Mostrar mensagens com a etiqueta Diário de Lisboa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Diário de Lisboa. Mostrar todas as mensagens

domingo, 18 de abril de 2021

Álvaro Costa de Matos - No centenário da fundação do Diário de Lisboa (1921-2021): história & memória

Foi o primeiro vespertino a publicar-se em Lisboa e por ali passou a nata do jornalismo nacional. Uma viagem pela história do Diário de Lisboa, no centenário da sua fundação.

Há mais de cem anos, a 7 de Abril de 1921 surgia o Diário de Lisboa, publicado à tarde, facto inédito na capital. Foi fundado pelo banqueiro António Vieira Pinto, um dos sócios do Banco Pinto & Sotto Mayor, mas logo no primeiro número Joaquim Manso aparece como “director, proprietário e editor”. Manso dispunha de experiência jornalística: tinha sido redactor principal do jornal A Pátria, até 1921, e colaborara em algumas revistas, como Arte e Vida (1904-1906) e Atlântida (1915-1920). Todavia, aquele seria o seu grande desafio profissional, que o notabilizaria como jornalista, escritor e ensaísta.

Após Manso, que assegurou a direcção até 1956, o Diário de Lisboa foi dirigido por Norberto Lopes (1956-1967), António Pedro Ruella Ramos (1967-1989), Mário Mesquita (1989-1990) e por Ruella Ramos novamente, até ao seu fim, em 1990. O último director deixou-nos um testemunho precioso, pois segundo ele “o jornal teve um grande sucesso e vingou, embora a partir de 1942 tivesse sofrido a concorrência do Diário Popular. Em termos gráficos, era bastante avançado porque foi um dos primeiro tablóides da Europa”.

A redacção inicial do novo vespertino de expansão nacional era composta pela nata do jornalismo da época, com nomes como Artur Portela, Carlos Ferrão, Diniz Salgado (repórter fotográfico) e Manuel Nunes. Anos mais tarde, juntaram-se ao núcleo duro Mário Neves, Rogério Perez, Maurício de Oliveira, entre outros. No final dos anos 60, a renovação da redacção foi protagonizada por Vítor Direito, que se rodeou de uma nova geração de jornalistas como, por exemplo, José Carlos de Vasconcelos, Joaquim Letria, Urbano Tavares Rodrigues, Vasco Pulido Valente, Mário Castrim, Mário Zambujal, Maria Judite de Carvalho e Fernando Assis Pacheco. Quanto à colaboração externa, literária ou artística, o Diário de Lisboa acolheu o contributo de figuras de relevo da cultura portuguesa, o que lhe valeu o epíteto de “vespertino dos intelectuais”. Nos anos 20, salientamos João de Barros, Aquilino Ribeiro, Jaime Cortesão e Fernando Pessoa. Nas décadas seguintes, merece destaque a colaboração de António Sérgio, José Régio, Fernanda de Castro, Ferreira de Castro, António Botto, Mário Dionísio e Alexandre O’Neill. A ligação ao meio cultural lisboeta tornou o Diário de Lisboa no vespertino favorito da classe média letrada, com tiragens de 50.000 exemplares por dia nos anos 50.   


Ilustração de João Abel Manta na capa da edição de 3 de Maio de 1974 DR

Como era da praxe jornalística, o Diário de Lisboa não deixou de dizer ao que vinha quando saiu, num contexto marcado pelos efeitos da Grande Guerra: seria um “jornal moderado”, que teria como único programa “erguer Portugal acima das misérias e das fraquezas dos homens, a fim de que ele seja para todos nós o maior facto do nosso esforço e do nosso espírito”. Um farol de “ideias” e “razões morais” para a reconstrução nacional. O editorial traduz a percepção que, à época, a imprensa tem de si própria, como a maior força social do tempo, o “quinto poder” do Estado. Os jornais acreditam que a sua intervenção no espaço público reforma mentalidades e costumes. Não servem apenas para noticiar os factos ou opinião individuais, mas sobretudo para estabelecer a boa opinião. A isso se chamava o “apostolado da imprensa”.

Com redacção na Rua do Carmo, o Diário de Lisboa assume-se como um jornal de informação geral, com particular atenção à capital (das oito páginas publicadas, duas tinham notícias de “tudo quanto Lisboa tem de magazine”) e à ilustração (o número de estreia vem com desenhos de Almada Negreiros). A presença de caricaturas e cartoons humorísticos na primeira página será uma imagem de marca do novo vespertino, que contou com a colaboração primeira de António Soares, Jorge Barradas, Stuart Carvalhaes, Silva Monteiro, Almada e, mais tarde, de Carlos Botelho e João Abel Manta. No campo do humor gráfico, entre os diários noticiosos e políticos, o Diário de Lisboa foi mesmo um dos melhores exemplos do que então se fazia.

Ao longo da sua existência, o Diário de Lisboa teve vários suplementos, mas A Mosca, coordenado por José Cardoso Pires, foi talvez aquele que mais saudades deixou. Num registo satírico, original, contou com a escrita criativa de Assis Pacheco, Maria Aurora, Letria, Luís de Sttau Monteiro, entre outros, e os cartoons de Manuel Vieira, SAM e Augusto Cid. Entre 1969 e 1975, A Mosca liderou a irreverência humorística político-social na imprensa portuguesa.

Nascido após a restauração da “República Velha”, o Diário de Lisboa conheceu cedo a acção da censura. É certo que com o fim da Grande Guerra veio também o fim da censura militar. Mas os jornais continuaram a enfrentar as mais diversas dificuldades para a sua regular publicação: apreensões, tentativas de reimpor a censura prévia e vigilância das autoridades policiais. Ao ponto de a 29 de Abril de 1922, no diário republicano A Manhã, Trindade Coelho denunciar que sob o regime republicano os jornais viviam “em completo e permanente regime de arbítrio”, vítimas de “apreensão, censura prévia e impunidade de desmandos”. Em 1925, no mês de Abril, o Diário de Lisboa e O Século não puderam circular durante vários dias. O que levou Joaquim Crisóstomo, no Senado, a criticar a censura e a suspensão destes dois jornais, afirmando que não foi para restringir a liberdade de imprensa que se implantou a República.

Durante o Estado Novo, o Diário de Lisboa manteve uma postura tão crítica quanto era possível naquele tempo, no reduzido espaço de manobra que a censura lhe permitiu. A oposição ao regime é notória sobretudo no pós-II Guerra Mundial, com a expectativa democrática criada, e nos anos 70 vai criticar abertamente o Marcelismo. No 25 de Abril de 1974, quando saiu para as bancas já a Revolução ia adiantada, dedicando-lhe sete das 28 páginas do caderno principal: fez machete com os comunicados do MFA, a rendição de Marcelo Caetano no quartel do Carmo e a assunção do poder pelo general Spínola. Os seus repórteres fizeram a história dos principais acontecimentos em Lisboa, reproduzindo o entusiasmo que se vivia nas ruas. Noticiou o desenrolar da Revolução no país, as primeiras reacções das colónias e, em nota irónica, fez título da “Falta de quórum na Assembleia Nacional” naquele dia. A edição esgotou-se, obrigando a activar as rotativas uma segunda vez.

Como qualquer jornal, o Diário de Lisboa conheceu várias crises, alterações na linha editorial e, com a nacionalização da banca, surgiram os problemas financeiros. A entrada de Mário Mesquita para a sua direcção, com um novo projecto, foi uma última tentativa de refundar o Diário de Lisboa, mas extinguiu-se uns meses depois. Morreu na “flor da idade”, como estampou na sua última edição, de 30 de Novembro de 1990. O tempo dos vespertinos tinha passado

terça-feira, 28 de junho de 2011

Luís Sttau Monteiro - O Pai Natal / Farta de batatas até aos olhos (Redacções da Guidinha)

Outros textos... A propósito do 25 de Abril

As "Redacções da Guidinha" eram textos de crítica de costumes, sob a forma de redacções escolares sem qualquer pontuação, escritos por uma suposta menina moradora no bairro da Graça, em Lisboa, chamada Guidinha. O verdadeiro autor dos textos era Luís de Sttau Monteiro.
.
Estes textos foram publicados entre 1969 e1980 num suplemento humorístico, chamado "A Mosca", do "Diário de Lisboa” e, posteriormente, em “O Jornal”. Com um estilo e um humor absolutamente originais, eram tentativas permanentes de fintas à Censura.
.
Transcrevemos, aqui, alguns excertos desses textos, agora publicados pela Areal Editores.


O Pai Natal

"Tretas tretas tretas a mim é que não me levam mais era o que faltava ou um ou outro é um aldrabão disseram-me que o pai natal descia pela chaminé e eu acendi o fogão para lhe queimar o rabo para ele dar um grito para eu o ver e nicles quem ficou com o rabo a arder fui eu que levei bumba no toutiço por ter gasto gás é só para ver como as coisas são disseram-me que ele trazia presentes do céu e o que ele me trouxe foi uma camisola que eu vi numa montra duma loja em saldo com o preço e tudo isto quer dizer que o Céu fica na Rua dos Fanqueiros ou que me aldrabaram por eu ser criança é o que eu digo mentem à gente mal a gente nasce e depois queixam-se de que a gente em grande queira ir para a política (...) outra porcaria que me fez o pai natal foi dizer ao meu pai que este ano os presentes eram fracotes por causa da crise que há no Céu mas então se aquilo é igual à Terra para que é que lhe chamam Céu anda a gente a privar-se de coisas para ir para o Céu e chega lá e bumba aquilo é como a Graça ou como o Areeiro eu é que não vou nisso e se as coisas não mudam para o ano faço de conta que não sei da crise e mando uma reclamação para o deputado que me representa na assembleia e o pai natal vai ver como é que as moscas picam para aprender a ser profissional a valer que isto dum pai natal amador não interessa a ninguém e muito menos a esta vossa GUIDINHA que não está cá por ver andar os outros."
.
Farta de batatas até aos olhos.

"Estou farta de batatas até aos olhos não posso ver batatas à minha frente porque tenho um azar danado enquanto toda a gente hoje tem o DIA mundial da poupança eu nasci numa casa em que andamos há cinco anos ou mais sim ou mais que eu tenho a impressão de que nunca vivemos senão assim mas o melhor é voltar ao que eu estava a contar enquanto toda a gente tem o dia mundial da poupança nós lá em casa andamos no ANO inteiro da poupança e o pior é que já vamos para o quarto ano da poupança e para quê? para chegarmos vivos ao fim do mês vivos mas cheios de batatas até aos olhos (...) deviam dar uma medalha ao meu Pai porque ele é um homem bestial que inventou a tal poupança antes do resto do mundo cá para mim deviam pôr o retrato dele nos livros de história ao lado dos retratos dos navegadores porque ele descobriu a poupança antes dos outros sim porque a verdade é que a gente lá em casa anda a navegar em poupança antes dos outros há tantos anos que nem conhecemos outra coisa eu cá por mim estou à espera para ver se compro um livro de matemática porque com o dinheiro que o meu Pai ganha nem para o ano mas para voltarmos outra vez ao que eu estava a dizer o que eu quero é que ponham debaixo dos cartazes (do Dia Mundial da Poupança) «Viva o Pai da Guidinha que inventou o Ano da Poupança Doméstica» ou qualquer outra coisa parecida para se fazer justiça”

http://www.prof2000.pt/users/hjco/audioweb/boletim06/Pag00007.htm

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Luís Sttau Monteiro - Disto e daquilo, principalmente daquilo (Redacções da Guidinha)




Vila Sousa (Graça)
Entre 1969 e 1980, Luís de Sttau Monteiro (1926-1993) publicou as suas célebres «Redacções da Guidinha», primeiro no suplemento A Mosca doDiário de Lisboa, depois em O Jornal.
Já publicámos uma primeira «Redacção» e, correspondendo a vários pedidos, relembramos hoje outra, também de 1973 (A Mosca, 11 de Agosto). 


Não não não ele há coisas que não se fazem a uma menina ingénua como eu que ainda nem sequer estudou biologia e organização política e que ainda está na idade de comer gelados e de chupar bombons e de fazer chichi atrás de uma árvore sem os guardas se chatearem sim porque não é só cá na Graça que há velhinhos não senhor também os há noutros sítios e o pior é que um dia fico assim o que peço quando isso acontecer é que não me deixem fazer nada nem abrir o bico porque uma coisa é a gente ser velho porque tem de ser e outra coisa é a gente ser velho e dar vontade de rir como dava o meu Avô que Deus tem se o tiver sim porque não há certeza nenhuma dele estar na tal mão de Deus não senhor porque se havia uma pessoa difícil de apanhar era ele quando se raspava de casa para fazer discursos nas esquinas sobre isto e sobre aquilo principalmente sobre o Benfica que era o clube de que ele gostava muito mas como a gente sabia como ele era dávamos pela falta dele seguíamo-lo porque aqui na Graça o povo ri que é uma coisa doida se calhar não é aqui na Graça se calhar o povo ri em toda a parte porque o povo é muito dado ao riso mas isso é capaz de ser política e eu em política não me meto não senhor para não estragar a vida ao meu Pai lá na repartição de maneira que o melhor é mudar de assunto mas ainda dentro deste assunto quero dizer isso da sardinha deve ser mentira porque a sardinha está cara como burro e o povo já teve de a deixar agora só se ri com o carapau do besugo do peixe-espada e dos jaquinzinhos que estão cada vez mais caros e o preço deles dá cada vez menos vontade de rir ai meu Deus que lá vou eu outra vez a falar de preços assim lá tramo o meu pai na repartição nestas coisas não há como estar calado mas como é que uma pessoa pode estar calada enfim muda de assunto Guidinha que ainda te arrependes ora vamos lá então a mudar de assunto e a falar duma coisa que ninguém mesmo que tenha má vontade possa dizer que é política este ano o Verão está muito bom há muita gente na praia já vi um cão de coleira fazer chichi na areia nas piscinas também há muita gente e nas ruas também e nos parques também cá a Graça está cheia de gente só cá não estão os que foram embora lá porquê não sei só se for por maldade sim porque há muita gente com a maldade entranhada que não sai nem com sabão-macaco outra coisa que se vê muito cá na Graça é o povo a rir de felicidade ri-se que é uma coisa doida principalmente na véspera da partida a Graça é muito estranha não há quem a entenda senão quem a entenda mas o melhor é eu mudar outra vez de assunto porque as pessoas são muito sensíveis e podem pensar que eu estou a falar de coisas de que não estou a falar como por exemplo de elefantes já que falei de elefantes explico que são uns bichos que têm um nariz enorme mas é que mesmo enorme mas no meio daquela cabeçona em que têm o nariz tem muito pouco miolo.
.

domingo, 12 de junho de 2011

Luís Sttau Monteiro - Eleições no Rebenta Canelas (Redacções da Guidinha)

Vila Berta, na Graça
Entre 1969 e 1980, Luís de Sttau Monteiro (1926-1993) publicou as suas célebres «Redacções da Guidinha», primeiro no suplemento A Mosca doDiário de Lisboa, depois em O Jornal.
.
Com um estilo e um tipo de humor absolutamente originais, os seus textos eram tentativas permanentes de fintas à Censura, como é bem patente na «Redacção» abaixo transcrita, que foi publicada em 
..A Mosca de 6 de Outubro de 1973.Recorde-se que, no fim desse mês, iriam realizar-se eleições para a Assembleia Nacional, com as habituais dificuldades para que as diferentes oposições pudessem fazer as suas campanhas.


Ena pai o que para aqui vai por causa das eleições! ena pai! quem não conhecesse o Rebenta Canelas cá da Graça e visse o que está a acontecer até era capaz de pensar que valia a pena tomar conta dele e que os vencedores iam ganhar muito com a vitória! é claro que as pessoas que sabem como as contas andam o que querem é estar de fora ai não! enfim o melhor é eu começar do princípio senão ninguém me entende pois os sócios do Rebenta Canelas da Graça Futebol Clube vão votar uma gerência nova e há os que são do pró e os que são do contra os que são do pró votam na gerência que está à frente do clube e os que são do contra votam contra ela está-se mesmo a ver que não podia deixar de ser assim os que são do pró findam a colar cartazes a dizer que está tudo bem e como têm muito pilim andam a colar cartazes nas paredes nas árvores em toda a parte só ainda não colaram cartazes nas costas da gente porque os distribuidores não têm comissão nisso senão já estávamos cartizados que era uma limpeza os que são do contra coitados não podem colar cartazes porque se os colarem vão parar à chana por andarem a fazer propaganda contra a moral da Graça que toda a gente sabe que é muito boa mas isto ainda não é tudo não senhor o grande problema que há cá no clube é o do bufete que custa os olhos da cara aos sócios de maneira que há uns que querem o bufete e há outros que querem largá-lo esse é que é o grande problema mas não se pode falar nele não senhor porque a direcção não deixa os do contra podem falar disto e daquilo mas quem falar do bufete já sabe o que lhe acontece de maneira que as eleições do nosso Rebenta Canelas Futebol Clube da Graça são assim como um jogo de futebol em que seja proibido tocar com os pés na bola não sei se me percebem se não perceberam venham até cá ver o que se está a passar que eu prometo gargalhadas a todos mas de qualquer forma a Graça está a ser um bom exemplo para todos nisso de correcção somos todos tão correctos que nem sequer falamos das coisas que nos interessa não vá alguém ficar magoado em matéria de correcção ninguém nos leva a palma não senhor e os outros clubes podem pôr os olhos no que se está a passar na Graça porque se seguirem o nosso exemplo ficam como nós e se todos ficarem como nós deixamos de ser subdesenvolvidos porque como os outros começam a subdesenvolver-se ficamos todos iguais e ninguém nota que a gente é diferente o que é preciso é que os outros sigam o nosso exemplo palavra que o mundo vai ser bestial quando os Rebenta Canelas Futebol Clube de Londres de Paris de Nova Iorque e de Moscovo ficarem como o da Graça o que não se percebe é que eles não nos imitem sim não se percebe como é que eles vendo como a gente é bestial e sabe tudo não nos imitem às vezes penso que eles são parvos mas o meu pai diz que há uma data de anos que lê nos jornais artigos escritos por senhores bestialmente importantes a dizer que o mundo vai acabar por nos dar razão diz ele que anda a ler artigos há mais de quarenta anos e que o mudo não há meio de nos seguir o exemplo o que eu digo é que ou anda malandrice no caso ou que os directores do Rebenta Canelas estrangeiros não lêem o nosso diário de notícias da Graça quem sabe se eles falarão a nossa língua eu cá se fosse importante traduzia os artigos cá do nosso diário de notícias e mandava-lhes as traduções para ver se eles conseguem entender-nos é que se eles não seguirem o nosso exemplo vão continuar a minguar a minguar enquanto a gente cresce com as nossas boas ideias e daqui a uns anos somos uma grande potência e eles coitaditos estão todos subdesenvolviditos e lá se vai o equilíbrio do mundo sim porque quem sabe tudo somos nós e basta olhar para o diário de notícias cá da Graça para se ficar espantado com o nosso saber e com a ignorância dos outros mas além disso há outra razão para os outros seguirem o nosso exemplo que tão bons resultados está a dar e esse motivo é que é uma pena que este nosso exemplo que é tão bom e tão útil fique desperdiçado sem ninguém o aproveitar quando penso nisto que se está a passar de termos tão bons exemplos já que não podemos exportar mais nada pronto sempre exportávamos qualquer coisa cá por mim estou convencida de que a direcção ganha as eleições e que mais tarde ou mais cedo o mundo vai seguir o seu exemplo para bem da humanidade sim porque a Graça é um modelo.
.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Mário Castrim (1920-2002)

Morreu Mário Castrim

O nosso camarada Mário Castrim, escritor, jornalista e crítico televisivo, faleceu na madrugada de terça-feira, no Hospital dos Capuchos, em Lisboa, onde estava internado desde o início de Agosto. Com 82 anos, Mário Castrim encontrava-se nos cuidados intensivos do Hospital dos Capuchos, sofrendo de pneumonia.
.
Mário Castrim, pseudónimo de Manuel Nunes da Fonseca, foi o primeiro crítico de televisão em Portugal. Militante do PCP, era o mais antigo e regular colaborador do Avante!, enviando os seus poemas semanalmente e até ao fim.
.
O Secretariado do Comité Central do PCP manifestou de imediato o seu pesar. Compartilhando a dor da família e enviando um abraço fraternal de solidariedade à esposa do jornalista, a escritora Alice Vieira, e aos seus filhos, André e Catarina Fonseca, o Secretariado «presta homenagem a esta destacada figura da vida cívica e cultural do país nos últimos 50 anos, ao militante comunista com muitas décadas de corajosa e coerente intervenção, ao crítico de televisão, escritor e intelectual que tanto contribuiu para a formação democrática e humanista de muitas gerações».
.
O Secretariado apelou aos militantes comunistas e a todos os cidadãos progressistas para participar no funeral do jornalista, que teve lugar ontem de manhã, no Cemitério de Benfica. Carlos Carvalhas, secretário-geral do PCP, José Casanova e Vítor Dias, ambos membros da Comissão Política, estiveram presentes.
.
Carlos Carvalhas enviou, anteontem, um telegrama de condolências à família. «Recebendo com grande tristeza a notícia do falecimento do Mário, envio-vos a expressão do meu profundo pesar, evocando com respeito e admiração a figura de Mário Castrim como comunista com muitas décadas de acção dedicada e coerente, como homem bom, vertical e generoso, como cidadão com uma relevante contribuição para a formação cívica e política de várias gerações, como um artista e criador solidamente vinculado aos ideais humanistas», lê-se no telegrama.
.
Também o Sindicato dos Jornalistas manifestou o seu pesar, salientando que o desaparecimento de Mário Castrim «empobrece o panorama da comunicação social portuguesa na dupla vertente dos que aproduzem e dos que a interpelam».
.
«Mário Castrim há-de permanecer como referência histórica do género e exemplo a considerar por sucessivas gerações de críticos, mas também ficará na nossa memória como homem culto e lúcido, cidadão comprometido com o seu tempo e fiel às suas convicções», sublinha o sindicato.


.

Até sempre!
Desculpa, Mário, mas nesta hora triste, ao evocar-te, lembro-me de mim. É assim, presumo, que os amigos são mais fortemente lembrados. Pelo que eles pesaram na vida de cada um de nós, pelo rumo a que nos solicitaram, pelas perspectivas que abriram. Lembro-me de um dia assim em Outubro, já lá vão uns quarenta e cinco anos, subia eu as velhas escadas do Diário de Lisboa, na Luz Soriano, com uns papéis na mão (desenhos, poemas, um conto?). E no patamar vou encontrar-te sorrindo ao puto que subia entre os azulejos que forravam as paredes, mostrando tesouras e rolhas, os objectos torturantes da censura que, logo aprendi, não escolhia idades mas ideias para cortar. E tu, a sorrir por detrás dos óculos, paciente e bondoso, disposto a mostrar como era o mundo aos jovens desse tempo que contigo aprenderam que a palavra não era vã, a ideia não era de somenos. Nesse Diário de Lisboa Juvenil uma geração inteira fez pelo menos essa aprendizagem. Que deu frutos. Alguns povoam hoje outros pomares, bem sei, mas tu construías apenas uma coisa bem grande - a de ter opinião contra o silêncio, a de exercer a liberdade em tempo de prisões, a de tomar a responsabilidade. Lembro-me dos teus textos, dos teus nomes, da prosa ágil, do largo espaço que, com o Augusto da Costa Dias e com o Tossan, abriste, não sem risco, nesse jornal. Lembro-me do teu gosto pela poesia, da conversa ao café, quando disseste que andavas apaixonado pela poesia do Fernando Pessoa. Mais tarde, muito mais tarde, e já no exílio, da crítica de televisão, uma voz a convidar o leitor a que pensasse com independência em frente ao pequeno ecrã. E, apesar de hoje e com justiça, te chamarem crítico de televisão - afinal o primeiro, a referência em relação à qual os outros todos, bem ou mal, achavam lugar e voz - sabemos de ti muito mais. O pedagogo, o poeta, o crítico, o jornalista, o escritor. E, finalmente, talvez primeiro que tudo: o camarada e o amigo que só não perdemos porque persistes nas nossas memórias e nos nossos corações.
.
Leandro Martins    

«Avante!» Nº 1507 - 17.Outubro.2002
.
.

"O Lugar do Televisor" de Mário Castrim

 .

Apresentação do III volume no dia em que o autor faria 83 anos

Foi mais do que uma apresentação de um livro. Foi a homenagem ao seu autor que, neste dia 31 de Julho de 2003 completaria 83 anos. A sua ausência emocionou editores, leitores e amigos. Um deles, Mário Zambujal, declarou, mal pôde, que se tornava embaraçoso apresentar um livro de um “amigo íntimo” quando ele já não está entre nós. Arlindo Pinto que, recordou, recebeu a notícia do seu falecimento em Nampula, onde actualmente é missionário, não escondeu as emoções incontornáveis do momento.
Trata-se do Terceiro Volume de “O lugar do Televisor”. São crónicas, escritas a pensar na juventude, pelo autor que fundou o “DL Juvenil” (Diário de Lisboa Juvenil). Eram aliás desses tempos muitos dos amigos que se reuniram no auditório dos missionários combonianos para recordar “o amigo”.
“A todos tratava por amigos”. A garantia é do Pe. Arlindo Pinto. Foi, aliás, nos tempos em que ele era director da Audácia e da Além-Mar que Mário Castrim começou a publicar as crónicas, agora editadas em livro (já lá vão três volumes). E se a decisão de o fazer “colaborador” da revista Audácia foi clara e rápida (bastou um encontro com o autor), já a sua aceitação não foi tão pacífica: o Pe. Arlindo lembrou comentários que lhe fizeram confrades e amigos, que viam apenas o crítico de tudo e todos.
Os textos publicados desde Setembro de 1993, todos os meses na Revista Audácia, demonstram, no entanto, que Mário Castrim sabe estar atento também à vida dos homens e mulheres, apontando valores necessários à educação das novas gerações. Prova disso é outro livro de Mário Castrim que, adiantou o actual director das revistas dos missionários combonianos, Pe. José Rebelo, era para ser publicado também neste dia. São comentários aos salmos da Bíblia, elaborados pelo mesmo autor de muitas críticas a quem aparecia na televisão.
Mário Zambujal tem dúvidas se é o escritor ou o jornalista que escreve estas crónicas. Garantiu, no entanto, que Mário Castrim agrupa a beleza e a nobreza do trato com a língua portuguesa, qual grande escritor, com a atenção ao realismo da vida, próprio dos grandes repórteres.
“O lugar do televisor - III Volume” revela “o talento e a ternura de um contador da vida” – escreve Mário Zambujal na apresentação – que todos os amigos presentes faziam questão de afirmar, seja durante a sessão formal de apresentação do livro, seja durante o convívio informal que se lhe seguiu. Por parte dos missionários combonianos, palavras de muito reconhecimento ao Mário Castrim, que escreveu e “ainda não fez contas”. Disse, após as primeiras crónicas escritas ao director da altura: “eu vou escrevendo; vocês publicam, se assim o entenderam. Depois veremos quem deve a quem”.
A homenagem estendeu-se à família, que estava presente. Com filhos e netos, Alice Vieira, sua mulher, agradeceu. Agradeceu também o apoio que os missionários combonianos lhe continuam a prestar.
Agora, é ela a colaboradora mensal da Audácia.
Nacional | Paulo Rocha | 2003-07-31 | 23:05:00 | 2932 Caracteres | Combonianos
 http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?id=2168
.
.