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terça-feira, 1 de setembro de 2015

A vida dos trabalhadores e do povo comum em John Steinebeck

28 de agosto de 2015 - 10h04 


John Steinbeck (1902-1968) é um dos maiores e mais conhecidos romancistas norte-americanos, autor de obras que se tornaram clássicas. Originário de uma família pobre, foi operário, trabalhador rural, pedreiro, antes de se tornar repórter e escritor.

Por José Carlos Ruy*


Arquivo
John Ernst Steinbeck, Jr. foi um escritor estadunidense, recebeu prêmio Nobel de Literatura
John Ernst Steinbeck, Jr. foi um escritor estadunidense, recebeu prêmio Nobel de Literatura
Entre suas obras se destacam três romances publicados na década de 1930:Luta Incerta (1936), cujo tema é uma greve de trabalhadores rurais;Ratos e Homens(1937), onde conta a história de dois trabalhadores; e o grande As Vinhas da Ira (1939), sobre a vida do povo pobre durante a grande depressão. E que enfrentou a fúria conservadora, chegou a ser queimado em público e denunciado como “propaganda comunista”! Foi levado ao cinema no filme clássico homônimo dirigido por John Ford.

Em 1961 Steinbeck publicou o romance O Inverno de Nossa Desesperança, título inspirado por uma frase da peça Ricardo III, de William Shakespeare (“O inverno de nossa desesperança / já se transformou em um glorioso estio pelo sol de York, / e todas as nuvens que pesavam sobre nossa casa / jazem sepultadas nas profundas entranhas do oceano”).
Cena do filme As vinhas da ira, dirigido por John Ford
 
Este romance deu a Steinbeck a condição de “arauto da verdade”, segundo a Academia Sueca que lhe conferiu o Nobel de Literatura em 1962. Nele, Steinbeck colocou o dedo em uma ferida marcante da sociedade norte-americana: a contradição entre a rigorosa moralidade protestante, contraposta aos impulsos e imposições sociais pelo sucesso individual e financeiro. 

Leia a íntegra do 1º capítulo da obra O inverno de nossa desesperança 

Quando a manhã clara e dourada de abril despertou Mary Hawley do sono, ela se virou para o marido e o viu puxando a boca com os dedos mindinhos, fazendo cara de sapo para ela.

- Você é um tonto, Ethan - ela disse. - Você se acha mesmo muito engraçado.

- Ah, vamos lá, senhorita Ratinha, quer se casar comigo?

- Você acordou bobo?

- O ano está no dia. O dia está na manhã.

- Parece que sim. Está lembrado de que hoje é Sexta-Feira Santa?

Ele disse, sem emoção:

- Aqueles romanos imundos estão se preparando para seguir em formação até o Calvário.

- Não cometa um sacrilégio. Será que o Marullo vai deixar você fechar o mercado às onze?

- Minha querida flor de abóbora... o Marullo, além de católico, é um folgado. Provavelmente nem vai aparecer. Vou fechar ao meio-dia, até que a execução termine.

- Isso parece conversa de peregrino. Não é nada educado.

- Quanta bobagem, joaninha. Isso vem do lado da minha mãe. É conversa de pirata. Foi mesmo uma execução, você sabe.

- Eles não eram piratas. Foi você mesmo quem disse, baleeiros, e disse que eles tinham cartas de sei-lá-o-que do Congresso Continental.

- Os navios contra os quais eles atiravam achavam que eles eram piratas, sim. E aqueles soldados romanos achavam que era uma execução.

- Agora você ficou bravo. Prefiro quando está bobo.

- Eu sou bobo. E todo mundo sabe disso.

- Você sempre me deixa confusa. Mas tem todo o direito de se sentir orgulhoso... pais peregrinos e capitães baleeiros, tudo na mesma família.

- Será que eles se sentiriam assim?

- Como?

- Será que os meus ancestrais tão importantes sentiriam orgulho ao saber que produziram um desgraçado de um balconista em uma porcaria de um mercado de um imigrante na cidade que já foi inteiramente deles?

- Você não é nada disso. É mais como um gerente, cuida dos registros, deposita o dinheiro e encomenda os produtos.

- Claro. E varro o chão e carrego o lixo e faço mesuras para o Marullo, e se eu fosse a porcaria de um gato, correria atrás dos ratos do Marullo.

Ela colocou os braços em volta dele.

- Vamos ser bobos - disse. - Por favor, não fique falando palavras grosseiras na Sexta-Feira Santa. Eu te amo, de verdade.

- Certo - ele respondeu, depois de uma pausa. - É o que todo mundo diz. Mas não ache que por isso você pode ficar completamente nua 
na cama com um homem casado.

- Eu ia contar uma coisa sobre as crianças.

- Estão na cadeia?

- Agora você ficou bobo de novo. Talvez seja melhor eles mesmos falarem para você.

- Então, por que você não...

- A Margie Young-Hunt vai fazer uma leitura para mim de novo hoje.

- Tipo um livro? Quem é Margie Young-Hunt, o que ela faz, e todos os pretendentes...

- Sabe, se eu fosse ciumenta... Quer dizer, quando um homem finge não notar uma moça bonita, é que...

- Ah, aquela. Moça? Ela já teve dois maridos.

- O segundo morreu.

- Quero meu café-da-manhã. Você acredita nessas coisas?

- Bom, a Margie viu algo sobre um irmão nas cartas. Alguém próximo e querido, foi o que ela disse.

- Alguém próximo e querido por mim vai levar um chute no traseiro se não começar a se mexer logo...

- Já estou indo... ovos?

- Acho que sim. Por que é que chamam de Sexta-Feira Santa? O que há de santo nela?

- Ah! Mas que coisa! - ela disse. - Você vive fazendo piada.

O café estava pronto e os ovos, em uma tigela com torrada ao lado, quando Ethan Allen Hawley escorregou para a mesa da copa perto da janela.

- Estou me sentindo bem - ele disse. - Por que é que chamam este dia de Sexta-Feira Santa?

- Primavera - ela disse do fogão.

- Sexta-Feira de primavera?

- Febre da primavera. As crianças levantaram?

- Até parece. São mesmo uns canalhinhas folgados.

Vamos pegá-los e dar-lhes uma chicotadas.

- Você fala coisas horríveis quando se faz de tonto.

Você vai ficar em casa do meio-dia até as três?

- Não.

- Por que não?

- Mulheres. Elas vão vir me visitar às escondidas. Quem sabe até a tal de Margie.

- Ah, Ethan, não diga coisas assim. Margie é minha amiga. Ela tiraria a camisa do corpo para ajudar você.

- Ah, é? E onde foi que ela arrumou a camisa?

- Lá vem você com essa conversa de peregrino puritano de novo.

- Aposto o quanto você quiser que somos parentes.

Ela tem sangue de pirata.

- Ah! Mas você ficou tonto de novo. Aqui está a lista.

- Enfiou o pedaço de papel no bolso interno do paletó dele. - Parece muita coisa. Mas não se esqueça de que é o fim de semana de 
Páscoa... e duas dúzias de ovos, não esqueça. Você vai se atrasar.

http://www.vermelho.org.br/noticia/269504-11

*José Carlos Ruy é jornalista, editor da Classe Operária, membro da Comissão Nacional de Comunicação e do Comitê Central do PCdoB; integra a Comissão Editorial da revista Princípios

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

John Steinbeck ~ O inverno do nosso descontentamento

Livros na Minha Cabeceira

O Inverno do Nosso Descontentamento
“O Inverno do Nosso Descontentamento” foi o último romance de Steinbeck, um grande escritor americano, laureado com o Prémio Nobel e com o Pullitzer, publicado antes da sua morte.
“Em O Inverno do Nosso Descontentamento são colocados no primeiro plano os temas sociais que conferiram às obras de Steinbeck o pleno interesse com que o público as absorve. O núcleo deste romance é o dinheiro, a hipocrisia e os falsos valores, a crítica serena mas implacável às engrenagens de toda a sociedade que mutile o homem no que ele tem de autêntico”

A obra centra-se na personagem Ethan Allen Hawley, descendente dos fundadores da cidade New Baytown, capitães e pescadores de baleias, que deles apenas herda o apelido e a casa onde sempre viveu pois o pouco que o pai não perdeu, algumas terras, casas e uma mercearia e frutaria onde agora trabalha, Ethan não conseguiu salvar numa altura de plena crise, saído do exército e sem qualquer experiência comercial.
Em Perlock Street, rua próxima da casa de Ethan, localizam-se os mais belos edifícios de toda a cidade, construídos com ideias e objectos vindos das viagens dos navios baleeiros à China e também com influências gregas que os arquitectos contratados pelas famílias mais ricas traziam consigo. Para além desta riqueza cultural, tinham uma curiosa característica, o “passeio das viúvas” construído sobre os telhados das casas, de onde as mulheres avistavam o regresso dos navios.
Perlock Street é também a rua que leva Ethan até ao Porto Velho, onde é situado o seu “lugar” que Ethan acredita que toda a gente precise de ter para reflectir e lembrar.
Como é comum nas obras de Steinbeck, existe uma reflexão sobre vários temas, neste caso, a moral, os princípios, a honestidade e integridade.
Ethan é casado com Mary com quem tem dois filhos adolescentes, Allen e Mary Ellen. Ao contrário de Ethan, a sua família vive infeliz com a condição social em que se encontram e até ressentidos com Ethan por ele ser descendente de uma família rica e não se esforçar para recuperar o dinheiro que tinham ou pelo menos parte dele. Ethan sente-se, por isso, pressionado e, ao mesmo tempo, é constantemente posto à prova até que acaba por pôr em causa os seus próprios valores, se realmente importam ou se está apenas a ser preguiçoso quando não segue caminhos duvidosos para seu próprio proveito, como todos à sua volta o fazem.
Resta saber como Ethan reagirá a todas as pressões a que é sujeito…
Gostei bastante desta leitura mas “As Vinhas da Ira” continuam a ser o meu livro preferido deste escritor. Em “O Inverno do Nosso Descontentamento” senti, por vezes, mudanças de ritmo abruptas devido a um excesso de reflexão em alguns capítulos e pouca acção. Mas, depois de alguma persistência, compensou. Neste romance, existem poucas personagens e todas elas acabam por tomar um papel importante na história em determinada altura. Houve uma que, na minha opinião, se destacou por ser tão diferente de todas as outras, Margie Young-Hunt, melhor amiga de Mary, que lê cartas e que se deita com alguns moradores da cidade. Os filhos de Ethan acabam, também, por ter um importante papel no desenrolar da história, representando princípios opostos, e de uma forma bastante inesperada!


Curiosidade: O título desta obra refere-se a uma frase de “Richard III” de Shakespeare:
“Now is the winter of our discontent made glorious summer by this son of York
Na obra, a certa altura, Ethan usa o trocadilho son/sun.


Steinbeck's last novel, The Winter of Our Discontent (1961), examines moral decline in America. The protagonist Ethan grows discontented with his own moral decline and that of those around him.[23] The book is very different in tone from Steinbeck's amoral and ecological stance in earlier works like Tortilla Flat and Cannery Row. It was not a critical success. Many reviewers recognized the importance of the novel but were disappointed that it was not anotherGrapes of Wrath.[23] In the Nobel Prize presentation speech next year, however, the Swedish Academy cited it most favorably: "Here he attained the same standard which he set in The Grapes of Wrath. Again he holds his position as an independent expounder of the truth with an unbiased instinct for what is genuinely American, be it good or bad."[1]
Apparently taken aback by the critical reception of this novel, and the critical outcry when he was awarded the Nobel Prize for Literature in 1962,[clarification needed] Steinbeck published no more fiction in the next six years before his death.

The Winter of Our Discontent

From Wikipedia, the free encyclopedia


The Winter of Our Discontent, published in 1961, is John Steinbeck's last novel. The title is a reference to the first two lines of William Shakespeare's Richard III: "Now is the winter of our discontent / Made glorious summer by this sun [or son] of York," .

Contents

  

Plot introduction

The story revolves around Ethan Allen Hawley, a former member of Long Island's aristocratic class. Ethan's late father has lost his family's fortune, and, consequently, Ethan now works as a clerk in a grocery store. His wife Mary and children resent their lowly social and economic position, and do not put any value in the high levels of honesty and integrity that Ethan struggles to maintain in a corrupt society. These external pressures, as well as his own internal turmoil, send Ethan on a dangerous path to reclaim the status and wealth that he once enjoyed.

Plot summary

Feeling the pressure from his family and acquaintances to achieve more than his current station, Ethan considers letting his normally high standards of conduct take a brief respite in order to attain a better social and economic position.
Ethan's decision to gain wealth and power is influenced by criticisms and advice from people around him. His employer urged him to take bribes; his banker urged him to be more ruthless. Ethan's friend Joey, a bank teller, even gives Ethan a rundown on how to rob a bank and get away with it.
On discovering that the current store owner, Italian immigrant Alfio Marullo, might be an illegal immigrant, he places an anonymous tip with the Immigration and Naturalization Service. After Marullo is taken into custody, he transfers ownership of the store to Ethan through the actions of the very government agent that caught him. Marullo gives Ethan the store because he believes Ethan is so honest and deserving. Ethan also considers, plans, and mentally rehearses a bank robbery, stopping short of carrying it out only because of external circumstances. Eventually, he manages to become powerful in the town by taking possession of a strip of land needed by local businessmen to build an airport; he gets the land from Danny Taylor, the town drunkard and Ethan's childhood best friend, through a will made out by Danny and slipped under the door of the store. The will was drawn up without any spoken agreement some time after Ethan gave Danny money under the auspices of sending Danny to receive treatment for alcoholism. Danny assures him that drunks are liars and that he will just drink the money away, and this is indeed confirmed when Danny is found dead with empty bottles of whiskey and sleeping pills.
In this way, Ethan gets to a position where he's able to control the behind-the-scenes dealings of the corrupt town businessmen and politicians. Ethan seems to accept what he has done but is confident that he will not become corrupted by it. He considers that while he had to kill men in the war, he never became a murderer thereafter.
When he discovers that his son won a nationwide essay contest by plagiarizing classic American authors and orators, a conversation ensues with his son in which his son denies any kind of guilty feelings. The son maintains that everyone cheats and lies and that this is in fact the way of things. Perhaps after seeing his own moral decay in his son's actions, and experiencing the guilt of Marullo's deportation and especially the death of Danny, Ethan sets out to commit suicide. His daughter, intuitively understanding his intent, slips a family talisman into his pocket during a long embrace. When Ethan decides to commit the act, he reaches into his pocket to find razorblades and instead comes across the talisman. As the tide comes into the alcove in which he has sequestered himself, he struggles to get out in order to return the talisman to his daughter, in hopes that the light does not go out of her.


Main characters

  • Ethan Allen Hawley – a grocery clerk (the story's protagonist)
  • Mary Hawley – Ethan's wife
  • Allen and Ellen Hawley – his adolescent children
  • Danny Taylor – Ethan's childhood friend and town drunk
  • Joey Morphy – bank teller and town playboy
  • Margie Young-Hunt – middle-aged seductress
  • Mr. Baker – banker
  • Alfio Marullo – Italian immigrant owner of grocery store


Literary significance & criticism

Atlantic Monthly (Edward Weeks) immediately reviewed The Winter of Our Discontent as a Steinbeck classic: "His dialogue is full of life, the entrapment of Ethan is ingenious, and the morality in this novel marks Mr. Steinbeck's return to the mood and the concern with which he wrote The Grapes of Wrath."[1] The Swedish Academy agreed and awarded Steinbeck the Nobel Prize for Literature in 1962. The presentation speech by Secretary Anders Österling remarked specifically on five books from 1935 to 1939 and continued thus:[2]
In this brief presentation it is not possible to dwell at any length on individual works which Steinbeck later produced. If at times the critics have seemed to note certain signs of flagging powers, of repetitions that might point to a decrease in vitality, Steinbeck belied their fears most emphatically with The Winter of Our Discontent (1961), a novel published last year. Here he attained the same standard which he set in The Grapes of Wrath. Again he holds his position as an independent expounder of the truth with an unbiased instinct for what is genuinely American, be it good or bad.
Most reviewers in America were disappointed.[citation needed] A few years later Peter Lisca called Winter "undeniable evidence of the aesthetic and philosophical failure of the writer’s later fiction".[3]
In various letters to friends before and after its publication, Steinbeck clearly stated that he wrote the novel to address the moral degeneration of American culture in the 1950s and 1960s. American criticism of his moralism started to change in the 1970s following the Watergate scandal; here is how Reloy Garcia describes his reassessment of the work when asked to update his original Study Guide to Winter: "The book I then so impetuously criticized as somewhat thin, now strikes me as a deeply penetrating study of the American condition. I did not realize, at the time, that we had a condition," and he attributes this change of heart to "our own enriched experience".[4]
In 1983 Carol Ann Kasparek condemned the character of Ethan for his implausibility, and still called Steinbeck’s treatment of American moral decline superficial, although she went on to approve the mythic elements of the story.[5]
Increasing awareness of the Faustian bargain underlying the American Dream, famously articulated as "Greed is good" by Gordon Gecko in Wall Street (1987 film), has generated a new American consensus. At a conference celebrating the 100th anniversary of Steinbeck's birth, Stephen K. George declared: "With these authors [Bellow, Weeks, and Gannett] I would contend that, given its multi-layered complexity, intriguing artistry, and clear moral purpose, The Winter of Our Discontent ranks in the upper echelon of Steinbeck’s fiction, alongside Of Mice and Men, Cannery Row, East of Eden,and, of course, The Grapes of Wrath." [6]
The novel was the last that Steinbeck completed before his death in 1968; The Acts of King Arthur and His Noble Knights and the screenplay for Zapata were both published posthumously in unfinished forms.


Film adaptation

The novel was made into a television movie in the Hallmark Hall of Fame in 1983, starring Donald Sutherland as Ethan Hawley.

References

  1. ^ Weeks, Edward (July 1961). "Review: The Winter of Our Discontent, by John Steinbeck". Atlantic Monthly. Retrieved 2011-08-08.
  2. ^ "The Nobel Prize in Literature 1962: Presentation Speech by Anders Österling, Permanent Secretary of the Swedish Academy". NobelPrize.org. Retrieved 2012-01-30.
  3. ^ Lisca, Peter (1965), Steinbeck’s Image of Man and His Decline as a Writer, Modern Fiction Studies 11, p. 10
  4. ^ Garcia, Reloy (1979), A Study Guide to Steinbeck (Part II), Metuchen: Scarecrow, p. 4
  5. ^ Kasparek, Carol Ann (1983), Ethan’s Quest Within: A Mythic Interpretation of John Steinbeck’s The Winter of Our Discontent, Ball State University, p. 31
  6. ^ George, Stephen K (March 2002). "The Contemporary Nature of Steinbeck's Winter". BYU Idaho. Retrieved 2011-08-02.
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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

terça-feira, 28 de julho de 2009

John Steinbeck - As Vinhas da Ira


As Vinhas da Ira

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As Vinhas da Ira

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Descrição:

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Do êxodo de uma família da lavradores que, vendo-se reduzida à miséria por uma tempestade de areia em Oklahoma, resolve emigrar para a Califórnia. A luta que todos os membros da família sustentam na sua exaustiva jornada contra os elementos e os próprios homens e, até, contra o próprio meio de transporte, a coragem de que dão provas, a generosidade de alma que afirmam, a humaníssima capacidade de, apesar de tudo, fraternizarem uns com os outros e com os seus semelhantes trazem um sopro de epopeia(…)
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As vinhas da ira: entre realismo e simbologia,
una página da história americana

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Alba Olmi1
olmi@viavale.com.br
Universidade de Santa Cruz do Sul/RS - Brasil




Steinbeck nasceu em 27 de fevereiro de 1902 em Salinas, Califórnia. Apesar de ter estudado diversos anos na Universidade de Stanford, saiu sem graduação e passou a trabalhar como operário para sustentar-se enquanto escrevia. Seu primeiro romance foi publicado em 1929, mas foi somente a partir da publicação de Tortilla Flat, em 1935, que o autor alcançou o reconhecimento da crítica e do público. Seu sucesso literário continou com In dubious battle (1936) e com Of mice and men (1937). As vinhas da ira (1939) conferiu a Steinbeck o Prêmio Pulitzer. Nessas obras, os temas proletários se acham expressos pelo retrato dos trabalhadores desarticulados e despossuídos que habitavam sua região. Os romances Of mice and men e As vinhas da ira foram mais tarde transportados para o cinema.

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Em 1943 Steinbeck viaja para a África do Norte como correspondente de guerra. Alguns de seus últimos trabalhos incluem Cannery Row (1945), The pearl (1947), East of Eden (1952), The winter of our discontent (1961) e Travels with Charley (1962). Produziu também diversos “scripts” para o cinema, incluindo a adaptação de dois entre seus trabalhos mais curtos: The pearl e The red poney. Steinbeck morreu em Nova Iorque em 20 de dezembro de 1968. Em praticamente toda sua obra, o autor revelou um interesse profundo na motivação que determina a conduta humana, ao criar um mundo por vezes irreal que poderia equilibrar, amenizar o mundo mau e cruel que era o mundo real , um mundo que ele próprio vivenciou. Para isso ele recorreu freqüentemente a um simbolismo amplo que lhe angariou inclusive alguns fracassos, entre alguns grandes sucessos literários.

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Condecorado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1962, John Steinbeck é mais lembrado por seu romance As vinhas da ira que narra a história de uma família de trabalhadores rurais migrando do estado de Oklahoma para a Califórnia, e que descreve a desesperança gerada pela Grande Depressão americana.

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O caráter realista e os aspectos simbólicos constituem um binômio de difícil convivência, um equilíbrio delicadíssimo, uma façanha literária que John Steinbeck consegue levar a cabo com extraordinária habilidade e sensibilidade nessa obra marcante. As constantes dicotomias que perpassam o romance dão espaço para o realismo mais cruel aliado a um sopro continuado de poesia, que nasce do contraste feito símbolo, um leitmotiv que acompanha a narrativa fazendo-lhe o contraponto.

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Comecemos, pois, pela simbologia, considerando o termo lato sensu, conforme Beigbeder, que conceitua o símbolo como a tentativa definitória de toda realidade abstrata, sentimento ou idéia, invisível aos sentidos, sob forma de imagens ou objetos e que possui um sentido subjetivo, oposto à alegoria, cujo significado encontra-se normalmente a grande distância dos termos que a compõem.2 São os símbolos, atravessando todo o texto, que criam o contraste poético na história trágica de uma família de agricultores retirantes de Oklahoma, em sua viagem desesperada rumo ao Oeste americano, em busca de trabalho, de sobrevivência, em busca dos verdes e ricos pomares, dos vinhedos e dos algodoais da Califórnia, onde eles anseiam resgatar sua própria condição de seres humanos e de trabalhadores da terra.

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Já o título apresenta-se altamente simbólico: As vinhas da ira. As vinhas são o verde vale da Califórnia, presentificando a fartura, o alimento, o trabalho e o bem-estar que delas deverão advir. Ouçamos a voz de Avô, alvoroçado com o projeto da Califórnia, em sua ingênua e infantil credulidade:

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Queria estar na Califórnia, onde posso apanhar laranjas quando quiser. Ou então uvas. São coisas que nunca tive bastante. Vou pegar um grande cacho de uvas e esfregar ele na cara e deixar que escorra pela barba abaixo.3

A ira conota uma busca dolorosamente frustrada. A ira é o sentimento que se apodera dos retirantes quando percebem que foram atraídos para uma falsa Canaã, onde a exploração do homem pelo homem alcança picos de terrível injustiça social, de violência moral e física e que toma o lugar da esperança, tornando-se desespero, culminando na luta silenciosa das greves, não já por melhores salários, mas, acima de tudo, pelo próprio alimento básico e vital.

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Em seu ensaio sobre poesia e linguagem, Pearson fala de uma renovação literária que parece ter contagiado, entre muitos grandes nomes do período, certamente também Steinbeck:

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Embora o movimento naturalista tenha fornecido o impulso e muito do material necessário para uma literatura americana moderna e vigorosa, ela ainda se ressentia de uma forma e linguagem adequadas para adquirir inteira expressão como arte. Conforme assinalou Edmund Wilson em Castelo de Axel (1931), um segundo movimento, chamado indiferentemente simbólico ou analítico, logo providenciaria o equilíbrio necessário e isso se tornou possível nas décadas de vinte e trinta a fim de que os americanos colocassem as suas experiências do mundo moderno em obras significativas da arte literária (meu grifo).4

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Na epopéia moderna de Steinbeck, que reflete justamente essas experiências, está implícita uma mitologia que se presentifica pelos símbolos atravessando o romance praticamente desde a primeira até a última página. É o fogo crepitando no fogão, é o fogo improvisado no terreiro, sempre arrumado e avivado, significando a família, o lar, o aconchego, o calor, a união. É o alimento sendo preparado no fogo e distribuído para a família, mesmo quando o único produto disponível é um punhado de farinha de milho que mal possibilita cozinhar um mísero pirão. Um alimento que, em sua extrema pobreza, reúne a família, tendo como pilar-mestre a figura onipresente de Mãe em sua luta pela preservação do núcleo familiar. O alimento como suporte da vida, por mais precário que seja, ainda é o traço comum que congrega os pobres comensais, acampados em tendas, possuindo por assento apenas alguns caixotes de madeira que serão sucessivamente rachados para preparar novo fogo necessário às refeições, quando houver. Fogo e alimento, mas também a palavra de Mãe que consola, que aquieta o desespero, com os símbolos que ela mesma cria, ao confortar o marido já desesperançado:

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E isto é mais uma das coisas que uma mulher sabe com certeza. Eu também fiquei sabendo. O homem vive saltando degraus... nasce uma criança e morre um homem, e cada vez que isso acontece é um salto nos degraus da vida ... Ele arranja uma fazendinha e perde uma fazendinha, e isto são também saltos. Para a mulher, tudo corre sem parar, que nem um rio; cheio de redemoinhos e turbilhão e pequenas cachoeiras,mas correndo sem parar. É assim que a mulher encara a vida. A gente não se entrega, a gente continua...muda, talvez, um pouco, mas continua sempre firme. [...] tudo que a gente faz deve ter continuação. Eu penso assim. Mesmo a fome...mesmo a doença. Alguns morrem, mas os que sobram tornam-se mais fortes. O que vocês têm que fazer é viver somente o dia de hoje, de dia para dia (p. 585-586).

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A secura das terras de Oklahoma, o calor estafante e úmido, o pó que tudo cobre e embota são o retrato da miséria e do abandono, quando a perda das terras, pela impossibilidade de resgatar as hipotecas que sobre elas pesam, expulsa, por meio dos tratores, (mais um símbolo da violência e da desumanidade) os pequenos agricultores de seus campos empobrecidos, mas ainda assim muito amados:

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Os tratores invadiram as terras, enormes monstros de ferro a se moverem qual insetos, possuidores da ligeireza dos insetos. Os tratores rastejavam pelas terras, imprimindo nelas as marcas de suas correntes [...]. Monstros de nariz chato, a levantar a poeira, enfiando nela o focinho, marchando firmes pelas terras duras, arrasando cercas, não respeitando cabanas, demolindo tudo na sua rota implacável (p. 50).

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Secura, pobreza e abandono que contrastam com as terras verdejantes e férteis da Califórnia para onde a família se dirige cheia de esperança. Aqui, na Califórnia, é a vida. Lá, em Oklahoma, é a morte. A suavidade e a brancura imaculada do algodão sendo colhido: Algodão branco, brotando qual pipoca (p. 562) e as mãos rudes e calejadas dos trabalhadores marcam, uma vez mais, o contraste simbólico com o ambiente duro e sujo em que eles vivem e os algodoais limpos, suaves e promissores de bem-aventurança.

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Filas de trabalhadores, movimentando-se através dos campos. Pegando com os dedos. Dedos apalpadores procuram, retiram e acham os flocos. Quase sem olhar. Aposto que podia colher algodão até se fosse cego. Nas pontas dos dedos tenho um palpite pra apanhar os flocos de algodão. ‘Tou fazendo um trabalho limpo, limpo que nem um assobio (p. 563).

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O velho hábito da família, de lavar-se antes de comer, ferrenhamente preservado por Mãe, mesmo nos momentos de maior tensão e angústia, parece simbolizar o seu desejo de estabilidade, a necessidade de manter a família unida e normal, mesmo nos rudes acampamentos que os retirantes organizam em sua caminhada rumo ao Oeste. A família não pode desintegrar-se; eis uma frase freqüentemente repetida por Mãe:

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Tudo o que nos resta é a família, é a nossa união. Não tenho medo de nada, enquanto estivermos todos juntos. Não quero que a gente se separe. (...) com a minha família é diferente: ela não pode desunir-se. Prefiro rachar a minha própria cabeça, mas não vou permitir isto ( p. 228).

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O hábito de lavar-se antes das parcas refeições que não conseguem saciar-lhes a fome é, simbolicamente, o gesto que salva, que reúne, que mantém o lar e a família como tais. Mas a simbologia do romance e a poesia que contrasta com o realismo da descrição-narração não são perceptíveis apenas nos atos concretos. O contraste simbólico se dá ainda em um nível maior e mais sutil, implícito nas mais ricas passagens do texto.

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Pecado e redenção são vias de mão dupla no romance. Esse binômio se realiza através de Tom Joad, o filho mais velho, recém-saído da penitenciária em liberdade condicional, por ter assassinado um homem que o ameaçara em uma briga. Através de Tom Joad, novamente assassino, quando se vê envolvido com o grupo de trabalhadores liderados por Casy, o pregador, na greve contra a exploração dos fazendeiros que querem pagar pouco mais de dois “cents” para a colheita nos pomares e nos algodoais. Novamente um crime não premeditado, não desejado. Tom mata mais por lealdade a Casy, assassinado brutalmente, do que para defender-se. O binômio se realiza através do mesmo Tom, agora fugitivo, aconselhado por Mãe a deixar o seu esconderijo em um cano de esgoto, para procurar salvar-se; do mesmo Tom que continuará a luta de Casy. Levando consigo o ensinamento bíblico, estará assumindo a causa comum dos deserdados, redimindo-se assim do duplo homicídio. Antes da fuga, ao despedir-se de Mãe, dolorosamente angustiada com o destino do filho, Tom diz:

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Aí eu estarei em qualquer lugar, na escuridão, estarei no lugar que a senhora olhar à minha procura. Em toda parte onde tenha briga pra que a gente com fome possa comer, eu estarei presente. Em toda a parte onde um policial 'teja maltratando um camarada, eu estarei presente. Imagine, se o Casy soubesse disto! Estarei onde a nossa gente 'teja berrando de raiva...e estarei onde crianças 'tejam rindo porque sentem fome e sabem que vão logo ter comida. E quando a nossa gente for comer o que plantou e for morar nas casas que construiu... aí eu também estarei presente. (p. 580)

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Na mesma linha de pecado e redenção, temos a cena vivida por tio John, um homem amargurado pelo fardo da culpa que o persegue, por ter deixado morrer a mulher grávida, quando ela lhe pede ajuda. Na verdade ele não acredita que ela esteja para dar à luz. É apenas a ignorância, a pobreza a gerar mais essa tragédia. Mas quando tio John é incumbido pelo irmão, pai de Tom Joad, de enterrar o bebê da sobrinha Rosasharn: uma mumiazinha, toda enrugada e de cor azul. (p. 612) - nascido morto e prematuro durante a enchente que os isola de tudo e de todos - ele, que a princípio tenta esquivar-se da penosa tarefa, em seguida consente. Não pôde enterrar o seu bebê, que sequer chegou a nascer, mas agora dará sepultura ao bebê de Rosasharn. Tio John leva então o caixote em que jaz o pequeno cadáver para longe do acampamento. Mas, ao invés de enterrá-lo, deposita-o sobre as água revoltas de um riacho que a enchente tornou violento. Ao ver o caixote - usado para o transporte de maçãs - sendo levado pela força das águas, ele, tão calado e contido, incapaz de queixas, em parte por temperamento, em parte por sentir-se tolhido pela culpa, em uma espécie de desabafo catártico, grita ao bebê:

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Vai, vai rio abaixo e diz aquilo para eles. Vai descendo, e estaca na estrada, e apodrece e diz pra eles como é. É o único jeito de tu dizer as coisas. Nem sei se tu é menino ou menina, mas nem quero saber. Vai descendo e apodrece na estrada. Talvez, então, eles fiquem sabendo. (p. 618)

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É nesse momento que tio John parece libertar-se em parte do peso da culpa, do sentido de culpa que até então o perseguira e, ao mesmo tempo, da incapacidade de falar no seu pecado, embora em diversas passagens ele tenha ensaiado uma confissão que ninguém está disposto a ouvir. Sequer o próprio Casy, o pregador que se juntou à família. As palavras de Tio John podem aqui ser entendidas também como uma forma de revolta pelas condições desumanas em que vive a família. Palavras que tio John jamais teria pronunciado antes, ma que agora ele consegue dizer, compelido pelas trágicas circunstâncias.

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Mas é com a última cena fechando o romance que Steinbeck consegue talvez a criação de seu símbolo mais dramático e de sua marca mais poética: é quando Rosasharn, docemente instigada por Mãe, aproxima-se do moribundo faminto e lhe oferece o seio túrgido de leite, o leite que seu bebê não pôde sugar, mas que agora poderá salvar mais uma vida. Na verdade, em seu gesto, Rosasharn deseja resgatar a sua frustrada maternidade muito mais do que salvar uma vida. Em sua egocêntrica juventude, em seu egoísmo, em seu desejo de ir para a cidade grande, ter uma casa com geladeira e bastante gelo; na sua ingênua vontade de ir ao cinema com Connie, seu marido, ela seria incapaz de tal gesto, um gesto, no entanto que alcança valor e força épica.

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É ainda uma vez a Mãe que sugere, apenas com um olhar:

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Ssciu! - fez Mãe. Lançou olhares a Pai e tio John, que estavam contemplando o doente. Olhou Rosa de Sharon, envolta no cobertor. Seus olhares fugiram dos de Rosa de Sharon e tornaram a encontrá-los. E as duas mulheres liam tudo nas respectivas almas. A moça ofegava, respirava com um ritmo curto e apressado. Ela disse: - Sim. Mãe sorriu: - Eu sabia que tu me compreendeu. - Olhou as mãos enlaçadas com firmeza sobre o colo (p. 628).

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Logo adiante, depois de todos terem saído do galpão em que a família está abrigada da enchente, Rosasharn levanta-se e aproxima-se do homem que está morrendo de inanição e que ensaia uma fraca recusa, cumprindo o prometido:

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[...] desfez-se do cobertor, deixando os seios desnudos. - Tem que ser - falou, aproximando-lhe a cabeça a si.- Assim - disse. Apoiou-lhe a cabeça com a direita, e seus dedos lhe sulcaram suavemente os cabelos. Ergueu os olhos e seu olhar percorreu o galpão escuro e seus lábios cerraram-se e ela sorriu misteriosamente. (p. 629).

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Um último e marcante contraste-símbolo: o leite que deveria alimentar e manter uma vida recém-iniciada é o leite que ajudará a manter uma vida que está se apagando. A Rosasharn alheia às tribulações da família, ensimesmada no seu próprio eu, praticamente insensível à situação da família e dos irmãos de desgraça, começa a tornar-se uma nova mulher, a caminho de uma maturidade que provavelmente não tardará. De fato, a simbologia aqui presente, parece enfatizar, mais que atenuar, o relismo às vezes sutil e contido, às vezes decisamente explícito.

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O enredo do romance, segundo Spiller (op. cit.), seria apenas um pretexto para Steinbeck justificar a eterna e inútil busca do homem pela terra prometida, derivando disso a abundância da simbologia: “As vinhas da ira adquire tons épicos, ao reconhecer que a tragicidade da situação dos trabalhadores agrícolas migratórios [...] é somente um evento simbólico na busca eterna do homem de uma Canaã inacessível5. Mas ao leitor atento não pode passar despercebido que a trágica descrição dessa América “deprimida” é algo mais que um pretexto para a construção de um romance que denuncia e questiona, através de um estudo fundamentado, a injustiça social, a exploração do homem, a violência gratuita contra o homem, o abuso do poder, a coerção moral. Certamente há, já a partir do título, uma grande preocupação do autor em salientar o choque entre as forças materiais e espirituais. Mas a própria trama do romance, embora se encarregue de produzir essa extraordinária fusão que dá lugar ao binômio realismo/simbologia: um realismo duro e chocante aliado a uma simbologia poética que brota da fome e da comida; da aridez da terra e da fartura das vinhas; da falta de solidariedade e da humanidade; da morte e da vida, do pecado e da redenção e que sopra ininterruptamente ao longo das páginas, a própria trama consegue dar ao leitor a visualização, o retrato fiel de um período marcante e dramático da história americana.

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A simbologia é marcante, mas parece que o realismo, revestido de sua moldura poética, também o é. Terra de Canaã talvez, mas ainda terra para semear e colher algodão. Os personagens do romance são homens e mulheres da terra e é somente com a terra que eles sabem viver. É uma epopéia americana moderna; e na epopéia há espaço para simbologia, poesia e realismo.

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A respeito dos escritores contemporâneos de Steinbeck e do próprio Steinbeck, Philip Stern parece concordar com essa visão sócio-histórica:

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[...] our writers have grown up. Tempered by adversity, toughened by depression and war, and compelled to reappraise values that once seemed fixed, American authors have poured into their writing the very stuff of American life as it was lived during an era that is already passing away.6

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A própria Real Academia Sueca de Ciências, ao conferir-lhe o prêmio Nobel da Literatura em 1962, confirmou que os temas escolhidos por Steinbeck são extremamente sérios e denunciatórios, como por exemplo as greves nas plantações de fruta e de algodão da Califórnia. Greves que a polícia muitas vezes reprimiu com violência e morte.

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Quando o romance veio a público em 1939, conseguiu chocar um país que ainda convalescia da depressão sofrida. A história da família Joad não constitui, de fato, apenas a poderosa dramatização da migração forçada dos “Okies”, os retirantes do estado de Oklahoma, mas também a condição de todos os deserdados do mundo, donde deriva a sua universalidade e o seu valor social, filosófico, ético e político. Nessa perspectiva, talvez se possam afiançar as palavras de Spiller. Entretanto é difícil deixar de sentir, no romance, o relato de um momento histórico que transcende a mera utopia de Canaã. Obra simbólica, épica, poética, sem duvida, mas a urdidura que a constrói permanece de insofismável cunho sociopolítico. Não são de nenhuma personagem as seguintes palavras endereçadas ao leitor. São do próprio Steinbeck, em suas reflexões-digressões através da trama do romance, quando ele se substitui aos personagens:

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E tenha-se medo de quando as greves cessam, enquanto os grandes proprietários estão vivos, pois que cada greve vencida é uma prova de que um passo está sendo dado. E isto se pode saber - tenha-se medo da hora em que o homem não mais queira sofrer e morrer por um ideal, pois que esta é a qualidade-base da Humanidade, é a que o distingue entre tudo no universo. (p. 202)

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As vinhas da ira é um romance que só Steinbeck, comparado em diversas ocasiões aos naturalistas europeus, poderia ter escrito. Ele próprio nasceu em uma pequena fazenda em Salinas, uma cidade de pioneiros que atravessaram as grandes planícies até o Pacífico, e são eles, esses pioneiros e seus descendentes - que construíram e tornaram rico um dos maiores estados americanos, a Califórnia - os personagens do romance: uma grande, amarga, patética, humilde e épica alegoria que comoveu a todos porque é, em seu cerne, a história “real” de seres humanos “reais”. Universal o suficiente e forte o bastante para ser definida trágica.

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O tema do romance, ao enfatizar que há ainda muito por fazer:“the quest is never over7, nas palavras do próprio autor, procura reforçar e ampliar a consciência de luta social e a necessidade de continuar essa luta: “we ain’t gonna die out. People is goin’ right on - changin’ a little maybe, but goin’ on.8

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Esse credo pessoal de Steinbeck será pronunciado, com as mesmas palavras, por Mãe Joad, a personagem-espiral, a “alma” do romance. De resto, não faltam comprovações de outros traços autobiográficos. O personagem Tom Joad resulta ser “a prova artística” do credo particular de Steinbeck: “[...] man reaches, stumbles forward, painfully, mistakenly sometimes. Having stepped forward, he may slip back, but only half a step, and never the full step back...9 Com essas palavras sugeridas a sua personagem, o autor parece reafirmar, uma vez mais, a mudança ocorrida. Apesar das graves dificuldades, não se pode voltar atrás, é preciso continuar e ganhar novas batalhas. Pode-se voltar meio passo, nunca um passo inteiro. À nossa frente a luta continua...

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Notas:

[1] Doutora em Literatura Comparada pela UFRGS. Professora do Dep. de Letras da UNISC - Universidade de Santa Cruz do Sul/RS - Brasil

[2] BEIGBEDER, Olivier. La simbología. Barcelona: Oikos-tau, 1971.

[3] STEINBECK, John. As vinhas da ira . Trad. Ernesto Vinhaes e Herbert Caro. Rio de Janeiro: Bruguera, 1972. Todas as citações foram extraídas dessa edição, constando, entre parênteses, as páginas em que poderão ser confrontadas. Para esse primeiro caso, confira-se a pág.111.

[4] PEARSON, N.H. Poesia e linguagem. In: SPILLER, Robert (Org.). A renascença literária norte-americana. Brasil: Letras e Artes, 1963.

[5] SPILLER, Robert. O ciclo da literatura norte-americana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1967. p. 237.

[6] STERN, P. Van Doren (Org.). The pocket book of modern American short stories. 2nd ed. New York: The Pocket Library, 1955. p. VI. (...) nossos escritores cresceram. Temperados pela adversidade, enrijecidos pela depressão e pela guerra, compelidos a repensar os valores que antigamente pareciam fixos, os autores americanos verteram em seus escritos o verdadeiro estofo da vida americana como foi vivida em uma era que já está indo embora. (Tradução da autora)

[7] A busca não acaba nunca. (Tradução da autora)

[8] Nós não vamos morrer. A gente vai em frente - mudando um pouco talvez - mas indo em frente. (Tradução da autora)

[9] O homem alcança, escorrega para frente, dolorosamente, às vezes. Após um passo à frente, ele pode escorregar para trás, mas somente meio passo, e nunca um passo inteiro. (Tradução da autora)

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Ler a Obra AQUI:

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John Steinbeck - As vinhas da ira (rev) - eSnips, share anything

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ver também

en.wikipedia - The_Grapes_of_Wrath_(film)




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