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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Arte e Poesia em Modus Vivendi

Paul Signac

Signac.jpg
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dia ideal para combater moinhos de vento
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Devias estar aqui

Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um
- Eu vi a terra limpa no teu rosto,
Só no teu rosto e nunca em mais nenhum
.
Eugénio de Andrade
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10 de janeiro de 2010

Nada é impossível de mudar

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.
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Bertold Brecht
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09 de janeiro de 2010

Faz-me o favor

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.
É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.
Tu és melhor -- muito melhor!--
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.
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Mário Cesariny
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Albert Lynch

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antevisão da primavera distante
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Melodia

Este é o orvalho dos teus olhos.
Esta é a rosa dos teus vales.
O silêncio dos olhos está no silêncio das rosas.
Tu estás no meio,
entre a dor e o espanto da treva.
Arrancas-te ao mundo e és a perfumada
distância do mundo.
Chego sem saber, à beira dos séculos.
Despenho-me nos teus lagos quando para ti
canta o cisne mais triste.
O pólen esvoaça no meu peito, junto às tuas
nuvens.
Esta é a canção do teu amor.
Esta é a voz onde vive a tua canção.
As tuas lágrimas passam pela minha terra
a caminho do mar.
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José Agostinho Baptista
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08 de janeiro de 2010

Hoje

lgbt.jpg
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porque é um dia especial
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Por Ana Roque às 17:49 de 08 de janeiro de 2010 |
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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Arte e Poesia em Modus Vivendi


03 de dezembro de 2009

Paul Cesar Helleu

Helleu%20Paul%20c.jpg
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de traços bem marcados, olhos abertos para um novo dia
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Chuva

Ela vem como quem não quer
Mas firma devagarinho
Com promessas de mais crescer.
Murmura umas distâncias remotas
E joga meu olhar distraído
Para bem longe daqui.
Lá onde pontos de luz no horizonte
Iluminam de prata o verde da grama
E pingam na minha vida
Uns lampejos que dançam irrequietos
Nos olhos, nos vidros, no coração
Na fantasia de um querer sem lógica.
Ribomba nostálgico das profundezas
O trovão do meu peito
Alcançando estas novas mágoas
Em águas que a ideia traz:
É ela, é ela, cabelos molhados
Súbito relâmpago de um corpo nu.
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Fábio Afonso de Almeida
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02 de dezembro de 2009

Albert Lynch

Albert_Lynch5.JPG
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ambição: ter vinte anos e saber tanto quanto meio século depois...
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01 de dezembro de 2009

Under A Hat Rim

While the hum and the hurry
Of passing footfalls
Beat in my ear like the restless surf
Of a wind-blown sea,
A soul came to me
Out of the look on a face.
Eyes like a lake
Where a storm-wind roams
Caught me from under
The rim of a hat.
I thought of a midsea wreck
and bruised fingers clinging
to a broken state-room door.
.

Carl Sandburg

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num dia em que merece homenagem
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O silêncio: lugar habitado

(gentileza de Amélia Pais)
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Em litorais longínquos
as mulheres deitam-se sobre a areia
junto à rebentação das ondas.
Com os braços em cruz
afastam as embarcações costeiras
e aguardam que a lua inteira
inicie um inesperado bailado
perto de suas bocas.
E não há âncora nem cais
que emudeça o júbilo dos mastros.
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Graça Pires 
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30 de novembro de 2009

Paul Cesar Helleu

paul-cesar-helleu-artwork.jpg
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requebro ao fim da tarde

Passado

Remexo o passado: amasso papéis
ao lixo. Desconsidero. Ocorro saber
sobre o nada. Esconder em histórias
a fantasia do homem em glórias.
Remexo instantes e receio séculos
de ignorâncias. Futuro atravessado
à passagem. Interrompo o andarilho
e o desconsidero como obstáculo.
Recrio o passado em inversões
necessárias à sobrevivência: sou
o personagem
e minha é a lástima.
Repasso atos reproduzidos
em cadáveres e me vejo
olhar aquém da importância.
Remexo o suficiente para me dizer perdido
em amizades: ouso esquecer a cena
dissolvida em homenagens.
.
Pedro Du Bois
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Arte e Poesia em Modus Vivendi

10 de dezembro de 2009

Encontro

Encontro de duas mãos
que procuram estrelas,
nas entranhas da noite!
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Juan Ramón Jiménez
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09 de dezembro de 2009

Chamamento

Quando eu estiver com as raízes
chama-me com tua voz.
Irá parecer-me que entra
a tremer a luz do sol.
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Juan Ramón Jiménez
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08 de dezembro de 2009

Bartolomé Esteban Murillo

Murillo-Our-Lady-of-the-Immaculate-Conception.jpg
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Nossa Senhora da Imaculada Conceição
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Ondulação

O luar ondula
fluindo e refluindo
para não acabar a maré cheia
nesta praia onde
ponderável eu me encontro indo
— o pensamento em rumos ignorados
e ao sabor dos presságios. . .
Em breve, à minha volta no areal,
esperanças, de branco, vaporosas,
chorando alto naufrágios
à vista da magia de seus mundos,
com suas lágrimas,
quais enxadas na terra, poderosas,
cavarão sulcos fundos.
E elas ali se hão de enterrar
quando o luar fugir...
Mas com elas enterrarei os meus insultos
à minha nobre angústia de vibrar,
à minha vã desgraça de sentir!
.
Edmundo de Bettencourt
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07 de dezembro de 2009

Paul Signac

signac.jpg
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magia, sonho ou pesadelo?
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O Intenso Brilho

É impossível no mundo
estarmos juntos
ainda que do meu lado adormecesses.
O véu que protege a vida
nos separa.
O véu que protege a vida
nos protege.
Aproveita, pois,
que é tudo branco agora,
à boca do precipício,
neste vórtice
e fala
nesta clareira aberta pela insônia
quero ouvir tua alma
a que mora na garganta
como em túmulos
esperando a hora da ressurreição,
fala meu nome
antes que eu retorne
ao dia pleno,
à semi-escuridão.
.
Adélia Prado
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Casamento

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinho na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
.
Adélia Prado
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06 de dezembro de 2009

Louis-Edouard Dubufe

Dubufe_Edouard_Louis_Portrait_D-Une.jpg
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contenção decidida
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O vestido

No armário do meu quarto escondo de
tempo e traça meu vestido estampado em fundo preto.
É de seda macia desenhada em campânulas vermelhas à ponta de longas hastes
delicadas.
Eu o quis com paixão e o vesti como um rito, meu vestido de amante.
Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido.
É só tocá-lo, volatiza-se a memória guardada:
eu estou no cinema e deixo que segurem minha mão.
De tempo e traça meu vestido me guarda.
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Adélia Prado

O Som Revisto

A porta presa
em pedra
aguarda a força
do vento.
mão revisita o tampo da mesa
e a cabeceira reduz o espaço
entre o passado
e o aparente
esforço: fechar a porta
na passagem
do corpo.
O som revisto da pedra
enquanto retirada.
.
Pedro Du Bois
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05 de dezembro de 2009

Meditação

à beira de um poema
Podei a roseira
no momento certo
e viajei muitos dias,
aprendendo de vez
que se deve esperar biblicamente
pela hora das coisas.
Quando abri a janela, vi-a,
como nunca a vira
constelada,
os botões,
Alguns já com rosa- pálido
espiando entre as sépalas,
jóias vivas em pencas.
Minha dor nas costas,
meu desaponto com os limites do tempo,
o grande esforço para que me entendam
pulverizam-se
diante do recorrente milagre.
maravilhosas faziam-se
as cíclicas perecíveis rosas.
Ninguém me demoverá
do que de repente soube
à margem dos edifícios da razão:
a misericórdia está intacta,
vagalhões de cobiça,
punhos fechados,
altissonantes iras,
nada impede ouro de corolas
e acreditai: perfumes.
Só porque é setembro
.
Adélia Prado
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Albert Lynch

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retrato simples de jovem mulher sofisticada
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Separação

Isso é uma declaração de amor:
Declaro que te quero
E isso é claro como meu desejo.
Declaro que te admiro
Todo ato teu me é visível, claro.
Declaro que cresço a cada passo
Que nossas mãos, dadas, acompanham.
Declaro que sou tua
Livremente e espontaneamente tua,
Como só meu sentimento puro
Pode lindamente me levar a ser.
Declaro que sou uma, única
E que és igualmente único para mim
Como derivados da mais pura diversidade.
Declaro toda inspiração a que me inspiras
Levando-me através da mais completa fantasia.
Declaro minha loucura
Que assim retorna mansamente
E torna essa declaração
Declaração de independência.
.
Adriana Sampaio
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04 de dezembro de 2009

Não reparei em ti

Não reparei em ti
Todos os dias me cumprimentaste
Nunca olhei para ti
Pelo meu nome gritaste
Nunca te respondi
Agora que me abandonaste
Todos os dias choro por ti.
.
Manuel Pinto
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Corpo cansado

Fatigado, o corpo deixo-o cair por entre os véus
Com os braços prostrados sobre o ventre
Assim permaneço
Sem que o tempo ocupe espaço
Os olhos deixo-os seguirem o seu rumo
Como a folhagem de Outono também eles caem e se fecham
Não sei se acordada ou a dormir
Reclino a cabeça deixando os cabelos caídos pelo chão
Sonho
Viajo para uma noite de Verão em que o horizonte te traz
E contigo vem toda a vontade e loucura
Que tornou a distância vazia
Ou a estrada um paralelo que se cruza
Contigo vieram histórias e narrativas
Dúvidas que metamorfoseamos em verdade
Mãos que se tornam asas
E gestos incessantes que depravam, viciam e seduzem
Contigo veio também o destempero
De querer consumir num momento
Tudo aquilo que não cabe numa vida
.
Madalena Palma
.
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terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Arte e Poesia em «Modus Vivendi»

30 de novembro de 2009

Paul Cesar Helleu

paul-cesar-helleu-artwork.jpg
.
requebro ao fim da tarde

Passado

.
Remexo o passado: amasso papéis
ao lixo. Desconsidero. Ocorro saber
sobre o nada. Esconder em histórias
a fantasia do homem em glórias.
Remexo instantes e receio séculos
de ignorâncias. Futuro atravessado
à passagem. Interrompo o andarilho
e o desconsidero como obstáculo.
Recrio o passado em inversões
necessárias à sobrevivência: sou
o personagem
e minha é a lástima.
Repasso atos reproduzidos
em cadáveres e me vejo
olhar aquém da importância.
Remexo o suficiente para me dizer perdido
em amizades: ouso esquecer a cena
dissolvida em homenagens.
.
Pedro Du Bois
.

29 de novembro de 2009

O outro lado V

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Despedi-me de ti há pouco tempo,
mas continuo a ver-te, ignorando
por que me agrada ainda a sensação
de ter morrido mais um pouco. A vida
vai arrastar-me ao longo de outras vidas
entre o maelström dos bares onde irei afogar
esta ansiedade exausta – não é grave,
eu sei que não é grave e que entre nós
há-de restar p'lo menos a sombra de um anjo
que nos segrede uma palavra mágica
e saiba prolongá-la em tudo o que algum dia
- talvez daqui por meses, anos, séculos –
ainda formos capazes de sentir.
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Fernando Pinto do Amaral
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Paul Cesar Helleu

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fim de tarde
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Clássico

Deixarás de temer quando deixares de ter esperança.
Séneca
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O outro lado IV

Não hei-de conseguir: por mais que tente,
por mais que me desprenda ou desaprenda
os ritos e os ritmos do corpo ou da alma,
hei-de lembrar-me dos teus olhos vagos
e hei-de supor que estavam procurando
dizer-me qualquer coisa. Apenas o silêncio
poderia falar como eles
nessa plena doçura de existir
na maior paz do mundo. E contudo, p'ra mim
cada palavra se conjuga sempre
com outras palavras, e assim por diante
até ao infinito, até formarem
por exemplo um poema como este
- inútil quer p'ra mim, quer p'ra ti
ou p'ra qualquer leitor que nele ainda
pretendesse encontrar alguns vestígios
dessa tão pobre e má sabedoria
à qual, já só por hábito literário,
gostamos de chamar o coração.
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Fernando Pinto do Amaral
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28 de novembro de 2009

Albert Lynch

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elegância (quase) intemporal
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O outro lado III

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Aquilo que vislumbro a esta hora
são rápidos reflexos de uma silhueta
que só podes ser tu
entre o céu e o mar, nessa noite
de lua cheia, quando abandonámos
um restaurante junto ao Guincho. Eu queria
ficar também assim, unir-me devagar
à linha do horizonte, sem saber
distinguir as fronteiras de coisa nenhuma.
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Fernando Pinto do Amaral
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Herbert Schmalz

Herbert_Schmalz.JPG
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quase no inverno...
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27 de novembro de 2009

O outro lado II

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Não há nada a fazer, no entanto:
o facto é que, apesar de algum amor,
eu não me chamo Pedro,
mas sou ainda demasiado humano
para me libertar. Ainda não despertei,
ainda não tenho trinta e cinco anos
como Siddharta no momento em que
terá visto o vazio, escutado o inaudível.
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Fernando Pinto do Amaral
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Albert Lynch

Albert_Lynch1.JPG
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porque a primavera há-de voltar...
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O outro lado I

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Não consigo dormir. Há poucas horas
despedi-me de ti - «every time
we say goodbye I die a little».

Devo habituar-me
às fases dessa lua a que obedeces,
às estranhas marés de cada instante
que tu sabes viver como se fosse
o único, o melhor da tua vida
isente de remorsos e de apegos,
tão próxima de tudo. A minha dor
vai-se apagando à medida que um anjo
desce ao meu quarto e começa a torná-lo
fugaz imitação de um paraíso
em que até o meu nome se alterasse.
.
Fernando Pinto do Amaral
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Paul Cesar Helleu

Paul_Cesar_Helleu.JPG
onda em tons de vermelho
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Arte e Poesia em «Modus Vivendi»

Poetry And Religion

Religions are poems. They concert
our daylight and dreaming mind, our
emotions, instinct, breath and native gesture
into the only whole thinking: poetry.
Nothing's said till it's dreamed out in words
and nothing's true that figures in words only.
A poem, compared with an arrayed religion,
may be like a soldier's one short marriage night
to die and live by. But that is a small religion.
Full religion is the large poem in loving repetition;
like any poem, it must be inexhaustible and complete
with turns where we ask Now why did the poet do that?
You can't pray a lie, said Huckleberry Finn;
you can't poe one either. It is the same mirror:
mobile, glancing, we call it poetry,
fixed centrally, we call it a religion,
and God is the poetry caught in any religion,
caught, not imprisoned. Caught as in a mirror
that he attracted, being in the world as poetry
is in the poem, a law against its closure.
There'll always be religion around while there is poetry
or a lack of it. Both are given, and intermittent,
as the action of those birds - crested pigeon, rosella parrot -
who fly with wings shut, then beating, and again shut.
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Les Murray
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26 de novembro de 2009

Adolphe Etienne Piot

Etienne_Adolphe_Piot__2.jpg
um momento, uma pausa, uma expressão

a day or two

Baffled for just a day or two—
Embarrassed—not afraid—
Encounter in my garden
An unexpected Maid.
She beckons, and the woods start—
She nods, and all begin—
Surely, such a country
I was never in!
.
Emily Dickinson
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25 de novembro de 2009

Charles Lidderdale

Charles_Lidderdale1.JPG
um certo orgulho
.

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Tua mão

Com uma das mãos sobre o meu corpo
vais dormir em paz
não consigo dormir, por isso
o peso leve da mão
aos poucos passa a ser de chumbo
a noite é longa
permaneces no mesmo lugar
essa mão só pode ser afeto
talvez tenha outro significado secreto
Não ouso afastá-la
nem acordar-te de repente
quando me acostumo e me afeiçoo a ela
em sonho tu a recolhes, súbito
e ignora tudo
.
Han Dong, trad. Régis Bonvicino e Yao Feng
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24 de novembro de 2009

Henry Tanworth Wells

Henry_Tanworth_Wells.JPG

.todo um perfil, à beira da noite
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Yes, the Fish Music

A trout-colored wind blows
through my eyes, through my fingers,
and I remember how the trout
used to hide from the dinosaurs
when they came to drink at the river.
The trout hid in subways, castles,
and automobiles. They waited patiently for the dinosaurs to go away.
.
Richard Brautigan
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23 de novembro de 2009

Albert Lynch

albert_lynch.jpg
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do olhar perdido
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Vento de Outono

(gentileza de Amélia Pais)
Vento de Outono, vento solitário,
Vento de noite,
Força obscura que se desprende
Do infinito e volta ao infinito,
Rodopia dentro de mim, conjura
Contra meu coração tua força,
Arranca de uma vez a casca
Do fruto que não madura.
.
Joan Vinyoli, trad. João Cabral de Mello Neto
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22 de novembro de 2009

Me, change! Me, alter!

Me, change! Me, alter!
Then I will, when on the Everlasting Hill
A Smaller Purple grows—
At sunset, or a lesser glow
Flickers upon Cordillera—
At Day's superior close!
.
Emily Dickinson
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Albert Lynch

Lynch_Albert_A_Young_Beauty_With_Fl.jpg
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jovem beldade oitocentista
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21 de novembro de 2009

Sobre o Gesto

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Além do gesto, senhora, a importância
decide a vida. Estrangula o choro,
refaz o sentido.
Senhora, o choro retrai
a angústia em restante medo.
Fosse o sono a dedilhar
a corda imensurável da música
de fundo, senhora. O choro
é o carrilhão desabalado do relógio
ao findar da corda.
.
Pedro Du Bois
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