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domingo, 17 de maio de 2026

Frederico Duarte Carvalho - Abel Manta em três cartoons




` Frederico Duarte Carvalho 

17 de maio de 2026

ACTA DIURNA

O que está em causa?

Com a morte de João Abel Manta, figura do mundo artístico e homem livre, que se notabilizou na Imprensa pelos seus cartoons, resolvemos destacar três dos seus trabalhos mais icónicos. Assim, temos o caso da obra 'Muito Prazer em Conhecer Vocelências', seguido do igualmente conhecido 'Um Problema Difícil' e ainda o 'Metamorfose'. Havia muitos mais trabalhos e a vida de uma pessoa que faleceu com 98 anos não poderia ser resumida apenas com base nestas escolhas. No entanto, representam momentos que nos resume a todos. E esse era o génio do artista que agora nos deixa. O nosso Obrigado.
 

Viveu 98 anos, mas há muito que era eterno. João Abel Manta, que faleceu na sexta-feira, dia 15, nasceu em Lisboa, a 28 de Janeiro de 1928. Cresceu num ambiente intelectual e artístico ligado à oposição cultural ao Estado Novo, convivendo desde cedo com escritores, artistas e professores universitários.

Licenciou-se em Arquitetura em 1951, mas foi com o desenho, pintura, ilustração e cartoon que se tornou popular. E a sua ‘marca’ artística faz dele um artista maior. A partir do final da década de 1960 tornou-se uma presença regular na imprensa portuguesa, sobretudo no Diário de Lisboa, mas também no Diário de Notícias e mais tarde em O Jornal.



“Acima de tudo, foi um homem livre”.

Teve dissabores com a censura, como foi o caso, por exemplo, do cartoon Monumento Nacional, que fez para o Diário de Lisboa, em finais de 1969. A imagem de um enorme rebanho de carneiros em torno de uma televisão, em tamanho monumental, não agradou a um regime que usava aquele meio de comunicação de massas para ‘educar‘ todo um povo.

Em Novembro de 1972, com o poster Festival, dedicado ao festival da canção, onde a bandeira nacional se misturava com a figura de um cantor, Abel Manta foi processado por abuso da liberdade de Imprensa. Julgado por ofensa à bandeira nacional, foi absolvido, mas fez um interregno na carreira. Até que chegou Abril, em 1974.

A revolução será feita também com os cartoons de João Abel Manta. Ficará famoso aquele da campanha de dinamização cultural do Movimento das Forças Armadas (MFA), com o título Muito Prazer em Conhecer Vocelências. Vemos uma família nuclear portuguesa, com aspecto modesto, de pés descalços, a ser apresentada por um militar aos grande nomes das artes e da ciência. Reconhecemos, facilmente, entre outros, Einstein, Shakespeare, Picasso, Marx, Camões, Chaplin e Freud.



Muito Prazer em Conhecer Vocelências

A este cartoon, juntar-se-á ainda o não menos famoso Um Problema Difícil, onde um grupo de famosas personalidades internacionais da filosofia e política, estão sentados a olhar para um quadro perto onde está desenhado o mapa de Portugal.

Vemos na imagem, com o traço único do artista, figuras como Lenine, Marx, Fidel Castro, Che Guevara ou Sartre. Todos com um caderno e lápis na mão, disciplinados a olharem com atenção para Portugal após a revolução, como se estivessem numa escola, perante um “problema difícil” escrito no quadro.

Nesse cartoon, o detalhe de um Henry Kissinger, minúsculo, sentando no fim da fila, à direita, com orelhas de burro, é o toque de génio de Abel Manta.


Um Problema Difícil.

Outra imagem icónica – e havia tantas e tantas – será ainda a Metamorfose. São dois desenhos, lado a lado. No primeiro, há uma data a identificar o momento: 24 de Abril de 1974, o dia anterior à revolução. Nele, vemos uma funcionário sentado na sua secretária e, na parede, estão os quadros com as fotos do Presidente da República, Américo Thomaz, e do Presidente do Conselho, Marcello Caetano.

Em cima da mesa deste funcionário, de um lado, está uma estatueta de um padrão da época dos Descobrimentos, com a cruz da Ordem de Cristo e o brasão das quinas. Depois, do outro lado, estão os carimbos no devido suporte.

A imagem seguinte, é alusiva a quatro meses depois: 24 de Agosto de 1974, onde a pena, genial, de Abel Manta já registava toda a diferença radical nesse curto espaço de tempo: As fotos dos líderes deram lugar a um poster de Che Guevara. O funcionário, entretanto, deixou crescer o cabelo e bigode, trocou a gravata por um colar com o símbolo da Paz e a estatueta levou com uma imagem de uma guerrlheira em cima. Em vez de carimbos, há cravos.


Metamorfose.

Com estes três cartoons, podemos encontrar aqui o retrato daquilo que Abril nos deu. São obras maiores de um homem com muito talento. E explicam tanto sobre quem éramos, e o que ainda podemos ser.

A pena de João Abel Manta, sobretudo com a sua visão da época imediata do pós-25 de Abril, há muito que é património de um povo que quer aprender com o mundo, mas também é um problema difícil. E, no fundo, é um povo se adapta a tudo. Por isso, dizemos: Obrigado, João.


https://contraprova.pt/posts/abel-manta-em-tres-cartoons

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Frederico Duarte Carvalho - Ano II da Propaganda versus Jornalismo

 

 


HISTÓRIAS QUE EU SEI

Ano II da Propaganda versus Jornalismo

por Frederico Duarte Carvalho // fevereiro 21, 2023

A Guerra na Ucrânia vai entrar no seu segundo ano e é cada vez mais notória a luta da propaganda versus jornalismo. A recente reportagem do jornalista veterano norte-americano Seymour Hersh sobre a sabotagem do gasoduto Nord Stream 1 e 2 pelos militares dos Estados Unidos, que foi classificada de “ficção”, é um exemplo do que está em causa. Ouça também esta crónica no P1 PODCAST.


Tenho aqui à minha frente um livro que comprei em 2018. É a autobiografia do jornalista norte-americano Seymour Hersh. O título diz tudo sobre quem é esta pessoa: “Repórter”. Apenas isso. E já é muito. Na capa, o repórter está ao telefone (com fios) e tem uma máquina de escrever à sua frente. A foto foi captada em 1972 na redacção do “The New York Times”.

Seymour Hersh é um nome assaz conhecido – e reconhecido – nos Estados Unidos. A sua primeira grande reportagem data de 1969, quando denunciou o massacre de My Lai, no sul do Vietname, onde soldados norte-americanos mataram mais de 300 civis. Ao serviço do The New York Times, Hersh investigou depois o Watergate e muitas das suas reportagens fazem parte da história que, em Agosto de 1974, levou à demissão do Presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon.

 

Com boas fontes juntos dos militares e serviços secretos norte-americanos, denunciou depois, em Março de 1975, um plano da CIA para recuperar um submarino soviético afundado no Oceano Pacífico desde 1968. Conhecido como “Project Azorian”, o plano envolveu a construção de um navio capaz de transportar poderosas gruas que iriam trazer o submarino à tona, permitindo assim aos Estados Unidos terem acesso aos segredos nucleares dos soviéticos. A construção do navio custou, em números dos dias de hoje, o equivalente a 4 mil milhões de dólares. E contou com o apoio do milionário Howard Hughes como fachada para a operação secreta.

Dois meses depois daquela história, Seymour Hersh assinou uma segunda reportagem onde denunciava operações navais de espionagem com submarinos norte-americanos em águas territoriais da União Soviética. Uma operação que levantava muitas críticas dentro dos meios militares dos EUA por colocar em causa a détente da Guerra Fria.

Não foram histórias de “ficção”, mas pareciam. Bem mais recente, lembremo-nos de que, em 2004, Seymour Hersh, ao escrever então para a revista The New Yorker, foi ainda o jornalista que revelou ao mundo como eram os processos de tortura norte-americana na prisão iraquiana de Abu Ghraib. 

Por isso, quando, aos 85 anos, este repórter escreve num site da Internet dedicado a artigos que não conseguem ter lugar na Imprensa generalista, que os militares dos Estados Unidos levaram a cabo uma missão secreta para destruírem o gasoduto russo Nord Stream 1 e 2, através de uma explosão que se registou a 26 de Setembro, na zona próxima à Noruega, então temos de ter em consideração que não estamos propriamente face a um qualquer jornalista. 

Por muito que a Casa Branca venha desmentir e dizer que a história de Hersh é “completamente falsa” e que mais parece saída de uma “ficção”, sabemos que não podemos simplesmente descartar aquela sabotagem que, no fundo, tem uma grande importância estratégica para o conflito na Ucrânia, que entra agora no seu segundo ano.

No prefácio da sua autobiografia, Seymour Hersh explica que ele é “um sobrevivente da época dourada do jornalismo, quando os repórteres dos jornais diários não precisavam de competir com o ciclo noticioso de 24 horas da televisão por cabo, quando os jornais tinham dinheiro da publicidade e dos anúncios de procura de emprego”. Uma época em que ele tinha a possibilidade de “viajar para qualquer lugar, a qualquer hora, por qualquer motivo, com cartões de crédito da empresa”.

Havia tempo para relatar uma notícia de última hora sem ter de depender do que estava constantemente a aparecer na página de Internet do jornal. Mas o que não havia mesmo no tempo de Seymour Hersh, segundo ele, eram os “especialistas” e jornalistas de TV por cabo “que começam as respostas a todas as perguntas com as duas palavras mais mortais do mundo dos média: ‘Eu acho’”.

O jornalismo actual, acrescenta Hersh, é composto, essencialmente, por coisas como “pouco mais do que dicas ou indícios de algo tóxico ou criminoso”. A falta de tempo, dinheiro ou equipas qualificadas, desembocam em “histórias do tipo ‘disse ele, disse ela’, nas quais o repórter é pouco mais do que um papagaio”.

Aponta ainda este norte-americano: “Sempre considerei que a missão do jornalista era a procura da verdade e não a mera notícia do conflito. Houve um crime de guerra? Os jornais ficam agora dependentes de um relatório negociado nas Nações Unidas que surge, na melhor das hipóteses, meses depois dos factos. E os média fizeram algum esforço significativo para explicar por que um relatório da ONU não deve ser considerado por muitos, à volta do mundo, como sendo a última palavra? Existem sequer relatórios críticos sobre a ONU?”.

As perguntas de Hersh deviam ser as perguntas de todos os jornalistas que dizem fazer jornalismo. E, de forma lapidar, afirma este repórter: “Toda a minha carreira tem sido sobre a importância de contar verdades importantes e indesejadas e tornar a América num lugar mais informado. Talvez seja por isso que é muito doloroso pensar que nunca teria conseguido fazer o que fiz se estivesse a trabalhar no mundo caótico e desestruturado do jornalismo de hoje. Claro que ainda estou a tentar”.

A tentar.

E essa tentativa viu-se agora com o descrédito votado à sua reportagem sobre a destruição do gasoduto russo que fornecia gás à Alemanha e que, na prática, veio ajudar ao aumento dos gastos da produção de energia na Europa e todas as consequências que vemos com os aumentos dos produtos nos supermercados e nas taxas de juros do crédito à habitação. No fundo, a inflação.

A guerra é uma coisa terrível. Não há honra, não há regras – apesar das convenções de Genebra que quiserem inventar. O pior do ser humano é revelado, embora também existam histórias de heroísmo de um e outro lado.

Portugal, como membro da NATO – aliás, membro fundador da NATO ainda no tempo da ditadura de Salazar –, está do lado da Ucrânia. Logo, qualquer notícia que seja suspeita de agradar aos russos, deve ser ponderada com critérios mais apertados do que qualquer outra que seja bem mais simpática ao “nosso lado”.

A isso não se chama jornalismo, mas sim propaganda.

Um ano volvido sobre o início da Guerra na Ucrânia, esta já levou muitos jornalistas a irem visitar o terreno em aventuras controladas nos cenários de guerra, de onde saíram vivos para contarem histórias idênticas a muitas outras desde que o homem inventou a barbárie dos conflitos armados modernos.

Fugas em massa, pais separados de filhos, despedidas comoventes, reencontros emocionantes, mortes de inocentes, exemplos de bravura e resistência, relatos de massacres inimagináveis, crimes de guerra, avanços e recuos de tropas, armas inteligentes e humanos cada vez mais estúpidos. Há de tudo para que se escrevam belos discursos, poemas, textos emotivos, artigos importantes, livros de crónicas que engrandecem currículos de jornalistas ditos “de guerra”.

Entretanto, na retaguarda, enquanto uns vão jantar fora à sexta-feira, há ainda jornalistas como Seymour Hersh que arriscam a vida e reputação ao revelarem o que alimenta de verdade esta guerra. São esses quantos, que insistem em tentar fazer jornalismo, mesmo correndo o risco de serem acusados de criar ficções, que ainda mantém a chama do jornalismo acesa.

Só que, para eles, soldados da pena jornalística, não haverá medalhas nem sequer uma chama eterna como num monumento ao soldado caído.  

Frederico Duarte Carvalho é jornalista e escritor

https://paginaum.pt/2023/02/21/ano-ii-da-propaganda-versus-jornalismo/