Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
domingo, 17 de maio de 2026
Carlos Coutinho - [Ernst Bloch e o nacional-socialismo]
quinta-feira, 13 de novembro de 2025
Boaventura de Sousa Santos - O Kampf de André Ventura
* Boaventura de Sousa Santos
As primeiras intervenções dos
principais candidatos às eleições para a Presidência da República portuguesa em
Janeiro de 2026 têm levado muita gente (muita dela, angustiadamente) a pensar
que André Ventura (AV), o candidato da extrema-direita, tem possibilidades de
ganhar as eleições. Para alguns, a razão principal está na mediocridade dos
outros candidatos. No caso do Almirante Gouveia e Melo, o grande operacional da
luta contra o COVID-19, ocorre lembrar-lhe que o país não é uma pandemia nem a
política é uma questão de logística. Já tivemos um presidente Almirante (no
tempo da ditadura) e já foi demasiado. Marques Mendes é uma cópia de Marcelo
Rebelo de Sousa, o actual presidente. É sabido que o original é sempre melhor
que a cópia. Se o cinzento falasse e lhe perguntassem a identificação, ele
responderia sem hesitação: António José Seguro, apoiado pelo partido
socialista. Perante isto fica a sobrar o único candidato que não quer ser
Presidente, porque, como a sua aspiração é mandar e conduzir, só o cargo de
Primeiro-Ministro lhe serve. Pode então correr o risco de ser eleito contra a
vontade.
A primeira vez que me chamaram a
atenção para AV resultou de uma observação de uma jornalista perplexa com o
facto de AV citar várias vezes o meu trabalho na sua tese de doutoramento. O
intrigante era o facto de ele começar a ser conhecido como a figura principal
da extrema-direita enquanto eu era conhecido como um intelectual de esquerda.
Haveria alguma contradição ou algum conluio? Li a tese e conclui rapidamente
que era uma tese competente e que as citações estavam certas e eram
pertinentes. A tese era animada por um impulso securitário, mas dentro das
normas académicas. Portanto, nada a comentar. Não havia nem contradição nem
conluio.
Hoje, AV é o líder da oposição, uma
oposição de extrema-direita a um governo de direita. Estou convencido de que a
democracia portuguesa dificilmente sobreviverá à Presidência da República de
AV. Tentarei explicar porquê. As razões têm a ver com a estratégia de AV e com
as condições por que as sociedades europeias vão viver nos próximos anos.
AV em acção
Não há nenhuma originalidade nem nas
ideias nem na estratégia de AV. Vêmo-la hoje a ser seguida por muitos outros
líderes de extrema-direita. Todos eles são cópia de um líder que também foi
cópia de outros líderes do seu tempo, mas que as circunstâncias da Europa das
primeiras décadas do século XX permitiram que passasse de cópia a original.
Refiro-me a Adolf Hitler. Apesar de serem muitas as diferenças entre o original
e as diferentes cópias, penso ser adequado estabelecer a original como termo de
comparação para o que observamos hoje. Uma diferença óbvia: enquanto AV foi um
aluno brilhante e é altamente credenciado, Hitler nunca concluiu nenhuma
formação académica, foi rejeitado duas vezes nas escolas de arte de Viena,
nunca quis ter emprego fixo e, apesar de em Viena se autodesignar como pintor,
ficava possesso quando lhe perguntavam se era pintor de paredes.
Se analisarmos a conduta deste
austríaco que só em 1932 se naturalizou alemão, um ano antes de se candidatar à
presidência da República da Alemanha, verificamos que ele catalogou um
receituário que continua hoje a ser seguido por todos os aspirantes à destruição
da democracia, usando para isso todos os instrumentos que a democracia lhes
proporciona. Vejamos alguns componentes desse catálogo. As citações de Hitler
são dos seus muitos discursos e também de Mein Kampf [A Minha
Luta], escrito em 1924 nos nove meses que Hitler esteve preso depois do
fracassado golpe (Putsch) de Munique em Novembro de 1923.
Sobre a natureza humana. Desde os tempos de fome e de dormida
nos abrigos municipais, Hitler aprendeu algo que viria a repetir nos seus
discursos: “Tudo o que o homem conseguiu deveu-se à sua originalidade e
brutalidade.” Astúcia, habilidade para mentir, distorcer, enganar, eliminar
qualquer sentimentalidade ou lealdade em favor da crueldade eram os
ingredientes básicos da afirmação fundamental: a vontade. A desigualdade entre
os seres humanos e entre as raças é uma lei da natureza. AV não proclama o
eugenismo racista, mas estabelece o portuguesismo como um privilégio a que só
alguns têm acesso, sugerindo que mesmo alguns desses só são portugueses, não
por pertencerem a “nós”, mas pela corrupção ou complacência de funcionários que
deleteriamente destroem a “alma portuguesa”. O nacionalismo excludente serve
para naturalizar a exclusão social e o colonialismo interno nos nossos dias,
por exemplo nos campos da agro-indústria.
A construção de um só inimigo. É necessário eleger um inimigo apenas
e centrar nele toda a crítica. Segundo Hitler, a arte da liderança consiste “em
consolidar a atenção do povo contra um só adversário e tudo fazer para que nada
distraia essa atenção. O líder de génio é aquele que tem a capacidade de fazer
com que os seus diferentes adversários pareçam um só, pertençam todos a uma só
categoria”. Para Hitler, o inimigo é o Marxismo (a social-democracia, o
comunismo) e os judeus. Não são dois inimigos, são um só. Num discurso em 27 de
Fevereiro de 1926, Hitler afirmou “Se necessário, um só inimigo significa
vários inimigos”. Esse inimigo é responsável por todos os males da sociedade. A
rendição (traição) da Alemanha em 1918 e todo o desastre socioeconómico e
político que se lhe seguiu na República de Weimar foi obra do mesmo inimigo.
Esse inimigo conspira contra a sociedade, não apenas pelo que faz, mas também
pelo que é. É uma raça inferior. Os judeus não são seres humanos; são a
incarnação do mal. Por isso, não há nacionalismo sem racismo. Hoje, como
sabemos, o inimigo de eleição é a esquerda e os imigrantes. Parecem dois
inimigos, mas são um só.
O principal inimigo é o inimigo
interno. A
Alemanha tinha perdido a Primeira Guerra Mundial porque não se tinha sabido
sobrepor aos seus inimigos. Para Hitler, a Alemanha não perdeu a guerra, o
exército, a que pertenceu como sargento, manteve a sua integridade. A Alemanha
foi atraiçoada pelos inimigos internos que provocaram a sua rendição. No
discurso de Fevereiro de 1926, Hitler invoca o passado glorioso do império e
das colónias alemãs para concluir que os males que sobrevieram foram devidos
aos revoltosos internos. “Esses não eram cidadãos; eram escumalha, uma
escumalha de traidores”. Nos anos que se seguiram ao fim de guerra, a
militância política do operariado comunista era intensa e exprimia com
violência o mal-estar do país. Era reprimido com maior violência ainda, tanto
por forças de direita, como pelos socialistas. Rosa Luxemburgo e Karl
Liebknecht foram assassinados em 1919 com a cumplicidade do governo socialista.
Falou-se então da fracassada revolução alemã (1918-1923). Foi nesse contexto,
que Hitler soube substituir o ódio de classe pelo apelo à cidadania racista.
Hoje, para a extrema-direita
portuguesa, o 25 de Abril foi uma capitulação evitável e o que se seguiu foi um
desastre provocado por “gente” como Otelo Saraiva de Carvalho, Álvaro Cunhal ou
Mário Soares que, entre outras coisas, escancararam as portas do país à invasão
de estrangeiros que vieram pôr em perigo a integridade do país.
A solidariedade negativa. A unidade e o consenso que se
promovem visam destruir o status quo – o sistema. Não há que
perder tempo em elaborar soluções alternativas porque estas emergirão
espontaneamente, uma vez destruído o inimigo. A união é para destruir, nunca
para construir, porque só a necessidade da destruição é “óbvia”. A construção
exige compromissos que devem ser mantidos na obscuridade, na ambiguidade e na
conveniência do momento para conquistar o poder. Para Hitler, o importante não
era o programa, mas a imagem. Em 1920, o programa do partido agradou a toda a
gente, excepto aos judeus, aos capitalistas e aos que tinham ganho fortunas com
a guerra. O objectivo central era mobilizar a insatisfação popular com o status
quo. O importante era declarar a sociedade doente, não entrar em detalhes
sobre o que seria uma sociedade saudável.
A unidade negativa deve ser tão forte
quão importante é o que há a destruir. Para isso é necessário construir o
passado recente como um desastre e dramatizar sem nuances a sua dimensão, de
modo a que a gravidade da situação seja considerada irremediável dentro do
sistema político presente. A Alemanha não perdeu a guerra; os traidores fizeram
com que ela se rendesse e se humilhasse como nação com o Tratado de Versalhes e
as condições que lhe foram impostas. Compare-se hoje com o “desastre do 25 de Abril”
e “toda a bandalheira de esquerda que se seguiu” (André Ventura).
A democracia é apenas um meio para
atingir outros fins. Desde os tempos de Viena, Hitler cultivou um desprezo total pela
democracia, pela liberdade de expressão, pela liberdade de imprensa, pelo
parlamento etc. Dedicou quinze páginas de Mein Kampf para
demonstrar que “a maioria representa apenas a ignorância e a cobardia… a
maioria nunca pode substituir o homem”. Trata-se do homem forte que conduz as
massas, elimina a corrupção e devolve a auto-estima ao país.
Temos ouvido a multiplicação retórica
do homem forte como a necessidade urgente do país. Precisaríamos de “três
Salazares”, um político que, aliás, nunca teve interesse em entusiasmar as
massas e as conduzir. Não qualquer homem forte, mas aquele capaz de “pôr a casa
em ordem”. E para que ninguém se ofenda com a referência ao passado ditatorial,
mencionam-se outros homens fortes recentes que a esquerda portuguesa
“normalizou”: Otelo Saraiva de Carvalho e Álvaro Cunhal. Porque o importante é
a repetição do preconceito, não interessa saber que Otelo contribuiu
decisivamente para o derrube da ditadura salazarista, que cometeu erros e que
pagou caro por isso, enquanto Cunhal passou onze anos na prisão (oito dos quais
em isolamento) pela sua luta contra a ditadura.
Hitler usou os meios legais e
democráticos enquanto estes lhe ofereceram melhores oportunidades para vencer
os seus inimigos. Aliás, a legalidade é uma arma ideal quando se usa para
desarmar os democratas: os processos legais são lentos e com isso dão mais
tempo ao tempo rápido da conquista do poder. O uso instrumental da legalidade
significa, por outro lado, que ela deve ser descartada na medida em que
atrapalhar.
Segundo uma sua militante, há uma
“balbúrdia jurídica em que vive o Chega”, o partido de AV. Deve entender-se que
essa “balbúrdia” é intencional porque o sistema judicial que a avaliar levará o
tempo processual necessário até eventualmente deixar de ter efeito útil.
Controle absoluto sobre o
partido. A
ascensão política de Hitler foi um processo longo e tortuoso, desde a entrada
no Partido dos Operários Alemães de Anton Drexler até chegar ao líder
incontestado do Partido Nacional Socialista (o partido nazi). A sua notável
persistência foi o seu maior segredo ante o desprezo ou a indiferença de
muitos. Habituou-se a testar os seus argumentos em infindáveis reuniões nas
cervejarias de Munique. A sua política começou por ser a política da rua. Mas
desde cedo se convenceu de que o líder não deve tolerar divergências internas
porque elas dão armas a um inimigo já de si muito poderoso. Depois do
fracassado Putsch de Munique em 1923 e da prisão de Hitler, o Partido Nacional
Socialista ficou reduzido a muito pouco. No norte da Alemanha e na Renânia, o
partido era dominado pelos irmãos Strasser e, na concepção destes, as duas
bandeiras principais do partido eram o anticapitalismo e o nacionalismo, e eram
igualmente prioritárias. As tensões com Hitler eram evidentes, uma vez que
Hitler pretendia uma aliança com o capitalismo. Nessa altura (1925-26), os
Strassers tinham contratado um jovem que ainda não tinha 30 anos para as
tarefas de propaganda. Chamava-se Paul Josef Goebbels. A tensão com Hitler era
tão grande que o jovem Goebbels chegou a pedir a expulsão do partido do
“pequeno burguês”. Hitler manobrou o partido, em parte recorrendo aos seus
indiscutíveis dotes de orador. Pouco tempo depois, Goebbels passou-se para o
lado de Hitler depois de o ouvir num discurso inflamado durante duas horas.
Alguns anos depois os irmãos Strasser foram expulsos do partido. Em 1926,
Hitler instituiu a Uschla (Comité para a investigação e resolução) que pôs ao
seu serviço para manter o controle total sobre o partido. O outro lado do
controle total do partido é o carácter excepcional do líder. Hitler cultivou a
sua excentricidade, o exagero e a surpresa do seu comportamento. O poder à
parte só pode vir de um ser à parte.
A trajectória de AV e o modo como tem
gerido as divergências dentro do partido mostram como ele se julga (e
efectivamente está) muito acima da média dos seus correligionários. A sua
excentricidade e os seus excessos de linguagem são calculados ao milímetro.
Não há verdade nem mentira. Há a
repetição do que nos convém até que seja verdade. Uma das maiores aprendizagens de
Hitler foi aprender a mentir com convicção. Exerceu-a durante toda a vida. No
final, foi-lhe fatal. Levou-o ao suicídio. Para Hitler, o exercício da força
física, apesar de fundamental, nunca é suficiente se não for acompanhado pela
força espiritual. Escreveu ele: “A força que combate um poder espiritual
permanece como força defensiva se os que a detêm não são também os apóstolos de
uma nova doutrina espiritual”. Quando se mente deve dizer-se grandes mentiras.
Escreveu: “uma mentira grosseiramente impudica deixa sempre rastro mesmo depois
de ser denunciada”. O colapso de uma nação só pode ser evitado por uma
“tempestade de brilhante paixão, mas só os apaixonados são capazes de despertar
a paixão dos outros”.
Quem já ouviu AV certamente sentiu
isso.
De bem com as massas e com o
dinheiro. Hitler
sempre cultivou um desprezo enorme pelas “massas”. As “massas” tinham sido a
sua companhia em Viena e a falta do que Hitler julgava ter (cultura) tornava-as
repugnantes a seus olhos. Escreveu em Mein Kampf : “Não sei o
que mais me repugnou naquele tempo: a miséria económica dos meus companheiros,
a rudeza da sua moral e dos seus costumes ou o baixo nível da sua cultura
intelectual”. Odiava toda a ideologia do operariado: desprezo pela nação e pela
pátria, pelo direito, pela religião e pela moral. Segundo ele, o pobre
operariado tinha sido envenenado pela doutrinação dos socialistas que
exploravam para seu benefício as difíceis condições em que os operários eram
forçados a viver.
Hitler escreveu: “Ser um líder
significa ser capaz de mover as massas”. Mas também anotou: “Aprendi que as
massas só são atraídas por quem é forte e intransigente…Não sabem como fazer
uma escolha liberal e tendem a sentir que foram abandonados… Também cheguei à
conclusão de que a intimidação física é importante tanto para as massas como
para os indivíduos …O poder das massas para compreender é fraco. Por outro
lado, elas esquecem rapidamente. Sendo assim, a propaganda eficaz deve
limitar-se a necessidades básicas e exprimir-se em poucas fórmulas
estereotipadas”.
Se as massas significavam votos, o
dinheiro era fundamental para alimentar a propaganda e manter a organização.
Por isso, Hitler quis sempre ser todas as coisas para todos aqueles que via
como instrumentos para atingir o poder. Por isso, arreou a bandeira do
anticapitalismo e enviou Goering para Berlim a fim de estreitar os laços com o
grande capital. Em 1929, Hitler já era saudado pelo grande capital e pela
grande indústria que via nas suas qualidades de agitador o futuro que mais
convinha ao capital numa situação de crise, uma política antidemocrática e
anticlasse operária.
Certamente serão os portugueses mais
vulneráveis ou mais ressentidos com as ameaças de descer de classe que encherão
as urnas de votos no Chega, mas não serão eles que pagarão os custos de uma
organização que exibe tamanha abundância de propaganda, tanto no mundo
tradicional da publicidade, como no mundo novo das redes sociais.
Se as condições do povo melhoram,
nega-se esse facto ou declara-se que é precário e vai durar pouco tempo. O projecto de Hitler beneficiou de
condições iniciais muito especiais. Quando, em 1923, um país humilhado pelas
condições da rendição que lhe tinham sido impostas se declarou impossibilitado
de continuar a pagar as indemnizações de guerra, a França ocupou a rica região
do Ruhr, o coração energético e industrial da Alemanha. Para além da
humilhação, degradou-se ainda mais a situação económica. A desvalorização do
marco aumentou, e, com ela, aprofundou-se a crise económica, o desemprego e o
desespero de milhões de trabalhadores e suas famílias. Hitler aproveitou
astutamente todos os elementos desta crise, juntando-os num só diagnóstico
contra um só inimigo. Em 1923, 30% dos membros do partido estavam
desempregados. A sua leitura manteve-se inflexível: “Enquanto a nação não se
livrar dos assassinos dentro das suas fronteiras, nenhum êxito externo será
possível”. O ódio de Hitler, em vez de se dirigir aos franceses, dirigia-se ao
bando corrupto que governava o regime. Este foi o contexto que levou ao golpe
de Munique. No tribunal, Hitler assumiu toda a responsabilidade, mas
acrescentou: “não sou por essa razão um criminoso. Se hoje estou aqui como
revolucionário é porque sou um revolucionário contra a Revolução. Não existe
alta traição contra os traidores de 1918”. E os traidores são sempre os mesmos:
socialistas, comunistas e judeus.
A partir de 1925, as condições da
Alemanha começaram a melhorar e a Alemanha foi admitida na Liga das Nações
(1926) (da qual saiu dez anos mais tarde por decisão de Hitler). As profecias
do apocalipse e do desastre iminente deixaram de ser eficazes. A partir de
então, Hitler passou a insistir no carácter precário e passageiro das
melhorias. Por puro instinto de propaganda, esta era a melhor maneira de
persistir na sua caminhada para o poder. A Grande Depressão de 1929 viria a
dar-lhe razão.
As circunstâncias epocais
Os líderes de extrema-direita criam
muita realidade artificial, mas fazem-no, em geral, a partir de fragmentos da
realidade real. Há circunstâncias que favorecem o salto autoritário e há
condições que, pelo contrário, o impedem. A partir de 1924, a Alemanha começou
a recuperar e, como vimos, Hitler sentiu que era necessário assumir posições
mais centristas. Talvez tudo ficasse por aí se, entretanto, não ocorresse a
Grande Depressão de 1929. O desemprego massivo, a proliferação das greves, em
suma, a profunda crise social que se seguiu foram o grande impulso para a
clarificação e ressurgimento do partido. Ao mesmo tempo que as milícias do
partido (as SA, Sturmabteilung) faziam agitação social, Hitler declarava-se
contra as greves para não perder o apoio dos grandes capitalistas que já então
assegurara. Quando em 1930, Strasser, líder da ala radical do partido, lhe
perguntava (pouco antes de ser expulso do partido) se, no caso de conquistar o
poder, nacionalizaria o grande grupo capitalista Krupp, Hitler respondeu-lhe:
“Claro que o deixaria em paz. Julgas que eu seria louco ao ponto de destruir a
economia do país?”. Pouco depois, Goebbels escrevia, “não somos contra o
capitalismo, somos contra o seu abuso…Para nós a propriedade é sagrada”. Em
Setembro de 1930, o partido Nazi, para espanto do mundo, tinha um êxito
eleitoral estrondoso. Depois, foi o tapete vermelho que conhecemos. Primeiro, o
vermelho da glória; depois, o vermelho do sangue inocente de milhões.
A democracia portuguesa não corre
neste momento nenhum perigo existencial, mas os tempos que se avizinham não
auguram nada de bom para o mundo, para a Europa e, portanto, para
Portugal. O crescimento global da extrema-direita é um sintoma (não a causa)
do que está para acontecer. Não vou aqui discutir a questão mais geral da
incompatibilidade entre o capitalismo (assente na acumulação capitalista
infinita) e a democracia (assente no princípio da soberania popular). Limito-me
a afirmar que o neoliberalismo (a versão globalmente dominante do capitalismo
desde a década de 1980) tem vindo a destruir tudo o que na democracia
significava bem-estar e segurança humana (viver sem medo e sem carências
básicas) para as grandes maiorias (digamos, sem excesso de rigor, para as
classes populares). Essa destruição está a atingir limites que se expressam na
passagem do Estado de bem-estar para o Estado de mal-estar. É dessa passagem
que a extrema-direita se alimenta.
As respostas dos governos do arco da
governação (direita, centro e centro-esquerda) não se têm oposto a esta
destruição e procuram responder ao mal-estar com medidas repressivas, em vez de
medidas que garantam a reposição do bem-estar. Como mostrei, a repressão e a
solidariedade negativa são o DNA da extrema-direita e por isso não admira que
ela cresça menos pelo seu mérito do que pelo demérito das forças que se lhe
deviam opor. Esta últimas “esqueceram-se” que sem tributação progressiva não há
o bem-estar social relativo no capitalismo. Esqueceram-se de que no imediato
pós-guerra os rendimentos mais altos chegaram a ser tributados em mais de 80% e
nem por isso ficaram pobres ou deixaram de continuar a prosperar. Esqueceram-se
de que sem políticas públicas sociais de qualidade (educação, saúde e pensões e
transportes) não é possível garantir o bem-estar das populações, e que essa
garantia em caso algum pode ser dada pelo sector privado, cujo objectivo
legítimo é acumular riqueza, não distribuí-la.
A democracia tem vindo a ser
desfigurada e substituída por um novo tipo de regime, o autoritarismo eleitoral
vigente em países tão diferentes como a Índia, a Rússia, os EUA, a Turquia, El
Salvador e a Hungria. A extrema-direita prefere o autoritarismo eleitoral à
ditadura por um simples cálculo político: é aparentemente mais legítimo,
sobretudo num mundo ainda bem lembrado das ditaduras. Mas para se manter este
regime tem de desviar a atenção das verdadeiras causas do mal-estar (um
capitalismo em grande medida auto-regulado, sobretudo no sector financeiro),
transformando consequências em causas. A imigração é hoje o caso paradigmático
desta transformação. Mas, como dizia Hitler, o uso da repressão nunca é eficaz
se não for animado por um desígnio espiritual, seja ele Make America Great
Again (MAGA) ou o orgulho de ser português e cristão. A corrupção é o outro
caso de transformação de consequências em causas. A corrupção é endémica ao
neoliberalismo porque este assenta na promiscuidade entre o mercado dos valores
políticos (que não se compram nem se vendem) e o mercado dos valores económicos
(os valores que têm preço e que se compram e se vendem). Viola assim o
princípio central da teoria da democracia liberal desde John Locke que propunha
a separação total entre os dois mercados de valores. A corrupção é, assim, tão
endémica ao neoliberalismo quanto a luta contra ela.
O importante é que se ocultem as
verdadeiras causas do mal-estar da população: sejam elas o aumento do custo de
vida, a estagnação dos salários e a asfixia do poder sindical, o aumento do
custo da habitação que pode consumir mais de metade do rendimento familiar, a
liberalização escandalosa do preço dos medicamentos, que se tornam
progressivamente inacessíveis, sobretudo a doentes crónicos.
No actual tempo europeu inventaram-se
dois inimigos para distrair a atenção dos problemas reais. O inimigo interno é
o imigrante, sobretudo se for islâmico; o inimigo externo é a Rússia. Nenhum
europeu é capaz de imaginar a vida no seu país sem a participação dos
imigrantes. Nenhum cidadão europeu é capaz de ver na Rússia uma ameaça,
sobretudo se se lembrar que a Rússia foi invadida duas vezes por europeus
(Napoleão e Hitler) e nunca se propôs invadir a Europa. A invasão da Ucrânia
tem razões históricas antigas e recentes. É condenável a todos os títulos, mas
não significa a invasão da Europa. Hoje, os europeus sabem que a guerra entre a
Rússia e a Ucrânia podia ter terminado três meses depois de ter começado se os
EUA e os seus lacaios (Boris Johnson, aparentemente bem pago para isso) não
tivessem impedido a assinatura do acordo de paz praticamente concluído. Os
europeus sabem hoje que o objectivo da guerra foi inicialmente duplo. Por um
lado, visou amputar a Europa de uma das suas regiões, a Rússia, com o fim de
impedir o acesso da Europa à energia barata vinda da Rússia e com isso acelerar
o declínio e a dependência da Europa em relação ao império declinante dos EUA.
Por outro lado, visou bloquear o acesso da China à Europa e ao mundo ocidental
por via da Rússia.
Mais tarde, os empresários da guerra,
os lobistas da indústria de armamento, com as suas embaixadas em Bruxelas,
convenceram uma classe política medíocre e ignorante a promover a guerra por
sua própria iniciativa. Esta classe política nem sequer se deu conta de que
todos os benefícios iriam para a indústria norte-americana, enquanto os custos
recairiam exclusivamente sobre os europeus. De repente, os europeus ouviram os
seus líderes a falar de guerra como se fosse a mais importante missão política
dos próximos anos. Os europeus mais velhos lembram-se do passado recente e
perguntam-se perplexos e impotentes. A Europa ocidental foi, depois da Segunda
Guerra Mundial, o grande promotor global da paz, tendo intermediado activamente
a resolução de várias guerras locais. Foi o berço do grande movimento pela paz.
Mais tarde, assumiu pioneirismo na preocupação ecológica e foi o berço do
movimento ecologista global. Como é que, de repente, desaparecem tanto o
movimento pela paz como o movimento ecológico, e a Europa passa a ser um
continente em guerra contra uma ameaça que só a classe política vê?
A invenção dos inimigos é, assim
fundamental para ocultar a grande causa do mal-estar dos europeus nos próximos
anos: os orçamentos militares aumentam à custa da diminuição das políticas
sociais. Os políticos europeus viram-se “forçados” a mentir aos seus cidadãos.
Quando estes se derem conta, haverá agitação social e a resposta será
repressiva, uma vez que, neste sistema, não é possível outra resposta. Por
isso, quem se diz contra o sistema é quem mais investe na vigência integral e,
portanto, repressiva deste sistema. Mente duplamente, e é por isso que a sua
mentira se confunde tanto com a verdade.
Neste contexto, surge uma preocupação
especificamente portuguesa. Portugal é um dos países europeus com menos
tradição democrática. É também um dos países com mais desigualdade social e
maiores índices de pobreza. A combinação destas duas condições torna Portugal
uma presa fácil de qualquer demagogia de extrema-direita. A democracia
sobreviverá? Bastará a sua transformação num autoritarismo eleitoral?
A história não se repete. Isto não
quer dizer que os ecos do passado não nos soem estranhamente familiares. Nem as
diferenças nem as semelhanças são pura coincidência.
https://aviagemdosargonautas.net/2025/11/13/o-kampf-de-andre-ventura-por-boaventura-de-sousa-santos/
segunda-feira, 22 de setembro de 2025
Joseph Goebbels - A tempestade está chegando (Der Sturm bricht los)
sexta-feira, 9 de maio de 2025
Marc Vandepitte - Memória Selectiva: O Papel Esquecido da União Soviética na Libertação da Europa
sexta-feira, 9 de maio de 2025
* Marc Vandepitte
Os dias 8 e 9 de maio marcam o 80º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial na Europa. No entanto, o papel central da União Soviética nesta vitória — e o terrível preço que pagou por ela — está a ser cada vez mais esquecido ou minimizado no Ocidente devido à memória selectiva e ao oportunismo geopolítico.
O Exército Vermelho: motor da libertação da Europa
Em maio de 1945, o Exército Vermelho marchou em direção à capital alemã. A 2 de maio, Berlim foi tomada. A bandeira vermelha, símbolo da destruição do III Reich de Hitler, foi hasteada no edifício do Reichstag.
Os combates que o antecederam foram de uma magnitude e brutalidade sem precedentes. Desde 1941 que a União Soviética trava uma guerra de aniquilamento contra a Alemanha nazi. Mais de 26 milhões de cidadãos soviéticos perderam a vida, tanto soldados como civis. Nenhum outro país pagou um preço tão elevado.
As batalhas decisivas da guerra foram travadas na Frente Leste: Moscovo, Leninegrado, Estalinegrado, Kursk, campos de extermínio que mudaram o rumo do conflito. Os historiadores concordam que sem os esforços e sacrifícios do Exército Vermelho e a resistência heróica do povo da União Soviética, a máquina de guerra nazi nunca teria sido travada.
O papel dos Estados Unidos
No entanto, este papel crucial é frequentemente subestimado nos países ocidentais. A razão? A história da guerra não se enquadra na imagem simplista da "boa guerra", na qual os EUA foram o farol moral e derrotaram o fascismo através do altruísmo.
O papel dos Estados Unidos era muito ambíguo. Como descreve o historiador Jacques Pauwels, as empresas americanas continuaram a negociar com o regime nazi até à década de 1930. Grandes corporações como a IBM, a Standard Oil e a Ford obtiveram enormes lucros com o rearmamento e a produção alemã. Até dezembro de 1941, as empresas americanas forneciam produtos petrolíferos à Alemanha nazi.
Dentro do establishment havia uma simpatia aberta pela Alemanha nazi e outros regimes fascistas. Henry Ford, por exemplo, era um grande admirador de Adolf Hitler. Um amplo movimento dentro dos EUA, denominado "America First", opôs-se fortemente à intervenção americana nos conflitos europeus.
Mesmo depois de a Alemanha ter invadido a Polónia em Setembro de 1939, não houve apoio financeiro imediato nem fornecimento de armas por parte dos EUA. Tudo mudou depois do ataque a Pearl Harbor, a 7 de dezembro de 1941. Ou seja, os EUA esperaram dois anos até se juntarem aos Aliados.
Nascido do grande capital
Muitas vezes esquecido ou escondido, o fascismo, tanto em Itália como na Alemanha, nasceu do capitalismo. Era uma ferramenta para reprimir o movimento operário e as forças de esquerda. Sem o apoio das grandes empresas, Hitler nunca teria sido capaz de desenvolver o seu partido fascista nem teria sido eleito. A mesma coisa acontece com Mussolini.
Foto: Fotomontagem de John Heartfield para a revista AIZ, Berlim, 16 de outubro de 1932, "O significado da saudação de Hitler. Há milhões atrás de mim."
Depois da guerra, estas relações foram cuidadosamente ocultadas. Os industriais com ligações nazis recebiam frequentemente penas leves ou eram completamente absolvidos nos julgamentos de Nuremberga. A elite alemã de banqueiros e donos de fábricas que ajudaram Hitler a chegar ao poder permaneceu em grande parte impune graças à protecção da força de ocupação americana.
As heroínas e os heróis silenciados
Não só o Exército Soviético, mas também milhões de civis, guerrilheiros e civis contribuíram para a derrota do fascismo. A resistência foi muito forte na Jugoslávia, França, Itália, Grécia e outros países europeus.
Comunistas, sindicalistas, trabalhadores e estudantes arriscaram a vida em actos de sabotagem, greves, redes clandestinas e resistência armada. Os combatentes da resistência contrabandeavam alimentos, escondiam fugitivos e resistiam numa época em que resistir significava tortura ou morte.
Esta resistência teve um amplo apoio popular. A célebre greve de Maio de 1941 na Bélgica (10 a 18 de Maio), na qual centenas de milhares de trabalhadores abandonaram o trabalho em protesto contra os nazis, foi um dos maiores actos de resistência na Europa ocupada.
No entanto, estes actos desapareceram muitas vezes da historiografia oficial, tal como o papel dos comunistas na resistência é sistematicamente silenciado ou negado.
Para homenagear estes heróis e heroínas da resistência e manter a sua memória viva, a Bélgica lançou a iniciativa Heróis da Resistência , fundada pelo historiador Dany Neudt e pelo escritor Tim Van Steendam. Desde agosto de 2022 que a organização publica diariamente pequenas biografias de combatentes da resistência no seu website e nas redes sociais para partilhar as suas histórias.
A importância da memória
As lições dessa época são mais relevantes do que nunca hoje. A ascensão da extrema-direita na Europa, a normalização do discurso de ódio e a ascensão de líderes autoritários representam uma ameaça às liberdades duramente conquistadas pelas quais tantos deram a vida.
Além disso, a guerra na Ucrânia levou a uma perigosa forma de reescrita histórica. Em nome da luta contra Putin, qualquer referência ao passado soviético torna-se suspeita, pelo que comemorar a vitória soviética sobre a Alemanha nazi é subitamente considerado uma "glorificação da Rússia".
Assim, a homenagem aos libertadores da Europa corre o risco de ser substituída por uma amnésia selectiva e por uma distorção que alimenta o extremismo em vez de o combater. A verdade histórica não deve ser vítima de inimizade geopolítica.
A Segunda Guerra Mundial não foi um choque de nações, mas um confronto direto entre ideologias. De um lado: fascismo, racismo, colonialismo e genocídio. Do outro: a resistência antifascista, a solidariedade internacional e a justiça social.
Por conseguinte, a comemoração não é um ritual facultativo, mas um ato político. Se nos esquecermos de quem realmente derrotou o fascismo, esqueceremos também quem está hoje ameaçado. E que mais uma vez beneficiam do ódio, da opressão e da divisão.
Por isso, em vários países europeus há um clamor crescente para voltar a declarar o dia 8 de maio (Dia da Vitória) como feriado legal e remunerado; não como um dia de folclore, mas como um dia de memória, reflexão e vigilância.
Celebra não só a queda de Hitler, mas também a força da resistência popular, a solidariedade entre os povos e as lições da experiência socialista que conseguiu derrotar o fascismo.
O que o dia 8 de maio nos ensina é que a liberdade não é algo óbvio, mas o resultado da luta. Foi a União Soviética que fez os maiores sacrifícios. Foram os comunistas e os trabalhadores que lideraram a resistência. Foi a solidariedade internacional que derrotou o fascismo.
Não podemos esquecer esta história. Não por nostalgia, mas por necessidade.
~~~~~~~~~~
Marc Vandepitte é membro da Rede de Intelectuais, Artistas e Movimentos Sociais em Defesa da Humanidade (REDH).
Fonte https://www-dewereldmorgen-be.translate.goog/artikel/2025/05/08/selectieve-herinnering-de-vergeten-rol-van-de-sovjet-unie-in-de-bevrijding-van-europa/?
Postado por O BÁRBARO às 03:39
https://cronicasdobarbaro.blogspot.com/2025/05/memoria-selectiva-o-papel-esquecido-da.html
quinta-feira, 6 de março de 2025
Carlos Branco - O pacto com o diabo
quarta-feira, 24 de julho de 2024
Manuel Loff - Uma cultura comum
Opinião
Falsificações históricas é o que mais há. O grave é que os
seus autores cheguem ao poder e por lá se pavoneiem.
* Manuel Loff
24 de Julho de 2024
O regresso da direita ao poder trouxe consigo curiosas personagens cujos
percursos intelectuais e profissionais comprovam bem como à direita se partilha
uma cultura comum, feita de continuidades políticas estruturais (nacionalismo,
monarquia, reacionarismo moral e cultural, elogio do autoritarismo e do
colonialismo) e de leituras puramente voluntaristas (para não dizer
simplesmente manipuladas) da história. Ela transcende as “linhas vermelhas” do
“não é não” e demonstra que extrema-direita e direita tradicional neoliberal
podem disputar entre si o poder, mas convergem na visão do mundo, desde
media como o Observador ou o Correio da Manhã, até obras
coletivas como o já famoso, e lamentável, Identidade
e Família que Passos Coelho apresentou, reunindo intelectuais da
ultradireita e dirigentes do PSD.
Entre estas personagens está o chefe de gabinete do secretário de Estado da
Presidência do Conselho de Ministros, nada menos. Pedro Velez é um monárquico
desde sempre militante do PSD que, entre outras coisas, participou em 2019 num
colóquio (depois livro) sobre o jornalista e astrólogo Olavo de Carvalho, o
guru de Bolsonaro, com o título de “O Magistério de Olavo de Carvalho: para uma Paideia Integral”. Considerando que Olavo, inspirador de todo
aquele circo com que o bolsonarismo povoou o governo brasileiro, não possuía
qualquer percurso académico, no mínimo surpreende que se sinta tentado a
escrever sobre ele alguém que agora ocupa no Governo um lugar desta relevância.
Outra destas personagens, reemersa há dias ao ser nomeado “secretário privado” de José Cesário, o eterno secretário
de Estado das Comunidades dos governos do PSD, é um tal Vitório Cardoso, outro
destes improvisados intelectuais orgânicos da direita que, sem qualificações
específicas para coisa alguma, progride à sombra de nomeações políticas para
lugares periféricos no aparelho de poder ou para atividades habitualmente
descritas como lobbying. A História é, contudo, para eles um terreno
irresistível para fazer propaganda.
VItório elogia rasgadamente a polícia política por esta, justamente na fase
em que a repressão foi mais brutal, ter tido “um papel fundamental para
combater os atos subversivos da oposição política, nomeadamente dos comunistas
que poderiam pôr em causa a unidade, liberdade e soberania nacionais”
Vitório é destes que acusa Aristides de Sousa Mendes de “[pôr] em risco a vida de todos os portugueses”, reiterando
insinuações sem base documental, que outros já fizeram, de como os alemães
ameaçariam invadir Portugal para perseguir em 1940 os refugiados ajudados pelo
cônsul. Noutro
texto, o mesmo homem sustenta um chorrilho de disparates que contrariam
todas as provas reunidas pela investigação historiográfica portuguesa e
internacional sobre a ditadura de Salazar nos anos da Guerra de Espanha
(1936-39). Para fazer um elogio bacoco da política de Salazar durante a Guerra
de Espanha, comete erros garrafais, confundindo 1936 com 1975, errando nas
datas de início da guerra de Espanha, da criação da PVDE ou da “ilegalização do
PCP” (e dos demais partidos), e assegurando que “o Estado Novo manteve [na
guerra] uma postura de não intervenção”. Ora César Oliveira, Iva Delgado,
Fernando Rosas e eu próprio abundantemente comprovámos a violação sistemática
do direito internacional através do apoio financeiro, logístico e diplomático
(em articulação com o Eixo nazifascista) aos golpistas de Franco; as campanhas
de Salazar para impedir qualquer negociação de paz proposta pelo Vaticano,
França ou Reino Unido; ou as críticas feitas ao próprio Papa Pio XI por este
pedir a suspensão de bombardeamentos aéreos contra populações civis (a começar
por Guernica, em 1937).
Salazar incumpriu todas as regras do direito de asilo, não só ao entregar aos
franquistas republicanos espanhóis que procuravam refúgio em Portugal, mas
também, como demonstra a recente tese doutoral de Maria
José Oliveira, abandonando milhares de emigrantes portugueses em Espanha
que participaram na defesa da República contra o golpe de Franco, presos ou
fuzilados.
Por último, este dirigente do PSD elogia rasgadamente a polícia política por
esta, justamente na fase em que a repressão foi mais brutal, ter tido “um papel
fundamental para combater os atos subversivos da oposição política,
nomeadamente dos comunistas que poderiam pôr em causa a unidade, liberdade e
soberania nacionais.”
Falsificações históricas é o que mais há. O grave é que os
seus autores cheguem ao poder e por lá se pavoneiem.
O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo
acordo ortográfico
sábado, 6 de julho de 2024
Ali Rebas - O direito de se defender” ou como fazer com que o genocídio seja aceite
* Ali Rebas
6 DE JULHO DE 2024
Se a impunidade de que Israel
beneficia, nomeadamente em desafio às decisões das instituições do direito
internacional, é hoje flagrante, a destruição de Gaza foi implementada pela
primeira vez em nome do “direito de se defender”. Esta fórmula também surge
frequentemente na boca de muitos líderes ocidentais para dar a Tel Aviv um
cheque em branco nas operações que realiza contra os palestinianos. Uma lógica
colonial e exterminadora que vem de longa data.
* “Sem luz, sem
água, sem gás, sem comida, está tudo fechado (…) Lutamos contra os animais
humanos, agimos em conformidade. » *
"É uma nação inteira que
é responsável. Esta retórica sobre civis que não estão conscientes, que não
estão envolvidos, é absolutamente falsa. Eles poderiam ter-se levantado,
poderiam ter lutado contra este regime maligno que assumiu o controlo de Gaza
num golpe de Estado. Mas estamos em guerra, estamos a defender as nossas casas.
Esta é a verdade, e quando uma nação protege a sua pátria, ela luta para que
lhe quebremos a espinha dorsal.
Um discurso
civilizador e erradicador, blindado na sua inocência democrática, foi utilizado
para justificar a destruição de Gaza. É principalmente com base neste “direito
de defender-se” que o Ocidente mobiliza em cada uma das suas ações genocidas.
Hoje o Estado de Israel serve de paradigma nesta área. É importante compreender
a função desse discurso e seus modos de operar. A violência ilimitada
apresenta-se como contra-violência: este diagrama define uma disposição e uma
certa lógica que consegue alistar ou enfeitiçar, desarmar e até paralisar uma
parte daqueles que perceberam a mentira e afirmaram resistir-lhe.
COLOQUE UMA IMAGINAÇÃO
De certa forma, nada de novo sob o
sol sujo do pôr do sol3. Para além do próprio extermínio,
todos os estereótipos, os eufemismos, os processos de legitimação utilizados
para fazer aceitar o genocídio em Gaza são antigos. A erradicação dos nativos
americanos foi justificada depois de retratá-los como hordas selvagens,
estupradoras e assassinas, atacando periodicamente comunidades pioneiras
anglo-saxônicas inocentes. Assim foi construída a maior democracia do mundo,
principal suporte e condição de existência da “única democracia do Médio
Oriente” e do genocídio em curso. Mais tarde, nos Estados Unidos, pessoas
negras linchadas e enforcadas foram frequentemente acusadas de violação (de
pessoas brancas, obviamente), como no caso de Thomas Shipp e Abram Smith, que
inspiraram a famosa canção de Billie Holliday, “Strange Fruit”. Os
fatos e sua veracidade pouco importavam. Nada precisava ser provado ou apoiado.
Tudo o que importava era o horror da acusação, o lugar e a força daqueles que a
lançaram, o lugar e a fraqueza daqueles que ela designou e o terreno seguro em que
foi implantada, apesar da sua forma vaga, até claramente enganosa e rapidamente
negada. Tratava-se sobretudo de despertar uma imaginação já enraizada, de
despertar certezas que os civilizados já tinham sobre os subumanos e de
confirmá-las, para que todo o resto pudesse ser esquecido, para que nos
sentíssemos autorizados a libertar o. última crueldade em sã consciência4.
A revolta dos Hereros contra
a ocupação alemã, a dos Argelinos em 8 de Maio de 1945 ou a dos Malgaxes em
1947 contra os Franceses, dão exemplos de acontecimentos que têm vários pontos
em comum com o 7 de Outubro. Em cada caso, a insurreição deixou mais de uma
centena de mortos, por vezes várias centenas, entre os colonos que exterminaram
dezenas de milhares de pessoas colonizadas – obviamente garantindo que estavam
apenas a defender-se.
É surpreendente ver quão pouco
variou o estilo de acusações e inversões de vitimização que a ordem colonial
emprega contra aqueles que massacra. Em relação ao 7 de Outubro, os israelitas
e os seus poderosos representantes políticos e mediáticos falaram de um
“pogrom” ou mesmo de um “Holocausto à bala”.5 — uma frase normalmente usada
para se referir ao massacre de mais de um milhão de judeus da Europa Oriental
por esquadrões móveis nazistas. Até mesmo jornais como o
Médiapart seguiram a propaganda israelita neste ponto, retomando
alguns dos seus termos, como o “maior massacre de judeus desde a
Shoah”6.
O colonialismo francês não hesitou
em atribuir as revoltas de Sétif, Guelma e Kherrata ao ódio racial ou aos
“agentes provocadores”. Nos dias que se seguiram à revolta, o comunicado de
imprensa do governador da Argélia chegou a mencionar “elementos e
métodos de inspiração hitleriana”.7. Esta expressão foi usada muitas vezes na
época, inclusive pelo L'Humanité. Assim que a
Alemanha nazi capitulou, o Ocidente vitorioso usou esta figura do Mal absoluto
para insultar a revolta daqueles que esmagou e justificar o seu extermínio. Não
há muito a acrescentar, a não ser repetir, adaptando, uma famosa frase de
Michel Audiard: os colonos ousam tudo, é mesmo assim que os reconhecemos.
SALVANDO A GRANDE NARRATIVA OCIDENTAL
O genocídio em curso em Gaza
funciona para o Ocidente tanto como um lembrete como como uma grande
experiência. Serve para definir as condições sob as quais o racismo mais
desinibido e mais assumido ainda pode ser desencadeado livremente, beneficiar de amplo apoio e
não apenas de indiferença cúmplice, mesmo nas suas fases de erradicação. Mas
também permite organizar esse desencadeamento, ajustar os seus limites e
modalidades, explorar as possibilidades e oportunidades que
oferece, a nível
tecnológico, militar e governamental. Contribui para definir os eixos e a
intensidade ao longo dos quais um colonialismo anacrónico ainda pode impor-se
direta, explicitamente, sem disfarce, naquelas que até recentemente ainda eram
chamadas de “sociedades abertas”. Mostra como um extermínio constantemente
filmado, transmitido, retransmitido e “compartilhado” durante meses nas redes
sociais pode ser amplamente aceito; e até que ponto a oposição pode ser
controlada, reprimida, marginalizada, reduzida ao espanto ou a protestos
impotentes.
Israel não é apenas o baluarte da
Europa, o seu escudo simbólico, o emblema da sua inocência invencível. É também
a sua grande janela Overton8. Ou melhor, Israel é o meio para
abrir e pôr em movimento todas as janelas de Overton. Desde a queda do nazismo
e o fim dos impérios coloniais, a sua função tem sido salvar a grande narrativa
ocidental. Permite ao Ocidente continuar a perceber-se através das ideias de
democracia, civilização, progresso, inocência, ao mesmo tempo que salva parte
da herança racista que sustenta o mundo compartimentado que ele encarna.
Perpetua esta ficção de sobrevivência que assombra toda a história do Ocidente
moderno. A da certeza de ser o último refúgio civilizado, legítimo para acabar
com aqueles que esmaga e coloniza sob pena de ser submerso por marés subumanas.
A culpa é referida ao passado (nazismo) ou ao exterior (muçulmanos, russos,
chineses, os vilões dos filmes de Hollywood, todos potenciais novos nazis).
A conquista da modernidade nunca deixou de invocar o “direito à defesa” para legitimar as suas devastações. O extermínio marca a história das sucessivas ordens coloniais. Foi desencadeada durante séculos sem colocar muitos problemas filosóficos, legais ou morais à consciência ocidental. E então houve uma anomalia durante a Segunda Guerra Mundial. Um acontecimento que aparece a esta consciência como um erro terrível da pessoa. Um grande erro – um erro policial.
Os nazis tiveram a singular loucura
de importar processos coloniais e o imperialismo para a Europa, com o horizonte
de extermínio que implicavam quando se tratava de “defender-se”. Hoje em dia,
tal afirmação parece provocativa. Contudo, foi formulada por Aimé Césaire, no
rescaldo da guerra, poeta hoje sepultado no Panteão, repleto de homenagens,
monumentos, nomes de ruas e edifícios; nem sequer a impediu de permanecer
prefeita e deputada, na Martinica, é verdade, por mais de meio século:
Sim,
valeria a pena estudar, clinicamente, em detalhe, as abordagens de Hitler e do
hitlerismo e revelar ao muito distinto, muito humanista, muito cristão burguês
do século XX
que ele carrega dentro de si um Hitler que se ignora, que
Hitler habita nele, que Hitler é o seu demônio, que
se ele o repreende é por falta de lógica, e que no fundo, o que ele não perdoa
Hitler, não é o crime em si, o crime
contra o homem, é não a humilhação do homem em si, é
o crime contra o homem branco, é a humilhação do homem branco, e de ter
aplicado à Europa procedimentos colonialistas aos quais até agora apenas os
árabes da Argélia, os coolies da Índia e os negros da África [...].9
Estas palavras ainda soam
verdadeiras hoje para a maioria dos que ouviram falar de Hitler, excepto
estranhamente nas nações que participaram no Judeocídio. É provavelmente por
isso que estes últimos persistem em tratar outras populações, que não participaram
direta ou indiretamente, como anti-semitas incuráveis.
A partir de agora, o colonialismo e
o racismo pretendem defender os judeus, falaciosamente assimilados ao sionismo
que vem a monopolizar a herança de vítima do crime absoluto. Assim se realiza a
síntese, muito coerente com uma certa disposição cristã, entre a culpa e a
expiação, por um lado, e a manutenção da inocência intacta, por outro.
Queremos, diz a voz vinda desta liga, expiar em pensamento os crimes cometidos
durante a Segunda Guerra Mundial, mas são os outros que devem pagar em termos
concretos. A culpa e a expiação, tal como as indústrias poluentes, podem ser
convenientemente realocadas. Esta realocação do
Holocausto foi chamada de Estado de Israel.
Uma das grandes fábulas que
acompanharam esta série de deslocamentos e mentiras históricas é resumida na
fórmula “civilização judaico-cristã”. Se chegou a este ponto nos últimos tempos
é porque cumpriu diversas funções decisivas, além de dar aos europeus a
impressão de se exonerarem de um passado muito condenável. De forma artificial
e desafiando séculos de história comum, permite que o Islão e os muçulmanos se
instalem numa alteridade hostil e irredutível, onde acabam por encarnar a
grande figura da ameaça face à muito nova e muito estranha aliança . Esta
expressão marca também a integração dos judeus no Ocidente, mas apenas na
condição, na maioria das vezes, de os assimilar ao Estado que afirma
representá-los.10. Ao reprimir as exclusões e
perseguições a que os judeus foram sujeitos durante séculos, ao obscurecer a
lógica de que procediam, ao fazer-nos esquecer as formas que poderiam assumir e
os pretextos que invocavam, a “civilização judaico-cristã” fornece também a
narrativa que permite que esta exclusão se repita em sã consciência e de forma
inadequada, contra os novos alvos. Como resume o poeta e romancista israelense
Yitzhak Laor em The New European Philosemitism:
Esta
identificação com “nós” funciona ainda melhor com a cultura do Holocausto, ao
oferecer ao novo europeu, no contexto do “fim da História”, uma versão melhor
da sua própria identidade face ao passado colonial e ao presente.
pós-colonial”. Preocupado com a massa de imigrantes muçulmanos legais e
ilegais, este europeu adoptou o novo judeu como um Outro moderno e
tranquilizador, amigo do progresso, sem barba, sem babados, com uma mulher que
não usa roupas tradicionais e que não esconde o cabelo dele – felizmente, esses
novos judeus não têm nada a ver com os avós.11
Poderíamos dizer que fórmulas como
“civilização judaico-cristã” ou “direito de se defender” são apenas técnicas
publicitárias imaginárias, ideológicas ou grosseiras... Futilidades dos manuais
de propaganda, descobertas de think tanks neoconservadores
, psicologia americana, eficaz apenas porque eles são servidos pelos
sistemas certos, pelas redes de poder certas e por uma relação militar com a
informação. Acrescentaremos que o direito, tal como a legitimidade, só chega depois
do facto, que é apenas um resultado ou um reflexo das relações de poder. Que a
História é obviamente escrita pelos e para os vencedores, uma vez vencidos - é
mesmo assim que os reconhecemos e que aprendemos a pensar contra a História,
que é sempre a sua história. Que a verdadeira
guerra e as verdadeiras questões residem noutro lado, nos interesses militares,
geopolíticos, económicos... Tudo isto é parcialmente verdade, mas também
redutor. Nada mais militar, geopolítico, material e concreto hoje do que a
guerra de informação, que esconde e recodifica uma guerra de percepções e
histórias. Isto, por sua vez, condiciona e modifica o equilíbrio de poder mais
concreto e massivo.
TODOS OS GENOCIDÁRIOS TÊM SEU “7 DE OUTUBRO”
Como escreve o filólogo alemão
Viktor Klemperer em LTI, The Language of the Third Reich:
E
tudo o que empreendemos nesta guerra imposta, nesta guerra judaica, desde o
primeiro minuto, é sempre uma medida de reacção. “Imposta” tem
sido o epíteto constante da guerra desde 1º de setembro de 1939 e,
em última análise, este 1º de setembro não traz absolutamente nada de novo além de
uma continuação dos ataques judaicos contra a Alemanha de Hitler, e nós, somos
nazistas pacíficos, não vamos fazer outra coisa. do que antes, defendemo-nos:
desde esta manhã “estamos a responder ao fogo inimigo”, diz o primeiro boletim
de guerra. Mas no fundo esta sede de assassinato dos judeus não nasceu de
reflexões ou interesses, nem mesmo de uma sede de poder, mas de um instinto, de
um “ódio insondável” da raça judaica para com a raça germano-nórdica. O “ódio
insondável” aos judeus é um clichê que esteve presente ao longo destes doze
anos. Contra o ódio fundamental, não há outra garantia senão a supressão de
quem odeia: assim, passamos logicamente da estabilização do anti-semitismo
racial para a necessidade do extermínio dos judeus.12
Aqueles que hoje continuam a evocar
o extermínio dos judeus da Europa para alistar a sua memória a favor do
sionismo, retomando inescrupulosamente, contra outros alvos, a maior parte dos
tropos que foram usados para justificá-lo, estão a fingir ignorar que foi só foi possível graças a um longo processo ideológico, jurídico, societal, linguístico e policial, que hoje é lembrado. Esquecem também que os
anti-semitas e os nazis também nunca deixaram de invocar a
natureza defensiva da sua guerra - ou melhor, da guerra que lhes foi, disseram,
imposta.
Nem sempre o exterminador começa
declarando que vai exterminar. Muitas vezes acontece que ele diga que a outra
pessoa à sua frente quer exterminá-lo, e que não tem escolha, que está em jogo
a “própria existência” da entidade genocida, como repete Benjamin Netanyahu
desde outubro de 2023. o extermínio planejado, temido, fantasiado sempre
encobre e justifica o extermínio real. E mesmo que isso signifique recordar um
facto triste, que parece constantemente evitado: hoje, são os palestinianos que
estão a ser exterminados.
Até os nazistas repetiam: o Reich
tem o direito de se defender. E tal como os israelitas hoje, alternaram entre
este discurso defensivo e outro que assumia a necessidade de lhe pôr fim, de
livrar o mundo destes “animais humanos” que os
ameaçam. Não há contradição entre os dois, sempre funcionou em conjunto. Em
1943, a assessoria de imprensa do Reich denunciou o “plano de extermínio dos
judeus” dos povos da Europa. Goebbels escreveu: “Se as Potências
do Eixo perdessem a luta, não haveria mais barragens que pudessem salvar a
Europa da onda judaico-bolchevique. »13
A invocação continuada do 7 de
Outubro e o ataque ao Hamas por parte dos israelitas e dos seus aliados, longe
de atenuar ou qualificar o carácter genocida da destruição de Gaza, confirma-o
e complementa-o em grande parte. Não há genocídio que não seja assim
justificado e apresentado como uma necessidade. Todos os genocidas têm o seu “7
de Outubro”, que sacrificaram para usá-lo, muitas vezes a
posteriori, como um cheque em branco, uma autorização para
exterminar – até mesmo um dever de exterminar para não ser por sua vez. Nos
Estados Unidos, a derrota esmagadora infligida aos brancos em Little Big Horn
pelas tribos do oeste americano ainda representa um trauma. Este acontecimento
teve um impacto muito maior sobre os americanos do que o quase completo
extermínio dos nativos, que ajudou a justificar e a transformar
numa guerra defensiva na
consciência ianque . O tenente-coronel Custer, grande figura das “Guerras
Indígenas” morto durante esta batalha, é a personalidade sobre quem mais livros
foram publicados nos Estados Unidos, logo depois de Abraham Lincoln. Como
escreve Gershon Legman, citado por Fanon em Black Skin, White
Masks:
Os
americanos são o único povo moderno, com excepção dos bôeres, que, até onde há
memória, exterminaram completamente a população indígena do solo onde se
estabeleceram. Somente a América poderia, portanto, ter uma má consciência
nacional para acalmar, forjando o mito do “Bad Injun”14, para então
poder reintroduzir a figura histórica do honorável Redskin defendendo sem
sucesso seu solo contra invasores armados com bíblias e rifles. O castigo que
merecemos só pode ser evitado negando a responsabilidade pelo mal, colocando a
culpa na vítima; provando - pelo menos aos nossos próprios olhos - que ao
desferir o primeiro e único golpe estamos simplesmente agindo em legítima
defesa...
Até os nazistas tiveram os
massacres de Katyń, sobre os quais Goebbels escreveu logo após sua descoberta,
no meio da “solução final”:
Perto
de Smolensk, foram encontradas valas comuns polonesas. Os bolcheviques
simplesmente atiraram e empilharam ali cerca de 10.000 prisioneiros polacos
[...] Convido jornalistas neutros de Berlim a visitarem as valas comuns
polacas. […] No local, eles terão que se convencer com os próprios olhos do que
os espera se realmente acontecer o que tanto desejam, ou seja, que os alemães
sejam derrotados pelos bolcheviques.
Este é um convite de jornalistas
que devem ter estado imbuídos das mesmas intenções do governo israelita nos
dias que se seguiram ao 7 de Outubro, e que deu origem a tantas mentiras
espalhadas pelo mundo.15.
Segundo o historiador Peter
Longerich, Katyń tornou-se o slogan que cobre "a pior
campanha anti-semita que o regime já viu". Para os
nazistas, este massacre foi um "massacre judeu", sendo as distinções
entre "judeu" e "bolchevique" na época tão incertas quanto
a distinção que os israelenses e seus aliados fazem hoje entre "Hamas",
"palestinos", "árabes". ”, “Estado Islâmico” e
“terrorista”… Longerich insiste neste ponto importante: a ideia da
necessidade “da aniquilação dos judeus para não serem aniquilados
por eles […] constituiu o cerne da propaganda sobre Katyn »16.
REVERSÃO DE VÍTIMAS
Os genocidas sempre acusaram
aqueles que massacraram de pretenderem fazer a mesma coisa. Por mais vis e
ultrajantes que pareçam, estes tipos de projecções e vitimizações paranóicas
não devem apenas ser rejeitados e desprezados como loucura, propaganda grosseira
ou mentiras sem sentido. Quando ressoam, dentro de uma época, com outros
dispositivos e outras forças históricas, materiais e ideológicas, tornam-se
características essenciais da lógica genocida, participam nela como operadores
eficazes.
Contudo, os israelitas e os seus
apoiantes ocidentais são especialistas em inversão de vítimas. Eles acusam os
seus inimigos de quererem “varrer Israel do mapa”, nomeando precisamente o que
fizeram, literal e figurativamente, pela Palestina.17. Eles constantemente agitam a
ideia de que os árabes querem jogá-los ao mar, enquanto o contrário aconteceu
literalmente em Jaffa em 1948.18. Yitzhak Rabin também disse que
seu maior sonho era ver Gaza engolida pelo mar...
Hoje, a propaganda sionista
predominante invoca a detenção de 200 israelitas pelo Hamas para justificar a
engenharia de horror que metodicamente implanta em Gaza.19. Há mais de 9.000 prisioneiros
palestinianos detidos por Israel, dos quais mais de 3.400 estão sujeitos
a “detenção administrativa” ,
uma medida que permite ao tribunal israelita encarcerá-los sem qualquer
acusação ou julgamento, por um período de seis meses renovável indefinidamente.
. Tudo isto permitiria um novo olhar sobre a famosa questão dos reféns... Em
2011, mais de 1.000 prisioneiros palestinianos, cujos nomes ninguém em França
sabia, foram libertados em troca de um único soldado israelita, cujos nomes
todos sabiam que o seu nome era Gilad Shalit. Salah Hammouri , um
advogado franco-palestiniano detido várias vezes sob detenção administrativa
(incluindo uma última vez em 2022), nunca beneficiou de tal visibilidade em
França. Desde 1967, um em cada cinco palestinianos passou pelas prisões dos
ocupantes. Faça as contas.
Inversion encore l’histoire des
« boucliers humains ». Cette accusation régulièrement portée contre
la résistance armée palestinienne ne sert pas seulement à justifier les
massacres des civils. Elle élude le fait que l’État d’Israël n’a jamais été
autre chose qu’un immense bouclier humain. Le fondateur du sionisme l’assumait
nettement : « Pour l’Europe, nous constituerions là-bas un
morceau du rempart contre l’Asie, nous serions la sentinelle avancée de la
civilisation contre la barbarie. »20 Par ailleurs, comme
l’explique l’historien Amnon Raz Krakotzkin, le sionisme fut guidé, presque dès
ses débuts, par un « principe directeur selon lequel le peuplement
de la Palestine est plus important que le sauvetage des juifs »21. Dans cette perspective, « sauver
des juifs n’a d’intérêt que si cela sert à peupler la Palestine. De même les
manifestations dans la colonie juive de Palestine à l’époque ne réclamaient pas
le sauvetage des juifs, mais la libre émigration en Palestine et la création
d’un État hébreu »22.
À la fin des années 1930,
alors qu’aux lois raciales, aux expropriations et à la ségrégation que
subissaient les juifs d’Allemagne commençaient à s’ajouter des persécutions
plus féroces, David Ben Gourion affirmait publiquement :
Si
je savais qu’on pouvait sauver tous les enfants [juifs] d’Allemagne en les
envoyant en Angleterre mais seulement la moitié d’entre eux en les envoyant en
Palestine, je choisirais cette dernière option parce qu’il ne s’agit pas
seulement de prendre en compte le nombre d’enfants mais de tenir également
compte de l’histoire du peuple juif.23
Dès avant la création de l’État
d’Israël et de manière déclarée, les sionistes n’envisageaient les populations
juives, en Palestine comme ailleurs, que comme un matériel humain ou des
boucliers humains.
Dernière inversion qui résulte des
autres et les englobe : à l’idée d’une Palestine libre, les sionistes
opposent le danger d’un possible massacre ou d’une expulsion des Juifs
israéliens, pour faire oublier le génocide en cours, les massacres et les
expulsions réels qu’Israël a perpétrés depuis des décennies et sur lesquels
s’est fondée toute son existence.
ISRAËL COMME PARADIGME
L’État d’Israël inspire les
méthodes les plus efficaces sur les plans militaires, policiers, discursifs,
idéologiques ou architecturaux pour désarmer les résistances, pour faire en
sorte que toute opposition soit rendue marginale ou défensive, qu’elle voit ses
alliances entravées, son langage réduit, ses cadres prescrits, ses actions
prohibées, ses prises de positions intimidées ou réprimées par
l’anti-terrorisme — même les plus modérées, même celles qui viennent de
secrétaires syndicaux ou de députées de la France insoumise.
Tudo isto não leva a ver Israel
como uma espécie de defensor do racismo e do colonialismo – ou mesmo do racismo
e do colonialismo ocidentais. Durante muito tempo não acreditámos mais no campo
do Bem ou em figuras do Mal absoluto, exceto como instrumentos de propaganda e
ficções governamentais. O próprio Estado de Israel depende, entre outras
coisas, de um mito desastroso do Mal absoluto, que é precisamente uma questão
de desfazer. Mas o Ocidente certamente não esperou que o sionismo escravizasse,
expulsasse, colonizasse, exterminasse. A história da Argélia Francesa é
suficiente para provar isso. Além disso, esta sequência é uma das principais
razões para o apoio particular da França a Israel (que só é rivalizado pela
Alemanha no que diz respeito à sufocação de vozes dissidentes), muito mais do
que as lágrimas hipocritamente derramadas pela deportação de judeus - muitas
vezes pelo retorno anti-. Semitas.
Se dizemos que o Estado de Israel
deve ser considerado um paradigma, é porque se tornou um dos meios mais seguros
de legitimar, normalizar ou glorificar estas práticas governamentais. Por um
lado, ele incorpora as suas formas plenamente aceites, as únicas no Ocidente
onde o colonialismo e o racismo ainda podem ser plenamente justificados como
tais. Por outro lado, é como o grande laboratório, o centro experimental. O seu
papel de vanguarda na contra-insurgência, no controlo populacional, nas
tecnologias de vigilância e morte, na repressão e na gestão de supranumerários,
tudo isto é perfeitamente assumido pelos israelitas e seus aliados. Não são
apenas vozes anticoloniais, recusados ou opositores que se referem a ela.
Muitos militares e políticos israelitas, bem como líderes empresariais, continuaram a elogiar este
know-how, não só na Europa ou
nos Estados Unidos, mas na Índia, no Egipto, na Arábia Saudita e até nas favelas do Brasil. Em França, este aspecto é transmitido por muitos actores
económicos, políticos, industriais e académicos, que não perdem nenhuma oportunidade de
expressar a admiração que este país lhes inspira e o desejo de tomá-lo como modelo.25. São apenas os sionistas de
esquerda que fingem perguntar-se por que é que os apoiantes da Palestina se
concentram tanto no Estado de Israel. Os pró-israelenses declarados há muito
que deixaram de fazer esta pergunta, achando muito mais vantajoso aprofundar e
confirmar as razões para este foco.
Pesquisador
itinerante e interdependente.
https://foicebook.blogspot.com/2024/07/direito-de-se-defender-ou-como-fazer.html#more
Publicada por Pena Preta à(s) sábado, julho 06, 2024

