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sábado, 23 de maio de 2026

António Santos - Eleições intercalares nos EUA: a trafulhice é a lei

* António Santos

À me­dida que se apro­ximam as elei­ções in­ter­ca­lares de No­vembro nos EUA, a ad­mi­nis­tração Trump, que co­lec­ciona re­cordes his­tó­ricos de im­po­pu­la­ri­dade, não poupa es­forços para ga­rantir an­te­ci­pa­da­mente a vi­tória elei­toral, mesmo que ela ocorra na se­cre­taria, ou no sé­culo XIX. No mês pas­sado, uma mai­oria de juízes ultra-re­ac­ci­o­ná­rios do su­premo tri­bunal feriu com gra­vi­dade a Lei do Di­reito ao Voto que, em 1965, es­ta­be­leceu o fim da dis­cri­mi­nação elei­toral dos ne­gros. Apro­vei­tando-se da am­bi­gui­dade ine­rente ao con­ceito de “raça”, o su­premo es­can­carou a porta ao ra­cismo nas pró­ximas elei­ções.

Em causa está, por exemplo, o “Ger­ry­man­de­ring” – a prá­tica de al­terar os mapas dos cír­culos elei­to­rais para ga­rantir mais eleitos. Os Re­pu­bli­canos não in­ven­taram a per­versa arma do “Ger­ry­man­de­ring”, tão an­tiga como a de­mo­cracia bur­guesa, e os De­mo­cratas também a dis­param sempre que o alvo lhes é con­ve­ni­ente. O que aqui há de novo é que, por um lado, o “Ger­ry­man­de­ring” volta a ser no­va­mente usado para ga­rantir que os votos dos ne­gros não contam e que, por outro lado, à me­dida que Trump con­so­lida o do­mínio sobre o apa­relho ju­di­cial, o Par­tido De­mo­crata tem cada vez mais di­fi­cul­dade a ri­postar na mesma moeda. Esta se­mana, por exemplo, o prin­cipal dis­trito elei­toral negro de Memphis, no Ten­nessee, foi dis­sol­vido e dis­tri­buído por três dis­tritos de mai­oria branca e con­ser­va­dora. No Mis­sis­sipi, na Loui­siana e na Vir­ginia, os mapas elei­to­rais também estão a ser re­de­se­nhados no mesmo sen­tido. Con­tra­ri­a­mente, esta se­mana, o Par­tido De­mo­crata viu chum­badas pelos tri­bu­nais quatro ten­ta­tivas de al­terar os mapas a seu favor.

Nos EUA, as elei­ções acon­tecem em dias la­bo­rais (as in­ter­ca­lares, por exemplo, serão numa terça-feira) e só em 21 dos 50 Es­tados os pa­trões são le­gal­mente obri­gados a per­mitir que os tra­ba­lha­dores vão votar sem perda de ven­ci­mento, o que só por si já é ex­tre­ma­mente di­fícil ga­rantir e fis­ca­lizar. Nou­tros sete Es­tados, os tra­ba­lha­dores até podem parar de tra­ba­lhar para irem votar, mas perdem o dia de sa­lário, um con­vite a que os tra­ba­lha­dores mais po­bres não votem. Para pi­orar tudo, a ge­o­grafia dos EUA faz com que votar exija fre­quen­te­mente de­mo­radas e cus­tosas vi­a­gens de carro. Sem sur­presas, a taxa de par­ti­ci­pação dos mais ricos já é ac­tu­al­mente o dobro da dos mais po­bres, que até aqui se de­fen­diam vo­tando por cor­res­pon­dência.

Para tornar o voto dos tra­ba­lha­dores ainda mais di­fícil, Trump quer agora li­mitar quase por com­pleto o voto por cor­reio: deu or­dens ile­gais aos cor­reios pú­blicos para não en­tre­garem cartas com bo­le­tins de voto, ex­cep­tu­ando as dos “elei­tores pré-apro­vados” – por ele, claro está. No mesmo sen­tido, apre­sentou no con­gresso a Lei SAVE, que con­si­derou aliás «pri­o­ri­dade nú­mero um» e que, se avançar, tor­nará obri­ga­tória a apre­sen­tação do pas­sa­porte ou do bo­letim de nas­ci­mento para poder votar, ex­cluindo 21 mi­lhões de elei­tores que nunca ti­veram estes do­cu­mentos. Steve Bannon, ex-con­se­lheiro de Trump, foi mais longe e su­geriu mo­bi­lizar para as mesas de voto o ICE; a in­fame po­lícia mi­gra­tória, para ater­ro­rizar quem tenha ar de imi­grante.

 Avante n.º 2737 (14/05/2026)

https://www.avante.pt/pt/2737//183689
https://www.odiario.info/eleicoes-intercalares-nos-eua-a-trafulhice/

António Santos - 10 factos chocantes sobre os EUA

* António Santos

1. Os Es­tados Unidos têm a maior po­pu­lação pri­si­onal do mundo, com­pondo menos de 5% da hu­ma­ni­dade e mais de 25% da hu­ma­ni­dade presa. Em cada 100 ame­ri­canos um está preso.A subir em flecha desde os anos 80, a sur­real taxa de en­car­ce­ra­mento dos EUA é um ne­gócio e um ins­tru­mento de con­trolo so­cial: à me­dida que o ne­gócio das pri­sões pri­vadas alastra, uma nova ca­te­goria de mi­li­o­ná­rios con­so­lida o seu poder po­lí­tico. Os donos destes cár­ceres são também donos dos es­cravos que tra­ba­lham em fá­bricas dentro da prisão por sa­lá­rios in­fe­ri­ores a 50 cên­timos por hora. Uma mão-de-obra tão com­pe­ti­tiva que muitos mu­ni­cí­pios hoje so­bre­vivem fi­nan­cei­ra­mente das suas pri­sões ca­ma­rá­rias e graças a leis que vul­ga­rizam sen­tenças até 15 anos de prisão por crimes como roubar pas­tilha elás­tica. Os alvos destas leis são in­va­ri­a­vel­mente os mais po­bres, mas so­bre­tudo os ne­gros, que re­pre­sen­tando apenas 13% da po­pu­lação ame­ri­cana, com­põem 40% da po­pu­lação pri­si­onal do país.

2. 22% das cri­anças ame­ri­canas vivem abaixo do li­miar da po­breza.Cal­cula-se que cerca de 16 mi­lhões de cri­anças ame­ri­canas vivam sem «se­gu­rança ali­mentar», ou seja, em fa­mí­lias sem ca­pa­ci­dade eco­nó­mica para sa­tis­fazer os re­qui­sitos nu­tri­ci­o­nais mí­nimos de uma dieta sau­dável. As es­ta­tís­ticas provam que estas cri­anças têm pi­ores re­sul­tados es­co­lares, aceitam pi­ores em­pregos, não fre­quentam a uni­ver­si­dade e têm uma maior pro­ba­bi­li­dade de, quando adultos, serem presos.

3. Entre 1890 e 2014 os EUA in­va­diram ou bom­bar­de­aram 151 países.
São mais os países do mundo em que os EUA já in­ter­vi­eram mi­li­tar­mente do que aqueles em que ainda não o fi­zeram. Nú­meros con­ser­va­dores apontam para mais de oito mi­lhões de mortes cau­sadas pelas guerras im­pe­riais dos EUA só no sé­culo XX. E por de­trás desta lista es­condem-se cen­tenas de ou­tras ope­ra­ções se­cretas, golpes de es­tado e pa­tro­cí­nios a di­ta­dores e grupos ter­ro­ristas. Se­gundo Obama, lau­reado do Nobel da Paz, os EUA têm neste mo­mento mais de 70 ope­ra­ções mi­li­tares se­cretas a de­correr em vá­rios países do mundo. O mesmo pre­si­dente criou o maior or­ça­mento mi­litar de qual­quer país do mundo desde a Se­gunda Guerra Mun­dial, ba­tendo de longe Ge­orge W. Bush.

4. Os EUA são o único país da OCDE sem di­reito a qual­quer tipo de sub­sídio de ma­ter­ni­dade.
Em­bora estes nú­meros va­riem de acordo com o Es­tado e de­pendam dos con­tratos re­di­gidos pela em­presa, é prá­tica cor­rente que as mu­lheres ame­ri­canas não te­nham di­reito a ne­nhum dia pago antes nem de­pois de dar à luz. Em muitos casos, não existe se­quer a pos­si­bi­li­dade de tirar baixa sem ven­ci­mento. Quase todos os países do mundo con­tem­plam entre 12 e 50 se­manas pagas em li­cença de ma­ter­ni­dade. Os Es­tados Unidos fazem com­pa­nhia à Papua Nova Guiné e à Su­a­zi­lândia com zero se­manas.

5. 125 ame­ri­canos morrem todos os dias por não po­derem pagar o acesso à saúde.
Quem não tiver se­guro de saúde (como 50 mi­lhões de ame­ri­canos não têm) tem boas ra­zões para re­cear mais a am­bu­lância do que o ino­cente ataque car­díaco. Com vi­a­gens de am­bu­lância a cus­tarem em média 500 euros, a es­tadia num hos­pital pú­blico mais de 200 euros por noite e a mai­oria das ope­ra­ções ci­rúr­gicas si­tu­adas nas de­zenas de mi­lhares, é bom que se possa pagar um se­guro de saúde pri­vado.

6. Os EUA foram fun­dados sobre o ge­no­cídio de 10 mi­lhões de na­tivos. Só entre 1940 e 1980, 40% de todas as mu­lheres em re­servas ín­dias foram es­te­ri­li­zadas contra sua von­tade pelo go­verno.
Es­queça a his­tória do Dia de Acção de Graças, com ín­dios e co­lonos a par­ti­lhar pa­ca­ta­mente um peru. A his­tória dos EUA co­meça no pro­grama de er­ra­di­cação dos ín­dios: du­rante dois sé­culos, os na­tivos foram per­se­guidos e as­sas­si­nados, des­po­jados de tudo e em­pur­rados para mi­nús­culas re­servas de terras in­fér­teis, em li­xeiras nu­cle­ares e sobre solos con­ta­mi­nados. Em pleno sé­culo XX, os EUA pu­seram em marcha um plano de es­te­ri­li­zação for­çada das mu­lheres na­tivas, pe­dindo-lhes para as­si­narem for­mu­lá­rios es­critos num língua que não com­pre­en­diam, ame­a­çando-as com o corte de sub­sí­dios ou, sim­ples­mente, cor­tando-lhes o acesso à saúde.

7. Todos os imi­grantes são obri­gados a jurar não serem co­mu­nistas para po­derem viver nos EUA.
Para além de ter que jurar que não é um agente se­creto nem um cri­mi­noso de guerra nazi, vão-lhe per­guntar se é ou al­guma vez foi membro do «Par­tido Co­mu­nista», ou se de­fende in­te­lec­tu­al­mente al­guma or­ga­ni­zação con­si­de­rada «ter­ro­rista». Se res­ponder que sim a qual­quer destas per­guntas, pode ser-lhe ne­gado o di­reito de viver e tra­ba­lhar nos EUA por «prova de fraco ca­rácter moral».

8. O preço médio de uma li­cen­ci­a­tura numa uni­ver­si­dade pú­blica é 80 000 dó­lares.
O En­sino Su­pe­rior é uma au­tên­tica mina de ouro para os ban­queiros. Vir­tu­al­mente todos os es­tu­dantes têm dí­vidas as­tro­nó­micas que, acres­cidas de juros, le­varão em média 15 anos a pagar. Du­rante esse pe­ríodo, os alunos tornam-se servos dos bancos e das suas dí­vidas, sendo amiúde for­çados a con­trair novos em­prés­timos para pagar os an­tigos. Entre 1999 e 2014, a dí­vida total dos es­tu­dantes es­tado-uni­denses as­cendeu a 1.5 tri­liões de dó­lares, su­bindo uns as­sus­ta­dores 500%.

9. Os EUA são o país do mundo com mais armas: para cada 10 ame­ri­canos, há nove armas de fogo.
Não é de es­pantar que os EUA levem o pri­meiro lugar na lista dos países com a maior co­lecção de armas. O que sur­pre­ende é a com­pa­ração com o resto do mundo: no resto do pla­neta há uma arma para cada 10 pes­soas. Nos Es­tados Unidos, nove para cada 10. Nos EUA po­demos en­con­trar 5% de toda a hu­ma­ni­dade e 30% de todas as armas, qual­quer coisa como 275 mi­lhões.

10. São mais os ame­ri­canos que acre­ditam no Diabo do que aqueles que acre­ditam em Darwin.
A mai­oria dos ame­ri­canos são cép­ticos, pelo menos no que toca à te­oria da evo­lução, em que apenas 40% da po­pu­lação acre­dita. Já a exis­tência de Sa­tanás e do in­ferno soa per­fei­ta­mente plau­sível a mais de 60% dos ame­ri­canos. Esta ra­di­ca­li­dade re­li­giosa ex­plica as «con­versas diá­rias» do ex-pre­si­dente Bush com Deus e mesmo as ines­go­tá­veis di­a­tribes sobre a na­tu­reza te­o­ló­gica da fé de Obama.

Avante n.º 2105 (3/04/2014)
https://www.avante.pt/pt/2105//129683

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

António Santos - Charlie Kirk,vida e morte de um país doente

 

* António Santos 

(Avante, 2025 09 25)

Já todos percebemos para que precipício se dirigem os EUA – paulatinamente, desde a última eleição de Trump, e por vezes de chofre, como foi esta semana, por conveniente ensejo do funeral de Charlie Kirk, um provocador da extrema-direita ultra-montana que uma bala canonizou. Perante a turba fanática em Glendale, no Arizona, Trump, transido de fervor apoteótico foi certeiro no epítome: «Eu odeio os meus oponentes», declarou o presidente em funções dos EUA, «eu não lhes quero bem». 

E eis que milhares de corações graníticos, tão resistentes ao impacto diário de imagens do esquartejamento de crianças palestinas, se comoveram com esta morte individual, que veio para justificar tudo. Charlie Kirk está para o MAGA como Horst Wessel esteve para o partido nazi. Trump prometeu «trazer de volta a religião para a América» e logo ouvimos o secretário de Estado da Guerra (nomenclatura muito mais honesta, reconheça-se), Pete Hegseth, gritar «Deus é rei», ameaçar com «uma tempestade cuja força não compreendem» e explicar que «os nossos oponentes não são nada, não têm nada. São a maldade». A morte de Kirk, desinteressante em si mesma, insere-se na maior espiral de violência política vivida nos EUA desde a guerra civil. É disso que estamos a falar.

No dia seguinte, o Presidente assinava uma ordem executiva que designa o “movimento antifa” como uma organização terrorista, abrindo espaço à criminalização de todas as organizações de esquerda nos EUA. Não é mera retórica: Trump exigiu publicamente que a procuradora-geral, Pam Bondi, prenda todos os magistrados e adversários políticos que alguma vez se atreveram a enfrentá-lo e pondera ordenar, à semelhança de Washington DC e Los Angeles, a ocupação militar de Chicago, Baltimore, Nova Orleães, Nova Iorque, Oakland e outras cidades controladas pelo Partido Democrata.

Acto contínuo, todas as agências federais em cuja proverbial independência se alicerçavam as crença nos “pesos e contra-pesos” da democracia estado- -unidense, revelam-se joguetes na mão de Trump: Brendan Carr, chefe da agência federal para as comunicações, ameaçou retirar a licença audiovisual a qualquer canal que critique o presidente ou ofenda “a memória de Kirk”, despoletando uma vaga de despedimentos de famosos apresentadores de televisão e comediantes. «Querem fazer isto a bem ou a mal?», sintetizou. No mesmo sentido, também esta semana, o Supremo Tribunal confirmou que Trump pode demitir membros da Comissão Federal de Comércio, garantindo assim a gestão presidencial dos monopólios do império.

Em todos os acontecimentos moram partes diferentes de continuidade e de mudana. A tirânica subversão da democracia que Trump opera explica-se, em primeiríssimo lugar, com as características brutais, tirânicas, que essa “democracia” já possuía: um jogo nas mãos dos bilionários e refém da sua boa-vontade para escolher os comediantes certos ou distribuir os despojos do imperialismo com maior ou menor justiça. Kirk deu-nos, na vida como na morte, uma boa síntese da psicose colectiva de uma sociedade niilista, violenta, desumanizada, decadente, em que a vida humana é a mais barata das mercadorias.

 https://www.avante.pt/


segunda-feira, 7 de novembro de 2022

António Santos - Raimundo como qualquer um

* António Santos

SEGUNDA, 07 DE NOVEMBRO DE 2022

A eleição de Paulo Raimundo terá um doce simbolismo para todos esses anónimos que ganham mal e trabalham muito, que andam enlatados nos comboios e são da comissão de utentes. Numa palavra: os que lutam.

Paulo quem? Como é que eles se atrevem? A escolher para secretário-geral um anónimo, um filho da mulher das limpezas, um padeiro qualquer, um tipo que as televisões nunca chamaram para comentar nada nem fora predestinado por quem é chamado para comentar tudo, carpinteiro, ou padeiro, ou animador, ou lá qualquer coisa que se estuda à noite e que nunca ninguém tratará por doutor –  só por camarada – Paulo quem?

Paulo Raimundo é tão anónimo como nós, os que comunistas são e que por isso anónimos ficarão, excepto como o Paulo, excepto nas lembranças anónimas da refinaria de Matosinhos, nas greves anónimas dos motoristas dos autocarros de Braga, nos socalcos anónimos do Douro vinhateiro, nos intestinos anónimos dos hotéis do Algarve, nas lutas anónimas dos arquitectos do Porto.

Tal como o Paulo, Portugal é um país de gente anónima que tem de deixar de ser. Quantos escritores falariam melhor de literatura do que Marques Mendes? Quantos dirigentes sindicais explicariam melhor que José Júdice, e de forma mais informada e eloquente, as consequências sociais da inflação? Quantas vezes é que a dupla Milhazes e Rogeiro têm contraditório? Quantos milhares de nós conseguem proezas de decência, coragem e dignidade em condições de total anonimato? Paulo quem?

«Quantos escritores falariam melhor de literatura do que Marques Mendes? Quantos dirigentes sindicais explicariam melhor que José Júdice, e de forma mais informada e eloquente, as consequências sociais da inflação?»

Paulo Raimundo é anónimo porque, nas televisões e nos jornais, #ComunistaNãoEntra, mesmo que se assuma, há 30 anos, as mais altas responsabilidades políticas e mesmo que, desde então, se fale pelo PCP em conferências de imprensa que a comunicação social da classe dominante decide ignorar.

A eleição de Paulo Raimundo terá um doce simbolismo para todos esses anónimos: os que construíram Tebas e o convento de Mafra; os que arriscam o pêlo pelos colegas porque têm princípios; os que ganham mal e trabalham muito; os que vivem em bairros onde a Ana Gomes não vai; os que andam enlatados nos comboios e são da comissão de utentes; os que esticam orçamentos por famílias de quatro. Numa palavra: os que lutam.

Com ou sem mediatismo, mesmo sem nunca ter sido deputado, até sem ser licenciado. Tanto como o nosso povo. Vindo dele e sem dele sair. Como são os comunistas.

https://www.abrilabril.pt/nacional/raimundo-como-qualquer-um

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

António Santos - O Raul este ano teve de ir à festa

 OPINIÃO|FESTA DO AVANTE

 *António Santos

Era para não vir. Por causa da pandemia. Mas levou tanta pancada dos guardas que quando vê o Partido a levar pancada é como se fosse ele próprio outra vez naquela cela, a levar dos guardas, quase até à morte. 

Repouso após a jornada de trabalho. Construtores da festa no espaço do palco principal, a 3 de Setembro de 2020, um dia antes da abertura da Festa do Avante!, que este ano se realiza entre 4 e 6 de Setembro CréditosPaulo António

Atarefa do camarada era simples: esta quinta só entra nesta quinta quem tiver Entrada Permanente e cartão de serviço. «Não interessa se é da SIC ou da ASAE. Até podia ser o Jerónimo: antes da abertura, quem não tiver EP e cartão de serviço, não entra». Exagerada sentença que inventei eu agora, nanja consta que alguma vez tenha sido dita, pelo menos neste século, mas avante, que a isso já lá vamos. Se o camarada da portaria sonhasse como a simplicíssima tarefa estava prestes a ficar complicada, preferiria mil vezes a inflexível aplicação do igual tratamento estatutário, cortando o passo ao secretário-geral. Exageros à parte, o camarada estava ali com a inteira noção da importância da tarefa que lhe fora confiada, além do mais nestes tempos, tão propícios à provocação, à mentira e à infiltração que é como as excepções ou, como dizem os cabrões dos americanos, como a lata das minhocas: se deixas sair a primeira, logo a segunda escorrega. A anterior justifica sempre a seguinte e, quando damos por nós, esta merda parece a praia de Carcavelos. As orientações são gerais, são para todos e são para se cumprir, e esta já me disse mesmo o camarada, não estou a inventar, que se sentia ali responsável por manter seguros os portões da zona libertada, investido da autoridade colectiva de 50 mil militantes comunistas.

Sentado numa cadeira de espuma esventrada, ao som do velho rádio a pilhas que só tosse Antena 2, o camarada aguentava a portaria com a inquebrantável disciplina da canção dos Inti-Illimani: Tun tun, quem é? Uma rosa e um cravo… Abra-se a muralha! Tun tun, quem é? O sabre do coronel.... Feche-se a muralha. E fechava mesmo. Quando era preciso, aquela portaria parecia Espanha em 36: «Não passarão!» Outro exagero, naturalmente, mas quem faz turnos de quatro horas militantes depois de oito horas assalariadas, aguenta-se melhor imaginando estas doces comparações desproporcionadas: «temos cabeça dura, os do corpo de engenheiros!». E a verdade é que a implantação da Festa do Avante! é muito assim como a reconstrução da catedral ardida de São Paulo em Londres: era o ano de 1671 e o arquitecto, de nome Christopher Wren, pergunta a um velho que varria o chão qual era a sua tarefa, ao que cantoneiro responde apocrifamente: «eu faço catedrais». O camarada da portaria, preservemos o seu anonimato, é um construtor de catedrais de tubo à face do sonho, um reconstrutor do mundo ardido, e alto lá, que aquilo com ele parece a ponte dos franceses, «mamita mia, que bem te guardam! Querem passar os fascistas? Não passa ninguém!». Com esse sentido de missão histórica ora se levantava ora se tombava a cancela «boa noite camarada!» como quem cantaria «Se me quiseres escrever, já sabes o meu paradeiro: terceira brigada mista, primeira linha de fogo». Que, por sua vez, é outra forma de dizer que, se fosse preciso, defendia-se aquela entrada com todos os meios disponíveis «mesmo que nos espere a dor e a morte, contra o inimigo nos chama o dever! O bem mais precioso é a liberdade: há que defendê-la com fé e com valor. Para as barricadas!» «Nada podem bombas onde sobra coração», mas nada, mesmo nada, poderia tê-lo preparado para o que aconteceu a seguir.

O camarada da portaria nunca tinha visto nada assim. Viu-o mal dobrou ali a esquina do Lidl: subia sozinho. Vinha tão devagar que houve tempo de pensar serenamente. Talvez seja por isso que os alentejanos são sempre mais calmos que, por exemplo e sem ofensa, os transmontanos, que vendados pelas montanhas, são desde tempos imemoriais mais facilmente surpreendidos pelo invasor. A genética dos povos pedinornitos dispensa esse estado de alerta permanente: ainda vai a centúria em Mérida e já a gente a topou do atalaião com a antecedência de construir albarradas e preparar o cerco.

Bem, mas de nada serviu a calma ao camarada da portaria. Quando o homem finalmente chegou ao portão, o camarada saudou-o como se fosse o Jerónimo em pessoa.

- Boa noite camarada, EP e cartão de serviço.

Sem uma palavra, o homem levantou a cabeça muito devagar. Tinha barba de dias por fazer. Uma grande ferida crostada abaixo do olho e, na cara suja, uns olhos esverdeados e baços, que pareciam de alumínio polido. Do alforge saiu uma EP muito amachucada e quase decapitada pelo domingo mas, ainda assim, válida.

- Precisas do cartão de serviço, camarada.

- O que é isso?

- O cartão de serviço é… é o cartão que têm os camaradas que vêm trabalhar. A festa para os visitantes só abre amanhã.

- Eu sei, camarada.

Tranquilizou-o ouvi-lo dizer assim a palavra camarada: os comunistas, para quem não sabe, reconhecem-se pela forma como só eles pronunciam a palavra camarada.

- Então... e eu venho para trabalhar.

Não tinha máscara. A camisa, ensebada e rasgada no ombro, caia-lhe sobre as calças demasiado largas. O camarada da portaria pensou que podia ser um louco. Não, era provavelmente um indigente.

- Ó camarada, desculpa lá… Isto não é assim. Qual é a tua organização?

- Boa Fé, Évora.

- Então e vieste sozinho?

O homem respirou fundo como se tentasse recompilar vários detalhes de uma resposta complexa.

-Vim. Vim na carreira até Setúbal e depois fui andando, andando…

-Vieste a pé desde Setúbal?

- Vim. - E do bornal mostrou um mapa que de tão dobrado parecia feito de guardanapo. Perdi-me aqui - e apontava toscamente - na Serra da Arrábida porque lá ninguém pára o carro.

O camarada da portaria não acreditava, claro.

- É pá. Grande esticão. Quanto tempo é que demoraste?

- Cinco dias, cinco noites. Fui dormindo onde calhava. Ia comendo e bebendo pelos cafés. E já cá estou. Posso-me sentar?

Está mais que provado que «Quem corre por gosto não cansa» é, entre todos os bordões do almanaque, o mais falso e o mais injusto. Tudo cansa, tudo se desfaz. Até as coisas que amamos, ou não fosse o mundo dialéctico e não estivessem até as pedras em perpétua erosão.

O camarada da portaria foi buscar a cadeira esventrada e disse-lhe para esperar. Marcou a extensão da Comissão de Campo, explicou a situação e, com todo o detalhe, descreveu o homem. Os camaradas da Comissão de Campo também não sabiam o que fazer e acharam melhor ligar para os camaradas da Direcção da festa. Os camaradas da Direcção da festa mostraram-se apreensivos: podia ser uma armadilha para denegrir a festa ou romper a disciplina sanitária. Decidiram por isso, ligar para o camarada responsável pela Boa Fé, que estava naturalmente na Festa, e que não acreditou no que estava a ouvir. Esse camarada é o Raul, explicou. Estava muito afastado há anos. Comprava o Avante!, é certo, mas pouco mais podia. Há uma semana, a mulher morreu de cancro: o camarada não está bem.

A Direcção acabou por decidir que o camarada poderia entrar e que lhe devia ser dada uma máscara. Um camarada ficou de tratar da tenda e outro ficou de pedir emprestado um saco-cama. Mas o camarada, que tem nome e efectivamente se chama mesmo Raul, não queria ir dormir nem ir ao posto médico. Queria ajudar.

Tanto insistiu que sentaram-no numa carrinha descapotada a cortes de rebarbadora e levaram-no para a Cidade da Juventude. Porquê para a Cidade da Juventude? Porque à meia noite o camarada fazia anos, explicaram os camaradas que deram a orientação. Não sei o que mais vos diga, foi o que a organização decidiu, camaradas; e eu também não perguntei porquê: às vezes os desígnios da organização são misteriosos.

Quem achar difícil acreditar que isto realmente se pudesse ter passado na Quinta da Atalaia, no dia 3 de Setembro de 2020, nem sonha o que veria se pudesse, do alto dos tempos medievais em que aqui havia mesmo uma torre de atalaia, ver o que esta quinta já viu. Imaginemos nós que tínhamos de explicar aos monges jerónimos que aqui plantaram vinha, que um dia a vinha seria de monges dominicanos, que daqui seriam corridos a pontapé por uma revolução republicana. Imaginemos se tivéssemos de explicar aos Condes de Atalaia, oriundos de outra Atalaia, a de Vila Nova da Barquinha, que ganharam estas terras como compensação por traírem a pátria ao serviço dos Filipes de Espanha, que um dia esta terra não voltaria nunca mais às mãos de mais nenhuma família aristocrática. Imaginemos que tínhamos de explicar aos trabalhadores do senhor Reynolds, patrão da Lisbon Fresh Water Suply, que daqui extraía a cristalina água mineral Águanave, que um dia toda esta terra seria da classe operária e dos comunistas? Pois: a descrença seria mútua. 

Conclusão do mural «JCP- O futuro tem partido», no espaço da Festa do Avante!, na Quinta da Atalaia, Amora, Seixal, a 3 de setembro de 2020. A Festa do Avante! decorre entre 4 e 6 de Setembro. Créditos José Sena Goulão / LUSA

O camarada da JCP que estava responsável pela implantação é que não achou tanta graça ao mistério. Mas que ajuda é que alguém assim poderia dar? Os camaradas decidem assim as coisas e depois os outros que se desenrasquem, não é? A 24 horas da abertura, a cidade estava atrasada e não havia tempo para estas brincadeiras do oxigénio em pó, do empalmo de 7 vias ou do nivelador de toldos. Mas a orientação é para cumprir, pá, e lá teve o camarada responsável da JCP, contrafeito, de dar uma tarefa ao bizarro camarada.

- Ó camarada, ficas aqui com esta malta. Ponham-no a trabalhar.

E ele, de facto, lá ia ajudando no que sabia. Segurava nas tábuas, passava parafusos, dava opiniões, nem sempre colhidas, ao enxame a fremir de jovens apressados que forravam com contraplacados as paletes do chão.

- Raul, não é? Então vieste a pé desde Setúbal? - era estranho, mesmo para os comunistas, tratá-lo por tu, mas depressa a distância se evaporou. O Raul era operário agrícola, mas até se safava com a madeira. Também tinha estado toda a vida precário. Às vezes sem contrato, sem descontos, sem nada. Entre os que estavam ali da jota a meter chão, havia mais quatro também assim, não operários agrícolas, mas a recibos verdes, com contratos de um ano ou sem contrato nenhum.

- É fodido, pá, se ficas doente, quando envelheces, como é que é? - A pergunta do jovem era retórica, claro está, mas o Raul deu-lhe razão.

Contou-lhes que, quando era puto, guardava os porcos dos senhores para os putos de hoje guardarem os porcos dos netos dos senhores. É a luta de classes. O resto é conversa. Depois tinha andado maltês, a trabalhar de braceiro por esse país fora, a dormir onde calhasse, a viver de côdeas, porra, a ser despedido por dá cá aquela palha e a malta concordou que ainda hoje é esse quero posso e mando. Só com o 25 de Abril é que isto melhorou e até isso nos querem tirar, protestou. E como nós não deixamos, eles, os patrões, detestam-nos. Se nos pudessem ilegalizar, ilegalizavam. Se tivessem de nos matar, matavam.

O discurso do Raul estava a dar cabo dos planos do camarada responsável para terminar a cidade a tempo. À sua volta tinha-se juntado um perigoso aglomerado anti-sanitário de irresponsáveis jovens, alguns sem máscara, todos tisnados de óleo, serradura, tinta e dulcíssimos suores de trabalho militante.

O Raul, disse-lhes, tinha andado a vida toda a combater o fascismo. Tinha estado preso com o Jaime Rebelo, que, tirando partido de ser analfabeto, cortou a própria língua para não poder denunciar os camaradas à PIDE. O Raul contou-lhes que, antes do 25 de Abril, os comunistas ficavam com a vida toda destruída: a carreira, a família, a casa, a liberdade. Tiravam-lhes tudo menos a dignidade. O Raul confessou-lhes que se não fosse a mulher, que ficou com os filhos quando ele esteve preso, e trabalhava de sol a sol para dar de comer às crianças, também não sabia se não teria de ter cortado a própria língua. Quem é que se oferece para explicar ao Raul que isto dos riscos da pandemia são um axioma absoluto e que mais nada importa a não ser ficar em casa?

- Quantos anos estiveste preso?

- Seis, mais qualquer coisa.

Mas foi na prisão que aprendeu a ler. Com os outros, com os camaradas. Haverá prenda mais bonita? Os presos faziam jornais lá dentro e ensinavam uns aos outros. Uma vez foi apanhado, isto no Forte de Peniche, com imprensa do Partido e levou tanta pancada, apontava para a zona dos rins, que achava que morria, mas não morreu. Então este ano teve de vir à festa. Era para não vir. Por causa da pandemia. Mas levou tanta pancada dos guardas que quando vê o Partido a levar pancada é como se fosse ele próprio outra vez naquela cela, a levar dos guardas, quase até à morte. Disse assim à mulher «Olha, agora é que vou mesmo» e a mulher, claro, mandou-o ter juízo. Ela, coitada, acabou por não poder vir mesmo.

É meia-noite. A malta da JCP poisou as ferramentas, parou de trabalhar, pôs-se toda de pé. Uma brisa do Norte lambe-lhes suavemente as frontes suadas, transcendendo a realidade. Cerraram-se agora muitos punhos contra o céu estrelado e a juventude canta ao Raul os «Parabéns a você», mas com a melodia da Internacional. O Raul achou graça àquilo e riu-se alto, com alegria verdadeira, como se não tivesse acabado de fazer 95 anos.

POR ANTÓNIO SANTOS SEXTA, 04 DE SETEMBRO DE 2020

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domingo, 10 de janeiro de 2021

António Santos - Amigos não deixam amigos ser fascistas

OPINIÃO|ANTIFASCISMO

* António Santos

Nunca na minha vida contei a ninguém o segredo do João. Já adulto, não o via há sei lá quantos anos, e às vezes pensava nele, pá («em frente!»), a abrir caminho à quadrilha, a deboiçar mato de cisto a golpes de braços nus.


Desfile dos «coletes amarelos» em Estrasburgo, França, dia 3 de Dezembro de 2018, durante a terceira jornada nacional daquele movimento.CréditosVincent Kessler / Reuters

Nunca na minha vida contei a ninguém o segredo do João. Já adulto, não o via há sei lá quantos anos, e às vezes pensava nele, pá («em frente!»), a abrir caminho à quadrilha, a deboiçar mato de cisto a golpes de braços nus, indiferente às silvas que a nós nos cortavam nas canelas como canivetes («esquerda volver!») e o gajo, pá, de calções, sem um arranhão, sei lá como, isento de amores-de-burro que a nós se nos abotoavam aos atacadores e às meias da raquete. O João, pá, a desbravar a tarde alentejana como um bandeirante na Serra dos Motrinos1. Até que a um gesto seu a coluna estacava («sentido!») e o João, pá, com perícia militar, a dar o azimute («olhar esquerda!») do bando de pardais às nove horas («apresentar arma!»).

Eu era o único do grupo que sabia do extraordinário fenómeno sobrenatural que ia ali repetir-se diante dos nossos olhos. Já nem sequer tirava a patilha de segurança da pressão de ar («pelotão de execução: preparar!»). Ali ficava, a apreciar aquela cena por cima do cano do fuzil, pá, sorridente e invisível à minha unidade de guerrilheiros do sétimo ano que pelas miras só podiam ver pardais («apontar!») e não podiam ver o João, e não o poderiam entender.

«É demasiado fácil dizer que não se debate com fascistas e o Ventura agradece sempre que bloqueamos mais um amigo do Chega no Facebook. É preciso ter paciência e explicar-lhes, um a um, como estão errados com todas as armas que o Ventura não tem: argumentos que demoram mais que cinco minutos, provas, estatísticas, lógica, ciência, razão»

E então, uma fracção de segundo antes da troada calar as cigarras («fogo!»), um chumbo antecipava-se contra o céu, assobiava muito acima das cabeças dos pardais em debandada e dissolvida-se em vapor na tremulina. «Porra, pá! Outra vez? Mas quem é que disparou antes?! Fugiram todos!». E eu sorria, silencioso aos protestos furiosos do João, porque o segredo dele estaria sempre seguro comigo, mesmo que um dia tivéssemos 18 anos e as armas fossem a sério e ele ainda se recusasse a matar, já não um pardal, mas uma ideia, ou um sonho, ou um amigo.

Resumidamente, pá, o João era o miúdo mais doce, o mais puro, do nosso grupo de amigos. Entre os rapazes, especialmente na aldeia, era vezo não se admitirem maiores expressões de afecto. A amizade masculina tem destas coisas: uma espécie de parcimónia permanente, um esforço incessante de ser homem, como se não ser homem, e por consequência ser mulher, fosse algo de adquirido e insuportável: uma fraqueza de que os rapazes deviam erguer-se, a pulso de embargar lágrimas e esconder sentimentos. É que não é só o espírito milenarmente subjugado das mulheres que o capitalismo teima em engavetar em estreitas cofragens: o sexo masculino também não escapa ao cilindro que nos faz mais "homens" e nos torna menos humanos. A lei não escrita dos homens (com H muito, muito pequeno) tornava-nos ridículos. Impunha-nos um pudor que nos apertava o peito com as cordas lívias da conveniência e impingia um decoro que nos atava com nós a garganta e o coração. Obrigava-nos a comunicar por sinais de fumo e através de uma linguagem gestual da qual só assimilávamos o sentido geral. Tornava-nos, como escreveu Saramago, em espantalhos a gesticular através do vidro. A todos, menos ao João.

Talvez tenha começado assim, não sei. Só sei que, no nosso grupo de putos, apesar de uma suspeita generalizada, nunca houve qualquer reunião para discutirmos porque é que nunca, mesmo nunca, caçávamos nada. O coração do João era bom, pá.

Quando o íamos buscar outra vez depois do jantar, nunca cruzávamos a ombreira da porta. A casa do João só tinha três divisões: o quarto que os pais partilhavam por duas camas com quatro filhos, a cozinha, que também fazia as vezes de sala e uma casa de banho, onde nunca entrei. Um dia, mais tarde, o pai emigrou. A casa ficou menos abarrotada e o João ficou mais triste.

Naquelas noites de estio, em que não tínhamos hora para estar em casa e nos deitávamos de costas na estrada de alcatrão a ferver, o João trocava a farda de soldado pela sotaina de pregador: tinha coragem para nos dizer, assim, preto no branco, como gostava tanto de todos nós. Prometia violências terríveis se alguma vez alguém fizesse mal a qualquer um de nós. Declarava-nos como a única coisa importante na vida, e prometia-nos, algo poético para aquela idade, pá, sem noção da efemeridade da adolescência, que a vida devia ser estarmos sempre unidos, sermos bons uns para os outros e nunca nos abandonarmos. E nós não nos riamos. Só ouvíamos. Porque, toda a gente sabe, não se vêem carros nem sarcasmo nem cinismo sob as estrelas da noite do Alentejo.

«O único ponto de contacto entre a verdade e o João é a realidade da vida dele: o salário que ganha, as horas que trabalha, a riqueza que produz, a renda que paga, a raiva que sente. Em última análise, só assim poderemos retirar o fascismo das cabeças dos nossos amigos como o João: no trabalho, na rua, na realidade concreta, na grande escola que é a luta»

Um dia, o João foi trabalhar com o pai para França e nunca mais nos vimos, mas para mim ele permanecia nos mesmos lugares, a acabar de jantar a correr para vir salvar pássaros com a pressão de ar, deitado ali naquela curva onde agora já passam mais carros, pá, com a cabeça cheia de sonhos contra o alcatrão.

E há pouco tempo reencontrei o João no Facebook. Tive de ver as fotografias várias vezes para me certificar de que era mesmo ele. Nem sei como é que não chorei, pá. O gajo agora só partilha coisas do Chega, mete frases do troglodita do Ventura, faz comentários racistas, apela à morte de ciganos, comunas, pretos, paneleiros… O João, pá. O João, porra.

A minha vontade, a minha raiva, era eliminá-lo da lista de amigos, bloqueá-lo, sei lá, nunca mais ver aquelas merdas, para não me incomodar. Tão fácil, tão simples, tão rápido, tão limpo, tão egoísta. O problema é que o João ficou fascista exactamente porque eu não me incomodei o suficiente.

Tive de lembrar-me do João de 12 anos, que nunca me apagaria, que nunca me bloquearia. E depois, à medida que lhe percorria as fotografias do perfil, comecei a entender como é que a vida fez do João um fascista. Estavam ali dez anos anos a gritarem-lhe, a roubarem-no, a humilharem-no, a empobrecerem-no, a destruírem-no. E eu, onde é que eu estava esse tempo todo?

Hoje não gostaria de voltar a explorar a Serra dos Motrinos com o João. O segredo dele estragou-se, talvez irreparavelmente, e não tenho dúvidas de que amanhã ele dispararia a matar contra os pardais e, agora que já somos crescidos, até mesmo contra mim. E apesar disso, eu não só não o apaguei, como voltei a falar com ele.

O João ficou fascista em França porque só os fascistas é que falavam em virar o tabuleiro do jogo. Outros andavam mais preocupados em preservar a estabilidade do Estado burguês e em apresentarem-se como parceiros responsáveis aos seus inimigos de classe. Não tinham nada para dizer a gente como o João. Não falavam a língua dele. Não sentiam a raiva dele. Por isso, nunca ninguém lhe falou de classes sociais nem de mais-valia. O João não teve a oportunidade de aprender história, não teve amigos nem colegas que lhe descodificassem as notícias que parecem dar sempre razão aos fascistas. Sem surpresas, quando o João voltou para Portugal foi parar ao Chega.

«Por estes dias, o João ainda me polui o feed com lixo do Chega e ainda acha que o governo tem medo dos ciganos. A diferença é que agora tem contraditório, e o fascismo é uma doença que se cura a pensar e a discutir. Agora, o João tem um amigo que, enquanto houver memória e estrelas nas estradas do Alentejo, não o deixará nunca continuar a ser fascista»

É demasiado fácil dizer que não se debate com fascistas e o Ventura agradece sempre que bloqueamos mais um amigo do Chega no Facebook. É preciso ter paciência e explicar-lhes, um a um, como estão errados com todas as armas que o Ventura não tem: argumentos que demoram mais que cinco minutos, provas, estatísticas, lógica, ciência, razão.

É uma batalha epistemológica desigual: o João não precisa de provas para acreditar nas teses fascistas e não só me exige que lhe seja eu a provar que as crenças dele são falsas (como é que se prova que o «lobby gay» não manda no mundo?), como acha que toda a evidência científica que o desmente se baseia numa gigantesca conspiração globalista. O único ponto de contacto entre a verdade e o João é a realidade da vida dele: o salário que ganha, as horas que trabalha, a riqueza que produz, a renda que paga, a raiva que sente. Em última análise, só assim poderemos retirar o fascismo das cabeças dos nossos amigos como o João: no trabalho, na rua, na realidade concreta, na grande escola que é a luta.

Por estes dias, o João ainda me polui o feed com lixo do Chega e ainda acha que o governo tem medo dos ciganos. A diferença é que agora tem contraditório, e o fascismo é uma doença que se cura a pensar e a discutir. Agora, o João tem um amigo que, enquanto houver memória e estrelas nas estradas do Alentejo, não o deixará nunca continuar a ser fascista. E um dia destes, quem sabe, ainda nos reencontraremos os dois, pressão de ar no talabarte («arma ombro!») para salvar pássaros e sonhos na Serra dos Motrinos («Apontar, fogo!»).

POR ANTÓNIO SANTOS QUINTA, 16 DE JANEIRO DE 2020

https://www.abrilabril.pt/nacional/amigos-nao-deixam-amigos-ser-fascistas

domingo, 19 de abril de 2020

António Santos - A Idade do Confinamento

*  

SUNDAY, APRIL 19, 2020



Nessa noite sonhou com o mar. Quando acordou não se lembrava de como ali tinha chegado nem de por que razão estava sozinho, a nadar na imensidão nocturna de um oceano tranquilo, a milhas de qualquer rochedo ou batel. Só se lembrava de que nadou durante muito tempo, até perder as forças — e acordar.
Tacteou a mesinha de cabeceira sobrelotada: os medicamentos para a ciática, o copo de água que os acompanham, um livro — a foleiríssima edição Europa-América do Rei Édipo — e, finalmente, o fio do carregador cujo rasto o conduziu ao telemóvel. Ainda eram seis, não que isso importasse e, como o pequeno-almoço só chegava às sete, assim no silêncio se deixou ficar. As cumeeiras das rugas projectando sombras fundas na cara envelhecida, iluminada pelo clarão do ecrã sem mensagens, nem notificações, nem internet, nem rede, nem nada a não ser a data: 24/7. Fazia nesse dia três anos.
Como o borralho que ainda esconde a brasa rubra sob a cinza fria de manhã, invadiu-o a recordação de um ódio antigo. O Carlos, o da comunicação, só com 55 anos e aquele sorriso de atrasado mental, a distribuir abraços cínicos e filosofia dos pacotinhos de açúcar, «Aproveita a vida, Carla! Olha que há mais vida sem ser a vender pneus», como se não quisesse saber da penalização de 60%, 0,5 por cada mês antes da hora, «nem sei por onde começar, há tanta coisa que ainda quero fazer» e ele, a responder-lhe arqueando as sobrancelhas e contraindo os lábios mudos, numa reprovação que o Carlos não era assim tão estúpido que não pudesse entender mas a que retorquiu apenas com uma petulante gargalhada, como se se estivesse a rir dele, como se soubesse que aquela merda ia acontecer.
Sentia-se enganado. Qualquer penalização teria sido melhor do que aquela reforma completa «Aproveita a vida, Carla!». Na verdade, tudo teria sido melhor do que a terrível ironia de passar duas décadas a suspirar pela reforma redentora, a sonhar com a tal casinha na Beira onde ninguém lhe maçasse a aposentação dourada nos píncaros dos escalões «nem sei por onde começar, há tanta coisa que ainda quero fazer» para, na data na santa liberdade, ficar preso num quarto «Olha que há mais vida sem ser a vender pneus» de 12 por 10 metros quadrados.
Foi apagar o brasido do ódio no chuveiro. Durante esses três anos tinha aprendido muito. Foi na paixão pelos gregos antigos que descobriu o antídoto para o ódio e a vacina para a loucura. Os helenos pensavam no tempo de uma forma diferente: imaginavam-se a recuar para o futuro de costas em vez de avançar na sua direcção. A palavra opiso, por exemplo, que significa «atrás», era usada pelos gregos para designar não o passado, mas o futuro. Quando o rei Édipo arranca os cabelos por «não poder ver o que está aqui nem o que está para trás» lamenta-se de não conseguir ver nem o presente nem o futuro porque, convenhamos, o que está à nossa frente é visível. O problema é que nós vamos para o futuro a andar para trás. O truque, ensinavam os gregos, não consistia, portanto, em planear o Cronos, o tempo sequencial, mas em identificar o Kairós, a oportunidade irrepetível de cada momento presente.
Cronos devia encolher os ombros: já não era capaz de dizer de trás para a frente, ou da frente para trás, que medidas de isolamento social se sucederam a que renovações do Estados de Emergência e que novas ordens das autoridades de Saúde se traduziram em que remodelações do quarto de confinamento. Algures no primeiro ano, o filho disse-lhe pelo telecomunicador que o decreto da 15.º renovação do Estado de Emergência proibia permanentemente os idosos com mais de 65 anos de sair do quarto de confinamento e ele, que já não vivia à espera de Cronos mas de Kairós, não fez demasiadas perguntas. Até esse ponto, os quartos de confinamento de idosos haviam sido apenas uma recomendação, mas as famílias aparentemente não respeitavam as instruções das autoridades sanitárias e o número de mortos não parava de aumentar. Para travar a formidável mortandade que grassava na terceira idade, o novo decreto impunha penas de prisão para os familiares dos idosos infectados. Não se importou demasiado: dentro da nova normalidade até era um privilegiado: a requisição generalizada impedia incontáveis famílias de cuidar dos seus idosos confinados e o seu filho, ao menos, nunca falhara uma refeição. Quando, passado uns meses, colapsaram todas as telecomunicações à excepção da rádio, isso também não o perturbou, afinal, num mundo devastado pela pandemia, ele mantinha uma vida segura e confortável, preso num quartinho, é certo, mas nos 20% de idosos sobreviventes que, perdendo o libelo grisalho de peso para a segurança social e grande estorvo em geral, passaram a ser vistos como uma relíquia tão frágil e tão rara que se tornava necessário prendê-los a todos. Só se afligiu quando o filho testou positivo, embora assintomático. O coitado não tinha sintomas nem da vida: aos cinquenta anos nem mulher nem filhos nem carreira nem casa própria nem perspectivas de um dia se reformar, como ele. Já no segundo ano, o filho informou-o de que estavam infectados todos os adultos do país em idade activa. De resto, não guardava rancor à sua prisão, um sacrifício necessário para preservar a vida, e muito menos ao seu pobre carcereiro que, obrigado por requisição civil, continuaria a trabalhar infectado, das 8 às 20 horas de segunda a sexta e enquanto o Estado de Emergência durasse. A culpa de tudo aquilo era do vírus. E o vírus não sabia sequer o que era o rancor.
Saído do duche, prosseguiu a leitura. O rei de Tebas, Laio, e a sua mulher, Jocasta, ouvem do oráculo de Delfos a terrível profecia de que o seu bebé recém-nascido, a que dão o nome de Édipo, um dia matará o pai e casará com a própria mãe. Para evitar a desgraça, Laio e Jocasta abandonam o infante à morte na natureza. A criança, contudo, escapa nos braços de um Pastor ao destino que lhe fora traçado e cresce sem saber quem é. Já um jovem, Édipo cruzar-se-á por coincidência com o séquito de Laio, que viaja em anonimato. Por motivo fútil, literalmente uma cedência de passagem num cruzamento, dá-se um confronto em que Édipo rebenta toda comitiva real à porrada e mata Laio, executando parte da profecia vaticinada à sua nascença. Embora Édipo o ignorasse, o seu futuro recuava.
Fechou o livro e vestiu-se. Sentia-se incomodado com alguma coisa que não podia identificar.
— Estás aí? — gritou ao telecomunicador.
— Sim… — afirmou, soporosa, a voz do filho passados alguns segundos.
— Estás bem?
— Estou, estou — abreviou o filho.
— Acordei-te?
— Não, não… O que se passa? — insistiu o mais novo.
— Não sei, não é nada. Acordei estranho, hoje ­— começou o progenitor.
— Mas sentes-te bem?
— Sim, sim… Não é isso — continuou contra uma timidez espessa e opaca — Hoje é o aniversário da minha reforma. Três anos, porra. Se calhar foi isso, não sei. Está tudo bem.

O silêncio sepulcral que crescia no altifalante incomodou-o.
— E como estão as coisas lá fora? — perguntou só para que o filho tivesse de falar.
— Iguais. O governo ontem disse na rádio que estão à espera de pelo menos mais cinco vagas até haver imunização — retorquiu o filho.
— E a vacina?

Novamente, o silêncio preencheu-se de estática a ziziar no telecomunicador como as cigarras no Estio. Ainda não havia vacina. O confinamento era potencialmente perpétuo.
E foi então, nesse preciso momento, que aconteceu. O filho continuava a falar sobre uma manifestação ilegal contra a requisição civil para todos os trabalhadores em idade activa, mas ele tinha deixado de o ouvir: olhava fixamente para o ecrã do telemóvel que mostrava as horas como uma sentença: eram oito horas e dez minutos.
— …e eu até concordei com a requisição ao início: se ninguém fosse trabalhar, em vez de morrerem muitos com o vírus morríamos todos de fome, mas não acho bem que…
— Sabes que horas são? — perguntou subitamente. A sua voz soou clara e calma, cortava como um machado. O filho tardou a responder. As cigarras eléctricas reocuparam o imenso espaço entre os dois — Porque não estás a trabalhar?
— Houve um problema de abastecimento — titubeou o filho — Mandaram-nos ficar só hoje em lay-off. Amanhã já…
— Não. Tu disseste-me que já não havia lay-off. Não me disseste que quando uma empresa pára os trabalhadores são automaticamente requisitados para ocupar o lugar dos mortos?
— Eu sei… — a respiração do filho suava — Nós achamos que é por isso que isto vai dar barraca… O patrão não informou o governo que ia parar e agora…
— Ok.

Conhecia o filho há mais de cinquenta anos. Ao poisar o telecomunicador, sentiu uma espuma ácida a formar-se-lhe no estômago, o coração ardia-lhe e o cérebro latejava. Não sabia porquê, mas tinha a certeza de que o filho estava a mentir.
Cirandava pelo quarto como uma fera enjaulada. Se o filho ficava em casa, a requisição civil não existia e se a requisição civil não era real, que mais não conseguia ele ver nas suas costas? Para serenar a aflição, regressou ao livro: após matar todo um cortejo de desconhecidos na sequência de uma discussão no trânsito, Édipo ouve dizer que, infeliz coincidência, o rei de Tebas havia falecido, pelo que a coroa do reino, bem como a mão da viúva Jocasta, pertenceria a quem conseguisse derrotar a esfinge. A esfinge era um terrível monstro que impunha um embargo ao comércio tebano, impedindo de entrar ou sair da cidade-estado quem não soubesse responder a uma adivinha, provação que reiteradamente terminava no estômago da esfinge. Édipo, claro está, decidiu que seria de bom alvitre tentar também a sua sorte na estrada para Tebas. «Qual é coisa, qual é ela, que de manhã caminha em quatro patas, à tarde em duas e à noite em três?», perguntou o medonho monstro com cabeça de mulher, corpo de leão e asas de águia. Édipo, que, ainda não o dissemos, era tão danado para a porrada como para as adivinhas, sem delongas respondeu: «é o homem! Na infância gatinha, quando é adulto caminha e na velhice apoia-se numa bengalinha». Derrotada por fim, a esfinge precipita-se no abismo, desimpedindo o caminho para Tebas, onde o infeliz leigarraz se casará com Jocasta e se sentará no maldito trono. Estava cumprida a profecia.
Não se conseguia concentrar. Do turbilhão de hipóteses que o zurziam como vespas uma picou-o em cheio no meio da testa: se o filho lhe mentira sobre ir trabalhar, talvez também lhe tivesse mentido sobre a pandemia. Uma e outra vez quis tergiversar o pensamento para diferentes azimutes, mas o veneno da vespa suspicácia já lhe espalhava o seu barrunto pela corrente sanguínea. Deu por si, preso naquele quarto minúsculo, a perguntar-se quanto ao certo seria verdade. Teriam as telecomunicações colapsado mesmo? Diriam os decretos do Estado de Emergência tudo o que o filho lhe relatava? O que sabia ele sobre vírus e pandemias? Quem era ele para disputar o que lhe dizia o filho, a quem dissera a rádio, a quem dissera o Presidente, a quem disseram os cientistas que era preciso fechar os velhos e trabalhar até exaustão? Poderia a pandemia durar para sempre? Ao fim de tanto tempo fechado, sem ouvir nem ver ninguém, a emergência torna-se em normalidade, a excepção converte-se em regra e o confinamento numa verdade tão desnecessária de provar ou discutir como o ar invisível que se respira.
Tinha de ouvi-lo pelos próprios ouvidos.
— Estás aí? — perguntou.— Sim — a voz seca do filho emergiu da estática.
— Quero ouvir a rádio.

A resposta do filho tardou, deixou o titanesco pedido de chumbo caído no chão, e subitamente caiu sobre ele, rápida, assertiva e com força de lei natural.
— Não pode ser, pai. Só temos uma e está comigo. Se ta desse, infectava-te.
— Não quero saber, desinfecta-a — recorreu desapegadadamente.
— O desinfectante está esgotado há dois anos, pai. Porque é que queres a rádio? Eu não te digo as notícias quando as há?
— Não interessa. Limpa-a como puderes. Usa sabonete, usa lixívia, mas traz-ma. Não oiço mais nenhuma voz há três anos. Quero ouvir a rádio. Até pode ficar desse lado da porta com o volume no máximo.
— Isto é por causa daquilo hoje de manhã? — Insurgiu-se o filho.
— Não. Só quero que me tragas a rádio durante uma hora. Estou a pedir-te.
— Não.

Um silêncio de fel borbulhava do telecomunicador, queimava-lhe os ouvidos e secava-lhe a boca.
— Se não me trouxeres imediatamente o rádio, eu vou-me embora.
De pouco serviram a súplicas enraivecidas do filho. Quando se tornou claro que o seu pedido seria indeferido, respirou fundo, colocou a máscara e agarrou na maçaneta da porta corta-fogo que, em três anos, nunca tentara rodar. A mão estremeceu-lhe quando rodou o puxador e um fio de gelo desceu-lhe pela espinha. Estava trancada. Estivera sempre trancada. E pela primeira vez, percebeu que era um prisioneiro. Por isso gritou, até a voz enrouquecer, esmurrou a porta até as mãos lhe sangrarem. Depois chamou pelo filho caído em lágrimas contra a porta como um trapo humano. Assim chorou baixinho durante muitas horas.
Costuma-se dizer que não é por falta de força que os elefantes não arrancam da terra as palancas a que os acorrentam, mas simplesmente porque assumem desde pequeninos que as estacas são impossíveis de arrancar e, quando crescem, nunca mais experimentam. Com ele fora ao contrário. Nunca tentara abrir a porta porque sempre assumira que estava aberta. Caindo por terra essa suposição, desmanchavam-se todas as outras certezas: haveria ainda confinamento obrigatório? Duraria ainda o Estado de Emergência? A requisição civil generalizada seria verdadeira? Existiria mesmo alguma pandemia?
Nessa noite, a primeira em que o filho não lhe trouxe o jantar, deitou-se na cama e retomou a leitura: volvidos muitos anos sobre a coroação de Édipo, uma misteriosa maldição abate-se sobre Tebas: toda a vida se torna estéril. A infecundidade afecta não somente os seres humanos como também as plantas e os animais por igual, matando lentamente a cidade à fome. O oráculo revela aos tebanos que a maldição só poderá ser quebrada descobrindo o assassino do rei Laio. Em busca de respostas, Édipo consulta Tirésias, o famoso profeta cego, que lhe revela ser ele o assassino de seu pai. Quando o anátema de Tirérias se confirma, o mundo de Édipo desmorona-se sob o peso da realidade. Jocasta, sua mãe e mulher, suicida-se e Édipo, incapaz de enfrentar a verdade, arranca os próprios olhos com um alfinete da mulher.
Não faria sentido esperar por Cronos, que devora tudo o que cria, era preciso agir. Édipo segredara-lhe uma ideia ao ouvido.
Na manhã seguinte, aliás como todos os dias, às 7 da manhã, o filho desceu as escadas com o pequeno almoço num tabuleiro: um copo de leite e um pão de leite com queijo e manteiga. Abriu o microondas que, através de duas portas, comunicava com o interior do quarto, permitindo desinfectar os alimentos através de uma fervura rápida, e poisou o pequeno-almoço no prato giratório. A outra porta também estava aberta, violação clara das regras de saúde, e, no chão do quarto, viu o pai, jacente de bruços numa enorme poça daquilo que tanto podia ser sangue como negra pez, não fosse só o sangue cheirar a sangue.
Destrancou a porta desesperado e ajoelhando-se junto ao pai entre soluços embargados e pedidos indecifráveis, agarrou-lhe entre as palmas a cara inerte. Procurava a ferida que tão copiosamente jorrava mas em nenhum lugar se via. Nem nos pulsos, nem no pescoço, nem nos lugares costumeiros dos suicidas convictos, nem sequer no coração, pelo menos a olho nu se visse, que ele há feridas no coração que profusamente sangram e nunca se vêem. Até que numa fracção de segundo, o pai levanta-se de um salto com um vigor juvenil guardado sabe-se lá onde, derruba no charco de sangue o filho meio atónito de cócoras e cruza como um felino o umbral. Antes que o filho pensasse sequer em se levantar, deu duas voltas à chave.
Enquanto estancava a hemorragia que provocara enterrando profundissimamente na coxa uma lâmina de barbear, ouvia os ecos abafados do filho a berrar impropérios e a projectar-se em peso contra a porta. Depois foi à janela. Forçou os olhos a habituarem-se à claridade do céu que não via há 3 anos. A rua imóvel e deserta de gente permanecia sob o mesmo feitiço soporífero. Só os gatos vadios e os estendais adejar os perfumes do detergentes da roupa na tarde de Primavera é que quebravam a ilusão de ter alguém carregado no botão da pausa. A casa também parecia congelada no tempo: o filho não mudara a posição de nada, nem sequer da televisão, que afinal continuava a funcionar normalmente. A pandemia afinal continuava, confirmou o noticiário, e a requisição civil era real, mas nem uma palavra sobre quaisquer medidas de confinamento forçado para os velhos. Algo não batia certo, como uma profecia que parece incompleta sem uma grande razão de existir.
Desceu as escadas, enfiou a cara no microondas e disse ao filho:
— Acho que me deves uma explicação.
— Vais prender-me aqui para sempre? — respondeu o filho sem o encarar. Estava sentado na cama, dobrado sobre si mesmo, com os cotovelos nos joelhos e a cabeça amparada entre as duas mãos. Dali, parecia estar a ver-se a si próprio na televisão: a barba menos branca, a cabeça menos calva, mas de resto tal pai, tal filho.
— Só se não me explicares porque é que me ias fazer isso a mim.
— Para não te infectar! Para te proteger!
— Não mintas, já estive a ver televisão.

Calmamente, o filho ergueu a cabeça e observou o quarto à sua volta como quem procura imaginar-se a viver numa casa nova. Naquele instante foi como se estivesse a olhar pela fechadura do tempo para o filho pequenino, assim sentadinho na cama do seu quarto, abstraído das profecias que lhe reservava o mundo. O que estava para fazer doeu-lhe tanto que sentiu as glândulas lacrimais em brasa e os ossos gelados e até Cronos, um tipo que devora os próprios filhos, se comoveu perante semelhante visão.
— A requisição geral — começou por fim — depois de meses em casa, fomos obrigados a ir trabalhar. Essa parte é verdade. Na fábrica todos os dias adoeciam trabalhadores. Eram substituídos automaticamente pelos funcionários das empresas que já não conseguiam laborar por problemas de logística, abastecimento ou falta de mão-de-obra. Os números de mortos também eram verdadeiros. Diziam que morrer a economia era pior do que morrermos alguns de nós. Só eles é que não morriam.
— Eles quem?
— O governo, o meu patrão… os ricos deste país. Esses aprenderam a proteger-se rapidamente. Sabes o que é que faziam? Nunca saíam de sítios como este. Maiores, é certo, mas não entendes que te estava a proteger? — perguntou o filho.
— E porque é que eu não podia saber? Porque tiveste de mentir este tempo todo? — devolveu o pai.
— A única escapatória à compulsão ao trabalho da requisição era a reforma antecipada, com um corte de 70 por cento… Só com isso eu não me safava, pai.
— Então prendeste o teu próprio pai para lhe roubares a reforma?!

O filho, como que sentindo os olhares reprovadores dos leitores, desviou os olhos envergonhados e levantou-se perturbado e sem saber que o maior opróbrio não é o seu mas o de um tempo em que os filhos dependem das reformas dos pais para se manterem vivos.
— Prendi-te aqui dentro para não morrer. Se fosse trabalhar ia trabalhar 11 horas por dia até morrer infectado.
— Porque não me pediste?
— Pedir-te uma mesada? Como um adolescente? Pedir-te que pusesses pão no prato de um velho de 58 anos? E tu, vais dizer que me dirias que sim?

Nessa noite sonhou com o mar. Quando acordou, preparou um pão com queijo e um copo de leite, tocou três vezes à porta, colocou o pequeno-almoço no prato giratório do microondas e foi ver televisão. O presidente anunciava a 50.ª renovação do Estado de Emergência, que expandia a iniciativa privada dentro das prisões e autorizava a polícia a fazer buscas sem mandato nas casas suspeitas de ocultaram trabalhadores em idade activa fugidos ao trabalho. Já não se lembrava de quase nada do sonho dessa noite, nem como ali tinha chegado nem por que razão estava sozinho, a nadar na imensidão nocturna de um oceano tranquilo, mas, de alguma forma, o sonho parecia-lhe fazer sentido.
17.4.20  

Ilustração de Renata Candeias