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terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Uma cónica de Carlos Coutinho

* Carlos Coutinho
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Também é público e notório que a Esmeralda nunca perdoou a quem a quis batizar com o nome de Eleutéria, nome quase imposto pelo padre Adérito que era caçador, poeta e dono de um falcão adestrado na captura de perdizes e codornizes. Quando não encontrava alguma destas aves cozinháveis, o passarão predador regressava à varanda do passal com um coelho nas garras ou até com uma pomba, o que dava alento ao guloso e incontível abade para mais um soneto.  

   Ainda conheci este insigne clérigo, já um pouco marreco, que era de Pitões das Julianas, onde lhe ergueram uma estátua de granito, com um avejão indefinível cravado no ombro esquerdo, caneta na mão e a escrever num calhau aplanado em cima dos joelhos. Até morrer, não parou de mergulhar no oceano da terminologia, tendo deixado uma caixa de pinho cheia de dicionários e sebentas universitárias, enciclopédias, desenhos medíocres e um ror de folhas de papel amarelecido com o produto das suas escavações idiomáticas.

   Numa ainda se pode ler que qualquer palavra é um depósito de factos, atos, conceitos e crenças, inteiros uns, esgarçados outros, mas todos caldeados sem acasos nem incúrias, fazendo um étimo que hoje pode ter o significado oposto ao que teve há mil anos ou a menos de um século.

   Exemplos: aro, birra, clister, derrancado, etc.

   De facto, aro tanto pode ser uma palavra infeliz que perdeu a última sílaba por ação conspirativa dos alérgicos a perfumes, como nomear um pequeno arco, um anel, um círculo e até uma argola de certos jogos de bola, ou parte da armação dos óculos que circunda a lente. Em mecânica designa o guarnecimento anelar de uma roda. 

Já a birra, a que alguns também chamam chilique, é uma explosão emocional por vezes caraterizada por teimosia, choro, gritos, violência, desafio, reclamação furiosa, resistência a tentativas de pacificação e, em alguns casos, golpes ou outros comportamentos fisicamente violentos. O controlo físico pode ser perdido; a pessoa pode não conseguir ficar parada; e, mesmo que o objetivo seja alcançado, os birrentos nem sempre podem ser acalmados. 

   Quanto a clister, eu sabia que se trata de é um procedimento em que se utiliza água ou alguma outra substância com o objetivo eminentemente entérico de lavar o intestino, mas estava longe de imaginar há quem o designe por enema e mesmo por chuca, embora para todos seja uma injeção de líquido na parte inferior do intestino, com total desprezo pela douta sensibilidade do reto. 

   Na medicina tradicional, que nem sempre está errada, fiquei agora a saber, os usos mais frequentes de enemas são para aliviar a obstipação e para limpar o intestino, como meio de reduzir a termorregulação, como tratamento para encorpese e como forma de terapia de reidratação (protólise) em pacientes em que a terapia intravenosa não é aplicável.        

    Claro que isto não é coisa que se faça às grávidas, nem que se trate de gatas ou de cadelas, porque, além de merecerem o nosso maior respeito, já têm toda aquela região monopolizada pelas humidades deslizantes dos respetivos fetos.

De derrancado também há muito que pôr em questão, porque, embora seja um adjetivo pacífico, pode eventualmente ser um particípio verbal muito discutível. Comecei por conhecer o termo como sinónimo de raivoso, furioso incontrolavelmente bruto, mas agora vêm os dicionários dizer-me que é o “que ganhou ranço” ou está “apodrecido”, ou, pior ainda, “arruinado”.

   Dizem-me também que, em sentido figurado, é “o que se degradou moralmente”, além de que existe uma expressão regionalista que trata assim os hidrófobos, como, por exemplo, os gatos escaldados que, como é sabido, até da água têm medo.

É bom ter conhecido, mesmo na infância, um padre caçador e poeta que fazia o que queria com o seu falcão adestrado e clericalista. 

   P.S. – Pior ainda: em Urtigais do Vale, ora como adjetivo, ora como substantivo, tanateiro é quem fala de mais e este termo é, sobretudo, aplicado a rapariguitas que se pronunciam infatigavelmente sobre tudo e mais alguma coisa, apesar de Tanatos (Θάνατος), na mitologia grega, ser a personificação da morte, reinando Hades sobre os mortos no mundo inferior. Este nome foi transliterado em latim como Thanatus e o seu equivalente na mitologia romana é Mors ou Letum (Morte ou Leto).

2026 01 06

https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896

segunda-feira, 17 de março de 2025

António Rodrigues - “Mulheres” é uma das palavras censuradas pela Administração Trump

 

EUA 

Médicos de Harvard apresentam queixa na justiça pelo desaparecimento de ensaios de um site médico federal. Departamento de Defesa manda militares apagar milhares de fotos e textos.

António Rodrigues 

16 de Março de 2025, 17:39

No final deste artigo, veja a lista de palavras coligida pelo New York Times

Investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard apresentaram queixa na justiça na semana passada por causa da decisão da Administração Trump de fazer desaparecer uma série de artigos destinados a investigação médica do site governamental Patient Safety Network. Dizem os médicos que ensaios científicos com palavras como “trans” ou com a sigla LGBTQ foram pura e simplesmente apagados.

A ferramenta online destina-se aos profissionais de saúde e visa partilhar informações sobre erros médicos, diagnósticos erróneos e resultados de tratamentos. No entanto, por mais que a saúde precise de informação para trabalhar, o uso de determinadas palavras, mesmo em documentação científica, choca com as directrizes da Administração Trump no domínio da linguagem.

Há dias o New York Times trazia uma lista de quase 200 palavras proibidas que havia compilado de directivas e emails internos partilhados por membros do Governo. E a palavra “trans” e a sigla LGBTQ figuram nessa lista, junto com "racismo" e "anti-racismo", "diversidade", "igualdade", "discriminação" ou "discriminatório", expressões como "biologicamente feminino" ou "biologicamente masculino", "discurso de ódio", "pessoa que amamenta", "apropriação cultural", etc., etc.  

Em declarações à plataforma GBH, Cneleste Royce, professora assistente de obstetrícia, ginecologia e biologia reprodutiva na Faculdade de Medicina de Harvard, mostrava-se chocada pelo desaparecimento súbito de um artigo, escrito há cinco anos, de que tinha sido co-autora. “Não me lembro de nada no artigo que possa ser controverso, para além do facto de se centrar na saúde das mulheres. E, sabe, acho que 'mulheres' é uma das palavras que está a ser censurada nessa lista”, disse.

E Celeste Royce tem toda a razão, a palavra “mulheres” faz parte da lista das palavras censuradas, tal como "fêmea", "fêmeas" e "feminismo". Para o acaso de alguém perguntar, a palavra “homens” ou “macho”, “machos” ou “masculinidade tóxica” não constam da lista ou expressões a silenciar.

"Golfo do México"

Na lista também consta a proibição de utilizar Golfo do México para designar o Golfo… do México. No seu primeiro dia de regresso ao cargo de Presidente, Trump emitiu uma ordem executiva a nomeá-lo Golfo da América, como se a toponímia pudesse variar quando uma pessoa quisesse. Mas, pelos vistos, nestes estranhos tempos em que nos toca viver, isso acontece e a uma velocidade estonteante.

Ainda não pssados dois meses desde que Trump tomou posse e o Departamento de Educação do Luisiana, estado que até agora era banhado pelo Golfo do México, já passou a incluir, desde a passada quarta-feira, no programa para as escolas primárias e secundárias que à costa do estado chegam agora as águas do Golfo da América e não do México.

“O Golfo é um motor de sustentação para o Luisiana – ajuda a alimentar o nosso sector energético e a indústria alimentar e de marisco e sustenta gerações de famílias”, afirmou Cade Brumley, superintendente de Educação do estado, que recomendou a alteração curricular, em declarações disponíveis no site do Departamento de Educação estadual. “A actualização dos nossos padrões académicos garante o alinhamento com a liderança do Presidente Trump e do governador Landry, ao mesmo tempo que reforça a importância do golfo para o futuro do nosso estado.”

É prática comum dos novos governos, nos Estados Unidos e noutros países, estabelecerem directivas sobre os termos da sua comunicação oficial, mas a longa lista de palavras censuradas por esta nova Administração mostra que a guerra contra aquilo a que chamam mentalidade woke assentou arraiais no executivo.

Como refere o New York Times, as palavras e frases listadas “representam uma mudança marcada – e assinalável – no corpus da linguagem utilizada tanto nos corredores do poder do Governo federal como entre os seus funcionários. São um reflexo inequívoco das prioridades desta administração.”

Desde “preconceito” ou “preconceituoso”, passando por “ciências climáticas”, “desfavorecido” ou “património cultural”, até acabar em “nativo americano” ou “multicultural”, o caderno censório da Administração Trump é alargado no léxico, mas transparente na ideologia.

"Enola Gay"

Timothy Noah, num artigo publicado na semana passada na New Republic, confirmava que a lista do New York Times não era exaustiva, tal como os autores do artigo salientavam, lembrando que o secretário da Defesa, Pete Hegseth, havia acrescentado Enola Gay à lista de expressões censuráveis, apagando assim o nome do avião que lançou a primeira bomba atómica (Hiroxima) dos sites oficiais. E com ele, provavelmente, o grande êxito homónimo dos Orchestral Manoeuvers in the Dark.

Hegseth, homem com longo passado de alcoolismo, acusações de assédio sexual e suspeitas de abusos de mulheres, pode até concordar com o bombardeamento de Hiroxima, o que não considera adequado é usar a palavra “gay” no nome do avião. “O lançamento da primeira bomba atómica foi durante muito tempo objecto de controvérsia, mas nunca por ter sido woke”, diz Noah.

De acordo com Associated Press, Hegseth enviou uma directiva às chefias militares a pedir que fossem apagadas pelo menos 26 mil imagens ou textos que constam dos sites oficiais, mas o número pode ascender a 100 mil.

“Referências a um galardoado com a medalha de honra da Segunda Guerra Mundial, ao avião Enola Gay que lançou uma bomba atómica sobre o Japão e às primeiras mulheres a passar o treino de infantaria dos fuzileiros navais estão entre as dezenas de milhares de fotografias e publicações online marcadas para serem eliminadas, à medida que o Departamento da Defesa trabalha para eliminar conteúdos sobre diversidade, igualdade e inclusão”, escreve a agência.

Até palavras aparentemente neutrais como "institucional" fazem parte da lista termos indesejados por esta nova Administração dos EUA. “Todos sabemos que Trump está determinado a destruir todas as instituições governamentais a que consegue deitar a mão, mas proibir a própria palavra eleva as coisas a um nível superior de fanatismo”, conclui Timothy Noah.



https://www.publico.pt/2025/03/16/mundo/noticia/

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Manuel Beninger - A influência Árabe na Língua Portuguesa

* Manuel Beninger  · 

O Português é uma língua derivada de dialectos latinos, românicos peninsulares que resultaram da mistura do “latim vulgar”, falado pelos soldados romanos, com os dialectos locais existentes na Península Ibérica à data da sua ocupação. 

O Português, primitivamente Galaico-português, formou-se directamente a partir do Leonês ou Asturo-Leonês, e tem como substrato a língua nativa dos Galaicos, Lusitanos, Célticos e Cónios.

O Português sofreu inevitavelmente a influência da Língua Árabe, influência que ultrapassa em muito a extensão que a maioria dos autores referem, não só em termos de “marca” no seu léxico, como da própria forma como se opera.

Adalberto Alves, no seu “Dicionário de Arabismos na Língua Portuguesa”, esclarece que a influência da língua Árabe, para Alem dos seus aspectos evidentes ou visíveis, ou seja, do léxico Árabe directamente transposto para o português, deve considerar todos aqueles que chegam ao português de forma “encapoçada”, através da tradução de textos Árabes por religiosos cristãos,”.

Assim, a extensão da influência do Árabe no Português, que a maioria dos autores resumem a cerca de 1.000 substantivos, deve ser consideravelmente alargada, não só no seu número, que segundo Adalberto Alves é de 18.073 termos, como ao nível gramatical, já que inclui não só substantivos, como adjectivos, verbos, pronomes, artigos e interjeições.

A influência do Árabe no Português é bastante mais marcada do que no Castelhano ou no Catalão, línguas que, localizando-se geograficamente mais próximas de França recebem a sua influência direta e têm um efeito de tampão no Português. A título de exemplo refira-se que aos 18.073 termos que o Português recebeu correspondem cerca de 4.000 termos recebidos pelo Castelhano.

Convém esclarecer que a arabização da Península não impôs nem a religião Muçulmana nem a língua Árabe como únicas, mantendo-se “ativos” durante o período do Al-Andalus os dialectos moçárabes e o Hebreu, que aportaram termos próprios ao Português.

Até 1496, data do decreto de expulsão das minorias muçulmana que não aceitaram a conversão forçada ao cristianismo, o processo de influência do Árabe no Português persiste, não só nas chamadas “ilhas muçulmanas em território português”, as mourarias, como através da influência sofrida em Marrocos pelos portugueses via “Mouros de Pazes”.

Com a instituição do terror da Inquisição em 1552, o Árabe é proibido, reduzindo-se à sua expressão mínima e clandestina, a escrita “aljamiada”. Inicia-se então um período de expurgação de tudo o que é ou soa a Árabe.

Apesar dos mais de 500 anos que durou a presença Árabe em Portugal essa influência refere-se essencialmente ao léxico, pelo que não se pode falar de uma influência estrutural. Um aspecto extremamente relevante é o da adopção de muitos termos Árabes na formação do calão português, a chamada “gíria dos rufiões“, que no período da inquisição terá tido grande incremento através da utilização de expressões e termos encapoçados pelos mouriscos e cripto-muçulmanos.

Antes de mais uma referência a quatro exemplos paradigmáticos e que fazem supor que algumas expressões de caracter religioso perduraram pelo engenho popular:

Oxalá (law xá Allah ou incha Allah, se Deus quiser).

Olá (wa Allah, Deus, saudação).

Olé (wa Allah, Deus, interjeição utilizada como aplauso ou incentivo).

Olarilolé (la illaha ila Allah, não há divindade senão Deus, profissão de fé muçulmana).

A grande maioria dos substantivos começa com o artigo definido Al (o ou a), muitas vezes com o l assimilado à consoante inicial do substantivo, concretamente quando esta é uma consoante solar. No alfabeto Árabe não existem vogais, mas apenas consoantes, e as consoantes dividem-se em consoantes lunares e consoantes solares.

As consoantes lunares não têm influência na pronúncia do l do artigo Al, quando constituem a letra inicial da palavra, como por exemplo em Alferes (o cavaleiro), Almeida (a mesa) ou Alcântara (a ponte). Mas as consoante solares quando colocadas na mesma posição assimilam o l do artigo Al, duplicando o seu valor.

Por exemplo Azeite escreve-se Alzeite em Árabe, mas pronuncia-se Azzeite pelo facto de o z ser uma consoante solar. Daí a origem de termos como Azulejo, Açorda ou Atalaia.

Outras formas comuns de início de termos de origem Árabe são as palavras que começam por x (Xadrez, Xarope ou Xerife) ou por enx (Enxaqueca, Enxoval ou Enxofre).

Outras palavras são caracterizadas pela terminação, como as que terminam em i (Javali, Mufti ou Sufi), em il (Cordovil, Mandil ou Anil), em im (Alecrim, Carmesim ou Cetim) e as terminadas em afe ou aque (Alcadafe, Almanaque ou Atabeque).

Algumas consoantes Árabes não entram nos vocábulos portugueses por uma questão de não se adaptarem à forma de pronunciar do português, como o h que geralmente se transforma em f, como em Alfama (do Árabe Alhammam), Alfazema (do Árabe Alhuzaima) ou Alface (do Árabe Alhassa).

Saloio é a designação dos muçulmanos expulsos de Lisboa após a sua conquista pelos portugueses, que se instalaram na área rural situada a Norte e Poente da cidade; a origem do termo não reúne consenso, sendo a explicação mais plausível a que defende que deriva da palavra صلاة“salat” ou “oração”, já que designava aqueles que rezavam 5 vezes por dia “fazendo o çala”, e que eram chamados na época “çaloyos”; esta seria a origem de “çalayo”, nome do imposto pago sobre o pão na região de Lisboa; outra explicação é a origem do termo na palavra ساحلي “saheli”, que significa “habitante do litoral”; outra ainda é a origem em سلاوي “salaui” ou habitante da cidade marroquina de Salé, designação local para a população rural.

Os substantivos podem ser agrupados em várias categorias, maioritariamente relativas a inovações ou contributos que os Árabes introduziram na nossa sociedade, e a topónimos, que se observam de Norte a Sul do País e que muitas vezes aportam informações sobre o passado das próprias localidades.