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sábado, 31 de janeiro de 2026

Vasco Rosa - "Uma Ode à Tipografia"


A tipomania está viva e recomenda-se     

ª Vasco Rosa, Texto

"Uma Ode à Tipografia" é o título de um livro que, assim mesmo, desde a capa, explica ao que vem: uma coleção de trabalhos que servem também de homenagem a uma arte feita de estética e técnica.

 

31 jan. 2026


"Uma Ode à Tipografia. A partir do poema de Pablo Neruda" surge como demonstração da atividade desenvolvida numa antiga tipografia de Coimbra e da disponibilidade do seu proprietário para acolher curiosos por velhos métodos de compor e imprimir

"Uma Ode à Tipografia. A partir do poema de Pablo Neruda" surge como demonstração da atividade desenvolvida numa antiga tipografia de Coimbra e da disponibilidade do seu proprietário para acolher curiosos por velhos métodos de compor e imprimir

A velhinha tipografia de tipos móveis — arrumada nos pesados gavetões do antigamente, letras de madeira e chumbo, máquinas cromadas dum mundo de quase fantasia e dedos sujos de tinta negra — tem sido reavivada por coletivos de artistas, dando vivaz nota contemporânea ao que parecia condenado ao esquecimento e ao museu. Em décadas, a exponencial capacidade digital concentrou nos ecrãs — com espantosas, já indispensáveis facilidades de acerto e retificação final, e para mais à distância, com o conforto inerente — o que por séculos se fez por aproximações e experimentações em oficinas portuguesas com escasso e pobre reportório de tipos, quase  sempre já deformados pelo uso, não permitindo a editoras ou museus produzir obras limpas que hoje dê gosto folhear de novo. O parque tipográfico em Portugal, constituído por pequenas empresas “para todo o serviço”, modesto como o estatuto industrial do país — raríssimas dispunham do excelente sistema Monotype —, nada teve que o distinguisse ao longo do século passado e assim foi desaparecendo, natural e irremediavelmente, sem estrondo que se ouvisse, com os seus proprietários.

Pouco ou quase nada já resta para desempenhos laboratoriais e experimentais associados a cursos politécnicos das artes visuais, pelo que as “interpretações gráficas” levadas a cabo durante cinco anos por “oficinas” do Clube dos Tipos na casa Damasceno, de Coimbra (2014-19) — que este livro agrega e divulga — são tão inesperadas quanto representativas da crescente curiosidade estética e técnica pela composição e impressão tal como faziam avós e bisavós. Porém, é quase só nostalgia, uma pérola de nostalgia diante de um mundo tecnológico que mudou as artes gráficas para infinitamente melhor. O apreço por este trabalho manual tem — do meu ponto de vista — propósito e alcance idênticos ao que mobiliza quem hoje descobre a arte e o prazer da marcenaria, da cestaria, da olaria ou da jardinagem, entre outros ofícios antigos, porém este revivalismo tipográfico (oficinal e feito, repito, sobre bases degradadas e pobres, e por isso de efeito assaz limitado, como esta voluntariosa Ode testemunha) distraiu-se do enorme benefício que, em contraponto, seria qualificar visualmente — e bem necessitados estão! — a generalidade dos letreiros e papéis do comércio de rua e bairro, e das pequenas empresas de todo o tipo, repercutindo e reinventando de algum modo a beleza tipográfica das urbes dos primórdios de 1900.


Título: “Uma Ode à Tipografia. A partir do poema de Pablo Neruda”
Textos: Joana Monteiro, Isabel Campante e Frederico Füllgraf 

Editora: Editora dos Tipos 
Páginas: 176 

Para que assim fosse, ou pudesse ser, falta-nos quase tudo, a começar por uma literatura da especialidade, largamente divulgada e lida, como a revista norte-americana Eye (que julgo só acessível à leitura pública na Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian). Não consta que o magnífico Imprimere. Arte e processo nos 250 anos da Imprensa Nacional, de Rúben Dias e Sofia Meira (2018), seja muito conhecido, enquanto Três Movimentos da Letra: o desenho da escrita em Portugal, de Jorge dos Reis, uma obra de referência editada pela Biblioteca Nacional em 2012, e Hands—on Type. Learning from Letterpress Heritage (organizado pela dupla Dias e Meira, Esad—ideia, Matosinhos, 2022, 220 pp.) estão esgotados e não se vê que voltem a imprimir-se. O mesmo para edições da Oficina do Cego (Associação de Artes Gráficas), em Lisboa, como Pequeno Manual do Compositor, de João Sebastian, cujos 50 exemplares tirados foram certamente poucos. João Bicker, que na Almedina dinamizou alguma bibliografia sobre tipos e tipógrafos, no que foi um verdadeiro pioneiro, não prosseguiu essa campanha solitária mas fundamental de criar uma cultura do ofício.

Uma Ode à Tipografia. A partir do poema de Pablo Neruda surge claramente neste contexto, como demonstração da atividade desenvolvida numa antiga tipografia de Coimbra e da disponibilidade do seu proprietário para acolher curiosos por velhos métodos de compor e imprimir: “artistas, ilustradores, designers, arquitetos, estudantes, professores, papeleiros, tipógrafos, editores” (p. 153), uma “comunidade” erguida naquele “ponto de encontro entre tradição e experimentação”, e como tal elogiada (“tão valiosa e rara nos tempos modernos”). Um longo, belo poema do chileno Pablo Neruda, de elogio da tipografia — à letra: a escrita em tipo —, impresso em 1956 com intervenção estética do autor, serviu de gatilho ou mote para os exercícios oficinais, e a escolha é justificada, como se comprova quer no original e tradução do poema, quer no texto do tradutor Frederico Füllgraf, germano-brasileiro de Curitiba, que nos esclarece sobre “o convívio de Neruda com o tipógrafo, ilustrador, artista gráfico e designer de origem judaico romena Maurício Amster Cats [1907-80], tido como o melhor designer de livros do Chile entre as décadas de 1940 e 1970” (p. 161), e — máxima excentricidade — com João Nascimento e seu sobrinho Carlos-George Nascimento, açorianos da ilha do Corvo transplantados para Santiago em 1866 e 1905, respetivamente, uma relação celebrada em 2017 na British Library, pelo centenário da histórica Editorial Nascimento.

Neruda refere-se a “metálicos martelos do idioma”, à tipografia como “o florido jogo da razão, o movimento do cerzir da inteligência”, ao “linotipista sua lâmpada como um piloto sobre as ondas da linguagem”, ao “húmus secreto dos séculos”, e a sua Ode está recheada de outras evocações, como “pureza de teus puros perfis”, “iniciais frescas do orvalho” ou “a letra escarlate do estio”. Para a política e a sensualidade do nobel autor, as gavetas da Damasceno e a criatividade dos coletivos do Clube dos Tipos deram certamente tudo o que tinham, porém fica-se com a impressão de que mais longe se teria ido caso os recursos oficinais fossem mais variados e de melhor qualidade. Proclamar que o importante é o processo e não o resultado convencerá decerto alguns, porém não todos.

A primeira apresentação pública de “Uma Ode à Tipografia” terá lugar no sábado, dia 31 de janeiro, às 17h, no Círculo de Artes Plásticas de Coimbra – Círculo Sereia, na Casa Municipal da Cultura de Coimbra. Entrada livre.

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

António Barreto - As notícias na televisão

* António Barreto 

“É simplesmente desmoralizante. Ver e ouvir os serviços de notícias das três ou quatro estações de televisão é pena capital. A banalidade reina. O lugar-comum impera. A linguagem é automática. A preguiça é virtude. O tosco é arte. A brutalidade passa por emoção. A vulgaridade é sinal de verdade. A boçalidade é prova do que é genuíno. A submissão ao poder e aos partidos é democracia. A falta de cultura e de inteligência é isenção profissional.

Os serviços de notícias de uma hora ou hora e meia, às vezes duas, quase únicos no mundo, são assim porque não se pode gastar dinheiro, não se quer ou não sabe trabalhar na redacção, porque não há quem estude nem quem pense. Os alinhamentos são idênticos de canal para canal.

Quem marca a agenda dos noticiários são os partidos, os ministros e os treinadores de futebol. Quem estabelece os horários são as conferências de imprensa, as inaugurações, as visitas de ministros e os jogadores de futebol.

Os directos excitantes, sem matéria de excitação, são a jóia de qualquer serviço. Por tudo e nada, sai um directo. Figurão no aeroporto, comboio atrasado, treinador de futebol maldisposto, incêndio numa floresta, assassinato de criança e acidente com camião: sai um directo, com jornalista aprendiz a falar como se estivesse no meio da guerra civil, a fim de dar emoção e fazer humano.

Jornalistas em directo gaguejam palavreado sobre qualquer assunto: importante e humano é o directo, não editado, não pensado, não trabalhado, inculto, mal dito, mal soletrado, mal organizado, inútil, vago e vazio, mas sempre dito de um só fôlego para dar emoção! Repetem-se quilómetros de filme e horas de conversa tosca sobre incêndios de florestas e futebol. É o reino da preguiça e da estupidez.

É absoluto o desprezo por tudo quanto é estrangeiro, a não ser que haja muitos mortos e algum terrorismo pelo caminho. As questões políticas internacionais quase não existem ou são despejadas no fim. Outras, incluindo científicas e artísticas, são esquecidas. Quase não há comentadores isentos, ou especialistas competentes, mas há partidários fixos e políticos no activo, autarcas, deputados, o que for, incluindo políticos na reserva, políticos na espera e candidatos a qualquer coisa! Cultura? Será o ministro da dita. Ciência? Vai ser o secretário de Estado respectivo. Arte? Um director-geral chega.

Repetem-se as cenas pungentes, com lágrima de mãe, choro de criança, esgares de pai e tremores de voz de toda a gente. Não há respeito pela privacidade. Não há decoro nem pudor. Tudo em nome da informação em directo. Tudo supostamente por uma informação humanizada, quando o que se faz é puramente selvagem e predador. Assassinatos de familiares, raptos de crianças e mulheres, infanticídios, uxoricídios e outros homicídios ocupam horas de serviços.

A falta de critério profissional, inteligente e culto é proverbial. Qualquer tema importante, assunto de relevo ou notícia interessante pode ser interrompido por um treinador que fala, um jogador que chega, um futebolista que rosna ou um adepto que divaga.

Procuram-se presidentes e ministros nos corredores dos palácios, à entrada de tascas, à saída de reuniões e à porta de inaugurações. Dá-se a palavra passivamente a tudo quanto parece ter poder, ministro de preferência, responsável partidário a seguir. Os partidos fazem as notícias, quase as lêem e comentam-nas. Um pequeno partido de menos de 10% comanda canais e serviços de notícias.

A concepção do pluralismo é de uma total indigência: se uma notícia for comentada por cinco ou seis representantes dos partidos, há pluralismo! O mesmo pode repetir-se três ou quatro vezes no mesmo serviço de notícias! É o pluralismo dos *papagaios no seu melhor!

Uma consolação: nisto, governos e partidos parecem-se uns com os outros. Como os canais de televisão.

Publicado a: 
Atualizado a: 

https://www.dn.pt/arquivo/diario-de-noticias/as-noticias-na-televisao-5407534.html

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Operação Condor: A América do Sul sob botas



por Augusto Buonicore*

“Nos Estados Unidos, como sabe, simpatizamos com o que você esta tentando fazer no seu país (...) Desejemos sucesso ao seu governo” .
(Kissinger ao general Pinochet)

“Nós o seguimos. Você é o líder!”
(Pinochet à Kissinger)



Fotos:
Kissinger e Pinochet;
Pinochet no dia do golpe
e Cenas do golpe no Chile

***

Quando a justiça italiana começou a pedir extradição dos acusados de terem conspirado para assassinar opositores políticos das ditaduras militares latino-americanas, abriu-se novamente a Caixa de Pandora. A famigerada Operação Condor voltou às manchetes dos principais jornais. São 149 pedidos de extradição e envolvem militares argentinos, uruguaios, brasileiros, paraguaios e bolivianos. Do Brasil são onze os envolvidos no processo. Mas, o problema vai além de extraditar ou não essas pessoas. Trata-se de algo mais sério. Trata-se de se estabelecer a justiça e a verdade histórica. Nenhuma lei de anistia pode suplantar tais princípios.

O Brasil nas origens do Condor

O Brasil, desde o golpe militar de 1964, passou a ser uma espécie de gendarme dos interesses norte-americanos na América Latina. A ditadura brasileira procurava ser uma barreira à implantação de regimes democráticos, populares e antiimperialistas em nossa região. Em 1970, o general-presidente Garrastazu Médici ajudou na desestabilização do governo progressista de Juan José Torres e na implantação da ditadura sanguinária de Hugo Banzer na vizinha Bolívia.


Sobre esse triste acontecimento escreveu Moniz Bandeira: “A Casa Militar do presidente Garrastazu Médici, chefiada pelo general João Batista Figueiredo, ofereceu aos adversários do governo do general Juan José Torres, através do ex-coronel Juan Ayoroa, dinheiro, armas, aviões e até mercenários, bem como permissão para instalar áreas de treinamento perto de Campo Grande e em outros locais próximos da fronteira. E o golpe de estado, deflagrado, finalmente, pelo general Hugo Banzer, contou com aberto apoio logístico do Brasil, cujos aviões militares, sem ocultar as insígnias nacionais, descarregaram fuzis, metralhadoras e munições em Santa Cruz de la Sierra, enquanto tropas do 2º Exército, comandado pelo general Humberto Melo, estacionavam em Mato Grosso, prontas para intervir na Bolívia (onde alguns destacamentos penetraram), se necessário fosse”.


Um ano depois o Brasil preparava, secretamente, – com apoio estadunidense – uma ocupação militar do Uruguai, prevendo uma vitória da Frente Ampla (de centro-esquerda), encabeçada pelo general Líber Seregni. O plano foi denominado Operação Trinta Horas. Este era o tempo previsto para ocupação do território uruguaio. O ato extremado não foi necessário, pois a esquerda acabou sendo derrotada por uma coalizão de direita. Após a vitória do arqui-conservador Juan Maria Bordaberry, o delegado-torturador brasileiro Sérgio Paranhos Fleury se deslocou para Montevidéu para ajudar montar o esquema repressivo – leia-se esquadrões da morte – contra a guerrilha organizada pelos Tupamaros. O Uruguai começava a preparar o terreno para a implantação de uma ditadura.


O Brasil também se envolveu diretamente nos planos do imperialismo e dos conservadores chilenos para derrubar o governo socialista de Salvador Allende. “Sem dúvida alguma, afirmou Moniz Bandeira, a cumplicidade do Brasil foi, na verdade, muito maior do que transpareceu. Além de recursos financeiros, fornecidos por empresários de São Paulo, vários carregamentos de armas e munições, entre 1972 e 1973, saíram do porto de Santos, com destino a Valparaiso, em caixas de maquinaria agrícola e de outros produtos, importados pela firma do Senador Pedro Ibáñez Ojeda, a fim de abastecer a organização direitista Patria y Libertad”.


Continuou ele, “o Brasil reconheceu imediatamente a Junta Militar, chefiada pelo general Augusto Pinochet. Vários aviões da Força Aérea Brasileira voaram para Santiago, transportando não só mantimentos e remédios como também assessores da Polícia Federal e oficiais das Forças Armadas, que participaram de interrogatórios e treinaram seus colegas chilenos na arte da tortura”. Arte que, por sua vez, foi nos ensinada por técnicos da CIA e de potências ocidentais que já a havia empregado amplamente na Argélia e no Vietnã.


O Chile sob o governo socialista de Allende havia sido um porto seguro para aqueles que fugiam das ditaduras em nosso hemisfério. Centenas de brasileiros, de diversas organizações políticas oposicionistas, ali viviam e trabalhavam. O golpe de Pinochet significaria uma reversão dessa situação. A maior parte conseguiu fugir para Argentina – a única democracia restante na América do Sul. Uma ditadura militar havia sido implantada no Uruguai poucos meses antes do golpe no Chile.


Com os golpes no Uruguai e Chile as coisas mudaram de qualidade e a ditadura militar brasileira passou a contar com importantes aliados no Cone Sul. Os órgãos de repressão agora podiam estender suas garras sobre os exilados políticos que viviam naqueles países.


A partir de 1974, com a morte do presidente Perón e a posse de Isabelita, a situação também se desestabilizou na Argentina. O país foi atingido por uma crescente radicalização política. De um lado, havia os grupos guerrilheiros que aumentavam o nível de suas ações; de outro, os grupos para-militares de direita, como a Aliança Anticomunista Argentina, enraizados nos órgãos de repressão, que promoviam assassinatos sistemáticos de lideranças de esquerda.


Pressionado pelos conservadores, o governo de Isabel Perón decretou Estado de Sítio e concedeu amplos poderes para as forças armadas agir contra os grupos clandestinos de esquerda. O general Videla, comandante militar, afirmou “Se for preciso, na Argentina, vão morrer tantas pessoas quanto forem necessárias para que se alcance a paz no país”. Começava, assim, sob um regime formalmente democrático, um dos maiores massacres já visto nesta parte do planeta.
Em março de 1976, o próprio governo constitucional viria abaixo. A partir de então não haveria mais nenhum país democrático ao sul do continente americano. Neste momento o Condor, que era o símbolo da liberdade nos Andes, se transformou numa ave sombria a atormentar a vida dos exilados políticos em todas as partes do mundo.

Preparando o vôo do Condor

Mesmo antes de ser criada oficialmente a Operação Condor, já existia um intercâmbio ativo de informações e de ação entre os órgãos de repressão dos países da América do Sul. No período que vai de 1973 e 1975, por exemplo, haviam sido mortos três brasileiros exilados em território argentino e seis em território chileno.


O major Joaquim Cerveira, da Frente de Libertação Nacional, e João Batista Rita, do grupo Marx, Mao, Marighella (M3G), foram seqüestrados e torturados na Argentina numa operação conjunta de policiais brasileiros e argentinos. Depois foram transladados para o Brasil onde desapareceram. Em julho de 1974 um grupo de seis militantes – cinco brasileiros e um argentino – ligados à Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) foram assassinados – e seus corpos desapareceram – no Paraná. Eles haviam ingressado no país através de Foz do Iguaçu. Sua ação estava sendo acompanhada pelos órgãos de repressão do Chile e da Argentina. Edmur Péricles Carvalho, também do M3G, foi preso em junho de 1975 no aeroporto de Buenos Aires por um grupo de policiais brasileiros e argentinos. Foi levado ao Brasil e assassinado.


A Argentina foi palco privilegiado da ação conjunta dos órgãos de segurança. Sendo a última democracia – ainda que frágil - dessa parte do continente, ela se tornou o abrigo de milhares de refugiados do Brasil, Chile, Uruguai, Paraguai e Bolívia. Existiam ali 15 mil exilados políticos. Ela se tornou uma “reserva de caça” para os órgãos de repressão da região.


Em março de 1974 o coronel chileno Manuel Contreras foi aos Estados Unidos pedir auxílio para montar seu aparato de “segurança interna”, a DINA. Uma equipe de oito agentes da CIA foi enviada para organizar cursos e seminários num tema que eram especialistas: repressão política. Não foi por coincidência que, justamente, no período que esses agentes estavam no Chile, entre junho e agosto, tenha ocorrido a primeira grande ofensiva da repressão contra a oposição clandestina, dobrando o número de desaparecidos políticos.


A primeira grande ação dos órgãos de repressão chilenos fora do país ocorreu em setembro de 1974. Neste mês o general Carlos Prats, que servira ao governo de Salvador Allende, foi morto num atentado à bomba na cidade de Buenos Aires. O explosivo foi colocado pelo agente da DINA, Michael Townley. Ele havia nascido nos Estados Unidos e tivera contato com a CIA. A conspiração para matar Prats foi realizada junto com grupos para-militares argentinos – como a Aliança Anticomunista.


Segundo John Dinges, a primeira experiência de ação conjunta entre vários órgãos de repressão do Cone Sul ocorreu em maio de 1975. Neste período foram presos, no Paraguai, o argentino Amílcar Santucho, líder montonero, e o chileno Jorge Fontes, dirigente do MIR. Ambos eram membros da Junta de Coordenação Revolucionária (JCR) – articulação de diversos movimentos revolucionários da região. Do interrogatório participaram policiais do Chile, Argentina e Paraguai, além de um agente do FBI. Os dois foram torturados e depois enviados para seus países onde foram assassinados.


Em agosto de 1975, o coronel Contreras voltou aos Estados Unidos, encontrou-se com Kissinger e recebeu, na sede da CIA, uma “recepção efusiva”. O chefe da Dina saiu animado da reunião e passou, imediatamente, a articular um encontro de representantes dos órgãos de segurança do Cone Sul. Três meses depois do encontro na sede da CIA, uma reunião “absolutamente secreta” daria origem à famigerada Operação Condor. Hoje é claro que a idéia de criar uma coordenação dos órgãos de repressão do Cone Sul nasceu nos Estados Unidos. Vários documentos comprovam isso.


A CIA tomou conhecimento da Operação Condor antes mesmo que ela fosse criada e tendeu a incentivá-la por considerá-la um esforço positivo no combate ao “terrorismo”. Desde o golpe militar no Chile ela vinha conclamando a coordenação do trabalho dos órgãos de repressão.

A Operação Condor entra em cena

Da primeira reunião oficial, ocorrida na cidade de Santiago em novembro de 1975, participaram representantes do Chile, Brasil, Argentina, Uruguai, Bolívia e Paraguai. O encontro foi aberto pelo próprio ditador Pinochet, que assumiu a paternidade do projeto, e presidido por Contreras. Os sócios da Operação ficaram surpresos quando souberam que o “grande irmão do norte” havia fornecido modernos sistemas computadores e assessoria técnica à DINA para que ela montasse um banco de dados que ajudasse na repressão aos grupos de esquerda.


O então chefe do SNI brasileiro, João Batista Figueiredo, recebeu um convite pessoal do Contreras, mas o nome do representante brasileiro na reunião até hoje continua sob segredo de Estado. No entanto, o país não assinaria o documento final aprovado na primeira reunião, embora participasse do grupo. Ele se juntaria oficialmente ao Condor na segunda reunião ocorrida em junho de 1976.


Numa carta de Contrera à Figueiredo, datada de agosto de 1975, podia se ler: “Também temos conhecimento das posições de Kubitschek e Letelier, o que no futuro poderá influenciar seriamente a estabilidade do Cone Sul de nosso hemisfério. O plano proposto por você para coordenar a ação contra certas autoridades eclesiástica e políticos da América Latina conta com o nosso decisivo apoio”. Em agosto do ano seguinte JK morreria num estranho acidente de carro e logo em seguida, em setembro, Letelier seria brutalmente assassinato. Antes que ano acabasse morreria outro ex-presidente do Brasil, João Goulart. Hoje são cada vez maiores os indícios que Jango tenha sido morto por agentes uruguaios a mando do governo brasileiro.


A Operação Condor foi planejada para ter três fases. A primeira seria basicamente a obtenção e troca de informações sobre a atuação de grupos oposicionistas no interior dos países envolvidos: Chile, Argentina, Uruguai, Brasil, Paraguai e Bolívia. A segunda fase era a operacional, ou seja, envolvia ação conjunta no seqüestro, tortura e execuções de militantes dentro da América do Sul. As fronteiras nacionais – e o direito ao exílio – agora caiam por terra quando se dizia respeito à repressão político-militar. A terceira fase – e a que mais chamou a atenção do mundo – envolvia assassinato de oposicionista fora da América Latina. Grupos de espiões e assassinos profissionais foram enviados para a Europa e Estados Unidos.


O governo do Brasil deu o seu aval e participou ativamente da 2ª e 3ª fase da Operação, mas resistiu quanto à última. Ele temia os efeitos negativos na opinião pública mundial. Naquele momento o general-presidente Geisel procurava “vender” a sua política de abertura lenta, gradual e segura. No entanto surgiram provas que existiu uma tentativa de articulação entre a DINA e o SNI para espionar opositores refugiados na Península Ibérica. Inclusive, cogitou-se assassinar o Almirante Aragão em Portugal.


Apesar da retórica da caça aos terroristas – entenda-se esquerda armada -, a ação dos órgãos de repressão se voltava cada vez mais para os políticos oposicionistas que não haviam ingressado na luta revolucionária e defendiam uma transição democrática e pacífica para seus países. Em cinco de outubro de 1975, Bernardo Leighton, ex-vice-presidente do Chile e líder democrata-cristão, sofreu um atentado enquanto se encontrava exilado na Itália. Dessa vez a DINA contou com apoio de um grupo fascista local chamado Vanguarda Nacional.


Em maio de 1976 seriam seqüestrados e friamente assassinados na cidade de Buenos Aires o ex-senador uruguaio Zelman Michelini e o ex-deputado Héctor Guttiérez Ruiz. Mais tarde, em 1º de junho, na mesma cidade, seria morto o ex-presidente da Bolívia, general Juan José Torres. Esses assassinatos faziam parte da segunda fase da Operação Condor.


O caso mais famoso – ocorrido na terceira fase – foi o assassinato do ex-ministro chileno Orlando Letelier em 21 de setembro de 1976. Seu carro explodiu nas ruas da capital dos Estados Unidos, Washington. Neste atentado morreu também uma jovem norte-americana, Michael Moffitt. O método foi o mesmo utilizado contra o general Prats. Novamente por trás do assassinato estava a figura sinistra de Townley.


A morte de Letelier foi um escândalo internacional que colocou o próprio governo dos Estados Unidos na parede. Afinal, tratava-se de um atentado terrorista organizado por um de seus principais aliados. O escândalo foi ainda maior quando se descobriu que a CIA e o Departamento de Estado poderiam ter evitado o ataque terrorista, pois sabiam que um grupo de agentes chilenos, com passaportes falsos, tinha planos de entrar no país. Portanto, a CIA foi omissa ou cúmplice do mais notório dos crimes da Operação Condor.


Num primeiro momento tentou-se jogar uma nuvem de fumaça sobre as possíveis origens do crime. Afirmou um jornal: “Os funcionários da Inteligência disseram que uma investigação paralela estava apurando a possibilidade de o sr. Letelier ter sido assassinado por extremistas esquerdistas chilenos como meio de romper as relações dos Estados Unidos com a Junta militar”. A mesma versão dada pela ditadura chilena. Era um verdadeiro escárnio à consciência do mundo. A imagem do governo Republicano se viu bastante abalada.


Mais tarde – já na prisão – Contreras afirmou que a ordem de execução veio diretamente de Pinochet e que a CIA teria ajudado a executá-la. Nada de estranho. A CIA esteve envolvida em tentativas de homicídios políticos em várias partes do mundo, como o do líder congolês Lumumba e do comandante-em-chefe das Forças Armadas do Chile, general René Schneider. O crime deste militar honrado teria sido “apoiar com firmeza a constituição chilena”.


No auge da repressão, o ministro das relações exteriores da Argentina, o almirante Guzzetti, visitou Kissinger e voltou animado com a acolhida recebida. Segundo ele, o secretário americano havia afirmado que “se o problema do terrorismo estivesse eliminado em dezembro ou janeiro (de 1977), ele acreditava que sérios problemas poderiam ser evitados nos Estados Unidos”. Isso enfureceu o embaixador norte-americano na Argentina que sugerira que o governo do seu país criticasse mais duramente a sistemática violação dos direitos humanos.


Os generais argentinos sempre afirmaram que a sugestão de uma guerra rápida contra o terrorismo havia sido feita pelo próprio Kissinger. Eles, como Pinochet e Contreras, apenas cumpriram ordem de seu líder. Em 1978, já fora do poder, Kissinger visitou o ditador Videla e elogiou “o trabalho extraordinário ao eliminar as forças terroristas”, mas advertiu que os métodos usados “não deviam ser perpetuados”. Esse era um endosso aos crimes nefandos cometidos pela ditadura Argentina até então.


Planos assassinos do Condor na Europa também foram descobertos e foi preciso desmontá-los rapidamente. A lista de possíveis assassinados era longa. Quando se descobriu que havia intenção de assassinar até mesmo um deputado democrata nos Estados Unidos as coisas se complicaram para o lado de Pinochet. Em dezembro de 1976 estavam suspensas as atividades do Condor fora do Cone Sul.


Jimmy Carter, candidato Democrata e que tinha como uma das bandeiras os direitos humanos, ganhou a eleição para a presidência dos Estados Unidos no final de 1976. As investigações do caso Letelier levaram à Pinochet e Contreras. Em agosto de 1977 a DINA foi fechada e Contreras saiu do Exército. Levaria ainda alguns anos para que ele fosse preso, julgado e condenado. Recentemente descobriu-se que ele estava na lista de pagamento da CIA.


O Condor, no entanto, continuou fazendo suas vítimas neste hemisfério, inclusive no Brasil da abertura. Em novembro de 1978 os uruguaios Lílian Celiberti e Universindo Diaz foram seqüestrados por policiais uruguaios e brasileiros na cidade de Porto Alegre. Depois de presos foram torturados e enviados de volta para o seu país. A pressão da imprensa nacional e internacional – que descobriu o seqüestro – impediu que os dois passassem a compor a lista de uruguaios desaparecidos, embora tivessem que passar cinco anos numa prisão.


O argentino Lorenzo Ismael Viña, desapareceu em junho de 1980 na cidade de Uruguaiana (RS). Horácio Campiglia, também argentino, foi preso no aeroporto do Galeão (RJ) em março de 1980. Os dois não tiveram a sorte de ter o seu seqüestro descoberto a tempo. Eles foram extraditados secretamente e desapareceram.


Baseado nestes dois casos – nos quais os assassinados tinham dupla nacionalidade: argentina e italiana – é que a justiça da Itália pediu a extradição de policiais e militares brasileiros. O pedido esbarrou com a nossa constituição que impede a extradição de brasileiros para julgamento em outros países. Esta garantia seria justa – e defensável - se as nossas autoridades – a partir de informação contidas no processo que corre na Itália – abrissem um processo contra os acusados. Eles não estão protegidos nem mesmo pela Lei da Anistia que abrange apenas os crimes realizados até o ano de 1979.


A Operação Condor foi responsável pela morte e desaparecimento de 135 uruguaios, 113 chilenos, 51 paraguaios e 11 brasileiros que estavam exilados em algum dos países envolvidos. Esta foi apenas uma pequena parte de um massacre ainda maior. Nestes anos sombrios de ditaduras militares morreram nas mãos da repressão política trinta mil argentinos, três mil chilenos, dois mil paraguaios, trezentos e cinqüenta brasileiros, duzentos uruguaios e cento e sessenta dois bolivianos. Os números do morticínio ainda são incompletos.


Em 1998 Pinochet foi preso por curto tempo em Londres a pedido do juiz espanhol Baltasar Garzón. Este foi um ato simbólico de grande importância. Na Argentina, Uruguai e Paraguai, vários comandantes militares e policiais também foram condenados e passaram algum tempo na cadeia por seus crimes odiosos. O Brasil ainda engatinha neste terreno. Nenhuma autoridade foi punida pelos crimes que cometeu.


É bom lembrarmos, também, que não foram punidos àqueles que mais se envolveram na desestabilização das democracias latino-americanas, apoiaram as ditaduras assassinas, ensinaram-lhe as técnicas modernas de tortura, deram-lhes suporte para impor o terrorismo de Estado, incentivaram e financiaram os órgãos de repressão (como a Operação Condor). Refiro-me às autoridades estadunidenses, aos Kissingers e Rockefellers. Contra esses não foi pedida nenhuma extradição nem se abriu nenhum processo. Esperamos que não apenas os seus fantoches, de casaca ou de farda, respondam perante os tribunais e a história.

Bibliografia:

Bandeira, Luiz Alberto Moniz – “Brasil e os golpes na Bolívia, Uruguai e Chile”; In: Espaço Acadêmico, nº28, setembro de 2003
Dinges, John – Os anos do Condor, Ed. Companhia das Letras, 2005
Krischke, Jair - Brasil e a Operação Condor,




*Augusto Buonicore, Historiador, mestre em ciência política pela Unicamp


* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.
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in VERMELHO - 12 DE MARÇO DE 2008 - 19h11
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sábado, 11 de maio de 2024

António Guerreiro - O jornalismo em extinção


Protesto de jornalistas do grupo português Global Media NUNO FERREIRA SANTOS

Crónica Acção Paralela 


“Estamos ainda em democracia?”. Esta pergunta tem uma especial incidência quando se pensa no que está a acontecer aos jornais e ao jornalismo.


* António Guerreiro

10 de Maio de 2024
 

A palavra “extinção” começa a aparecer com alguma frequência em artigos sobre a crise – em boa verdade, uma devastação – que atinge actualmente os jornais e o jornalismo.

Encontrámo-la recentemente nos títulos de dois diagnósticos desta situação nos Estados Unidos: um, publicado no final de Janeiro na revista Atlantic, assinado por Paul Farhi, que foi um importante repórter do Washington Post; outro, no mês seguinte, da autoria de Clare Malone, na The New Yorker.

Usando um acento catastrófico que uma prudente interrogação não consegue relativizar, ambos evocam a extinção como um horizonte plausível. O primeiro pergunta: “Is American Journalism Headed Toward an ‘Extinction-Level Event?’”; a segunda insiste quase com os mesmos termos: “Is the Media
 Prepared for an Extinction-Level Event?”. Não é ainda um requiem, mas está próximo.

O que se passa nos Estados Unidos, neste domínio, não é certamente muito diferente do que se passa na Europa, só que talvez num grau mais elevado e com algum avanço no tempo. O horizonte é o mesmo.

O que ficamos então a saber acerca do estado de coisas nos Estados Unidos, informados por estes e outros artigos sobre o mesmo assunto? Ficamos a saber que a hemorragia mais forte é a da imprensa regional: em média, todas as semanas morrem duas publicações e meia (jornais diários, semanários, mensais).

Num país tão extenso como os Estados Unidos, os jornais regionais tiveram sempre um papel importantíssimo e foram um factor fundamental dos equilíbrios democráticos e da vida cultural e comunitária. Quando esse espaço é ocupado pelas redes sociais, ficam à solta as teorias do complot, as fake news, os conteúdos gerados pela inteligência artificial que multiplicam a desinformação, o caos, o convite à passagem aos actos de violência. O ambiente de radicalização e pré-guerra civil que se vive nos Estados Unidos faz parte deste panorama que promove e alimenta a divisão e os extremismos.

Há uma pergunta que começa a ser posta e que leva a pensar os caminhos que estão a tomar as tradicionais democracias liberais: “Estamos ainda em democracia?”. Esta pergunta tem uma especial incidência quando se pensa no que está a acontecer aos jornais e ao jornalismo.

Alguns números fornecidos nos artigos citados: em 2023 foram eliminados nos Estados Unidos 21.400 postos de trabalho nos media tradicionais. Grandes jornais como o Los Angeles Times (que despediu mais de 20% da sua redacção) e o Washington Post não foram poupados. Este último teve no ano passado um défice de cem milhões de dólares. No entanto, tinha sido um dos que mais prosperou durante a presidência de Donald Trump. Como é sabido, o “espectáculo” Trump proporcionou aos jornais um festim permanente que lhes valeu um grande aumento de leitores.

O declínio dos meios de comunicação tradicionais já suscita esta pergunta formulada pela autora do artigo da New Yorker: “Estamos a assistir ao fim da era dos meios de comunicação de massa?”. Este declínio já começou há décadas, mas foi acelerado pela Internet, pela digitalização generalizada, pelas plataformas. As receitas publicitárias que garantiam o negócio dos jornais passaram a fluir na direcção de colossos como a Google. Quando deixa de ser possível sustentar o jornalismo como um negócio, muitas publicações usam um pseudojornalismo como operação de fachada para outros negócios e entram numa zona obscura.

De todas as “grandes regressões” que se deram desde o início deste século, esta é uma das mais velozes e contundentes. O seu efeito político é bem visível, no avanço de factores que levam à degradação do espaço público, ao enorme teor de conflito social e político, ao empobrecimento cultural. As noções de pós-verdade e pós-democracia assentam nestes terrenos onde vacila tudo o que dantes parecia seguro.

E assim estão criadas as condições para promover um mundo em que já nem serve a distinção entre o verdadeiro e o falso, nem faz apelo a uma ideologia dotada de uma coerência sistemática, como acontecia nos regimes totalitários do século XX. A mentira ideológica e a propaganda eram ainda uma peça da engrenagem da política moderna. Aquilo a que hoje se chama pós-verdade tem que ver com a hegemonia das novas fontes de informação e dos meios de produção e circulação de notícias, dados e visões do mundo que apelam à divisão e à violência, subtraindo-se a qualquer controlo editorial.

Perante isto, o jornalismo está a revelar-se tanto mais impotente quanto está obrigado a investir a sua energia na luta pela própria sobrevivência.

Livros de recitações


“Sempre achei que pedir desculpa é uma solução fácil”
Marcelo Rebelo de Sousa, referindo-se a um dos gestos de “reparação”

Da saúde mental do Presidente ou, pelo menos, da sua “irresponsabilidade”, a merecer que seja colocado sob condição de tutela, já muito se falou na última semana. E foram sobretudo os que faziam parte das suas hostes que lançaram as repreensões mais fortes. Mas, ao manifestar a sua reserva em relação ao “pedido de desculpa”, Marcelo bem intuiu que se trata de um gesto problemático. O pedido de desculpa parte de um pressuposto que, se não se cumprir, implica uma declaração de guerra: um país soberano que pede desculpa a outro coloca-o sob chantagem. Se este não aceita, se responde com o argumento do “imprescritível”, tal pedido desencadeia uma situação de hostilidade, também ela irreparável. E, no entanto, nenhum verdadeiro pedido de desculpa pode ter um carácter impositivo e não admitir resposta negativa, sob pena de acrescentar um outro dano àqueles que pretende reparar.


https://www.publico.pt/2024/05/10/culturaipsilon/cronica/jornalismo-extincao-2089557 

sábado, 24 de fevereiro de 2024

Atenção, atenção! A comunicação social confirma que só existem 6 jovens no país

 EDITORIAL|COMUNICAÇÃO SOCIAL

AbrilAbril

         

23 DE FEVEREIRO DE 2024

O debate sobre a falta de representatividade dos jovens acabou. A comunicação social dominante resolveu esse problema e encontrou os únicos seis jovens que, aparentemente, existem. Repetem a cassete, mas com laivos joviais para suavizar.

Longe vão os tempos onde se falava da falta de representatividade juvenil nos espaços de comentário político. Recentemente, esse problema foi sanado e os órgãos de comunicação social conseguiram encontrar os únicos jovens que, aparentemente, existem. Andavam escondidos na camada oprimida da fina flor do comentário no Twitter, mas finalmente foi-lhes consagrado um espaço mediático à altura das suas ambições, para poder dizer tudo aquilo que a sua geração quer dizer.

Bem, talvez não seja uma geraçãoTalvez seja o que a sua classe quer dizer. Dizem apenas o que é repetido em todo o lado pela narrativa dominante, mas fazem-no de uma forma muito descontraída, desapegada e alegadamente irreverente. O ar jovial conjugado com uma boa articulação discursiva, sem deixar de lado a testa franzida para aparentar seriedade, dá aos jovens premiados com este lugar de fala um passaporte para nada de importante acrescentar.

A reboque destes elementos vem a replicação de tudo o que já é dito em todos os espaços de comentário, inclusive praticar o mesmo tipo de revisionismo histórico e desonestidade intelectual. Veja-se o exemplo do mais recente podcast do Expresso, o «Lei da Paridade». Apresentado por Adriana Cardoso, hoje jovem «apartidária», mas que nasceu no seio da Iniciativa Liberal; Maria Castelo Branco, ex-militante da Juventude Popular, agora militante da Iniciativa Liberal e ex-jovem promessa; e Leonor Rosas, militante do Bloco de Esquerda e candidata à Assembleia da República pelo círculo eleitoral de Lisboa.

O podcast que teve o seu começo na TSF, regressou agora ao jornal de Pinto Balsemão. Neste importante retorno, até às eleições legislativas serão entrevistadas mulheres do BE, IL, PS, AD. Segundo Adriana Cardoso foram excluídos «evidentemente desta conta partidos que não são feministas». Uma escolha caricata já que são jovens que são vendidas como bem informadas, mas parece que deliberadamente se esqueceram do importante e determinante papel do PCP na luta emancipatória das mulheres ao longo dos seus mais de 100 anos de história. 

Nas redes sociais, quando confrontada com este facto, Adriana Cardoso usa como argumento o facto de serem «os 4 partidos com mais intenção de voto» e não haver «espaço nem episódios infinitos até às próximas eleições». Um critério nunca antes visto. Uma escolha editorial clara que visa beneficiar determinados partidos e apagar outros. A suposta jovialidade é usada para repetir as manobras de apagamento e o revisionismo histórico. 

Neste ramalhete temos ainda o caso de João Maria Jonet com espaço assíduo na SIC Notícias. Habilidoso com metáforas, supostamente irreverente, vende-se como um militante de base PSD com uma voz própria. É uma espécie de jovem Pacheco Pereira que, no momento certo, não hesita em esgrimir um conjunto chavões analíticos que dão jeito à narrativa dominante. Defende a NATO, define-se «americanista» e promove a União Europeia. Invoca sempre a social-democracia para aparentar a moderação, mas no final do dia, não falta à chamada dos projectos mais reaccionários e nebulosos como os de Luís Newton e Carlos Moedas. 

Surge ainda o «jovem» Gaspar Macedo. As aspas não são inocentes. É que Gaspar Macedo, passista assumido e militante do PSD, parece ter saido de um governo de Cavaco Silva, arrancado por uma máquina do tempo directamente dos anos 80. Viralizou nas redes sociais com vídeos pequenos com música de fundo épica onde "debatia" contra alguém, sendo que estava sempre a falar sozinho. Nesses vídeos, falava do orgulho nacional, dos heróis da pátria desprezados, e em todas as teses de Nostradamus aplicadas à realidade nacional. No momento da responsabilização, sem colocar quais os reais problemas, apaga a responsabilidade do PSD e só sabe falar do PS. A CNN viu nele um pequeno Tucker Carlson e, neste momento, tem espaço de comentário com a Joana Amaral Dias. 

Por fim, há ainda o já renomado Sebastião Bugalho. Jornalista reformado que quase exclusivamente escrevia sobre o partido da extrema-direita em Portugal (com dezenas de artigos sobre o assunto nos dois anos em que exerceu funções), integrou as listas do CDS-PP à Assembleia da República, a convite de Assunção Cristas, e tem actualmente espaço fixo de comentário na SIC Notícias e um podcast no Expresso. Apresenta-se como uma alma velha, algo que corresponde também à visão política que transpõe para o seu comentário. Recentemente comprou a heróica batalha de defender Diogo Pacheco de Amorim e de apagar os crimes do MDLP. Nas análises que fez aos debates, talvez por defender colégios privados, inflaccionou sempre as notas dadas dos candidatos dos partidos de direita. Cada análise do jovem Bugalho parece saída de um antiquário, cumprindo o papel que lhe foi destinado no grupo Impresa. 

Parece que estes são os únicos jovens que existem no país. Quem não tem lugar de comentário é o jovem que não tem professor numa disciplina, que estuda na Escola Pública e está numa turma sobrelotada. Quem não tem lugar no espaço opinativo é o jovem que tem dificuldade a pagar as propinas, alojamento e alimentação. Quem não tem direito à palavra é o jovem que recebe o salário mínimo e tem um vínculo precário. Quem não interessa ouvir é o jovem que tem actividade sindical e se assume de esquerda. Quem é ignorado é o jovem que vê um mundo que pode ser transformado e dá a sua vida por essa transformação. Esses jovens não existem. Só existem seis jovens e nenhum deles é o jovem real. São, enfim, jovens de uma outra classe. 

https://www.abrilabril.pt/nacional/atencao-atencao-comunicacao-social-confirma-que-so-existem-6-jovens-no-pais


terça-feira, 27 de junho de 2023

Gustavo Carona - Naufrágios, milionários e a perversão da empatia,

 OPINIÃO O QUE SIGNIFICA SER HUMANO?

Gustavo Carona 


27 de Junho de 2023

A comparação dos cinco milionários que morreram cedo demais com a tragédia humana da crise dos refugiados é pertinente porque nos confronta com a perversão da nossa empatia.

“Ficou chocado?”, foi esta a primeira pergunta feita por Júlio Magalhães em directo para a CNN, como ponto de partida para reflexão sobre este assunto. Confesso que a pergunta até me surpreendeu porque já tantas vezes pensei, reflecti e escrevi sobre isto, que para mim este fenómeno é óbvio, infelizmente, mas também é óbvio que a sua resolução passa pela tomada de consciência e desconstrução do funcionamento das nossas sinapses cerebrais, neste mundo estranho que é a inteligência das emoções.

Há quem se revolte com o possível facto de que esta estória se tornou no assunto dominante nos media, por serem cinco milionários excêntricos . E como os que  são pobres, tornamo-nos indiferentes. Há uma pitada de verdade nestas premissas, mas eu diria que o cerne da questão não é esse.mÉ a espectacularidade da estória que molda a nossa empatia. É o facto de ser inusitado e também de ter um fim, bom ou mau, à vista. A nossa empatia só entra quando nos relacionamos com os intervenientes, e de alguma forma sentimos que nos podia ter acontecido a nós. E ninguém se projecta ou sabe o que é, por exemplo, ser afegão ou afegã, fugir dos taliban por medo de morrer, arriscar a vida com os criminosos traficantes de humanos na Líbia, e mesmo sabendo que todos os anos morrem na ordem das 2000 pessoas afogadas no Mediterrâneo, tomam a decisão de se meterem nos barcos, com crianças, grávidas e idosos doentes. Como não nos imaginamos nesta estória, não a sentimos. 

Mohammad, um sobrevivente sírio do naufrágio ao largo da Grécia, chora ao encontrar-se com o irmão REUTERS/STELIOS MISINAS

Eu já vivi no Afeganistão numa zona muito complicada da guerra, conheci dezenas de afegãos com quem fiz boas amizades, mas eu também não sei o que é estar na pele deles, porque eu tenho um passaporte e um contrato com uma grande organização médica que me permite “carregar no botão vermelho” e regressar à segurança e ao conforto do meu país, quando eu quiser. Eles não têm essa opção. Mesmo estando lado a lado e de coração aberto, não sei o que é estar na pele deles. O melhor que eu posso fazer é ouvi-los, humanizar as suas estórias, e nunca esquecer a minha melhor interpretação de humanismo e humanitarismo: proporcionalidade. A nossa atenção e a nossa acção têm que ser proporcionais à dimensão dos desafios humanos.

A estória de Ryan, o menino que caiu num poço em Marrocos, e os 12 rapazes  provam o meu ponto. São pessoas humildes e anónimas que fizeram parar o mundo, e conseguiram unir todos os esforços do planeta para que se salvassem as suas vidas. Sim, porque temos empatia, mas, acima de tudo, porque as estórias são espectaculares e concorrem com a Netflix.pTodos temos empatia, e a empatia é um sentimento poderosíssimo, mas como qualquer superpoder, por vezes é usada de uma forma perversa, mesmo sem nós nos darmos conta desse fenómeno.

A comparação dos cinco milionários que infelizmente morreram cedo demais com a tragédia humana da crise dos refugiados, tipificada num caso bem recente em que morreram cerca de 500 refugiados e migrantes, que ganha força a reboque da estória do mini-submarino, é pertinente porque nos confronta com a perversão da nossa empatia, e as assimetrias com que valorizamos as vidas humanas.

E eu ainda acrescento um ponto. Há muita gente a lutar, e muito bem, pela humanização do acolhimento aos refugiados, mas muito pouca gente a tentar alertar e a combater a questão de base: a resolução do motivo que os leva a fugir da sua amada pátria, em luta pela sobrevivência.

Proporcionalidade. As boas causas não se anulam, adicionam-se. Se não lutarmos pela solução in loco; dos conflitos armados, da fome, das alterações climáticas (esta, global, claro está), da falta de educação escolar… no fundo, a luta contra a desigualdade, vamos ter sempre tensões e migrações cruéis. Ajudar os refugiados, repito, é extremamente importante, mas, por si só, é como tentar esvaziar o oceano com uma colher de chá. Se não formos ao foco dos problemas com humanismo, empatia, proporcionalidade e consistência, nunca teremos uma humanidade digna do seu nome. Não há soluções simples para problemas complexos, mas há caminhos que têm que ser percorridos. Sentirmo-nos cidadãos do mundo é um deles.

Muitos gritam: “A culpa é dos media que não nos mostram, e dos políticos que não querem saber!”, e eu digo que não me parece que assim seja. Em democracia, os media e os políticos não são líderes, são seguidores das nossas vontades e das nossas escolhas. Cabe-nos a nós “explicar-lhes” o que queremos saber, e para onde queremos olhar com o nosso pensamento humano e político. Somos nós que escolhemos, e eles seguem-nos.

Reconhecer o poder, mas também a perversão da nossa empatia, é o primeiro passo na luta por um mundo melhor. O mundo enquanto uma bolinha azul onde nós vivemos, e também o nosso mundo interior, que precisa do outro, para ser feliz

Alguns números para reflexão:

5 pessoas morreram no mini-submarino.

500 pessoas morreram recentemente no Mediterrâneo (100 eram crianças) em circunstâncias em que se estima terem morrido 25.000 pessoas desde 2014.

2977 pessoas morreram no ataque às Torres Gémeas. Cerca de 1.000.000 a 2.000.000 morreram nas guerras de retaliação no Afeganistão e Iraque.

5.000.000 de crianças morrem antes dos cinco anos, todos os anos, de causas na sua maioria facilmente tratáveis ou evitáveis.

68.000.000 de crianças não têm a vacinação básica da infância que salva milhões de vidas, são 20% das crianças do mundo.

800.000.000 de pessoas estão em risco de morrer à fome neste momento.

4.000.000.000 de pessoas não têm acesso a cuidados de saúde de uma forma continuada, é metade da população mundial.

Desculpem tantos zeros, em vez da palavra milhões, mas ajuda-me a perceber que ali dentro de cada número está uma pessoa igual a mim.

São tudo números, e são tudo pessoas que têm os mesmos direitos a viver do que nós, se não formos xenófobos ou racistas. Para mim, ser português é uma questão administrativa. Ser, humano, tem que estar acima de qualquer outro rótulo identitário. Eu não sei se isto é ser de esquerda ou direita, porque considero a ciência e os direitos humanos inegociáveis, e coloco-os acima de tudo o resto como verdades universais e transversais a qualquer ponto do planeta.

A continuidade de qualquer tragédia humana faz com que nós nos afastemos, e faz com que deixe de ser notícia porque a nossa empatia aborrece-se com o assunto. Mas as emoções também se trabalham, também se treinam e também se ensinam.

Reconhecer o poder, mas também a perversão da nossa empatia, é o primeiro passo na luta por um mundo melhor. O mundo enquanto uma bolinha azul onde nós vivemos, e também o nosso mundo interior, que precisa do outro, para ser feliz.

As crónicas de Gustavo Carona são patrocinadas pela Fundação Manuel da Mota a favor dos Médicos sem Fronteiras

Médico intensivista

https://www.publico.pt/2023/06/27/opiniao/opiniao/naufragios-milionarios-perversao-empatia-2054730  


segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Desigualdade nos EUA é a maior desde a Grande Depressão

A desigualdade econômica nos Estados Unidos alcançou o nível mais elevado desde aquele que ficou conhecido como o mais maldito dos anos: 1929. Nas principais economias dos países de língua inglesa as desigualdades de renda alcançaram extremos que não eram vistos desde a era de “O Grande Gatsby”.

Por John Plender, para o Financial Times

De forma bem semelhante ao que ocorre nesta década, os anos 1920 foram um período de vigoroso aumento dos lucros corporativos e do endividamento familiar. Nadando em dinheiro fácil, Wall Street foi fisgada por aquilo que o economista J.K. Galbraith, no seu original trabalho subseqüente sobre o período - “The Great Crash” (”O Grande Crash”) -, chamou de “the magic of leverage” (”a mágica da alavancagem”): a capacidade de elevar os lucros pegando dinheiro emprestado.*

As empresas de investimentos forneceram o veículo para este carrossel financeiro, no qual uma destas empresas “bancava” uma outra, que por sua vez fazia o mesmo com uma próxima. Esta multiplicação embaralhada da assunção de riscos traz uma semelhança notável com a fragmentação de riscos nos atuais mercados de crédito baseados em drásticas alavancagens.

Na década de 1930, isso terminou com a bancarrota de bancos e a Grande Depressão. Agora, após décadas de “financialização” nos Estados Unidos e outras economias anglófonas, por meio da qual os serviços financeiros elevaram a sua fatia do produto interno bruto, os bancos estão sendo resgatados - com o uso de dinheiro público - na tentativa de garantir que a mesma coisa não volte a acontecer.

Sob uma perspectiva política, o aspecto notável da era de mercado livre e de desigualdades que teve início na década de 1980 é a exigüidade de reações contra a estagnação dos rendimentos dos cidadãos comuns em uma parcela tão grande da economia do mundo desenvolvido. Mas há sinais de que a mistura de políticas e circunstâncias econômicas que proporcionaram um prolongado laisser-passer aos ricos e ao empresariado está chegando ao fim.

Este é um território potencialmente perigoso. Porque, conforme argumentou Bill Gross, diretor-gerente do Pimco, o maior fundo de títulos do mundo: “Quando os frutos do trabalho da sociedade tornam-se mal distribuídos, quando os ricos ficam mais ricos e as classes média e baixa lutam para manter a cabeça acima da linha d’água, conforme ocorre nitidamente nos dias de hoje, o sistema acaba desabando. Os diversos barcos não ascendem de forma conjunta com a maré; o centro é incapaz de se sustentar”.

A questão é determinar o que acontecerá com a criação de riquezas, as avaliações do mercado de ações e o crescimento econômico se, conforme parece cada vez mais provável, houver uma redução drástica da tolerância popular em relação à desigualdade econômica e àquilo que é chamado genericamente de modelo de capitalismo de livre mercado.

O ponto inicial para qualquer análise desta questão é inevitavelmente os Estados Unidos, onde uma combinação de recessão, crise financeira e eleição presidencial trouxe várias das questões para a frente principal do debate político.

Indicadores da desigualdade

Um dos maiores indicadores da desigualdade é o chamado coeficiente Gini. O número do Departamento do Censo dos Estados Unidos para este índice em 2005 foi, de acordo com Gary Burtless, da Brookings Institution, o maior já registrado, o que significa a existência de extrema desigualdade. Uma análise dos números do Departamento Congressual do Orçamento por Jared Bernsteins do Instituto de Política Econômica aponta para uma direção similar. Entre 1979 e 2005 a renda, antes do pagamento dos impostos, dos domicílios mais pobres aumentou 1,3% ao ano, e a da classe média cresceu 1% ao ano. Já a renda daqueles indivíduos que compõem o grupo dos 1% mais ricos aumentou 200% antes do desconto de impostos e, o mais surpreendente, 228% após os impostos.

O resultado desta distribuição desequilibrada do crescimento da renda foi que, em 2005, a renda média após o pagamento de impostos do grupo que compõem o quinto mais pobre da população era de US$ 15.300, a do quinto intermediário de US$ 50.200, enquanto a dos 1% mais ricos foi superior a US$ 1 milhão.

Vendo a coisa sob um outro ângulo, em 1979 a renda pós-impostos dos 1% mais ricos era oito vezes superior àquela das famílias de renda média, e 23 vezes maior do que a do quinto mais pobre da população. Já em 2005, essas proporções aumentaram respectivamente para 21 e 70 vezes. Esse processo atingiu o seu ponto extremo com as reduções de impostos promovidas pelo atual presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. Emmanuel Saez, da Universidade da Califórnia em Berkeley, calcula que durante a expansão econômica de 2002 a 2006 o topo plutocrata da pirâmide, que corresponde a 1% da população, obteve quase três quartos do crescimento da renda.

Indicadores da riqueza, oriundos da Pesquisa de Finanças dos Consumidores feita pelo Federal Reserve (o Fed, o banco central dos Estados Unidos), são menos atualizados, mas o quadro oferecido é similar. A fatia da riqueza dos Estados Unidos detida pelo 1% dos domicílios que ocupa o topo da pirâmide, subiu continuamente de 20% em 1976 para 38% em 1998. A concentração de renda é mais extrema do que em qualquer outro país da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para o qual existem estatísticas disponíveis.

Desemprego

Embora alguns economistas questionem a integridade dos dados oficiais sobre a desigualdade, é difícil lançar dúvidas sobre esta tendência ampla percebida no decorrer do tempo - e embora as causas do alto nível de desigualdade de renda ainda sejam objetos de debates, há pouca dúvida de que a globalização contribuiu para este fenômeno. Em um ambiente cada vez menos sindicalizado, os trabalhadores norte-americanos foram alijados do mercado de trabalho global à medida que as fábricas transferiram a sua produção para países de baixo custo, como China, Índia e México.

Ao mesmo tempo, e mais importante, uma elite de indivíduos de altas rendas, especialmente em diretorias de finanças e conselhos administrativos em todo o país, experimentaram um aumento explosivo dos seus pagamentos, sendo que esses prêmios são cada vez mais oriundos das ações normais ou com opções de venda. Outras explicações incluem mudanças tecnológicas e o impacto da internacionalização dos mercados nos salários dos executivos mais bem pagos.

Os políticos ampliaram o fenômeno através do sistema federal de impostos. Da Grande Depressão até o início da década de 1980, o sistema tributário dos Estados Unidos favoreceu os trabalhadores de renda baixa ou média, em detrimento daqueles com altos rendimentos. Mas, a partir do governo Reagan, este padrão foi modificado.

Uma parcela desproporcional dos ganhos com renda, tanto sob os governos republicanos quanto sob os democratas, passou a ir para o bolso dos indivíduos de maior renda - uma política que foi apelidada pelo economista Paul Krugman de “Robin Hood às avessas”.

Desregulamentação

No mundo pós-Guerra Fria esta abordagem ficou evidente nas atitudes gerais dos mercados, das empresas e dos ricos. Após as políticas de desregulamentação dos governos de Ronald Reagan e de George H.W. Bush, o próprio democrata Bill Clinton revelou-se um conservador no campo fiscal. Embora no início do seu governo tivesse aumentado os impostos, ele depois reduziu a tributação sobre ganhos de capital de 28% para 20% e instaurou o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta).

No Reino Unido, onde economistas do Instituto de Estudos Fiscais identificaram uma tendência crescente de desigualdade de renda, que chegou a níveis históricos desde que os trabalhistas assumiram o poder em 1997, a questão não gerou tanta controvérsia. Quando era primeiro-ministro, Tony Blair declarou que garantir que o jogador de futebol David Beckham ganhasse menos não era uma das suas maiores ambições.

Peter Mandelson, um dos arquitetos do Novo Trabalhismo britânico, ficou famoso por ter observado que o partido sentia-se “intensamente tranqüilo quanto ao fato de certas pessoas ficarem escandalosamente ricas - contanto que estas pagassem os seus impostos”. Os dois desviaram-se do seu caminho político original para cortejar o empresariado, da mesma forma que Gordon Brown, quando o atual primeiro-ministro era chanceler do Tesouro Público.

Até mesmo em países de língua inglesa nos quais há uma cultura mais igualitária, esta tendência à desigualdade é real. No início do século 21, segundo Anthony Atkinson e Andrew Leigh, a parcela de renda dos 1% mais ricos da população australiana era maior do que em qualquer outro período desde a Guerra da Coréia.**

No Canadá, que permanece mais sindicalizado do que o seu vizinho, a onda de altos salários veio mais tarde, e foi mais concentrada do que nos Estados Unidos. Emmanuel Saez e Michael Veall vêem uma explicação para isto baseada no fenômeno da fuga de cérebros: a ameaça de migração de executivos e profissionais canadenses de alta qualificação para os Estados Unidos pode ter provocado esse surto.***

Políticas econômicas liberais pareceram atraentes para os políticos pragmáticos da esquerda moderada porque elas pareciam resultar em altos índices de crescimento econômico. Quanto aos ricos, eles contribuíram bastante para a arrecadação fiscal. Chris Watling, do Longview Economics, observa: “É evidente que com um número tão pequeno de trabalhadores dando uma contribuição tão importante para a arrecadação tributária, é da mais alta importância para o governo estabelecer políticas que não ameacem tal arrecadação. É desta forma que se entende a atual situação de um governo trabalhista no Reino Unido, que, há mais de dez anos no poder, não promoveu aumentos de impostos para os ricos, mas elevou significativamente a carga tributária sobre a classe média, sobremaneira através de impostos ocultos”.

Tolerância

Mas por que será que este longo período de desigualdade crescente e de rendas estagnadas tem sido tolerado pela maioria dos eleitores? A resposta é que em todos os grandes países de língua inglesa, o padrão de vida desvinculou-se da renda. Em um período de crescimento econômico estável e de baixa inflação, conhecido pelos economistas como “a grande moderação”, indivíduos de renda média e baixa contraem prontamente mais dívidas, enquanto devoram as suas poupanças.

Os preços ascendentes dos ativos, especialmente no mercado imobiliário, criaram uma sensação de aumento de riqueza, independentemente da renda. A renegociação das hipotecas durante o longo período de redução das taxas de juros proporcionou uma fonte de fundos conveniente através da utilização de equities para o financiamento do consumo crescente.

Subitamente todo esse quadro mudou e, com isso, o cálculo político. O colapso do mercado imobiliário norte-americano deixou um rastro de equities negativas. Para muitos, o custo de morar está aumentando mais do que os salários. As casas não podem mais ser utilizadas como cofres de dinheiro e as poupanças precisam ser reconstruídas. A “financialização” está dando marcha à ré, e o setor financeiro não é mais capaz de turbinar o crescimento econômico. Fora dos Estados Unidos este processo está menos avançado, mas a tendência é clara.

Tendo como pano de fundo um cenário econômico mais do que preocupante, a falta de correlação entre o desempenho das empresas e os rendimentos estratosféricos de certos indivíduos começa a irritar a população. Os exemplos de Stan O’Neal, do Merrill Lynch, e Chuck Prince, do Citigroup, que pareceram ter sido recompensados pelo fracasso, exacerbaram essa irritação. Em outras plagas, até mesmo quando tais prêmios são modestos segundo os padrões dos Estados Unidos, como no caso do pagamento de 760 mil libras esterlinas a Adam Applegarth, ex-diretor-executivo da Northern Rock, uma financiadora de hipotecas agora nas mãos do governo britânico, o fenômeno causa igual, ou maior, indignação.

Há também a raiva em relação a um sistema que permite que os banqueiros embolsem enormes bônus quando as finanças estão a pleno vapor, enquanto os contribuintes pagam a conta quando os bancos fracassam. O modelo de capitalismo anglo-americano baseado no mercado parece estar enodoado, e uma dúvida esquisita paira sobre o processo de livre mercado. As empresas mais uma vez enfrentam um problema de legitimidade, conforme aconteceu quando se apropriaram de recursos públicos após o colapso da Enron. O pacto implícito entre os negócios e a política está rompendo-se.

Eleições nos EUA

A eleição presidencial norte-americana revelou até que ponto o clima mudou. Na busca da indicação democrata, Hillary Clinton atacou estridentemente as companhias de petróleo, medicamentos e de seguro-saúde. Ela manifestou sérias reservas em relação ao Nafta, um legado embaraçoso do seu marido, e opõe-se à renovação dos cortes de impostos para os ricos, uma política instituída por George W. Bush. Barack Obama, que critica veementemente a desigualdade, vai um passo além em uma plataforma similar, ao pedir a elevação do limite de renda taxada destinada ao social security (a previdência social dos Estados Unidos). Grande parte da velha batalha retórica entre esquerda e direita está ressurgindo nesta campanha, trazendo consigo uma forte indicação de reversão, no campo dos democratas, para as políticas de velho estilo do tipo taxar e gastar.

Enquanto isso o governo do Reino Unido gerenciou mal a sua tentativa de extrair mais impostos de estrangeiros que não estão domiciliados no país com objetivos fiscais, enviando, desta forma, de forma involuntária, um sinal de que Londres não mais recebe de braços abertos os investidores estrangeiros. O tema subjacente foi a necessidade de elevar os impostos em um nicho fiscal apertado. Parece que as empresas serão os bodes expiatórios dessa modificação das regras tributárias.

Preocupações crescentes com a desigualdade foram ecoadas por um punhado de empresários do setor privado. Em um evento para arrecadação de verbas para a campanha de Hillary Clinton, em dezembro do ano passado, Warren Buffett, o guru dos investimentos e o homem mais rico do mundo, de acordo com a revista “Forbes”, manifestou preocupações quanto à desigualdade de renda e a um sistema tributário cujo caráter redistribuidor é insuficiente. No Reino Unido, Nicholar Ferguson, presidente do SVG Capital, que investe em private equity, provocou furor entre os seus colegas ao afirmar ser injusto que os executivos do ramo arquem com índices tributários inferiores aos das suas faxineiras.

Mudança real

Na verdade, esta reação contra a desigualdade não se restringe aos países de língua inglesa. Pelos padrões dos Estados Unidos ou do Reino Unido, a desigualdade no Japão é insignificante. Mas, não obstante, ela foi elemento central da crítica do Partido Democrático do Japão (PDJ) ao governo do Partido Liberal Democrata (PLD) na eleição de julho do ano passado, quando o PDJ conquistou a maioria das cadeiras no congresso japonês.

Cresce no Japão uma reação política contra o fluxo livre de capital global. No ano passado o governo ampliou, alegando motivos vinculados à segurança nacional, a lista de setores nos quais a participação acionária dos investidores estrangeiro acima de 10% em determinada companhia exige sanções regulatórias.

O medo dos predadores estrangeiros, sejam eles os fundos soberanos, os fundos de hedge ou companhias multinacionais, também ajuda a explicar uma recente declaração de Takao Kitabata, um alto burocrata do Ministro da Economia, Comércio e Indústria. Kitabata afirmou que as companhias japonesas precisam ser capazes de selecionar os seus acionistas porque tais pessoas são “instáveis, irresponsáveis e gananciosas”. Enquanto isso o governo japonês nada fez para impedir uma inciativa das empresas do país de adotar defesas do tipo “pílula de veneno” para impedir as aquisições por empresas estrangeiras.

Na Alemanha, onde a filosofia igualitária também é forte, o relacionamento do governo liderado pelos democratas-cristãos com as empresas também passou por uma reviravolta. Quando na oposição a chanceler Angela Merkel era uma aguerrida defensora do empresariado, chegando até mesmo a ter defendido Klaus Esser, o ex-diretor do grupo de telecomunicações Mannesmann, que foi condenado por auferir um lucro multimilionário com a venda da companhia para a britânica Vodafone. Ela também criticava bastante o velho sistema alemão de negociação salarial coletiva.

Mas ultimamente Merkel vem ameaçando o empresariado alemão com a imposição de salários mínimos em diversos setores caso as empresas descartem as negociações coletivas e empurrem os salários para baixo. Esta é uma resposta populista à pressão eleitoral. Além das suas inseguranças quanto ao salário, os eleitores vêem com preocupação as atividades de empresas estrangeiras de private equities e fundos de hedge. Agora os alemães estão furiosos devido à revelação de que líderes empresariais sonegaram impostos usando contas secretas em Liechtenstein. Tudo isto tem sido acompanhado de um debate matizado de protecionismo a respeito da ampliação dos investimentos estrangeiros.

Nem todos os países encaixam-se neste padrão. Mas a reação pública pode ser a mesma. Na França, o presidente Nicolas Sarkozy é bastante criticado pelo seu relacionamento estreito com empresários milionários. Ele está procurando implementar aquelas que, para os padrões franceses, são políticas econômicas bastante liberais, que, caso sejam bem-sucedidas, poderão aumentar a desigualdade. Mas em um país no qual os eleitores não simpatizam com o empresariado, ele poderá deparar-se com problemas como o escândalo comercial na Société Générale, e a negociata envolvendo o grupo aeroespacial franco-alemão EADS.

A recente proposta de Sarkozy de taxar as opções acionárias pode ser um indicador de que haverá pela frente políticas menos amigáveis para com os negócios.

O que está óbvio neste novo clima é que o protecionismo é uma ameaça mais intensa. Se as empresas forem incapazes de encontrar uma maneira de conter o excesso de pagamento aos seus executivos, a sua legitimidade será questionada e a política de extrair mais impostos do setor corporativo irá se tornar mais atraente. A redistribuição de renda será uma pauta mais importante na agenda política. A reação reguladora à crise de crédito poderá também ser mais extremada e menos ponderada do que normalmente seria, ecoando a experiência da década de 1930, e da lei pós-Enron, Sarbanes-Oxley.

Não se sabe se os mercados detectaram este oceano de mudanças. Até que os países de língua inglesa superem a crise financeira e imobiliária, será impossível afirmar se a mudança de clima é transitória ou se é algo pior. Mas a mudança é real.

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*”The Great Crash”, 1929 (Hamish Hamilton, 1955) **”The Distribution of Top Incomes in Australia”. Australian National University Centre for Economic Policy Research discussion paper No 514 ***”The Evolution of High Incomes in Canada”, 1920-2000, NBER Working Paper No 9607

Tradução: UOL

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in vermelho - 12 DE ABRIL DE 2008 - 22h00

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Tiago Franco - A magia do directo à portuguesa

 


VISTO DE FORA

por Tiago Franco // dezembro 14, 2022

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CATEGORIA: OPINIÃO

TEMAS: TIAGO FRANCO, VISTO DE FORA

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Em Campo Maior, numa rua cheia de lama, com carros ao monte, há pessoas de galochas e pás na mãos, encasacados até à cabeça, recolhendo o entulho e empurrando a água para as entradas de esgoto.

Percebe-se, em apenas cinco segundos, o que estão ali a fazer.

A jornalista, obrigada a criar qualquer coisa para o directo, aproxima-se, obriga um dos senhores a parar tarefa e atira-lhe a pergunta do milhão de dólares:

“Então, o que estão aqui a fazer?”

O camarada alentejano levantou os olhos da enxada, olhou para a jornalista e deve ter pensado num “f***-se!! O que é que te parece que estamos a fazer??”. Mas respirou, lembrou-se que tinha ali uma câmara, e disse, de rajada e em volume aceitável: “LIMPEZAAA!”

Os directos são um mistério para mim. Nunca percebi o interesse de, por exemplo, ter alguém numa cidade a 1.000 quilómetros de uma frente de batalha para entrar à noite, em directo do hotel, a tempo de nos contar o que alguém lhe disse que está a acontecer a oito horas de carro dali.

Compreendo, obviamente, o interesse da reportagem em directo, que nos traz as imagens do que está a acontecer. Mas a necessidade extrema de criar conteúdo com interesse informativo nulo, para além de deixar uma sensação de vergonha alheia, acaba apenas por atrapalhar quem, de facto, está a tentar fazer algo de jeito.

A história de Campo Maior fez-me lembrar um dos incêndios deste Verão, quando uns jornalistas, da CNN julgo, tentavam entrevistar bombeiros enquanto estes apagavam o fogo, o que é, só por isso, bizarro. Acabaram por ouvir, entre corridas desesperadas, que “têm que desviar o carro para o camião conseguir passar”.

Ou pior, quando perguntavam a populares o que por ali faziam, num incêndio junto ao Fundão, se a memória não me falha, e uma senhora, a carregar baldes de água, lhes disse: “se largassem o microfone e agarrassem nuns baldes é que era de valor!”

Que informação relevante é que pode dar um popular, no meio de uma aflição, a quem precisa de encher uns minutos de directo? Não entendo, a sério que não.

Mas pior do que as horas de irrelevância informativa, é a estratégia editorial. Seja qual for o tema, desde que apareça como novo, é espremido até à exaustão, como se deixasse de existir mundo a partir desse momento informativo.

Quando a covid-19 rebentou tínhamos directos do aeroporto de Lisboa para acompanhar a chegada dos portugueses que tinham sido evacuados da China. O pessoal médico estava vestido com uns fatos da NASA, como naquele filme Outbreak dos anos 90 (com Dustin Hoffman), e lá atrás da rede de protecção, as câmaras das televisões faziam o zoom possível para nos mostrar qualquer coisa.

Dois anos com directos dos hospitais, conferências do Infarmed, powerpoints do Costa, vacinas do almirante, regras e mais regras. Polícias na rua a correr com velhotes que comiam sandes num banco de jardim, restauração na falência, palminhas nas varandas. Mal nos apercebemos que já havia rockets no Donbass.

Nos Verões são os incêndios, nos Invernos as cheias. Enquanto acontecem, temos horas e horas de directos, debates, diagnósticos do que está mal (matas, num caso, e sarjetas sujas, no outro) para, um ano depois, repetirmos todo o processo: directo, debate, diagnóstico. Pelo meio, mete-se o Natal e os directos passam para os centros comerciais ao som de Mariah Carey ou Wham.

Chega a guerra – a de 2014 até 2022 foi só o aquecimento – e durante meses temos tanques no quintal e mapas de ocupação. Desaparece o resto do Mundo novamente. Acaba a covid-19 de forma oficial.

Em Novembro, a guerra acalmou para ligarmos aos diretos do Qatar. Até a selecção portuguesa ser eliminada, ninguém se magoou em Donetsk. Por essa altura, interessou saber tudo, mas mesmo tudo, que Ronaldo disse, pensou, fez, disse mas não fez, pensou mas não disse, disse mas não queria dizer, e todas as demais combinações.

É importante massacrar um jogador até que já ninguém, nem sequer entre os seus colegas, consiga ouvir falar mais no tema. É importante não discutir o que joga ou podia jogar uma equipa de 25 e criar, em vez disso, uma gigantesca onda negativa em torno de uma equipa que, afinal, todos queríamos que vencesse.

O golo marroquino acontece e o São Pedro começou a castigar o território ibérico. Os mouros estão de volta. Há água por todo o lado, carros a boiar, casas alagadas, cidades transformadas na Veneza dos subúrbios.

Percebo a gravidade, os problemas e os dramas, mas, tal como nos demais temas, o Mundo volta a desaparecer. Como se, com tantos recursos de recolha de informação, cada linha editorial só conseguisse lidar com um tema de cada vez. Ou até como se, para representar uma calamidade, seja necessário entrevistar pessoas que limpam as ruas em cada aldeia do país. Vi um directo do Muxito. Do Muxito!

Para vós que sois menos versados em cultura urbana da margem sul, o Muxito era uma mata que, na minha juventude, era conhecida por ser um sítio de paragem para profissionais de um ramo profissional muito antigo, ligado à venda de sensações cutâneas. Não é uma zona que tenha visto os seus primeiros líquidos nesta enchente.

E enquanto escrevia isto, pensando que então que terminara o texto, notei que o directo regressou a Campo Maior e apanhou outro senhor. O homem estava a carregar móveis, cheio de lama na cara e nas mãos, e, mal lhe cheira a pergunta, vira as costas ao jornalista que, para desenrascar, diz: “as pessoas não querem falar, mas as imagens falam por si”.

Aleluia irmão!, aleluia!

Tiago Franco é engenheiro de desenvolvimento na EcarX (Suécia)

https://paginaum.pt/2022/12/14/a-magia-do-directo-a-portuguesa/