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domingo, 17 de maio de 2026

Carlos Coutinho - [Ernst Bloch e o nacional-socialismo]

* Carlos Coutinho
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Já passou quase um século após o aparecimento de um verdadeiro tratado sobre a canalhice, mas não me parece que já não seja de ter em conta a vantagem da sua vigência, dadas a sua abrangência e, sobretudo, a sua profundidade. 

   Aconteceu nas vésperas da Segunda Guerra Mundial o aparecimento nas livrarias de um livro feroz do filósofo alemão Ernst Bloch que analisa a ascensão de Hitler ao poder e se interroga sobre como foi possível que a consciência coletiva de quase todo o país se tivesse degradado a ponto de aceitar a nazificação, como uma espécie apodrecimento que quase nunca parou de se agravar.

   A propaganda oficial e o trauma da humilhação, em resultado da derrota e do esbulho sofrido às mãos dos vencedores em 1918, reivindicavam a continuidade do Terceiro Reich, restaurando o Primeiro – o do Sacro Império Romano-Germânico – criado por quem reclamava a atualização do instaurado por Carlos Magno que durou entre 962, e a suas aniquilação por Napoleão, em 1806, seguindo-se o Segundo Reich, isto é, o império que foi erguido com a unificação da Alemanha e a guerra franco-prussiana em 1871, cujos efeitos só foram travados com o colapso alemão na Primeira Guerra Mundial, mas tal consequência não explica para Ernst Bloch a mórbida e sanguinária aceitação da ditadura nazi.

   Como se fizeram, então, os canalhas e se instituiu o seu regime? Como foi aceite a fábula segundo a qual este novo império iria durar 1000 anos? E o que se pode concluir desta histórica tragédia que custou perto de 70 milhões de mortos? Não estava escrito que o führer conquistasse o poder e que 10 anos depois de ter ocupado a presidência do partido nazi, bem como que, após uma curta prisão por envolvimento numa tentativa de golpe de Estado, o paranoico político aguarelista austríaco disputasse a segunda volta das eleições presidenciais alemãs em abril de 1932 e obtivesse 37% dos votos e que os comunistas e os social-democratas somados se ficassem pelos 36%. 

   Contudo o presidente eleito, o tão celebrado marechal Hindenburg entregou-lhe o lugar em Berlim, que não era a capital da Áustria, mas viria ser anexada com geral aplauso germânico,  em 30 de janeiro de 1933.

   Quando, poucos anos depois, Blcch se pergunta sobre como se chegou a este desfecho, a conclusão que encontra é que o centro e a direita, aceitam a receita da  extrema direita, aceitam Hitler como se de uma solução de curto prazo se tratasse, ou apenas fosse um mal menor, para impor a ordem, enquanto amplos setores da burguesia e do que hoje se chama classe média, como comerciantes, militares e acadêmicos, celebravam no despotismo.

   Havia nisso a evocação de um fundo cultural – considera Bloch – e não foi a magia propagandística de Goebbels que respondeu à desintegração do regime de Weimar. Foi antes a recuperação de mitos incrustados na crença da epopeia germanista mobilizando um romantismo reacionário que se apropriou de Nitzsche e de Wagner, ou seja, foi a ideologia social dominante que fez de Hitler o seu porta-voz e o estandarte dos interesses económicos dominantes.

   Leio estas análises e percebo melhor os êxitos eleitorais do nosso Ventura e de quem lhe paga as campanhas, bem como os favores que recebe da comunicação social quase toda. 

   Vade retro, Satanas…  

2026 05 17

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quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Boaventura de Sousa Santos - O Kampf de André Ventura

Boaventura de Sousa Santos

As primeiras intervenções dos principais candidatos às eleições para a Presidência da República portuguesa em Janeiro de 2026 têm levado muita gente (muita dela, angustiadamente) a pensar que André Ventura (AV), o candidato da extrema-direita, tem possibilidades de ganhar as eleições. Para alguns, a razão principal está na mediocridade dos outros candidatos. No caso do Almirante Gouveia e Melo, o grande operacional da luta contra o COVID-19, ocorre lembrar-lhe que o país não é uma pandemia nem a política é uma questão de logística. Já tivemos um presidente Almirante (no tempo da ditadura) e já foi demasiado. Marques Mendes é uma cópia de Marcelo Rebelo de Sousa, o actual presidente. É sabido que o original é sempre melhor que a cópia. Se o cinzento falasse e lhe perguntassem a identificação, ele responderia sem hesitação: António José Seguro, apoiado pelo partido socialista. Perante isto fica a sobrar o único candidato que não quer ser Presidente, porque, como a sua aspiração é mandar e conduzir, só o cargo de Primeiro-Ministro lhe serve. Pode então correr o risco de ser eleito contra a vontade.

A primeira vez que me chamaram a atenção para AV resultou de uma observação de uma jornalista perplexa com o facto de AV citar várias vezes o meu trabalho na sua tese de doutoramento. O intrigante era o facto de ele começar a ser conhecido como a figura principal da extrema-direita enquanto eu era conhecido como um intelectual de esquerda. Haveria alguma contradição ou algum conluio? Li a tese e conclui rapidamente que era uma tese competente e que as citações estavam certas e eram pertinentes. A tese era animada por um impulso securitário, mas dentro das normas académicas. Portanto, nada a comentar. Não havia nem contradição nem conluio.

Hoje, AV é o líder da oposição, uma oposição de extrema-direita a um governo de direita. Estou convencido de que a democracia portuguesa dificilmente sobreviverá à Presidência da República de AV. Tentarei explicar porquê. As razões têm a ver com a estratégia de AV e com as condições por que as sociedades europeias vão viver nos próximos anos.

AV em acção

Não há nenhuma originalidade nem nas ideias nem na estratégia de AV. Vêmo-la hoje a ser seguida por muitos outros líderes de extrema-direita. Todos eles são cópia de um líder que também foi cópia de outros líderes do seu tempo, mas que as circunstâncias da Europa das primeiras décadas do século XX permitiram que passasse de cópia a original. Refiro-me a Adolf Hitler. Apesar de serem muitas as diferenças entre o original e as diferentes cópias, penso ser adequado estabelecer a original como termo de comparação para o que observamos hoje. Uma diferença óbvia: enquanto AV foi um aluno brilhante e é altamente credenciado, Hitler nunca concluiu nenhuma formação académica, foi rejeitado duas vezes nas escolas de arte de Viena, nunca quis ter emprego fixo e, apesar de em Viena se autodesignar como pintor, ficava possesso quando lhe perguntavam se era pintor de paredes.

Se analisarmos a conduta deste austríaco que só em 1932 se naturalizou alemão, um ano antes de se candidatar à presidência da República da Alemanha, verificamos que ele catalogou um receituário que continua hoje a ser seguido por todos os aspirantes à destruição da democracia, usando para isso todos os instrumentos que a democracia lhes proporciona. Vejamos alguns componentes desse catálogo. As citações de Hitler são dos seus muitos discursos e também de Mein Kampf [A Minha Luta], escrito em 1924 nos nove meses que Hitler esteve preso depois do fracassado golpe (Putsch) de Munique em Novembro de 1923.

Sobre a natureza humana. Desde os tempos de fome e de dormida nos abrigos municipais, Hitler aprendeu algo que viria a repetir nos seus discursos: “Tudo o que o homem conseguiu deveu-se à sua originalidade e brutalidade.” Astúcia, habilidade para mentir, distorcer, enganar, eliminar qualquer sentimentalidade ou lealdade em favor da crueldade eram os ingredientes básicos da afirmação fundamental: a vontade. A desigualdade entre os seres humanos e entre as raças é uma lei da natureza. AV não proclama o eugenismo racista, mas estabelece o portuguesismo como um privilégio a que só alguns têm acesso, sugerindo que mesmo alguns desses só são portugueses, não por pertencerem a “nós”, mas pela corrupção ou complacência de funcionários que deleteriamente destroem a “alma portuguesa”. O nacionalismo excludente serve para naturalizar a exclusão social e o colonialismo interno nos nossos dias, por exemplo nos campos da agro-indústria.

A construção de um só inimigo. É necessário eleger um inimigo apenas e centrar nele toda a crítica. Segundo Hitler, a arte da liderança consiste “em consolidar a atenção do povo contra um só adversário e tudo fazer para que nada distraia essa atenção. O líder de génio é aquele que tem a capacidade de fazer com que os seus diferentes adversários pareçam um só, pertençam todos a uma só categoria”. Para Hitler, o inimigo é o Marxismo (a social-democracia, o comunismo) e os judeus. Não são dois inimigos, são um só. Num discurso em 27 de Fevereiro de 1926, Hitler afirmou “Se necessário, um só inimigo significa vários inimigos”. Esse inimigo é responsável por todos os males da sociedade. A rendição (traição) da Alemanha em 1918 e todo o desastre socioeconómico e político que se lhe seguiu na República de Weimar foi obra do mesmo inimigo. Esse inimigo conspira contra a sociedade, não apenas pelo que faz, mas também pelo que é. É uma raça inferior. Os judeus não são seres humanos; são a incarnação do mal. Por isso, não há nacionalismo sem racismo.  Hoje, como sabemos, o inimigo de eleição é a esquerda e os imigrantes. Parecem dois inimigos, mas são um só.

O principal inimigo é o inimigo interno. A Alemanha tinha perdido a Primeira Guerra Mundial porque não se tinha sabido sobrepor aos seus inimigos. Para Hitler, a Alemanha não perdeu a guerra, o exército, a que pertenceu como sargento, manteve a sua integridade. A Alemanha foi atraiçoada pelos inimigos internos que provocaram a sua rendição. No discurso de Fevereiro de 1926, Hitler invoca o passado glorioso do império e das colónias alemãs para concluir que os males que sobrevieram foram devidos aos revoltosos internos. “Esses não eram cidadãos; eram escumalha, uma escumalha de traidores”. Nos anos que se seguiram ao fim de guerra, a militância política do operariado comunista era intensa e exprimia com violência o mal-estar do país. Era reprimido com maior violência ainda, tanto por forças de direita, como pelos socialistas. Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht foram assassinados em 1919 com a cumplicidade do governo socialista. Falou-se então da fracassada revolução alemã (1918-1923). Foi nesse contexto, que Hitler soube substituir o ódio de classe pelo apelo à cidadania racista.

 Hoje, para a extrema-direita portuguesa, o 25 de Abril foi uma capitulação evitável e o que se seguiu foi um desastre provocado por “gente” como Otelo Saraiva de Carvalho, Álvaro Cunhal ou Mário Soares que, entre outras coisas, escancararam as portas do país à invasão de estrangeiros que vieram pôr em perigo a integridade do país.

A solidariedade negativa. A unidade e o consenso que se promovem visam destruir o status quo – o sistema. Não há que perder tempo em elaborar soluções alternativas porque estas emergirão espontaneamente, uma vez destruído o inimigo. A união é para destruir, nunca para construir, porque só a necessidade da destruição é “óbvia”. A construção exige compromissos que devem ser mantidos na obscuridade, na ambiguidade e na conveniência do momento para conquistar o poder. Para Hitler, o importante não era o programa, mas a imagem. Em 1920, o programa do partido agradou a toda a gente, excepto aos judeus, aos capitalistas e aos que tinham ganho fortunas com a guerra. O objectivo central era mobilizar a insatisfação popular com o status quo. O importante era declarar a sociedade doente, não entrar em detalhes sobre o que seria uma sociedade saudável.

A unidade negativa deve ser tão forte quão importante é o que há a destruir.  Para isso é necessário construir o passado recente como um desastre e dramatizar sem nuances a sua dimensão, de modo a que a gravidade da situação seja considerada irremediável dentro do sistema político presente. A Alemanha não perdeu a guerra; os traidores fizeram com que ela se rendesse e se humilhasse como nação com o Tratado de Versalhes e as condições que lhe foram impostas. Compare-se hoje com o “desastre do 25 de Abril” e “toda a bandalheira de esquerda que se seguiu” (André Ventura).

A democracia é apenas um meio para atingir outros fins. Desde os tempos de Viena, Hitler cultivou um desprezo total pela democracia, pela liberdade de expressão, pela liberdade de imprensa, pelo parlamento etc. Dedicou quinze páginas de Mein Kampf para demonstrar que “a maioria representa apenas a ignorância e a cobardia… a maioria nunca pode substituir o homem”. Trata-se do homem forte que conduz as massas, elimina a corrupção e devolve a auto-estima ao país.

Temos ouvido a multiplicação retórica do homem forte como a necessidade urgente do país. Precisaríamos de “três Salazares”, um político que, aliás, nunca teve interesse em entusiasmar as massas e as conduzir. Não qualquer homem forte, mas aquele capaz de “pôr a casa em ordem”. E para que ninguém se ofenda com a referência ao passado ditatorial, mencionam-se outros homens fortes recentes que a esquerda portuguesa “normalizou”: Otelo Saraiva de Carvalho e Álvaro Cunhal. Porque o importante é a repetição do preconceito, não interessa saber que Otelo contribuiu decisivamente para o derrube da ditadura salazarista, que cometeu erros e que pagou caro por isso, enquanto Cunhal passou onze anos na prisão (oito dos quais em isolamento) pela sua luta contra a ditadura.

Hitler usou os meios legais e democráticos enquanto estes lhe ofereceram melhores oportunidades para vencer os seus inimigos. Aliás, a legalidade é uma arma ideal quando se usa para desarmar os democratas: os processos legais são lentos e com isso dão mais tempo ao tempo rápido da conquista do poder. O uso instrumental da legalidade significa, por outro lado, que ela deve ser descartada na medida em que atrapalhar.

Segundo uma sua militante, há uma “balbúrdia jurídica em que vive o Chega”, o partido de AV. Deve entender-se que essa “balbúrdia” é intencional porque o sistema judicial que a avaliar levará o tempo processual necessário até eventualmente deixar de ter efeito útil.

Controle absoluto sobre o partido. A ascensão política de Hitler foi um processo longo e tortuoso, desde a entrada no Partido dos Operários Alemães de Anton Drexler até chegar ao líder incontestado do Partido Nacional Socialista (o partido nazi). A sua notável persistência foi o seu maior segredo ante o desprezo ou a indiferença de muitos. Habituou-se a testar os seus argumentos em infindáveis reuniões nas cervejarias de Munique. A sua política começou por ser a política da rua. Mas desde cedo se convenceu de que o líder não deve tolerar divergências internas porque elas dão armas a um inimigo já de si muito poderoso. Depois do fracassado Putsch de Munique em 1923 e da prisão de Hitler, o Partido Nacional Socialista ficou reduzido a muito pouco. No norte da Alemanha e na Renânia, o partido era dominado pelos irmãos Strasser e, na concepção destes, as duas bandeiras principais do partido eram o anticapitalismo e o nacionalismo, e eram igualmente prioritárias. As tensões com Hitler eram evidentes, uma vez que Hitler pretendia uma aliança com o capitalismo. Nessa altura (1925-26), os Strassers tinham contratado um jovem que ainda não tinha 30 anos para as tarefas de propaganda. Chamava-se Paul Josef Goebbels. A tensão com Hitler era tão grande que o jovem Goebbels chegou a pedir a expulsão do partido do “pequeno burguês”. Hitler manobrou o partido, em parte recorrendo aos seus indiscutíveis dotes de orador. Pouco tempo depois, Goebbels passou-se para o lado de Hitler depois de o ouvir num discurso inflamado durante duas horas. Alguns anos depois os irmãos Strasser foram expulsos do partido. Em 1926, Hitler instituiu a Uschla (Comité para a investigação e resolução) que pôs ao seu serviço para manter o controle total sobre o partido. O outro lado do controle total do partido é o carácter excepcional do líder. Hitler cultivou a sua excentricidade, o exagero e a surpresa do seu comportamento. O poder à parte só pode vir de um ser à parte.

A trajectória de AV e o modo como tem gerido as divergências dentro do partido mostram como ele se julga (e efectivamente está) muito acima da média dos seus correligionários. A sua excentricidade e os seus excessos de linguagem são calculados ao milímetro.

Não há verdade nem mentira. Há a repetição do que nos convém até que seja verdade. Uma das maiores aprendizagens de Hitler foi aprender a mentir com convicção. Exerceu-a durante toda a vida. No final, foi-lhe fatal. Levou-o ao suicídio. Para Hitler, o exercício da força física, apesar de fundamental, nunca é suficiente se não for acompanhado pela força espiritual. Escreveu ele: “A força que combate um poder espiritual permanece como força defensiva se os que a detêm não são também os apóstolos de uma nova doutrina espiritual”. Quando se mente deve dizer-se grandes mentiras. Escreveu: “uma mentira grosseiramente impudica deixa sempre rastro mesmo depois de ser denunciada”. O colapso de uma nação só pode ser evitado por uma “tempestade de brilhante paixão, mas só os apaixonados são capazes de despertar a paixão dos outros”.

Quem já ouviu AV certamente sentiu isso.

De bem com as massas e com o dinheiro. Hitler sempre cultivou um desprezo enorme pelas “massas”. As “massas” tinham sido a sua companhia em Viena e a falta do que Hitler julgava ter (cultura) tornava-as repugnantes a seus olhos. Escreveu em Mein Kampf : “Não sei o que mais me repugnou naquele tempo: a miséria económica dos meus companheiros, a rudeza da sua moral e dos seus costumes ou o baixo nível da sua cultura intelectual”. Odiava toda a ideologia do operariado: desprezo pela nação e pela pátria, pelo direito, pela religião e pela moral. Segundo ele, o pobre operariado tinha sido envenenado pela doutrinação dos socialistas que exploravam para seu benefício as difíceis condições em que os operários eram forçados a viver.

Hitler escreveu: “Ser um líder significa ser capaz de mover as massas”. Mas também anotou: “Aprendi que as massas só são atraídas por quem é forte e intransigente…Não sabem como fazer uma escolha liberal e tendem a sentir que foram abandonados… Também cheguei à conclusão de que a intimidação física é importante tanto para as massas como para os indivíduos …O poder das massas para compreender é fraco. Por outro lado, elas esquecem rapidamente. Sendo assim, a propaganda eficaz deve limitar-se a necessidades básicas e exprimir-se em poucas fórmulas estereotipadas”.

Se as massas significavam votos, o dinheiro era fundamental para alimentar a propaganda e manter a organização. Por isso, Hitler quis sempre ser todas as coisas para todos aqueles que via como instrumentos para atingir o poder. Por isso, arreou a bandeira do anticapitalismo e enviou Goering para Berlim a fim de estreitar os laços com o grande capital. Em 1929, Hitler já era saudado pelo grande capital e pela grande indústria que via nas suas qualidades de agitador o futuro que mais convinha ao capital numa situação de crise, uma política antidemocrática e anticlasse operária.

Certamente serão os portugueses mais vulneráveis ou mais ressentidos com as ameaças de descer de classe que encherão as urnas de votos no Chega, mas não serão eles que pagarão os custos de uma organização que exibe tamanha abundância de propaganda, tanto no mundo tradicional da publicidade, como no mundo novo das redes sociais.

Se as condições do povo melhoram, nega-se esse facto ou declara-se que é precário e vai durar pouco tempo. O projecto de Hitler beneficiou de condições iniciais muito especiais. Quando, em 1923, um país humilhado pelas condições da rendição que lhe tinham sido impostas se declarou impossibilitado de continuar a pagar as indemnizações de guerra, a França ocupou a rica região do Ruhr, o coração energético e industrial da Alemanha. Para além da humilhação, degradou-se ainda mais a situação económica. A desvalorização do marco aumentou, e, com ela, aprofundou-se a crise económica, o desemprego e o desespero de milhões de trabalhadores e suas famílias. Hitler aproveitou astutamente todos os elementos desta crise, juntando-os num só diagnóstico contra um só inimigo. Em 1923, 30% dos membros do partido estavam desempregados. A sua leitura manteve-se inflexível: “Enquanto a nação não se livrar dos assassinos dentro das suas fronteiras, nenhum êxito externo será possível”. O ódio de Hitler, em vez de se dirigir aos franceses, dirigia-se ao bando corrupto que governava o regime. Este foi o contexto que levou ao golpe de Munique. No tribunal, Hitler assumiu toda a responsabilidade, mas acrescentou: “não sou por essa razão um criminoso. Se hoje estou aqui como revolucionário é porque sou um revolucionário contra a Revolução. Não existe alta traição contra os traidores de 1918”. E os traidores são sempre os mesmos: socialistas, comunistas e judeus.

A partir de 1925, as condições da Alemanha começaram a melhorar e a Alemanha foi admitida na Liga das Nações (1926) (da qual saiu dez anos mais tarde por decisão de Hitler). As profecias do apocalipse e do desastre iminente deixaram de ser eficazes. A partir de então, Hitler passou a insistir no carácter precário e passageiro das melhorias. Por puro instinto de propaganda, esta era a melhor maneira de persistir na sua caminhada para o poder. A Grande Depressão de 1929 viria a dar-lhe razão.

As circunstâncias epocais

Os líderes de extrema-direita criam muita realidade artificial, mas fazem-no, em geral, a partir de fragmentos da realidade real. Há circunstâncias que favorecem o salto autoritário e há condições que, pelo contrário, o impedem. A partir de 1924, a Alemanha começou a recuperar e, como vimos, Hitler sentiu que era necessário assumir posições mais centristas. Talvez tudo ficasse por aí se, entretanto, não ocorresse a Grande Depressão de 1929. O desemprego massivo, a proliferação das greves, em suma, a profunda crise social que se seguiu foram o grande impulso para a clarificação e ressurgimento do partido. Ao mesmo tempo que as milícias do partido (as SA, Sturmabteilung) faziam agitação social, Hitler declarava-se contra as greves para não perder o apoio dos grandes capitalistas que já então assegurara. Quando em 1930, Strasser, líder da ala radical do partido, lhe perguntava (pouco antes de ser expulso do partido) se, no caso de conquistar o poder, nacionalizaria o grande grupo capitalista Krupp, Hitler respondeu-lhe: “Claro que o deixaria em paz. Julgas que eu seria louco ao ponto de destruir a economia do país?”. Pouco depois, Goebbels escrevia, “não somos contra o capitalismo, somos contra o seu abuso…Para nós a propriedade é sagrada”. Em Setembro de 1930, o partido Nazi, para espanto do mundo, tinha um êxito eleitoral estrondoso. Depois, foi o tapete vermelho que conhecemos. Primeiro, o vermelho da glória; depois, o vermelho do sangue inocente de milhões.

A democracia portuguesa não corre neste momento nenhum perigo existencial, mas os tempos que se avizinham não auguram nada de bom para o mundo, para a Europa e, portanto, para Portugal.  O crescimento global da extrema-direita é um sintoma (não a causa) do que está para acontecer. Não vou aqui discutir a questão mais geral da incompatibilidade entre o capitalismo (assente na acumulação capitalista infinita) e a democracia (assente no princípio da soberania popular). Limito-me a afirmar que o neoliberalismo (a versão globalmente dominante do capitalismo desde a década de 1980) tem vindo a destruir tudo o que na democracia significava bem-estar e segurança humana (viver sem medo e sem carências básicas) para as grandes maiorias (digamos, sem excesso de rigor, para as classes populares). Essa destruição está a atingir limites que se expressam na passagem do Estado de bem-estar para o Estado de mal-estar. É dessa passagem que a extrema-direita se alimenta.

As respostas dos governos do arco da governação (direita, centro e centro-esquerda) não se têm oposto a esta destruição e procuram responder ao mal-estar com medidas repressivas, em vez de medidas que garantam a reposição do bem-estar. Como mostrei, a repressão e a solidariedade negativa são o DNA da extrema-direita e por isso não admira que ela cresça menos pelo seu mérito do que pelo demérito das forças que se lhe deviam opor. Esta últimas “esqueceram-se” que sem tributação progressiva não há o bem-estar social relativo no capitalismo. Esqueceram-se de que no imediato pós-guerra os rendimentos mais altos chegaram a ser tributados em mais de 80% e nem por isso ficaram pobres ou deixaram de continuar a prosperar. Esqueceram-se de que sem políticas públicas sociais de qualidade (educação, saúde e pensões e transportes) não é possível garantir o bem-estar das populações, e que essa garantia em caso algum pode ser dada pelo sector privado, cujo objectivo legítimo é acumular riqueza, não distribuí-la.

A democracia tem vindo a ser desfigurada e substituída por um novo tipo de regime, o autoritarismo eleitoral vigente em países tão diferentes como a Índia, a Rússia, os EUA, a Turquia, El Salvador e a Hungria. A extrema-direita prefere o autoritarismo eleitoral à ditadura por um simples cálculo político: é aparentemente mais legítimo, sobretudo num mundo ainda bem lembrado das ditaduras. Mas para se manter este regime tem de desviar a atenção das verdadeiras causas do mal-estar (um capitalismo em grande medida auto-regulado, sobretudo no sector financeiro), transformando consequências em causas. A imigração é hoje o caso paradigmático desta transformação. Mas, como dizia Hitler, o uso da repressão nunca é eficaz se não for animado por um desígnio espiritual, seja ele Make America Great Again (MAGA) ou o orgulho de ser português e cristão. A corrupção é o outro caso de transformação de consequências em causas. A corrupção é endémica ao neoliberalismo porque este assenta na promiscuidade entre o mercado dos valores políticos (que não se compram nem se vendem) e o mercado dos valores económicos (os valores que têm preço e que se compram e se vendem). Viola assim o princípio central da teoria da democracia liberal desde John Locke que propunha a separação total entre os dois mercados de valores. A corrupção é, assim, tão endémica ao neoliberalismo quanto a luta contra ela.

O importante é que se ocultem as verdadeiras causas do mal-estar da população: sejam elas o aumento do custo de vida, a estagnação dos salários e a asfixia do poder sindical, o aumento do custo da habitação que pode consumir mais de metade do rendimento familiar, a liberalização escandalosa do preço dos medicamentos, que se tornam progressivamente inacessíveis, sobretudo a doentes crónicos.

No actual tempo europeu inventaram-se dois inimigos para distrair a atenção dos problemas reais. O inimigo interno é o imigrante, sobretudo se for islâmico; o inimigo externo é a Rússia. Nenhum europeu é capaz de imaginar a vida no seu país sem a participação dos imigrantes. Nenhum cidadão europeu é capaz de ver na Rússia uma ameaça, sobretudo se se lembrar que a Rússia foi invadida duas vezes por europeus (Napoleão e Hitler) e nunca se propôs invadir a Europa. A invasão da Ucrânia tem razões históricas antigas e recentes. É condenável a todos os títulos, mas não significa a invasão da Europa. Hoje, os europeus sabem que a guerra entre a Rússia e a Ucrânia podia ter terminado três meses depois de ter começado se os EUA e os seus lacaios (Boris Johnson, aparentemente bem pago para isso) não tivessem impedido a assinatura do acordo de paz praticamente concluído. Os europeus sabem hoje que o objectivo da guerra foi inicialmente duplo. Por um lado, visou amputar a Europa de uma das suas regiões, a Rússia, com o fim de impedir o acesso da Europa à energia barata vinda da Rússia e com isso acelerar o declínio e a dependência da Europa em relação ao império declinante dos EUA. Por outro lado, visou bloquear o acesso da China à Europa e ao mundo ocidental por via da Rússia.

Mais tarde, os empresários da guerra, os lobistas da indústria de armamento, com as suas embaixadas em Bruxelas, convenceram uma classe política medíocre e ignorante a promover a guerra por sua própria iniciativa. Esta classe política nem sequer se deu conta de que todos os benefícios iriam para a indústria norte-americana, enquanto os custos recairiam exclusivamente sobre os europeus. De repente, os europeus ouviram os seus líderes a falar de guerra como se fosse a mais importante missão política dos próximos anos. Os europeus mais velhos lembram-se do passado recente e perguntam-se perplexos e impotentes. A Europa ocidental foi, depois da Segunda Guerra Mundial, o grande promotor global da paz, tendo intermediado activamente a resolução de várias guerras locais. Foi o berço do grande movimento pela paz. Mais tarde, assumiu pioneirismo na preocupação ecológica e foi o berço do movimento ecologista global. Como é que, de repente, desaparecem tanto o movimento pela paz como o movimento ecológico, e a Europa passa a ser um continente em guerra contra uma ameaça que só a classe política vê?

A invenção dos inimigos é, assim fundamental para ocultar a grande causa do mal-estar dos europeus nos próximos anos: os orçamentos militares aumentam à custa da diminuição das políticas sociais. Os políticos europeus viram-se “forçados” a mentir aos seus cidadãos. Quando estes se derem conta, haverá agitação social e a resposta será repressiva, uma vez que, neste sistema, não é possível outra resposta. Por isso, quem se diz contra o sistema é quem mais investe na vigência integral e, portanto, repressiva deste sistema. Mente duplamente, e é por isso que a sua mentira se confunde tanto com a verdade.

Neste contexto, surge uma preocupação especificamente portuguesa. Portugal é um dos países europeus com menos tradição democrática. É também um dos países com mais desigualdade social e maiores índices de pobreza. A combinação destas duas condições torna Portugal uma presa fácil de qualquer demagogia de extrema-direita. A democracia sobreviverá? Bastará a sua transformação num autoritarismo eleitoral?

A história não se repete. Isto não quer dizer que os ecos do passado não nos soem estranhamente familiares. Nem as diferenças nem as semelhanças são pura coincidência.

https://aviagemdosargonautas.net/2025/11/13/o-kampf-de-andre-ventura-por-boaventura-de-sousa-santos/

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Joseph Goebbels - A tempestade está chegando (Der Sturm bricht los)


* Joseph Goebbels

Falo como representante do maior movimento de milhões já visto em solo alemão. Não estou aqui para implorar por seu voto, seu favor ou seu perdão. Eu só quero que você seja justo. Dê seu veredicto sobre os últimos 14 anos, sobre sua vergonha, sua desgraça, seu colapso e nossa crescente humilhação política nacional. Você deve decidir se os homens e partidos responsáveis pelos últimos 14 anos devem ter o direito de continuar no poder no governo.

Camaradas, este novo sistema nasceu há 14 anos. Nunca se julga sistemas ou governos pelo que eles querem ou pelo que prometem, mas sempre pelo que podem fazer e pelo que realizam. Os homens de novembro [1918] tomaram o poder mentindo para o povo, dizendo-lhes que haviam vencido. Eles prometeram a vocês, trabalhadores, cidadãos e alemães criativos, um Reich de liberdade, beleza e dignidade. Eles prometeram socialismo, prometeram um Estado popular, prometeram às grandes massas a realização de seus sonhos – paz, trabalho e prosperidade.

Vivemos essa mentira há 14 anos. Por 14 anos, derrotamos este governo; Vivemos na necessidade, sofremos, nos sacrificamos, passamos fome, às vezes choramos. E agora vemos os piores resultados desses 14 anos: a economia alemã está em ruínas, há enormes déficits orçamentários, a fortuna da nação é desperdiçada, as pessoas são roubadas de sua herança, as pessoas estão desesperadas e sem esperança, as ruas de nossas grandes cidades estão cheias de um exército de milhões de desempregados, a classe média está desaparecendo,  os fazendeiros expulsos de suas terras. Para nossa vergonha e desgraça, grandes áreas do território alemão foram perdidas. Nosso território está dividido pela ferida sangrenta do corredor polonês, e a Alemanha é drenada por um pagamento de tributo estúpido e antinatural.

Mais do que isso, os batalhões vermelhos pregam a guerra civil e o sangrento conflito de classes que estão destruindo nossa nação, não dando paz ao povo alemão. Em tal situação, os líderes e partidos do velho sistema estão fazendo a tentativa desesperada de libertar a Alemanha de suas cadeias estrangeiras. Passamos de uma conferência sobre reparações para outra. Assinamos com Versailles, Dawes e Young. Cada um significava mais fome, mais tortura, mais terror, mais horror para o povo alemão sofredor.

Não é difícil determinar quem é culpado, quem tem a responsabilidade, para com o povo, para com a história e para com Deus por essas condições. São esses homens e os partidos que enganaram o povo alemão durante 14 anos, prometendo-lhes uma vida de beleza e dignidade, do paraíso na terra, mas que no final nos deram palavras vazias e pedras em vez de pão. Eles estão agora perante o tribunal da nação para prestar contas do desastre sem precedentes que causaram nos últimos 14 anos. Cinco semanas atrás, o último gabinete deste sistema caiu. Novos homens surgiram no cenário político e declararam que tinham o objetivo de substituir o Sistema de Novembro e colocar a Alemanha em um curso político fundamentalmente novo. Vós, homens e mulheres, sabeis que encarámos esta tentativa com desconfiança desde o início. Vemos a ressurreição de nosso povo como não proveniente de um pequeno grupo que não tem forte conexão com o povo; apenas um movimento de milhões tem a força ativa e a capacidade de mudar a Alemanha.

O que o novo gabinete fez nas últimas cinco semanas?

Queria equilibrar o orçamento. Isso era necessário, já que os cofres estavam vazios quando assumiu o poder. Mas equilibrar o orçamento não resolverá nossos problemas. A verdadeira causa da nossa necessidade é o desemprego. Pedir às pessoas que se sacrifiquem só faz sentido se esse sacrifício for o primeiro passo para a recuperação. O que fez esse chamado gabinete de concentração nacional? Baseou-se no Decreto de Emergência de Brüning e o intensificou. Este gabinete cortou o escasso seguro-desemprego, reduziu as pensões das vítimas da guerra, adotou o imposto sobre o sal, a medida mais anti-social. Este gabinete não deve pensar que nós, nacional-socialistas, apoiaremos suas políticas prejudiciais.

Pergunto-vos, homens e mulheres, como é que o Partido Social-Democrata pode ter a ousadia de nos acusar de intolerância, quando foi exactamente assim que se comportou durante os últimos dois anos sob Brüning? O Partido Social-Democrata estaria pronto para engolir o Decreto de Emergência se tivesse certeza de que o novo gabinete lutaria contra nosso movimento tão duramente quanto o governo de Brüning.

O que mudou?

Nada, exceto que os governantes têm rostos diferentes. A economia está funcionando no vazio, o governo não conseguiu iniciar um novo programa de criação de empregos. A miséria das grandes massas continua a aumentar, e os famintos não sabem como podem sobreviver de um dia para o outro. A classe média está entrando em colapso sob pesados impostos e o agricultor está deixando sua fazenda porque não pode mais pagar os juros, hipotecas e dívidas. Tudo o que o gabinete pode dizer é o seguinte: "Não podemos consertar em cinco semanas o que deu errado em quatorze anos!" Bem, OK! Mas deve-se pelo menos ser capaz de ver que um começo está sendo feito. Concordamos que não se pode fazer muito com o artigo 48º. Mas pelo menos devemos ser capazes de esperar que o governo esteja fazendo tentativas para resolver os problemas políticos que enfrentamos. Mas o que vemos?

O assassinato vermelho se espalha pelas ruas. Barricadas são construídas em Moabit [um bairro da classe trabalhadora de Berlim]. Todas as noites, 50, 60 ou 70 de nossos membros são gravemente feridos, e todos os dias enterramos um, dois ou três camaradas. A imprensa vermelha mentirosa está mais ativa do que nunca, e no sul e oeste da Alemanha o Partido do Centro e seu Partido Popular da Baviera, relacionado com a eclesiástica, ameaçam uma fragmentação do Reich.

O que o ministro do Interior do Reich está fazendo a respeito?

Ele se senta com as mãos no colo. Ele quer tratar a direita e a esquerda com imparcialidade, mas assim nos trata injustamente. Vocês, meus camaradas, estão aqui em seus uniformes marrons gastos. O governo permitiu que você fosse caluniado e seus uniformes são pagos pelas contribuições dos pobres. O governo não caiu totalmente nos braços dos vermelhos. Ele afirma ser nacional, mas estamos convencidos de que, se não fosse por nós, nacional-socialistas, esse governo fraco teria esgotado o capital que a Alemanha nacional construiu ao longo de uma luta de doze anos pelo renascimento.

Uma nova Alemanha surgiu! É uma Alemanha que lutou por doze anos contra a traição marxista e a fraqueza burguesa.

Vocês, homens, mulheres e camaradas, são os portadores, testemunhas, construtores e finalizadores deste levante popular único. Nossas políticas não foram populares. Servimos à verdade, e somente à verdade. Por doze anos, eles nos insultaram, proibiram, caluniaram e perseguiram. Agora que estamos às portas do poder, as mentiras marxistas se juntaram à fraqueza burguesa para nos combater. Se fôssemos apenas um partido como todos os outros, entraríamos em colapso sob a ofensiva de nossos oponentes. Mas somos um movimento popular. Essa é a nossa sorte. Aqui e em qualquer outro lugar do país, a bandeira vermelha da suástica tremula sobre pessoas de todos os campos, partidos, classes, ocupações e confissões religiosas. Nossos oponentes riram de nós no passado, mas não riem mais.

Vocês, homens e mulheres diante de mim, cem ou duzentos mil em número, de cabeça erguida, eretos, orgulhosos e corajosos, os portadores do futuro da Alemanha, aos seus olhos está escrito:

Não pensamos mais em termos de classe. Não somos trabalhadores ou classe média. Não somos antes de tudo protestantes ou católicos. Não perguntamos sobre ancestralidade ou classe. Juntos, compartilhamos as palavras do poeta:

"Gente, levantem-se e invadam, soltem-se!"

Camaradas, homens e mulheres, o destino nos deu uma última chance. Temos mais uma oportunidade de falar com as pessoas. Nossa campanha se espalha por toda a Alemanha, e mais uma vez os ouvidos ouvem, os olhos veem, o coração bate mais rápido e os sentidos clareiam:

"O dia da liberdade e da prosperidade está chegando!"

Assim escreveu nosso falecido camarada Horst Wessel, e estamos cumprindo sua profecia. Os outros podem mentir, caluniar e derramar seu desprezo sobre nós - seus dias políticos estão contados.

Adolf Hitler está batendo às portas do poder, e em seu punho estão unidos os punhos de milhões de trabalhadores e agricultores. O tempo de vergonha e desgraça está quase no fim.

Vocês são as testemunhas, os construtores, os portadores da vontade de nossa ideia e nossa visão de mundo.

Os hacks partidários do Partido Socialista estão de repente se lembrando do povo. Por uma década, as revistas ilustradas os retrataram apenas em sobrecasacas e chapéus cilíndricos em mesas cheias de ostras e garrafas de champanhe. Agora eles usam bonés de trabalhadores e enchem seus jornais com apelos como "Pessoas, acordem!"

Bem, nós, o povo, despertamos! Nós nos levantamos contra a opressão, 15 milhões de pessoas se juntaram a um exército de vingança. Aqueles que aceitaram seus belos ternos dos Sklareks [irmãos judeus envolvidos em um grande escândalo financeiro de Berlim] dificilmente podem imaginar que um trabalhador alemão honesto gastará seu salário de fome por uma camisa marrom decente. Aqueles que engordaram com caviar, que recebem setenta, oitenta ou cem mil marcos por ano, que espalharam o fedor de corrupção sem precedentes por toda a Alemanha, querem fingir que são uma oposição. "Para as barricadas!", eles gritam.

Nossa resposta: "Os bons velhos tempos dos figurões do partido acabaram. Uma nova Alemanha está chegando, uma Alemanha criada nas leis espartanas do dever prussiano. É uma Alemanha que não engorda, mas que está morrendo de fome! É uma Alemanha com força, com vontade, com idealismo! É uma Alemanha que está farta da traição marxista e das luvas brancas burguesas."

E vocês são as testemunhas desta Alemanha. Vocês, povo, afirmaram esta Alemanha. E nós, povo, falamos em teu nome. Nós, os líderes deste emocionante movimento de milhões, viemos de vocês, o povo. Nós também, camaradas, já fomos homens desconhecidos marchando com as massas cinzentas. Pessoas, compartilhamos em nossos corações sua tortura, sua miséria, suas tribulações, seu desespero. Somos um pedaço do povo. Quando os sabe-tudo burgueses perguntarem o que realizamos, vocês, homens e mulheres, devem nos salvar da necessidade de dar resposta. Quando eles perguntam o que fizemos, vocês, 15 milhões, devem responder: "Eles nos deram fé mais uma vez, eles nos deram esperança. Eles despertaram uma Alemanha adormecida. Eles organizaram e mobilizaram milhões e os colocaram para marchar. Esses milhões estão em movimento, seguindo as leis da história. Assim como essa pequena seita cresceu de sete homens desconhecidos para um movimento de 15 milhões, também juro a você, esse movimento de 15 milhões crescerá para abranger um povo de 65 milhões.

As festas devem ir! Os hacks políticos devem ser jogados para fora de suas cadeiras. Não daremos perdão. Não permitiremos que a Alemanha caia em desgraça. Devolveremos à Alemanha uma razão de sua existência, um sentido para a vida. É por isso que vocês, homens e mulheres, estão aqui, um exército de duzentos mil. Nunca a capital do Reich viu um movimento popular de tal força. Você veio aqui de todos os lugares. A classe média veio do oeste, os trabalhadores do leste e do norte. Você veio de prédios de apartamentos escuros e sem alegria. Meus camaradas da S.A. estão diante de mim, de cabeça erguida, como se fossem os reis da Alemanha. Eu sei, camaradas, que há alguns entre vocês que não sabem de onde virá a refeição de amanhã. Mostramos a esses partidos materialistas que o idealismo está vivo na Alemanha. Mostramos a eles que, mesmo em meio à fome, sacrifício e necessidade, o povo pode ser mostrado o caminho para o aperfeiçoamento. Prometemos lealdade a este povo. Levantamos solenemente as mãos e prometemos:

Enquanto respirarmos, somos obrigados ao povo alemão. Viemos do povo e voltamos sempre a ele. O povo é o centro de todas as coisas para nós. Nós nos sacrificamos por este povo e, se necessário, estamos prontos para morrer por ele.

Lealdade ao povo, lealdade à ideia, lealdade ao movimento e lealdade ao Führer! Essa é a nossa promessa enquanto gritamos:

Nosso Führer e nosso partido - Salve a vitória!

1932 07 09
Tradução IA

Berlin on 9 July 1932

sexta-feira, 9 de maio de 2025

Marc Vandepitte - Memória Selectiva: O Papel Esquecido da União Soviética na Libertação da Europa

 


sexta-feira, 9 de maio de 2025

* Marc Vandepitte 

Os dias 8 e 9 de maio marcam o 80º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial na Europa. No entanto, o papel central da União Soviética nesta vitória — e o terrível preço que pagou por ela — está a ser cada vez mais esquecido ou minimizado no Ocidente devido à memória selectiva e ao oportunismo geopolítico.

O Exército Vermelho: motor da libertação da Europa

Em maio de 1945, o Exército Vermelho marchou em direção à capital alemã. A 2 de maio, Berlim foi tomada. A bandeira vermelha, símbolo da destruição do III Reich de Hitler, foi hasteada no edifício do Reichstag.

Os combates que o antecederam foram de uma magnitude e brutalidade sem precedentes. Desde 1941 que a União Soviética trava uma guerra de aniquilamento contra a Alemanha nazi. Mais de 26 milhões de cidadãos soviéticos perderam a vida, tanto soldados como civis. Nenhum outro país pagou um preço tão elevado.

As batalhas decisivas da guerra foram travadas na Frente Leste: Moscovo, Leninegrado, Estalinegrado, Kursk, campos de extermínio que mudaram o rumo do conflito. Os historiadores concordam que sem os esforços e sacrifícios do Exército Vermelho e a resistência heróica do povo da União Soviética, a máquina de guerra nazi nunca teria sido travada.

O papel dos Estados Unidos

No entanto, este papel crucial é frequentemente subestimado nos países ocidentais. A razão? A história da guerra não se enquadra na imagem simplista da "boa guerra", na qual os EUA foram o farol moral e derrotaram o fascismo através do altruísmo.

O papel dos Estados Unidos era muito ambíguo. Como descreve o historiador Jacques Pauwels, as empresas americanas continuaram a negociar com o regime nazi até à década de 1930. Grandes corporações como a IBM, a Standard Oil e a Ford obtiveram enormes lucros com o rearmamento e a produção alemã. Até dezembro de 1941, as empresas americanas forneciam produtos petrolíferos à Alemanha nazi.

Dentro do establishment havia uma simpatia aberta pela Alemanha nazi e outros regimes fascistas. Henry Ford, por exemplo, era um grande admirador de Adolf Hitler. Um amplo movimento dentro dos EUA, denominado "America First", opôs-se fortemente à intervenção americana nos conflitos europeus.

Mesmo depois de a Alemanha ter invadido a Polónia em Setembro de 1939, não houve apoio financeiro imediato nem fornecimento de armas por parte dos EUA. Tudo mudou depois do ataque a Pearl Harbor, a 7 de dezembro de 1941. Ou seja, os EUA esperaram dois anos até se juntarem aos Aliados.

Nascido do grande capital

Muitas vezes esquecido ou escondido, o fascismo, tanto em Itália como na Alemanha, nasceu do capitalismo. Era uma ferramenta para reprimir o movimento operário e as forças de esquerda. Sem o apoio das grandes empresas, Hitler nunca teria sido capaz de desenvolver o seu partido fascista nem teria sido eleito. A mesma coisa acontece com Mussolini.

Foto: Fotomontagem de John Heartfield para a revista AIZ, Berlim, 16 de outubro de 1932, "O significado da saudação de Hitler. Há milhões atrás de mim."

Depois da guerra, estas relações foram cuidadosamente ocultadas. Os industriais com ligações nazis recebiam frequentemente penas leves ou eram completamente absolvidos nos julgamentos de Nuremberga. A elite alemã de banqueiros e donos de fábricas que ajudaram Hitler a chegar ao poder permaneceu em grande parte impune graças à protecção da força de ocupação americana.

As heroínas e os heróis silenciados

Não só o Exército Soviético, mas também milhões de civis, guerrilheiros e civis contribuíram para a derrota do fascismo. A resistência foi muito forte na Jugoslávia, França, Itália, Grécia e outros países europeus.

Comunistas, sindicalistas, trabalhadores e estudantes arriscaram a vida em actos de sabotagem, greves, redes clandestinas e resistência armada. Os combatentes da resistência contrabandeavam alimentos, escondiam fugitivos e resistiam numa época em que resistir significava tortura ou morte.

Esta resistência teve um amplo apoio popular. A célebre greve de Maio de 1941 na Bélgica (10 a 18 de Maio), na qual centenas de milhares de trabalhadores abandonaram o trabalho em protesto contra os nazis, foi um dos maiores actos de resistência na Europa ocupada.

No entanto, estes actos desapareceram muitas vezes da historiografia oficial, tal como o papel dos comunistas na resistência é sistematicamente silenciado ou negado.

Para homenagear estes heróis e heroínas da resistência e manter a sua memória viva, a Bélgica lançou a iniciativa Heróis da Resistência , fundada pelo historiador Dany Neudt e pelo escritor Tim Van Steendam. Desde agosto de 2022 que a organização publica diariamente pequenas biografias de combatentes da resistência no seu website e nas redes sociais para partilhar as suas histórias.

A importância da memória

As lições dessa época são mais relevantes do que nunca hoje. A ascensão da extrema-direita na Europa, a normalização do discurso de ódio e a ascensão de líderes autoritários representam uma ameaça às liberdades duramente conquistadas pelas quais tantos deram a vida.

Além disso, a guerra na Ucrânia levou a uma perigosa forma de reescrita histórica. Em nome da luta contra Putin, qualquer referência ao passado soviético torna-se suspeita, pelo que comemorar a vitória soviética sobre a Alemanha nazi é subitamente considerado uma "glorificação da Rússia".

Assim, a homenagem aos libertadores da Europa corre o risco de ser substituída por uma amnésia selectiva e por uma distorção que alimenta o extremismo em vez de o combater. A verdade histórica não deve ser vítima de inimizade geopolítica.

A Segunda Guerra Mundial não foi um choque de nações, mas um confronto direto entre ideologias. De um lado: fascismo, racismo, colonialismo e genocídio. Do outro: a resistência antifascista, a solidariedade internacional e a justiça social.

Por conseguinte, a comemoração não é um ritual facultativo, mas um ato político. Se nos esquecermos de quem realmente derrotou o fascismo, esqueceremos também quem está hoje ameaçado. E que mais uma vez beneficiam do ódio, da opressão e da divisão.

Por isso, em vários países europeus há um clamor crescente para voltar a declarar o dia 8 de maio (Dia da Vitória) como feriado legal e remunerado; não como um dia de folclore, mas como um dia de memória, reflexão e vigilância.

Celebra não só a queda de Hitler, mas também a força da resistência popular, a solidariedade entre os povos e as lições da experiência socialista que conseguiu derrotar o fascismo.

O que o dia 8 de maio nos ensina é que a liberdade não é algo óbvio, mas o resultado da luta. Foi a União Soviética que fez os maiores sacrifícios. Foram os comunistas e os trabalhadores que lideraram a resistência. Foi a solidariedade internacional que derrotou o fascismo.

Não podemos esquecer esta história. Não por nostalgia, mas por necessidade.

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Marc Vandepitte é membro da Rede de Intelectuais, Artistas e Movimentos Sociais em Defesa da Humanidade (REDH).

Fonte https://www-dewereldmorgen-be.translate.goog/artikel/2025/05/08/selectieve-herinnering-de-vergeten-rol-van-de-sovjet-unie-in-de-bevrijding-van-europa/?

Postado por O BÁRBARO às 03:39

https://cronicasdobarbaro.blogspot.com/2025/05/memoria-selectiva-o-papel-esquecido-da.html

quinta-feira, 6 de março de 2025

Carlos Branco - O pacto com o diabo

 No Ocidente passou a ser pecado falar de neonazis na Ucrânia, dando-se início à maior campanha de branqueamento de um regime político realizada até hoje.

Carlos Branco, Major-General
2025 03 06

O tema ganhou uma renovada acuidade quando o presidente Donald Trump apelidou o seu congénere ucraniano de ditador. Independentemente do rigor das palavras usadas por Trump importa perceber qual é a verdadeira natureza do regime presentemente instalado em Kiev. Segundo a Varities of Democracy, uma organização de elevada credibilidade académica, que estuda o tema dos regimes políticos a nível mundial, considera a Ucrânia uma autocracia eleitoral, portanto, longe de ser uma democracia plena. Embora não se pretenda com este artigo fazer incursões teóricas no domínio da ciência política, ele apresenta alguns factos que podem ajudar o leitor a fazer uma apreciação do tema mais informada.

Para uma melhor compreensão dos factos e com o intuito de facilitar a sua leitura e sistematização, consideraram-se neste trabalho quatro períodos distintos: desde a independência (1991) até à vitória de Viktor Yanukovych (2010); durante a presidência Yanukovych (2010 – 2014); desde o golpe de Maidan (2014) até à eleição de Zelensky (2019), e desde a eleição deste até aos dias de hoje. Por questões de parcimónia, iremos, fundamentalmente, concentrar-nos no último período.

O aparecimento na Ucrânia, à luz do dia, de organizações ultranacionalistas teve lugar no primeiro período, acelerando após a revolução laranja (2004) e a chegada ao poder de Viktor Yushchenko que, por exemplo, em 2006 reabilitou a organização nacionalista ucraniana OHH UN, responsável pela execução de cerca de 100 mil polacos e judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Nessa sequência, em 2010, pouco antes de abandonar a presidência, Yushchenko concedeu o título de Herói da Ucrânia aos líderes da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) Stepan Bandera e Roman Shukhevych (22 de janeiro).

Durante a presidência de Yanukovych houve uma pausa nessa política de estado, com a anulação do título de herói da Ucrânia concedido por Yushchenko. Mas, isso não impediu que esses grupos continuassem a proliferar. Por exemplo, em 2013, nasce a Misanthropic Division, uma rede internacional neonazi cujo dirigente Dmytro Kanuper foi condecorado pelo parlamento dinamarquês, em 2024, como um combatente pela liberdade, o mesmo que tinha o Mein kampft como a sua leitura preferida; ou, a trasladação (21 de julho de 2013) por ativistas da organização ucraniana Pamiat (Memória) dos restos mortais de soldados ucranianos que combateram na Divisão SS “Galicia”.

O golpe de estado arquitetado pelos EUA no início de 2014 – numa audição no Congresso norte-americano, Vitória Nuland confessou terem sido gastos, desde 1991, cinco mil milhões de dólares em ações subversivas na Ucrânia – foi executado com a colaboração ativa destes grupos. Não é, por isso, de estranhar ver Oleg Tyanibok, um confesso nazi líder do Svoboda, uma organização de extrema-direita, impedido de entrar nos EUA devido às suas opções políticas, ser reabilitado e aparecer ao lado do falecido John McCain.

Em 2014 realizaram-se eleições presidenciais (25 de maio) e legislativas (25 de agosto). Nas primeiras concorreram 21 candidatos e nas segundas 29 partidos, num ambiente de grande hostilidade relativamente às forças não apoiantes do novo regime. O Partido das Regiões que tinha ganhado as eleições em 2010 não teve condições para concorrer às eleições legislativas, apesar de ter apresentado um candidato às presidenciais. O sistema marginalizou e absorveu os partidos pró-russos influentes. Nesse ambiente iniciaram-se as perseguições e o assédio a jornalistas e opositores ao regime.

Petr Poroshenko, presidente, entretanto, eleito, vem dizer, num tom “conciliador” que os “ucranianos terão empregos, eles [os russos] não; nós teremos pensões, eles não; as nossas crianças irão para as escolas e jardins de infância, as deles terão de se esconder em caves.” Iniciam-se os ataques indiscriminados às populações russófonas do Donbass por milícias ultranacionalistas, com a anuência do governo, recorrendo ao bombardeamento intensivo de áreas residenciais. Tornaram-se triviais as procissões destes grupos pela Avenida Moscow Prospect, redenominada Avenida Bandera Prospect, com archotes, em datas simbólicas.

Poroshenko toma medidas para diminuir a relevância social da língua russa e da Igreja Canónica Ortodoxa. Em 2017, foi aprovada uma lei que proibia o uso do russo no sistema de ensino. Em dezembro de 2018, foi criada a Igreja Ortodoxa da Ucrânia (OCU), independente da igreja canónica ortodoxa, alinhada com Constantinopla, cujos sacerdotes não só subscrevem a ideologia dos setores politicamente mais radicais do espetro político ucraniano, como homenageiam publicamente colaboradores nazis, personagens como Stepan Bandera.

Neste período generalizaram-se as punições públicas extrajudiciais dos chamados marauders, uma forma de justiça popular, “em que pessoas são atadas a árvores e postes com fita-cola, com as calças ou saias baixadas e as nádegas fustigadas com chibatas e varas.” Estas práticas sociais passaram a ser dirigidas contra quem se suspeitasse ser russófilo. Bastava ser ouvido pela “polícia de costumes” a falar russo ao telemóvel. Em 2015, Poroshenko bane o partido comunista, do antecedente, uma força política com uma considerável influência na sociedade.

Em maio de 2019, Zelensky ganha as eleições e assume o poder com a promessa de resolver o problema das províncias rebeldes que dilacerava a sociedade ucraniana havia cinco anos e fazer a paz. Mas fez tudo ao contrário do que tinha prometido. Tendo chegado ao poder escudado num partido – “Servo do Povo” – com uma ideologia libertária, rapidamente se posicionou como um partido russo fóbico e pró-americano, navegando num pântano de contradições ideológicas que combinava ideias liberais, socialistas e nacionalistas.

A intervenção na Rada (27 de maio de 2019) de Dmytro Yarosh, fundador do Sector Direito e comandante do Exército Voluntário ilustra bem a importância dos referidos grupos na sociedade ucraniana, quando ameaçou Zelensky de morte se “traísse a Ucrânia”, ou seja, se tivesse a aleivosia de implementar os Acordos de Minsk (“que não eram para ser cumpridos, mas para ganhar tempo e preparar a ofensiva final contra o Donbass e a Crimeia”).

Com a tomada de posse de Zelensky, acelera-se o processo de deterioração das liberdades cívicas iniciado no mandato do seu antecessor, particularmente no que respeita à promiscuidade entre Estado e grupos ultranacionalistas, que aumentam de protagonismo. Completamente alinhado ideologicamente com aqueles grupos, Zelensky vai aprofundar aquilo que Poroshenko tinha iniciado. Os oligarcas seguem-lhe o exemplo.

Um dos principais objetivos do presidente, ex-russo falante, é a completa eliminação da língua e cultura russa. Imediatamente após os protestos de Maidan, o Verkhovna Rada decidiu revogar a lei sobre os princípios da política linguística do Estado, que estava em vigor desde 2012. Em 2017, Poroshenko proíbe o ensino em russo, e a partir de janeiro de 2021, Zelensky dá outra machada na língua russa, ao proibir a sua utilização na administração do Estado.

Foram igualmente proibidos os livros escritos em russo, incluindo os clássicos da literatura russa. Zelensky ordenou a retirada de 100 milhões de livros de autores russos das bibliotecas da Ucrânia. Tolstoi, Pushkin, Dostoievski e Gorky, entre outros, foram proscritos. O mesmo sucedeu aos compositores russos. Tchaikovsky, Prokofiev, Shostakovich, Borodin, Glinka, Rimsky-Korsakov e muitos outros foram também banidos. Espetáculos e quaisquer outras manifestações culturais em língua russa foram igualmente proibidas. O inglês passou a ser a segunda língua na Ucrânia. As minorias húngaras e romenas, que tinham pretensões semelhantes à russa foram igualmente atingidas e objeto de discriminação.

No plano religioso, Zelensky foi mais além de Poroshenko e proibiu a igreja canónica ortodoxa (ICO). Foi penoso ver, em abril de 2023, o cerco ao Kiev Pechersk Lavra (KPL) e os correligionários da nova igreja ucraniana expulsarem os sacerdotes da ICO com a ajuda da polícia. De santuário de referência da ICO, o KPL passou a ser lugar de cerimónias pagãs e de encontros gastronómicos sem qualquer relação com a religião. Por toda a Ucrânia, os acólitos da nova igreja apoderaram-se dos santuários da ICO e expulsaram os seus sacerdotes.

Foi durante a vigência de Zelensky, que se realizaram os maiores ataques à liberdade de expressão no país. No dia 3 de fevereiro de 2021 foram banidos três canais de televisão (ZIK, News 1 e 112 Ukraine). No dia 20 de março de 2022, obedecendo às ordens de Zelensky, o Conselho de Defesa e Segurança Nacional da Ucrânia ilegalizou, de uma assentada, 11 partidos políticos por supostas ligações à Rússia. Viktor Medvedchuk, o líder da “Plataforma para a Vida”, o principal partido da oposição, que ocupava 44 lugares no parlamento ucraniano, foi colocado em prisão domiciliária.

Destino semelhante teve o presidente do supremo tribunal. O presidente do Tribunal Constitucional “ausentou-se” para parte incerta para não ter a mesma sorte. Até o antigo Presidente Poroshenko, um adversário político e inimigo de longa data de Zelensky, foi vítima da repressão política e da caça às bruxas “politicamente motivada” promovida por Zelensky, que o acusou de “alta traição” e de auxílio a organizações terroristas. É longa a lista de políticos, jornalistas e empresários mortos, sequestrados ou torturados durante a presidência de Zelensky. Um deles, é Oleksander Dubinskyi deputado na Rada, vítima de duas tentativas de assassinato e preso há mais de 15 meses por criticar a corrupção no país.

Em contrapartida, nenhuma das organizações neonazis foi ilegalizada. O nazismo e as insígnias fascistas normalizaram-se na sociedade e no seio das forças armadas. A suástica, o Sol negro e a caveira de Totenkopf vulgarizaram-se e tornaram-se moda. Zelensky publicou, sem qualquer pudor, fotografias destas insígnias nas suas contas das redes sociais.

A 13 de maio de 2023, Zelinsky visitou o Papa envergando uma camisola preta com o emblema da UNO, uma organização nacionalista ucraniana, e entregou-lhe um ícone com uma silhueta negra de Cristo ao colo da Virgem Maria, o que, de acordo com os cânones da Igreja Católica pode ser considerado satânico. A moda chegou também a outros domínios como monumentos, toponímia e filatelia, utilizados para exaltar figuras prominentes do movimento ucraniano bandeirista, responsável pela morte de judeus.

No dia 1 de março de 2022, de acordo com o decreto assinado por Zelensky, foi criada a “Legião Internacional de Defesa da Ucrânia” que passou a ser integrada na estrutura das Forças Armadas, cujo pessoal incluía mercenários, adeptos de ideias extremistas e terroristas de várias partes do mundo.

Zelensky aderiu e alimentou a fantasia, promovida pelos ultranacionalistas, de um estado mono étnico, monocultural e centralizado. A aprovação na Rada da lei racista e xenófoba sobre os povos indígenas” (13 de dezembro 2022) foi uma materialização desse desígnio. Inserido neste projeto, assiste-se a um movimento de revisionismo histórico com laivos fantasiosos e caricatos. Igor Tsar, autor do livro “Ucrânia – a pátria ancestral da humanidade”, vencedor do Prémio Stepan Bandera, publicado em Lvov alerta-nos para uma imensidão de “factos históricos” desconhecidos (foram as tribos arianas da Ucrânia que fundaram o Irão no 4º milénio a.C. e colonizaram a Palestina. A língua inglesa é proveniente da Ucrânia. Até Jesus era ucraniano).

Nesta análise sobre o regime ucraniano sob a tutela de Zelensky, não podíamos deixar de referir o envolvimento de Zelensky na corrupção que grassa no país, que se encontra devidamente documentada. No outono de 2021, o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação publicou os chamados Pandora Papers, onde se incluíam dados das contas offshore de 35 líderes mundiais. Zelensky e os seus parceiros do estúdio Cartel 95 estavam entre eles.

Entre 2012 e 2016, foram transferidos 41 milhões de dólares para a empresa offshore de Zelensky. Num país normal teria sido preso. Uma das múltiplas mansões que tem por esse mundo fora encontrava-se na Crimeia, um erro que lhe custou caro. Foi expropriado e a mansão vendida em hasta pública, tendo o resultado da venda revertido para um fundo de ajuda a combatentes russos.

No Ocidente passou a ser pecado falar de neonazis na Ucrânia, dando-se início à maior campanha de branqueamento de um regime político realizada até hoje. O “Guardian”, entre outros órgãos de referência da comunicação social, que antes do início da guerra em 2022 escrevia “bem-vindo à Ucrânia, o país mais corrupto da Europa”, passou depois a considerar que “A luta pela Ucrânia é a luta pelos ideais liberais.” A corajosa reportagem de Mariana Van Zeller sobre grupos neonazis na Ucrânia foi censurada e retirada do canal Disney. Quem desmonta esta e outras falácias (o tema está longe de se esgotar neste artigo) foi acusado de ser propagandista do Kremlin.

O branqueamento do regime instaurado em 2014 é feito com base em dois argumentos: se o regime tivesse a filiação ideológica de que é acusado não teria um presidente judeu; os neonazis não têm expressão eleitoral significativa, por isso o regime é democrático. As questões devem, no entanto, ser colocadas de outro modo. Seria insuportável para as democracias europeias admitirem que estão a apoiar um regime que permite a proliferação da ideologia nazi e protege organizações neonazis.

Por outro lado, omite-se o facto de que muitos desses partidos/grupos ultranacionalistas não concorreram às eleições, e menospreza-se deliberadamente a sua influência na sociedade, sobretudo nas forças militares e de segurança, consolidada no rescaldo do golpe de Maidan. O facto da Ucrânia ter servido de tirocínio de combate a vários grupos neonazis europeus está superlativamente documentado em língua portuguesa (aqui (cap.IV) e aqui).

A farsa completa-se quando Zelensky participou nas comemorações do 80º aniversário da libertação do campo de extermínio nazi de Auschwitz, ou se ajoelha no memorial de Babyn Yar, em Kiev, não obstante a sua adesão incondicional à exaltação histórica dos bandeiristas, os mesmos que perpetraram o massacre lembrado por aquele memorial.

Não podemos deixar de nos questionar sobre a complacência e promiscuidade do Ocidente com as forças neonazis que proliferam na Ucrânia, porque é que se omitiu essa realidade e se tornou um tabu a partir de fevereiro de 2024, apesar de denunciada antes, com o conluio da comunicação social. Os exemplos são gritantes, e são muitos. Os aplausos em pé no parlamento canadiano a Yaroslav Hunka, que durante a Segunda Guerra Mundial serviu na 14ª Divisão de Granadeiros da Waffen-SS, considerado um “herói” durante a visita do Presidente Zelensky. Por terem sido vítimas da brutalidade destes grupos, os polacos são uma exceção a este unanimismo.
  
Pelo exposto, pode concluir-se que Donald Trump não anda afinal muito longe da verdade. Pelo andamento da carruagem, não se admire o leitor se um dia acordar e perceber que andou três anos a ser enganado. A possibilidade de isso acontecer já esteve mais distante.

https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/o-pacto-com-o-diabo/?fbclid=IwY2xjawI2aU5leHRuA2FlbQIxMQABHf13H1DZICT84exe4XVofi81IqaykaYaXyrxOBk3B_P5HjLHJeJR3w214w_aem_d96DFPD0psdSB2Dt4p1MTA

quarta-feira, 24 de julho de 2024

Manuel Loff - Uma cultura comum

 

Opinião

Falsificações históricas é o que mais há. O grave é que os seus autores cheguem ao poder e por lá se pavoneiem.

* Manuel Loff

24 de Julho de 2024


O regresso da direita ao poder trouxe consigo curiosas personagens cujos percursos intelectuais e profissionais comprovam bem como à direita se partilha uma cultura comum, feita de continuidades políticas estruturais (nacionalismo, monarquia, reacionarismo moral e cultural, elogio do autoritarismo e do colonialismo) e de leituras puramente voluntaristas (para não dizer simplesmente manipuladas) da história. Ela transcende as “linhas vermelhas” do “não é não” e demonstra que extrema-direita e direita tradicional neoliberal podem disputar entre si o poder, mas convergem na visão do mundo, desde media como o Observador ou o Correio da Manhã, até obras coletivas como o já famoso, e lamentável, Identidade e Família que Passos Coelho apresentou, reunindo intelectuais da ultradireita e dirigentes do PSD.


Entre estas personagens está o chefe de gabinete do secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, nada menos. Pedro Velez é um monárquico desde sempre militante do PSD que, entre outras coisas, participou em 2019 num colóquio (depois livro) sobre o jornalista e astrólogo Olavo de Carvalho, o guru de Bolsonaro, com o título de “O Magistério de Olavo de Carvalho: para uma Paideia Integral”. Considerando que Olavo, inspirador de todo aquele circo com que o bolsonarismo povoou o governo brasileiro, não possuía qualquer percurso académico, no mínimo surpreende que se sinta tentado a escrever sobre ele alguém que agora ocupa no Governo um lugar desta relevância.


Outra destas personagens, reemersa há dias ao ser nomeado “secretário privado” de José Cesário, o eterno secretário de Estado das Comunidades dos governos do PSD, é um tal Vitório Cardoso, outro destes improvisados intelectuais orgânicos da direita que, sem qualificações específicas para coisa alguma, progride à sombra de nomeações políticas para lugares periféricos no aparelho de poder ou para atividades habitualmente descritas como lobbying. A História é, contudo, para eles um terreno irresistível para fazer propaganda.


VItório elogia rasgadamente a polícia política por esta, justamente na fase em que a repressão foi mais brutal, ter tido “um papel fundamental para combater os atos subversivos da oposição política, nomeadamente dos comunistas que poderiam pôr em causa a unidade, liberdade e soberania nacionais”


Vitório é destes que acusa Aristides de Sousa Mendes de “[pôr] em risco a vida de todos os portugueses”, reiterando insinuações sem base documental, que outros já fizeram, de como os alemães ameaçariam invadir Portugal para perseguir em 1940 os refugiados ajudados pelo cônsul. Noutro texto, o mesmo homem sustenta um chorrilho de disparates que contrariam todas as provas reunidas pela investigação historiográfica portuguesa e internacional sobre a ditadura de Salazar nos anos da Guerra de Espanha (1936-39). Para fazer um elogio bacoco da política de Salazar durante a Guerra de Espanha, comete erros garrafais, confundindo 1936 com 1975, errando nas datas de início da guerra de Espanha, da criação da PVDE ou da “ilegalização do PCP” (e dos demais partidos), e assegurando que “o Estado Novo manteve [na guerra] uma postura de não intervenção”. Ora César Oliveira, Iva Delgado, Fernando Rosas e eu próprio abundantemente comprovámos a violação sistemática do direito internacional através do apoio financeiro, logístico e diplomático (em articulação com o Eixo nazifascista) aos golpistas de Franco; as campanhas de Salazar para impedir qualquer negociação de paz proposta pelo Vaticano, França ou Reino Unido; ou as críticas feitas ao próprio Papa Pio XI por este pedir a suspensão de bombardeamentos aéreos contra populações civis (a começar por Guernica, em 1937).


Salazar incumpriu todas as regras do direito de asilo, não só ao entregar aos franquistas republicanos espanhóis que procuravam refúgio em Portugal, mas também, como demonstra a recente tese doutoral de Maria José Oliveira, abandonando milhares de emigrantes portugueses em Espanha que participaram na defesa da República contra o golpe de Franco, presos ou fuzilados.


Por último, este dirigente do PSD elogia rasgadamente a polícia política por esta, justamente na fase em que a repressão foi mais brutal, ter tido “um papel fundamental para combater os atos subversivos da oposição política, nomeadamente dos comunistas que poderiam pôr em causa a unidade, liberdade e soberania nacionais.”

Falsificações históricas é o que mais há. O grave é que os seus autores cheguem ao poder e por lá se pavoneiem.

O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

 


sábado, 6 de julho de 2024

Ali Rebas - O direito de se defender” ou como fazer com que o genocídio seja aceite

 * Ali Rebas

6 DE JULHO DE 2024

Se a impunidade de que Israel beneficia, nomeadamente em desafio às decisões das instituições do direito internacional, é hoje flagrante, a destruição de Gaza foi implementada pela primeira vez em nome do “direito de se defender”. Esta fórmula também surge frequentemente na boca de muitos líderes ocidentais para dar a Tel Aviv um cheque em branco nas operações que realiza contra os palestinianos. Uma lógica colonial e exterminadora que vem de longa data.

 

“Sem luz, sem água, sem gás, sem comida, está tudo fechado (…) Lutamos contra os animais humanos, agimos em conformidade. » *

 

 "É uma nação inteira que é responsável. Esta retórica sobre civis que não estão conscientes, que não estão envolvidos, é absolutamente falsa. Eles poderiam ter-se levantado, poderiam ter lutado contra este regime maligno que assumiu o controlo de Gaza num golpe de Estado. Mas estamos em guerra, estamos a defender as nossas casas. Esta é a verdade, e quando uma nação protege a sua pátria, ela luta para que lhe quebremos a espinha dorsal.

Um discurso civilizador e erradicador, blindado na sua inocência democrática, foi utilizado para justificar a destruição de Gaza. É principalmente com base neste “direito de defender-se” que o Ocidente mobiliza em cada uma das suas ações genocidas. Hoje o Estado de Israel serve de paradigma nesta área. É importante compreender a função desse discurso e seus modos de operar. A violência ilimitada apresenta-se como contra-violência: este diagrama define uma disposição e uma certa lógica que consegue alistar ou enfeitiçar, desarmar e até paralisar uma parte daqueles que perceberam a mentira e afirmaram resistir-lhe.

COLOQUE UMA IMAGINAÇÃO

De certa forma, nada de novo sob o sol sujo do pôr do sol3. Para além do próprio extermínio, todos os estereótipos, os eufemismos, os processos de legitimação utilizados para fazer aceitar o genocídio em Gaza são antigos. A erradicação dos nativos americanos foi justificada depois de retratá-los como hordas selvagens, estupradoras e assassinas, atacando periodicamente comunidades pioneiras anglo-saxônicas inocentes. Assim foi construída a maior democracia do mundo, principal suporte e condição de existência da “única democracia do Médio Oriente” e do genocídio em curso. Mais tarde, nos Estados Unidos, pessoas negras linchadas e enforcadas foram frequentemente acusadas de violação (de pessoas brancas, obviamente), como no caso de Thomas Shipp e Abram Smith, que inspiraram a famosa canção de Billie Holliday,  “Strange Fruit”.  Os fatos e sua veracidade pouco importavam. Nada precisava ser provado ou apoiado. Tudo o que importava era o horror da acusação, o lugar e a força daqueles que a lançaram, o lugar e a fraqueza daqueles que ela designou e o terreno seguro em que foi implantada, apesar da sua forma vaga, até claramente enganosa e rapidamente negada. Tratava-se sobretudo de despertar uma imaginação já enraizada, de despertar certezas que os civilizados já tinham sobre os subumanos e de confirmá-las, para que todo o resto pudesse ser esquecido, para que nos sentíssemos autorizados a libertar o. última crueldade em sã consciência4.

A revolta dos Hereros  contra a ocupação alemã, a dos Argelinos em 8 de Maio de 1945 ou a dos Malgaxes em 1947 contra os Franceses, dão exemplos de acontecimentos que têm vários pontos em comum com o 7 de Outubro. Em cada caso, a insurreição deixou mais de uma centena de mortos, por vezes várias centenas, entre os colonos que exterminaram dezenas de milhares de pessoas colonizadas – obviamente garantindo que estavam apenas a defender-se.

É surpreendente ver quão pouco variou o estilo de acusações e inversões de vitimização que a ordem colonial emprega contra aqueles que massacra. Em relação ao 7 de Outubro, os israelitas e os seus poderosos representantes políticos e mediáticos falaram de um “pogrom” ou mesmo de um “Holocausto à bala”.5 — uma frase normalmente usada para se referir ao massacre de mais de um milhão de judeus da Europa Oriental por esquadrões móveis nazistas. Até mesmo jornais como  o Médiapart  seguiram a propaganda israelita neste ponto, retomando alguns dos seus termos, como o  “maior massacre de judeus desde a Shoah”6.

O colonialismo francês não hesitou em atribuir as revoltas de Sétif, Guelma e Kherrata ao ódio racial ou aos “agentes provocadores”. Nos dias que se seguiram à revolta, o comunicado de imprensa do governador da Argélia chegou a mencionar  “elementos e métodos de inspiração hitleriana”.7.  Esta expressão foi usada muitas vezes na época, inclusive pelo  L'Humanité.  Assim que a Alemanha nazi capitulou, o Ocidente vitorioso usou esta figura do Mal absoluto para insultar a revolta daqueles que esmagou e justificar o seu extermínio. Não há muito a acrescentar, a não ser repetir, adaptando, uma famosa frase de Michel Audiard: os colonos ousam tudo, é mesmo assim que os reconhecemos.

SALVANDO A GRANDE NARRATIVA OCIDENTAL

O genocídio em curso em Gaza funciona para o Ocidente tanto como um lembrete como como uma grande experiência. Serve para definir as condições sob as quais o racismo mais desinibido e mais assumido ainda pode ser desencadeado livremente,  beneficiar de amplo apoio  e não apenas de indiferença cúmplice, mesmo nas suas fases de erradicação. Mas também permite organizar esse desencadeamento, ajustar os seus limites e modalidades, explorar as possibilidades e oportunidades que oferece,  a  nível tecnológico, militar e governamental. Contribui para definir os eixos e a intensidade ao longo dos quais um colonialismo anacrónico ainda pode impor-se direta, explicitamente, sem disfarce, naquelas que até recentemente ainda eram chamadas de “sociedades abertas”. Mostra como um extermínio constantemente filmado, transmitido, retransmitido e “compartilhado” durante meses nas redes sociais pode ser amplamente aceito; e até que ponto a oposição pode ser controlada, reprimida, marginalizada, reduzida ao espanto ou a protestos impotentes.

Israel não é apenas o baluarte da Europa, o seu escudo simbólico, o emblema da sua inocência invencível. É também a sua grande janela Overton8. Ou melhor, Israel é o meio para abrir e pôr em movimento todas as janelas de Overton. Desde a queda do nazismo e o fim dos impérios coloniais, a sua função tem sido salvar a grande narrativa ocidental. Permite ao Ocidente continuar a perceber-se através das ideias de democracia, civilização, progresso, inocência, ao mesmo tempo que salva parte da herança racista que sustenta o mundo compartimentado que ele encarna. Perpetua esta ficção de sobrevivência que assombra toda a história do Ocidente moderno. A da certeza de ser o último refúgio civilizado, legítimo para acabar com aqueles que esmaga e coloniza sob pena de ser submerso por marés subumanas. A culpa é referida ao passado (nazismo) ou ao exterior (muçulmanos, russos, chineses, os vilões dos filmes de Hollywood, todos potenciais novos nazis).

A conquista da modernidade nunca deixou de invocar o “direito à defesa” para legitimar as suas devastações. O extermínio marca a história das sucessivas ordens coloniais. Foi desencadeada durante séculos sem colocar muitos problemas filosóficos, legais ou morais à consciência ocidental. E então houve uma anomalia durante a Segunda Guerra Mundial. Um acontecimento que aparece a esta consciência como um erro terrível da pessoa. Um grande erro – um erro policial.

Os nazis tiveram a singular loucura de importar processos coloniais e o imperialismo para a Europa, com o horizonte de extermínio que implicavam quando se tratava de “defender-se”. Hoje em dia, tal afirmação parece provocativa. Contudo, foi formulada por Aimé Césaire, no rescaldo da guerra, poeta hoje sepultado no Panteão, repleto de homenagens, monumentos, nomes de ruas e edifícios; nem sequer a impediu de permanecer prefeita e deputada, na Martinica, é verdade, por mais de meio século:

Sim, valeria a pena estudar, clinicamente, em detalhe, as abordagens de Hitler e do hitlerismo e revelar ao muito distinto, muito humanista, muito cristão burguês do século XX  que ele carrega dentro de si um Hitler que se ignora, que Hitler  habita nele,  que Hitler é o seu  demônio,  que se ele o repreende é por falta de lógica, e que no fundo, o que ele não perdoa Hitler, não é o  crime  em si, o  crime contra o homem,  é não  a humilhação do homem em si,  é o crime contra o homem branco, é a humilhação do homem branco, e de ter aplicado à Europa procedimentos colonialistas aos quais até agora apenas os árabes da Argélia, os coolies da Índia e os negros da África [...].9

Estas palavras ainda soam verdadeiras hoje para a maioria dos que ouviram falar de Hitler, excepto estranhamente nas nações que participaram no Judeocídio. É provavelmente por isso que estes últimos persistem em tratar outras populações, que não participaram direta ou indiretamente, como anti-semitas incuráveis.

A partir de agora, o colonialismo e o racismo pretendem defender os judeus, falaciosamente assimilados ao sionismo que vem a monopolizar a herança de vítima do crime absoluto. Assim se realiza a síntese, muito coerente com uma certa disposição cristã, entre a culpa e a expiação, por um lado, e a manutenção da inocência intacta, por outro. Queremos, diz a voz vinda desta liga, expiar em pensamento os crimes cometidos durante a Segunda Guerra Mundial, mas são os outros que devem pagar em termos concretos. A culpa e a expiação, tal como as indústrias poluentes, podem ser convenientemente  realocadas.  Esta realocação do Holocausto foi chamada de Estado de Israel.

Uma das grandes fábulas que acompanharam esta série de deslocamentos e mentiras históricas é resumida na fórmula “civilização judaico-cristã”. Se chegou a este ponto nos últimos tempos é porque cumpriu diversas funções decisivas, além de dar aos europeus a impressão de se exonerarem de um passado muito condenável. De forma artificial e desafiando séculos de história comum, permite que o Islão e os muçulmanos se instalem numa alteridade hostil e irredutível, onde acabam por encarnar a grande figura da ameaça face à muito nova e muito estranha aliança . Esta expressão marca também a integração dos judeus no Ocidente, mas apenas na condição, na maioria das vezes, de os assimilar ao Estado que afirma representá-los.10. Ao reprimir as exclusões e perseguições a que os judeus foram sujeitos durante séculos, ao obscurecer a lógica de que procediam, ao fazer-nos esquecer as formas que poderiam assumir e os pretextos que invocavam, a “civilização judaico-cristã” fornece também a narrativa que permite que esta exclusão se repita em sã consciência e de forma inadequada, contra os novos alvos. Como resume o poeta e romancista israelense Yitzhak Laor em  The New European Philosemitism:

Esta identificação com “nós” funciona ainda melhor com a cultura do Holocausto, ao oferecer ao novo europeu, no contexto do “fim da História”, uma versão melhor da sua própria identidade face ao passado colonial e ao presente. pós-colonial”. Preocupado com a massa de imigrantes muçulmanos legais e ilegais, este europeu adoptou o novo judeu como um Outro moderno e tranquilizador, amigo do progresso, sem barba, sem babados, com uma mulher que não usa roupas tradicionais e que não esconde o cabelo dele – felizmente, esses novos judeus não têm nada a ver com os avós.11

Poderíamos dizer que fórmulas como “civilização judaico-cristã” ou “direito de se defender” são apenas técnicas publicitárias imaginárias, ideológicas ou grosseiras... Futilidades dos manuais de propaganda, descobertas de  think tanks neoconservadores  , psicologia americana, eficaz apenas porque eles são servidos pelos sistemas certos, pelas redes de poder certas e por uma relação militar com a informação. Acrescentaremos que o direito, tal como a legitimidade, só chega depois do facto, que é apenas um resultado ou um reflexo das relações de poder. Que a História é obviamente escrita pelos e para os vencedores, uma vez vencidos - é mesmo assim que os reconhecemos e que aprendemos a pensar contra a História, que é sempre  a sua  história. Que a verdadeira guerra e as verdadeiras questões residem noutro lado, nos interesses militares, geopolíticos, económicos... Tudo isto é parcialmente verdade, mas também redutor. Nada mais militar, geopolítico, material e concreto hoje do que a guerra de informação, que esconde e recodifica uma guerra de percepções e histórias. Isto, por sua vez, condiciona e modifica o equilíbrio de poder mais concreto e massivo.

TODOS OS GENOCIDÁRIOS TÊM SEU “7 DE OUTUBRO”

Como escreve o filólogo alemão Viktor Klemperer em  LTI, The Language of the Third Reich:

E tudo o que empreendemos nesta guerra imposta, nesta guerra judaica, desde o primeiro minuto, é sempre uma medida de reacção. “Imposta” tem sido  o epíteto constante da guerra desde 1º de setembro de 1939 e, em última análise, este 1º de setembro não traz absolutamente  nada de novo além de uma continuação dos ataques judaicos contra a Alemanha de Hitler, e nós, somos nazistas pacíficos, não vamos fazer outra coisa. do que antes, defendemo-nos: desde esta manhã “estamos a responder ao fogo inimigo”, diz o primeiro boletim de guerra. Mas no fundo esta sede de assassinato dos judeus não nasceu de reflexões ou interesses, nem mesmo de uma sede de poder, mas de um instinto, de um “ódio insondável” da raça judaica para com a raça germano-nórdica. O “ódio insondável” aos judeus é um clichê que esteve presente ao longo destes doze anos. Contra o ódio fundamental, não há outra garantia senão a supressão de quem odeia: assim, passamos logicamente da estabilização do anti-semitismo racial para a necessidade do extermínio dos judeus.12

Aqueles que hoje continuam a evocar o extermínio dos judeus da Europa para alistar a sua memória a favor do sionismo, retomando inescrupulosamente, contra outros alvos, a maior parte dos tropos que foram usados ​​para justificá-lo, estão a fingir ignorar que foi só foi possível graças a um longo processo ideológico, jurídico, societal, linguístico e policial, que hoje é lembrado. Esquecem também que os anti-semitas e os nazis também nunca deixaram de invocar a natureza defensiva da sua guerra - ou melhor, da guerra que lhes foi, disseram, imposta.

Nem sempre o exterminador começa declarando que vai exterminar. Muitas vezes acontece que ele diga que a outra pessoa à sua frente quer exterminá-lo, e que não tem escolha, que está em jogo a “própria existência” da entidade genocida, como repete Benjamin Netanyahu desde outubro de 2023. o extermínio planejado, temido, fantasiado sempre encobre e justifica o extermínio real. E mesmo que isso signifique recordar um facto triste, que parece constantemente evitado: hoje, são os palestinianos que estão a ser exterminados.

Até os nazistas repetiam: o Reich tem o direito de se defender. E tal como os israelitas hoje, alternaram entre este discurso defensivo e outro que assumia a necessidade de lhe pôr fim, de livrar o mundo destes  “animais humanos”  que os ameaçam. Não há contradição entre os dois, sempre funcionou em conjunto. Em 1943, a assessoria de imprensa do Reich denunciou o “plano de extermínio dos judeus” dos povos da Europa. Goebbels escreveu:  “Se as Potências do Eixo perdessem a luta, não haveria mais barragens que pudessem salvar a Europa da onda judaico-bolchevique. »13

A invocação continuada do 7 de Outubro e o ataque ao Hamas por parte dos israelitas e dos seus aliados, longe de atenuar ou qualificar o carácter genocida da destruição de Gaza, confirma-o e complementa-o em grande parte. Não há genocídio que não seja assim justificado e apresentado como uma necessidade. Todos os genocidas têm o seu “7 de Outubro”, que sacrificaram para usá-lo, muitas vezes  a posteriori,  como um cheque em branco, uma autorização para exterminar – até mesmo um dever de exterminar para não ser por sua vez. Nos Estados Unidos, a derrota esmagadora infligida aos brancos em Little Big Horn pelas tribos do oeste americano ainda representa um trauma. Este acontecimento teve um impacto muito maior sobre os americanos do que o quase completo extermínio dos nativos, que ajudou a justificar e a transformar numa  guerra defensiva na consciência ianque . O tenente-coronel Custer, grande figura das “Guerras Indígenas” morto durante esta batalha, é a personalidade sobre quem mais livros foram publicados nos Estados Unidos, logo depois de Abraham Lincoln. Como escreve Gershon Legman, citado por Fanon em  Black Skin, White Masks:

Os americanos são o único povo moderno, com excepção dos bôeres, que, até onde há memória, exterminaram completamente a população indígena do solo onde se estabeleceram. Somente a América poderia, portanto, ter uma má consciência nacional para acalmar, forjando o mito do “Bad Injun”14, para então poder reintroduzir a figura histórica do honorável Redskin defendendo sem sucesso seu solo contra invasores armados com bíblias e rifles. O castigo que merecemos só pode ser evitado negando a responsabilidade pelo mal, colocando a culpa na vítima; provando - pelo menos aos nossos próprios olhos - que ao desferir o primeiro e único golpe estamos simplesmente agindo em legítima defesa...

Até os nazistas tiveram os massacres de Katyń, sobre os quais Goebbels escreveu logo após sua descoberta, no meio da “solução final”:

Perto de Smolensk, foram encontradas valas comuns polonesas. Os bolcheviques simplesmente atiraram e empilharam ali cerca de 10.000 prisioneiros polacos [...] Convido jornalistas neutros de Berlim a visitarem as valas comuns polacas. […] No local, eles terão que se convencer com os próprios olhos do que os espera se realmente acontecer o que tanto desejam, ou seja, que os alemães sejam derrotados pelos bolcheviques.

Este é um convite de jornalistas que devem ter estado imbuídos das mesmas intenções do governo israelita nos dias que se seguiram ao 7 de Outubro, e que deu origem a tantas mentiras espalhadas pelo mundo.15.

Segundo o historiador Peter Longerich, Katyń tornou-se o slogan que cobre  "a pior campanha anti-semita que o regime já viu".  Para os nazistas, este massacre foi um "massacre judeu", sendo as distinções entre "judeu" e "bolchevique" na época tão incertas quanto a distinção que os israelenses e seus aliados fazem hoje entre "Hamas", "palestinos", "árabes". ”, “Estado Islâmico” e “terrorista”… Longerich insiste neste ponto importante: a ideia da necessidade  “da aniquilação dos judeus para não serem aniquilados por eles […] constituiu o cerne da propaganda sobre Katyn »16.

REVERSÃO DE VÍTIMAS

Os genocidas sempre acusaram aqueles que massacraram de pretenderem fazer a mesma coisa. Por mais vis e ultrajantes que pareçam, estes tipos de projecções e vitimizações paranóicas não devem apenas ser rejeitados e desprezados como loucura, propaganda grosseira ou mentiras sem sentido. Quando ressoam, dentro de uma época, com outros dispositivos e outras forças históricas, materiais e ideológicas, tornam-se características essenciais da lógica genocida, participam nela como operadores eficazes.

Contudo, os israelitas e os seus apoiantes ocidentais são especialistas em inversão de vítimas. Eles acusam os seus inimigos de quererem “varrer Israel do mapa”, nomeando precisamente o que fizeram, literal e figurativamente, pela Palestina.17. Eles constantemente agitam a ideia de que os árabes querem jogá-los ao mar, enquanto o contrário aconteceu literalmente em Jaffa em 1948.18. Yitzhak Rabin também disse que seu maior sonho era ver Gaza engolida pelo mar...

Hoje, a propaganda sionista predominante invoca a detenção de 200 israelitas pelo Hamas para justificar a engenharia de horror que metodicamente implanta em Gaza.19. Há mais de 9.000 prisioneiros palestinianos detidos por Israel, dos quais mais de 3.400 estão sujeitos a  “detenção administrativa” , uma medida que permite ao tribunal israelita encarcerá-los sem qualquer acusação ou julgamento, por um período de seis meses renovável indefinidamente. . Tudo isto permitiria um novo olhar sobre a famosa questão dos reféns... Em 2011, mais de 1.000 prisioneiros palestinianos, cujos nomes ninguém em França sabia, foram libertados em troca de um único soldado israelita, cujos nomes todos sabiam que o seu nome era Gilad Shalit.  Salah Hammouri , um advogado franco-palestiniano detido várias vezes sob detenção administrativa (incluindo uma última vez em 2022), nunca beneficiou de tal visibilidade em França. Desde 1967, um em cada cinco palestinianos passou pelas prisões dos ocupantes. Faça as contas.

Inversion encore l’histoire des « boucliers humains ». Cette accusation régulièrement portée contre la résistance armée palestinienne ne sert pas seulement à justifier les massacres des civils. Elle élude le fait que l’État d’Israël n’a jamais été autre chose qu’un immense bouclier humain. Le fondateur du sionisme l’assumait nettement : « Pour l’Europe, nous constituerions là-bas un morceau du rempart contre l’Asie, nous serions la sentinelle avancée de la civilisation contre la barbarie. »20 Par ailleurs, comme l’explique l’historien Amnon Raz Krakotzkin, le sionisme fut guidé, presque dès ses débuts, par un « principe directeur selon lequel le peuplement de la Palestine est plus important que le sauvetage des juifs »21. Dans cette perspective, « sauver des juifs n’a d’intérêt que si cela sert à peupler la Palestine. De même les manifestations dans la colonie juive de Palestine à l’époque ne réclamaient pas le sauvetage des juifs, mais la libre émigration en Palestine et la création d’un État hébreu »22.

À la fin des années 1930, alors qu’aux lois raciales, aux expropriations et à la ségrégation que subissaient les juifs d’Allemagne commençaient à s’ajouter des persécutions plus féroces, David Ben Gourion affirmait publiquement :

Si je savais qu’on pouvait sauver tous les enfants [juifs] d’Allemagne en les envoyant en Angleterre mais seulement la moitié d’entre eux en les envoyant en Palestine, je choisirais cette dernière option parce qu’il ne s’agit pas seulement de prendre en compte le nombre d’enfants mais de tenir également compte de l’histoire du peuple juif.23

Dès avant la création de l’État d’Israël et de manière déclarée, les sionistes n’envisageaient les populations juives, en Palestine comme ailleurs, que comme un matériel humain ou des boucliers humains.

Dernière inversion qui résulte des autres et les englobe : à l’idée d’une Palestine libre, les sionistes opposent le danger d’un possible massacre ou d’une expulsion des Juifs israéliens, pour faire oublier le génocide en cours, les massacres et les expulsions réels qu’Israël a perpétrés depuis des décennies et sur lesquels s’est fondée toute son existence.

ISRAËL COMME PARADIGME

L’État d’Israël inspire les méthodes les plus efficaces sur les plans militaires, policiers, discursifs, idéologiques ou architecturaux pour désarmer les résistances, pour faire en sorte que toute opposition soit rendue marginale ou défensive, qu’elle voit ses alliances entravées, son langage réduit, ses cadres prescrits, ses actions prohibées, ses prises de positions intimidées ou réprimées par l’anti-terrorisme — même les plus modérées, même celles qui viennent de secrétaires syndicaux ou de députées de la France insoumise.

Tudo isto não leva a ver Israel como uma espécie de defensor do racismo e do colonialismo – ou mesmo do racismo e do colonialismo ocidentais. Durante muito tempo não acreditámos mais no campo do Bem ou em figuras do Mal absoluto, exceto como instrumentos de propaganda e ficções governamentais. O próprio Estado de Israel depende, entre outras coisas, de um mito desastroso do Mal absoluto, que é precisamente uma questão de desfazer. Mas o Ocidente certamente não esperou que o sionismo escravizasse, expulsasse, colonizasse, exterminasse. A história da Argélia Francesa é suficiente para provar isso. Além disso, esta sequência é uma das principais razões para o apoio particular da França a Israel (que só é rivalizado pela Alemanha no que diz respeito à sufocação de vozes dissidentes), muito mais do que as lágrimas hipocritamente derramadas pela deportação de judeus - muitas vezes pelo retorno anti-. Semitas.

Se dizemos que o Estado de Israel deve ser considerado um paradigma, é porque se tornou um dos meios mais seguros de legitimar, normalizar ou glorificar estas práticas governamentais. Por um lado, ele incorpora as suas formas plenamente aceites, as únicas no Ocidente onde o colonialismo e o racismo ainda podem ser plenamente justificados como tais. Por outro lado, é como o grande laboratório, o centro experimental. O seu papel de vanguarda na contra-insurgência, no controlo populacional, nas tecnologias de vigilância e morte, na repressão e na gestão de supranumerários, tudo isto é perfeitamente assumido pelos israelitas e seus aliados. Não são apenas vozes anticoloniais,  recusados  ​​ou opositores que se referem a ela. Muitos militares e políticos israelitas, bem como líderes empresariais, continuaram a elogiar este know-how, não só na Europa ou nos Estados Unidos, mas na Índia, no Egipto, na Arábia Saudita e até nas favelas do Brasil. Em França, este aspecto é transmitido por muitos actores económicos, políticos, industriais e académicos, que não perdem nenhuma oportunidade de expressar a admiração que este país lhes inspira e o desejo de tomá-lo como modelo.25. São apenas os sionistas de esquerda que fingem perguntar-se por que é que os apoiantes da Palestina se concentram tanto no Estado de Israel. Os pró-israelenses declarados há muito que deixaram de fazer esta pergunta, achando muito mais vantajoso aprofundar e confirmar as razões para este foco.

ALI REBAS

Pesquisador itinerante e interdependente.

 

https://foicebook.blogspot.com/2024/07/direito-de-se-defender-ou-como-fazer.html#more

Publicada por Pena Preta à(s) sábado, julho 06, 2024