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sexta-feira, 31 de julho de 2026

Miguel Sousa Tavares - Sinais de fogo

*  Miguel Sousa Tavares

1.  Enquanto a França e a Espanha começavam a arder, no que viriam a ser os piores incêndios de ambos os países em décadas, Luís Montenegro estava em viagem oficial a Itália — que juntamente com Portugal e Grécia, completa o eixo de fogo que todos os Verões, em simultâneo ou à vez, devasta o sul da Europa. Mas em Roma, Montenegro e Meloni conversaram sobre outro tipo de fogo, que de tal forma aqueceu os seus corações que Montenegro declarou mesmo que ali se tinha atingido o ponto mais alto das relações Portugal-Itália, também em décadas. Porém, este novo êxito da nossa diplomacia e esta renovada amizade vêm com um custo: 3,9 mil milhões de euros, que é o preço que iremos pagar pelas três fragatas que encomendámos em Itália para a nossa Marinha de Guerra. O custo representa mais de metade do que Portugal prometeu gastar a armar-se para a anunciada guerra contra a Rússia e para cumprir as ordens de Trump, e é assumido ao abrigo da estratégia consagrada pelo programa de rearmamento europeu SAFE: encomende agora, pague depois. E o depois não será provavelmente apenas um problema financeiro, mas também operacional: quem nos diz que quando as fragatas forem entregues elas ainda farão algum sentido na guerra do mar, se já hoje os drones submarinos e os avanços militares com a IA estão a mudar tudo? (Veja-se como, sem nenhuma fragata, o Irão anda há cinco meses a humilhar a força naval e aérea, carregadas de testosterona, dos Estados Unidos…) Seria mais prudente, pensarão, começar por encomendar apenas uma fragata e esperar para ver, mas tal é impossível, pois que se dá com as fragatas o mesmo que com os submarinos: é preciso comprar três de uma vez, porque enquanto uma está no mar, outra está de prevenção acostada na base e a terceira está no estaleiro em reparação. São brinquedos muito caros. São tão caros e o negócio é de tal maneira rentável para os vendedores — mais ainda que o tráfico de droga — que desta vez anunciaram-nos que seria nomeada uma das tais “comissões independentes”, para tentar garantir “transparência” e seriedade nos negócios em que seremos sempre compradores. Porém, ainda nem a comissão está composta e Montenegro já gastou €3,9 mil milhões sem dar justificações do essencial: porquê fragatas, porquê italianas e porquê a pressa.

Valha a verdade que o nosso primeiro-ministro se limita a acompanhar e cumprir o que ficou acordado com a NATO, a UE e os EUA de Donald Trump (as três entidades confundem-se hoje em dia). Devagar e passo a passo, encomenda a encomenda, comprometemo-nos a caminhar em direcção aos 5% do PIB em gastos militares, ao mesmo tempo que se anunciam investimentos públicos de há muito não vistos: um novo aeroporto para Lisboa, o TGV Lisboa-Porto, uma nova ponte no Porto e outra e mais um túnel no Tejo, em Lisboa, mantendo intactos o sistema de pensões e os restantes apoios sociais, bem como a satisfação, sempre premente, das reivindicações das corporações do Estado. A perspectiva é de tal maneira insana que, aqui ao lado, Pedro Sánchez declarou logo que a Espanha governada por ele não cumpriria os 5%. Mas foi o único entre todos os dirigentes europeus, reduzidos voluntariamente à condição de capachos obedientes do ‘aliado’ americano, com quem não poupam gestos de apaziguamento, todavia inúteis, como se viu na recente Cimeira da NATO em Ancara. Muitas vezes, e até para justificar este desvario guerreiro, esta gente e os seus propagandistas têm defendido as suas decisões com a necessidade de não repetir o erro de Chamberlain em Munique, tentando fazer-nos acreditar que a inacção perante a ameaça que Putin representará é igual à que Hitler representava em 1938. Mas não só a Europa, no seu conjunto, dispõe de muito mais poderio militar convencional do que a Rússia (a qual, ao mesmo tempo, nos garantem estar exaurida por quatro anos de guerra na Ucrânia), como também as duas situações não são nem objectiva nem subjectivamente comparáveis. Aliás, não fosse esta uma geração lastimável de dirigentes europeus — de que o defunto Keir Starmer era o perfeito exemplo do líder plastificado, desde o cérebro até aos sapatos — e poderiam dar-se uma pausa para meditação sobre os verdadeiros grandes problemas e grandes inimigos que a Europa tem de enfrentar. Se o fizessem, se por um momento quisessem pensar pela própria cabeça, esquecendo as ordens de Trump ou do seu capacho Mark Rutte, talvez chegassem à conclusão de que os dois grandes inimigos da Europa chamam-se Donald Trump e alterações climáticas.


Sinais de fogo, por Hugo Pinto
 
1Sobre o primeiro inimigo da Europa, Donald Trump, já tudo foi dito e sabido e só não vê o perigo que ele representa quem não quer ver ou está interessado em não ver. Sobre a ameaça presente do descontrolo do clima (clear and present danger, chamar-lhe-iam os americanos, no tempo em que ainda eram uma democracia decente), tem-se visto como a UE tem recuado e abandonado todas as suas metas definidas e ajuramentadas para enfrentar as consequências das alterações climáticas. A Europa, o continente mais exposto ao aquecimento global, o território do fogo descontrolado, corta nas verbas destinadas a combatê-lo, em benefício das verbas destinadas a combater a Rússia, no dia em que nos juram que Putin virá por aí abaixo. Portugal é um bom exemplo disso mesmo: na necessidade que houve de realocar verbas do PRR, tirando de um lado para pôr no outro, os dois maiores cortes, ambos de 15%, foram nos investimentos previstos para a transição climática e a transição digital da economia — outro sector crítico, em que a Europa não se limita a ficar para trás relativamente à China e Estados Unidos, mas assim cava a sua dependência futura, como já a tem na energia, entusiasmada que anda, por exemplo, a sequestrar navios-fantasmas da frota petroleira russa — verdadeiros actos de pirataria, sem qualquer sustentação legal.

Em França, cujo Presidente passou de intermediário para tentar evitar a guerra na Ucrânia a defensor da continuação e agravamento da mesma, anunciando o reforço extraordinário das capacidades militares da França, Emmanuel Macron acabou esta semana a ter de recorrer aos militares para ajudarem a dominar o grande incêndio de Bordéus. Afinal, parece que, na hora da verdade, aquilo que os cidadãos esperam da sua República é que lhes garanta a segurança de pessoas e bens contra um perigo real e presente e não contra um hipotético perigo futuro. Daqui a uns anos os nossos filhos e netos hão-de perguntar-nos o que andámos nós a fazer, gastando fortunas em armamento e alimentando os lucros das multinacionais das armas e da energia, enquanto víamos, fingindo surpresa, as terras a arder, o gelo dos pólos a derreter e as temperaturas a subir sempre.

2.  2Sinal destes tempos de mentira organizada e desinformação planeada, o Governo de Israel, depois de matar todos os jornalistas árabes que conseguiram estar em Gaza (para cima de 150!) e proibir a entrada da imprensa ocidental independente, aposta agora em profissionais da aldrabice, dispostos a serem contratados para negar o que vimos e sabemos: Gaza reduzida a cinzas, 73 mil mortos, dos quais mais de 20 mil crianças, a Cisjordânia transformada num faroeste, onde os colonos israelitas, apoiados pela IDF, caçam palestinianos, ocupam as suas terras, destroem as suas casas e culturas. Vemos, ouvimos e lemos. Mas é possível fingir ignorar: entre os €500 milhões que o Governo de Netanyahu já destina anualmente para propaganda amiga, estão verbas para convidar uns mercenários da verdade a visitarem a “única democracia do Médio Oriente”. Oito tristes patetas portugueses, ditos influencers, responderam assim à chamada e lá foram eles, descobrindo, cito, que “o mais fixe em Israel é que eles não têm a intenção de se vingar de ninguém. O amor é a palavra que mais usam”. E lá foram recebidos por um anfitrião, dito jornalista, Henrique Cymerman, a quem chamaram um “anjo da paz” e o qual lhes fez uma prelecção sobre as mentiras que a imprensa ocidental veicula sobre Israel, sobrepondo-se ao silêncio cúmplice dos dirigentes europeus. Os 73 mil mortos vítimas do amor de Israel, de facto, é como se nunca tivessem existido.

2026 Julho 31

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A barganha de Mark Rutte sobre a Groenlândia

A barganha de Mark Rutte sobre a Groenlândia
E a Dinamarca? E a UE? Não têm nada a dizer?

Há dias acabei um artigo com um poema de Fernando Pessoa (heterónimo Alberto Caeiro) . Hoje começo este com outro poema, no caso de Eduardo Alves da Costa, um poeta brasileiro não muito conhecido, texto que é erroneamente muitas vezes atribuído a Maiakovsky, talvez por causa de seu título:

NO CAMINHO, COM MAIAKOVSKI

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakósvki.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho e nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz:
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas no tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares,
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo.
Por temor, aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!

Vem isto a propósito de como Mark Rutte decidiu entregar parte da Groenlândia aos EUA, concedendo-lhes o direito de instalar por lá as bases militares que entendessem e possuindo DE FACTO os territórios onde tais bases vierem a ser construídas.

Naturalmente, na versão de Donald Trump além dos locais onde tais bases venham a ser instaladas, os EUA possuiriam também todo o direito de explorar os recursos energéticos e minerais da grande ilha. Estamos portanto na fase em que os ladrões do poema de Maiakovsky já pisaram as flores.

Deve Mark Rutte ficar preocupado? Foi ele foi o cão que não ladrou quando a primeira flor foi roubada. Ele será a próxima vítima? Talvez não, dependendo de quem seja o seu dono.

De qualquer forma, está a esgotar-se o tempo da Dinamarca e seus supostos aliados europeus dizerem alguma coisa, antes que suas vozes lhes sejam arrancadas das gargantas

https://antoniojfgil.substack.com/p/mark-ruttes-greenland-bargain? 

Pedro Tadeu - TEMOS DE SER VASSALOS OU ESCRAVOS DE TRAMP?

🤔
Por Pedro Tadeu - Jornalista 

"Ser um vassalo feliz é uma coisa. Ser um escravo infeliz é outra coisa.” Esta frase de protesto contra o presidente norte-americano, Donald Trump, dita na segunda-feira em Davos no Forum Económico Mundial, pelo primeiro-ministro da Bélgica, Bart de Wever, desvenda, por um lado, como as elites europeias sempre aceitaram pacificamente uma subserviência com características medievais face aos Estados Unidos da América e, por outro lado, como não desejam o fim desta forma de feudalismo e aceitam ter um suserano desde que ele, magnânimo, lhes dê algumas benesses.

Durante décadas a União Europeia e o Reino Unido viveram numa condição de subserviência estratégica, disfarçada de aliança e parceria. A narrativa que nos contaram após o fim da União Soviética era a de que passava a vigorar uma “ordem internacional baseada em regras”. A União Europeia até integrou a definição no artigo 21.º do Tratado da UE, mas ligou-a ao cumprimento do direito internacional e da Carta das Nações Unidas. Contudo, essa ordem continha, desde o seu início, a semente da hegemonia norte-americana, que sempre se esteve nas tintas para a ONU.~

Tivemos assim a intervenção da NATO na Jugoslávia (1999). Esta ação não foi autorizada pelo Conselho de Segurança da ONU, a Carta da ONU. Os europeus, vassalos, aceitaram e participaram.

Tivemos a invasão do Iraque pela coligação liderada pelos EUA e pelo Reino Unido em 2003, também sem aprovação do Conselho de Segurança, baseada em justificações falsas, como a alegação de armas de destruição massiva. Os europeus, vassalos, aceitaram e participaram.

Tivemos intervenções com “mudança de regime” e uso abusivo de mandados da ONU, como foi o caso da Líbia, em 2011. Os europeus, vassalos, aceitaram e participaram.

Temos o caso do embargo a Cuba. Desde 1962, os EUA mantêm um embargo e, ano após ano, a ampla maioria dos países vota na Assembleia Geral da ONU a condenação dessa política. Os europeus, vassalos, aceitam a vontade norte-americana.

Temos casos de duplo-padrão na adesão às instituições jurídicas internacionais. Por exemplo, a Convenção da ONU sobre o Direito do Mar (UNCLOS): os EUA não ratificaram o tratado, mas invocam as suas disposições em patrulhas de “liberdade de navegação” no Mar do Sul da China.

O mesmo se passa no caso do Tribunal Penal Internacional (TPI): os EUA recusaram aderir ao Estatuto de Roma, mas apoiam o recurso ao TPI contra lideranças de países adversários.

E há o duplo-critério. Um exemplo recorrente é a relação dos EUA com Israel, que viola imensas resoluções do Conselho de Segurança e da Assembleia-Geral, mas tem uma garantia de excecionalidade que até lhe permitiu fazer um verdadeiro genocídio em Gaza.

Os europeus são cúmplices e participantes de tudo isto.

Esta subserviência política, esta aceitação de um sistema de “regras” definidas por Washington, foi consentida e alimentada durante décadas pelos europeus, muito antes de Trump decidir que quer ficar com a Gronelândia, de raptar o presidente da Venezuela, de fazer uma “ONU privada” com o seu Conselho da Paz e de querer dominar todo o continente americano. É uma “ordem internacional baseadas em regras” variáveis, como acontece desde o fim da Guerra Fria, mas agora com vítimas que se achavam donas do mundo e se vêem agora no papel de vassalos ou, pior, de escravos.~

Por mim, nem vassalagem, nem escravidão.


23 Jan 2026

 https://www.dn.pt/opiniao/temos-de-ser-vassalos-ou-escravos-de-trump

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Marcelo Rebelo de Sousa - 40 anos da Adesão de Portugal e Espanha às Comunidades Europeias

* Marcelo Rebelo de Sousa

Intervenção do Presidente da República na Sessão Comemorativa dos 40 anos da Adesão de Portugal e Espanha às Comunidades Europeias

Senhora Presidente do Parlamento Europeu, Ilustre amiga,

Bem-haja por este honroso convite pelos quarenta anos da adesão de Portugal e da Espanha às Comunidades Europeias.

Majestade Rei das Espanhas, Felipe VI, ilustre e muito querido amigo,

Senhor Presidente do Conselho Europeu, ilustre e velho amigo,

Senhoras Deputadas, Senhores Deputados,

Excelências,

En primer lugar, quería transmitir a Su Majestad el Rey Felipe y al pueblo de España mi solidaridad tras la tragedia del pasado domingo, que se cobró tantas vidas inocentes.

O Reino de Portugal nasceu em 1143, vai para nove séculos, e viu a independência reconhecida, em 1179.

Nasceu na Europa e nasceu de linhagens europeias.

Nasceu na Europa, na Costa banhada pelo Oceano Atlântico.

O nosso primeiro Rei tinha por Mãe uma filha do Rei de Leão, um dos Reinos que, séculos mais tarde, formaria o Reino de Espanha.

Tinha por Pai um irmão do Duque de Borgonha, um ducado que, séculos mais tarde, ajudaria a formar o Reino de França.

Mas nasceu também de linhagens vindas de outras Europas, do Norte, do Sul, do Oeste e do Leste. E de África e das Ásias. Mais tarde das Américas e das Oceanias. Num caldo de etnias, culturas e religiões.

Somos europeus desde as raízes.

E essas raízes mesclaram-se, logo à partida, com as de outros continentes, de outros universos.

Por isso não há portugueses puros, há portugueses diversos, na sua riqueza cultural.

Somos europeus, na língua, na cultura, na História, e, porque europeus, universais.

A nossa vida foi, do século XV aos séculos XIX e XX, uma saga constante na Europa Continental e fora dela – porque desde o século XV atravessámos oceanos e tocámos ilhas e continentes.

Uma saga em que deixámos uma diáspora por todo o mundo.

E fomos, muitas vezes, mais felizes a navegar pelo mundo do que nas guerras europeias.

Com os vizinhos, que eram nossos parentes, conquistámos independência, guerreámos para a mantermos, perdemo-la e recuperámo-la.

Até ao século XVII foi um desassossego constante. Como o foram as guerras continentais em que nos envolvemos.

De tal modo que, no século XIX, a nossa independência teve de ser garantida, com a capital do Império no Brasil.

Éramos europeus, mas a Europa, que nos iluminava, não foi sempre portadora de boas notícias.


Excelências,

O que há de verdadeiramente diferente e notável é que a integração europeia do século XX, que culminou na adesão há quarenta anos, no mesmo dia da Espanha, com papel cimeiro de Mário Soares e Felipe Gonzalez, veio mudar a História.

Mudou a História europeia. Mudou a História nas relações com o nosso único vizinho por terra. Mudou a nossa História. Mudou para a Liberdade, mudou para a Democracia, mudou para o Estado de Direito, mudou para o Desenvolvimento, mudou para a Justiça Social.

E, depois de séculos de independência baseada nos Oceanos e do inevitável, mas tardio, fim do Império, com a formação da multicontinental e multioceânica Comunidade de Países de Língua Portuguesa, Portugal e a Europa, Portugal e a Espanha, Portugal e os Estados de sucessivos alargamentos europeus, começaram uma nova História. Que dura há quase cinquenta anos e que não teria sido possível sem a Europa, à margem da Europa, contra a Europa.

Exemplo singular desta mudança é a fraternidade entre Portugal e Espanha, a Espanha e Portugal, aqui eloquentemente testemunhada pelos dois Chefes de Estado unidos, em representação das respetivas Pátrias e dos respetivos Povos.


Excelências,

É, hoje, moda do momento, esquecer, minimizar, diminuir a Europa e o seu papel no mundo.

Não percamos um segundo a hesitar, a duvidar, a autoflagelarmo-nos. Temos mais Liberdade, Democracia e Estado de Direito do que tantos outros. Muitos de nós estão em lugar cimeiro do Desenvolvimento Humano e dos padrões de igualdade social. Temos um mercado dos maiores do mundo. Garantimos condições de vida comparativamente superiores à generalidade dos Estados. Somos um destino sonhado por tantos, de todos os continentes. Mas sabemos que tudo isto não basta e que perdemos, por vezes, tempo e que temos de fazer mais e melhor.

Precisamos de mais juventude, de mais conhecimento, de mais ciência, de mais tecnologia, de mais segurança comum, de mais crescimento, de mais justiça, de mais capacidade de mudança dos nossos sistemas políticos, económicos e sociais, precisamos de mais unidade, precisamos de mais futuro.

Precisamos.

Mas então tratemos disso. Com prioridade e com urgência. Contemos, antes do mais, connosco. Nós próprios, que temos de acreditar na Europa Livre, Igualitária e Democrática.

Reconstruamos a Europa. Sem medos. Sem inibições. Sem complexos.

Temos aliados? Temos. Para além da União Europeia, Portugal tem o Reino Unido, há quase 650 anos, e preferiríamos que estivesse ainda mais com a União Europeia do muito que já está.

Temos os Estados Unidos da América, cuja independência Portugal foi o primeiro Estado europeu, salvo a França, portanto o primeiro Estado neutral, a reconhecer, mas preferiríamos que fossemos sempre aliados a cem por cento e não com hiatos, intermitências ou estados de alma.

E, num e noutro, temos Comunidades fortes, históricas, jovens e pujantes.

Mas isso não é o essencial.

Nós, Portugueses, nós Portugal, já éramos Pátria independente há muitos séculos, ainda não existia a maioria dos Estados do Mundo, nem dos mais poderosos de hoje.

Fomos assim, somos assim. Sempre na Europa. Nos últimos 40 anos, mais na Europa e com a Europa. E, por isso, no universo e com o universo.

Reconhecidos às Comunidades Europeias. Reconhecidos à União Europeia. Tudo o que se possa dizer das Comunidades Europeias, hoje União Europeia, de crítico, de falível, de errado, de insuficiente, e há muito, é nada comparado com aquilo que lhes devemos.

Europeus sempre. Transatlânticos sempre. Universais sempre.

Avancemos, pois, recriemo-nos no que for necessário, que os aliados e os parceiros, que desejamos, virão, como sempre vieram, quando perceberem que não há senhores únicos no globo, que não há poderes eternos. E que as nossas alianças e parcerias valem mais do que a espuma, mesmo espetacular, mesmo sedutora de cada dia.

Digo-vos mais. Não há quem consiga hoje refazer pela força a divisão do mundo em hemisférios como no passado e sonhar controlar o seu hemisfério, ou resolver problemas do mundo sozinho. Falhará quem o tente no século XXI, como falharam outros no século XX.

E não se invoque o biliteralismo, que, verdadeiramente, é unilateralismo, que é uma forma de enfraquecer o multilateralismo e as instituições internacionais, sem que, quem deseja exercer essa hegemonia, esse controlo, tenha condições para o fazer como sonha ou afirma.

E não há como fazê-lo ignorando a Europa, o seu papel nos valores, o seu papel na justiça social, o seu papel na economia mundial. Porque a Europa ainda é e será sempre berço da Democracia, ainda é e será sempre farol de Liberdade, ainda é e será sempre esteio de Estado de Direito, ainda é e será sempre referência de Estado Social.

Foi assim no passado. Será assim no futuro.

Por isso, nós portugueses, por isso, nós europeus nunca, mas nunca mesmo, desistiremos do nosso papel fundamental no universo.

Porque desistir do seu papel universal seria, para a Europa, desistir dos seus valores, desistir de si própria, desistir de todos os que lhe dão vida.

Por isso, nós portugueses, nunca, mas nunca mesmo, desistiremos da Europa. Porque desistir da Europa seria, para Portugal, desistir de uma parte essencial e insubstituível de Portugal.

Neste dia de 40 anos de adesão da Espanha e Portugal, de Portugal e da Espanha, à Europa, viva Portugal, viva a Espanha, viva a Europa!

21 de janeiro de 2026

https://www.presidencia.pt/atualidade/toda-a-atualidade/2026/01/intervencao-na-sessao-comemorativa-dos-40-anos-da-adesao-de-portugal-e-espanha-as-comunidades-europeias/

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Jonathan Cook - Sim, Trump é ordinário. Mas a extorsão global dos EUA é a mesma de sempre


US President Donald Trump and Ukraine's President Volodymyr Zelensky meet in the Oval Office of the White House in Washington, DC on 28 February, 2025 (AFP)

 

Sim, Trump é ordinário. Mas a extorsão global dos EUA é a mesma de sempre
por Jonathan Cook, MEE.

Se há uma coisa pela qual podemos agradecer ao Presidente dos EUA, Donald Trump, é esta: ele eliminou de forma decisiva a noção ridícula, há muito cultivada pelos media ocidentais, de que os EUA são um bom polícia global que impõe uma "ordem baseada em regras". Washington é melhor entendido como o chefe de um império de gangsters, com 800 bases militares em todo o mundo. Desde o fim da Guerra Fria, tem procurado agressivamente o "domínio global de espetro total", como define a doutrina do Pentágono educadamente.

Ou se presta fidelidade ao Don ou se é atirado ao rio. Na sexta-feira passada [28fev2025], o Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky foi presenteado com um par de botas de betão de marca na Casa Branca. A novidade foi que tudo aconteceu em frente ao corpo de imprensa ocidental, na Sala Oval, e não numa sala das traseiras, fora das vistas. Foi ótimo para a televisão, disse Trump.

Os especialistas apressaram-se a tranquilizar-nos, dizendo que a cena de gritos foi uma espécie de número estranho de Trump. Como se a inospitalidade para com os líderes de Estado e o desrespeito para com os países que lideram fossem exclusivos desta administração. Veja-se apenas o exemplo do Iraque. A administração de Bill Clinton achou que "valia a pena" - como disse a sua secretária de Estado, Madeleine Albright, de forma infame - matar cerca de meio milhão de crianças iraquianas, impondo sanções draconianas durante a década de 1990. Sob o comando do sucessor de Clinton, George W Bush, os EUA desencadearam uma guerra ilegal em 2003, com base em argumentos totalmente falsos, que matou cerca de meio milhão de iraquianos, de acordo com as estimativas pós-guerra, e deixou quatro milhões de desalojados.

Aqueles que se preocupam com o facto de a Casa Branca humilhar publicamente Zelensky talvez devessem guardar a sua preocupação para as centenas de milhar de homens, na sua maioria ucranianos e russos, mortos ou feridos numa guerra totalmente desnecessária - uma guerra que, como veremos, Washington planeou cuidadosamente através da NATO nas duas décadas anteriores.

Capanga Zelensky

Todas essas baixas serviram o mesmo objetivo que no Iraque: lembrar ao mundo quem é que manda. Só que o público ocidental não compreende isto porque vive dentro de uma bolha de desinformação, criada para ele pelos media ocidentais.

Henry Kissinger, o antigo diretor da política externa dos EUA, afirmou: "Pode ser perigoso ser inimigo da América, mas ser amigo da América é fatal." Zelensky acabou de descobrir isso da maneira mais difícil. Os impérios de gangsters são tão inconstantes como os gangsters que conhecemos dos filmes de Hollywood. Durante a anterior administração de Joe Biden, Zelensky tinha sido recrutado como um capanga para fazer as vontades de Washington à porta de Moscovo. O pano de fundo - aquele que os media ocidentais mantiveram em grande parte fora de vista - é que, após o colapso da União Soviética, os EUA rasgaram tratados cruciais para tranquilizar a Rússia quanto às boas intenções da NATO. Do ponto de vista de Moscovo, e tendo em conta o historial de Washington, o guarda-chuva de segurança europeu da NATO deve ter parecido mais uma preparação para uma emboscada.

Embora Trump esteja agora empenhado em reescrever a história e apresentar-se como pacificador, ele foi fundamental para a escalada de tensões que levou à invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. Em 2019, ele retirou-se unilateralmente do Tratado de 1987 sobre Forças Nucleares de Alcance Intermédio. Isso abriu a porta para que os EUA lançassem um potencial primeiro ataque contra a Rússia, usando mísseis estacionados nas proximidades dos membros da NATO, Roménia e Polónia. Também enviou armas anti-tanque Javelin para a Ucrânia, uma medida evitada pelo seu antecessor, Barack Obama, por recear que fosse vista como uma provocação.

A NATO prometeu repetidamente trazer a Ucrânia para o seu seio, apesar dos avisos da Rússia de que esse passo era visto como uma ameaça existencial, de que Moscovo não podia permitir que Washington colocasse mísseis na sua fronteira, tal como os EUA não aceitaram os mísseis soviéticos estacionados em Cuba no início da década de 1960. Washington avançou na mesma, chegando mesmo a apoiar um golpe ao estilo da revolução colorida em 2014 contra o governo eleito em Kiev, cujo crime foi ser demasiado simpático a Moscovo.

Com o país em crise, Zelensky foi eleito pelos ucranianos como candidato da paz, para pôr fim a uma guerra civil brutal - desencadeada por esse golpe - entre forças anti-russas e "nacionalistas" no oeste do país e populações de etnia russa no leste. O Presidente ucraniano quebrou rapidamente essa promessa.

Trump acusou Zelensky de ser um "ditador". Mas se o é, é apenas porque Washington assim o quis, ignorando a vontade da maioria dos ucranianos.

A mais vermelha das linhas vermelhas

A função de Zelensky era fazer um jogo da galinha com Moscovo. O pressuposto era que os EUA ganhariam qualquer que fosse o resultado. Ou o bluff do Presidente russo, Vladimir Putin, seria desfeito. A Ucrânia seria acolhida na NATO, tornando-se a mais avançada das bases avançadas da aliança contra a Rússia, permitindo que mísseis balísticos com armas nucleares ficassem estacionados a minutos de Moscovo. Ou então Putin iria finalmente concretizar as suas ameaças de anos de invasão do seu vizinho para impedir que a NATO ultrapassasse a mais vermelha das linhas vermelhas que ele tinha estabelecido sobre a Ucrânia.

Washington poderia então alegar "auto-defesa" em nome da Ucrânia, e ridiculamente simular receio perante o público ocidental de que Putin estaria a seguir a Polónia, a Alemanha, a França e a Grã-Bretanha. Foram estes os pretextos para armar Kiev ao máximo, em vez de procurar um acordo de paz rápido. E assim começou uma guerra de atrito por procuração contra a Rússia, utilizando homens ucranianos como carne para canhão. O objetivo era desgastar a Rússia militar e economicamente, e provocar o derrube de Putin.

Zelensky fez exatamente o que lhe foi pedido. Quando, no início, pareceu vacilar e considerou assinar um acordo de paz com Moscovo, o primeiro-ministro britânico da altura, Boris Johnson, foi despachado com uma mensagem de Washington: continuem a lutar. Este é o mesmo Boris Johnson que agora admite, sem qualquer problema, que o Ocidente está a travar uma "guerra por procuração" contra a Rússia. Os seus comentários não geraram qualquer polémica. O que é muito estranho, uma vez que os críticos que chamaram a atenção para este facto óbvio há três anos foram imediatamente denunciados por espalharem "desinformação sobre Putin" e "pontos de discussão" do Kremlin.

Pela sua obediência, Zelensky foi festejado como um herói, o defensor da Europa contra o imperialismo russo. Todas as suas "exigências" - exigências que tiveram origem em Washington - foram satisfeitas. A Ucrânia recebeu pelo menos 250 mil milhões de dólares em armas, tanques, jatos de combate, treino para as suas tropas, informações ocidentais sobre a Rússia e outras formas de ajuda. Entretanto, centenas de milhares de homens ucranianos e russos pagaram com as suas vidas - tal como as famílias que deixaram para trás.

Etiqueta da máfia

Agora o velho Don em Washington foi-se embora. O novo Don decidiu que Zelensky foi um fracasso caro. A Rússia não está ferida de morte. Está mais forte do que nunca. É hora de uma nova estratégia. Zelensky, imaginando ainda ser o capanga favorito de Washington, chegou à Sala Oval apenas para receber uma dura lição de etiqueta mafiosa.

Trump está a interpretar a sua punhalada nas costas como um "acordo de paz". E, em certo sentido, é-o. Com razão, Trump concluiu que a Rússia ganhou - a menos que o Ocidente esteja pronto para travar a Terceira Guerra Mundial e arriscar uma potencial guerra nuclear. Trump enfrentou a realidade da situação, mesmo que Zelensky e a Europa ainda estejam a lutar para o fazer.

Mas o seu plano para a Ucrânia é, na verdade, apenas uma variação do seu outro plano de paz - o de Gaza. Ali, quer limpar etnicamente a população palestiniana e, sobre os corpos dos muitos milhares de crianças mortas no enclave, construir a "Riviera do Médio Oriente" - ou "Trump Gaza", como lhe chamam num vídeo surrealista que partilhou nas redes sociais. Da mesma forma, Trump vê agora a Ucrânia não como um campo de batalha militar, mas como um campo económico onde, através de acordos inteligentes, pode obter riquezas para si e para os seus amigos bilionários.

Ele apontou uma arma à cabeça de Zelensky e da Europa. Façam um acordo com a Rússia para acabar com a guerra, ou estão por vossa conta contra uma potência militar muito superior. Vejam se os europeus podem ajudar-vos sem um fornecimento de armas de Washington.

Não surpreende que Zelensky, o primeiro-ministro britânico Keir Starmer e o presidente francês Emmanuel Macron se tenham reunido no fim de semana para encontrar um acordo que apaziguasse Trump. Tudo o que Starmer revelou até agora é que o plano vai "parar os combates". Isso é positivo. Mas os combates podiam ter sido travados, e deviam ter sido travados, há três anos.

Dinheiro, não paz

É profundamente insensato deixarmo-nos embalar pelo tribalismo - o mesmo tribalismo que as elites ocidentais procuram cultivar entre os seus públicos para que continuemos a tratar os assuntos internacionais como se fossem um jogo de futebol de alto risco. Ninguém aqui se comportou, ou está a comportar-se, de forma honrada.

O cessar-fogo na Ucrânia não é uma questão de paz. É uma questão de dinheiro, tal como foi a guerra anterior. Como todas as guerras são, em última análise. Um cessar-fogo aceitável para Trump, bem como para Putin, envolverá uma divisão dos bens da Ucrânia. Os minerais de terras raras, a terra e a produção agrícola serão a verdadeira moeda de troca do acordo. Zelensky compreende agora este facto. Ele sabe que ele e o povo da Ucrânia foram enganados. É o que tende a acontecer quando nos aconchegamos à máfia. Se alguém duvida da insinceridade de Washington em relação à Ucrânia, que olhe para a Palestina para ficar esclarecido.

No início da sua presidência, Trump tentou concretizar aquilo a que chamou o "acordo de paz do século", cuja peça central era a anexação de grande parte da Cisjordânia ocupada. A esperança era que os Estados do Golfo acabassem por financiar um programa de incentivo - a cenoura para o pau de Israel - para encorajar os palestinianos a fazer uma nova vida numa gigantesca zona industrial construída para o efeito no Sinai, junto a Gaza. Esse plano ainda está a fervilhar nos bastidores. No fim de semana, Israel recebeu luz verde de Washington para reavivar a sua fome genocida da população de Gaza, depois de Israel se ter recusado a negociar a segunda fase do acordo de cessar-fogo original. A administração Trump e o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, estão agora a fazer passar a sua própria má fé por "rejeição" do Hamas.

Eles e a câmara de eco que são os media ocidentais estão a culpar o grupo palestiniano por se recusar a ser enganado numa "extensão" do que nunca passou de um falso cessar-fogo - o fogo de Israel nunca cessou. Israel quer todos os reféns de volta, sem ter de sair de Gaza, para que o Hamas não tenha qualquer influência para impedir Israel de reativar o genocídio total.

O povo de Gaza continua a ser alimentado no moinho de carne da máfia de Washington, tal como o povo ucraniano tem sido. Trump quer tirá-los do caminho para poder desenvolver um parque de diversões mediterrânico para os ricos, pago com o dinheiro do petróleo do Golfo e com as reservas de gás natural, até agora inexploradas, ao largo da costa de Gaza. Ao contrário dos seus antecessores, Trump não finge que a Ucrânia e Gaza são mais do que bens imobiliários geoestratégicos para Washington.

O grande abalo

A extorsão de Zelensky não surgiu do nada. Trump e os seus funcionários tinham-na assinalado com bastante antecedência. Há duas semanas, o correspondente industrial do jornal britânico Daily Telegraph escreveu um artigo intitulado "Eis porque Trump quer fazer da Ucrânia uma colónia económica dos EUA". A equipa de Trump acredita que a Ucrânia pode ter minerais de terras raras debaixo do solo no valor de cerca de 15 biliões de dólares - um tesouro que será fundamental para o desenvolvimento da próxima geração de tecnologia. Na sua opinião, o controlo da exploração e extração desses minerais será tão importante como o controlo das reservas de petróleo do Médio Oriente foi há mais de um século.

E o mais importante de tudo é que os EUA querem que a China, o seu principal rival económico - se não mesmo militar - seja excluída da pilhagem. A China detém atualmente o monopólio efetivo de muitos destes minerais críticos. Ou, como diz o Telegraph, os "minerais da Ucrânia oferecem uma promessa tentadora: a possibilidade de os EUA quebrarem a sua dependência dos fornecimentos chineses de minerais críticos que são utilizados em tudo, desde turbinas eólicas a iPhones e caças furtivos". Um rascunho do plano visto pelo Telegraph, nas suas palavras, "equivaleria à colonização económica da Ucrânia pelos EUA, com perpetuidade legal". Washington quer ter preferência em todos os depósitos no país.

No seu confronto na Sala Oval, Trump reiterou este objetivo: "Por isso, vamos utilizá-los [os minerais de terras raras da Ucrânia], tirá-los e utilizá-los para todas as coisas que fazemos, incluindo a IA, as armas e as forças armadas. E isso vai realmente satisfazer as nossas necessidades". Tudo isto significa que Trump tem um grande incentivo para que a guerra termine o mais rapidamente possível e para que o avanço territorial da Rússia seja travado. Quanto mais território Moscovo conquistar, menos território restará para os EUA pilharem.

Auto-sabotagem

A batalha contra a China por causa dos minerais de terras raras também não é uma inovação de Trump - e acrescenta uma camada adicional de contexto para explicar por que razão Washington e a NATO têm estado tão empenhados, nas últimas duas décadas, em afastar a Ucrânia da Rússia.

No verão passado, uma comissão restrita do Congresso sobre a concorrência com a China anunciou a formação de um grupo de trabalho para contrariar o "domínio de minerais críticos" de Pequim.

O presidente da comissão, John Moolenaar, observou que a atual dependência dos EUA em relação à China para estes minerais "tornar-se-ia rapidamente uma vulnerabilidade existencial no caso de um conflito". Outro membro da comissão, Rob Wittman, observou: "O domínio das cadeias de abastecimento mundiais de minerais críticos e de elementos de terras raras é a próxima fase da competição entre grandes potências".

O que Trump parece apreciar é o facto de a guerra por procuração da NATO contra a Rússia na Ucrânia ter, por defeito, levado Moscovo a aproximar-se ainda mais de Pequim. Tem sido uma auto-sabotagem em grande escala. Juntos, a China e a Rússia são um adversário formidável, que está no centro do crescente grupo Brics - composto pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Têm procurado expandir a sua aliança, acrescentando potências emergentes, para se tornarem um contrapeso à agenda global intimidatória de Washington e da NATO.

Mas um acordo com Putin sobre a Ucrânia daria a Washington a oportunidade de construir uma nova arquitetura de segurança na Europa - mais útil para os EUA - que colocasse a Rússia dentro da tenda e não fora dela. Isso deixaria a China isolada - um objetivo de longa data do Pentágono. E também deixaria a Europa menos central para a projeção do poder dos EUA, razão pela qual os líderes europeus - liderados por Keir Starmer - têm parecido e soado tão nervosos nas últimas semanas.

O perigo é que a "pacificação" de Trump na Ucrânia se torne simplesmente um prelúdio para o desenvolvimento de uma guerra contra a China, usando Taiwan como pretexto, da mesma forma que a Ucrânia foi usada contra a Rússia. Como Moolenaar sugeriu, o controlo dos EUA sobre minerais críticos - na Ucrânia e noutros locais - garantiria que os EUA deixariam de ser vulneráveis, no caso de uma guerra com a China, a perder o acesso aos minerais de que necessitariam para continuar a guerra. Isso libertaria a mão de Washington.

Trump pode estar a comportar-se de uma forma ordinária. Mas o império de gangsters que ele agora dirige está a liderar a mesma extorso global de sempre.

Posted by OLima at quarta-feira, março 05, 2025 

https://onda7.blogspot.com/2025/03/leituras-marginais_01749339301.htm
https://www.middleeasteye.net/opinion/trump-vulgar-us-global-shakedown-same-one-everl

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Viriato Soromenho Marques - A EUROPA À BEIRA DE UMA GUERRA IRRACIONAL

«A EUROPA À BEIRA DE UMA GUERRA IRRACIONAL! MAS SEREMOS CAPAZES DE A IMPEDIR?»

 * Maria João Caetano

2025 12 14 

O filósofo Viriato Soromenho Marques aponta o dedo aos EUA e à Europa pela forma como trataram a Rússia e subestimaram Vladimir Putin. E espera que no meio da escalada a que temos vindo a assistir, os líderes políticos de hoje tenham a inteligência que outros tiveram no passado e saibam dar um passo atrás. Até porque, os desafios que a nossa civilização enfrenta vão muito além da possibilidade de uma guerra: "A guerra nuclear será um ataque cardíaco. Por outro lado, a esclerose generalizada, que é um processo de morte, mas mais lento, é a crise ambiental"

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«Eu fiz as contas. No dia 12 de janeiro do próximo ano, a guerra na Ucrânia, a tal operação especial, como dizem os russos, terá mesma duração da guerra da Alemanha com a Rússia na Segunda Guerra Mundial. São 1.418 dias. De 22 de junho de 1941, quando Hitler invade a União Soviética até 8 de maio de 1945." No dia 12 de janeiro de 2026, completam-se 1.418 de guerra da Ucrânia. "E não me parece que neste momento a Rússia esteja esgotada", diz. "Tudo indica que este esforço de guerra está a acontecer com economia de meios e com economia de baixas", diz Soromenho Marques. Podemos estar numa escalada que obrigue a Rússia ou a desistir ou então a passar para a fase seguinte, com as armas nucleares, antecipa. "A verdade é que não temos nenhum exemplo de uma guerra nuclear anterior entre potências nucleares. O meu receio é que ninguém saiba controlar esta escalada».

Foi no passado dia 12, numa noite de inverno, fria e chuvosa, que um grupo de "corajosos", como lhe chamou Viriato Soromenho Marques, se juntou no auditório da Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva para o debate "Guerra e paz: respostas, causas e soluções de hoje", o último dos três debates do ciclo "Uma ideia de harmonia", comissariado pela jornalista Alexandra Carita. Na mesa estava também Tatiana Moura, diretora da plataforma masculinidades.pt e investigadora do CES - Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Mas foi o filósofo e professor da Universidade Nova de Lisboa que, inegavelmente dominou a conversa.

Em 1983, em plena Guerra Fria, Viriato Soromenho Marques era um jovem a fazer inter-rail e passou algum tempo em casa de um amigo em Witten, na Alemanha. A estadia coincidiu com muitas manifestações pela paz devido à crise dos "euromísseis". "Nessa altura, a tensão entre o Pacto de Varsóvia e a NATO tinha crescido de forma exponencial. Novos mísseis estavam a ser colocados, quer no lado do lado soviético, quer do lado norte-americano e europeu", recorda o filósofo que tem atualmente tem 68 anos. "Só que nessa altura existia uma literacia sobre guerra nuclear que hoje está completamente ausente", diz, lembrando, por exemplo, que a mãe do amigo, que era dona-de-casa, "saía da sua vida e ia para a rua protestar"; ou ainda que havia uma canção "muito medíocre" que nesse verão foi um sucesso na Alemanha, intitulada "Besuchen Sie Europa (solange es noch steht)" - "Visita a Europa enquanto ela ainda lá está", que falava precisamente dessa ideia de que "isto vai acabar tudo em breve".

Terá sido esta vivência que o despertou para o problema da guerra na Europa. Depois dessa viagem, Viriato começou a pesquisar e a fazer entrevista e, em 1985, publicou o livro "Europa, o risco do futuro: a incerteza estratégica dos anos 80". O livro foi publicado duas semanas antes de Gorbachev ter tomado posse, iniciando o caminho para o fim da Guerra Fria.

"Isto que está a acontecer agora [na Europa], para mim, tem 42 anos. Isto não começou no dia 24 de fevereiro de 2022", diz, concluindo: "Para mim, isto é um pesadelo, porque eu, nessa altura, já era ambientalista e olhava para estas duas grandes ameaças. Por um lado, o ataque cardíaco. A guerra nuclear será um ataque cardíaco. Por outro, a esclerose generalizada, que é um processo de morte, mas mais lento, que é a crise ambiental", diz, introduzindo aqui um tema que é essencial no seu pensamento. Mas já lá vamos. Para entender o que se passa hoje na Europa o professor recua, precisamente, até à Guerra Fria e ao modo como esta terminou. E talvez, até, recuar um pouco mais, e perceber porque é que existem guerras.

 

AS GUERRAS SÃO EVITÁVEIS?

 

"Em toda guerra existe violência, mas nem toda violência é guerra. Isto é importante porque a violência pode ser exercida pelo indivíduo, está relacionada, individualmente, com a agressividade. Mas a condição fundamental para a guerra é a existência de uma entidade artificial, que é o estado - uma estrutura que é uma pessoa coletiva, uma estrutura sem paixão, que decide do uso da violência bélica", explica Viriato Soromenho Marques.

É por isso que para perceber as guerras é preciso entender o conceito de estado soberano. "A guerra e a paz entre nações está também associada à teoria do contrato social, que se parece um pouco com a física atómica", diz. "Temos os indivíduos que são pequenos átomos e que depois se organizam em moléculas que são sociedades." Na ordem política e na ordem legal, existe um poder de sanção. Mas, neste aspeto, "a analogia com a sociedade das nações é imperfeita. Porque na sociedade das nações não existe esse poder de sanção, é um direito imperfeito. Isto é, podem existir tribunais internacionais. Há tratados. Há uma Organização das Nações Unidas. Mas não existe um poder comum capaz de aplicar a sanção. As grandes potências não são sancionáveis."

Thomas Hobbes, pensador doa séculos XVI XVII, dizia que "os príncipes e os Estados estão permanentemente em estado de natureza, ou seja, preparados para a guerra. E não há nenhum tratado, não há nenhuma lei internacional que leve os príncipes a dormir descansados. É por isso que têm exércitos permanentes. Porque há uma desconfiança permanente".

O professor cita ainda o general prusso Carl von Clausewitz ("uma espécie de Newton da guerra"), que no século XIX escreveu a obra "Vom Krieg - Da Guerra", que é, nas suas palavras, "o grande livro contemporâneo sobre a guerra": "A guerra é uma ação em que a violência é usada como instrumento de objetivos políticos". Clausovitz diz mais: "A guerra é a continuação da política por outros meios" - uma frase que já todos ouviram. O que é que isto significa? "A guerra tem apenas uma gramática, a política tem a lógica. E deve ser a política que comanda a guerra. Evidentemente que para fazer a guerra é preciso tecnologia, é preciso treino, etc. Mas isso é a gramática. E no limite, se fosse possível, atingir esses objetivos sem a violência, não haveria guerra. Mas sem a violência não há coação. Agora, o que pode acontecer é que, perante ameaça do uso da força militar, um Estado pode recuar e conceder. Clausevitz considera que quando a diplomacia falha é muito improvável que se consiga retomá-la sem o sucesso das armas."

"Na guerra existe uma lógica essencialmente de custo-benefício. O pensamento estratégico militar é um pensamento de custo-benefício. É um pensamento instrumental. A ideia de uma guerra com as luvas brancas não existe", afirma o filósofo. Não existe guerra sem danos colaterais e sem crimes de guerra. O que os políticos que tomam a decisão de iniciar ou entrar numa guerra fazem é tentar avaliar se vale ou não a pena. Isto, dito assim, pode parecer cruel, mas não é novo. "Os aliados, que venceram a Alemanha nazi, também cometeram imensos crimes. Hamburgo foi destruída em julho de 1943 e 40 mil pessoas foram mortas com bombas de fósforo. Antes das bombas atómicas, que foram crimes de guerra também, porque visaram populações civis, tivemos 700 mil japoneses que foram vítimas de bombardeamentos convencionais pela aviação americana. Isso são crimes de guerra", sublinha.

 

UMA GUERRA IRRACIONAL – EM QUE TODOS SAEM DERROTADOS

 

"Hoje em dia, a guerra que podemos ter será uma guerra absolutamente irracional", diz Viriato Soromenho Marques. Porquê? Segundo Clausevitz, a guerra é até 1945, tinha violência, mas tinha racionalidade. "Ou seja, havia sofrimento, mas havia a possibilidade da vitória. Os povos perdiam milhões de vidas, mas atingiam o objetivo e havia vitória. Hoje, é uma das características da guerra contemporânea, é a possibilidade de uma guerra em que todos saem derrotados".

Durante os 40 anos da Guerra Fria, houve um consenso entre os dois lados, explica o professor. A crise dos misseis de Cuba em outubro de 1962, em que o mundo esteve à beira de uma guerra nuclear, "fez com que tanto Krushov como o Kennedy percebessem o que seria a irracionalidade da guerra", diz Soromenho Marques. "O que Kennedy fez a seguir a outubro de 62 foi fundamentalmente um processo de construção da paz, em colaboração com a União Soviética: a criação do telefone vermelho, a proibição de testes nucleares e outras ideias que ele tinha para a frente, de cooperação alargada com a União Soviética e com os países que estavam no Pacto de Varsóvia e que o assassinato impediu. No discurso que fez em Washington em 10 de junho de 63, Kennedy dizia o seguinte: 'Enquanto defendem os seus próprios interesses vitais, as potências nucleares devem evitar os confrontos que levam o adversário a optar entre uma retirada humilhante ou uma guerra nuclear. "Adotar esse tipo de atitude, ou seja, querer insistir numa escalada em potências nucleares, na era nuclear, seria apenas uma prova da falência da nossa política ou de um desejo coletivo de morte'."

Ronald Reagan, que foi presidente dos EUA durante a Guerra Fria, "acolheu positivamente, com entusiasmo, Gorbachev", diz o professor, contando algo que percebeu ao ler as memórias do presidente: "Em novembro de 1983, Reagan foi um dos primeiros americanos a ver até o filme 'The Day After' [filme ficção científica que imagina o que aconteceria após uma guerra nuclear]. E ele ficou aterrorizado com o que viu. É interessante que em janeiro de 84 ele faz um discurso que causou surpresa. Enquanto o discurso do ano anterior tinha sido o discurso do "Guerra da Estrelas", vamos criar um sistema no espaço, o discurso de janeiro de 84 dizia que temos de evitar a autodestruição".

 

O FIM DA UNIÃO SOVIÉTICA: UMA OPORTUNIDADE DESPERDIÇADA

 

A Guerra Fria prolongou-se, com esse jogo de contenção de forças, até à Perestroika. Viriato Soromenho Marques considera que a transição democrática da União Soviética, com a "dissolução pacifica do Pacto de Varsóvia", "é o único caso que temos na História em que um sistema bipolar acaba porque o outro lado desiste".

Inicialmente, recorda o filósofo, "houve imensa vontade de estabelecer relações, de apoiar economicamente a transição da Rússia. O que eles fizeram foi uma coisa brutal". Mas logo se percebeu que os interesses económicos se iriam sobrepor aos bem político. Passou-se "de uma economia planificada que não funcionava, para uma economia de mercado que foi pilhada. O que aconteceu no tempo do Ieltsin foi uma catástrofe para a Rússia. A Rússia perdeu cinco anos de esperança de vida. O desemprego galopou. A mortalidade infantil aumentou imenso. O alcoolismo explodiu. A criminalidade, as mortes violentas. Depois, a formação dos oligarcas, a privatização com as grandes companhias americanas por trás. No fundo, a Rússia era um cadáver gigantesco, 17 milhões de quilómetros quadrados, que estava ali para ser devorado", diz Soromenho Marques.

"Foi uma tragédia. Não só económica, mas também política." A Europa poderia ter-se tornado um aliado, um parceiro. "Era preciso criar uma relação de confiança mútua, e isso não aconteceu. Até porque era preciso ter um inimigo, como é que nós vendíamos a expansão da Nato se não tivéssemos um papão do lado lá?"

"O analfabetismo e russofobia é também uma coisa que nos está a envenenar. Envenena-nos a alma e corrói o pensamento", afirma Soromenho Marques.

 

QUANDO PUTIN DEIXOU DE SER UM AMIGO – AS ORIGENS DA GUERRA DA UCRÂNIA

 

Soromenho Marques diz que é preciso "admitir o fracasso de todas as políticas que começaram em 1991, quando os Estados Unidos recusaram integrar a Rússia no sistema internacional" e decidiram deixar a Rússia de foram da Nato. "Esta guerra [na Ucrânia] começou porque a Rússia não tinha garantias de segurança. Pediu primeiramente que a Nato não se alargasse, mas a Nato alargou-se. Depois pediu para não se alargar para zonas que são estratégicas, porque as grandes potências têm zonas de segurança, a que se chama zonas de influência", e, mais uma vez, isso não acontece. Em 2008, em Bucareste, a Nato ofereceu um convite à Ucrânia. "E Putin, que nessa altura era convidado a ir às reuniões da Nato, fez um grande discurso a explicar porque é que isso era uma coisa que não podia ser aceite pela Rússia. Então, Sarkozy e Merkel falam com Bush e decidem arrastar isso para não arranjar problemas. As coisas foram-se arrastando assim."

"O ponto em que as coisas realmente se transformaram foi com a Praça Maidan. Foi aí que as coisas se tornaram mesmo azedas", diz o filósofo. "Esta guerra começou aí. A Operação Especial começou na Praça Maidan. O Viktor Yanukovych foi eleito em eleições reconhecidas por todos os observadores, incluindo os nossos, da União Europeia, que estiveram lá. A Victoria Nuland, que é a vice-secretária de Estado, esteve pessoalmente a comandar as operações de montagem da Praça Maidan. Inclusive ela, no inverno, em dezembro de 2013, faz uma pequena intervenção, em que chega a dizer que até agora o nosso investimento na Ucrânia foi de cinco milhões de dólares. Em 2024, o historiador ucraniano Ivan Katchanovski publicou um livro notável a explicar a Praça Maidan."

"A Alemanha foi seduzida pela possibilidade de também tirar algum partido da Ucrânia. E, além disso, ninguém acreditava que a Rússia tivesse capacidade para fazer esta guerra. O Biden dizia, em 2017: os russos engolem tudo o que lhe pusermos pela garganta abaixo", lembra Soromenho Marques. Em 2019, ainda Merkel estava no poder, e a Ren Corporation, que é o principal think tank da política externa americana, publica um livro que se chamava "Extending Russia". Esses analistas diziam que se deviam "criar dificuldades em muitos pontos à Rússia para que ela se parta. E um dos objetivos do Extending Russia é impedir a ligação entre a Alemanha e a Rússia. Não só energética. Avisadamente, eles percebiam que uma boa relação entre a Alemanha e a Rússia ia causar problemas a quem queria continuar a ser o dono do mundo".

 

O FIM DO DOMÍNIO AMERICANO E AS NOVAS RELAÇÕES DE PODER .

"Os Estados Unidos estão, nesta fase, a passar de interveniente principal, para algo diferente", afirma Soromenho Marques. "Reconhecem que já não têm capacidade para aquele pesadelo que foi o unipolarismo. Biden foi o último representante da ideia tonta de que era possível os Estados Unidos dominarem o mundo e imporem, com recompensas e com violência e com sanções, o domínio. Hoje estamos num mundo completamente diferente."

E explica: "Do ponto de vista económico, os Estados Unidos são uma sombra do que foram. No auge do poderio americano, no tempo do Truman, 50% do produto interno bruto era americano. Hoje, os Estados Unidos têm uma percentagem muito menor, estamos a falar de 20%, 21%. para ser otimista. Por outro lado, do ponto de vista científico, a situação é absolutamente avassaladora. No ano passado, um instituto australiano publicou um estudo que era uma análise de 20 anos de inovação científica no mundo, em 64 tecnologias de ponta. E o contraste é absolutamente esmagador. Em 2003, os Estados Unidos dominavam 61 das 64. E a China dominava 3. Em 2023, a China domina 57 das 64. E os Estados Unidos dominam as outras 7."

"Ou seja, o que temos hoje é um novo sistema internacional. Estamos numa fase horrível que é a transição. As transições são sempre terríveis, mesmo na vida dos indivíduos", diz o professor. Mas há algo positivo nesta situação, que é o facto de os Estados Unidos "já não considerarem a China como um inimigo com o qual poderiam entrar em guerra em 15 anos, mas como um competidor. Há uma diferença entre competidor e inimigo".

Já em relação à Rússia, na Estratégia de Segurança Nacional (ESN) os EUA assumem o objetivo de "estabilizar as relações com a Europa, nomeadamente com a Rússia. O que não parece uma coisa idiota, parece uma coisa até bastante sensata. Não sei como é que é possível alguém que conheça um pouco da situação atual e da situação histórica pensar que é possível excluir a Rússia do sistema internacional e do sistema europeu, para mim é uma ideia completamente absurda", afirma.

E A EUROPA NO MEIO DE ISTO TUDO?

 

"Estamos a viver um desastre do projeto europeu", diz Viriato Soromenho Marques, lembrando que em 2014 publicou livro sobre a crise do euro que se chamava "Portugal na queda da Europa". "A tese era que a crise de 2008 não foi uma crise das dívidas soberanas, como se dizia, foi uma crise do euro. O euro foi construído sem qualquer mecanismo que o tornasse uma moeda funcional, não era uma moeda federal. O euro foi criado sem sequer um sistema de prevenção das crises bancárias, por exemplo. Nada. E os países endividaram-se nessa altura para socorrer o sistema financeiro, os bancos, que estavam lá soltos. Os bancos nessa fase inicial faziam o que queriam. Falhámos. O Euro podia ser a primeira etapa do federalismo europeu, e nós falhámos. Em 2014, a minha perspetiva era que estávamos a entrar num processo de decadência europeia, de queda".

"Só que agora já estamos dentro da queda", admite, dando como exemplo máximo a forma como a Europa está a conduzir esta guerra na Ucrânia. "Primeiro: não temos nenhuma providência, nenhum artigo que conceda os poderes que a senhora von der Leyen se arrogou para funcionar como se fosse a comandante suprema de uma coisa que não existe, que são as Forças Armadas Europeias. Segundo: existe uma confusão total entre a União Europeia e a NATO. Chegámos a este ponto. Confundimos totalmente. Terceiro: o uso de procedimentos, e dia 18 de dezembro vamos ver se isto vai acontecer ou não, procedimentos que vão conduzir a uma situação dramática".

Depois de na passada sexta-feira a União ter aprovado, por maioria e com os votos contra da Hungria e Eslováquia, uma decisão para manter os ativos russos imobilizados indefinidamente no espaço comunitário, o tema volta a ser debatido esta semana pelos ministros europeus dos Negócios Estrangeiros que vão decidir se esse dinheiro pode ser usado para o empréstimo de reparações à Ucrânia. "Se isso for roubado à Rússia e entregue à Ucrânia, eu acho que somos nós, os europeus, que não depositamos mais o nosso dinheiro aqui, são também os estrangeiros que cá têm dinheiro que vão para outro sítio", antecipa o filósofo. "A gente do mundo árabe, a gente da África, a gente da América Latina, os magnatas, etc., vão para outro sítio. E também os portugueses. Vão transformar esses euros em ienes e vão pô-los na China, ou transformam-nos dólares e põem nos Estados Unidos."

 

A ESCALADA ACTUAL: "NÃO PODEMOS. COMO CIDADÃOS, ACEITAR ESTE DISCURSO DA INEVITABILIDADE DA GUERRA”

 

Chegamos, assim, aos dias de incerteza em que vivemos. Viriato Soromenho Marques "colecionou" uma série de frases proferidas nos últimos dias por "altos responsáveis políticos e militares da nossa Europa" e que mostram bem o estado do mundo:

 

• 3 de Novembro: Boris Pistorius, ministro da defesa da Alemanha, falando sobre o plano de reconstrução armamentista da Alemanha, que está outra vez na corrida dos armamentos, está a preparar um sistema que permita a rápida passagem para leste, ou seja, em direção à Rússia de 800 mil soldados da NATO, disse: "Há quem fale que a guerra vai ser em 2029. Há outros que dizem que vai ser em 2028. Mas há alguns que dizem mesmo que gozámos em 2025 o último verão em paz".

 

• 16 de novembro: o general Fabien Mandon, que era conselheiro do presidente Macron, da França, diz que "temos de aceitar perder os nossos filhos, sofrer economicamente".

 

• 3 de Dezembro: o almirante Giuseppe Cavo Dragone, chefe do Comité Militar da Nato, disse ao Financial Times que a NATO deveria considerar a possibilidade de uma ação preventiva contra a Rússia.

 

• 11 de Dezembro: Mark Rutte, secretário-general da NATO, diz que "depois da Ucrânia nós somos o próximo alvo da revolução. E nós precisamos estar prontos. Devemos estar preparados para uma guerra da escala dos nossos avós e dos nossos bisavós. Preparados para a possibilidade de milhões de mortos" e dizendo que, por isso, nós precisamos gastar 5% do PIB na corrida ao armamento.

 

• Entretanto, Vladimir Putin, interrogado numa conferência de imprensa, a seguir às declarações de Dragone, diz: "Se a Europa começar subitamente, o tal ataque preventivo, uma guerra contra nós, eu penso que essa guerra acabará rapidamente. Isso não será a Ucrânia. Com a Ucrânia nós estamos a atuar com precisão cirúrgica, cuidadosamente, isto não é uma guerra no sentido direto, moderno da palavra. Se a Europa começar uma guerra contra a Rússia, em breve, Moscovo não terá ninguém com quem negociar."

Perante isto, Soromenho Marques questiona-se até que ponto é que aquela ideia de Kennedy, que é fruto do conceito da "destruição mútua assegurada", ainda estará atualizada. "Na altura de Kennedy existiam 70 mil armas militares. Hoje existem à volta de 13 mil. Mas 13 mil são suficientes para dar cabo de tudo. E eu pergunto-vos, será que estas pessoas partilham desta preocupação?", pergunta.

E ainda, mais incisivo: "A questão que me parece prioritária é não aceitarmos, como cidadãos, este discurso da inevitabilidade da guerra", diz.

Na sua perspetiva, "uma guerra em que fossem usadas armas nucleares representaria o fim da história". "Mas vamos pensar que haverá ainda alguma sombra de cuidado com o futuro, e alguma inteligência também, e que não vamos entrar por aí", diz, recorrendo ao que resta do seu otimismo.

 

"QUAL A POSSIBILIDADE QUE TEMOS DE SOBREVIVER A ISTO? (E «ISTO» NÃO É SÓ A GUERRA NA UCRÂNIA)”

 

"Este conflito [na Ucrânia] é o centro do vulcão. Claro que temos conflitos noutros lugares no mundo, mas a Europa é, mais uma vez, o centro do vulcão e é onde, de facto, a situação pode ficar completamente fora de controlo. Mas eu pergunto: será apenas na guerra que estamos fora do controlo? Não me parece." Viriato Soromenho Marques tem um olhar mais abrangente. "Nós, europeus, temos muito orgulho na maturidade, com todo o contributo para a ciência e para a tecnologia moderna, mas realmente os grandes desígnios da modernidade, que eram a emancipação humana, que era, como no tempo do grefos, vencer um destino, uma moira, a que estávamos condenados pelos deuses, ou, como dizia depois Descartes, vencer a vida curta, prolongar a vida humana, impedir as tragédias, o sofrimento - será que conseguimos isso? A verdade é que nós construímos um aparato gigantesco para combater esse destino natural, mas temos uma crise existencial na área do ambiente. Portanto, eu colocaria o nosso debate sobre a guerra e a paz no quadro de uma interrogação ainda mais penetrante: qual é a possibilidade que temos de sobreviver a isto? Onde é que erramos? E teremos a coragem para primeiro identificar as causas fundamentais e depois agir em consequência? Ou seja, sermos capazes de fazer a renúncia a tanta coisa a que nos acostumamos a considerar fundamentais?"

A verdade, diz, "é que estamos numa situação em que, perante os desafios existenciais que temos, nomeadamente o facto de estarmos a viver num planeta que estamos a destruir, que estamos a devorar", deveríamos estar preocupados com outros problemas. "Quando começou a guerra na Ucrânia, surgiu um artigo chamado 'Uma guerra no convés do Titanic'. Nós temos que que fazer o possível para que ele não afunde. E neste momento não vemos muita gente que esteja preocupada com isto", lamenta.

Na sua opinião, seria necessária "uma visão integrada". Em primeiro lugar, deveríamos "tomar consciência da gravidade da situação. Já não é evitar, não, é de fazer uma adaptação que permita a continuação da história humana e que permita uma visão de reconstrução do modo como as nossas instituições, nomeadamente a nossa economia, que é uma economia primitiva. Nós precisamos de uma economia ecológica, ou seja, de uma economia que considere que é um subsistema da ecologia e não o contrário".

Cícero dizia que «a salvação do povo seja a suprema lei».

«Quando a gente fala em salvação do povo, está a falar fundamentalmente da vida das pessoas e da fazenda das pessoas, do que as pessoas têm. A minha preocupação é com a nossa vida. Porque acho que a fazenda já está perdida».

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Wyndham Lewis, «The Waste Land», sobre o poema de T.S. Eliot

https://cnnportugal.iol.pt/guerra/ucrania/nao-podemos-aceitar-este-discurso-da-inevitabilidade-da-guerra-a-europa-esta-a-beira-de-uma-guerra-irracional-mas-seremos-capazes-de-a-impedir/20251215/693fe7afd34e3caad84c62ea

sábado, 6 de dezembro de 2025

Domingos Lopes - Give peace a chance





* Domingos Lopes


GIVE A PEACE CHANCE, como cantava John Lennon

Há quase quatro anos que o Ocidente (EUA/NATO/UE) decretou que a Rússia teria de ser derrotada na Ucrânia, demorasse o tempo que demorasse o apoio a Zelenski.

Legiões de figuras de todo o tipo diariamente contavam maravilhas acerca das capacidades ocidentais e das miseráveis condições dos russos. Salvo meia dúzia de honrosas exceções todos afinavam pelo mesmo livro de pensamento único – a Rússia vai perder a guerra.

Há sentimentos na vida que cegam como o da arrogância que tomou conta desta tríade ocidental. Relembre-se o caso de Ursula von der Leyen que no seu destemperado ódio à Rússia chegou a afirmar que a Rússia, com as sanções, nem de frigoríficos iria dispor porque precisava dos chipes para armamento. Jornalistas houve que noticiaram que as espingardas da Rússia eram da 1ª Guerra Mundial e que os soldados nem ração tinham, e os cancros de Putin eram a rodos…

Houve até um Ministro dos Negócios Estrangeiros, o Dr. João Cravinho, que anunciou que Putin se fosse de férias ao Algarve seria preso. Stoltenberg, o então Secretário-Geral da NATO, ficou famoso por anunciar que apoiaria a Ucrânia o tempo que fosse preciso. O novo, capacho de Trump, ainda andará a agradecer ao imperador de Largo-a-Mar na Florida o apoio à Ucrânia que se está a ver nos famosos 28 pontos.

Zelenski, o Churchil ucraniano, rodeado de corruptos por todos os lados, o homem que mais armamento pediu (percebe-se melhor agora o seu papel com tantos ministros fugidos) já manifestou a sua vontade de negociar com os EUA o tal plano de Anchorage entre UEA e Rússia.

Do lado europeu anda tudo com a cabeça à roda. Os principais dirigentes da UE entraram em choque com a realidade circundante, designadamente a Leste, e entre si.

A decisão política face à invasão da Rússia da Ucrânia de apresentar ao mundo a impossibilidade da Rússia vencer, contando para tanto com o apoio dos EUA, revelou uma vez mais a total insignificância de pensamento político-estratégico. Os EUA querem “largar” a Ucrânia porque estão bem dentro do conflito, são eles que que comandam a Ucrânia e perceberam que não têm como travar militarmente a Rússia. Aqui bate o ponto. Em vez de uma humilhante derrota tentam sair por cima, se for possível.

Deve ter-se presente o plano dos EUA já mil vezes divulgado a partir da Rand Corporation, think-tank do Pentágono, de fragmentar a Rússia a partir do conflito militar da Ucrânia, assim definido pelo conselheiro de Segurança da Ucrânia Oleksei Resnikov em 06/01/2023 no TSN Canal 1+1…A OTAN dá as armas e nós o sangue…

Creio que esta afirmação de uma personalidade como Reznikov diz tudo quanto à envolvência dos EUA e à ideia da derrota militar da Rússia. O Ocidente subvalorizou o poderio militar e económico da Rússia e a sua arrogância impediu-o de ver que o mundo mudou e o Sul Global, mesmo que ainda incipiente, é uma realidade, sem falar dos BRICS.

Por outro lado, o “nosso” aliado aplicou-nos um golpe de mestre ao cortar a ligação da UE com a Rússia designadamente a nível de energia, onde assentava o crescimento industrial da Alemanha. Os europeus, se quiserem, têm de comprar a energia aos EUA, muito mais cara, ficando na dependência de alguém cuja coerência é assinalável…

Com este eventual fiasco da UE devemos ter presente o que se está a passar na frente dos nossos olhos.

Os dirigentes da UE sem qualquer mandato para tal e contra a filosofia fundadora da UE cavalgam uma corrida armamentista que gela o sangue. A Alemanha quer avançar para a guerra com a Rússia, na França um chefe militar diz que os franceses têm de assumir a coragem de ir morrer contra a Rússia…mas, há sempre um mas.

A França olha para o rearmamento da Alemanha desconfiada e a Polónia estremece, enquanto na própria UE há quem não esteja pelos ajustes.

A corrida aos armamentos pode ser a tentativa do neoliberalismo reinante na UE de justificar o empobrecimento e a limitação dos valores democráticos fundadores. Ou seja, face à impossibilidade de sair das políticas recessivas onde mergulharam os países, tentam erguer uma cortina de fumo para esconder a política de empobrecimento que vem a caminho com a famigerada ideia de garantir fundos para a guerra, cortando na política social, cultural e ambiental da UE.

Claro que uma política dessa estirpe irá não só a nível interno criar enormes tensões, como a nível dos Estados membros choques entre vários países que não querem ser atrelados ao carro da pobreza, pois esta política provocará ainda maior desigualdade entre eles. A campanha da guerra visa esconder exatamente esta perfídia.

Tenha-se presente que um fulano como Durão Barroso, que devia responder num Tribunal Internacional pelos crimes de guerra contra a Humanidade resultante da monstruosa mentira de que o Iraque tinha armas de destruição massiva, salta agora para os media proclamando que a Rússia vai invadir a Europa, bem sabendo que uma tal afirmação é uma mentira do tamanho de toda a Europa. O homem que perdeu toda a sua credibilidade como líder político, tenta agora na posição de neobanqueiro guindar-se no plano político, jogando com a perda de memória de um dos maiores crimes cometidos contra o direito internacional.

Os principais dirigentes da UE estão metidos num beco aparentemente sem saída. Estão unidos no empobrecimento dos povos, divididos quanto ao modo como fazer, dadas as contradições entre os Estados.

Como a UE é um conjunto de Estados com diferentes políticas de defesa é evidente que os grandes gostariam de unificar forças militares para serem eficazes, mas o problema real é: ao serviço de quem e de quê ?  

A política neoliberal é muito previsivelmente incapaz de conseguir tal desígnio porque ela funda-se na hierarquia do país mais forte que é a Alemanha, o que não é aceite nem pela França, Polónia e até Reino Unido, de fora da UE.

Resta levar à prática uma outra política de paz, desarmamento e cooperação. É preciso desarmar e não de armar. A mais firme e eficaz política de segurança europeia é partir para o desarmamento pan-europeu com a Rússia e os EUA. A Rússia faz parte da Europa e nunca irá sair do continente; os EUA não são europeus, mas pelo seu peso no mundo e face à NATO é benéfica a sua participação numa tal política.

Não há que ter medo – o desafio é desarmar e nunca armar. É preciso diminuir o armamento na Europa conjuntamente com a Rússia, criar um clima normal entre gente normal que quer viver dignamente onde que que viva no continente cuja História exige outra responsabilidade.

A Ucrânia não poderá ser uma ferida a sangrar no continente. Após o conflito é necessário abrir canais de cooperação para reestabelecer medidas de confiança entre os povos envolvidos no conflito. Talvez, porque não, uma Conferência Europeia para a Paz e a Cooperação entre todas as nações. Este é o caminho. Se a guerra terminar é preciso que nunca mais se reacenda, como aconteceu já também acontecera na Jugoslávia.

Creio com todas as forças, que quando os figurões do armamento pedem mais dinheiro para a indústria da morte, é preciso que os povos toquem os sinos a rebate para acordarem as consciências da paz. Em pleno século XXI só a paz é a nossa humanidade e a guerra a nossa bestialidade. A Europa não precisa de mais pilhas de cadáveres, antes necessita de conhecimento, sabedoria, cooperação e sempre as pombas da paz nas mãos dos nossos filhos e netos que da Rússia à Península ibérica, da Escandinávia aos Balcãs, para que se cumpra o sonho de dar uma chance à paz, como cantava John Lennon.

 22 de Novembro de 2025


https://ochocalho.com/2025/11/22/4267/

sábado, 1 de novembro de 2025

Jaime Nogueira Pinto - O escudo democrático

* Jaime Nogueira Pinto

Colunista do Observador   

Liberalíssimos democratas a defender a proibição das redes sociais, esse tentacular polvo de caótica e amoral informação alternativa, a bem da Democracia e da luta contra o Fascismo?

01 nov. 2025,  

A Comissão Europeia tem comissários para tudo. Mas há um que tem um pelouro mais exigente do que os outros. Trata-se de Michael McGrath, Comissário Europeu para a Democracia, Justiça, Estado de Direito e Protecção do Consumidor.

Ora, dada a dimensão do campo de batalha e não estando o manipulado povo, o desinformado demos, de feição, parece que para proteger a Democracia, o Estado de Direito e o Consumidor, só mesmo instalando um Escudo. Um Escudo Democrático, contra o exército de desinformadores que, processo eleitoral a processo eleitoral, incessantemente trabalha na sombra para transviar o incauto povo europeu.

A fim de sensibilizar as massas para a implementação do dito Escudo, McGrath resolveu então organizar um debate na Comissão Europeia sob o título “A necessidade de um Escudo Democrático Europeu para fortalecer a Democracia, defender a UE da ingerência estrangeira e das ameaças híbridas e proteger os processos eleitorais na União Europeia”.

Assim, no dia 9 de Outubro, depois de desfiar os perigos que ameaçavam o futuro da Democracia na Europa, McGrath passou a tranquilizar as hostes para que não caíssem em desânimo, dando-lhes a boa-nova: graças à contribuição do Parlamento Europeu, dos Estados membros e até de cidadãos anónimos, o Democratic Shield estava pronto a ser “implementado”!

O Escudo Democrático vinha, assim, socorrer a Europa, respondendo ao premente desejo dos cidadãos europeus, conforme expresso em inquérito realizado entre 31 de Março e 26 de Maio deste ano. Para o comissário, as 5 mil respostas ao inquérito (num universo de 400 milhões de eleitores) eram, já de si, um sinal positivo. Uma grande riqueza, a participação entusiástica dos cidadãos da Europa. É certo que, dos 5 mil cidadãos que responderam à consulta, só 79 se mostraram favoráveis à implementação do dito Escudo, mas não seria isso mais uma prova das “ameaças híbridas” e das “ingerências estrangeiras” que andavam no ar?

Em contrapartida, das 94 organizações não-governamentais inquiridas – que, essas sim, estavam no terreno –, só 8 se tinham oposto ao Democratic Shield. Os canais de desinformação, que moram lá para os lados das “redes sociais”, apressaram-se a sugerir que a discrepância talvez se devesse ao facto de a maior parte das ONGs ser financiada pela própria Comissão Europeia… Mas não eram os cidadãos europeus também financiados, e até agraciados, pela Comissão, com comissões, debates, recomendações, subsídios e altos funcionários que permanentemente trabalhavam em sua defesa e em defesa da Democracia?

Independentemente dos inquéritos, o Escudo Democrático impunha-se; até para conter as escolhas eleitorais de povos cada vez mais manipulados e desinformados, que insistiam em ameaçar a Democracia, apesar dos inúmeros avisos da imprensa de referência e das inúmeras recomendações e sanções das inúmeras comissões.

À beira de um ataque de nervos

O Escudo do comissário do povo europeu Michael McGrath é só um exemplo da forma mais organizada e institucional que a reacção sistémica ao “voto do povo” tem vindo a tomar. A prática de recorrer a instrumentos jurídicos para, em nome da Democracia, proibir ou tornar ilegais eleições “que não correram bem” e prevenir as que poderão não correr bem, parece ter-se normalizado. A primeira volta das eleições na Roménia, por exemplo, foi anulada porque o “candidato errado” estava à frente; igualmente esclarecedora, é a tentativa de impôr a Marine Le Pen uma sentença extraordinária por ter como funcionários no Parlamento Europeu alguns dos seus quadros partidários, prática generalizada entre os partidos franceses e europeus.

Também em Portugal – e logo num momento de grandes elogios à actividade jornalística e ao papel da liberdade de pensamento e de escrita no nascimento e consolidação da Democracia – parece haver partidários dos “escudos democráticos”, nomeadamente contra as famigeradas “redes sociais” (como se “as redes sociais” fossem uma realidade unívoca e unilateral, e como se a desinformação, o discurso de ódio e os disparates só por lá andassem). A alternativa, supomos, seria ficarmos unicamente com os chamados jornais de referência e com uma aturada selecção de respeitáveis pivots e comentadores televisivos, capazes de informar democraticamente o povo, com a decência, o rigor, a objectividade, a correcção e a actualidade que a Democracia exige. (No Domingo passado, quando já se sabiam os resultados na Argentina, um dos canais de referência, atido ao wishfull thinking das sondagens e a uma suposta vitória dos peronistas em Bueno Aires, ainda dava Milei a perder as eleições parlamentares na Argentina).

Liberalíssimos democratas a defender a proibição das redes sociais, esse tentacular polvo de caótica e amoral informação alternativa, a bem da Democracia e da luta contra o Fascismo? O mesmo Fascismo instituído pelo Estado Novo, esse “bafiento regime de terror”, que censurava tudo o que era amoral e…alternativo?

Com todo este “ó tempo volta para trás”, só podem estar à beira de um ataque de nervos.

https://observador.pt/opiniao/o-escudo-democratico/