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sábado, 25 de agosto de 2018

Jorge Amado Quando e o que servir em velório de defunto

* Jorge Amado

«QUANDO E O QUE SERVIR EM VELÓRIO DE DEFUNTO
(Resposta de Dona Flor a pergunta de uma aluna)

Nem por ser desordenado dia de lamentação, tristeza e choro, nem por isso se deve deixar o velório correr em brancas nuvens. Se a Dona da casa, em soluços e em desmaio, fora de si, envolta em dor, ou morta no caixão, se ela não puder, um parente ou pessoa amiga se encarrega então de atender à sentinela pois não se vai largar no alvéu, sem de comer nem de beber, os coitados noite adentro solidários; por vezes sendo inverno e frio.

Para que uma sentinela se anime e realmente honre o defunto a presidi-la e lhe faça leve a primeira e confusa noite de sua morte, é necessário atendê-la com solicitude, cuidando-lhe da moral e do apetite.

Quando e o quê oferecer?

Pois a noite inteira, do começo ao fim. Café é indispensável e o tempo todo, café pequeno, é claro. Café completo, com leite, pão, manteiga, queijo, uns biscoitinhos, alguns bolos de aipim ou carimã, fatias de cuscuz com ovos estrelados, isso, só de manhã e para quem atravessou ali a madrugada.

O melhor é manter a água na chaleira para não faltar café; sempre está chegando gente. Bolachas e biscoitos acompanham o cafezinho; uma vez por outra uma bandeja com salgados, podendo ser sanduíches de queijo, presunto, mortadela, coisas simples pois de consumição já basta e sobra com o defunto.

Se o velório, porém, for de categoria, dessas sentinelas de dinheiro a rodo, então se uma xícara de chocolate à meia noite, grosso e quente, ou uma canja gorda de galinha. E, para completar, bolinhos de bacalhau, frigideira, croquetes em geral, doces variados, frutas secas.

Para beber, em sendo casa rica, além do café, pode haver cerveja ou vinho, um copo e tão somente para acompanhar a canja e a frigideira. Jamais champanha, não se considera de bom-tom.Seja velório rico, seja pobre, exige-se, porém, constante e necessária, a boa cachacinha; tudo pode faltar, mesmo café, só ela é indispensável; sem seu conforto não há velório que se preze. Velório sem cachaça é desconsideração ao falecido, significa indiferença e desamor.»


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O romance Dona Flor e Seus Dois Maridos, publicado em 1966 por Jorge Amadoé um retrato rico da vida de Salvador da Bahia, do seu quotidiano, fé e sabores.

https://nabodegablog.wordpress.com/tag/dona-flor-e-seus-dois-maridos/

GRAVURA - Dona Flor e o cochilo de Teodoro, de Murilo Ribeiro para Leilão de Arte Contra a Fome (2017)
Obras de 13 artistas, como Justino Marinho, Chico Mazzoni, Menelaw Sete, Roney George, J. Cunha e Murilo Ribeiro, serão leiloadas, hoje, em evento para convidados, na Casa do Sol, estúdio de Verão da Rede Bahia. O Leilão de Arte contra a Fome terá renda revertida integralmente para a Campanha Carnaval Sem Fome.
http://www2.correio24horas.com.br/detalhe/coluna-vip/noticia/vip-13-artistas-participam-de-leilao-com-renda-revertida-para-campanha-carnaval-sem-fome/?cHash=1e9bde775462aaa66d59e757d1d14f7f

domingo, 15 de abril de 2012

Eça de Queirós - O Povo


Aprender, Aprender Sempre ! (Lenine)


O POVO


“Há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, que se lamentam em vão. Estes homens são o POVO.

.
Estes homens estão sob o peso de calor e de sol, transidos pelas chuvas, roídos de frio, descalços, mal nutridos, lavram a terra, revolvem-na, gastam a sua vida, a sua força, para criar o pão, o alimento de todos. Estes são o POVO, e são os que nos ALIMENTAM.
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Estes homens vivem nas fábricas, pálidos, doentes, sem família, sem doces noites, sem um olhar amigo que os console, sem ter o repouso do corpo e a expansão da alma, e fabricam o linho, o pano, a seda, os estofos. Estes homens são o POVO, e são os que nos VESTEM.
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Estes homens vivem debaixo das minas, sem o sol e as doçuras consoladoras da Natureza, respiram mal, comendo pouco, sempre na véspera da morte, rotos, sujos, curvados, e extraem o metal, o minério, o cobre, o ferro, e toda a matéria das indústrias. Estes homens são o POVO, e são os que nos ENRIQUECEM.
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Estes homens, nos tempos de lutas e crises, tomam as velhas armas da Pátria, e vão, dormindo mal, como machas terríveis, à neve, à chuva, ao frio, nos calores pesados, combater e morrer longe dos filhos e das mães, sem ventura, esquecidos, para que nós conservemos o nosso descanso opulento. Estes homens são o POVO, e são os que nos DEFENDEM.
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Estes homens formam as equipagens dos navios, são lenhadores, guardadores de gado, servos mal retribuídos e desprezados. Estes homens, são os que nos SERVEM.
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E o mundo oficial, opulento, soberano, o que faz a estes homens que o vestem, que o alimentam, que o enriquecem, que o defendem, que o servem? Primeiro, despreza-os; não pensa neles, trata-os como se fossem bois; deixa-lhes apenas uma pequena porção dos seus trabalhos dolorosos, não lhes melhora a sorte, cerca-os de obstáculos e de dificuldades, forma-lhes em redor uma servidão que os prende e uma miséria que os esmaga, não lhes dá proteção; e, terrível coisa, não os instrui, deixa-lhes morrer a alma. É por isso que os que têm coração e alma, e amam a JUSTIÇA, devem lutar e combater PELO POVO.
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E ainda que não sejam escutados, têm na amizade dele uma consolação suprema.”
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Eça de Queirós (1845-1900)
Quadro - Van Gogh - Os comedores de batatas

4 comentários:

Anónimo disse...
Um blog bem articulado e bem interessante!
gostei muito!
voltarei!

elisabetecunha.wordpress.com
"o moço da bodega" disse...
Olá, Vitor. Venho aqui através do guerreiro Ludovicus Rex.
Gostei assim que vi. Aliás, ele me recomendou exatamente porque já conhece meu perfil.

Abraços e seja bem-vindo.
De Amor e de Terra disse...
Olá Victor, bom dia!
Cheguei até aqui através do Ludovicus Rex e estou encantada!
Obrigda pelo que me (nos) mostra...
E ainda bem que veio!!!

Abraço

Maria Mamede
Josep Maria disse...
Enhorabuena por el blog. Empiezas con buen pie.

sábado, 10 de março de 2012

Morreu o desenhador francês Jean Giraud-Moebius, “pai” do tenente Blueberry


 

 (Foto: Sara Matos/arquivo)


Tinha 73 anos
10.03.2012 - 12:54 Por AFP, PÚBLICO


O desenhador e argumentista de banda desenhada francês Jean Giraud, criador do tenente Blueberry, e também conhecido por Moebius, morreu neste sábado em Paris na sequência de uma doença prolongada.




“Morreu esta manhã na sequência de uma longa doença”, disse uma pessoa próxima da família que trabalhava também nas edições Moebius Production Jean Giraud. Jean Henri Gaston Giraud completava 74 anos em Maio.


Após uma infância a desenhar índios e cowboys e formação na Escola de Artes Aplicadas, Jean Giraud, nascido a 8 de Maio de 1938 em Nogent-sur-Marne (nos arredores de Paris), começou a publicar os sues primeiros desenhos aos 18 anos, para trabalhos de publicidade e moda, antes de começar a colaborar com nomes conhecidos.



Ao regressar da guerra da Argélia, publica uma série western na revista Spirou, depois na Pilote, e lança também as aventuras do tenente Blueberry, que lhe irão dar celebridade.



Notícia corrigida às 15h05, retirando referência a um outro suposto pseudónimo do artista.




 



 


 



**

Obras

Entre os diversos trabalhos de Giraud em quadrinhos, como artista ou roteirista, destacam-se:

[]Como Jean Giraud

  • Blueberry (29 volumes, English translation, 1965 -), artista (todos), escritos vol. 25 a 29.
  • Jim Cutlass (7 volumes, 1979 - 1999), artisat vol. 1, escritor 2 a 7.
  • XIII (volume 18, La Version irlandaise in 2007), artista.
  • Marshall Blueberry (3 volumes, 2000), escritor.
  • Le Cristal Majeur (3 volumes, 1986 - 1990), escritor (artista: Bati), Paris: Dargaud.

[]Como Moebius

  • Le Bandard fou (Tradução inglesa, 1975), texto e arte.
  • Arzach (Tradução inglesa, 1976), texto e arte.
  • L'Homme est-il bon? (Tradução inglesa, 1977), texto e arte.
  • Le Garage Hermétique ("The Airtight Garage", Tradução inglesa, 1976-1980) texto e arte.
  • Les Yeux du Chat (1978), arte.
  • Tueur de monde (1979), texto e arte.
  • l'Incal ("The Incal", 6 volumes, Tradução inglesa, 1981-1988), arte.
  • Les Maîtres du temps ("Time Masters, 1982), arte.
  • Venise céleste (1984), texto e arte.
  • Le Monde d'Edena (1985-2001), texto e arte.
  • Altor (7 volumes, 1986 - ), texto.
  • Silver Surfer: Parable (Original em Inglês, com texto de Stan Lee, 1988-1989), arte.
  • Escale sur Pharagonescia (1989), texto e arte.
  • The Long Tomorrow (Original em Inglês, 1989), artist
  • Les Vacances du Major (1992), texto e arte.
  • Le Coeur couronné ("The Crowned Heart", Tradução inglesa, 1992), arte.
  • Les Histoires de Monsieur Mouche (1994), arte.
  • Griffes d'Ange (1994), arte.
  • Little Nemo (1994), texto.
  • Ballades (1 volume, 1995), arte.
  • Après l'Incal (2000 - ), arte.
  • Icare (2005), texto.
  • Halo Graphic Novel (Original em Inglês, 2006), arte.

 ]Cinema

No cinema, Giraud foi responsável pelo design, arte e/ou concepção visual dos seguintes filmes[1]

Bandes dessinées 

Article détaillé : Bibliographie de Jean Giraud.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Antero de Quental ~ O palácio da Ventura



Picasso


Sonho que sou um cavaleiro andante. 

Por desertos, por sóis, por noite escura, 

Paladino do amor, busca anelante 
O palácio encantado da Ventura! 



Mas já desmaio, exausto e vacilante, 

Quebrada a espada já, rota a armadura... 

E eis que súbito o avisto, fulgurante 
Na sua pompa e aérea formosura! 



Com grandes golpes bato à porta e brado: 

Eu sou o Vagabundo, o Deserdado... 

Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais! 



Abrem-se as portas de ouro, com fragor... 

Mas dentro encontro só, cheio de dor, 

Silêncio e escuridão - E nada mais!


Partilhado por Jorgete Teixeira

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Poemas contra a "evidência" (2)





Trabalhadores - Tarcíla

Vinicius de Moraes

Composição: Vinicius de Moraes
E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
- Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
- Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.
Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.
Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.
Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.
E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.
Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!
Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.
Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.
Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!
- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.
..
Castigo Corporal - Debret (Brasik)
Ruy Mingas: Monangambé
Poema- António  Jacinto
            
                                                
Monangambé
Naquela roça grande
não tem chuva
é o suor do meu rosto
que rega as plantações;
Naquela roça grande
tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue
feitas seiva.

O café vai ser torrado
pisado, torturado,
vai ficar negro,
negro da cor do contratado.
Negro da cor do contratado!

Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:

Quem se levanta cedo?
quem vai à tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendém?
Quem capina e em paga recebe desdém
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta angolares
"porrada se refilares"?

Quem?
Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer?
- Quem?
Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?

Quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande
- ter dinheiro?
- Quem?

E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:

- "Monangambééé..."

Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
Deixem-me beber maruvo
e esquecer diluído
nas minhas bebedeiras

- "Monangambéé...'"

António Jacinto (Poemas, 1961)
               

                       
NOTA:

Monangambé (O contratado) eram angolanos negros contratados para trabalhar nas roças dos brancos, na era colonial. Por vezes, em províncias de Angola bem distantes dos locais onde viviam. Deixavam as famílias para trás e iam ganhar a vida.


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