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segunda-feira, 25 de maio de 2026

Boaventura Sousa Santos - Em Leninegrado, a pensar em Cuba e Gaza

* Boaventura Sousa Santos 

Ao longo da história, o cerco de populações foi muito utilizado como estratégia para obter a rendição das forças políticas e militares defensoras dos territórios cercados. A razão fundamental para crer na eficácia do cerco era a fome e a doença impostas à população civil. Alguns cercos duraram meses, outros duraram anos. Todos provocaram um sofrimento inaudito às populações, sobretudo às populações civis, as populações não diretamente envolvidas nos combates. Os militares e todos os funcionários de serviços de que dependiam, bem como os líderes políticos, sempre tiveram alguns privilégios.

A história sobre o êxito ou o fracasso dos cercos é fascinante. Se é verdade que muitas populações cercadas sucumbiram, em muitos outros casos resistiram e obrigaram os atacantes a retirar. Em tempos de autarcia das populações, o cerco era literal, à volta das muralhas, impedindo saídas e entradas e recorrendo muitas vezes à táctica da “terra arrasada”: queima de colheitas, abate de gado, envenenamento dos poços. Desde a era moderna, com a globalização do capitalismo e a liberalização do comércio internacional de mercadorias (e de pessoas), criaram-se tantas formas de interdependência entre os povos que novos instrumentos de encercamento foram postos à disposição dos atacantes (guetos, bloqueios, embargos, sanções, políticas anti-imigração, espaços aéreos fechados, criminalização internacional de líderes políticos, etc.). Reciprocamente, tais interdependências tornaram possíveis às populações cercadas novas táticas de resistência.

Não é objetivo deste texto analisar as virtualidades bélicas dos cercos. Centro-me exclusivamente no sofrimento humano que os cercos causam às populações civis cercadas. Para ilustrar esse sofrimento, escolho o cerco mais brutal da história contemporânea, o cerco de Leninegrado pelo exército Nazi entre Setembro de 1941 e Janeiro de 1944. Escolho-o pela sua brutalidade, mas também por ilustrar um caso de derrota do atacante, aliás, considerado ao tempo do cerco um inimigo todo poderoso. Faço-o a pensar em Cuba e na Palestina. Sobretudo tendo em mente que o mundo da comunicação social tem tido o papel nefasto de trivializar o sofrimento, mesmo quando aparentemente o dramatiza. Por esta razão, não se cria uma população mundial horrorizada e mobilizada contra o sofrimento humano injusto. Em vez disso, delega-se a má consciência a pequenos grupos de corajosos ativistas que, pela sua natureza, revelam tanto a possibilidade da resistência como a fatalidade da sua derrota.

Como me centro no sofrimento humano, socorro-me das descrições do cerco por parte daqueles que o viveram. A descrição deles e delas é mais poderosa do que qualquer análise abstrata. Entre muitas descrições, seleccionei a de Constantine Krypton (pseudónimo?) publicado em 1954 na revista Russian Review, vol 13:4, pp 255-265.[i] É uma longa citação:

O inimigo não conseguiu destruir os edifícios de pedra; conseguiu, sim, uma aniquilação terrível da vida dentro deles. A causa principal da destruição entre a população foi a fome. De acordo com o recenseamento oficial de 1939, a população de Leninegrado era de 3.191.304 habitantes. O processo de aniquilação da população começou no final do mês de Novembro de 1941. O seu sinal exterior na vida da cidade foi o aparecimento nas ruas de todo o tipo de trenós, principalmente trenós de crianças atrelados uns aos outros com cadáveres sobre eles. Mais tarde, transportavam frequentemente os mortos em trenós individuais, especialmente se fossem mais compridos. Envolviam os cadáveres em lençóis, cobertores, tapetes, sacos de todo o tipo e todo o tipo de trapos. Dia após dia, o número destes trenós aumentava, criando, num determinado período, no final de Dezembro e início de Janeiro, uma procissão interminável ao longo das ruas principais.

O processo de morte da população de Leninegrado recebeu, na linguagem médica, o nome de «distrofia». A distrofia tinha três fases. A distrofia da primeira fase caracterizava-se por um enfraquecimento geral do organismo e uma grande perda de peso. A distrofia do segundo estágio trazia ainda maior fraqueza e perda de peso, juntamente com uma série de doenças que apresentavam, em particular, os seguintes sintomas: gengivas escamosas, formigueiros na parte superior do abdómen, úlceras, inchaço, dormência, problemas de estômago e similares. Esses sintomas já estavam parcialmente presentes no primeiro estágio. Na segunda fase, as pessoas começaram, como se dizia naquela época, «a devorar os seus músculos». A distrofia da terceira fase, com duração média de duas semanas, caracterizava-se pelo colapso completo da pessoa, depois a morte. Diz-se que aqueles que passavam para a terceira fase da distrofia não podiam ser salvos. Tive a oportunidade de observar dois casos em que familiares de uma pessoa distrófica acamada obtiveram manteiga e outros alimentos nutritivos, mas era absolutamente impossível proporcionar qualquer alívio real.

As pessoas que tinham entrado no período crítico permaneciam indiferentes a tudo à sua volta, num estado de completa apatia. As pessoas caíam e morriam inesperadamente enquanto caminhavam na rua, estavam na fila, no trabalho ou em casa. Certa vez, ao chegar ao Instituto, onde nas salas frias e sem aquecimento ainda decorriam aulas com três ou quatro pessoas, fui literalmente atacado por um homem bastante baixo. A mim, na qualidade de reitor da faculdade, ele expressou com grande ênfase a sua indignação pelo facto de tão poucos estudantes comparecerem às aulas. Parece que este homem era um professor de desenho técnico, que eu ainda não tinha conhecido. No semestre seguinte, ele iria dar um curso. Quanto ao número de alunos, ele teria sete. Então eu disse-lhe: «O facto de ter sete alunos, em vez dos habituais quatro ou cinco, demonstra um progresso notável, que só pode ser explicado pelo grande interesse na sua disciplina.» Isso acalmou-o um pouco, mas, dirigindo-se ao grupo de alunos, gritou com toda a força: «Sim, mas eu quero ter 25 alunos. Quero lutar por cem por cento.» Trinta ou trinta e cinco minutos depois, uma jovem aluna veio a correr ter comigo para informar que o professor de desenho técnico estava morto.

A taxa de mortalidade era excecional entre aqueles que estavam a concluir os seus estudos. Aqui, a competição cobrou o seu preço. Essas pessoas, apesar de todos os obstáculos, queriam concluir o seu trabalho de graduação e concluí-lo bem. Sem comida, em dormitórios frios, trabalhavam teimosamente e escreviam os seus trabalhos. Não viviam muito tempo depois disso — cerca de dez a quinze dias. O esforço intelectual excessivo com o estômago vazio tinha esgotado qualquer reserva de força que eles tivessem.

Na opinião dos médicos, no início de Dezembro de 1941, uma grande percentagem da população de Leninegrado encontrava-se na segunda fase de distrofia. O mês de Dezembro foi o período de transição para a segunda fase para a grande maioria da população. As condições de vida contribuíram fortemente para isso. A distribuição de alimentos em Dezembro tornou-se totalmente insignificante. Os trabalhadores recebiam 200 gramas de pão por dia; os funcionários civis e seus dependentes, ainda menos. A ração de cereais permitia preparar sopa apenas três ou quatro vezes por semana. As batatas tinham sido distribuídas pela última vez em Setembro. O número de cartões de trabalhadores (primeira categoria), que garantiam mais pão e cereais, era estritamente limitado. Um titular de uma cátedra nas escolas superiores de um instituto recebeu esses cartões apenas em Janeiro de 1942; mas os docentes, estudantes de pós-graduação e outros tinham os cartões de funcionários civis (segunda categoria).

Os suprimentos privados pertencentes à população esgotaram-se em meados ou, no máximo, no final de Novembro. Durante esse mês, as pessoas comiam gatos na cidade. Enquanto esperava na fila pelos cartões de racionamento de Dezembro, ouvi involuntariamente a conversa de alguns estudantes. Eles tinham descoberto que a carne de gato era muito saborosa; era algo semelhante à de coelho e só havia uma coisa desagradável: matar o gato. Os gatos defendem-se desesperadamente. Mas logo deixei de ouvir tais conversas — já não havia mais gatos para matar. Em Dezembro, as pessoas começaram a comer ratazanas, ratos e pombos. A uma mulher idosa que estava a morrer, a sua jovem sobrinha trouxe meio rato que tinha conseguido apanhar e deu-lho. No entanto, a mulher moribunda e a sua sobrinha, juntamente com os seus familiares, morreram pouco tempo depois. Seguiram-se os cães.

Os músculos eram a fonte básica de vida. Os médicos recomendavam em particular que as pessoas caminhassem menos e gastassem este recurso de forma mais razoável, uma vez que não seriam capazes de o reconstruir. Em condições especiais, os trabalhadores do NKVD (Comissariado do Povo para Assuntos Internos), o pessoal do estado-maior de guerra, os principais quadros do partido e a maioria dos trabalhadores responsáveis recebiam provisões alimentares. Estas pessoas, claro, não conheciam a fome. Os membros do Partido tinham alguns privilégios. No entanto, para além de porções extra de sopa sem cartões de racionamento e de um ou dois cartões adicionais, esses privilégios não ultrapassavam a quota legal. Aqueles que tinham alguma ligação com o abastecimento, como um serviço de refeições em alguma instituição, saíam-se um pouco melhor. A alimentação de alguns membros muito necessários do pessoal técnico de engenharia era melhor. Eram obrigados a viver em instalações governamentais, onde eram alimentados em refeitórios especiais e recebiam alguma comida para levar consigo. No entanto, quando um dos engenheiros levou a mãe para partilhar a sua comida com ela, recebeu uma repreensão do director. A melhor alimentação destinava-se a garantir a sua máxima capacidade de trabalho. A mãe teve de ir directamente para casa, a fim de partilhar o destino comum da população.

No final de Novembro e início de Dezembro, os ataques aéreos alemães chegaram ao fim. Isso, ao que parecia, poderia facilitar a aplicação dos conselhos médicos sobre a economia de energia física. A população poderia dormir tranquilamente à noite; não seria necessário correr para os abrigos antiaéreos nem apagar incêndios. No entanto, em vez dos bombardeamentos que tinham esgotado as suas forças físicas, a vida assumiu algo de novo e mais árduo. Em primeiro lugar, os eléctricos tinham deixado completamente de circular na cidade. Enquanto pela calçada se movia uma sucessão de trenós com cadáveres, nas calçadas, e por vezes nas ruas, havia um grande número de pessoas a caminhar, uma vez que careciam de qualquer outro meio de transporte. Para onde quer que se fosse, era preciso ir a pé: para o trabalho, para fazer recados diversos, simplesmente para visitar as casas das pessoas vizinhas. Todos tinham de fazer um esforço colossal e gastar uma quantidade extraordinária de energia. Uma grande desgraça foi o início do frio, e mais tarde o frio extremo do Inverno, chegando a 50 graus negativos.

Todos os esforços para salvar o sistema de água foram em vão, e toda a população da cidade começou a dirigir-se às bombas próximas que ainda estavam em funcionamento. Durante muito tempo, um buraco aberto na rua por um projétil de artilharia, a oito ou dez minutos a pé da nossa casa, salvou-me. Havia sempre água ali, que as pessoas dos apartamentos próximos vinham buscar. Muitas pessoas, não tendo uma bomba na vizinhança, nem buracos na rua, tiveram de percorrer longas distâncias, por vezes até ao rio, para ir buscar água. O problema da casa de banho foi resolvido despejando tudo na neve nos quintais.

Era impossível aquecer esses quartos. Era preciso dormir vestido, vestindo todas as peças de roupa disponíveis para se manter aquecido. Devido ao frio e à falta de água, muitas pessoas deixaram completamente de se lavar. Cozinhas e quartos de hóspedes irremediavelmente gelados foram transformados em locais de armazenamento. Aqui, frequentemente, eram construídas casas de banho. Uma circunstância extremamente difícil era a completa falta de luz eléctrica. Pequenas lâmpadas fumegantes da época da guerra civil lançavam luz apenas suficiente para permitir que alguém se movimentasse pela sala.

Entretanto, em Leninegrado, no final de Dezembro e em Janeiro, a situação assumiu um carácter catastrófico. O número diário de mortos disparou para entre 25.000 e 30.000. Possivelmente, para a parte da população que estava a morrer, esta foi a transição natural para o período crítico, com as suas consequências inevitáveis. As autoridades administrativas, literalmente sobrecarregadas pelo aumento da taxa de mortalidade, deram ordens para abrir os necrotérios. Estes surgiram nos pátios das casas de Leninegrado. Era escolhido um pátio de grandes dimensões para cada sete a dez casas, dependendo do número de residentes. Era afixado um cartaz e, através do administrador do prédio, era feita uma notificação adequada. Todos podiam agora levar os seus mortos para o necrotério. Para remover os cadáveres das ruas, foram atribuídos camiões, mas estes encontravam-se frequentemente em condições insatisfatórias. Era um trabalho difícil para os carregadores de camiões. Frequentemente, no meio das suas tarefas, caíam mortos e era necessário procurar substitutos. Em média, dez ou doze camiões carregados de cadáveres passavam pela nossa rua todos os dias. Nas ruas principais, o seu número era muito maior.

Embora a maioria das pessoas, independentemente do seu sofrimento, permanecesse notavelmente controlada, ocasionalmente ouvia-se falar de algum comportamento particularmente agressivo [ii]. Em meados de Dezembro, uma conhecida minha, uma senhora idosa, cuja filha estava num campo de concentração, saiu à rua, segurando o seu amado cão pela trela. O cão estava com ela há muito tempo. Antes que a senhora se apercebesse, vários homens lançaram-se sobre ela. Alguns queriam agarrar o cão; outros tentavam arrancar-lhe a trela da mão. Todos disputavam entre si, gritando: «o cão é meu.» Nesse momento, outros transeuntes chegaram a tempo de deter os agressores e afastá-los. A velha senhora regressou, agradecida, a casa com o cão, mas, mesmo assim, três ou quatro semanas depois, acabou por comer o próprio animal.

Aconselhava-se as pessoas a andarem com cuidado nas escadas escuras de madrugada. Ocorreram casos em que, partindo do princípio de que uma pessoa ia buscar pão, alguém lhe batia na cabeça e lhe roubava os cartões de racionamento. Normalmente, era necessário ter cuidado nessas escadas escuras depois de o pão ter sido adquirido. O pão tinha de ser transportado embrulhado e escondido. Por vezes, nas filas nas instalações da loja, os rapazes aventuravam-se a roubar o pão aos donos. Esperavam pelo momento certo e, então, cravavam os dentes num pedaço de pão nas mãos de alguém, tentando morder um pedaço. Por acaso, eu próprio observei uma cena dessas. A dona do pão em que o menino tinha cravado os dentes agarrou-o com grande violência pelo pescoço e não o deixava engolir; depois, a chorar, disse que tinha um menino como ele que estava a morrer em casa. Todas estas coisas eram excessos individuais, resultando num certo aumento da ilegalidade.

É possível até falar de novos tipos de «crime». Um deles era chamado de «esconder cadáveres». Ao manter o cadáver em casa durante cerca de uma semana e ocultar a morte, algumas pessoas conseguiam acumular pão suficiente no cartão do falecido para pagar a escavação da sepultura. Outras faziam-no para ficar com o pão e outros cartões de racionamento do falecido para uso pessoal. Conservar um cadáver nos apartamentos gelados daquela época não era tarefa difícil.

Eu conhecia uma funcionária civil que conseguiu esconder a sua tia morta durante quase um mês inteiro. Mais tarde, ela lamentou não ter feito o mesmo com a sua mãe, que tinha morrido dois ou três dias antes da tia. Mais tarde ainda, ela própria morreu, e um vizinho conseguiu escondê-la também durante cinco dias. Na prática, era difícil usar os cartões de uma pessoa morta por mais de doze ou catorze dias. Além disso, apenas uma pequena percentagem da população se dedicava a esta prática. Durante a segunda quinzena de Janeiro, dizia-se que a taxa de mortalidade tinha descido para 9.000 ou 10.000 por dia. Isto pode ter-se devido ao facto de as pessoas mais fracas já terem morrido ou, possivelmente, a uma alteração na qualidade do pão racionado. Seja como for, a melhoria das condições foi de curta duração. Uma nova desgraça abateu-se sobre a cidade. As fortes geadas e o estado geral de degradação dos edifícios da cidade levaram à paralisação do trabalho nas padarias da cidade e a maior parte das lojas ficou sem pão. Em algumas lojas onde o pão chegou, formaram-se filas enormes que se mantiveram desde o início da manhã até ao fim da tarde. Multidões de pessoas, após esperarem dez ou doze horas sob temperaturas geladas, saíram de mãos vazias. A falta de pão, juntamente com a exaustão extrema causada pela espera no frio, fez com que a taxa de mortalidade disparasse de imediato para o valor anterior de 25.000 a 30.000. Algumas pessoas morreram na fila; muitas morreram nas ruas, depois de correrem desesperadamente de loja em loja para perguntar se havia alguma esperança de uma entrega de pão.

No início de 1942, ocorreram alguns acontecimentos que foram muito embaraçosos para as autoridades militares e civis da cidade. Multidões de pessoas que estavam na fila assaltaram várias padarias. Mais impactante do que a pilhagem de algumas mercearias, considerando as condições particulares da vida soviética, foi um acontecimento de significado político. Duas organizações de mulheres (Trabalhadoras da Engenharia Técnica) uniram-se e apresentaram uma petição na qual solicitavam, em nome das crianças moribundas, a rendição da cidade. Elas apontavam para a prática geral das relações internacionais e, especialmente, para o recente anúncio de que Paris seria declarada uma «cidade aberta». Se esta petição conseguiu chegar a algum representante de nível superior a Pyotr Popkov, o presidente do Soviete de Leninegrado, nunca vim a saber. Na cidade, a petição não causou grande impressão, embora muitas pessoas soubessem da sua existência. Algumas mulheres trabalhadoras do Partido chegaram mesmo a discutir o assunto comigo, apesar de eu não ser membro do Partido e, o que é mais surpreendente, não condenaram as mulheres que tinham redigido a petição.”

A brutalidade do sofrimento humano do cerco de Leninegrado – um milhão e meio de mortos – não é qualitativamente diferente dos muitos genocídios coloniais e imperiais entre o século XVI e o século XX: os vários genocídios de povos originários das Américas e de África pelos colonizadores europeus e seus descendentes, o genocídio do povo herero e nama da Namíbia pelo Império Alemão entre 1904 e1908, o genocídio do povo arménio entre 1915-1923 pelo Império Otomano, o genocídio do povo judeu pela Alemanha Nazi, o genocídio do povo tutsi pela elite hútu no Ruanda em 1994, genocídio dos bósnios muçulmanos pelas forças sérvias entre 1992 e 1995 e o genocídio do povo rohingya pelo exército e polícia de Mianmar ao longo das duas últimas décadas.

O que distingue Leninegrado é a forma-cerco levada ao extremo. A mesma forma-cerco está em curso, de modos diferentes, na Palestina e em Cuba. Apesar do seu extremismo, o cerco de Leninegrado foi repelido e estou confiante que mais tarde ou mais cedo será também repelido na Palestina e em Cuba. Para isso é fundamental a solidariedade internacional.

Se Cuba e Palestina não romperem o cerco, seremos todos nós os derrotados, acordando tarde demais para o facto de que o cerco à volta da Palestina e de Cuba está já germinando à nossa volta, multiplicando-se, qual Hidra de Lerna, graças à nossa passividade. Começa a ser tarde demais para a intervenção de Hércules!

Cuba vencerá! Palestina vencerá!

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NOTAS
[i] Trata-se da tradução reduzida de dois capítulos do livro do autor, Osada Leningrad, N. Y., Chekhov Publishing House, 1952. Esta descrição tem as suas limitações, sobretudo tendo em vista a documentação oficial e de arquivo diarista que veio a lume posteriormente. Torna a história do cerco ainda mais dramática. Consultar sobre esta bibliografia Sarah Gruszka, «L’historiographie du siège de Leningrad», Revue des études slaves, Vol. 83:1, 2012, pp. 269-281.

[ii] À luz do que escreve Gruszka, op. cit., houve muita criminalidade e alguma bem grave. É o caso de canibalismo e do comércio de carne humana. Estes crimes eram severamente punidos. A punição de crimes políticos foi igualmente severa.

24 de Maio de 2026

https://estatuadesal.com/2026/05/25/em-leninegrado-a-pensar-em-cuba-e-gaza/
https://aviagemdosargonautas.net/2026/05/24/em-leninegrado-a-pensar-em-cuba-e-gaza-por-boaventura-de-sousa-santos/
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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Boaventura de Sousa Santos - O Impensável acontece?

* Boaventura de Sousa Santos
 

A história moderna é abundante em acontecimentos de tal modo extraordinários, aberrantes, revoltantes e surpreendentes que apetece exclamar: como é possível!? Normalmente, esta exclamação, enquanto fenómeno generalizado, não surge no momento em que tais acontecimentos têm lugar, mas anos ou séculos depois: como foi possível!? O espanto é de tal ordem que, muitas vezes, o que aconteceu ultrapassa, não só os limites do que é possível, como também os limites do que é pensável: como acontece ou aconteceu o impensável!?

Quando o grande historiador de arte, E. H. Gomrich, se dispôs a escrever (em seis semanas) o livro Uma Pequena História do Mundo para Jovens Leitores (Eine Kurze Weltgeschichte für junge Leser), publicado em Viena em 1935, o seu objectivo era ensinar história aos jovens. O livro teve um enorme êxito e foi depois várias vezes actualizado. Um dos leitmotivs da narrativa é precisamente mostrar aos jovens o modo como na história acontecem frequentemente coisas que parecem estar para além do possível, ou mesmo do pensável. E o mais estranho é que tais acontecimentos só são conhecidos muitos anos depois. Por exemplo, durante a Segunda Guerra Mundial, nem ele (que emigrara para a Inglaterra em 1936 e trabalhava na BBC) nem a grande maioria dos alemães ou dos europeus sabia ou podia imaginar o horror dos crimes que estavam a ser cometidos contra os judeus (o Holocausto). Como é evidente, os exemplos poderão multiplicar-se. Como se poderia pensar que cristãos convictos (fossem eles portugueses, espanhóis ou peregrinos do Mayflower) se pudessem entregar ao horrível extermínio dos povos originários das Américas entre os séculos XVI e XIX? E quem saberia do que se passava no momento em que se passava? Claro que houve testemunhos contemporâneos muito eloquentes, como o de Bartolomé de las Casas, mas a sua voz era uma excepção e pouco ouvida. Quem poderia imaginar, e quantos belgas saberiam, que o civilizadíssimo Rei Leopoldo II organizava o extermínio de 50 a 75% da população do Congo em pouco mais de duas décadas (1885-1908)?

Hoje tudo parece diferente no que respeita ao conhecimento, mas não no que respeita à ocorrência do que se considera impossível ou sequer impensável. Devido à revolução nas tecnologias de informação e de comunicação, hoje sabemos em tempo real o que acontece no mundo. E o que acontece também nos leva muitas vezes a exclamar: é possível? É pensável?  Genocídios no Ruanda, Sudão e Palestina; propostas de compra de países (Gronelândia); captura por potência estrangeira de Presidentes em pleno exercício de funções de países soberanos (Venezuela); invasão e ocupação de países estrangeiros para segurança dos cidadãos do país invasor (Vietname, Iraque, Afeganistão); alegados criminosos de guerra condenados pela justiça internacional viajando livremente no espaço aéreo de países signatários dos tratados e instituições da justiça internacional (Netanyahu, Putin); fragmentação de países como estratégia de dominação (Líbia, Síria, Sudão, Somália); regresso da pirataria no alto mar.

Este elenco levanta três questões. Porque é que o que parece impossível ou mesmo impensável acontece? Saberemos tudo o que está a acontecer, apesar de ser considerado impossível ou impensável? O facto de podermos saber que acontece o que parece ser impossível ou impensável é relevante?

Porque é que o impensável acontece

O impensável acontece porque em cada período histórico se cria uma ideia dominante de natureza humana que não permite conceber e muito menos prevenir que o impensável aberrante ou catastrófico aconteça porque precisamente não se considera o que acontece nem aberrante nem catastrófico. Desde o século XVII, a sociedade eurocêntrica moderna desenvolveu a ideia de que é próprio da natureza humana lutar pela evolução positiva e irreversível da sociedade. Chamou-se a esta ideia: progresso. Mas o progresso tem um custo porque não há progresso sem luta. Esta ideia está tão presente em Malthus como em Darwin e Marx. A luta e o custo do progresso significam que não é possível realizar os ideais do progresso sem cometer acções que contrariam esses ideais.

Para que essa contradição não seja politicamente visível é fundamental desumanizar os grupos sociais que perdem nessa luta e sofrem os custos correspondentes. Assim construída, a ideia do progresso não tem nada a ver com o bem-estar das populações. É que só contam como populações dignas de bem-estar as que têm poder para impor custos sem os sofrer. Essas populações podem ser cada vez mais minoritárias, mas isso em nada afecta a ideia de progresso. Aliás, haverá tanto mais progresso quanto mais selectivo ele for. Os bilionários de hoje são a melhor ilustração disso mesmo. A ideia do progresso não pode pensar a ideia do retrocesso. Só os grupos que perdem na luta e sofrem os custos é que podem questionar o progresso.  O império, quando se vê ao espelho, nunca vê o seu declínio.

Se atentarmos, por exemplo, no discurso do actual representante máximo do máximo progresso em máximo declínio, Donald Trump, é fácil concluir que a dicotomia que orienta o seu pensamento (se pensar for igual a falar) não é a de amigo/inimigo, nem sequer a de cidadão/estrangeiro. É a dicotomia humano/sub-humano. Quem discordar dele, por mais amigo ou cidadão que seja, passa de imediato à categoria de sub-humano.

O impensável acontece porque quem tem poder para que ele aconteça tem também o poder para que ele não seja considerado impensável. O impensável acontece abruptamente, mas é sempre lentamente gerado e preparado. A sua gestação tem várias componentes.

A primeira componente é o trabalho ideológico que tem uma forte componente semiótica. Trata-se, por exemplo, de eliminar certas palavras e substituí-las por outras que neutralizem a carga política ou ética e naturalizem o novo normal. Assim se substitui capitalismo por economia de mercado. Flexibilidade laboral tem uma carga ideológica oposta a precariedade laboral e, no entanto, significam o mesmo na vida dos trabalhadores. Outro procedimento ideológico tem o sentido oposto: magnificar ou demonizar o alvo de modo a justificar uma reacção extrema:  a queda do dólar convertida em apocalipse; o político hostil convertido em ditador ou terrorista para que o político amigo pareça o contrário sem deixar de ser ditador ou terrorista; usar recorrentemente a expressão “sem precedentes” para magnificar agressões repetidamente praticadas.

A segunda componente consiste na informação selectiva de modo a fazer crer que a ponta do iceberg é o iceberg todo. Assim se fez, no domínio da energia atómica, até ao impensável das bombas de Hiroshima e Nagasaki. Assim se fará com a inteligência artificial.

A terceira componente consiste em substituir tragédias humanas por estatísticas. A vida humana é uma qualidade enquanto um número de vidas ou de mortes é uma quantidade. Mas, neste caso, a chave consiste em ter poder para não deixar converter a quantidade numa nova qualidade. Depois da Segunda Guerra Mundial, os judeus, em colaboração com todos os democratas do mundo, conseguiram converter a quantidade numa nova qualidade: os seis milhões de mortos converteram-se no Holocausto. Pelo contrário, o povo palestiniano pode vir a ser eliminado sem que os palestinianos e os democratas do mundo tenham poder para transformar os milhares de crianças intencionalmente assassinadas em política de extermínio.

Finalmente, a quarta componente consiste em baixar progressivamente as expectativas de paz, de convivência democrática ou de bem-estar até que se torne irrelevante prescindir delas. Quando os cidadãos e as cidadãs apenas foram livres para ser miseráveis estaremos perante a miséria da liberdade.

Podemos concluir que o impensável só é impensável para a generalidade da população que é confrontada com a sua abrupta ocorrência. Mas foi paulatinamente pensado e por isso acontece.

Porque não sabemos tudo

Em cada período histórico, o contexto político-cultural dominante impõe limites ao que se determina ser a natureza humana. Na nossa época, o contexto dominante é o cientismo. Da etologia à biologia, da psicologia às neurociências é a ciência contemporânea que determina o que é a natureza humana, suas potencialidades e seus limites. O que a ciência não vê, não se vê. Como no actual contexto a ciência determina o que é a natureza humana, torna-se impossível pensar o contexto que torna possível esta ciência, e não outra. Tinha razão Kropotkin quando dizia: “Sim, sem dúvida, devemos basear a nossa teoria social na teoria biológica, mas então olhemos de novo para a teoria biológica”. Ora, enquanto na biologia do biólogo Darwin havia luta e competição, na biologia do biólogo Kropotkin havia cooperação e solidariedade.

Tendo isto em vista, muita monstruosidade pode estar a ser gerada ou já a acontecer sem sabermos e bem perto de nós, nos laboratórios das nossas universidades e das grandes empresas. Os monstros familiares parecem-se muito com a normalidade.

A ocultação tende a ser maior na medida em que se confundirem três conceitos: verdade, inverdade e mentira. A verdade é, de facto, a busca da verdade. São muitos os caminhos, mas o objectivo é um só, mesmo que nunca se alcance. A inverdade é a falsidade ou alta improbabilidade que se profere pensando que é verdade. O contexto político e financeiro em que a ciência é hoje produzida faz com que a inverdade ocorra frequentemente. Pelo contrário, a mentira é a falsidade que se diz sabendo-se que não é verdade. A mentira está fora do campo do cientismo, mas a promiscuidade do cientismo com a política faz com que esta recorra à mentira e a faça passar credivelmente por verdade ou inverdade.

É por esta razão que, ao ouvir certos políticos, um cidadão avisado pense num conselho de Santo Agostinho que Montaigne cita no nono ensaio (sobre os mentirosos): “estamos melhor na companhia de um cão que conhecemos do que na companhia de um homem cuja linguagem não entendemos”

Porque pensar o impensável é hoje irrelevante

O cientismo assenta numa ideia central: a ciência não é política nem ética. As aplicações da ciência podem ter implicações políticas ou éticas, mas a ciência em si não as tem. Para o cientismo só há duas categorias de pensamento: o pensado e o ainda não pensado. O impensável é irrelevante. Tudo isto porque a ciência só pode responder a perguntas formuladas cientificamente. Ora a categoria do impensável, tal como a da espiritualidade, da felicidade ou da transcendência, não pode ser formulada cientificamente. Logo, tal como a espiritualidade, a felicidade ou a transcendência, o impensável não existe como pergunta.

Se contra a corrente olharmos para a realidade numa perspectiva política ou ética, verificamos que o impensável de que até agora falei – o acontecimento extremamente aberrante, repugnante, catastrófico – é apenas um dos impensáveis. De facto, há dois tipos de impensáveis: o positivo e o negativo. O primeiro acciona a esperança e o segundo acciona o medo. Parecem excluir-se mutuamente, mas um não existe sem o outro. O impensável negativo é o que me tem ocupado neste texto. O impensável positivo é o de uma sociedade ideal ou de uma vida individual idealmente plena onde os problemas que a sociedade e os indivíduos hoje enfrentam estejam superados sem que outros novos e graves venham ocupar o seu lugar. No contexto da modernidade eurocêntrica o impensável positivo é a utopia. A ideia da utopia realista é uma contraditio in adjecto.

 O contexto do cientismo actual torna impossível imaginar o impensável positivo. Kropotkin perdeu a batalha. Não sei se perdeu a guerra. Política, cultural e eticamente tornou-se impossível imaginar uma sociedade alternativa onde os impensáveis negativos do nosso tempo (tanto os conhecidos do público como os desconhecidos) não pudessem acontecer. O cientismo dominante naturalizou tanto a natureza humana como o capitalismo, o colonialismo e o patriarcado.

O problema é que a impossibilidade do impensável positivo naturaliza o impensável negativo, ocultando a sua negatividade. É a sempre nova e sempre velha normalidade. Lutar contra esta torna-se impossível e utópico precisamente porque a possibilidade de utopias realistas é … utópica.

Não se trata de uma fatalidade histórica. Trata-se antes de um contexto específico que António Gramsci designou como interregno: o mundo velho em que os horrores mais impensáveis são cada vez mais frequentes e “naturais” ainda não morreu totalmente enquanto o mundo novo de alternativas solidárias, pacíficas, justas entre seres humanos e entre estes e a natureza ainda não nasceu plenamente. É um contexto trágico em que a liberdade se confunde com a necessidade e em que o risco do destino funesto está em acreditar que forças ocultas e invencíveis controlarão para sempre as nossas vidas. Faltam-nos coveiros do velho e parteiras do novo.

17 de Janeiro de 2026
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ORLANDO CARVALHO  19 de Janeiro de 2026 às 12:24
Boaventura Sousa Santos coloca com ligeireza em pé de igualdade Netanyahu e Putin, como criminosos de guerra, quando todos os analistas honestos consideram o caso de Putin uma falsidade perpetrada pelos do costume. Quanto a Netanyahu todos vemos à vista desarmada as atrocidades cometidas em Gaza.

A justiça não nos deixa ser juízes dum caso antes da sua tramitação em julgado, que se requer seja feito por juízes que não estejam comprados.

Faz-me lembrar uma pessoa digna que foi acusada de assédio sexual e julgada e condenada na comunicação e nas redes sociais.

Boaventura de Sousa Santos 19 de Janeiro de 2026 às 17:09
O comentário de Orlando Carvalho, que muito agradeço, fez-me pensar. Como é possível que uma pessoa como eu, que há quase três anos era considerado “um homem de Putin” num editorial insultuoso escrito pelo então director do Público, Manuel Carvalho, pode pôr ao mesmo nível dois políticos sobre os quais tem posições políticas tão distintas?

Antes de mais, dou a mão à palmatória. Peço ao administrador do blog, o Antonio Gomes Marques, que faça uma correcção no meu texto. No plano da justiça internacional estão ambos na mesma situação, tanto quanto sei: há um mandado de captura, não há julgamento nem muito menos condenação. Em face disso, onde escrevi “criminosos de guerra” devo escrever “alegados criminosos de guerra”.

Isto não resolve a objecção de OC porque continuo a pôr os dois políticos ao mesmo nível no plano da justiça internacional. Ambos conhecemos a pressão dos EUA para que o TPI actuasse rapidamente no caso Putin e tanto que o TPI terá eventualmente cometido alguma ilegalidade processual, tal era a pressa. No caso Netanyahu, passou-se o oposto e conhecemos as ameaças feitas ao procurador e as sanções aplicadas contra ele e sua família.

Por mais objecções que tenha à actuação prática do TPI, eu quero acreditar que ainda há uma ténue justiça internacional em vigor. Assim sendo, a menos que tenha havido um erro processual no caso Putin, eu terei de considerar válido o mandato de captura contra ele como única condição para exigir a captura de Netanyahu. O que eu posso dizer ao OC é que se eu fosse juiz do TPI e o julgamento fosse hoje, eu não teria dúvidas em votar pela condenação de Netanyahu.

António Gomes Marques 19 de Janeiro de 2026 às 17:28
A pedido de Boaventura de Sousa Santos, a sua resposta ao comentário de Orlando Carvalho foi inserida por António Gomes Marques.

https://aviagemdosargonautas.net/2026/01/17/o-impensavel-acontece-por-boaventura-de-sousa-santos/

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Boaventura de Sousa Santos - O Kampf de André Ventura

Boaventura de Sousa Santos

As primeiras intervenções dos principais candidatos às eleições para a Presidência da República portuguesa em Janeiro de 2026 têm levado muita gente (muita dela, angustiadamente) a pensar que André Ventura (AV), o candidato da extrema-direita, tem possibilidades de ganhar as eleições. Para alguns, a razão principal está na mediocridade dos outros candidatos. No caso do Almirante Gouveia e Melo, o grande operacional da luta contra o COVID-19, ocorre lembrar-lhe que o país não é uma pandemia nem a política é uma questão de logística. Já tivemos um presidente Almirante (no tempo da ditadura) e já foi demasiado. Marques Mendes é uma cópia de Marcelo Rebelo de Sousa, o actual presidente. É sabido que o original é sempre melhor que a cópia. Se o cinzento falasse e lhe perguntassem a identificação, ele responderia sem hesitação: António José Seguro, apoiado pelo partido socialista. Perante isto fica a sobrar o único candidato que não quer ser Presidente, porque, como a sua aspiração é mandar e conduzir, só o cargo de Primeiro-Ministro lhe serve. Pode então correr o risco de ser eleito contra a vontade.

A primeira vez que me chamaram a atenção para AV resultou de uma observação de uma jornalista perplexa com o facto de AV citar várias vezes o meu trabalho na sua tese de doutoramento. O intrigante era o facto de ele começar a ser conhecido como a figura principal da extrema-direita enquanto eu era conhecido como um intelectual de esquerda. Haveria alguma contradição ou algum conluio? Li a tese e conclui rapidamente que era uma tese competente e que as citações estavam certas e eram pertinentes. A tese era animada por um impulso securitário, mas dentro das normas académicas. Portanto, nada a comentar. Não havia nem contradição nem conluio.

Hoje, AV é o líder da oposição, uma oposição de extrema-direita a um governo de direita. Estou convencido de que a democracia portuguesa dificilmente sobreviverá à Presidência da República de AV. Tentarei explicar porquê. As razões têm a ver com a estratégia de AV e com as condições por que as sociedades europeias vão viver nos próximos anos.

AV em acção

Não há nenhuma originalidade nem nas ideias nem na estratégia de AV. Vêmo-la hoje a ser seguida por muitos outros líderes de extrema-direita. Todos eles são cópia de um líder que também foi cópia de outros líderes do seu tempo, mas que as circunstâncias da Europa das primeiras décadas do século XX permitiram que passasse de cópia a original. Refiro-me a Adolf Hitler. Apesar de serem muitas as diferenças entre o original e as diferentes cópias, penso ser adequado estabelecer a original como termo de comparação para o que observamos hoje. Uma diferença óbvia: enquanto AV foi um aluno brilhante e é altamente credenciado, Hitler nunca concluiu nenhuma formação académica, foi rejeitado duas vezes nas escolas de arte de Viena, nunca quis ter emprego fixo e, apesar de em Viena se autodesignar como pintor, ficava possesso quando lhe perguntavam se era pintor de paredes.

Se analisarmos a conduta deste austríaco que só em 1932 se naturalizou alemão, um ano antes de se candidatar à presidência da República da Alemanha, verificamos que ele catalogou um receituário que continua hoje a ser seguido por todos os aspirantes à destruição da democracia, usando para isso todos os instrumentos que a democracia lhes proporciona. Vejamos alguns componentes desse catálogo. As citações de Hitler são dos seus muitos discursos e também de Mein Kampf [A Minha Luta], escrito em 1924 nos nove meses que Hitler esteve preso depois do fracassado golpe (Putsch) de Munique em Novembro de 1923.

Sobre a natureza humana. Desde os tempos de fome e de dormida nos abrigos municipais, Hitler aprendeu algo que viria a repetir nos seus discursos: “Tudo o que o homem conseguiu deveu-se à sua originalidade e brutalidade.” Astúcia, habilidade para mentir, distorcer, enganar, eliminar qualquer sentimentalidade ou lealdade em favor da crueldade eram os ingredientes básicos da afirmação fundamental: a vontade. A desigualdade entre os seres humanos e entre as raças é uma lei da natureza. AV não proclama o eugenismo racista, mas estabelece o portuguesismo como um privilégio a que só alguns têm acesso, sugerindo que mesmo alguns desses só são portugueses, não por pertencerem a “nós”, mas pela corrupção ou complacência de funcionários que deleteriamente destroem a “alma portuguesa”. O nacionalismo excludente serve para naturalizar a exclusão social e o colonialismo interno nos nossos dias, por exemplo nos campos da agro-indústria.

A construção de um só inimigo. É necessário eleger um inimigo apenas e centrar nele toda a crítica. Segundo Hitler, a arte da liderança consiste “em consolidar a atenção do povo contra um só adversário e tudo fazer para que nada distraia essa atenção. O líder de génio é aquele que tem a capacidade de fazer com que os seus diferentes adversários pareçam um só, pertençam todos a uma só categoria”. Para Hitler, o inimigo é o Marxismo (a social-democracia, o comunismo) e os judeus. Não são dois inimigos, são um só. Num discurso em 27 de Fevereiro de 1926, Hitler afirmou “Se necessário, um só inimigo significa vários inimigos”. Esse inimigo é responsável por todos os males da sociedade. A rendição (traição) da Alemanha em 1918 e todo o desastre socioeconómico e político que se lhe seguiu na República de Weimar foi obra do mesmo inimigo. Esse inimigo conspira contra a sociedade, não apenas pelo que faz, mas também pelo que é. É uma raça inferior. Os judeus não são seres humanos; são a incarnação do mal. Por isso, não há nacionalismo sem racismo.  Hoje, como sabemos, o inimigo de eleição é a esquerda e os imigrantes. Parecem dois inimigos, mas são um só.

O principal inimigo é o inimigo interno. A Alemanha tinha perdido a Primeira Guerra Mundial porque não se tinha sabido sobrepor aos seus inimigos. Para Hitler, a Alemanha não perdeu a guerra, o exército, a que pertenceu como sargento, manteve a sua integridade. A Alemanha foi atraiçoada pelos inimigos internos que provocaram a sua rendição. No discurso de Fevereiro de 1926, Hitler invoca o passado glorioso do império e das colónias alemãs para concluir que os males que sobrevieram foram devidos aos revoltosos internos. “Esses não eram cidadãos; eram escumalha, uma escumalha de traidores”. Nos anos que se seguiram ao fim de guerra, a militância política do operariado comunista era intensa e exprimia com violência o mal-estar do país. Era reprimido com maior violência ainda, tanto por forças de direita, como pelos socialistas. Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht foram assassinados em 1919 com a cumplicidade do governo socialista. Falou-se então da fracassada revolução alemã (1918-1923). Foi nesse contexto, que Hitler soube substituir o ódio de classe pelo apelo à cidadania racista.

 Hoje, para a extrema-direita portuguesa, o 25 de Abril foi uma capitulação evitável e o que se seguiu foi um desastre provocado por “gente” como Otelo Saraiva de Carvalho, Álvaro Cunhal ou Mário Soares que, entre outras coisas, escancararam as portas do país à invasão de estrangeiros que vieram pôr em perigo a integridade do país.

A solidariedade negativa. A unidade e o consenso que se promovem visam destruir o status quo – o sistema. Não há que perder tempo em elaborar soluções alternativas porque estas emergirão espontaneamente, uma vez destruído o inimigo. A união é para destruir, nunca para construir, porque só a necessidade da destruição é “óbvia”. A construção exige compromissos que devem ser mantidos na obscuridade, na ambiguidade e na conveniência do momento para conquistar o poder. Para Hitler, o importante não era o programa, mas a imagem. Em 1920, o programa do partido agradou a toda a gente, excepto aos judeus, aos capitalistas e aos que tinham ganho fortunas com a guerra. O objectivo central era mobilizar a insatisfação popular com o status quo. O importante era declarar a sociedade doente, não entrar em detalhes sobre o que seria uma sociedade saudável.

A unidade negativa deve ser tão forte quão importante é o que há a destruir.  Para isso é necessário construir o passado recente como um desastre e dramatizar sem nuances a sua dimensão, de modo a que a gravidade da situação seja considerada irremediável dentro do sistema político presente. A Alemanha não perdeu a guerra; os traidores fizeram com que ela se rendesse e se humilhasse como nação com o Tratado de Versalhes e as condições que lhe foram impostas. Compare-se hoje com o “desastre do 25 de Abril” e “toda a bandalheira de esquerda que se seguiu” (André Ventura).

A democracia é apenas um meio para atingir outros fins. Desde os tempos de Viena, Hitler cultivou um desprezo total pela democracia, pela liberdade de expressão, pela liberdade de imprensa, pelo parlamento etc. Dedicou quinze páginas de Mein Kampf para demonstrar que “a maioria representa apenas a ignorância e a cobardia… a maioria nunca pode substituir o homem”. Trata-se do homem forte que conduz as massas, elimina a corrupção e devolve a auto-estima ao país.

Temos ouvido a multiplicação retórica do homem forte como a necessidade urgente do país. Precisaríamos de “três Salazares”, um político que, aliás, nunca teve interesse em entusiasmar as massas e as conduzir. Não qualquer homem forte, mas aquele capaz de “pôr a casa em ordem”. E para que ninguém se ofenda com a referência ao passado ditatorial, mencionam-se outros homens fortes recentes que a esquerda portuguesa “normalizou”: Otelo Saraiva de Carvalho e Álvaro Cunhal. Porque o importante é a repetição do preconceito, não interessa saber que Otelo contribuiu decisivamente para o derrube da ditadura salazarista, que cometeu erros e que pagou caro por isso, enquanto Cunhal passou onze anos na prisão (oito dos quais em isolamento) pela sua luta contra a ditadura.

Hitler usou os meios legais e democráticos enquanto estes lhe ofereceram melhores oportunidades para vencer os seus inimigos. Aliás, a legalidade é uma arma ideal quando se usa para desarmar os democratas: os processos legais são lentos e com isso dão mais tempo ao tempo rápido da conquista do poder. O uso instrumental da legalidade significa, por outro lado, que ela deve ser descartada na medida em que atrapalhar.

Segundo uma sua militante, há uma “balbúrdia jurídica em que vive o Chega”, o partido de AV. Deve entender-se que essa “balbúrdia” é intencional porque o sistema judicial que a avaliar levará o tempo processual necessário até eventualmente deixar de ter efeito útil.

Controle absoluto sobre o partido. A ascensão política de Hitler foi um processo longo e tortuoso, desde a entrada no Partido dos Operários Alemães de Anton Drexler até chegar ao líder incontestado do Partido Nacional Socialista (o partido nazi). A sua notável persistência foi o seu maior segredo ante o desprezo ou a indiferença de muitos. Habituou-se a testar os seus argumentos em infindáveis reuniões nas cervejarias de Munique. A sua política começou por ser a política da rua. Mas desde cedo se convenceu de que o líder não deve tolerar divergências internas porque elas dão armas a um inimigo já de si muito poderoso. Depois do fracassado Putsch de Munique em 1923 e da prisão de Hitler, o Partido Nacional Socialista ficou reduzido a muito pouco. No norte da Alemanha e na Renânia, o partido era dominado pelos irmãos Strasser e, na concepção destes, as duas bandeiras principais do partido eram o anticapitalismo e o nacionalismo, e eram igualmente prioritárias. As tensões com Hitler eram evidentes, uma vez que Hitler pretendia uma aliança com o capitalismo. Nessa altura (1925-26), os Strassers tinham contratado um jovem que ainda não tinha 30 anos para as tarefas de propaganda. Chamava-se Paul Josef Goebbels. A tensão com Hitler era tão grande que o jovem Goebbels chegou a pedir a expulsão do partido do “pequeno burguês”. Hitler manobrou o partido, em parte recorrendo aos seus indiscutíveis dotes de orador. Pouco tempo depois, Goebbels passou-se para o lado de Hitler depois de o ouvir num discurso inflamado durante duas horas. Alguns anos depois os irmãos Strasser foram expulsos do partido. Em 1926, Hitler instituiu a Uschla (Comité para a investigação e resolução) que pôs ao seu serviço para manter o controle total sobre o partido. O outro lado do controle total do partido é o carácter excepcional do líder. Hitler cultivou a sua excentricidade, o exagero e a surpresa do seu comportamento. O poder à parte só pode vir de um ser à parte.

A trajectória de AV e o modo como tem gerido as divergências dentro do partido mostram como ele se julga (e efectivamente está) muito acima da média dos seus correligionários. A sua excentricidade e os seus excessos de linguagem são calculados ao milímetro.

Não há verdade nem mentira. Há a repetição do que nos convém até que seja verdade. Uma das maiores aprendizagens de Hitler foi aprender a mentir com convicção. Exerceu-a durante toda a vida. No final, foi-lhe fatal. Levou-o ao suicídio. Para Hitler, o exercício da força física, apesar de fundamental, nunca é suficiente se não for acompanhado pela força espiritual. Escreveu ele: “A força que combate um poder espiritual permanece como força defensiva se os que a detêm não são também os apóstolos de uma nova doutrina espiritual”. Quando se mente deve dizer-se grandes mentiras. Escreveu: “uma mentira grosseiramente impudica deixa sempre rastro mesmo depois de ser denunciada”. O colapso de uma nação só pode ser evitado por uma “tempestade de brilhante paixão, mas só os apaixonados são capazes de despertar a paixão dos outros”.

Quem já ouviu AV certamente sentiu isso.

De bem com as massas e com o dinheiro. Hitler sempre cultivou um desprezo enorme pelas “massas”. As “massas” tinham sido a sua companhia em Viena e a falta do que Hitler julgava ter (cultura) tornava-as repugnantes a seus olhos. Escreveu em Mein Kampf : “Não sei o que mais me repugnou naquele tempo: a miséria económica dos meus companheiros, a rudeza da sua moral e dos seus costumes ou o baixo nível da sua cultura intelectual”. Odiava toda a ideologia do operariado: desprezo pela nação e pela pátria, pelo direito, pela religião e pela moral. Segundo ele, o pobre operariado tinha sido envenenado pela doutrinação dos socialistas que exploravam para seu benefício as difíceis condições em que os operários eram forçados a viver.

Hitler escreveu: “Ser um líder significa ser capaz de mover as massas”. Mas também anotou: “Aprendi que as massas só são atraídas por quem é forte e intransigente…Não sabem como fazer uma escolha liberal e tendem a sentir que foram abandonados… Também cheguei à conclusão de que a intimidação física é importante tanto para as massas como para os indivíduos …O poder das massas para compreender é fraco. Por outro lado, elas esquecem rapidamente. Sendo assim, a propaganda eficaz deve limitar-se a necessidades básicas e exprimir-se em poucas fórmulas estereotipadas”.

Se as massas significavam votos, o dinheiro era fundamental para alimentar a propaganda e manter a organização. Por isso, Hitler quis sempre ser todas as coisas para todos aqueles que via como instrumentos para atingir o poder. Por isso, arreou a bandeira do anticapitalismo e enviou Goering para Berlim a fim de estreitar os laços com o grande capital. Em 1929, Hitler já era saudado pelo grande capital e pela grande indústria que via nas suas qualidades de agitador o futuro que mais convinha ao capital numa situação de crise, uma política antidemocrática e anticlasse operária.

Certamente serão os portugueses mais vulneráveis ou mais ressentidos com as ameaças de descer de classe que encherão as urnas de votos no Chega, mas não serão eles que pagarão os custos de uma organização que exibe tamanha abundância de propaganda, tanto no mundo tradicional da publicidade, como no mundo novo das redes sociais.

Se as condições do povo melhoram, nega-se esse facto ou declara-se que é precário e vai durar pouco tempo. O projecto de Hitler beneficiou de condições iniciais muito especiais. Quando, em 1923, um país humilhado pelas condições da rendição que lhe tinham sido impostas se declarou impossibilitado de continuar a pagar as indemnizações de guerra, a França ocupou a rica região do Ruhr, o coração energético e industrial da Alemanha. Para além da humilhação, degradou-se ainda mais a situação económica. A desvalorização do marco aumentou, e, com ela, aprofundou-se a crise económica, o desemprego e o desespero de milhões de trabalhadores e suas famílias. Hitler aproveitou astutamente todos os elementos desta crise, juntando-os num só diagnóstico contra um só inimigo. Em 1923, 30% dos membros do partido estavam desempregados. A sua leitura manteve-se inflexível: “Enquanto a nação não se livrar dos assassinos dentro das suas fronteiras, nenhum êxito externo será possível”. O ódio de Hitler, em vez de se dirigir aos franceses, dirigia-se ao bando corrupto que governava o regime. Este foi o contexto que levou ao golpe de Munique. No tribunal, Hitler assumiu toda a responsabilidade, mas acrescentou: “não sou por essa razão um criminoso. Se hoje estou aqui como revolucionário é porque sou um revolucionário contra a Revolução. Não existe alta traição contra os traidores de 1918”. E os traidores são sempre os mesmos: socialistas, comunistas e judeus.

A partir de 1925, as condições da Alemanha começaram a melhorar e a Alemanha foi admitida na Liga das Nações (1926) (da qual saiu dez anos mais tarde por decisão de Hitler). As profecias do apocalipse e do desastre iminente deixaram de ser eficazes. A partir de então, Hitler passou a insistir no carácter precário e passageiro das melhorias. Por puro instinto de propaganda, esta era a melhor maneira de persistir na sua caminhada para o poder. A Grande Depressão de 1929 viria a dar-lhe razão.

As circunstâncias epocais

Os líderes de extrema-direita criam muita realidade artificial, mas fazem-no, em geral, a partir de fragmentos da realidade real. Há circunstâncias que favorecem o salto autoritário e há condições que, pelo contrário, o impedem. A partir de 1924, a Alemanha começou a recuperar e, como vimos, Hitler sentiu que era necessário assumir posições mais centristas. Talvez tudo ficasse por aí se, entretanto, não ocorresse a Grande Depressão de 1929. O desemprego massivo, a proliferação das greves, em suma, a profunda crise social que se seguiu foram o grande impulso para a clarificação e ressurgimento do partido. Ao mesmo tempo que as milícias do partido (as SA, Sturmabteilung) faziam agitação social, Hitler declarava-se contra as greves para não perder o apoio dos grandes capitalistas que já então assegurara. Quando em 1930, Strasser, líder da ala radical do partido, lhe perguntava (pouco antes de ser expulso do partido) se, no caso de conquistar o poder, nacionalizaria o grande grupo capitalista Krupp, Hitler respondeu-lhe: “Claro que o deixaria em paz. Julgas que eu seria louco ao ponto de destruir a economia do país?”. Pouco depois, Goebbels escrevia, “não somos contra o capitalismo, somos contra o seu abuso…Para nós a propriedade é sagrada”. Em Setembro de 1930, o partido Nazi, para espanto do mundo, tinha um êxito eleitoral estrondoso. Depois, foi o tapete vermelho que conhecemos. Primeiro, o vermelho da glória; depois, o vermelho do sangue inocente de milhões.

A democracia portuguesa não corre neste momento nenhum perigo existencial, mas os tempos que se avizinham não auguram nada de bom para o mundo, para a Europa e, portanto, para Portugal.  O crescimento global da extrema-direita é um sintoma (não a causa) do que está para acontecer. Não vou aqui discutir a questão mais geral da incompatibilidade entre o capitalismo (assente na acumulação capitalista infinita) e a democracia (assente no princípio da soberania popular). Limito-me a afirmar que o neoliberalismo (a versão globalmente dominante do capitalismo desde a década de 1980) tem vindo a destruir tudo o que na democracia significava bem-estar e segurança humana (viver sem medo e sem carências básicas) para as grandes maiorias (digamos, sem excesso de rigor, para as classes populares). Essa destruição está a atingir limites que se expressam na passagem do Estado de bem-estar para o Estado de mal-estar. É dessa passagem que a extrema-direita se alimenta.

As respostas dos governos do arco da governação (direita, centro e centro-esquerda) não se têm oposto a esta destruição e procuram responder ao mal-estar com medidas repressivas, em vez de medidas que garantam a reposição do bem-estar. Como mostrei, a repressão e a solidariedade negativa são o DNA da extrema-direita e por isso não admira que ela cresça menos pelo seu mérito do que pelo demérito das forças que se lhe deviam opor. Esta últimas “esqueceram-se” que sem tributação progressiva não há o bem-estar social relativo no capitalismo. Esqueceram-se de que no imediato pós-guerra os rendimentos mais altos chegaram a ser tributados em mais de 80% e nem por isso ficaram pobres ou deixaram de continuar a prosperar. Esqueceram-se de que sem políticas públicas sociais de qualidade (educação, saúde e pensões e transportes) não é possível garantir o bem-estar das populações, e que essa garantia em caso algum pode ser dada pelo sector privado, cujo objectivo legítimo é acumular riqueza, não distribuí-la.

A democracia tem vindo a ser desfigurada e substituída por um novo tipo de regime, o autoritarismo eleitoral vigente em países tão diferentes como a Índia, a Rússia, os EUA, a Turquia, El Salvador e a Hungria. A extrema-direita prefere o autoritarismo eleitoral à ditadura por um simples cálculo político: é aparentemente mais legítimo, sobretudo num mundo ainda bem lembrado das ditaduras. Mas para se manter este regime tem de desviar a atenção das verdadeiras causas do mal-estar (um capitalismo em grande medida auto-regulado, sobretudo no sector financeiro), transformando consequências em causas. A imigração é hoje o caso paradigmático desta transformação. Mas, como dizia Hitler, o uso da repressão nunca é eficaz se não for animado por um desígnio espiritual, seja ele Make America Great Again (MAGA) ou o orgulho de ser português e cristão. A corrupção é o outro caso de transformação de consequências em causas. A corrupção é endémica ao neoliberalismo porque este assenta na promiscuidade entre o mercado dos valores políticos (que não se compram nem se vendem) e o mercado dos valores económicos (os valores que têm preço e que se compram e se vendem). Viola assim o princípio central da teoria da democracia liberal desde John Locke que propunha a separação total entre os dois mercados de valores. A corrupção é, assim, tão endémica ao neoliberalismo quanto a luta contra ela.

O importante é que se ocultem as verdadeiras causas do mal-estar da população: sejam elas o aumento do custo de vida, a estagnação dos salários e a asfixia do poder sindical, o aumento do custo da habitação que pode consumir mais de metade do rendimento familiar, a liberalização escandalosa do preço dos medicamentos, que se tornam progressivamente inacessíveis, sobretudo a doentes crónicos.

No actual tempo europeu inventaram-se dois inimigos para distrair a atenção dos problemas reais. O inimigo interno é o imigrante, sobretudo se for islâmico; o inimigo externo é a Rússia. Nenhum europeu é capaz de imaginar a vida no seu país sem a participação dos imigrantes. Nenhum cidadão europeu é capaz de ver na Rússia uma ameaça, sobretudo se se lembrar que a Rússia foi invadida duas vezes por europeus (Napoleão e Hitler) e nunca se propôs invadir a Europa. A invasão da Ucrânia tem razões históricas antigas e recentes. É condenável a todos os títulos, mas não significa a invasão da Europa. Hoje, os europeus sabem que a guerra entre a Rússia e a Ucrânia podia ter terminado três meses depois de ter começado se os EUA e os seus lacaios (Boris Johnson, aparentemente bem pago para isso) não tivessem impedido a assinatura do acordo de paz praticamente concluído. Os europeus sabem hoje que o objectivo da guerra foi inicialmente duplo. Por um lado, visou amputar a Europa de uma das suas regiões, a Rússia, com o fim de impedir o acesso da Europa à energia barata vinda da Rússia e com isso acelerar o declínio e a dependência da Europa em relação ao império declinante dos EUA. Por outro lado, visou bloquear o acesso da China à Europa e ao mundo ocidental por via da Rússia.

Mais tarde, os empresários da guerra, os lobistas da indústria de armamento, com as suas embaixadas em Bruxelas, convenceram uma classe política medíocre e ignorante a promover a guerra por sua própria iniciativa. Esta classe política nem sequer se deu conta de que todos os benefícios iriam para a indústria norte-americana, enquanto os custos recairiam exclusivamente sobre os europeus. De repente, os europeus ouviram os seus líderes a falar de guerra como se fosse a mais importante missão política dos próximos anos. Os europeus mais velhos lembram-se do passado recente e perguntam-se perplexos e impotentes. A Europa ocidental foi, depois da Segunda Guerra Mundial, o grande promotor global da paz, tendo intermediado activamente a resolução de várias guerras locais. Foi o berço do grande movimento pela paz. Mais tarde, assumiu pioneirismo na preocupação ecológica e foi o berço do movimento ecologista global. Como é que, de repente, desaparecem tanto o movimento pela paz como o movimento ecológico, e a Europa passa a ser um continente em guerra contra uma ameaça que só a classe política vê?

A invenção dos inimigos é, assim fundamental para ocultar a grande causa do mal-estar dos europeus nos próximos anos: os orçamentos militares aumentam à custa da diminuição das políticas sociais. Os políticos europeus viram-se “forçados” a mentir aos seus cidadãos. Quando estes se derem conta, haverá agitação social e a resposta será repressiva, uma vez que, neste sistema, não é possível outra resposta. Por isso, quem se diz contra o sistema é quem mais investe na vigência integral e, portanto, repressiva deste sistema. Mente duplamente, e é por isso que a sua mentira se confunde tanto com a verdade.

Neste contexto, surge uma preocupação especificamente portuguesa. Portugal é um dos países europeus com menos tradição democrática. É também um dos países com mais desigualdade social e maiores índices de pobreza. A combinação destas duas condições torna Portugal uma presa fácil de qualquer demagogia de extrema-direita. A democracia sobreviverá? Bastará a sua transformação num autoritarismo eleitoral?

A história não se repete. Isto não quer dizer que os ecos do passado não nos soem estranhamente familiares. Nem as diferenças nem as semelhanças são pura coincidência.

https://aviagemdosargonautas.net/2025/11/13/o-kampf-de-andre-ventura-por-boaventura-de-sousa-santos/

sábado, 15 de fevereiro de 2025

Boaventura de Sousa Santos - Trump: o filho legítimo da Europa

 * Boaventura de Sousa Santos

Trump é um filho legítimo, não bastardo, da Europa moderna. Tal qual o foi Hitler no seu tempo. A mãe que gerou estes filhos vai gerar outros até vir a ser devorada por um deles, talvez pelo próprio Trump. Em vez de ser o Saturno de Goya a devorar os seus filhos, será a Europa a ser devorada pelos filhos. Nesta metáfora ser devorada não significa extinguir-se. Significa voltar a ser o que era até ao século XIV, um canto insignificante da Grande Eurásia onde o Mediterrâneo Oriental pontificava como ponte entre os mundos oriental e ocidental então conhecidos. Trump começou a desestabilizar a Europa desde 2016, a devorá-la para atenuar as piores consequências do declínio do imperialismo norte-americano. O processo não começou com ele e continuou depois dele, com Biden e por outros meios: em vez da guerra comercial, a guerra da Ucrânia. Estamos, pois, perante um processo histórico que analisamos com a dificuldade própria de quem analisa a corrente das águas ao mesmo tempo que é arrastado por elas.

A Europa auto-denominou-se educadora do mundo a partir do século XV. E a cartilha dos educadores foi dominada pela ideia de que educar o outro é devorar o outro. Devorar é progresso para quem devora e destino comum para quem é devorado. Devorar é sempre progresso, seja devorar por evangelização, por compra, por roubo, por ocupação, por guerra, por assimilação. Por devorar entenda-se uma forma de antropofagia. A forma europeia auto-designou-se civilização e, consequentemente, todas as outras formas de antropofagia que os educadores europeus foram encontrando no mundo foram declaradas bárbaras e, como tal, proscritas e demonizadas. Trump é não só um filho legítimo como um estudante que aprendeu bem a lição que os educadores europeus lhe deram.

Por mais sonantes que sejam as rupturas entre a política as usual e o tsunami Trump, eu tendo a ver continuidades e são elas que significam o perigo do tempo que vivemos. O facto de se salientarem as rupturas leva a pensar que, uma vez Trump passado à história, tudo voltará a ser como dantes. Não voltará. Trump é historicamente o espetáculo do declínio do que chamamos Ocidente. Não é o declínio dos EUA, é o declínio da Europa e do mundo ocidental. O longo ciclo que se iniciou no século XV está a chegar ao fim. A inconsciência deste facto por parte da social-democracia europeia (que se foi suicidando a partir de 1980) está bem expressa na publicação recente da Social Europe, da Fundação Friedrich-Ebert, intitulada “EU Forward: Shaping European Politics & Policy in the Second Half of the 2020s” (2025). As ruínas explicadas por aqueles que as causaram limitam-se a propor soluções que eles próprios recusaram na altura em que elas poderiam ser possíveis e evitar o desastre. A partir de 1945, o pacto colonial entre a Europa e os EUA inverteu-se. A autonomia dada à Europa dividida e a generosidade da sua defesa (NATO) tiveram por objectivo conter o perigo comunista. A Europa interiorizou de tal modo esse papel que agora não tem outro remédio senão inventar o inexistente perigo comunista para subsistir. Europa é hoje uma colónia de sua antiga colónia, sem que nenhuma delas tenha passado por um verdadeiro processo de descolonização.

A matriz europeia de Trump
A matriz europeia tem os seguintes componentes: superioridade civilizacional; racionalidade instrumental; exclusividade epistémica da ciência-tecnologia; íntima relação entre comércio e guerra; conquista ou contrato desigual; pacta sunt servanda quando convém; linha abissal entre seres plenamente humanos e seres sub-humanos; a natureza pertence-nos, nós não pertencemos à natureza; soberania, inimigos internos e inimigos externos; dialética da revolução/contra-revolução. Esta matriz não desceu dos céus nem foi revelada a nenhum descendente tardio de Moisés. É constitutiva da estrutura de dominação (exploração, opressão, discriminação) da modernidade ocidental constituída por três pilares de dominação principais e intrinsecamente articulados: capitalismo, colonialismo, patriarcado. Esta tríade variou muito ao longo dos séculos, mas mantém-se intacta, ontem como hoje, e sempre se serviu de dominações-satélites, sejam elas castas, capacitismo, etarismo, religião, política, etc.
Esta matriz não é exaustiva, teve múltiplas interpretações e versões e produziu efeitos contraditórios. A modernidade europeia também permitiu que dois grandes intelectuais malditos, um no princípio do ciclo e outro no início do fim do ciclo, vissem como ninguém as contradições das interpretações dominantes desta matriz e as catástrofes que produziria. Refiro-me a Baruch Espinosa e a Karl Marx.

Superioridade civilizacional
Na modernidade ocidental a superioridade civilizacional pressupõe a superioridade racial. Por sua vez, a superioridade racial pressupõe que não se pode usar com os inferiores os mesmos procedimentos e instituições que se usa entre os iguais. Segundo uma lógica multissecular, de Aristóteles a Nietzsche, seria um contrassenso tratar como iguais os desiguais. O racismo e o militarismo foram sempre os sub-textos da superioridade civilizacional. Devorar em nome da superioridade civilizacional, qualquer que seja o instrumento utilizado, provoca uma forma específica da ansiedade decorrente da possível reacção dos destinados a ser devorados. O racismo desumaniza para legitimar a brutalidade da repressão, o militarismo elimina. Trump prefere o racismo extremo porque lhe permite combinar desumanização com eliminação. Ao contrário dos índios, os imigrantes não têm de ser eliminados. São transferidos para os seus países de origem ou para novas reservas, sejam elas em Guantánamo ou em El Salvador. Os imigrantes são algemados para dramatizar o contraste com a libertação dos verdadeiros americanos.

Racionalidade instrumental e exclusividade epistémica da ciência-tecnologia
O princípio moderno de que o conhecimento é poder só seria um princípio benévolo se a pluralidade dos conhecimentos existentes no mundo fosse reconhecida e as possibilidades de enriquecimento mútuo fossem celebradas. Em vez disso, deu-se uma prioridade exclusiva à ciência e posteriormente à tecno-ciência. Isto teve as seguintes consequências: um desenvolvimento científico e tecnológico sem precedentes; massivo epistemicídio, ou seja, destruição, supressão ou marginalização de todos os conhecimentos considerados não científicos; a construção de um senso comum segundo o qual ser racional é adequar os meios aos fins propostos sem que estes sejam sujeitos a discussão (eficiência); a desvalorização da ética decorrente da substituição da razoabilidade pela racionalidade; crescente discrepância entre consciência técnica e consciência ética, em detrimento desta última; recusa dos limites externos do conhecimento cientifico, ou seja, das perguntas a que a ciência nunca poderá dar resposta por mais que avance, pela simples razão de que tais perguntas não são formuláveis cientificamente (por exemplo, qual é o sentido da vida?); tendência em transformar problemas políticos em problemas técnicos e em reduzir questões qualitativas a questões quantitativas. Elon Musk é a face visível e caricatural do extremismo a que este tipo de racionalidade pode conduzir. Mas ele não é causa, é consequência. Os que o criticam pelo seu triunfalismo delirante são os mesmos que celebram a inteligência artificial sem se darem conta de que são duas manifestações do mesmo tipo de inteligência e do mesmo tipo de artificialidade. Levada ao extremo, a racionalidade instrumental implica a irracionalidade ético-política. O actual crescimento da extrema-direita é um dos sinais disso mesmo.

O uso racional dos recursos naturais e humanos
A racionalidade instrumental da dominação moderna capitalista, colonialista e patriarcal estabeleceu como fim a maximização da acumulação de recursos como condição da maximização dos lucros; os meios para o atingir foram aqueles que cada época tornou possível, em face da resistência dos que foram sendo “desacumulados” ou despossuídos, fossem eles os seres humanos ou a natureza. Antes de ser utilizado pelos marxistas para caracterizar as relações de trabalho, o conceito de exploração fora há muito consagrado para explorar a natureza segundo o mesmo princípio de que conhecer é poder. O neoliberalismo nas relações de trabalho e o colapso ecológico são as duas faces da mesma moeda. Tal como “drill, baby, drill!” e o tratamento dado aos trabalhadores migrantes são duas faces da mesma moeda.

Na lógica da racionalidade moderna tudo o que é racionalmente utilizável é natureza. Parece contraditório porque a distinção entre natureza e humanidade é central pelo menos desde o Iluminismo: a natureza pertence-nos; nós não pertencemos à natureza. Não há, de facto, contradição porque a definição de cada um dos termos permanece sempre em aberto para que tudo o que possa ser usado racionalmente como recurso acumulável seja convertido em natureza. Os povos nativos eram natureza, tal como as mulheres, tal como os escravos. E se hoje atentarmos no modo como os corpos humanos estão a ser industrializados de forma a funcionarem eficazmente nas novas configurações do trabalho, é a re-naturalização do humano que está em causa.

Íntima relação entre comércio e guerra
Desde o seu início, o comércio e a guerra foram as duas faces da expansão colonial europeia. Francisco de Vitória (1483-1546), o grande advogado do comércio livre, da propriedade individual e do direito internacional, é também o advogado da guerra justa sempre que os valores anteriores sejam violados. Aliás, na opinião dos críticos do universalismo liberal, este carregou sempre consigo o estigma de justificar a guerra em nome de princípios que só favorecem uma das partes, a que tem o poder para, num dado momento histórico, definir o que é o universalismo liberal. Os critérios duplos como princípio de governação são inerentes à modernidade ocidental. O princípio de que os pactos são para cumprir (pacta sunt servanda) sempre foi aplicado com uma cláusula invisível (aos desprevenidos): “sempre e só quando convém aos poderosos”

Na matriz da dominação moderna, a guerra é o início e o fim, o primeiro e o último recurso. Entre um e outro está a despossessão ou acumulação primitiva (e permanente), o roubo, o comércio, a troca desigual, a escravatura, o trabalho não pago das mulheres, etc. Para que tudo ocorra no marco da civilização e não da barbárie, inventou-se a diplomacia e os contratos desiguais. Já Adam Smith alertou para existência de contratos desiguais sempre que há desigualdade de condições materiais ou outras entre as partes que entram no contrato. A máxima desigualdade ocorre quando a parte mais fraca não tem outra opção de sobrevivência senão aceitar o contrato com as condições que a parte mais forte oferece. Dos contratos de trabalho e dos contratos de serviços entre indivíduos e empresas multinacionais aos contratos de exploração de recursos naturais e aos acordos comerciais entre os países centrais e os países periféricos, é longa a história de contratos desiguais na modernidade ocidental.

A linha abissal entre seres plenamente humanos e seres sub-humanos
A hierarquia entre civilização e barbárie assumiu diferentes características ao longo dos séculos. A partir do século XVI, essa hierarquia foi utilizada para justificar o colonialismo, primeiro a justificação pela religião e depois, com o Iluminismo, a justificação pela ciência. Superioridade civilizacional passou a ser racial, branca. Como diz Frantz Fanon em Black Skins White Masks, é o racista que cria o seu inferior. A partir de então, a ideia de humanidade universal, tão cara aos iluministas, passou a depender dos limites do universo do 

 se considera humano. E, por definição da superioridade civilizacional, esse universo não abrange todos os humanos. Uma linha abissal emerge entre os seres plenamente humanos (os que pertencem à sociabilidade metropolitana) e os seres sub-humanos (os que pertencem à sociabilidade colonial). A demarcação de exclusão/inclusão é de tal modo radical que, embora institucionalizada no período do colonialismo histórico (escravatura, code noir de 1695, as leis segregacionistas Jim Crow do final do século XIX e início do século XX, os códigos do indigenato português a partir de década de 1920), passou a ser a segunda natureza da civilização ocidental, e como tal sobreviveu ao fim do colonialismo histórico e ao fim de todas as legislações discriminatórias.

É hoje uma linha tão radical quanto invisível ao nível da normatividade institucional. É nela que assenta o racismo, o continuado roubo dos recursos naturais do Sul global e a troca desigual entre os países centrais e os países periféricos do sistema mundial. Na modernidade eurocêntrica não é possível a humanidade sem a sub-humanidade. Como é uma linha abissal, a sua existência não depende de leis ou de demarcações físicas (tipo apartheid) porque está inscrita no mais profundo do inconsciente colectivo da modernidade ocidental. Isto não significa que não esteja sempre disponível para ser visibilizada quando tal convenha aos poderes políticos encarregados de reproduzir a dominação moderna. Os muros fechando fronteiras e as deportações massivas de supostos criminosos são as duas formas hoje mais visíveis.

Recordemos que as deportações, embora tenham uma longuíssima história, foram uma das principais formas de punição-povoamento no período inicial da expansão colonial europeia. Os portugueses usaram-na desde o século XVI, enviando os degredados para os territórios “descobertos”; a partir de 1717, os ingleses deportaram cerca de 40.000 pessoas para as colónias, primeiro para a América do Norte e depois para a Austrália (entre 1787 e 1855). À luz desta história compreende-se que Trump insista tanto em que os imigrantes são todos criminosos. Aprendeu bem a lição europeia.

A conquista
O princípio da conquista é inerente à modernidade ocidental. Não se limita à conquista territorial; inclui também a conquista da religião, da espiritualidade, da mente, das emoções, da subjectividade. A conquista usa múltiplas armas, desde as militares às económicas, educativas, discursivas, religiosas, lúdicas. A conquista “sabe” que encontrará maior ou menor resistência e por isso opera segundo a lógica da neutralização preventiva. O mais eficaz e económico uso da força é o que se fica pela ameaça. A conquista implica roubo, compra, apropriação, diplomacia e violência. Se olharmos para o actual território norte-americano veremos que ele é o resultado do mais radical exercício do plano moderno da conquista. Trump mantem-se fiel a esse exercício ao imaginar as sua novas conquistas territoriais

Soberania, inimigos internos e inimigos externos
A ideia de soberania moderna que emerge do Tratado de Vestefália (1648) está na origem tanto do nacionalismo como do internacionalismo modernos. Qualquer deles teve tanto de realidade como de invenção e os seus sentidos políticos foram diferentes e até contraditórios ao longo do tempo e segundo as circunstâncias. O exacerbar do nacionalismo entre os países colonizadores foi sempre o prenúncio de guerra, enquanto o nacionalismo dos países colonizados foi uma condição para a independência. Como os EUA são uma colónia que se tornou independente sem se descolonizar, o nacionalismo esteve tanto ao serviço da guerra como do isolacionismo.

Esta ambiguidade do conceito de soberania, ao mesmo tempo que criou a distinção entre inimigos internos e inimigos externos, tornou possível manipulá-la para servir os interesses políticos do momento. Assim, os imigrantes são, segundo Trump, uma entidade híbrida, entre o inimigo interno e o inimigo externo. A mesma manipulação é possível com os amigos internos e externos. Muito se terão surpreendido que Trump tenha começado por castigar com tarifas os amigos mais próximos (Canadá, México, Europa). Na lógica de Trump, como na da Francisco de Vitória, quem é rival económico é inimigo político, por mais amigo que pareça.

Dialética da revolução/contra-revolução
Devido ao seu expansionismo incessante e incondicional, a modernidade ocidental é constituída pela dialética entre a insurgência e a contra-insurgência. Quer uma quer outra usaram métodos mais ou menos violentos em períodos distintos e segundo as circunstâncias. Estamos num período em que a insurgência usa métodos não violentos (democracia, sistema judicial, opinião pública), enquanto a contra-insurgência usa crescentemente métodos violentos (discurso do ódio, crescimento da extrema-direita, ameaça de guerra). Ninguém pode antecipar as consequências desta discrepância. No passado, esta discrepância levou à prevalência da contra-insurgência.

E agora?
O excepcionalismo norte-americano está desconfirmado?
Sim. Tal como a Europa e todos os países do mundo, os EUA tanto podem produzir heróis como vilões, tanto podem criar democracias como destruí-las. A diferença do benefício ou do dano está no poder de cada país no sistema mundial moderno

O fascismo pode voltar?
Sim e não. Hitler deu o golpe em 1933 depois de ganhar as eleições de 1932. Trump ganhou as primeiras eleições em 2016 para preparar o golpe institucional (as nomeações para o Tribunal Supremo) e agora exerce o novo mandato como se fosse um golpe democrático. A extrema-direita de todo o mundo está muito atenta de modo a definir em cada país qual a estratégia que, na mesma linha, conduza aos mesmos resultados

Haverá guerra global?
É provável. No caso das guerras anteriores, alguns dos maiores defensores da paz foram os que mais prepararam a guerra e depois a travaram. Se houver guerra será com a China e, desta vez, o território norte-americano será teatro de guerra. Acho que os norte-americanos estão tão viciados na ideia do excepcionalismo que ainda não se deram conta disso.

A esquerda poderá pontualmente estar de acordo com Trump?
Pode. Esta resposta é certamente a mais polémica. Mas tomemos o exemplo da USAID. Durante anos os analistas críticos criticaram a USAID como sendo o lado benévolo da contra-insurgência levada a cabo pela CIA. Foi criada em 1961 para impedir que a revolução cubana se espalhasse por todo o subcontinente. A ajuda humanitária teve sempre como termo de referência desenvolver atitudes e comportamentos favoráveis ao imperialismo norte-americano. Os comentaristas ao serviço do império (sempre equivocados a respeito dos desígnios do império) desfazem-se em lamentações por mais este golpe de Trump na benevolência da ajuda dos EUA aos povos mais desfavorecidos. Sem dúvida que essa ajuda foi preciosa para as populações e o seu corte abrupto vai criar muito sofrimento. Mas não tardará que a China e os seus aliados preencham o vazio deixado pela USAID. Com melhores condições para os países beneficiados? Provavelmente sim, enquanto a China for o império ascendente. Depois se verá.

15 de Fevereiro de 2025

https://aviagemdosargonautas.net/2025/02/15/trump-o-filho-legitimo-da-europa-por-boaventura-de-sousa-santos/

sábado, 15 de abril de 2023

Bárbara Reis - Boaventura e a nova palavra: ‘extractivismo intelectual’,

 OPINIÃO COFFEE BREAK -   por Bárbara Reis 

 15 de Abril de 2023

Nunca tinha ouvido “extractivismo intelectual”. É uma expressão nova para um problema velho. Vantagem em relação ao assédio sexual? É mais fácil de provar.

Dizem-me que na academia há pessoas nervosas com o caso Boaventura de Sousa Santos porque imaginam que a sua vez chegará em breve. Provavelmente é o que vai acontecer. Tem sido esse o padrão noutros países.

Enquanto esperamos — por novos testemunhos ou novos casos —, seria útil olhar para as acusações relativas à sua prática académica tout court, pelo menos as destacadas no livro Sexual Misconduct in Academia (Routledge, 2023).

Num capítulo desse livro, três antigas investigadoras do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra — a belga Lieselotte Viaene, professora na Universidade Carlos III, Espanha; a portuguesa Catarina Laranjeiro, investigadora do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, e a norte-americana Miye Nadya Tom, professora na Universidade de Nebraska, EUA — acusam o sociólogo e director emérito do CES de aproveitamento intelectual.

Não sei se é uma acusação mais grave do que a de assédio sexual. Mas é uma mancha terrível que nenhum académico quer. Fere — e pode destruir — o próprio corpo de trabalho, a essência do que se faz numa profissão.

Também não sei se é verdade. Boaventura pode ter agido sempre de forma correcta em relação aos direitos autorais dos outros, pode ter agido bem só às vezes ou o aproveitamento intelectual pode ter sido o seu padrão.

Muitos académicos dizem que este é um velho problema da academia, cheio de armadilhas, falhas de comunicação, traições e vaidades, e que provoca atritos diários. Dizem também que são conhecidos, nas várias áreas, os investigadores que têm por hábito atrair para si os créditos dos outros.

Há em todas as profissões. Editores de jornais que acrescentam o seu nome à assinatura de notícias escritas pelos colegas jovens. Arquitectos donos de ateliers que registam a autoria de projectos só com o seu nome. Investigadores que se sentem injustiçados quando vêem o seu nome relegado para os agradecimentos no livro para o qual trabalharam meses.

O que parece óbvio é que, olhando para as duas questões éticas em debate, é mais fácil provar o aproveitamento intelectual do que o assédio sexual. É difícil e trabalhoso, mas é realista esperar uma conclusão taxativa, sem ambiguidade e sem margem para dúvida.

Falo do “extractivismo intelectual”, expressão que desconhecia até esta semana e que é usada pelas investigadoras no ensaio que deu origem a esta tempestade.

Percebe-se a origem: há o uso sistemático dos recursos naturais e há o uso sistemático dos recursos intelectuais. Recursos dos outros, bem entendido, em regra, os mais fracos. A expressão vem da crítica moderna ao colonialismo e ao uso que os impérios coloniais fizeram dos recursos naturais das colónias.

Boaventura, dizem as investigadoras, “poderá ser visto como um especialista em extractivismo intelectual”. Na prática, acusam-no de duas coisas: 1) publicar artigos e capítulos de livros usando o trabalho feito por jovens assistentes do CES a quem não pagou ou pagou mal e; 2) assinar textos sozinho, sem reconhecer os assistentes como co-autores e relegando-os para a página dos agradecimentos ou as notas de rodapé.

As investigadoras dizem que “esta má conduta explica como os professores-estrelas conseguem escrever por ano dezenas de artigos e capítulos de livros assinados só com o seu nome, ao mesmo tempo que dão conferências e masterclasses pelo mundo fora”. Uma alta produtividade só possível graças ao “extractivismo intelectual”.

Antes da questão técnica (como provar), a questão ética (as boas práticas). Falei com académicos experientes, incluindo catedráticos e directores de projectos com financiamentos de milhões de euros. Há regras simples, conhecidas e consensuais.

Por exemplo: se um iestigador assistente fez um mestrado ou um doutoramento sob a orientação do mestre e se partes desse trabalho aparecem num texto do mestre no qual o assistente não é identificado como co-autor, o mestre está a apropriar-se do trabalho do assistente. É o “extractivismo intelectual”.

Claro que à volta de alguns mestres célebres há jovens investigadores que “disputam o direito a levar a mala”. Sabem que a associação a um mestre com fama internacional cria currículo e ajuda a conseguir um contrato numa universidade. Estou a citar um académico que, há uns anos, num jantar do CES em Coimbra, viu com espanto jovens assistentes citarem à mesa, em voz alta, passagens de artigos de Boaventura, num esforço de lisonja ao chefe, ali sentado, que muito o impressionou.

Estou também a pensar na frase que otro académico me disse ontem: “Boaventura era um passaporte para uma vida boa.” Não há nada de errado em ser-se discípulo, seguidor e intérprete de um guru. O aprendiz vai mais longe, mas também leva consigo as ideias do guru, que assim vão mais longe também. Os dois ganham.

Isto ajuda a explicar algumas coisas, mas é lateral à tempestade.

De regresso à técnica. Como dizem os americanos, não é preciso um cientista espacial. As investigadoras falam em “inúmeras histórias”. Pois bem, veja-se uma a uma. Basta seguir o paper trail, ou seja, percorrer os documentos que mostram o historial de cada texto.

Hoje os bastidores dos textos têm uma pegada informática automática, inalterável e fácil de reconstituir.

Pode começar-se por perguntar quem se sente lesado. Seria o mais simples, pois cada investigador mostraria o que fez e o que, do seu trabalho, foi usado nos textos publicados por Boaventura. Muito, pouco, nada? E, a seguir, como foi registada a autoria.

Se ninguém se chegar à frente, pode analisar-se artigo a artigo, procurar os nomes nos agradecimentos e notas de rodapé. Isso implica contactar as pessoas, comparar e cotejar os textos. Há quem queira participar e quem não queira. Os que querem têm as provas.

Se foi publicada a tese de mestrado ou de doutoramento, é só comparar. Há bons softwares. Há partes iguais num artigo do mestre? São grandes ou pequenas?

Claro que, em ciência, vale o que se publica. Mas mesmo nos eventuais casos de assistentes que não publicaram, é possível provar a sua participação.

Imagine que um texto foi escrito a quatro ou seis mãos. Se foi no Google Docs — muito usado, pois permite várias pessoas escreverem e editarem um mesmo texto, acessível online e guardado numa nuvem —, basta ver o registo das acções. Tudo fica como marca de água: x escreveu o bloco tal no dia tal, à hora tal; y idem aspas; x de novo, etc. Se foi por email, há registo dos envios.

Explica uma académica: “Quando os jovens investigadores que orientamos são muito bons, incentivamo-los a publicar. A regra é assinarmos juntos: o jovem em primeiro lugar, o mestre em segundo. Sem o mestre, o trabalho não existiria (é o mestre que consegue financiamento para o projecto e é o mestre que guia o processo intelectual). Mas sem o investigador, não haveria aquele trabalho. Além disso, interessa ao jovem assinar em co-autoria com um mestre, pois é isso que lhe vai abrir portas, é um selo de qualidade. Nestes casos, a co-autoria é justa e correcta para os dois.”

Diz outra académica: “Quando não é assim, é porque o trabalho de equipa é só fachada.”

A questão é simples: dá trabalho, mas é possível reconstituir os projectos e os “bastidores” dos textos e ver quem fez o quê.

Outra coisa: tal como no assédio, é preciso que os que se sentem lesados avancem, contem as suas histórias e mostrem os seus papéis. O ar ficará mais limpo.

Redactora principal

https://www.publico.pt/2023/04/15/sociedade/opiniao/boaventura-nova-palavra-extractivismo-intelectual-2046172