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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

(82) Abílio Paciência e o 'caminho dos pescadores'

* Victor Nogueira / Gemini

Partindo da Rua da Batalha do Viso encosta acima se encontra esta escadaria, em zona que após o 25 de Abril foi possível tornar habitacionalmente mais digna com o Projecto SAAL e a participação dos moradores das casas então abarracadas. Ingénuas quadras de Abílio Paciência ao longo do percurso são a memória desses tempos, substituindo grafitos anteriores.

Penosamente uma mulher idosa sobe a escadaria com um cão pela trela; saudamo-nos, cedo-lhe o lado do corrimão e ela agradece, enquanto lanudo canito saltita em meu redor deliciado com as festas que lhe faço. Mais adiante, no relvado, hierático, um indiferente e plácido gato aquece-se com os raios de sol duma tarde de céu azul mas algo neblinada. Áspero e acidentado era o caminho então feito a pé, entre a beira-mar e o Viso, encosta acima ou abaixo, incluindo a íngreme Rua do Clube Recreativo da Palhavã. onde as belas  vistas e horizontes estavam ao alcance da vista das populações vivendo na penúria, em estreitas vielas, atascadas na  lama.

«Um caminho que liga o rio e o bairro, que por ele passaram os pescadores que partiam e regressavam, com os bolsos quase vazios... Mas com o coração cheio de mar.

As mulheres, sozinhas, com os filhos pequenos, à espera do regresso de quem parte.

Um caminho que levava e trazia trabalhadoras da indústria conserveira.

Mulheres de corpos cansados de trabalho e de luta por uma vida mais digna.

É uma história antiga, mas que também é nossa e de todos os que a sentirem como sua, feita de coragem, dor e resistência.

Uma história que atravessa o tempo, entre marés de sacrifício e esperança, na eterna...

Luta pela Liberdade."

Todo o espectáculo teve como inspiração o poema a "A Arte da Palavra" escrito pelo Sr. Abílio Paciência, um antigo morador do Bairro dos pescadores, bem como histórias contadas por alguns moradores do bairro.» (in https://www.uf-setubal.pt/atividades/espaco-publico/348-novo-caminho-facilita-acesso-pedonal-no-bairro-dos-pescadores)




 O caminho que percorri

Até chegar ao sítio onde vivi

 

(81) A vida no Troino nas quadras de Alice Ramos

  * Victor Nogueira

Pelas paredes das ruas do Troino,  dezenas de quadras populares falando do que presumo sejam ou tenham sido seus habitantes vão sumindo por acção dos agentes atmosféricos erosivos. A origem desta iniciativa é-me desconhecida mas aqui fica uma pequena recolha do que aleatoriamente registei ao longo dos tempos, sobretudo em 2017, Não foi um trabalho sistemático porque, sem roteiro, não consegui  localizar a maioria delas

Maria Alice Ramos foi uma poetisa popular fortemente ligada ao Bairro do Troino (na freguesia da Anunciada, em Setúbal). Ficou conhecida como a "poetisa do povo" por retratar com enorme simplicidade, sensibilidade e sabedoria as memórias, vivências, tradições e figuras marcantes da comunidade setubalense.

As Quadras no Bairro do Troino e a Poesia nas Paredes: As suas quadras foram pintadas e numeradas em muros, fachadas e portões do Bairro do Troino, transformando as ruas  numa galeria de poesia urbana, a céu aberto. Os seus versos, ingénuos, homenageiam figuras locais (como comerciantes e artesãos), locais históricos (como a Escola da Fonte Nova ou a Capelinha da N.ª Sra. da Saúde), além de mostrarem a ligação do bairro ao mar, aos pescadores e às memórias de vida e da infância dos habitantes mais idosos.


1
 Meu querido Bairro do Troino
Onde nasci e cresci
Vou tentar descrever
O que jamais esqueci


sábado, 8 de agosto de 2026

(55) Quadras populares no Carregal



* Victor Nogueira 



Nesta povoação do concelho de Óbidos os chafarizes não têm a monumentalidade de outros noutras povoações, antes são simples produtos da engenhosidade popular.  

Atravessamos o Carregal, pequena aldeia onde não deve haver água canalizada pois em cada rua e travessa há uma bica, muitas decoradas com azulejos com motivos figurativos. Um deles, no Largo do Jogo, tem uma quadra:  "O aluno que na Escola | Não souber bem as lições | Irá pela vida fora | Sempre à mercê d'empurrões. " Num dos extremos da vila uma fonte mais cuidada, com outro verso:   Carregal | Carregal | Que pena vou ter de ti | Quando um dia te deixar | Quando a vida me obrigar | Pois a vida é mesmo assim. [92.02.05] 

Como anteriormente, registo os nomes das ruas do Vale (onde existe um lavadouro público),  Direita, da  Capela, da  Fonte,  Trás da Roda, das Figueiras. Anoto também as travessas, como a do Jogo  e a das  Flores, e largos, como o do  Pinheiro, Adamásio, do Jogo (já referido),  do Centro Cultural... 

As casas têm barras azuis, como na Ericeira. Trata-se duma aldeia menos cuidada que a Vau, em cujos arredores cruzamos com caçadores. (Notas de Viagem, 1997.10.30) 

Na Foz do Arelho existem bicas pelas ruas, em menor quantidade que no Carregal e sem azulejos, as casas têm na frontaria azulejos com figuras de santos (registos) e nos telhados secam abóboras, umas maiores que outras. (Notas de Viagem, 1997.10.30) 


O aluno que na Escola | Não souber bem as lições | Irá pela vida fora | Sempre à mercê d'empurrões.


 Carregal | Carregal | Que pena vou ter de ti | Quando um dia te deixar | Quando a vida me obrigar | Pois a vida é mesmo assim. [92.02.05] 


Fotos victor nogueira - Rolo 206 (fotos em 1997.10.30)


(54] Nicolau Tavares, letrista setubalense

 

* Victor Nogueira / Gemini

Este mural encontra-se no Bairro 2 de Abril, num muro de suporte na Rua Dr. António Luís Pereira de Almeida, no caminho para a CVP - Cruz Vermelha Portuguesa. Consiste numa quadra de Nicolau Tavares: "Aqui nasceu este meu bairro / que deu abrigo a gente pobre,/ cresceu, evoluiu, emoldurou-se../.Tornou-se Nobre". A pintura foi executada por moradores do referido Bairro, a 2 de Abril de 2019, no âmbito da 9ª edição do projecto municipal “Setúbal Mais Bonita”


quinta-feira, 30 de julho de 2026

(40) - António Maria Eusébio, “o Calafate” - Nunca fui mal procedido

* Victor Nogueira

 
Setúbal - Parque do Bonfim - António Maria Eusébio, “o Calafate” (1819 - 1911), nome pelo qual era conhecido devido à profissão que tinha. foi um poeta  popular analfabeto e apelidado também de “o cantador de Setúbal”, somente aos 84 anos de idade publica os seus versos em folhetos. Este monumento inaugurado em  1968,  é da autoria do escultor Castro Lobo, em bronze e mármore branco 


Nunca fui mal procedido.
Nunca fiz mal a ninguém.
Se acaso fiz algum bem
não estou disso arrependido.
Se mau pago tenho tido,
são defeitos pessoais.
Todos seremos iguais
no reino da eternidade.
Na balança da igualdade
Deus sabe quem pesa mais.

Setúbal Monumento a Calafate, poeta popular (foto victor nogueira  _EDC1040 editada pelo Gemini 

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Romanceiro - XXXVI Linda-a-Pastora



 * Almeida Garrett


Quem desce Tejo abaixo, por ésta margem do Norte onde está Lisboa, e tendo saudado o precioso monumento de Belem, a sua tôrre não menos bella, entra no fashionavel Pedroiços e d’ahi segue ás praias do Dafundo até á Cruz-quebrada, tem dado o mais bonito passeio que se póde dar nas vizinhanças da capital, e visitado os sitios que, depois de Cintra, mais frequenta a sociedade elegante da nossa terra. De fins de Agosto a principios de Novembro é que tudo alli corre, e que os banhos do mar povoam aquelles bellos ermos, nas outras estações desamparados.

Quem tiver porêm o bom gôsto de resistir ao despotismo tarifeiro da moda, e se abalançar em Maio ou Junho a este largo passeio, que no estado dos nossos caminhos é antes uma pequena viagem, creia que hade ser pago de sua nobre ousadia. Não ha palavras que digam todas as bellezas d’aquella terra, d’aquelle ceo, d’aquellas aguas. Á esquerda o Tejo, os navios que entram e sahem, as frotas de barcos pescarejos, a areia alva juncto á beira d’agua, e logo pegada á salsugem, a prodigiosa vegetação das plantas que a amam e em que se pasce gulloso e largo á vontade o gado. Perto, um saveiro que chegou á terra e cuja companha pucha ao longo da praia pela rede que arrasta os innumeraveis cardumes de peixes que logo virão saltar na areia. Á direita nas eminencias, as ruinas picturescas de conventos desertos, de moinhos abandonados, de fortes, de atalaias. E tudo isto incastoado na verdura viçosa e florida da primavera que ainda não queimou o sol do estio. No fim do verão quando vai todo o mundo, ja não ha senão resteva nos campos, talos de hervas seccas nos montes, árvores sem folha, poeira nos ares, e uma ventaneira despregada que não cessa.

Ja me eram familiares de annos aquelles sitios; mas posso dizer que os não conheci bem e como elles são devéras, senão quando, haverá hoje tres annos, alli fui um dia primeiro de Maio. Fui, como de maravilha em maravilha, por todos os pontos que tenho nomeado; mas chegando á ribeira de Jamor, parei extasiado no meio de sua ponte, porque a varzea que d’ahi se extende, recurvando-se pela direita para Carnaxide, e os montes que a abrigam em deredor, estava tudo de uma belleza que verdadeiramente fascinava. O trigo verde e viçoso ondeava com a viração desde as veigas que rega o Jamor, até os altos onde velejam centenares de moinhos. Árvores grandes e bellas, como rara vez se incontram n’esta provincia dendroclasta, rodeavam melancholicamente, no mais fundo do vale, a velha mansão do Rodizio. E lá, em prespectiva, no fundo do quadro, uma aldea de Suissa com suas casinhas brancas, suas ruas em soccalcos, seu presbiterio ornado de um ramalhete de faias; grandes massas de basalto negro pelo meio de tudo isto, parreiraes, jardinzitos quasi pensis, e uma graça, uma simplicidade alpina, um sabor de campo, um cheiro de montanha, como é difficil de incontrar tam perto de uma grande capital.

O logarejo é bem conhecido de nome e fama, chama-se Linda-a-Pastora. Porque? Não sei. Tem-me jurado antiquarios de ‘meia-tijella’ que o seu nome verdadeiro é Niña a Pastora. Mas emquanto não achar algum de ‘tijella inteira’ que me saiba dar a razão por que se havia de chamar assim, meio em portuguez meio em castelhano, um aldeote de aopé de Lisboa—heide chamar-lhe eu, como os seus habitantes e toda a gente diz: Linda-a-Pastora.

Namorei-me do sitio por modo, que alli passei o verão todo; e d’alli fiz deliciosas excursões pelas vizinhanças, que todas são bonitas. Foi n’este proprio e appropriado sitio que a Sr.ª Francisca, lavadeira bem conhecida do logar, me deu a última e, ao parecer, mais correcta licção que do presente romance tinha obtido. Em outras partes do reino traz elle o titulo de ‘Pastorinha;’ aqui era justo e natural que se lhe désse o de Linda-a-Pastora’, que assentei conservar-lhe.

Na fórma é um romance em endeixas, mas o fundo é de uma verdadeira pastourella do genero provençal; nem a fariam mais graciosa Giraud Riquier ou Giraud de Borneill.

Tem muitas variantes, porque todo o reino a sabe e canta. Eu noto somente as principaes.


LINDA-A-PASTORA


—‘Linda pastorinha, que fazeis aqui?’
—‘Procuro o meu gado que por ahi perdi.’
—‘Tam gentil senhora a guardar o gado!’
—‘Senhor, ja nascemos para esse fado.’
—‘Por éstas montanhas em tam grande p’rigo!’
Diga-me, ó menina, se quer vir commigo.’
—‘Um senhor tam guapo dar tam mau conselho[131].
Querer que se perca o gado alheio!’
—‘Não tenha esse medo que o gado se perca[132]
Por aqui passarmos uma ora de sésta.’
—‘Tal razão como essa não n’a ouvirei[133]:
Ja dirão meus amos que de mais tardei.’
—‘Diga-lhe, menina, que se demorou
Co’esta nuvem de agua que tudo molhou.’
—‘Fallarei verdade, que mentir não sei:
Á volta do gado eu me descuidei.’
—‘Pastorinha, escute, que oiço ballar gado...’
—‘Serão as ovelhas que me tem faltado.’
—‘Eu lh’as vou buscar ja muito depressa,
Mas que me espedace por essa charneca.’
—‘Ai como vai grave de meias de seda!
Olhe não as rompa por essa resteva[134].’
—‘Meias e sapatos[135], tudo romperei[136]
So por lhe dar gôsto, minha alma, meu bem.’
—‘Ei-lo aqui vem; é todo o meu gado.’
—‘Meu destino foi ser vosso criado.’
—‘Senhor, va-se embora, não me dê mais pena,
—‘Que hade vir meu amo trazer-me a merenda.’
—‘Se vier seu amo, venha muito embora;
Diremos, menina, que cheguei agora.’
—‘Senhor, va-se, va-se, não me dê tormento:
Ja não quero vê-lo nem por pensamento.’
—‘Pois adeus, ingrata da Linda-a-Pastora!
Fica-te, eu me vou pela serra fóra[137].’
—‘Venha cá, Senhor, torne atrás correndo...
Que o amor é cego, ja me está rendendo.’
Sentaram-se á sombra... tudo estava ardendo...[138]
Quando ellas não querem, então ’stão querendo.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

[131]
Não deve ser nobre quem dá tal conselho—Minho, Beira Baixa.

[132]
Eu não digo isso, que o gado se perca,
Mas que descancemos uma hora de sésta.—Beira Alta, Extremadura.

[133]
Que dirão meus amos em que me occupei—Beira Alta

[134]
Por essas estevas—Alemtejo.

[135]
Meias e vestido—Ribatejo.

[136]
Romperem—Coimbra.

[137]
Vai guardar teu gado pela serra fóra—Beira Alta

[138]
Senta-te a ésta sombra que está o mundo ardendo.
—‘Eu bem não queria, mas estou querendo.’
—‘Calla-te, pastora, não digas mais nada,
Que a aposta que eu fiz ja está ganhada.’
—‘Senhor, vou sentar-me não por má tenção.’
Pois sabe a verdade, que sou teu irmão.—Beira Alta.
—‘Sente-se a ésta sombra, passemos a sésta,
Ja pouco me importa que o gado se perca.’
Oh gente da casa, accudi ao gado,
Que foge a pastora c’o seu namorado.—Minho.

     

Romanceiro III       Romances Cavalherescos Antigos

https://www.gutenberg.org/files/63439/63439-h/63439-h.htm

domingo, 24 de dezembro de 2017

Ó meu Menino Jesus - canção popular de Campo Maior


Luis Garção Nunes
Publicado a 15/12/2009
BRIGADA VICTOR JARA
Menino Jesus
QUEM SAI AOS SEUS  (1981)


Ó meu Menino Jesus, 
Ó meu menino tão belo, 
Onde foste a nascer
Ao rigor do caramelo! [bis] 

Ó meu Menino Jesus,
Não queiras menino ser!
No rigor do caramelo 
A neve te faz gemer. [bis]

[instrumental]

O Menino da Senhora 
Chama pai a São José, 
Que lhe trouxe uns sapatinhos 
Da feira de Santo André. [bis]

[instrumental]

O Menino chora, chora, 
Chora pelos sapatinhos;
Haja quem lhe dê as solas,
Que eu lhe darei os saltinhos. [bis]
  
[instrumental]

Dá-me o teu Menino!
Não dou, não dou, não dou!
Dá-me o teu Menino,
Vai à missa que eu lá vou.
Dá-me o teu Menino! 
Não dou, não dou, não dou!
[4x]


Glossário:
A palavra "caramelo", nesta acepção, significa "gelo" (geada, neve, granizo).

Nota: «Canto recolhido em Campo Maior. Canta-se no Natal, já pelas ruas, já em família, acompanhado do popular instrumento designado por ronca, ou zabumba. A ronca [sarronca] é constituída por um púcaro de barro ao qual se adapta um pedaço de pele de anho, retesada e solidamente atada, através da qual passa um junco que o executante fricciona por meio de um movimento de vaivém.» (Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça, in "Portuguese Folk Music": vol. 4 - Alentejo, Strauss, 1998; "Música Regional Portuguesa": CD 5 - Alentejo, col. Portugal Som, Numérica, 2008) 

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

poesia de António Maria Eusébio, o Calafate

*  António Maria Eusébio, o Calafate

Nunca fui mal procedido.
Nunca fiz mal a ninguém.
Se acaso fiz algum bem
não estou disso arrependido.
Se mau pago tenho tido,
são defeitos pessoais.
Todos seremos iguais
no reino da eternidade.
Na balança da igualdade
Deus sabe quem pesa mais.

~~~~~~~~
MOTE

Já fui operário artista
Agora, já pouco valho;
Comprem-me algum papelinho,
Em paga do meu trabalho.

GLOSA

Já gozei a mocidade
Esse bem tão precioso,
Fui homem laborioso
E trabalhei de vontade.
Já servi na sociedade,
Já fui homem moralista,
O meu vulto já fez vista
No seio das classes pobres,
Já fui nobre ao pé dos nobres,
Já fui operário artista.

Já tive as mãos calejadas
Do muito que trabalhei,
Meus braços atormentei
Com ferramentas pesadas.
Tive horas amarguradas,
Joguei, rasguei o baralho,
Hoje apanho algum retalho
Que a ambição deixa cair,
P’ra pouco posso servir,
Agora já pouco valho.

Até ando ameaçado
De fome ainda passar,
Por a um homem estimar,
A quem estou obrigado.
Sou pobre velho e cansado,
Estou no fim do meu caminho;
Porque sou do Zé povinho,
Não devo ser esquecido,
Seja qual for o partido,
Comprem-me algum papelinho.

Nunca fiz ruins papeis
Nem andei pondo cartazes
Nem atirei aos rapazes
Com moedas de dez réis.
Falem, pois, os infiéis,
Chamem-me velho, espantalho;
Como, agora já não valho
De tabaco uma pitada,
Levo alguma bofetada
Em paga do meu trabalho.

 —

sábado, 19 de março de 2016

Clara Ribeiro Pacheco - “Dedicado a meu pai”

XIII Antologia de Poesia do C. N. A. P. – Poema: “Dedicado a meu pai”

por Francisco Carita Mata, em 02.02.16
Círculo Nacional D’Arte e Poesia


Neste Post Nº 301, divulgamos o Poema “Dedicado a meu pai”, de Clara Ribeiro Pacheco, de Esperança (Arronches).

“Dedicado a meu pai”

“Se eu contar não acreditam
Aquilo que fiz na vida
Alguns ainda criticam
Andei sempre em dura vida

Querendo ser o primeiro
Em qualquer ocasião
Nas searas vi molheiro
E nos montes fui ganhão

Limpei chaparros bem altos
Por vezes vertigens tinha
As sopas iam sem caldo
Pouca sorte foi a minha

Varejei muita bolota
Para os porcos engordar
Pensando na paparoca
Para nada nos faltar

Tirei a casca aos sobreiros
Era às na profissão
Ensinei aos cavalheiros
Filhos dessa geração

A foice, de a manobrar
Os meus dedos aleijou
A enxada, de cavar
Muitos calos me deixou

Também fui guarda florestal
Trabalho bastante astuto
Havia cada “pardal”
Que me fazia de tudo

Eu fui mestre de lagar
Trabalho muito exigente
Anos a fio sem parar
Fazendo azeite “prá” gente

Do trabalho tenho a vida cheia
Deu-me Deus este condão
Não deixo por mão alheia
A minha vida de escrivão

Sou poeta, grande vida
Poeta por vocação
Deixo a minha obra escrita
Escrita pela minha mão”


Clara Ribeiro Pacheco, Esperança (Arronches)

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Francisco Miguel Duarte - Não olhes a fraqueza


Não cultives a fraqueza

Vive o fraco na fraqueza
o bom na sua bondade
vive o firme na firmeza
lutando por liberdade. Não cultives a fraqueza,
procura sempre ser forte,
que o homem que tem firmeza
não se rende nem à morte. Educa a tua vontade
faz-te firme: em decisões,
que não terá liberdade
quem não fizer revoluções. Se queres o mundo melhor
vem cá pôr a tua pedra,
quem da luta fica fora
neste jogo nunca medra

. Francisco Miguel Duarte,Poeta popular nascido no Alentejo,Operário sapateiro, filho de camponeses —

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A hora e a vez da Literatura de CordelVerm

Cultura

Vermelho - 10 de Agosto de 2010 - 18h00

“Se um dia nóis se gostasse, se um dia nóis se queresse. Se nóis dois se empareasse. Se juntim nóis dois vivesse. Se juntim nóis dois morasse. Se juntim nóis dois drumisse. Se juntim nóis dois morresse. Se pro céu nóis assubisse. Mas, porém acontecesse de São Pedro não abrisse a porta do céu e fosse te dizer qualquer tolice. E se eu me arriminasse. E tu cum eu insistisse pra que eu me arresolvesse…”.

Esse é um dos mais famosos textos da literatura de cordel, criado por Zé da Luz. O cordel, tipo de poesia popular, tem aumentado seu reconhecimento em todo o país, tanto que o Ministério da Cultura abriu um edital para contemplar 200 projetos, com investimento total de R$ 3 milhões.

As inscrições para o Edital Prêmio Mais Cultura de Literatura de Cordel Edição Patativa do Assaré- foram prorrogadas e podem ser feitas até o dia 14 de agosto. Serão selecionadas 200 iniciativas culturais vinculadas à criação e produção, pesquisa, formação e difusão da Literatura de Cordel e linguagens afins, com premiação total de R$ 3 milhões. São quatro categorias disponíveis e os candidatos podem se inscrever em duas, sendo premiado apenas em uma.

Na primeira categoria, voltada para a Criação e Produção, serão 100 prêmios. Do total, 80 serão destinados a publicações de obra inédita ou reeditada em folheto de cordel, no valor de R$ 7 mil cada. Outros 20 são para produtos artísticos formatados em livro, CD e DVD voltados para a literatura de cordel, xilogravura, repente, cantoria, côco, aboio e embolada no valor de R$ 22 mil cada.

Para a categoria de Pesquisa (dissertações de mestrado, teses de doutorado ou reedição de livros publicados até 30 de maio de 2010) serão contempladas 10 iniciativas, no valor de R$ 25 mil cada. Outros 50 projetos serão contemplados na categoria de Formação, destinada tanto para a qualificação de profissionais como para a formação leitora do público em geral, através do Cordel (cursos, seminários, oficinas, dentre outras atividades sócio-culturais de caráter educativo). Serão 10 prêmios para a manutenção e ampliação de atividades existentes, no valor de R$ 25 mil cada e outros 40 para projetos novos, no valor de R$ 15 mil cada.

Pessoas que ajudam a divulgar o cordel e suas manifestações também poderão concorrer ao prêmio nesta edição, na categoria Difusão, que beneficiará 40 propostas. Os projetos podem ser em formato de evento (festivais, mostras, de shows e espetáculos, feiras, etc.) ou de produto cultural (como jornais, revistas, programas de rádios e sites, entre outros).

Em qualquer um dos formatos, os prêmios serão divididos da seguinte forma: 10 iniciativas existentes (manutenção e ampliação da programação), no valor de R$ 30 mil cada, e 30 novas iniciativas, no valor R$ 20 mil cada.

A literatura de cordel é um tipo de poesia popular, originalmente oral, depois impressa em folhetos rústicos. Normalmente são expostos para venda pendurados em cordas ou cordéis, o que deu origem ao nome.

Com raízes de Portugal, que tinha a tradição de pendurar folhetos em barbantes, o hábito desembarcou no Brasil. Por aqui, a literatura de cordel é produção típica do Nordeste, em especial dos estados de Pernambuco, da Paraíba, do Rio Grande do Norte e do Ceará.

E costumava ser vendida em mercados e feiras pelos próprios autores. Mas, atualmente, ampliou seu alcance para outras regiões brasileiras, em especial Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. O cordel hoje é vendido em feiras culturais, casas de cultura, livrarias e nas apresentações dos cordelistas.

Os folhetos são escritos em forma rimada e alguns poemas são ilustrados com xilogravuras, o mesmo estilo de gravura usado nas capas. As estrofes mais comuns são as de dez, oito ou seis versos. Os autores, ou cordelistas, recitam esses versos de forma melodiosa e cadenciada, acompanhados de viola, como também fazem leituras ou declamações muito empolgadas e animadas para conquistar os possíveis compradores.

Patativa do Assaré

O homenageado da edição 2010 do Prêmio Mais Cultura de Literatura de Cordel é uma das principais figuras da música nordestina do século 20, Patativa do Assaré. Seu trabalho se destacou pela marcante característica da oralidade, seus poemas eram feitos e guardados apenas na memória, e depois eram recitados. O poder de memória de Patativa impressionava, era capaz de recitar qualquer um de seus poemas, mesmo após os noventa anos de idade.

O Sabiá e o Gavião
(Patativa do Assaré)

” (…) Já eu sou bem deferente.
A coisa mió que eu acho.
É num dia munto quente.
Eu i me sentá debaxo,
de um copado juazêro,
Prá escutá prazentêro,
os passarinho cantá,
Pois aquela poesia
Tem a mesma melodia
Dos anjo celestiá (…)”

Fonte: Gazeta Digital
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terça-feira, 17 de novembro de 2009

RTP desmistifica a obra do poeta António Aleixo

António Aleixo, na terra acho, na terra deixo é o título do documentário que a RTP2 exibe esta noite (21.00) como contributo para desmistificar a obra do poeta algarvio (1899-1949), que morreu faz precisamente hoje 60 anos.

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O que a estação pública pretende é derrubar "certos preconceitos sobre a sua obra". "A denominação de poesia popular, muitas vezes associada a um certo número de representações negativas que a situam ao lado da literatura menor, é descabida quando se fala de António Aleixo", propõe-se a RTP, referindo-se provavelmente ao estigma do semianalfabetismo do poeta. Para este documentário de 50 minutos foram ouvidos familiares e amigos do poeta que é símbolo do Algarve.
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Diário de Notícias
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sábado, 13 de junho de 2009

O castigo do vaidoso - Patativa do Assaré



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Quando ele viu um cabelinho branco
Na sua negra e farta cabeleira,
Disse, com raiva e cheio de canseira:
Demora, diabo, que eu te pego e arranco!
Porém, o tempo, sério, rijo e franco,
Que não gosta daquela brincadeira,
Da planície o levou para a ladeira
E colocou bem no cimo do barranco.
E hoje o vaidoso, sem consolo, chora,
Bem diferente do que foi outrora,
Doente e magro qual um esqueleto.
Com um espelho quando se depara
Triste e choroso, sem prazer repara
Se ainda tem algum cabelo preto.


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Fonte: www.interpoetica.com



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Prosa@Poesia Seleção Especial, Publica autores consagrados da literatura brasileira e mundial. São textos escolhidos especialmente para os internautas do Vermelho. A seleção é de Adalberto Monteiro.
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in Vermelho - 6 DE MARÇO DE 2009 - 17h55
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sábado, 30 de maio de 2009

O Lendário Lucas da Feira




29-05-2009 06:05:29
Da Redação: Fonte - GILFRANCISCO
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O artigo Lucas da Feira publicado no Diário Oficial nos dias 8 e 11 de novembro de 1896, escrito pelo médico e historiador baiano, Alexandre José de Melo Moraes Filho (1844-1919), anos depois foi enfeixado no livro “Festas e Tradições Populares do Brasil”, prefaciado por Sílvio Romero (1851-1914) e publicado em 1901. Melo Moraes Filho nasceu no dia 23 de fevereiro de 1844, na cidade de Salvador-BA, lutou com muitas dificuldades para instruir-se. Depois dos estudos preliminares, matriculou-se no Seminário de São José do Rio de Janeiro, chegando a receber ordens menores e a pregar sermões. Desistindo da vida eclesiástica, embarcou com destino à Bahia, em 1867. Retornou ao Rio de Janeiro, indo morar numa república de estudantes onde conhece, entre outros, Castro Alves, vivendo dias difíceis, fazendo jornalismo e literatura. Recebeu um convite para dirigir O Eco Americano, em Londres. Na Bélgica, fez o curso médico e ao retornar ao Brasil, dedicou-se ao jornalismo. Publicou: Cantos do Equador; Ciganos no Brasil; Curso de Literatura Brasileira; Festas Populares do Brasil; Cancioneiro dos ciganos; Paraíso Brasileiro; Fatos e Memórias; Cantares; Saraus e Serenatas; Artistas do meu tempo, entre outros.


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Bandoleiro nascido em Feira de Santana-BA (1804-1849), chefe de bando temível, terror de sua região durante 20 anos, tornou-se personagem da literatura popular: ABC de Lucas da Feira, de Sousa Velho; Lucas, o salteador, de Virgílio César Martins Reis e Artur Cerqueira Lima; Lucas, o demônio negro, no romance folclórico (1857) de Sabino de Campos. Sílvio Romero em seus “Estudos sobre a Poesia Popular do Brasil”, publicado em 1889, apresenta dez estrofes sobre o bandoleiro da “Princesa do Sertão”, versão de Sergipe:
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O Lucas da Feira

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Adeus, terra do limão,
Terra onde fui nascido;
vou preso para a Bahia
Levo saudades comigo.
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Eu vou preso pra Bahia,
Eu vou preso, não vou só;
só levo um pesar comigo;
É da filha do Major.

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Eu vou preso pra Bahia,
Levo guarda e sentinelas,
Para saber quanto custa
Honra de moças donzelas.

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Estes sócios meus amigos
De mim não têm que dizer;
Que por eu ver perdido,
Não boto outro a perder.

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Estes sócios meus amigos
A mim fizeram traição;
Ganharam o seu dinheiro
Me entregaram à prisão.

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Meus amigos me diziam
Que deixasse de função,
Que o Casumbá por dinheiro
Fazia as vezes do cão.
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Vindo eu de lá da festa
De São Gonçalo dos Campos,
Com o susto do Casumbá
Caiu-me a espada da mão.
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Já me quebraram o braço,
Já me vou a enforcar,
Como sei que a morte é certa,
Vou morrendo devagar.

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Quando na Bahia entrei.
Vi muita cara faceira;
Brancos e pretos gritando:
Lá vem o Lucas da Feira!

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Quando eu no Rio entrei,
Caiu-me a cara no chão;
A Rainha veio dizendo:
Lá vem a cara do cão.

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Considerado precursor de Lampião, o negro Lucas da Feira foi o terror do sertão baiano durante vinte anos. Lucas foi o assombro, o pesadelo dos sertanejos. Contaram-se por centenas as suas vítimas, o negro salteador, ladrão e assassino, raptou e violentou inúmeras donzelas, matando-lhes os pais e irmãos, se estes ofereciam resistência à sua lubricidade. As façanhas desse bandido perduram até hoje na tradição oral dos feirenses e na literatura de Cordel. O cearense Leonardo Mota no livro “No Tempo de Lampião”, publicado pelo livreiro-editor A. J. de Castilho, em 1921, recolheu na Bahia vários depoimentos sobre Lucas da Feira:
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“O que ele era era um grandessíssimo desalmado. Era perverso, era levado do não-sei-que-diga, mas era frouxo: mijou-se todo na hora da morte...”


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“Lucas foi o diabo em figura de cristão, Deus o perdoe! Aquilo não era gente. Uma vez ele agarrou um negro beiçudo na estrada e sabe o que fez com ele? Prendeu com prego caibral o beijo do infeliz numa árvore. Quando acabou, disse ao suplicante que ia não sei aonde e mais tarde voltaria para o capar. Foi ele se afastar, o negro fez fincapé, rasgou o beiço e ganhou o mundo na carreira, porque só assim se livraria da outra ameaças, a mais perigosa. E sabe? O Lucas estava numa moita escondido e se rindo: ele queria era que o negro mesmo rasgasse o beiço...”


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“Fui o Cazumbá. Esse Cazumbá era um oficial de justiça criminoso que, a promessa de perdão do crime e com o olho no dinheiro do prêmio, perseguiu e prendeu o Lucas. Na hora da prisão deu-lhe dois tiros no braço esquerdo. O braço arruinou e os médicos tiveram de o cortar. Dizia o finado meu pai que foi uma coisa engraçada... Depois da operação, um menino pegou o braço do Lucas e saiu correndo pra rua, pra mostrar ele ao povo. Um sapateiro correu em casa, trouxe uma palmatória e esmagou com “bolos” de sustância a mão do Lucas, o povo todo achando graça nisso, satisfeito...”


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Escravo fugido da Fazenda Saco do Limão, do padre José Alves Franco, Lucas Evangelista teria nascido em 18 de outubro de 1807, filho de Inácio e Maria escravos jêjes. Robusto, Lucas foi crescendo observando o terrível drama da escravidão e procurava vingar-se, a seu modo, das repetidas crueldades do feitor. Adolescente ainda organizou um bando para reagir contra a desumanidade dos feitores, em pouco tempo o grupo já contava cerca de trinta homens, entre negros e mulatos, todos escravos fugitivos. Devido as perseguições, prisões, mortes e deserções, o bando diminuía a cada dia e Lucas acabou ficando sozinho.

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Figura controvertida, era, para uns, um cruel salteador e, para outros um negro que se recusara a viver como escravo. Em conferência no Instituto Histórico e Geográfico da Bahia – IHGB, em 1949, ocasião do centenário da morte do facínora, o professor Alberto Silva relata vários crimes praticados por Lucas da Feira, alguns já mencionados por Leonardo Mota. Já de acordo com Melo Moraes Filho “A acreditar-se em boatos, o salteador da Feira distribuía o que roubava com alguns negociantes da cidade e altas influências políticas, motivo por que escapava às tocaias e esperava certeiro os comerciantes em trânsito, conduzindo por mais de vinte anos uma vida de roubo, de devastação e de morticínios.” (Diário Oficial)
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Nesta mesma edição do Diário Oficial, Melo Moraes Filho, afirma que:

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“Uma ocasião, um negociante, que ia para a Feira, meteu por prevenção o dinheiro que levava, dentro da gravata e pequena quantia no bolso, que era para Lucas, como ele dizia.

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Na estrada, este sai-lhe ao encontro e obriga-o a entregar o que trazia, ao que o viandante sem réplica acendeu, franqueando-lhe as algibeiras.

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O salteador, mirando-o de cima a baixo, saqueia-o, e, apenas o manda embora, fá-lo voltar.
Meu ioiô, disse Lucas, dê a seu negro essa gravata, senão morre.

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O pobre homem, que supunha-se escapo com a vida e o dinheiro, não hesitou um instante, desatou-a a entregou desconfiado, assustado.”

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Cercado pelo tenente-coronel Dionísio de Cerqueira Pinto, Lucas da Feira foi finalmente capturado em 12 de janeiro de 1849 num esconderijo próximo ao Rio Jacuípe e ao tentar fugir foi baleado e devido a gravidade dos ferimentos teve o braço amputado. Julgado e condenado à morte, conduzido ao Rio de Janeiro foi recebido por Sua Majestade, o Imperador, que desejava conhecê-lo. Regressando a Salvador, em seguido levado à Feira de Santana, onde foi enforcado no Campo do Gado às 10 h, da manhã do dia 29 de setembro de 1849, depois de receber o conforto espiritual do padre Tavares e de dois vigários, aos 42 anos.
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GILFRANCISCO: jornalista, professor da Faculdade São Luís de França e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. gilfrancisco.santos@gmail.com
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terça-feira, 1 de janeiro de 2008

VN - Antologia de Poesia de Ano Novo


Vivam
Com os meus votos dum bom ano, aqui fica alguma poesia.
VM
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Ano Novo (Popular – Brasil)
Chegamos em sua morada
Eu e meus companheiros
Nós andamos festejando
O primeiro de janeiro

Entrada do ano novo
Com prazer e alegria
Com grande contentamento
Eu festejo este dia

Eu festejo o Ano Novo
Com muita moralidade
Deus do céu lhe dê saúde
E muita felicidade

Acordai se estás dormindo
Neste sono tão profundo
Levante e seja bem-vinda
Mais um ano neste mundo

Senhora dona da casa
É uma flor de maravilha
Venha nos dar seu anos
Junto com sua família

O meu terno está cantando
Para alegrar a todo ano
Nós andando festejando
A entrada do Ano Novo

Meu senhor dono da casa
Deus do céu que lhe ajude

-->
Que passe este 60
Gozando boa saúdeEu festejo o Ano Novo
Nesta data querida
É mais um ano que passamos
No calendário da vida

Meu senhor dono da casa
Estamos aqui de novo
Parabéns muita saúde
E um feliz Ano Novo

RECEITA DE ANO NOVO
Carlos Drummond de Andrade
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Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)

-->novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegrama?).
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.-->
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre..


PASSAGEM DO ANO
- Carlos Drummond de Andrade
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O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o
[ calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória,
[ doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o
[ clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do
[ acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos
[ séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras
[ espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.

-->Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

 Ano Novo
Chico Buarque
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O rei chegou
E já mandou tocar os sinos
Na cidade inteira
É pra cantar os hinos
Hastear bandeiras
E eu que sou menino
Muito obediente
-->
Estava indiferente
Logo me comovo
Pra ficar contente
Porque é Ano Novo
Há muito tempo
Que essa minha gente
Vai vivendo a muque
É o mesmo batente
É o mesmo batuque
Já ficou descrente
É sempre o mesmo truque
E que já viu de pé
O mesmo velho ovo
Hoje fica contente
Porque é Ano Novo
-->A minha nega me pediu um vestido
Novo e colorido
Pra comemorar
Eu disse:
Finja que não está descalça
Dance alguma valsa
Quero ser seu par
E ao meu amigo que não vê mais graça
Todo ano que passa
Só lhe faz chorar
Eu disse:
Homem, tenha seu orgulho
Não faça barulho
O rei não vai gostar
E quem for cego veja de repente
Todo o azul da vida
-->Quem estiver doente
Saia na corrida
Quem tiver presente
Traga o mais vistoso
Quem tiver juízo
Fique bem ditoso
Quem tiver sorriso
Fique lá na frente
Pois vendo valente
E tão leal seu povo
O rei fica contente
Porque é Ano Novo




ANO NOVO, VIDA NOVA ...

(Maria Isabel de Mendonça Soares)

-->Hoje, que o ano começa,
e para que comece bem,
vou fazer uma promessa
ao meu pai e à minha mãe.
E para não a esquecer
e que ninguém me desminta,
nesta folha de papel
aqui fica escrita a tinta.
Prometo solenemente
não brincar com o meu irmão,
repartir com toda agente
-->brinquedos, bolos ou pão;
ter sempre tanto juízo
quer de dia, quer de noite,
que nunca há-de ser preciso
apanhar nenhum açoite.
Se assim fizer, hei-de ter
muitos amigos e amigas
porque a amizade se pega
mais que o sarampo e as bexigas.