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domingo, 24 de março de 2024

A relação de Fátima com o Estado Novo exige uma investigação que ainda não está totalmente feita

Responsável do Santuário explica que Fátima se desenvolveu mais no período pós-25 de Abril. Reconhece que é "fácil" associar Fátima ao Estado Novo, mas na verdade a relação não foi assim tão próxima.

Agência Lusa

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24 mar. 2024, 10:22 1 

A ideia de uma ligação profunda entre Fátima e o regime do Estado Novo é desmentida pelo diretor do Departamento de Estudos do Santuário, que aponta o pós-25 de Abril como o período em que “Fátima se desenvolve mais”.

Para Marco Daniel Duarte, “a relação de Fátima com o Estado Novo exige uma investigação que ainda não está totalmente feita”.

“Aquilo que é o mais fácil para a narrativa que tem sido criada é que Fátima e o Estado Novo são quase a mesma coisa. Há, inclusivamente, uma narrativa mitográfica que diz que Fátima é construída pelo Estado Novo. Ora, tudo isto exige que haja, de facto, uma investigação séria”, defende.

Desde logo porque “Fátima nasce no contexto pré-Estado Novo, num contexto de I República, (…) de um Portugal que é claramente anticlerical, que tem muitas dificuldades em assumir uma mensagem religiosa”, afirma o historiador, lembrando que os patriarcas do republicanismo diziam que “em poucas gerações o catolicismo seria erradicado do país”.

Admitindo que o catolicismo encontra um espaço de maior conforto para a expressão da fé durante o Estado Novo, diz não ser de admirar, por isso, que “a historiografia tenda a dizer que Fátima cresce de uma forma muito considerável no período” da ditadura de Salazar.

No entanto, adverte, há que “dizer de uma forma muito clara que Fátima não é igual a salazarismo. Aliás, o próprio presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar, pouquíssimas vezes veio a Fátima. Veio nos anos 50, numa visita que nem sequer era oficial, e veio depois em 1967, aquando do cinquentenário das aparições com o Papa Paulo VI”.

“O poder político não frequenta Fátima de forma assinalável. Há momentos muitíssimo importantes em Fátima relacionados com episódios soleníssimos e não é o chefe de Estado nem é o chefe do Governo que vem a Fátima”, lembra Marco Daniel Duarte, apontando o exemplo de 1946, quando “a imagem de Nossa Senhora de Fátima é coroada como Rainha do Mundo e Rainha da Paz e vem um legado pontifício do Papa Pio XII” ao Santuário.

Nesse dia, “nem Salazar nem o chefe de Estado estão em Fátima. Aquilo que vemos acontecer é, até no período pós-25 de Abril, a presença do Estado e a presença de ministros, porventura até mais detetável do que propriamente no Estado Novo”, acrescenta.

E apesar da trilogia “Fátima, Futebol e Fado” que se tornou popular para caracterizar o Portugal das décadas anteriores à revolução de 1974, Fátima não deixava de causar alguma incomodidade no poder instalado.

A guerra nas antigas colónias de África e o palco que Fátima constituía para alguma crítica, causava desconforto.

“Os anos 60 são muitíssimo ricos na expressão que Fátima também tem de contrariar aquilo que é a decisão política ao mais alto nível, nomeadamente em relação à questão do Ultramar (…) e da guerra”, sublinha Marco Daniel, lembrando que se veem “os fiéis a virem a Fátima pedir que termine a guerra, que os soldados não sejam mobilizados para a guerra”.

“Vemos isto a partir de várias vozes: em primeiro lugar, a partir dos próprios soldados, os militares que (…) vêm a Fátima pedir a proteção da Virgem para a sua missão no Ultramar, vêm também doentes e soldados mutilados agradecer o facto de terem sobrevivido à guerra e isto são, obviamente, manifestações muito claras de que Fátima é palco de uma reivindicação, de uma contestação em relação a esta guerra que levava à morte milhares de inocentes”, frisa o diretor do Departamento de Estudos do Santuário.

Para o responsável, “estas vozes que se fazem ouvir em Fátima não são apenas as vozes dos soldados, são as vozes dos pregadores, dos padres que aqui têm discursos pró-pacifistas, a voz das madrinhas de guerra, dos filhos de soldados, das noivas dos soldados, que aqui deixam as suas mensagens (…) que ainda hoje são fontes inestimáveis para perceber um período da história portuguesa”.

“Nós vemos aqui, de facto, essa contestação silenciosa de Fátima ser um abrigo para estas angústias da humanidade nesta época”, diz o historiador.

Havia a perceção de “que o regime sentiria, por um lado, algum desconforto, no sentido em que há aqui um palco onde vemos soldados a rastejar na passadeira dos penitentes com as suas fardas, portanto, uma paisagem humana muito difícil de perceber, que não é uma paisagem humana que apareça nos jornais de forma muito clara, mas, ao mesmo tempo, olhava para Fátima como lugar [onde] ‘eles vão fazer as suas orações’, quase que não é nada político”.

Mas, argumenta, “há aqui uma dimensão que não é apenas religiosa, é fundamentalmente também política”.

E sendo política, como era o controlo feito pela polícia do regime em Fátima?

“Não temos evidência desse tipo de controlo”, o que pode ser explicado pela sensação de que, “para a PIDE, não pareceria óbvio que em Fátima acontecesse algo que contrariasse a voz do regime”, acrescenta.

Período da revolução em Fátima ainda é lugar de inquietações

O diretor do Departamento de Estudos do Santuário de Fátima considera que o período da revolução de 1974 na Cova da Iria “continua ainda a ser um ‘lugar’ de muitas inquietações”.

“O 25 de Abril de 1974 é um tempo que está ainda por estudar e que, a partir das fontes ligadas à Igreja, continua ainda a ser um lugar de muitas inquietações”, diz em entrevista à agência Lusa Marco Daniel Duarte, acrescentando: “sabemos que a Conferência Episcopal estava reunida em Fátima. E não sabemos exatamente o que se passou naquela reunião. Esses arquivos têm de ser explorados nesse sentido”.

O que se sabe é que em maio seguinte houve a tradicional peregrinação de dia 13, desta vez presidida pelo cardeal António Ribeiro, patriarca de Lisboa, e verifica-se que “não tem uma diminuição de fiéis, a esplanada está cheia”.

Na homilia, António Ribeiro “vai aproveitar o grande tema que a Igreja estava a trabalhar do ponto de vista universal, que é o Ano Santo, que tinha palavras-chave como Redenção, Reparação, Reconstrução”, recorda Marco Daniel, para explicar que o patriarca “vai aproveitar essas palavras e usá-las no contexto político que se está a viver”.

“Podemos quase dizer que é a primeira grande intervenção dirigida à massa dos fiéis para mostrar que a Igreja estava disponível para, a partir de uma renovação dos espíritos, construir e ajudar a construir um mundo novo. Expressões como mundo novo, liberdade, consciência, reconstrução, mas também responsabilidade, aparecem nessa homilia”, sublinha o historiador.

Sobre o ambiente vivido por esses tempos em Fátima, Marco Daniel Duarte afirma que, “ao olhar para trás, percebe-se que há uma serenidade muito grande do ponto de vista do santuário e dos seus decisores, ao mesmo tempo que essa serenidade não deixa de estar eivada de preocupação”.

“Sendo Fátima um ícone religioso por excelência, estando nessa tradição de leitura conotada com o Estado Novo, sentir-se-ia em Fátima essa necessidade de estar atento às movimentações do novo regime que se estava a tentar encontrar”, explica.

Após o 25 de abri 1974 e até ao ano de 1975, “são meses com preocupações relativamente à forma como a Igreja seria tratada do ponto de vista do novo regime democrático e, dentro da Igreja, obviamente o fenómeno Fátima como um fenómeno importantíssimo”, lembra.

Ao mesmo tempo, pelo que “está escrito – porque, na verdade, muitas das decisões não ficaram escritas e não as há documentadas nos arquivos — [o que se assiste] é, de facto, [a] uma grande serenidade, uma presença muito clara, sem temor, ainda que com receio de que algo pudesse acontecer, mas sem temor para dialogar e enfrentar a adversidade”.

Apesar disso, foi possível vislumbrar que a Voz da Fátima — órgão oficial do Santuário, através da palavra do seu reitor monsenhor Luciano Guerra, “vai ter muitos pontos de ligação às preocupações humanitárias que decorrem do 25 de Abril, nomeadamente (…) sobre a descolonização e sobre a forma como os irmãos – ele chama-lhes assim – que vêm das colónias devem ser recebidos por aqueles que estão na chamada antiga metrópole, como que a dar uma nota muito clara sobre o comportamento” que os católicos dessa época devem ter.

“E ele não tinha de falar senão e apenas sobre Fátima, mas ele toma esse assunto, que é um assunto nacional, um assunto muito difícil, a questão dos retornados, e a partir da sua palavra encoraja a que essas pessoas sejam enquadradas de forma feliz na sociedade que se está a reerguer”, aponta Marco Daniel, que sublinha a consolidação que Fátima assumiu no panorama nacional e internacional após o 25 de Abril.

“Fátima, de facto, não é subserviente do Estado Novo, nem está colada ao Estado Novo. E a prova máxima disso é que o seu desenvolvimento não é apenas durante o Estado Novo. Esse desenvolvimento não está relacionado com o Estado Novo, mas está relacionado com a política religiosa do mundo contemporâneo, sobretudo a partir do pontificado de Pio XII. É uma questão religiosa já de escala universal”, afirma o diretor do Departamento de Estudos do Santuário.

É a partir do 25 de Abril, “se quisermos marcar aqui uma barreira política, que Fátima se desenvolve ainda mais, no pontificado de João Paulo II e em todos os pontificados seguintes. Portanto, de forma muito evidente, Fátima tem dentro de si um motor que não é um motor que dependa da política nacional”.

E, no horizonte, vislumbra uma Fátima viva dentro de outros 50 anos, pois “o fenómeno Fátima é um fenómeno que interessa à Humanidade, porquanto tem na sua génese uma temática que nunca estará vencida, que é a temática da Paz”.

O pós-revolução na linguagem própria da Voz da Fátima

O leitor mais desprevenido que, em 1974, tentasse obter informações sobre o 25 de Abril e as suas repercussões na Igreja, em particular no Santuário de Fátima, através do órgão oficial da instituição, encontrava algumas dificuldades.

Nas páginas da Voz da Fátima, mensário oficial do Santuário, a linguagem usada nos meses pós-revolução é difusa sobre a ação militar que levou à queda do regime, com poucas explicações e mensagens pouco explícitas.

O diretor do Departamento de Estudos do Santuário, Marco Daniel Duarte, em entrevista à agência Lusa assume que “essa é a linguagem típica da imprensa católica da época”.

“Há quase como que um desviar do próprio nomear do acontecimento do 25 de Abril. É, de facto, sempre dito ‘os acontecimentos recentes’, ‘os acontecimentos que assolaram o país’, ‘os acontecimentos que estamos a viver’. E isso diz respeito a uma posição defensiva da Igreja perante os cenários que estavam a ser desenhados”, afirma.

Com efeito, no número de 13 de maio de 1974, na página 2 é publicada apenas uma pequena breve sobre a reunião da Conferência Episcopal que decorria em Fátima no dia 25 de abril, mas sem qualquer referência à revolução.

No número seguinte, de junho, é publicada a homilia que o cardeal António Ribeiro proferira na peregrinação de maio.

“Somos Igreja. Por isso, em nós deve transparecer o rosto sereno e firme, alegre e confiante, humilde e penitente, de quem caminha na história dos homens e com eles partilha, bem de dentro, as esperanças e as angústias, as alegrias e as penas, as certezas e as interrogações da hora atual”, afirmou o patriarca de Lisboa perante milhares de peregrinos.

“Renovar os homens e as instituições, sem atropelo ao direito e na observância da fraternidade humana e cristã é tarefa a que todos somos convocados no momento atual. Uma sociedade nova precisa de homens novos. E as instituições, ainda que alteradas na forma, só deixarão de ser velhas quando forem servidas e constituídas por homens renovados. E ninguém pense já ter atingido a meta da renovação”, avisava então o sucessor de Manuel Cerejeira à frente do Patriarcado de Lisboa.

De seguida, e sempre sem se referir explicitamente ao 25 de Abril, António Ribeiro preconizava que “a nova ordem social terá de assentar na verdade e na justiça, na liberdade e no amor e na paz. São estes, por certo, os valores que presentemente se anunciam e, diante de tal anúncio, nenhum cristão deixará de se alegrar. Com todos os homens de boa vontade, os cristãos são pregoeiros e artífices de um mundo novo, sempre voltado para o futuro, onde a mentira seja abolida, onde a injustiça não tenha foros de cidadania, onde a reta liberdade de todos possa ser respeitada e vivida, onde o ódio desapareça e a guerra dê lugar à paz e à concórdia fraterna”.

Em agosto desse ano, a Voz da Fátima começou a publicar — num processo que durou meses — a Carta Pastoral do episcopado “sobre o contributo dos cristãos para a vida social e política”.

Quem fosse lendo apenas este mensário, ficaria na dúvida sobre as razões da publicação do documento que pretendia “ser uma ajuda à leitura cristã dos últimos acontecimentos da vida portuguesa”.

Em setembro, um tema polémico era tratado na última página da Voz da Fátima, que dava conta de “uma grande campanha para a liberalização do divórcio em Portugal”.

“Não é de agora. Vinda da Primeira República, um tanto abafada durante o regime de Salazar, começou a tomar vulto por volta de 1965, com a fundação do Movimento Pró-Divórcio. Mas foi a partir do 25 de Abril, favorecida pelo atual clima reivindicativo e libertário, que a campanha assumiu proporções que não deixarão de impressionar a opinião pública e as próprias autoridades civis e religiosas”, lia-se no jornal do Santuário.

O título era um alerta: “Para os católicos sinceros o divórcio não traz solução”.

No número de outubro, eram reproduzidas as palavras do Papa Paulo VI durante a cerimónia de entrega de credenciais do embaixador de Portugal junto da Santa Sé, Calvet de Magalhães. O pontífice abordava, entre outras, a questão do Ultramar.

“Seguimos, com vivo interesse, as iniciativas referentes aos territórios do Ultramar”, desejando que se “possam garantir em tais regiões seguras condições de justiça, de paz e de progresso”, desejava o Papa.

Um mês depois, era dada nota da necessidade de se evitar “o aproveitamento abusivo de Fátima como arma anticomunista, aproveitamento que poderia desvirtuar a Mensagem da Fátima (segundo a qual a conversão da Rússia está dependente da nossa própria conversão)”, ao mesmo tempo que se considerava ser uma “traição a Fátima calar-se o pedido de Nossa Senhora em favor da conversão da Rússia, como se o mesmo não fosse lugar central da Mensagem, e as intenções sociais dos regimes políticos pudessem fazer esquecer o seu ateísmo militante”.

E o ano de 1974 terminou na Voz da Fátima com a manchete “Será Fátima anticomunista?”.

“No clima de liberdade política introduzida pelo 25 de Abril, tem vindo à tona, com bastante frequência, o problema das relações de Fátima com o comunismo. (Diga-se, aliás, entre parêntese, que Fátima tem sido, nestes últimos meses, alvo predileto de uma série de pessoas e instituições que chegam a dar-nos a impressão de que, já desde muito antes do 25 de Abril, tinham as suas armas aperradas e a mão no gatilho, à espera duma primeira ocasião para dispararem contra Fátima – e não só pelas suas relações com o comunismo! Sem paixão, convém que pensemos no assunto, mas a longo prazo)”, escrevia o reitor do Santuário, monsenhor Luciano Guerra.

https://observador.pt/2024/03/24/a-relacao-de-fatima-com-o-estado-novo-exige-uma-investigacao-que-ainda-nao-esta-totalmente-feita/ 

terça-feira, 23 de novembro de 2021

Mário de Carvalho - «Interessa-me prosseguir este caminho de uma literatura que já tem oito séculos»

CULTURA|LITERATURA

AbrilAbril

21 DE NOVEMBRO DE 2021

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Os primeiros contos ficaram na gaveta, porque os amigos o desencorajaram, mas, ao fim de 40 anos de carreira literária, Mário de Carvalho tornou-se uma voz maior da literatura portuguesa.

 

São assinalados 40 anos de carreira literária de Mário de Carvalho na próxima segunda-feira. Créditos/ Lusa

Desde que publicou os primeiros textos, Contos da sétima esfera (1981), nunca mais precisou de tomar a iniciativa de levar os textos a qualquer lado, porque passou a ser sempre solicitado, até hoje, 40 anos depois de iniciada uma carreira literária em que experimentou todos os géneros, menos a poesia, que considera «demasiado nobre para [o seu] alcance».

Para assinalar este percurso literário, Mário de Carvalho vai ser homenageado na segunda-feira, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Recuando quatro décadas nas suas memórias, o escritor recorda, em entrevista à agência Lusa, o início desta caminhada, fortemente alimentada pela banda desenhada, pela biblioteca do pai e pelos amigos, mas também por estes desencorajada.

«Fui escrevendo uns contos, já desde há algum tempo que escrevia, desde os anos [19]60/70. Escrevi algumas coisas que mostrei a amigos meus que me desencorajaram: ‘Os surrealistas já fizeram isto há muitos anos, deixa-te disto’. E eu deixei».

Mas a necessidade de escrever foi-se impondo, como um «impulso difícil de contrariar», o de lançar no papel as ideias, as situações, as personagens que lhe ocorriam.

Mário de Carvalho, hoje com 77 anos, acredita que isso teve que ver com o seu «mundo de leituras«, porque em jovem foi «um voraz leitor de toda a espécie de livros».

Assim, foram-se somando os contos até que os levou à editora Vega, na altura dirigida pelo escritor João de Melo, que gostou dos textos.

«A partir daí, foram editados e passei a ser solicitado, ou seja, tenho ideia de que nunca tomei a iniciativa de levar os meus textos a qualquer lado, porque houve sempre alguém que mos pediu até hoje, livro após livro, editora após editora», contou.

Na altura já exercia advocacia, a área em que se licenciou e para a qual tinha a vida orientada.

«Os contos foram surgindo a pouco e pouco e, na altura, de um advogado que escrevia livros, passei a ser um escritor que também era advogado», até que finalmente deixou a advocacia.

A escrita ficcional impôs-se-lhe por gosto e sente que a certa altura adquiriu facilidade em criar situações e personagens, confrontando-as sempre com o que já conhecia, quer da literatura, quer da Banda Desenhada.

«Fui um leitor fiel e constante de uma revista que se chamava Cavaleiro Andante e de outra que circulava muito entre miúdos que era o Mundo de Aventuras. Isto fornecia-me um manancial de personagens, de situações complicadas, de avanços e recuos», recorda.

Para o então jovem Mário de Carvalho, era «muito interessante essa consulta semanal do Cavaleiro Andante, a troca de impressões com os colegas que liam a mesma revista», e isso deu-lhe «alguma agilidade na conceção de personagens e de situações dramáticas».

Mas também havia as «leituras sérias», e cedo começou a ler Eça de Queiroz e Aquilino Ribeiro.

«O meu pai tinha uma biblioteca grande, boa, e deixava-me mexer nos livros à vontade, a não ser em alguns livros que depois percebi que tinham um caráter erótico, que estavam numa estante lá em cima, num ponto onde não conseguia chegar. De resto facultava-me os livros e eu andava com eles, levava-os para o liceu e para onde quisesse, e ia lendo sempre».

Mais tarde foi apresentado a Jorge Luis Borges, que o deixou «absolutamente fascinado», e a outros autores latino-americanos, mas sempre foi um leitor muito variado.

«Era capaz de ler Sob a bandeira da coragem, de Stephen Crane, ao mesmo tempo tentar ler O Malhadinhas, do Aquilino – e digo tentar porque não era nada fácil -, mas também ia avançando para o Eça e algum Camilo Castelo Branco».

Mário de Carvalho reconhece que havia um contexto que facilitava tudo, o facto de os seus amigos também serem bons leitores, o que proporcionava que trocassem e comentassem livros.

«Encontrávamo-nos todos os dias e, entre as muitas coisas sobre que se conversava, nomeadamente política, também se conversava sobre livros, e os livros circulavam».

Ao longo da sua vida literária, o escritor já passou por vários géneros, diz que tem «o gosto de borboletear», varia muito e muda de registo, o que, confessa, lhe dá algum prazer.

Tem andado pelo conto, pelo romance e por várias épocas, conforme o que se lhe apresenta, mas nunca escreveu poesia, nunca teve «esse atrevimento».

«Não sei quem foi que disse, que isto da poesia é mais da arte da magia do que outra coisa. Não é propriamente literatura, é magia e eu de mago não tenho nada, por isso não, nunca, a não ser, talvez, na adolescência tenha feito um poema ou outro, como os outros faziam, mas nunca me atrevi a ir para esse terreno, que me parece demasiado nobre para o meu alcance».

A escrita de Mário de Carvalho também é feita de obsessões, de certos temas que se impõem e que não o deixam descansar enquanto não estão prontos.

Foi o caso de um livro que o «obcecou durante anos» e que seria publicado mais tarde com o título O livro grande de Tebas, Navio e Mariana, e que teve que ver com uma reminiscência que tinha desde miúdo: estava a ver uma revista policial e havia uma referência à cidade de Tebas, e esse nome ficou-lhe «a ressoar durante anos».

A mudança de registo literário em Mário de Carvalho relaciona-se sempre com o tema que escolhe tratar, e o autor afirma ter muito cuidado em manter uma linguagem adequada ao assunto e à época, estudando previamente para isso, se for o caso: «Tenho cuidado na seleção de vocábulos, mas também o próprio ritmo das frases é diferente».

«Temos que ter cuidado com isso e procurar encontrar um tom, o ritmo, ler coisas de época e procurar cumprir o pacto com o leitor, o célebre pacto com o leitor, ou seja, se eu estou a escrever sobre o século XVIII, estamos no século XVIII e não há frases, nem realidades posteriores. Se estou a escrever sobre os anos 20, estamos no mundo dos anos 20 e penso que o leitor espera isso, que o autor se informe e não entre pela inverosimilhança».

Sobre uma apreciação que por vezes é feita às palavras que utiliza, como sendo difíceis, Mário de Carvalho considera não ser muito correta, pois limita-se a utilizar as palavras que lhe parecem adequadas à situação que está a ser tratada, para «acentuar mais matizes e procurar certos efeitos».

«Não tenho nenhuma pretensão de deslumbrar com palavras difíceis, de forma nenhuma. As palavras que utilizo não são difíceis para mim nem para outras pessoas da minha geração e, portanto, se alguém não as conhece, o problema não é meu, o problema é que as pessoas estão muito ligadas ao vocabulário básico elementar das televisões e das rádios, quando o nosso vocabulário atual é muitíssimo mais versátil e muitíssimo mais rico e está lá para ser empregado, não está para ser omitido».

Se isso significa vender menos livros, é algo que não o aflige, porque não é essa a razão por que escreve: «Interessa-me prosseguir este caminho de uma literatura que já tem oito séculos, que não é de agora, e de vez em quando não é mau darmos uma espreitadela para aquilo que está lá para trás e que nos formou».

Os trovadores, os homens do renascimento, escritores «perfeitamente fascinantes, como Gil Vicente», ou o «espantoso mestre da língua e da clareza» Padre António Vieira são alguns dos autores que de vez em quando revisita.

Olhando para trás, não tem razões de queixa: «Nunca fui um chamado best seller, mas os meus livros têm-me corrido razoavelmente e tanto que, ao fim de 40 anos, eu ainda estou para aqui», já com «uma certa tranquilidade», sem essa «efervescência e emoção de outros tempos».

«As coisas seguem o seu ritmo e penso que, sem falsas modéstias, há um lugar marcado na nossa literatura que não é minha, não fui eu que inventei, são oito séculos, e eu sinto-me a trabalhar nessa base, sou uma voz que se soma a oito séculos de experiência literária e de avanços e recuos neste campo da literatura».

Nascido em Lisboa, em 1944, combatente da ditadura, que o levou à prisão, Mário de Carvalho estreou-se na literatura aos 37 anos, com Contos da sétima esfera, publicados em 1981.

Desde então, entre romance, novela, conto, ensaio, crónica, teatro e literatura para a infância, soma mais de 30 títulos, entre os quais se encontram Um deus passeando pela brisa da tardeA inaudita guerra da avenida Gago CoutinhoOs alferesEra bom que trocássemos umas ideias sobre o assuntoApuros de um pessimista em fugaFantasia para dois coronéis e uma piscina e Se perguntarem por mim, não estou seguido de Haja harmonia.

Os prémios chegaram desde logo com as primeiras obras, como o Prémio Cidade de Lisboa e o Prémio D. Dinis, atribuídos ainda durante a década de 1980.

Entre outros, recebeu os Grandes Prémios de Romance e Novela, Conto e Teatro da Associação Portuguesa de Escritores (APE), o prémio do PEN Clube Português, de narrativa e de ensaio, o prémio internacional Pégaso de Literatura, o Prémio Fernando Namora, por duas vezes, o Grande Prémio de Literatura dst e o Prémio Vergílio Ferreira, de carreira, da Universidade de Évora.

Em 2020, recebeu, pela quarta vez, um grande prémio da APE, este de Crónica e Dispersos Literários, pelo livro O que eu ouvi na barrica das maçãs.

No ano passado publicou igualmente Epítome de pecados e tentações, uma nova coletânea de contos e novelas.

Lusa

https://www.abrilabril.pt/cultura/interessa-me-prosseguir-este-caminho-de-uma-literatura-que-ja-tem-oito-seculos

 


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

"Debaixo de algum céu", de Nuno Camarneiro, vencedor do Prémio LeYa

Diário de Notícias


JÚRI DO PRÉMIO LEYA

Romance destacou-se pela segurança da escrita

por LusaHoje
O romance vencedor do Prémio LeYa, "Debaixo de algum céu", de Nuno Camarneiro, destacou-se pelo "domínio e a segurança da escrita", disse hoje o presidente do júri, o escritor Manuel Alegre.
Ao anunciar o romance vencedor, que vale ao seu autor 100 mil euros, Alegre disse que é o "retrato de uma microssociedade unida pelo espaço em que vivem as personagens".
"O romance organiza-se a partir de um conjunto de vozes que dão conta de vidas e destinos que o acaso cruzou num período de tempo delimitado entre um Natal e um Fim de Ano", afirmou Manuel Alegre.
O júri salientou "a coerência com que é seguido o projeto, a força no desenho dos personagens e destaca a humanidade subjacente ao que poderá ser lido como uma alegoria do mundo contemporâneo".
"O júri apreciou no romance 'Debaixo de algum céu" a qualidade literária com que, delimitando intensivamente a figura fulcral do 'romance de espaço' e do 'romance urbano', faz de um prédio de apartamentos à beira mar o tecido conjuntivo da vida quotidiana de várias personagens -- saídas da gente comum da nossa atualidade, mas também por isso carregadas de potencial significativo", disse Alegre.
Ao Prémio LeYa concorreram este ano 270 originais de autores residentes em Angola, Brasil, Canadá, França, Inglaterra, Moçambique e Portugal, tendo sete sido finalistas.
Manuel Alegre sublinhou a "subida de qualidade" relativamente aos anos anteriores, tendo afirma do que a escolha do premiado, por maioria, suscitou "um diálogo enriquecedor", entre os jurados.
Além de Manuel Alegre, o júri foi constituído ainda pelos escritores Nuno Júdice, Pepetela e José Castello, por José Carlos Seabra Pereira, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Lourenço do Rosário, reitor do Instituto Superior Politécnico e Universitário de Maputo, e Rita Chaves, crítica literária e professora da Universidade de São Paulo.
O Prémio LeYa foi criado pelo grupo editorial que reúne mais de uma dezenas de editoras e chancelas de Portugal, Angola, Moçambique e Brasil, e o intuito do galardão é distinguir um romance inédito escrito em português.
Nuno Camarneiro, 35 anos, nascido na Figueira da Foz, publicou em coletâneas e revistas até se estrear, em junho do ano passado, com o romance "No meu peito não cabem pássaros". Este ano integrou a "embaixada dos [escritores] novissímos" que a LeYa enviou ao Brasil no âmbito do ano de Portugal nauqele país.
Camarneiro é doutorado pela Universidade de Florença em Ciência Aplicada ao Património Cultural e leciona atualmente na licenciatura de restauro e conservação, da Universidade Portucalense do Porto. Integrou o Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra, a banda Diabo a Sete, a companhia teatral Bonifrades
O romance vencedor deverá ser publicado "entre finais de março e príncípio de abril", disse o presidente executivo do Grupo LeYa que instituiu o prémio em 2008, Isaías Gomes Teixeira.

domingo, 8 de abril de 2012

Escritor Günter Grass considerado ‘persona non grata’ por Israel


 

Polémica


08.04.2012 - 15:44 Por Lusa
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Günter Grass escreveu um poema em que adverte que o Estado judaico é uma ameaça para o mundo devido ao seu poderio nuclearGünter Grass escreveu um poema em que adverte que o Estado judaico é uma ameaça para o mundo devido ao seu poderio nuclear (Miguel Manso)
 Israel declarou neste domingo o escritor alemão e Nobel da literatura Günter Grass "persona non grata" devido a um poema que escreveu na semana passada, no qual advertia que o Estado judaico era uma ameaça para o mundo devido ao seu poderio nuclear.
“Os poemas de Grass alimentam as chamas do ódio contra Israel e o povo de Israel, e são uma tentativa de fomentar a ideia que este assumiu publicamente quando vestiu a farda das SS (polícia nazi)”, afirmou hoje o ministro do Interior, Eli Yishai, para justificar esta decisão. 

Um porta-voz do ministro afirmou ao diário Ha’aretz que, de acordo com as leis da imigração e de entrada em Israel, o escritor tinha sido declarado ‘persona non grata’ e, por conseguinte, não será lhe permitido o acesso ao país. 

“Se Grass quer continuar a divulgar a sua criação disforme e enganosa, sugiro-lhe que o faça no Irão, aí encontrará ouvintes”, disse o ministro, numa alusão a uma comparação feita pelo Nobel entre os dois países. 

Já na sexta-feira, o primeiro-ministro israelita, Benjamín Netanyahu, reagiu ao poema de Grass e assegurou que “é o Irão, e não Israel, quem representa uma ameaça para a paz mundial”. 

“A vergonhosa comparação que [Günter Grass] fez entre Israel e o Irão, um regime que nega o holocausto e apela para a destruição de Israel, diz muito pouco sobre Israel e muito sobre o próprio Grass”, afirmou então o chefe do Governo israelita, em comunicado. 

O escritor, de 84 anos, denunciou o programa nuclear de Israel num texto intitulado “Was gesagt werden muss” (“O que há para dizer”), publicado simultaneamente pelo diário de referência alemão Süddeutsche Zeitung, pelo espanhol El País, pelo norte-americano The New York Times e pelo italiano La Repubblica

O poema foi conotado de antissemita pela comunidade judaica alemã e por Israel e foi criticado por um vasto leque de políticos alemães. 

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Morreu a escritora Matilde Rosa Araújo


Óbito

06.07.2010 - 10:27 Por Lusa, PÚBLICO
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A escritora Matilde Rosa Araújo morreu hoje de madrugada, na sua casa, em Lisboa, aos 89 anos. O corpo da autora estará a partir das 17h30 de hoje em câmara ardente na Sala-Galeria Carlos Paredes da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA). O funeral realiza-se a partir das 15h00 de amanhã para o Cemitério dos Prazeres, informou a SPA.
A escritora nasceu em Lisboa em 1921  
A escritora nasceu em Lisboa em 1921 (Miguel Madeira)

Nasscida em Lisboa a 20 de Junho de 1921, numa quinta dos avós em Benfica, Matilde Rosa Araújo licenciou-se, em 1945, em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, tendo feito uma tese sobre jornalismo. Depois, foi professora do ensino técnico profissional em várias cidades do país, tendo ficado efectiva no Porto. Foi também professora do primeiro curso de Literatura para a Infância, na Escola do Magistério Primário de Lisboa. Enquanto estudante, foi aluna de Jacinto do Prado Coelho e Vitorino Nemésio e colega de Sebastião da Gama, Luísa Dacosta, David Mourão-Ferreira e Urbano Tavares Rodrigues.

Autora de livros de contos e poesia para adultos e de mais de duas dezenas de livros de contos e poesia para crianças - como "O Sol e o Menino dos Pés Frios", "História de uma Flor" e "O Reino das Sete Pontas" - dedicou-se intensamente à defesa dos direitos das crianças através da publicação de livros e de intervenções em organismos com actividade nesta área, como a UNICEF em Portugal.

Três eixos da infância

Nos seus livros, a autora centrou-se sempre em três grandes eixos de orientação: a infância dourada, a infância agredida e a infância como projecto. Em 2004, quando recebeu o Prémio de Carreira da SPA, Matilde Rosa Araújo afirmou que "os jovens lhe ensinaram uma espécie de luz da vida", porque "o seu olhar é de uma verdade intensa e absoluta". Entre os seus livros mais importantes para a infância contam-se "Os direitos das crianças", "O palhaço verde" e "O livro da Tila" - nome pelo qual era conhecida entre os amigos.

Ávida pelos jornais, Matilde Rosa Araújo foi colaboradora da imprensa nacional e regional, como “A Capital”, “O Comércio do Porto”, “República”, “Diário de Lisboa”, “Diário de Notícias” e “Jornal do Fundão” e nas revistas “Távola Redonda”, “Graal”, “Árvore”, “Vértice”, “Seara Nova” e “Colóquio/Letras”.

Desde cedo preocupada com os direitos das crianças, tornou-se sócia fundadora do Comité Português da Unicef e do Instituto de Apoio à Criança. Escreveu váias vezes sobre o interesse da infância na educação e na criação literária para adultos e sobre a utilidade da literatura infanto-juvenil na formação dos mais novos.

Apesar da sua actividade em diferentes campos, foi sobretudo como escritora que Matilde Rosa Araújo se tornou mais conhecida, dado ter desenvolvido intensa actividade literária para o público adulto e infanto-juvenil, obtendo nesta área diversos galardões e tendo vários volumes publicados no estrangeiro.

Estreia em 1943

A sua estreia na literatura teve lugar em 1943 com "A Garrana", uma história sobre a eutanásia com a qual venceu o concurso "Procura-se um Novelista", do jornal “O Século”, em cujo júri de encontrava Aquilino Ribeiro. Para o público adulto escreveu também "Estrada Sem Nome", obra galardoada num concurso de contos da Faculdade de Letras, "Praia Nova", "O Chão e as Estrelas" e "Voz Nua".

Na literatura para crianças, o primeiro título publicado foi "O Livro da Tila" (1957) - escrito nas viagens de comboio entre Lisboa e Portalegre, onde leccionava, e cujos poemas foram musicados por Lopes Graça. Seguiram-se "O Palhaço Verde", "História de um Rapaz", "O Sol e o Menino dos Pés Frios", "O Reino das Sete Pontas", "História de uma Flor", "O Gato Dourado", "As Botas de Meu Pai", "As Fadas Verdes" e "Segredos e Brincadeiras" e os mais recentes "A saquinha da flor" e "Lucilina e Antenor", entre cerca de 40 títulos. Com ela colaboraram várias gerações de ilustradores portugueses, de Maria Keil a Gémeo Luís e a João Fazenda.

Em 2009, foi publicada a obra "Matilde Rosa Araújo - um olhar de menina", uma biografia romanceada da escritora com texto de Adélia Carvalho e ilustração de Marta Madureira. Membro da Sociedade Portuguesa de Escritores (actual APE), Matilde Rosa Araújo ocupava um cargo directivo quando, em 1965, a instituição premiou o angolano José Luandino Vieira, então preso no Tarrafal, o que levou a PIDE a invadir as instalações e a demitir a direcção.

Muitos prémios e uma condecoração

O Grande Prémio de Literatura para Criança da Fundação Calouste Gulbenkian (1980), que lhe foi atribuído ex-aequo com Ricardo Alberty, foi um dos primeiros entre os muitos que a sua obra literária viria a conquistar. Em 1991, recebeu o Prémio para o Melhor Livro Estrangeiro da Associação Paulista de Críticos de Arte de São Paulo, Brasil, por "O Palhaço Verde", e cinco anos depois viu a obra de poesia "Fadas Verdes" ser distinguida com o prémio Gulbenkian para o melhor livro para a infância publicado no biénio 1994-1995. Já em 1994, Matilde Rosa Araújo fora nomeada pela secção portuguesa do IBBY (Internacional Board on Books for Young People) para a edição de 1994 do Prémio Andersen, considerado o Nobel da Literatura para a Infância.

Em 2003, a escritora foi ainda condecorada, a 8 de Março, Dia da Mulher, pelo Presidente Jorge Sampaio, e em Novembro a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) decidiu, por unanimidade, agraciá-la com o Prémio Carreira (entregue em Maio de 2004), pela sua "obra de particular relevância no domínio da literatura infanto-juvenil". "É uma generosidade muito grande por uma carreira que me deu mais a mim do que eu dei a ela", disse a escritora na altura em que recebeu o prémio da SPA.

Matilde Rosa Araújo - que dizia conhecer dezenas de estabelecimentos de ensino do continente e ilhas - mantém-se viva através da Escola Básica 2,3 de São Domingos de Rana e da Biblioteca Municipal de Alcabideche, em Cascais, que foram baptizadas com o seu nome, tal como sucedeu a um prémio revelação na literatura infantil e juvenil instituído pela autarquia daquela vila em 1998.

Notícia actualizada às 11h04
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sexta-feira, 4 de junho de 2010

João Aguiar "fica irremediavelmente ligado a Macau" (1944 - 2010)

 

03.06.2010 - 20:11 Por Lusa

O escritor João Aguiar, que morreu hoje em Lisboa, tem um percurso literário que fica irremediavelmente ligado a Macau, considerou Rogério Beltrão Coelho, da editora Livros do Oriente, que lançou duas obras do autor.


“O João tem um percurso que fica irremediavelmente ligado a Macau porque estamos a falar de livros que, além de inúmeras edições, foram traduzidos para várias línguas”, sublinhou, em declarações à Lusa, recordando “Os Comedores de Pérolas”, “O Dragão de Fumo” e “A Catedral Verde”.

Além de uma edição local de “O Dragão de Fumo”, a Livros do Oriente editou outro livro de João Aguiar sobre Macau: “O Tigre Sentado”, que nasceu em fascículos semanais nas páginas do Jornal Ponto Final ao longo de 2004, quando se assinalaram os cinco anos da transferência de poderes de Portugal para a China.

Beltrão Coelho, amigo de João Aguiar e um dos “responsáveis” pela primeira visita do autor a Macau no final dos anos de 1980, recorda que “O Tigre Sentado” foi depois editado em Fevereiro de 2005, uma ocasião para João Aguiar regressar ao território, que visitou diversas vezes.

João Casimiro Namorado de Aguiar nasceu em 28 de Outubro de 1943 e viveu a infância entre Lisboa, cidade natal, e a Beira, em Moçambique. Morreu hoje em Lisboa, aos 66 anos, vítima de cancro.
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João Aguiar era caso raro em Portugal. Vivia exclusivamente da 
profissão de escritor

Obituário

João Aguiar. O escritor que fez da história um romance

por Sílvia Caneco, Publicado em 04 de Junho de 2010  |  Actualizado há 6 horas
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Além de livros históricos, escreveu séries infanto-juvenis e textos para a "Rua Sésamo". Morreu ontem, aos 66 anos, de cancro
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João Aguiar teve um percurso pouco lógico. No 4.o ano tirou 9 a Português, anos mais tarde tornou-se escritor. O primeiro livro veio depois dos 40; escreveu mais de 20. Ficou conhecido pelas séries infanto-juvenis como "O Bando dos Quatro", e tem mais livros para adolescentes que para adultos, apesar de ter começado a escrevê-los contra a sua vontade, de ser solteiro e de não ter filhos. Num texto que escreveu para o "Jornal de Letras" em 2005 dizia: "A minha vida não dava um livro, e ainda bem. Em compensação, o facto de os meus livros darem uma vida - boa ou má, não importa para o caso -, devo-o aos momentos de não-glória que acabo de relatar." E a verdade é que os livros fizeram a sua vida. João Aguiar era um escritor na verdadeira acepção da palavra e caso raro: vivia exclusivamente da escrita.

Numa das suas últimas viagens, João Aguiar confidenciou a Francisco José Viegas que já não devia conseguir escrever o livro que sempre quis fazer: um romance histórico sobre a revolução de 1383, que levou o Mestre de Avis, futuro D. João I, ao trono. Estava certo. O cancro que o venceu ontem, aos 66 anos, não lhe deixou tempo para cumprir a sua última vontade.

Quem o conheceu diz que nunca escrevia ao acaso. "Era muito disciplinado e só escrevia sobre factos que conhecia. Não partia para a obra sem um grande trabalho de pesquisa e de investigação", recorda o escritor e amigo Domingos Lobo, que lembra ainda como, num primeiro contacto, a timidez de João Aguiar lembrava uma pessoa "antipática, algo convencida". Era preciso passar o muro para descobrir o contador de histórias de humor apurado, o cavalheiro que Alice Vieira descreve como "um príncipe". "Era atencioso, culto e muito divertido. Era um prazer conversar com ele." A escritora conheceu-o ainda nos tempos do "Diário de Notícias". Nas redacções, Aguiar era uma excepção entre colegas formados pela tarimba: tinha estudado Jornalismo em Bruxelas depois de completar o curso de Filosofia em Lisboa.

"Era o que chamamos um homem fino: educado e elegantíssimo", conta Mário Zambujal, que integrou juntamente com João Aguiar e outros cinco escritores um projecto coordenado pela Oficina do Livro. Apesar de monárquico e conservador, não o incomodava que muitas das piadas lançadas pelos restantes seis republicanos girassem à volta disso.

Poucas coisas o aborreceriam tanto como "o escrever e falar mal português". Talvez por isso nunca tenha rejeitado um convite para debates em escolas. Com uma condição: só ia se os alunos tivessem lido pelo menos um dos seus livros e estivessem preparados para fazer perguntas. "Tenho a certeza que ajudou muita gente na casa dos 16, 17 anos, a interessar-se por literatura, pela sua vivacidade a contar histórias e por escrever sobre história", afirma José Jorge Letria, presidente da Sociedade Portuguesa de Autores que conhecia o escritor há 30 anos.

Da "Rua Sésamo", projecto em que chegou a coordenar a equipa de escritores, guardou a sua experiência mais difícil. "Em três minutos tínhamos de escrever uma história com princípio, meio e fim, monopolizar a atenção da criança e ao mesmo tempo ensinar alguma coisa."

Nos últimos meses João Aguiar retirou-se como quem se prepara para a morte. Afastou-se dos amigos e fechou--se no seu círculo. Há cinco anos tinha sofrido um ataque cardíaco e tinha deixado o cachimbo, cujo cheiro o tornava conhecido à distância. "Sabíamos sempre quando o João tinha chegado à redacção", recorda Alice Vieira. 
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sexta-feira, 30 de abril de 2010

Biblioteca Nacional adquiriu espólio do escritor Urbano Tavares Rodrigues



Literatura


Público - 28.04.2010 - 18:31 Por Lusa


A Biblioteca Nacional (BN) adquiriu o espólio do escritor Urbano Tavares Rodrigues, que testemunha perto de seis décadas de criação nas áreas de conto, romance, ensaio, crítica, ficção, crónica e poesia, disse hoje fonte da instituição.

A aquisição do espólio de Urbano Tavares Rodrigues, 86 anos, insere-se no programa que a BN tem vindo a desenvolver no sentido de conseguir adquirir espólios de escritores vivos, como fez com Almeida Faria e Eugénio Lisboa, disse à agência o director da biblioteca.

Jorge Couto sublinhou que o programa - conhecido na biblioteca como o Clube do espólio dos Escritores Vivos por analogia ao título do filme o Clube dos Poetas Mortos - não é fácil, uma vez que é difícil os escritores separarem-se dos manuscritos que deram origem às suas obras e de um conjunto de obras, incluindo correspondência, que testemunham a sua vida.

Do espólio de Urbano Tavares Rodrigues, Jorge Couto destacou peças que eram do pai do escritor - o jornalista Urbano Rodrigues -, sublinhando que o facto da BN adquirir estes documentos preserva-os de eventuais dispersões no futuro.

"Com este programa, além de preservarmos o património literário e cultural, estamos também a desenvolver um projeto de arqueologia literária dos próprios autores, uma vez que a produção literária sofreu grandes modificações nas últimas décadas", acrescentou.

O diretor da BN disse ainda que no futuro a biblioteca irá contactar escritores que produzem só de forma informática de modo a que a memória de criação literária seja preservada nos seus diferentes tipos de produção.

O espólio contempla manuscritos de autor, alguns dos quais em várias versões, muita correspondência recebida de Portugal e do estrangeiro, algumas centenas de cartas, bilhetes e telegramas, nomeadamente de Fidelino de Figueiredo, Gaspar Simões, Álvaro Cunhal, Carlos de Oliveira, Jacinto do Prado Coelho, Aquilino Ribeiro, Cardoso Pires, Miguel Torga, Domingos Monteiro, David Mourão-Ferreira, Manuel da Fonseca, António Ramos Rosa ou Sophia de Mello Breyner.

Cartas de Manuel Teixeira Gomes, dirigidas a Urbano Rodrigues - seu biógrafo, jornalista e pai de Urbano Tavares Rodrigues - cartas publicadas apenas parcialmente na edição recente "O Cristal da Palavra", por Urbano Tavares Rodrigues e Vítor Wladimiro Ferreira, uma outra carta de Afonso Costa também a Urbano Rodrigues, que foi seu secretário, e um bilhete de Afonso Lopes Vieira para o mesmo destinatário são outros documentos que fazem parte do conjunto adquirido pela Biblioteca.

Nascido em Lisboa em Dezembro de 1923, Urbano Tavares Rodrigues é licenciado em filologia românica e é autor de uma vasta obra em diversos domínios.
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