casto.

Não é o desejo do amor que os une. O que os une e justamente uma vontade sem amor.

E é natural que ele mostre publicamente a sua gratidão por Mónica. Todos sabemos que ela é o seu maior apoio; mais firme fundamento do seu poder.

Sophia de Mello Breyner Andresen 
Contos Exemplares
Porto, Figueirinhas, 1996 (29ª ed.).

http://cvc.instituto-camoes.pt/contomes/19/texto.html

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Sophia de Mello Breyner - Mar

Sophia de Mello Breyner 


Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.
E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras.


Sophia de Mello Breyner Andresen (1919 - 2005)

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Sophia de Mello Breyner - Em todos os jardins

* Sophia de Mello Breyner

Em todos os jardins hei-de florir,
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.

terça-feira, 19 de maio de 2020

Sophia de Mello Breyner Anderson - Catarina Eufémia

* Sophia de Mello Breyner Anderson


O primeiro tema da reflexão grega é a justiça
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente
Pois não deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método obíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos
Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
Porque eras a mulher e não somente a fêmea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste
E a busca da justiça continua

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Sophia de Mello Breyner - Exílio

* Sophia de Mello Breyner


Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades

Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Livro Sexto'

Sophia de Mello Breyner - Porque

* Sophia de Mello Breyner



"Porque" - Francisco Fanhais

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner - Este é o tempo

* Sophia de Mello Breyner

Este é o tempo
Da selva mais obscura

Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura

Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura

Este é o tempo em que os homens renunciam.

Sophia de Mello Breyner - Mulheres à beira-mar

*  Sophia de Mello Breyner


Confundido os seus cabelos com os cabelos do vento, têm o corpo feliz de ser tão seu e tão denso em plena liberdade.
Lançam os braços pela praia fora e a brancura dos seus pulsos penetra nas espumas.
Passam aves de asas  agudas e a curva dos seus olhos prolonga o interminável rastro no céu branco.
Com a boca colada ao horizonte aspiram longamente a virgindade de um mundo que nasceu.
O extremo dos seus dedos toca o cimo de delícia e vertigem onde o ar acaba e começa.
E aos seus ombros cola-se uma alga, feliz de ser tão verde.


Sophia de Mello Breyner Andresen | "Antologia", pág. 76 | Círculo de Poesia Moraes Editores, 2ª. edição, 1975

Sophia de Mello Breyner - Homens à beira-mar

*  Sophia de Mello Breyner

Nada trazem consigo. As imagens
Que encontram, vão-se delas despedindo,
Nada trazem consigo, pois partiram
Sós e nus, desde sempre, e os seus caminhos
Levam só ao espaço como o vento.

Embalados no próprio movimento,
Como se andar calasse algum tormento,
O seu olhjar fixou-se para sempre
Na aparição sem fim dos horizontes.   

Como o animal que sente ao longe as fontes,
Tudo neles se cala para auscultar
O coração crescente da distância,
E longínqua lhes é a própria ânsia.

É-lhes longínquo o sol quando os consome,
É-lhes longínqua noite e asua fome.
É-lhes longínquo o próprio corpo e o traço,
Que deixam pela areia, paso a passo.

Porque o calor do sol não os consome,
Porque o frio da noite não os gela,
E nem sequer lhes dói a própria fome,
E é-lhes estranho até o próprio rasto.

Nenhum jardim, nenhum olhar os prende,
Intactos nas paisagens onde chegam
Só encontram o longe que se afasta,
AS aves estrangeiras que os traspassam,
E o seu corpo é só um nó de frio
Em busca de mais mar e mais vazio.



Sophia de Mello Breyner Andresen | "Poesia", 1944

Sophia de Mello Breyner - Quando eu morrer ...


* Sophia de Mello Breyner

Quando eu morrer, voltarei para buscar
Todos os instantes que não vivi junto ao mar.

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Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.

Sophia de Mello Breyner Andresen | "Dia do Mar", pág. 84 | Edições Ática, 1974


João Céu e Silva - Um jovem fugido da Dinamarca faz nascer Sophia no Porto

Para Sophia, primeiro era o Porto, depois gostou de Lisboa, a seguir apaixonou-se pelas praias do Algarve, que lhe faziam lembrar nos anos 1960 a Grécia mítica que tanto a inspirou.

João Céu e Silva
2019.11.06

A cidade do Porto além de insinuada em vários pemas de Sophia também suege num conto, intitulado "O Homem", no qual a autora coloca um indivíduo a passear pelas ruas da cidade - que nunca é reconhecido - como sendo Cristo a regressar. © Arquivo DN

A vivência da cidade do Porto está muito presente na obra da poeta Sophia de Mello Breyner Andresen e pode até se dizer que está na génese dos seus primeiros trabalhos literários, além de bastante reconhecível no livro inicial, Poesia (de 1944). Uma edição de trezentos exemplares custeada pelo pai mas que irá pagar-se a si própria e na qual, principalmente, se observa a influência da natureza daquela cidade nos seus tempos de criança e de adolescente.

Essa inspiração não foi nunca escondida e a própria poeta a exalta quando recorda o Porto e as memórias da juventude, como é o caso do lugar muito importante que é o atual Jardim Botânico do Porto, que ocupou parte da propriedade familiar da Quinta do Campo Alegre até 1949 e que foi também parcialmente ocupada com a nova Ponte da Arrábida. Seria este espaço, com extensos e belos jardins, que inspiraria Sophia durante toda a vida e cujas sensações a poeta irá reproduzir na escrita sob variadas formas, destacando-se a liberdade de movimentos para as brincadeiras infantis que irão estar presentes nos livros infantojuvenis e nos poemas em que a natureza domina.

O Porto está muito presente na obra de Sophia de Mello Breyner Andresen, aqui a escrever à janela. Sobre esse espaço mágico dirá Sophia: "Não era propriamente a casa da minha avó a que eu ia, mas à quinta que a rodeava - os maravilhosos jardins, os buxos, as rosas, as glicínias, os muguets - os altíssimos plátanos do parque e os seus troncos, onde estavam inscritas iniciais e datas e, às vezes, desenhados os corações de todos os namorados da família, as suas penumbras verdes na primavera e no verão, a luz doirada do outono e o chão juncado de folhas, o desenho dos ramos nus no céu frio de inverno, o cheiro intenso e húmido da terra, do lago e dos musgos - o pomar, o ténis, as hortas, os tanques, o pinhal, os campos -, tudo isto era para mim um mundo de inesgotável e contínua descoberta."

Trata-se de Jan Heinrich Andresen, um jovem que foge da ilha dinamarquesa de Föhr e que dará origem à família de Sophia. Tanto assim que um dos seus livros, Saga, narra a viagem de Jan até ao Porto e conta a aventura do bisavô que decide instalar-se em Portugal.

Não muito distante da magia do Porto que a Quinta do Campo Alegre lhe proporcionava, Sophia escolhe uma das praias que os portuenses frequentam, a da Granja, para registar em vários textos futuros. Imagens de uma praia a norte que está implícita em poemas como "Homens à beira-mar" e "Mulheres à beira-mar". Inspiração que a poeta confirmaria mais tarde, numa entrevista - "esses poemas têm que ver com as manhãs de praia da Granja" -, mesmo que nessa resposta acrescente como a pintura de Picasso e a poesia de Lorca tinham sido importantes para os escrever.

Além do que era palpável fisicamente, havia outra memória que também teria a cidade do Porto como suporte através de um antepassado. Trata-se de Jan Heinrich Andresen, um jovem que foge da ilha dinamarquesa de Föhr e que dará origem à família de Sophia. Tanto assim que um dos seus livros, Saga, narra a viagem de Jan até ao Porto e conta a aventura do bisavô que decide instalar-se em Portugal.

Numa das raras entrevistas dadas ao longo da vida, Sophia explicou esse Porto que estava em Saga, apontando as frases com que identificara a cidade, como a descrição da entrada do navio pelo rio Douro, onde o bisavô se esconderia na fuga da terra natal: "Barra estreita de um rio esverdeado e turvo", os " escuros granitos", ou os "carros de madeira, que chiavam sob o peso de pipas, pedra e areias" ao passarem "à porta das adegas" ou pelas "igrejas de azulejo e talha".

A cidade do Porto, além de insinuada em vários poemas, também surge num conto, intitulado O Homem, no qual Sophia coloca um indivíduo a passear pelas ruas da cidade - que nunca é reconhecido - como sendo Cristo a regressar.

Num desabafo posterior, a poeta confessará o amor pela geografia de jovem, que mudará com a vivência de outros locais: "Quando eu era nova e vim para Lisboa senti-me longíssimo da praia porque no Porto vivia mais perto do mar. Não gostava de Lisboa, tinha uma grande nostalgia do norte. Depois isso foi passando. E hoje gosto de Lisboa."

Se o Porto, a quinta e a praia da Granja ocupam grande parte dos primeiros temas e dos poemas, será outra a inspiração geográfica que vai modelar a descendente de Jan Heinrich Andresen: as praias do Algarve, tão parecidas com as que também amava, as da Grécia. Com estas, a água fria, os limos e as ondas a bater no litoral de forma violenta seriam imagens perdidas para uma nova poesia, a da idade adulta.



terça-feira, 19 de março de 2019

Sophia de Mello Breyner - RETRATO DE UMA PRINCESA DESCONHECIDA

* Sophia de Mello Breyner


Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos
Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino

Sophia de Mello Breyner Andresen, Dual, 1972

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Sophia de Mello Breyner Andresen - Esta gente

Sophia de Mello Breyner Andresen

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Geografia" 

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Sophia de Mello Breyner - Breve encontro

* Sophia de Mello Breyner


Este é o amor das palavras demoradas
Moradas habitadas
Nelas mora
Em memória e demora
O nosso breve encontro com a vida.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Algarve de Sophia por Pedro Sousa Tavares


* Pedro Sousa Tavares


As férias algarvias de Sophia de Mello Breyner relembradas pelo neto, o jornalista Pedro Sousa Tavares

"Há muito que deixei aquela praia
De grandes areais e grandes vagas
Mas sou eu ainda quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vaza"
Sophia de Mello Breyner Andresen, "Há Muito"

O levante é sempre uma dádiva com os dias contados. Três, seis ou nove, assim o mediam os antigos, quando as contas ainda batiam certas. Pelo meio - na maior parte do tempo, para não mentir - é a nortada, sua némesis, quem dita as regras, levantando areia e guarda-sóis, tornando geladas as noites e, única virtude que se lhe reconhece, expulsando melgas e mosquitos para outras paragens.

Nas noites de nortada, Sophia deixava-se ficar até tarde a cismar no seu "escritório", um mezanino por cima da sala, na casa da Meia Praia, que os netos sempre encararam como o seu santuário privado, ainda que nunca o tivesse reivindicado como tal. Acendia os seus cigarros slim, que invariavelmente esquecia no cinzeiro depois da primeira passa, bebericava o seu chá, que parecia durar para sempre e nunca parar de fumegar e, com a portada de vidro entreaberta, passava horas a ouvir o vento a silvar entre os pinheiros.


Sophia no Algarve
© D.R.

Lembro-me disso porque, tendo-lhe herdado os genes noctívagos, ocupava muitas das mesmas horas imediatamente em baixo do mezanino, sentado na mesa de jantar, levando sucessivas abadas no xadrez do meu tio Xavier até às raras e triunfais ocasiões em que, geralmente apanhando-o já meio a dormir, descortinava um erro que me permitia recompor o meu score para um mais digno 1-10 ou 1-11.

Entre os nossos silêncios de jogadores, e o seu silêncio de poeta, era capaz de jurar que o vento que entrava pela janela lhe falava ao ouvido e que ela, num murmúrio, tão leve que talvez fosse apenas imaginado, lhe respondia.

- Mãe, vá-se deitar -, suplicava às tantas o meu tio, quando nós próprios claudicávamos ao sono.
- Vou já, Xavier.

Muitas vezes nunca ia. Adormecia ali mesmo. Embalada pelo vento.

Nos dias de levante a Meia Praia transformava-se na melhor praia do mundo. O mar, por norma parado como um lago, enchia-se de vida, proporcionando-nos épicas sessões de carreirinhas e obrigando o nadador-salvador a abandonar o seu posto habitual - uma cadeira à sombra, onde, imagino maldosamente, se recompunha, a sono solto, das aventuras noturnas da véspera - para impor a ordem possível entre multidões de crianças e adolescentes eufóricos. A temperatura da água subia, dia após dia, até ir bem para lá dos 20 graus, facto que alguém - já não me lembro quem - atestava cientificamente com um daqueles termómetros em forma de peixe que se usavam nas banheiras dos bebés. E o vento de sul envolvia-nos num abraço, transformando a água que nos escorria pela cara num caldo morno com sabor a sal e algas.

Não era apenas nesses dias que Sophia lá ia. Mas as memórias que guardo dela na Meia Praia estão invariavelmente ligadas ao esplendor dessas manhãs e tardes de levante, que muitas vezes duravam até anoitecer. Talvez por estarem arquivadas na mesma pasta destinada às boas recordações.

Nunca aparecia antes das duas, três horas. Não por se levantar tarde - coisa que raramente fazia, apesar dos longos serões - mas por preferir evitar as horas de maior calor. Havia sempre alguém a oferecer-se para a ir buscar a casa mas, muitas vezes, dispensava a oferta, preferindo fazer a pé o trajeto de meio quilómetro até ao areal. Por vezes apanhava boleias improváveis. Num ano, já bem na casa dos setenta, arranjou uma empregada que guiava uma scooter e passou as férias a deslocar-se para a Meia Praia sentada de lado atrás da condutora, à amazona, com uma alcofa numa mão e uma sombrinha japonesa na outra.


Sophia no areal da praia de Dona Ana, em Lagos
© D.R.

Chegava à praia sempre elegante, com longas túnicas ou vestidos de tecidos leves, chapéu de palha na cabeça. Pousava a alcofa, estendia a esteira, também de palha. Já de fato de banho, ainda segurando a sombrinha, que só largava à beira-mar, avançava decidida até à primeira onda, mergulhando de cabeça. Lembro-me de ver, orgulhoso, o olhar embasbacado de duas turistas inglesas que assistiram a um desses rituais.

Era uma excelente nadadora, de gestos estilizados, como uma atleta olímpica. Lá em casa, cumpria religiosamente as suas sessões de bruços de fim de tarde na piscina ladeada por uma alfarrobeira, em cujos ramos pousava as coisas antes de entrar na água. Vê-la a nadar, de braçada certa e uma respiração cadenciada (que também usava para se acalmar quando alguma coisa a irritava), era um momento tão solene que conseguia a proeza de nos manter a nós, netos, a uma invulgar e respeitosa distância da água.

A alfarrobeira, que adorava, nunca deixou de ser um pesadelo logístico para todos os mestres-de-obras e técnicos de manutenção que passaram pela casa. As suas raízes levantam o chão de tijolo vermelho e já furaram as paredes da piscina duas ou três vezes. As suas folhas e frutos sujam a água e entopem os filtros. Os apelos para a deitarmos abaixo sucederam-se ao longo dos anos. Mas isso sempre esteve fora de questão: aquela árvore, por estranho que esta afirmação possa parecer, também é ela.


 Postal enviado por Jorge de Sena com a morada "Vila Moura"
© D.R.

No elogio que lhe foi feito em 1964 num almoço da Sociedade Portuguesa de Escritores, por ocasião da entrega do Grande Prémio de Poesia atribuído ao Livro Sexto, foi destacada a sua capacidade de demonstrar "a dignidade do ser", mesmo quando a sua poesia falava "somente de pedras ou de brisas". Com todo o respeito pelos que então tiveram a coragem de a homenagear, em plena ditadura, a meu ver não perceberam o fundamental. As pedras, as árvores, as brisas, o mar, a terra, não foram "somente" temas da sua poesia mas partes indeléveis da sua essência, da "dignidade do ser" que era. E no Algarve, que descobriu nessa mesma década de 1960, encontrou uma fonte inesgotável de inspiração. Era a sua Grécia entremuros.

Revendo o trajeto de O Caminho da Manhã - poema que, como contou anos mais tarde, começou por ser um conjunto de indicações à sua empregada sobre como ir da Praia da D. Ana ao Mercado de Lagos -, pergunto-me como encaixaria, depois da "estrada que [já não] é de terra amarela", junto às "muralhas antigas da cidade", um recém-construído parque de estacionamento com um aberrante minigolfe temático na cobertura. É um pensamento absurdo. Tão absurdo como imaginar que alguma vez a fealdade de parte da cidade de Atenas a impediria de se deslumbrar com o Pártenon. Sempre se concentrou no essencial. E o essencial - a luz de Lagos, a brancura das suas paredes, fontes do seu "amor pelas coisas visíveis" que é "oração em frente do grande Deus invisível" - perdura.

O levante passou por cá, há dias, embora breve e menos feliz do que noutras ocasiões. Com a notícia da perda de um amigo, pai de um grande amigo, chegaram-nos também nuvens negras de fumo, vindas da serra de Monchique, que ensombraram o sol e tiraram sal aos nossos mergulhos. Enquanto escrevo, a nortada, já de regresso, fustiga as chamas em direção a Silves. Os homens que as combatem parecem precisar de ajuda. Talvez ela possa, mais uma vez, dar uma palavra ao vento.

https://www.dn.pt/1864/interior/no-algarve-de-sophia-9699673.html

terça-feira, 12 de junho de 2018

Sophia de Mello Breyner - A Forma Justa

  * Sophia de Mello Breyner

Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo


Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"