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domingo, 15 de outubro de 2023

ISRAEL - Como entender o conflito israelo-palestiniano? Uma biblioteca breve pode ajudar

* Isabel Lucas 
(Público 15 de Outubro de 2023)
Ensaios históricos, filosóficos, romances, jornalismo. Os livros continuam a ser um refúgio para os que procuram entender o que parece sem sentido: a guerra.
Amos Oz costumava recorrer aos escritores russos para falar de amor e de guerra. Parecia que tinham a mesma natureza. Continham em si o conflito, a tensão, a potência da violência. Oz, o autor pacifista desaparecido em 2018, foi dos que escreveram mais sobre a cisão violenta entre Israel e a Palestina, partindo, quase sempre, do quotidiano e, através dele, dando a conhecer o que foram as últimas décadas na relação entre os dois povos. Como David Grossman ainda o faz. No ensaio, na história, proliferam títulos. Muitos não estão traduzidos, mas entre os que existem é possível fazer uma selecção breve, diversa, e entrar na complexidade que nos trouxe aqui, a este Outubro de 2023, a um dia 7 que vai ficar na história da humanidade, e do mal.
Desfazer de mitos
A ideia de que o Estado de Israel se instalou num território meio desolado, empobrecido, historicamente sem direcção, é discutida e desmontada num livro que contesta a narrativa oficial com base no sionismo. Os Dez Mitos Sobre Israel, da autoria do historiador judaico, dissidente sionista, Ilan Pappé (n. Haifa, 1954, professor na Universidade de Exeter, Reino Unido), foi publicado pela primeira vez nos 50 anos do aniversário de Israel e é um estudo profundo sobre uma terra disputada por muitos povos e de como milénios de história ajudaram a formar uma identidade. Profusamente documentado, este ensaio põe em confronto várias teses antagónicas sobre as suas origens e o percurso históricos e traz novas versões, perspectivas, textos, que permitem complexificar a interpretação tantas vezes simplista sobre o que divide israelitas e palestinianos neste momento da nossa história.
Dez Mitos sobre Israel
Autoria: Ilan Pappé
Tradução de Miguel Mata
Editora: Edições 70
240 págs., 17,90€
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Uma história longa
Como reacção ao recrudescer do movimento sionista que reclamava o direito a um país situado no lugar onde se situava a Palestina, o presidente da Câmara de Jerusalém escreveu então uma carta ao fundador do sionismo, alertando-o para os riscos que resultariam da escolha daquele lugar como a terra do povo de Israel. Ao contrário do que se dizia, a Palestina não era um território sem população e, a instalar ali o Estado de Israel, começava um processo de colonização não sem resistência. Palestina - Uma Biografia começa com esse episódio, narrado por um descendente do homem que assinou essa carta, o historiador americano-palestiniano Rashid Khalidi. Escritor, ensaísta, catedrático especialista em temas do Médio Oriente, Khalidi é um profundo conhecedor da realidade israelo-palestiniana e um opositor ao extremismo do Hamas. Aqui, temos não apenas uma narrativa de factos ordenados de forma cronológica, mas uma leitura apaixonante sobre o drama que alastra somando milhões de vítimas civis em décadas.
Palestina - Uma Biografia
Autor: Rashid Khalidi
Tradução de Carla Ribeiro
Editora: Ideias de Ler
404 págs., 19,99€
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O incómodo banal
Em 2021, o jornalista norte-americano de origem judaica Nathan Thrall publicava uma reportagem na New York Review of Books. Começava por contar o entusiasmo de uma criança palestiniana de cinco anos com o piquenique que iria fazer no dia seguinte com outras crianças da sua idade. Ele e o pai compraram comida. O jornalista especifica, dando detalhes de um quotidiano normal, antes de um acidente brutal que vitimou muitas crianças e feriu outras. O episódio serve ao jornalista para intercalar factos da vida de uma família com o horror do colectivo em que vivem israelitas e palestinianos, construindo um retrato lúcido, vivo, de uma realidade que banalizou o sofrimento tornando-o quase invisível até este momento, o momento em que o terror voltou com uma dose de violência inédita. Thrall humaniza-a e, com isso, escancara-a, tornando-nos insuportavelmente cúmplices.
Um Dia na Vida de Abed Salama
Autor: Nathan Thrall
Tradução de Sara Veiga​
Editora: Livros Zigurate
208 págs.,18,80€
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Que identidade?
“No nosso bairro o mundo era geralmente chamado ‘o grande mundo’, mas tinha também outros apelidos: esclarecido. Exterior. Livre. Hipócrita.” A voz é de uma criança que tenta situar-se num universo onde palestinianos e judeus sionistas se juntam e se dividem, ainda antes da II Guerra Mundial. Como partilham espaços culturais, ao mesmo tempo que se olham de lado nas ruas de Jerusalém. O romance autobiográfico de um dos grandes escritores israelitas, Amos Oz (1939-2018), tornou-se um clássico sobre o dilema que é sentir-se de duas culturas, uma identidade ferida por um autor-escritor que lutou pela paz, por um entendimento entre palestinianos e israelitas.
Uma História de Amor e Trevas
Autor: Amoz Oz
Tradução de Lúcia Liba Mucznick
Editora: D. Quixote
648 págs., 24,90€
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A banalidade insuportável
Em 1960, a filósofa e pensadora Hannah Arendt, judia, refugiada nos Estados Unidos, ofereceu-se à New Yorker para cobrir o julgamento de Adolf Eichmann. Nazi, um dos artífices do Holocausto, fora capturado pela Mossad a 11 de Maio desse ano em Buenos Aires e levado até à justiça do Estado de Israel. Seria julgado pelas maiores vítimas do horror da II Guerra Mundial. Da viagem de Arendt a Jerusalém, saiu uma série de artigos que deram origem a um livro publicado em 1962 e protagonizado por uma noção agora célebre: a banalidade do mal. Arendt, a partir do retrato que faz daquele homem em tribunal, e do modo como o Estado de Israel através dos seus juízes se comportou, defende que o mal está tanto no agressor quanto no agredido que usa no castigo a mesma violência que condena. Polémico, o livro tem feito escola e é um dos mais instigantes documentos sobre a natureza humana.
Eichmann em Jerusalém
Autor: Hannah Arendt
Tradução de Ana Correia da Silva
Editora: Ítaca
448 págs., 20€
https://www.publico.pt/2023/10/15/mundo/noticia/entender-conflito-israelopalestiniano-biblioteca-breve-ajudar-2066786

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Maria Stepánova: “O que Putin está a fazer é uma guerra de memória”


Entrevista Livros

Maria Stepánova: “O que Putin está a fazer é uma guerra de memória”

Aos 50 anos, Maria Stepánova é um dos nomes mais talentosos da actual literatura russa. Poeta, ensaísta, é autora de Memória da Memória, um livro desafiador de fronteiras de género.

Isabel Lucas

2 de Janeiro de 2023, 10:12


 Na sombra de um ensaio de Jacques Rancière, a narradora de Memória da Memória, lembra que “o objectivo da arte consiste em mostrar coisas invisíveis”. O seu único projecto literário em prosa passava por tentar dar visibilidade às pessoas da sua família no momento em que ela era a última dessa linhagem. “Parte substancial dos esforços dos meus avós foi feita precisamente para que ficassem invisíveis, para que alcançassem a imperceptibilidade almejada, para que se perdessem na obscuridade doméstica, para que se mantivessem afastados da grande história com as suas narrativas ultrapoderosas e os seus erros de milhões de vidas humanas.” Maria Stepánova, poeta, russa, 50 anos, pegou na invisibilidade da sua família e transformou-a num dos livros mais originais publicados neste ano em Portugal.

Apresentado como um romance, o livro funde ensaio, crónica, crítica de arte, poesia, num híbrido que é também um tratado político. Começa na intimidade de uma casa vazia. A dona, a tia Gália, morreu e deixou o pequeno apartamento atulhado de objectos de uma vida solitária. Ao lado da cama, uma arca escondia uma espécie de tesouro: diários de uma vida inteira, quase todos a elencar acontecimentos do quotidiano. “Era como se a intenção principal de cada apontamento, de cada volume preenchido ano a ano fosse precisamente a de deixar um testemunho seguro sobre a sua vida exterior, guardando a vida verdadeira, interior, para si própria. Mostrar tudo. Esconder tudo. Guardar eternamente.”

Os diários da tia Gália, no jogo de sedução entre o pouco que mostravam e o muito que ocultavam, servem a Maria Stepánova para iniciar o leitor no quebra-cabeças que se segue, evocando, em diferentes momentos da sua escrita fragmentária, trabalhos de outros autores como Todorov, Sontag, Celan, Pasternak, Pushkin, Borges, Proust, Barthes, Tolstói dependendo dos tópicos sobre os quais a sua reflexão incide: memória e linguagem, arte, política ou literatura.

O processo de escrita é o processo da sua reflexão, intimamente exposta, convocando os vários mecanismos de preservação da memória ao longo dos tempos — da imagem, à escrita, à oralidade, às redes sociais. E a certeza, logo no início: a de que nenhuma história chega até nós na íntegra. Isso não é impedimento para a busca. Só aumenta a ânsia da procura como refere a escritora nesta conversa a partir de Berlim, onde vive desde o início de Março, pouco depois de a guerra ter começado. “Nunca fez parte dos meus planos sair”, afirma ao Ípsilon um dia antes do Natal, num inglês carregado de sotaque russo, a língua que diz que deve ser reinventada porque se tornou uma língua de violência.

Ao colo está Rio Pequeno, a cadela que trouxe de Moscovo, a quem dirige palavras de conforto no mesmo russo com que escreve a sua poesia (tem cinco livros traduzidos em várias línguas fora do russo, sobretudo em inglês). Vê-a como uma forma de resistência.

Agora aprendeu a prosa, uma nova fisicalidade, o processo seduziu-a, e também na prosa fez piruetas com a forma. Evocando Sebald, escreve neste Memória da Memória: “Eu própria estou pronta a aceitar qualquer mistura do que existiu e não existiu, do documental e fictício”.

Memória da Memória saiu há cinco anos, chega agora a Portugal e ao lê-lo, com todas as menções à história do território que ele percorre, é inevitável não pensar no que está a acontecer actualmente e no significado que se acrescentou ao muito do que escreve. Isto remete a outra ideia: a da aparente circularidade ou repetição da história, neste caso a história da Rússia.

Sim. Para mim é um saber devastador. A Historia chegar ao ponto em que um homem parece replicar acontecimentos catastróficos. No decorrer da História somos atraídos por toda a espécie de coincidências e correspondências. Com a História russa essa tendência parece ser ainda maior. É uma dança onde há demasiada História. Mas resisto muito à ideia de que a Rússia tem uma tendência especial para reproduzir não exactamente os mesmos acontecimentos, mas talvez uma certa constelação, uma certa relação entre os que estão no poder e a população do país.

O facto de certos acontecimentos tenderem a repetir-se pode ser apenas um resultado natural do enquadramento imperial em que a Rússia existe. Mas fala-se numa espécie de maldição, e há pessoas que não param de se interrogar: será que a Rússia está condenada a este estado de opressão e repetição? A minha resposta foi sempre que não. Ninguém está condenado a repetir-se a si mesmo, e há sempre uma maneira de se sair disso. Por agora, vemos a Rússia e parte da Europa presas à mesma constelação. Mas tenho a sensação de que o que está a acontecer não é uma guerra contemporânea, não é explicável em categorias geopolíticas. É outra coisa. O que Putin está a fazer é uma guerra de memória.

A que chama guerra de memória?

Tenho pensado muito na memória da Guerra Fria, sobretudo em países como a Rússia ou a Polónia, que estão tentar construir uma memória completa ao adoptar uma certa versão da história e prometer uma pena para os que não a apoiarem ou para quem apontar incongruências acerca de alguns acontecimentos que não sejam reconhecidos pela polícia de estado. Por exemplo, a Polónia está a criminalizar todas as menções a cidadãos polacos envolvidos no Holocausto durante a ocupação alemã.

A Rússia está a prometer consequências sérias para aqueles que compararem a União Soviética dos anos trinta e quarenta à Alemanha de Hitler, ao ponto de a visão da História promovida pelo estado ser profundamente problemática para a população. Há uma guerra promovida por um estado e parte da população discorda do abuso de poder por parte desse estado; um abuso que se apoia na promoção de uma versão da História em relação ao país vizinho. E está a fazê-lo usando qualquer coisa parecida com a velha guerra de trincheiras.

Já não é a memória da Guerra Fria, mas continua a ser uma memória de guerra. Os métodos são bem arcaicos. Há um anacronismo nesta guerra. Não vemos drones, nem novos instrumentos de guerra. E sabemos que a Rússia soube usá-los na Síria. Mas agora o que fizeram foi praticamente uma encenação de algumas memórias, ou talvez de alguns filmes sobre acontecimentos da Segunda Guerra Mundial. Só que na Rússia. Ataques, bombardeamentos. Se no dia 7 de Agosto de 1941 começaram a bombardear Kiev, agora, uns oitenta anos depois, a Rússia volta a bombardear Kiev usando os mesmos métodos, a mesma lógica. É bizarro.

Memória da Memória

Autoria: Maria Stepánova
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra
Editora: Relógio d’Água
432 págs., 22€

 

Tenho a convicção de que Putin e os seus apoiantes estão profundamente insatisfeitos por viverem no século XXI. E não é que quisessem apenas viver no século XX, mas era mais fácil organizarem as suas máfias debaixo da mesa e continuarem como se nada fosse, numa sociedade em que não havia qualquer espécie de activismo, movimentos de mulheres, blá blá... Era apenas o grande jogo oligarca dos que estão no poder. Não sabemos o que vai sair daqui, mas acho que estamos sob uma grande ameaça.

No seu livro podemos falar de duas memórias paralelas: a colectiva e a privada. No modo como o lemos, começamos pela memória privada, a de pessoas da sua família, e dela viajamos pelo que podemos chamar de memória do mundo ou tentativa de indagação da memória do mundo. No fim do livro, a narradora escreve: “O herói imagina-se um produto da linhagem, o seu resultado imperfeito; mas na realidade ele é senhor da situação. A sua família fica entregue ao arbítrio do narrador, tudo se passará como ele o contar, os familiares são seus reféns.” E mais à frente: “O herói tenta fazer jogo duplo: comportar-se como os seus parentes sempre se comportaram — na sombra. Mas o autor não pode ficar na sombra; por mais que tente, este livro é sobre ele.” Não é sobre o herói porque ele não existe, mas sobre o autor, Maria Stepánova?

Esse pavor é meu. Este é um livro de não-ficção porque não inventei ou acrescentei qualquer espécie de enredo. Não é um trabalho de jornalismo, mas é uma tentativa de escrever o que aconteceu como aconteceu. Comecei a escrever fisicamente este livro quando tinha dez anos. No meu arquivo, havia um caderno escolar de 1982, e nas primeiras linhas preenchidas com a minha caligrafia colorida estou a lidar com os mesmos assuntos e muitas vezes com as mesmas histórias. Tentei escrever algumas histórias que a minha mãe me contou, mas eu queria era escrever um livro e tudo começou de forma muito pomposa. Claro que era um esforço tremendo, imenso, muito longe das minhas possibilidades.

Lembra-se das primeiras frases?

Ohh, não; não das palavras exactas. Esse livro está em Moscovo e agora estou em Berlim. Era pomposo de uma forma muito infantil, do tipo: “Eu, Maria Stepánova, estou aqui para escrever a história da nossa famosa família.” E a frase estava cheia de cores. Depois parei. Era demasiado. As expectativas acerca de mim mesma eram excessivas. Mas é estranho porque sempre soube que, em algum momento, iria escrever este livro, e não o olhava como parte do meu trabalho literário.

Tive necessidade de inventar um novo género em parte porque não gosto de restrições de género, mas também porque isso me aborrece. Enquanto alguém que vem de um país com regras restritas e cortinas de ferro sempre tentei transgredir. O original russo tem uma definição de género diferente

Porquê?
Porque sempre pensei em mim, acima de tudo, como poeta, e talvez quase de modo exclusivo. Quando me perguntavam o que pensava de escrever prosa respondia dizendo que a minha poesia tinha a quantidade necessária de prosa de que eu precisava. Portanto, não foi qualquer coisa que tivesse feito para mudar a minha presença na literatura. Talvez fosse o oposto, uma espécie de obrigação, uma coisa que sentia que devia há muito tempo à minha família e tinha de o fazer.

Claro que isso me interessava e desde criança fui recolhendo histórias dispersas em envelopes, pedaços de papéis, em diferentes blocos de notas. Precisava de juntar toda essa informação, como também as minhas próprias memórias. Resumindo, estava interessada, mas isso requeria muito esforço. Pelo meio percebi que teria de mudar a estrutura do livro e a minha abordagem. E tinha medo, porque quando comecei a pensar nisso tinha dez anos...

E refere que a sua mãe estava lá para lhe contar histórias. além disso, refere uma outra ideia de memória: “a memória tinha outro sentido, alheio para mim: não era um objectivo de uma viagem dolorosa, mas uma simples consequência da duração — a vida produzia-a como uma secreção, e esta engrossava-a com a passagem do tempo, sem incomodar ninguém.”
Antigamente a minha mãe estava viva, assim como muitos outros familiares. E eu podia sempre perguntar e ter uma resposta. Com o passar do tempo, já ninguém estava vivo. E quando fui pesquisar até as respostas que a minha família costumava ter, muitas não eram precisas e outras eram mesmo falsas. Por outro lado, havia muitos períodos de silêncio. A história do meu bisavô tinha muitos espaços em branco, outras vezes apareciam histórias muito distorcidas.

Depois do livro pronto voltei a consultar arquivos, mas não consegui nenhuma fotografia dele e continuo sem saber como morreu e quando morreu, o que é emblemático: ser capaz de encontrar algumas coisas, mas haver coisas cruciais que permanecem no escuro. Isso influenciou o conceito do livro. Quando eu era criança esperava um livro com uma narrativa linear e tornou-se evidente que não podia funcionar dessa maneira. Tinha de contar a história com todas as suas ausências, os seus espaços vazios. Por isso o livro é tão estranho.

É apresentado como um romance, mas desafia todos os géneros. Tem ensaios, memória, crítica de arte, poemas e uma estrutura fragmentada.

Tive necessidade de inventar um novo género em parte porque não gosto de restrições de género, mas também porque isso me aborrece. Enquanto alguém que vem de um país com regras restritas e cortinas de ferro sempre tentei transgredir. O original russo tem uma definição de género diferente. Em russo é roman; romance é uma obra local entendida como um cântico. Quis as duas coisas juntas. Tinha em mente o conceito de um romance familiar, onde uma pessoa de uma certa idade tenta inventar uma história para si e para a sua família, imaginando um enquadramento diferente que a torne mais excitante ou fascinante.

No caso, é complicado porque não é um romance convencional. Mas penso nele como qualquer coisa que tem um enredo e muitos contextos que se tornam vivos através da prosa. Se calhar por isso é um romance. E se for, então é um bildungsroman, um romance de formação; o género que descreve a evolução de uma pessoa de um ponto a outro, a jornada de uma pessoa através de factos, experiências, que mudam o seu comportamento ou atitudes. Nesse sentido, é um romance porque o que acontece à narradora através da viagem pela escrita da história da família alterou-a. Não sei se para melhor ou para pior. Mas é a história de uma pessoa.

A dado momento do livro a narradora acha-se diante de uma certeza, a da impossibilidade de contar aquela história.

Isso é que torna o trabalho fascinante. Quando estamos a lidar com a memória nunca sabemos quem está a enganar quem; a memória e a nossa obsessão com a memória alimentam-se de uma ânsia ou falta profundas; da ânsia de encontrar alguma coisa e de estabelecer algumas ligações com pessoas ou acontecimentos do passado. Mas sendo a ânsia tão profunda, a psique encontra maneiras de se enganar e de nos enganar na crença de que existe a solução para um enigma ou para uma falta.

Acho que não somos capazes de refazer o passado, mas que isso não nos deve impedir de continuar a tentar. O que importa é a ânsia, a procura e não o resultado. Sabemos que não somos capazes de ressuscitar os mortos. E sim, a nossa memória é sempre enganosa, muitas vezes totalmente ficcionada. Há uma história que gosto de contar e que li algures. Um estudante americano está a escrever um trabalho sobre a memória e regressa a casa dos pais para o Natal. Quer fazer uma experiência. A família está reunida à volta da mesa, estão a partilhar memórias e a dado momento o estudante pergunta se se lembram de quando ele se perdeu no supermercado aos quatro anos. Ninguém se lembrava, mas ele continuou a juntar detalhes até que alguém disse que se estava a lembrar, e mais alguém deu mais detalhes e ficaram convencidos que o incidente acontecera.

No dia seguinte o estudante disse que tinha inventado tudo e que o fez por causa de um trabalho em que queria mostrar como a memória podia ser traiçoeira; a família disse que ele estava enganado, que ele se tinha mesmo perdido aos quatro anos num supermercado, mas como não se lembrava, inventou-o baseado em memórias subterrâneas. Acho que é assim que a memória funciona. Começa a partir de nada, como uma pérola cresce numa concha. É impossível prever resultados, mas se há um grão de areia numa concha há a possibilidade de que ele se transforme.


Os seus novos poemas têm a ver com a guerra, os seus ensaios têm pensamentos políticos. Tudo é impublicável. Isto é uma coisa a que não está habituada. Era muito nova quando a União Soviética caiu e com ela caiu a censura Lorena Sopena/Europa Press via Getty Images

 

Há uma questão que atravessa o livro: “aquilo que resta de nós quando nós próprios deixamos de existir”? Porque é que esta pergunta é tão importante?
Acho que muitas vezes não tem resposta no mundo contemporâneo. Nos séculos anteriores era mais fácil as pessoas saberem, ou preverem; tinham uma fotografia mental do que lhes iria acontecer, o que iria acontecer às suas almas, o que iria acontecer aos seus corpos mortos e ao seu legado. Tudo estava claramente descrito. Parece um pouco contraditório, mas sem elas continuava a ser um mundo habitável, especialmente ao longo dos últimos dois séculos alguma coisa mudou na nossa relação com a morte.

Sebald escreve que estamos a atirar os nossos mortos cada vez para mais longe de nós, para fora das fronteiras do humano, para fora das cidades. Já não ficam ao lado da igreja mais próxima, mas numa qualquer cidade de pedra construída para eles, bem isolada, vedada, de modo a prevenir que os mortos saiam e voltem para nós. Tenho uma grande preocupação com a questão do legado humano num momento em que até o modo como controlamos a nossa própria vida deixa de nos pertencer. Hoje deixamos marcas por todo o lado, mas elas serão apenas lixo tal a profusão do arquivo. Quando somos escritores, os nossos parentes continuam a controlar os direitos sobre as nossas palavras, mas há qualquer coisa que não pode ser monitorizada e é essa a essência do ser humano.

Falou de Sebald. Mas há Proust, Borges, todos os escritores em que se apoiou e que trabalharam sobre a memória. Até que ponto eles a acompanharam neste trabalho?

É engraçado, nunca sabemos o suficiente acerca dos que nos são mais próximos. É natural. E pode parecer estranho, mas sabemos muito mais acerca de Proust ou de Sebald ou Tsvetáeva ou Borges do que sobre as nossas avós. Muitas pessoas têm a sorte de passar mais tempo com elas, mas ainda assim, as pessoas que estamos a ler tornam-se como que nossos parentes.

Essa ideia aparece logo no início do livro, quando a narradora descreve a entrada na casa da tia. “Os armários povoavam-se daqueles livros que, ao chegarmos de visita, cumprimentamos como parentes: Mataram a Cotovia, um Salinger de capa preta com a figura do rapaz, lombadas azuis da ‘Biblioteca do Poeta’, Tchékhov em cinzento, Dickens em verde.” Até que ponto essas memórias das leituras que fizeram nos podem ajudar a lidar com as nossas próprias memórias?

Acho essa pergunta muito bonita. De alguma maneira ajuda-nos a entender as nossas pessoas, os nossos familiares e o mundo em que viveram com uma maior lucidez. Quando temos de lidar com esses grandes espaços vazios a única coisa com que somos capazes de os preencher é com a memória de outras pessoas, porque viajaram pelos mesmos territórios, lidaram com sentimentos semelhantes, leram os mesmos jornais. São diferentes, mas em certa medida são os mesmos nesse sentido da partilha de experiências num momento; pertencem a essa imensa continuidade dos contemporâneos. Não são capazes de preencherem o vazio, mas ajudam-nos a explicar a nossa vida através das vidas dos que nos eram próximos. Não os usamos como um exemplo, mas como um corredor imaginário. É bom ter uma trajectória.

Escreve: “o ofício do observador é a apropriação / assimilação do alheio.” Esse é também o ofício do escritor que se quer apropriar do alheio e chegar a um sentido.

Talvez não seja chegar a um sentido, mas a alguma essência. Debaixo da roupa das nossas vidas existe um desejo profundo de nos tornarmos outra pessoa. Por isso é que nos sentimos tão envolvidos nas histórias de outras pessoas. Nos filmes, na literatura, jornais, blogues. Queremos ser qualquer coisa tão diferente que nem somos capazes de nos imaginar dessa forma. Mas ainda assim essa ânsia persiste, a ideia de uma transformação completa noutra pessoa, ou pode nem ser uma pessoa, pode ser um pássaro, uma vaca um extraterrestre. A ideia de deixarmos a nossa própria forma e transcender outra entidade é sedutora.

Fala em lacunas, espaços por preencher, mas também da invisibilidade. O que não se pretende que fique na memória, o que a história quer apagar. Um dos capítulos chama-se ‘O Judeuzinho Esconde-se’, nele menciona como a cultura enraizada leva a que se apague essa marca. Isso está em Proust, Thomas Mann ou mesmo em Pasternak. Mas também na sua bisavó judia.

Esse capítulo foi difícil de escrever no sentido em que é uma história ou um saber que me acompanha desde muito nova. Nasci em 1972, na União Soviética com a sua versão estatal e oficial acerca do anti-semitismo. Por exemplo, na universidade havia uma quota que não permitia que muitos judeus entrassem ao mesmo tempo, a mesma coisa nos locais de trabalho. E havia um anti-semitismo enraizado nas nossas vidas privadas. Eu teria uns 7 ou 8 anos, e os meus pais explicaram-me de uma maneira muito clara que éramos de alguma maneira diferentes e que essas diferenças eram também obrigações e que eu tinha de ser perfeita nalguma coisa porque isso seria uma protecção para me permitir sobreviver.

Quando era adolescente relaxei um pouco. Eram os tempos da Perestroika e havia muita esperança no futuro. Mas essa sensação de ser diferente no mundo soviético explica em parte a minha questão acerca de que diferença é essa, porque não éramos religiosos. Na União Soviética, a identidade judaica não era acerca da observação de certos cultos religiosos; era uma noção que levávamos connosco ao longo dos anos e nada mais, mas era muito importante. Como era um tema delicado, manteve-me sempre consciente e interessada. E muito surpreendida ao descobrir — em especial entre as duas guerras mundiais — um ambiente de invisibilidade que de alguma forma tornava os judeus extremamente visíveis. Muitas vezes para si mesmos.

Quando uma pessoa tenta esquecer a sua identidade para passar por um russo melhor, um francês melhor, um alemão melhor, isso alimenta um ódio interno e mais uma vez a ânsia de se tornar outra pessoa. E ler escritores que amamos que participaram dessa lógica?! Por exemplo, Proust, que tratou do conceito de ser judeu, ou Pasternak, que olhou para o seu judaísmo como uma praga, como uma ferida, como qualquer coisa má que lhe aconteceu. É terrível. Aconteceu com os judeus mais tarde na Shoah, a mesma maldição que foi imposta à população judia indiscriminadamente, estivesse ou não convertida ao cristianismo. Era impossível escapar a si mesmo.

Refere a dificuldade em encontrar uma linguagem que se ajuste às falhas da memória. Acha que com este livro ficou mais próxima dessa linguagem?
Sim e não. Quando terminei o livro senti uma espécie de alívio. Nos últimos capítulos falo dessa espécie de fardo que carregava comigo como uma mala muito pesada. Quando finalmente estava pronta para guardar a mala no armário, senti uma espécie de alívio. Missão cumprida. Lidara com o peso, com as dores, com as histórias, e estava finalmente livre. Mas depois percebi que terminava a missão, mas a pergunta, a enorme pergunta a que queria a responder não está respondida, precisa de outro ângulo. E agora é preciso encontrar outro ponto e outra possibilidade para começar a falar e talvez outra linguagem, porque uma nova pergunta pede uma nova linguagem.

Escrever prosa põe-nos num lugar de maior visibilidade. Isso faz-me ter pena da poesia em geral, porque acho que nos momentos mais obscuros — e estamos a viver tempos sombrios — a poesia torna-se muito mais “útil” porque a poesia é a linguagem que nos ajuda a sobreviver”

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Em inglês o título do livro é In Memory of Memory, em português é Memória da Memória. Não sei russo. O que se aproxima mais do que quis dizer?
Esse é um problema dos tradutores e também meu. O título original russo combina os dois significados. Em russo são duas palavras idênticas e significam as duas coisas. In memoriam, e as múltiplas memórias da memória. Eu não quis especificar o significado mais importante, cada leitor está apto para decidir o que melhor se ajusta. Esse título ambíguo foi uma decisão consciente, mas para mim o primeiro significado, in memoriam, a noção de dizer adeus à memória, tornou-se mais profunda da minha parte.

Porquê?
O que sei agora acerca da memória é que põe a pessoa diante de um número diferente de possibilidades e se nos deparamos com uma falha não podemos saltar, nem tornear. Somos incapazes de recuperar as nossas memórias perdidas; somos incapazes de voltar atrás; somos incapazes de distinguir entre o real e histórias imaginárias. Estamos praticamente encurralados nessa obsessão, nesse amor não correspondido por aqueles que já não estão cá. E cada história de memória é desde o início uma história de amor pelos amantes perdidos. Sim, este livro é um adeus à memória.

Define-se sobretudo como poeta, mas foi com esta prosa sobre a memória que alcançou o maior reconhecimento internacional. O livro foi nomeado para o International Booker Prize, está a ser muito traduzido. Isso fê-la olhar para a escrita, e para o seu projecto literário de forma diferente?

De certa forma é o que acontece quando um poeta começa a escrever prosa. Há várias razões para isso: a poesia não é tão popular, é mais difícil de traduzir e tem um clube mais restrito de praticantes. Escrever prosa põe-nos num lugar de maior visibilidade. Isso faz-me ter pena da poesia em geral, porque acho que nos momentos mais obscuros — e estamos a viver tempos sombrios — a poesia torna-se muito mais “útil” porque a poesia é a linguagem que nos ajuda a sobreviver. Foi assim no período da Segunda Guerra Mundial. Nos campos de concentração saber alguns poemas ou partes de poemas ajudava as pessoas a resistir. Dizer poesia alto, junto de outras pessoas, era precioso.

A poesia é portátil. Podemos andar por aí com um número de poemas na cabeça e cada poema é como um país diferente, um lugar diferente, uma casa, um lugar que podemos habitar. É diferente com a prosa. Temos algumas memórias das leituras, mas não somos capazes de decorar Dom Quixote para o lembrar na cela de uma prisão. Acho que em certos momentos as pessoas se viram para a poesia. Recomendo para estes dias. A poesia ajuda. Dá-nos uma segunda camada. Mas houve qualquer coisa que não pude prever: gostei bastante do processo de escrever prosa.

Foi a descoberta?

Sim. Eu não sabia. Adorei a fase da pesquisa, adorei a necessidade diária de me movimentar em direcção a alguma coisa para tentar chegar a alguma descoberta. Há uma fisicalidade diferente da da poesia. Por isso agora estou a meio da escrita de outro livro. É prosa, é diferente. É também um género distorcido, qualquer coisa entre um romance ortodoxo e uma coisa totalmente diferente. É um espaço seguro para estar porque agora não sou capaz de escrever muito, de escrever efectivamente. Mas ter coisas na cabeça, fazer esboços impede que eu enlouqueça neste tempo de guerra e de catástrofe. É bom saber que tenho coisas para fazer e só poderia ser prosa.


Maria Stepánova, poeta, russa, 50 anos, pegou na invisibilidade da sua família e transformou-a num dos livros mais originais publicados neste ano em Portugal DR

 

Não é o momento para escrever poesia?

Deveria ser um momento para escrever poesia, mas como acontece sempre em tempos de grandes acontecimentos colectivos, podemos escrever mas não somos capazes de avaliar a nossa escrita. O poema pode ser apenas uma tentativa de gritar, e a poesia é suposto ser outra coisa, não apenas uma confissão, não apenas um manifesto. Escrevi alguns poemas aqui e ali ao longo do ano, mas continuo sem os publicar porque quero ter a certeza de que são a coisa certa. Em especial agora quando a língua russa precisa outra vez de se reinventar. Um grupo de pessoas transformou-a numa língua de opressão e de violência.

Uma pessoa que escreve em russo tem de estar profundamente consciente, atenta, em relação ao facto de que deve ser feita qualquer coisa em relação à linguagem. Isso vai exigir muito esforço e poder e tempo. Sei que essa não é uma especificidade da língua russa; que é o que acontece a todas as línguas imperiais, têm um enorme potencial de violência. Essa herança está a tornar-me mais um problema do que uma fonte. Mas há outra coisa, porque para mim a cultura russa nunca foi uma coisa isolada, foi sempre parte de um continente, por isso não há uma grande diferença entre Mandelstam e T.S. Eliot. Sempre me senti herdeira de muitas tradições. Não sinto que pertenço a uma cultura nacional. Penso na cultura europeia, na cultura mundial. Não gosto de me sentir trancada entre fronteiras de uma certa tradição seja de que origem for.

O que agora se designa por cultura russa está a tentar fechar-nos no nosso russianismo, insistindo que é uma tradição muito diferente, que temos maneiras diferentes de fazer as coisas. Sinto-me presa e rebelo-me. Ou melhor, não tenho nada a ver com essa perspectiva e ver que ela pode ser partilhada por muitos dos meus compatriotas é trágico. Ver um país consciente ou inconscientemente fechar-se em si mesmo, sem noção do outro, da alteridade, é muito triste, desesperante.

Vem de uma longa e muito rica tradição literária. É apontada como uma das vozes mais talentosas e potentes da actual literatura russa. Como se vê nesse papel, a de herdeira de grandes obras e ao mesmo tempo uma voz ouvida na actualidade que “carrega” essa memória?

Ao longo dos últimos 300 dias tudo mudou. Eu vivia muito confortável em Moscovo, no que considerava o meu jardim. Agora esse campo transformou-se num campo minado; tudo é explosivo e tudo traz violência.

Vive em Berlim.

Sim. E nunca planeei sair de Moscovo. Ando à procura de uma palavra para o que fiz, porque emigrar é demasiado pomposo e estou a tentar arrumar na minha cabeça o que me aconteceu. Eu trabalhava muito pela Europa, mas nunca senti que queria morar noutro lugar. Adoro Moscovo, mas agora tudo é diferente e sair nem sequer é uma forma de protesto. Para pessoas como eu, sair é uma necessidade porque não consigo continuar a viver como escritora na Rússia.

Claro que não posso publicar nada relacionado com a guerra, directa ou indirectamente, mas mesmo além disso este livro que estou a escrever agora é uma prosa documental baseada numa história real do século XIX. A principal ideia é a de manter as coisas unidas. Mas acontece que as minhas heroínas são lésbicas e o que possa ter a ver com pessoas LGBTQIA+ num ângulo positivo é criminalizado na Rússia. Por isso, uma coisa que eu estava a pensar como um romance algo aborrecido com uma escrita diarística é transformado num crime contra o estado, o que é bizarro e até mesmo divertido de certo modo. Ou seja, acho que não estaria em perigo fisicamente se tivesse ficado na Rússia, pelo menos agora, mas seria impedida de publicar qualquer coisa que escrevesse.

Os meus novos poemas têm a ver com a guerra, os meus ensaios têm pensamentos políticos. Tudo é impublicável. Isto é uma coisa a que não estou habituada. Como referi, eu era muito nova quando a União Soviética caiu e com ela caiu a censura. Li sobre ela, mas talvez não a tivesse entendido. Agora ela existe e tenho de saber escapar-lhe.

https://www.publico.pt/2023/01/02/culturaipsilon/entrevista/maria-stepanova-putin-guerra-memoria-203293


domingo, 17 de dezembro de 2017

A vida epistolar de Sylvia Plath é publicada para desafiar o mito


São quase 1400 cartas em dois volumes, a maioria inédita. O primeiro volume desta integral acaba de sair nos Estados Unidos e em Inglaterra e revela uma mulher ambiciosa, com sentido de humor, relação obsessiva com a comida, que gostava de moda e queria ser feliz.
16 de Dezembro de 2017, 15:14

<i>The Letters of Sylvia Plath</i> tem cartas que a autora de <i>Ariel</i> escreveu desde os oito anos até às vésperas da sua morte, 
a 11 de Fevereiro de 1963, quando aconchegou os dois filhos, fechou a porta da cozinha e pôs a cabeça no forno depois de ter ligado o gás


The Letters of Sylvia Plath tem cartas que a autora de Ariel escreveu desde os oito anos até às vésperas da sua morte, a 11 de Fevereiro de 1963, quando aconchegou os dois filhos, fechou a porta da cozinha e pôs a cabeça no forno depois de ter ligado o gás

A perspectiva do leitor é sempre a da tragédia. Ninguém lê hoje Sylvia Plath alheio ao desfecho da vida da escritora que se suicidou aos 30 anos. Mesmo no momento em que se está perante uma carta feliz. "Querido amor Teddy... de hoje a uma semana estarei a apanhar o comboio muito cedo para te encontrar e começar a viver o meu 25º aniversário", escreveu a 20 de Outubro de 1956 ao marido, o poeta Ted Hughes, com quem casara em Junho desse ano depois de um fugaz e apaixonado namoro de pouco mais de três meses. Foi uma Sylvia também feliz a que escreveu à mãe a 25 de Fevereiro: "Conheci (...) um brilhante poeta ex-Cambridge (...). Provavelmente não o voltarei a ver (...) mas entretanto escrevi o meu melhor poema sobre ele: é o único homem que conheci forte o suficiente para se equiparar a mim; a vida é assim." Em Outubro, Sylvia começava o seu segundo ano em Cambridge, onde estudava graças a uma bolsa da fundação Fullbright, e Hughes trabalhava em Londres. Quase todos os dias se escreviam e em todas as cartas Sylvia demonstrava-lhe a sua paixão e a impaciência por viver longe dele. 

As cartas de Sylvia a Ted estão no fim do primeiro volume de uma obra gigantesca que dificilmente será publicada em português e são o grande trunfo desta integral. The Letters of Sylvia Plath, com organização de Peter K. Steinberg e Karen V. Kukil, reúne 1400 cartas escritas por Sylvia Plath e dirigidas a mais de 140 pessoas. O primeiro volume acaba de sair nos Estados Unidos e em Inglaterra e torna publicas 838 dessas missivas em 1400 páginas organizadas cronologicamente. O segundo volume contempla a correspondência dos últimos cinco anos da vida de Plath, não deve chegar as 500 cartas, mas é aquele que reserva a maior curiosidade. Deverá sair no Outono de 2018. 

A fazer a ponte entre o primeiro e o segundo volumes estão as cartas de Sylvia a Ted. "Amo-te e estou morta morro para estar contigo, deitada na cama contigo, beijando-te por toda parte & tendo apenas pensamentos selvagens & dando & beijando a tua querida e amada boca (...) Amo-te teddy teddy teddy e gostaria de estar contigo, de viver contigo...", escreveu a 19 de Outubro de 1956. Nessas cartas, estamos perante uma Sylvia mais apaixonada do que a dos diários, mas também de uma Sylvia consciente de estar ao lado de um homem volúvel. Numa carta a mãe, ela descreve-o como "um destruidor de coisas e de pessoas". E apenas um breve exemplo das extensas páginas onde lhe conta o seu dia a dia, descreve as paisagens por onde passa, traça planos de uma vida comum, confessa ambições, relata o trabalho, expõe dúvidas. 

PÚBLICO -

Esse núcleo de 16 cartas onde Sylvia Plath se revela dominada por uma paixão invulgar foi disponibilizado por Frieda Hughes, a filha sobrevivente do casal – Nicholas suicidou-se em 2009 –, uma atitude que a própria justifica no preâmbulo deste volume, um texto que parece feito em defesa do pai. "Sempre foi minha convicção que a razão pela qual a minha mãe suscita o interesse dos leitores se deve ao meu pai, porque, independentemente do modo como o casamento de ambos terminou, ele honrou o trabalho da minha mãe e a sua memória ao publicar Ariel, a colectânea de poemas que a lançou no conhecimento publico, depois da sua morte. Ele, talvez mais do que ninguém, reconheceu e percebeu o seu talento extraordinário". Peter Steinberg agradece: "Eu estava muito nervoso por ter de falar com Frieda. Acho muito corajoso da parte dela escrever o que escreveu e estou muito grato por nos ter facultado as cartas a Ted Hughes. Foi um acto de confiança e de generosidade, dar ao mundo essas cartas privadas", admite numa conversa com o Ipsilon, confirmando a emoção que o segundo volume promete. "O segundo volume pode ser difícil para muitos leitores. Foi muito emotivo do ponto de vista editorial porque sabemos sempre o que está para vir. No fim do volume I, temos Sylvia Plath e Ted Hughes muito apaixonados e a começar uma bela relação e a criar uma parceria. Nós temos a perspectiva de já saber o que se segue, mas ler as cartas só por si é duro", salienta.
Neste, o dos primeiros anos de Sylvia, é preciso, pois, passar as mil páginas para chegar ao auge de um livro que, ao querer inclui tudo, é de leitura irregular e questionável quanto ao interesse que podem ter para o público todas as cartas de uma criança ou adolescente, por mais brilhante que tenha sido, sem passar pelo crivo da selecção ou edição. The Letters of Sylvia Plath tem cartas que a autora de Ariel escreveu desde os oito anos até às vésperas da sua morte ocorrida a 11 de Fevereiro de 1963, quando, separada de Ted há seis meses, aconchegou os dois filhos, Frieda, de três anos, e Nicholas, de um, fechou a porta da cozinha e pôs a sua cabeça no forno depois de ter ligado o gás. Ainda casada, Hughes herdou o espolio e entre a culpa e o dever moral, foi publicando a obra, então quase toda inédita, da mulher que conhecera seis anos antes e tinha uma ambição suprema: ser uma poeta aclamada. Em 1965, publicou Ariel, e em 1981 The Collected Poems, com toda a produção poética de Sylvia desde que o conheceu. Um ano depois, saiam The Journals of Sylvia Plath. A vida e a obra de Plath ficavam, assim, indissociáveis não apenas do suicídio, mas da depressão em que parece ter vivido parte da vida e, sobretudo, da relação com Ted Hughes. "Mergulhar neste trabalho foi ter acesso a um olhar muito íntimo sobre como Plath se relacionava e se comportava com determinadas pessoas: a mãe, os namorados, as amigas, o marido, os editores. Em cada pessoa com quem se correspondeu dá-nos uma visão única da natureza das suas relações", diz Peter Steinberg, o responsável por ler e digitar cada uma das palavras escritas por Sylvia Plath, um trabalho tão intenso, como capaz de mudar a sua visão da mulher que as escreveu. Um ser humano. Não uma lenda, não um mito. "Nas cartas temos tantas vozes diferentes e tantos aspectos diferentes da sua personalidade que dizer 'humano' é como que desafiar qualquer outra classificação. Não é apenas uma poeta, não é apenas uma irmã, não é só uma filha ou sobrinha. É tudo isso. É tudo o que cada um de nós também é. À medida que as pessoas vão lendo o livro ela vai ficando mais acessível", acrescenta este académico que descobriu a obra de Plath depois de um desgosto amoroso e teve uma ambição: contribuir para acabar com alguns estigmas e ajudar a ultrapassar o mito que surge inseparável de Sylvia.

PÚBLICO -

Um dos objectivos desta edição em dois volumes é ajudar a ultrapassar o mito que surge inseparável de Sylvia Plath

Não é apenas uma poeta, não é apenas um
a irmã, não é só uma filha ou sobrinha. É tudo isso. É tudo o que cada um de nós também é. À medida que as pessoas vão lendo o livro ela vai ficando mais acessível
Peter Steinberg, editor
Temos Sylvia em relação a Ted Hughes, em relação ao pai, Otto Plath, que morreu tinha ela oito anos; Sylvia em relação à poesia, à ambição, à maternidade, à depressão, ao suicídio. Mas quem foi Sylvia além do que todos os biógrafos já escreveram e os intérpretes da sua obra têm afirmado? É uma pergunta que atravessa este livro em dois volumes, mas a que o livro não dá resposta, embora queira contribuir para chegar perto da essência dessa mulher que um dia disse à mãe que gostaria que a família tivesse orgulho nela, a visse como "uma pessoa versátil, responsável, feliz", mas que deixou uma sombra densa na sua passagem pela vida. "Sylvia Plath foi muitas coisas para muita gente: filha, sobrinha, irmã, aluna, jornalista, poeta, amiga, artista, namorada, mulher, romancista, colega e mãe; mas talvez a característica mais ignorada da sua vida é a de que foi humana e, enquanto tal, falível. Ela deu erros ortográficos, fez pontuação incorrecta, mentiu, citou mal, exagerou, foi sarcástica, e por vezes brutalmente honesta. Todos estes aspectos, e mais alguns, estão em Letters of Sylvia Plath", lê-se logo no início da introdução ao primeiro volume, como um quase aviso ao leitor de que ele, leitor, vai ser deixado só com o ser humano e não com o mito ao logo das centenas de páginas preenchidas por cartas reveladoras de uma complexidade que o mito, como qualquer mito, simplifica. 

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Nas cartas, muitas delas ilustradas, há desenhos de alimentos, como há de modelos de vestidos e casacos, flores, gente a praticar desporto. Há nisso tanto de pueril quanto de manifestação de outros talentos

Subjacente a esta edição encontramos a ideia de autenticidade, que, alegam os organizadores, editores e colaboradores, dificilmente se encontra em todo o material escrito ou divulgado de e sobre Sylvia. As cartas estão transcritas tal qual foram escritas, sem edição ou qualquer espécie de contextualização, com minúsculas onde a norma estipularia o uso de maiúsculas, sublinhados, incorrecções. Como auxiliares de leituras apenas 3 600 notas de rodapé que não procuram ser exaustivas. E os autores insistem num ponto: com esta edição integral das cartas estamos perante uma "autobiografia", "narrada pela autora através da sua correspondência". Afirmar isto no prefácio é outro desafio: uma autobiografia, e conhecendo melhor Sylvia Plath também depois destas cartas, teria decerto sido submetida a edição pela autora. Esta não foi. Frieda Hughes diz mais ou menos o mesmo no preâmbulo a esta edição: "Ela esta melhor explicada através das suas próprias palavras", sublinha, acrescentando que capta o espírito real do tempo em que viveu, bem como a sua "paixão pela literatura e vida – e pelo meu pai, Ted Hughes". Na senda dessa fidelidade, Peter Steinberg digitou cada erro, gralha, falha, incoerência em cada carta, deixando a nu toda a contradição e, subjacente, a ideia de construção: Plath escondia a autenticidade num jogo que dominava, o das palavras que alinhava de forma a ajustarem-se ao interlocutor. Era inautêntica ou a sua autenticidade era indissociável desse ser duplo que ela tão bem entendeu na obra com o mesmo titulo de Dostoiévski?    

Deixar tal qual Sylvia escreveu foi uma opção. "Tudo começou em 2012. A co-autora, Karen V. Kukil, recebeu um convite da editora para organizar um livro com as cartas de Plath e pediu-me para fazer o trabalho de transcrição", conta Steinberg, acentuando a intensidade da sua missão. Ele lera Letters Home, uma compilação das cartas de Plath editadas pela mãe em  1975 com o escrutínio de Ted Hughes. Consta que com isso, também ela queria humanizar a filha, resgatá-la da sombra da doença e do mito. 

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Aqui, pelo contrario, esta tudo. "Li o volume de cartas de uma vez, nos anos noventa, e fiquei muito desiludido. Não voltei a trabalhar com as cartas de Plath", refere Peter Steinberg que chegou a Plath no que classifica como um momento infeliz da sua vida. "Foi em 1994, a minha namorada deixou-me e em consequência disso fui frequentar aulas de poesia. Lemos Lady LazarusDaddy e muitos outros poemas. Fiquei muito interessado em Plath e pedi ao meu professor mais informação; ele disse-me que não queria que eu lesse Plath. Nunca me deu uma razão, mas um dia um amigo levou-me à biblioteca e mostrou-me mais obras e quanto mais lia mais interessado eu ficava no trabalho e na vida dela. Lembro-me de muitos amigos me dizerem que isso era uma fase pela qual todos passavam. Já estou nessa fase há muito tempo, há 23 anos. Nunca pensei, é mais de metade da minha vida", diz Steinberg para justificar o mergulho profundo que foi este trabalho. "Foi ter acesso a um olhar muito íntimo sobre o modo como Plath se relacionava e se comportava com determinadas pessoas: a mãe, os namorados, as amigas, o marido, os editores, cada pessoa com quem se correspondeu dá-nos uma visão única da natureza das suas relações", continua um dos autores de uma obra que está a suscitar alguma polémica por isso mesmo: a pretensão de, ao incluir tudo, perder a força e interessar apenas a uns poucos investigadores. Mas nunca houve duvidas quanto ao objectivo. Só não se sabiam a extensão das epístolas de Sylvia Plath, a remetente atenta. "Acho que algumas das cartas foram escritas de forma muito consciente, para uma audiência muito particular, soubesse ou não que alguém poderia trabalhar essas cartas no futuro. Não sei. Não sei quanto do que ali esta é uma representação, uma performance, ou quanto é só o produto natural da sua vida. Acho que os biógrafos no futuro vão ter muito mais para chegar perto do que foi Sylvia Plath quando trabalharem estas cartas em conjunto com os seus diários. Temos duas pessoas diferentes; nos seus diários estão os seus pensamentos privados e ela usa-os de formas muito distintas, com imaginação até, mas as cartas foram escritas não só para ela mesma, mas também para as pessoas a quem são endereçadas", refere.

E nesta fase da vida de Sylvia Plath, os seus primeiros 25 anos, a maioria é dirigida ah mãe, Aurelia, com que manteve uma relação tão próxima quanto complexa. Cartas literárias, filosóficas, domésticas, intimas ou meras descrições do quotidiano, são muitas vezes redundantes, mas demonstram a força que Sylvia acreditava ter. Ela não era apenas um ser depressivo, como, aliás, também sublinha Steinberg nesta conversa, salientando o sentido de humor que os leitores conhecem em A Campânola de Vidro, único romance de Plath, publicado pouco tempo antes da sua morte, e podem confirmar aqui. " É um humor muito eficaz", afirma Peter Steinberg. "Numa das primeiras cartas que enviou à família quando estava num campo de férias, ela conta que come muito. Vivia-se a II Guerra Mundial e havia racionamento. Ela escreveu que quando chegasse a casa podiam comê-la em substituição de porco." Steinberg ri. A comida parecia ser uma das obsessões de Plath. Nas cartas, muitas delas ilustradas, há desenhos de alimentos, como há de modelos de vestidos e casacos, flores, gente a praticar desporto. Há nisso tanto de pueril quanto de manifestação de outros talentos. A voz é outra vez de Steinberg: "Uma vez eu estava a falar com uma das melhores amigas de Plath sobre isso, as descrições de alimentos, e ela disse-me que havia sempre muita comida em casa dela e que a comida era sempre preparada com cuidado. Sylvia adorava comer e escrever sobre isso. Quando estava a recuperar da primeira tentativa de suicídio em 1953, 54 [tinha 20 anos] dava grandes jantares e a partir daí tornou-se uma cozinheira confiante; era também uma boa doceira."

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O investigador quer sublinhar o lado desarmante da escritora que o atraiu pelo modo como era capaz "de dar expressão, em prosa como em poesia, às suas experiências pessoais ampliando-as para uma dimensão universal", refere, e não se fica por aí. "É um talento incrível! Sempre me senti intimidado pela Sylvia Plath por ser uma artista tão genial que desde muito cedo sabia exactamente o que queria fazer. Sempre quis ser escritora e trabalhou muito para ser bem sucedida e chegar ao objectivo de ver o seu trabalho publicado. Mas com as cartas podemos ver os bastidores do que foi o desenvolvimento do seu carácter."

Voltamos à autenticidade. As cartas que revelam o que mais nada parece capaz, Sylvia por ela mesma, sem mediação. É o discurso dos editores que já sofreu fortes críticas em jornais como o Guardian ou o New York Times. Questionavam nada mais do que a extensão do livro e o interesse de grande parte das cartas. Sobretudo neste primeiro volume. Até chegar a Ted Hughes. O interesse surge a partir daí. Outra vez Ted. Sylvia em relação a Ted, na relação com Ted, na tragédia em que tudo terminou para ela quando ele foi viver com outra mulher.  O ultimo volume é isso. As cartas de Sylvia nisso. O que trarão? Sobre o regresso a América, os filhos, e a ida para Londres, a decisão da morte. Neste livro, a ultima carta é dirigida a um editor americano; diz-lhe que ira aos Estados Unidos, que quer fazer tudo para que lhe publiquem a obra lá. No país onde nasceu a 27 de Outubro de 1932, Em Boston, Massachussets. Foi para lá que escreveu a primeira carta desta colectânea, ao pai, que morreria