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domingo, 6 de março de 2016

Beatriz Dias Coelho - Pelos caminhos da Biblioteca Nacional



BEATRIZ DIAS COELHO
06/03/2016 - 00:34

Passaram 220 anos desde que foi criada, por alvará régio, a maior biblioteca do país. Viagem por 75 quilómetros de prateleiras, 66 mil m2 de edifício, 4,7 milhões de documentos.



Estamos numa sala com 600 m2. Tem duas portas corta-fogo de três toneladas, é anti-sísmica e anti-incêndio — aqui, o simples acto de acender um isqueiro é impossível, uma vez que o ar não é combustível. Há várias estantes: algumas estão vazias, ainda à espera de serem preenchidas. Outras, guardam relíquias que poucos têm oportunidade de ver. Como uma colecção de documentos impressos até 1500 e os espólios de Sophia de Mello Breyner Andresen, Fernando Pessoa, Eça de Queirós e Almeida Garrett. E de muitas outras figuras da cultura portuguesa. Preciosidades que estão guardadas em pequenas caixas de cartão, devidamente identificadas com o número do espólio a que pertencem. Qualquer um as poderia abrir, na verdade. Mas antes teria de conseguir entrar na cave da torre de depósitos, onde funciona a casa-forte da Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), a maior biblioteca do país. Nesta casa-forte, que é a zona mais segura dentro da BNP, não estão necessariamente os documentos mais antigos, mas aqueles que têm mais valor, os mais raros, os mais importantes. “É como o cofre de um banco”, diz-nos a directora, Maria Inês Cordeiro. E visitá-la é um privilégio — “entre os técnicos da biblioteca ninguém entra sozinho e não entra ninguém que seja de fora”. Há excepções, claro: os representantes de Estado. E os técnicos da manutenção. Nunca, nunca sozinhos.

O privilégio justifica-se — afinal, estamos aqui porque a BNP faz 220 anos. E há, aliás, mais para ver: como se visitar a casa-forte não fosse já suficiente, ao centro da sala, numa comprida mesa rectangular, espera-nos uma pequena amostra do tesouro. Dispostos por ordem cronológica, estão dezasseis documentos cujo peso na História e na Cultura portuguesas é inegável. “A selecção foi feita por Margarida Pinto, responsável dos Impressos, Ana Cristina Santana, responsável dos Manuscritos, e Fátima Lopes, responsável dos Espólios do Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea”, informa-nos a directora da BNP. E é então que vemos, entre os documentos — uns, mais do que outros, com um admirável estado de conservação — o mais antigo livro da BNP, que remonta ao século XII; um dos 50 exemplares existentes no mundo da Bíblia de Gutenberg; uma carta de Vasco da Gama; a primeira edição d’ Os Lusíadas; a carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro a explicar a origem dos heterónimos, escrita em Janeiro de 1935.

Nos bastidores da biblioteca
O acervo da BNP integra actualmente cerca de 4,7 milhões de documentos. Com algumas doações e aquisições, o número cresce principalmente graças ao depósito legal, uma lei que remonta a 1805 e que obriga a que sejam entregues à BNP onze exemplares de todas as obras impressas ou editadas em Portugal. Nove exemplares são depois enviados para bibliotecas um pouco por todo o país, incluíndo Açores e Madeira, e para a Biblioteca do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, no Brasil. Os dois restantes integram o acervo da BNP. É esse o percurso que Maria Inês Cordeiro desvenda ao PÚBLICO: a viagem que estas obras fazem, nos bastidores da biblioteca, até serem entregues aos leitores.

Ao chegarem — em paletes coloridas, com diferentes tamanhos, vindas directamente das tipografias —, as obras com destino às outras bibliotecas são empacotadas em caixotes que, uns em cima dos outros, ocupam os dois lados de um corredor largo. Nuns lê-se “Madeira”, noutros “Rio de Janeiro”, mas o critério é igual para todos: “antigamente, era a BNP que enviava todos estes livros para as várias bibliotecas, mas agora isso é insustentável e cada instituição paga o transporte dos seus livros, incluindo o Rio de Janeiro”, assegura Maria Inês Cordeiro, que dirige a BNP desde 2011. A biblioteca recebe mensalmente cerca de 40 mil livros através do depósito legal, “e passa cerca de um mês entre a chegada, a sua distribuição e a catalogação”, conclui a directora.

Para serem restaurados, a maior parte dos  ocumentos são primeiro desmanchados, lavados com uma água controlada, e depois secam naturalmente
Maria Inês Cordeiro, directora da BNP desde 2011
Impõe-se um pequeno desvio ao trajecto principal, informa-nos Maria Inês Cordeiro, com passos apressados: “Vamos ao sector de conservação e restauro”. Conhecemos então o sr. Gonçalves, que já não vai para novo e é o único encadernador a trabalhar na biblioteca — um sintoma da escassez de funcionários de que os utilizadores da BNP actualmente se queixam. Numa parede estão pendurados vários rolos de tecido colorido: “São usados para as lombadas”, explica a directora. Aqui restauram-se “tanto manuscritos como obras impressas, e não só livros, mas todo o tipo de documentos — mapas, desenhos, pergaminhos…”. A cada documento é atribuída uma ficha, na qual se apontam “todas as suas características, doenças e intervenções que vai sofrer” e se incluem algumas fotografias.

Mais à frente, já noutra sala, ficamos a saber que os documentos também são lavados, em banheiras próprias, com chuveiro. Maria Inês Cordeiro justifica: “para serem restaurados, a maior parte dos documentos são primeiro desmanchados, lavados aqui com uma água controlada, e depois secam naturalmente” em secadores próprios que fazem lembrar os vulgares estendais de alumínio. Quanto ao restauro, há vários processos para o fazer, e a directora da BNP mostra-nos um documento restaurado através de reintegração mecânica, um procedimento que recupera documentos “rotos, bichados ou com falhas”.

Feito o desvio, estamos de volta ao trajecto principal e passamos à zona de catalogação. Dispostas, aos pares, em carros de livros, as obras aguardam a sua vez de serem “introduzidas nas bases de dados”. São, depois, classificadas e voltam novamente para os carros de livros, “prontas para seguirem para a torre de depósitos”. Essa é justamente a paragem seguinte; mas antes voltamos à área aberta ao público e visitamos a sala de referência geral, onde os leitores pesquisam e requisitam as obras que querem consultar, e passamos pela mais emblemática sala de leitura da casa — a sala de leitura geral, conhecida pela enorme tapeçaria feita propositadamente por Guilherme Camarinha para decorar a parede do fundo e alusiva à Leitura Nova, uma colecção de cópias de importantes documentos mandada fazer por D. Manuel I e iniciada em 1504. Percebemos, desgostosos, que está por estes dias encerrada “para substituição do sistema de iluminação”, justifica Maria Inês Cordeiro. Conhecemos a sala de leitura temporária, onde filas e filas de secretárias acolhem leitores concentrados, e entramos no elevador que nos leva à icónica torre de depósitos, ampliada entre 2008 e 2012 e que guarda todo o acervo da biblioteca em 10 andares.

Luís Sá, responsável pela sala de leitura e pela torre de depósitos, junta-se a nós a partir daqui. Subimos até ao sétimo andar — “vamos ao depósito de ciências e artes”, informa-nos. “O depósito está organizado por grandes temas”, acrescenta a directora. As portas abrem-se e ouvimos o som incomodativo de uma campainha intermitente, uma medida de segurança accionada automaticamente à entrada e à saída de pessoas em cada piso. Chegamos a um corredor de que quase não se vê o final — tem 133 metros de comprimento por 15 metros de largura —, ladeado por filas e filas de prateleiras repletas de obras e conhecidas como “comboios”, devidamente identificadas com placas que, entre outros dados, indicam o tema e o número do comboio. Para aproveitar o máximo de espaço possível, as obras estão organizadas por três formatos: “livros de bolso, livros com formato até A4 e A4 ou superior”, explica Luís Sá, que acrescenta que outro dos critérios de organização é a data de publicação.

19.º a 22.º graus de temperatura com humidade relativa entre os 50% e os 55%, são as condições de conservação

Enquanto andamos pelo interminável corredor, Maria Inês Cordeiro fala sobre as condições de conservação: “a temperatura está normalmente entre 19.º e 22.º e a humidade relativa deve estar entre os 50% e os 55%”, diz, explicando que o tratamento do ar é feito por várias máquinas implementadas no último piso da torre e na cave. A incidência de luz solar é controlada pelas janelas — que são pequenos rectângulos, como convém. Mas a conservação passa também por armadilhar o espaço para combater eventuais habitantes indesejáveis: “colocamos armadilhas com um comprimido que atrai todo o tipo de insectos”. A segurança é assegurada por um sistema anti-intrusão e anti-incêndio e, quanto à limpeza do pó, “não é como lá em casa, não é possível andar sempre a limpar as prateleiras”.

Estamos no fim do percurso: é a partir de uma sala com pequenos elevadores, que existem em todos os pisos da torre, que os livros — e todos os outros documentos — são enviados lá para baixo, para os leitores. “O talão do pedido do leitor é impresso cá em cima e depois os técnicos colocam-nos nestes elevadores próprios”, indica Maria Inês Cordeiro. Nós voltamos ao elevador e deixamos os livros para trás.

Um pouco de História
Hoje, a BNP é um mundo, já se viu. Mas muito aconteceu antes de ficar assim. Nasceu a 29 de Fevereiro de 1796, sob o nome de Real Biblioteca Pública da Corte. Em alvará régio, D. Maria I determinava: “Eu a Rainha faço saber aos que este Alvará virem: que sendo um dos objectos, que ocupam a Minha Real consideração, o cuidado de promover eficazmente os progressos da Literatura Portuguesa; e conhecendo quanto será útil, e vantajoso para se conseguir este fim, o estabelecimento de uma Livraria Pública, […] onde se achem […] os Livros mais precisos pela sua raridade, […] que constituam um riquíssimo depósito, não só de todos os conhecimentos humanos, mas também dos meios mais próprios para conduzir os homens a conseguirem a virtuosa sabedoria, […] ordeno que na Minha Corte, e cidade de Lisboa se erija, […] a Real Biblioteca Pública da Corte.”

Mas a História da BNP começa anos antes. “A BNP é o resultado do pensamento iluminista de algumas figuras muito importantes na segunda metade do século XVIII”, resume a directora. Tudo começou por volta de 1771: Imbuído do espírito iluminista da valorização da razão, Frei Manuel do Cenáculo, que ficaria para a posteridade como uma das personalidades mais relevantes da Cultura portuguesa setecentista, propôs ao rei D. José I a criação de uma biblioteca pública. E assim, em 1775, D. José I decretava que a ala ocidental do Terreiro do Paço acolheria o projecto. Mas só duas décadas depois é que os planos se concretizariam — e o alvará de D. Maria I viria finalmente a fundar a Real Biblioteca Pública da Corte.

Do acervo da Real Biblioteca, gerido pelo bibliotecário-mor António Ribeiro dos Santos, faziam parte as obras da Biblioteca da Real Mesa Censória que, até à sua extinção em 1794, fiscalizava as obras a publicar. Entre doações particulares e aquisições, a Real Biblioteca Pública da Corte foi crescendo e, em 1834, depois da guerra civil contra os absolutistas, os liberais tomaram o poder e a Real Biblioteca passou a chamar-se Biblioteca Nacional de Lisboa. Nesse mesmo ano, a extinção das ordens religiosas viria a contribuir para o aumento do seu acervo: “vieram carroças e carroças cheias de livros de mosteiros e conventos para Lisboa”, conta Maria Inês Cordeiro. O Terreiro do Paço tornou-se pequeno para tão vasto acervo e a Biblioteca acabaria por se mudar para o Convento de S. Francisco, no Chiado, donde saíria apenas em 1969, para ocupar o imponente edifício do Campo Grande projectado por Porfírio Pardal Monteiro propositadamente para a acolher.

A BNP hoje: utilizadores, problemas e o desafio do digital
Dos 66 mil m2 de área total do edíficio, 35 mil m2 estão ocupados pelos 75 quilómetros de prateleiras. Mas a quem serve um património tão extenso? “Os principais utilizadores e exploradores do acervo da BNP pertencem à comunidade académica”, esclarece Maria Inês Cordeiro, que acrescenta que entre os cerca de 45 mil leitores que visitam anualmente a biblioteca — um número que se tem mantido estável nos últimos anos, diz —, quem procura a BNP não são apenas pessoas da Literatura, da História ou das Ciências, mas de muitas outras áreas.

Prova disso é o realizador e encenador Frederico Corado: “As minhas idas à biblioteca são frequentes, por motivos profissionais, quando faço pesquisa para novos trabalhos, em particular no que diz respeito ao teatro”, conta ao PÚBLICO. Corado dá o exemplo de uma exposição que organizou no final de 2015, sobre teatro no Cartaxo, e para a qual se socorreu da BNP: “Infelizmente, o Cartaxo não tem um arquivo muito completo, e tive de ir à BNP sobretudo para consultar jornais antigos. Em relação a alguns jornais, foi-me dito que não podia consultá-los porque estavam muito danificados, mas ofereceram-me alternativas: podia consultá-los digitalmente, se pagasse a sua digitalização”.

Um dos problemas mais recorrentes que os utilizadores da BNP identificam ao PÚBLICO é precisamente o estado de conservação das publicações periódicas. “É uma pena, porque vamos acabar por perder a memória do que era a actividade jornalística nos séculos XIX e XX. O papel é muito frágil, desfaz-se e a consulta deixa de ser possível”, lamenta Paulo Silveira e Sousa, investigador de História e utilizador frequente da biblioteca, numa conversa conjunta na cafetaria com presenças igualmente assíduas nas salas de leitura — o historiador Diogo Ramada Curto [colaborador do PÚBLICO] e João Pedro George, autor de obras como Marquesa de Paiva (2015) e O Que é um Escritor Maldito? (2013).

Uma biblioteca nacional não pode viver apenas do acervo que herdou do passado, tem de comprar obras - Diogo Ramada Curto, historiador

Os três investigadores partilham diariamente a sala de leitura geral e concordam que há actualmente dois problemas de base que condicionam o seu trabalho. Em primeiro lugar, “faz falta a formação de uma nova geração de profissionais dentro da biblioteca, que beneficie da passagem de testemunho do saber acumulado das pessoas mais velhas, que se vão reformando”, diz Diogo Ramada Curto. A análise dos relatórios de actividade da biblioteca mostra que, de facto, o panorama não é animador: enquanto que em 31 de Dezembro de 2010 “estavam ao serviço 231 trabalhadores”, na mesma data, em 2014 — de acordo com o mais recente relatório disponível —, “estavam ao serviço 195 trabalhadores”.

Em segundo lugar, continua Diogo Ramada Curto, “uma biblioteca nacional não pode viver apenas do acervo que herdou do passado, tem de comprar obras”, considera, preocupado com a falta de recursos para a aquisição de obras. João Pedro George vai mais longe e diz mesmo que esta é uma realidade que “atrasa imenso o conhecimento do país, porque os investigadores não têm acesso a determinados documentos, que acabam nas mãos de privados”. Também aqui os dados dos relatórios de actividade são reveladores: em 2010 foram adquiridas “105 obras de bibliografia corrente”, lê-se no relatório, e 1873 “no âmbito de leilões, espólios e raridades”. Já em 2014, “não foram adquiridas obras de bibliografia corrente” e foi “suspensa a assinatura de publicações periódicas estrangeiras”, tendo sido adquiridas 53 obras “no âmbito de leilões, espólios e raridades”.

Associada ao acervo da BNP está a memória colectiva do país, lembra Diogo Ramada Curto: “essa memória colectiva relaciona-se com a investigação que fazemos, é através da investigação que pensamos a memória colectiva, e por isso a biblioteca tem de ter condições para que possamos investigar, não basta ter o acervo”. Silveira e Sousa, Ramada Curto e George reconhecem, no entanto, que a falta de dinheiro é um problema transversal às instituições culturais em Portugal e elogiam a competência da equipa da biblioteca dadas as actuais circunstâncias.

Luís Ribeiro, um historiador de arte que trabalha em projectos relacionados com manuscritos medievais, não hesita: “a actual direcção é extremamente receptiva a colaborar com investigadores”, diz. O verdadeiro problema é o horário — é limitado e limitativo. “Sei que há condicionantes orçamentais e de recursos humanos, mas o horário devia ser mais alargado e mais noturno. Para quem está a fazer investigação em part-time, o fim-de-semana é ideal, por isso a biblioteca devia estar aberta mais horas ao fim-de-semana e não fechar ao domingo”. Mas Maria Inês Cordeiro diz que o alargamento do horário não é, “com os recursos que a biblioteca tem” hoje, uma hipótese “viável”: “a média de pessoas na sala de leitura geral a partir das 18h30 — apenas 10 ou 15 pessoas — não o justificaria”.

Maria Inês Cordeiro olha para o processo de digitalização dos documentos e a expansão da Biblioteca Nacional Digital, criada em 2002, como desafios: “A partir do momento em que a Internet e os meios tecnológicos se vulgarizaram, a BNP mudou radicalmente a forma como fornece os vários serviços e como dá acesso àqueles documentos [mais antigos e valiosos] a que só muito poucas pessoas antes podiam aceder”, explica. É a esses documentos que é dada prioridade na “difusão através da digitalização”, continua a directora da BNP, que destaca as vantagens da Biblioteca Nacional Digital: “qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, a qualquer hora e para qualquer efeito, não só tem acesso aos documentos como pode fazer o download e reutilizar. Por sua vez, a BNP, enquanto gestora desses bens culturais, consegue garantir o cumprimento da missão de os preservar a longo prazo”.

Apesar da evolução natural para o digital, o grande objectivo mantém-se: “Queremos preservar para o futuro, mas ao mesmo tempo ter relevância para a sociedade viva e que quer hoje utilizar a biblioteca. Temos de ter um equilíbrio entre as duas coisas”. A actuação da instituição, no entanto, mudou: “Até há 20 ou 30 anos, a biblioteca era reactiva — estava aqui, guardava o acervo para quem quisesse utilizá-lo —, e hoje é proactiva — temos de o ser para chegarmos à sociedade”. Por isso tem vindo a promover, nos últimos anos, exposições, mostras, colóquios, congressos, publicações e edições. “Anualmente, fazemos entre 60 e 70 eventos e lançamos entre 10 e 15 edições”, refere.

Quinze anos depois do seu lançamento, a Biblioteca Nacional Digital disponibiliza actualmente 27 mil documentos para consulta online, entre os quais o único exemplar conhecido de História de mui nobre Vespasiano (1496), sobre o imperador romano, e o  Cancioneiro da Biblioteca Nacional, uma cópia do século XVI do maior cancioneiro de poesia trovadoresca em português. Frederico Corado compreende a morosidade e as dificuldades inerentes ao projecto, mas lamenta que seja apenas possível aceder a um número tão reduzido de documentos, tal como Dora Santos Silva, investigadora do Departamento de Ciências da Comunicação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, que consulta frequentemente o portal. “Gosto de ir vendo as obras que vão sendo disponibilizadas”, explica, apesar de considerar que “o site não é user friendly”. “Não há, por exemplo, a organização em temas, que tornaria a consulta e a descoberta mais fáceis. A biblioteca permite a descoberta, mas a descoberta também deve ser um pouco facilitada”.

“A exigência do público é imensa e não perdoa nada”, concorda a directora. “Se não tivermos a última facilidade para o telemóvel ou para o tablet, já ficamos para trás; se não tivermos o acervo com uma boa visibilidade e recuperabilidade no Google, já existimos menos”, admite. Destaca, por outro lado, os recursos que a criação da Biblioteca Nacional Digital exigiu — e continua a exigir — e que envolvem “a transformação das infraestruturas técnicas, a necessidade de os profissionais adquirirem novas competências e a constante actualização dos meios de fornecimento do serviço do ponto de vista tecnológico”. “É uma realidade tão mais complexa quanto mais simples parece a sua utilização e tão ou mais dispendiosa do que a biblioteca das prateleiras”, advoga. Mas não tem dúvidas de que este é o caminho do futuro: “em 2013, apercebemo-nos de que o volume de tráfego na Biblioteca Nacional Digital é tal que pode corresponder, num ano, a vinte anos do volume de leitura nas salas de leitura aqui na BNP”. E conclui: “isso é o que as pessoas querem, é isso que nos convém”.

http://www.publico.pt/portugal/noticia/pelos-caminhos-da-biblioteca-nacional-1724966

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Beatriz Dias Coelho - A “odisseia” da utopia, ou a imagem do mundo que merecemos



26 de fevereiro de 2016 - 15h48 

“… é fácil confessar que muitíssimas coisas há na terra da Utopia que gostaria de ver implantadas nas nossas cidades, em toda a verdade e não apenas em expectativa”. São as últimas palavras de Thomas More em Utopia, ditas depois de Rafael Hitlodeu, o navegador que alegadamente conheceu a ilha da Utopia, terminar o seu relato. A ideia é clara: More simpatiza com alguns dos princípios da sociedade utopiana, mas não a vê como um modelo a implementar de forma exata.

Por Beatriz Dias Coelho


Quanto ao sentido da utopia, a especialista não tem dúvidas: “a utopia é hoje vista como uma estratégia de pensamento prospectivo e holísticoQuanto ao sentido da utopia, a especialista não tem dúvidas: “a utopia é hoje vista como uma estratégia de pensamento prospectivo e holístico “A intenção de More é não apresentar as ideias de Hitlodeu e a sociedade utopiana como modelares, esperando que o leitor seja capaz de um exercício de reflexão crítica sobre os aspectos positivos e negativos dessa sociedade”, diz Fátima Vieira, professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto especializada em estudos sobre a utopia.

No ano em que se assinalam 500 anos da sua publicação, a Utopia continua a ser lida, discutida e analisada, e encontra-se em qualquer biblioteca como clássico da literatura. E a sua mensagem, dizem os especialistas com quem falámos, continua a fazer sentido hoje: existem alternativas ao que está instituído.

“É um texto de grande amplitude, de abertura, de descoberta de caminhos, que até àquela altura não havia na cultura europeia”, diz Manuel Frias Martins, professor de Cultura Renascentista da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Uma sociedade em que nada é de ninguém – tudo é de todos.

Em que o bem-comum é mais precioso do que o bem individual. Em que a guerra é abominada e a caça é tida como loucura. Em que o ouro e outros metais ditos preciosos não têm valor. Em que um dia de trabalho tem seis horas, uma noite de sono tem oito e o resto do tempo é ocupado por cada um como entender. Assim é na ilha da Utopia, objeto central da obra homónima de Thomas More publicada em 1516, antítese da sociedade europeia do século 16.

More nasceu em 1477 (ou 1478, segundo alguns historiadores), em Londres. Foi advogado, chanceler de Henrique VIII e fez parte da Câmara dos Comuns. Em 1515, baseado em A República de Platão, começa a planear a redação da Utopia. Depois de uma visita a Londres do seu amigo Erasmo, autor de Elogio da Loucura, More envia-lhe o texto terminado. Erasmo, alegadamente sem o autor saber, entrega o texto ao impressor Thierry Martens de Lovaina, que o pública.

Redigida em latim, a Utopia, escreveu José de Pina Martins no estudo introdutório à edição da obra de More da Fundação Calouste Gulbenkian (2006), é “um escrito fundamental do humanismo”. “O ser humano encontra-se no centro do mundo e está nas suas mãos decidir o seu destino”, explica Fátima Vieira. “Não poderia nunca ter sido escrita na Idade Média, quando se acreditava que o destino havia sido já decidido por Deus”. A obra é escrita num tempo novo, em que o homem europeu encabeça os Descobrimentos, que revelam povos desconhecidos, ideias e costumes diferentes, novas possibilidades. É de Portugal, um dos países protagonistas dessas viagens intercontinentais, que vem a personagem central da obra — o navegador Rafael Hitlodeu, que dá a conhecer a ilha da Utopia. A obra, classifica Pina Martins, é um texto “do humanismo renascentista”.

Mas a obra é, também, reflexo de um contexto de acentuadas desigualdades sociais, em que direitos e liberdades estavam longe de ser uma garantia. E assim, Utopia — que é “obviamente uma obra de ficção, mas com um grande contributo para o pensamento filosófico”, diz Fátima Vieira — desenvolve-se em dois livros: o primeiro traça um olhar crítico sobre a época e o segundo dá a conhecer a ilha visitada por Rafael Hitlodeu.

A modernidade da obra

A Utopia é uma obra marcada pela realidade, mas também pela ficção. O primeiro livro trata da realidade – More faz um retrato crítico da Inglaterra (e da Europa) do ponto de vista social, político, económico e religioso. “É um olhar de alguém que sofre com aquele que sofre, um olhar sobre aquele que tem de roubar porque tem fome. More critica as estruturas do Estado exatamente porque acabam por promover o roubo e, em vez de castigar, deviam de facto reorganizar a própria sociedade de maneira a evitar que houvesse pobres e fome”, elucida Manuel Frias Martins. Para o académico, More é, assim, “um dos grandes humanistas que anunciam a modernidade”.

O livro II é integralmente dedicado à ilha da Utopia, à sua organização e aos seus princípios. É, segundo Fátima Vieira, “perfeita ficção”, denunciada pelo próprio navegador que, tal como a ilha, é imaginário. Outros indícios, como os nomes e a sua etimologia, contribuem para essa mesma ideia: a ilha – Utopia, neologismo criado por More que significa “não-lugar” –, a capital – Amauroto, “cidade sem habitantes” –, o rio – Anidro, “rio sem água” –, e o príncipe – Adamos, “chefe sem povo”.

“Todo este jogo é agravado pelo facto de o próprio nome do viajante utópico, Rafael Hitlodeu, conter também uma contradição: se, por um lado, Rafael nos lembra o arcanjo Rafael, portador da ‘cura divina’, por outro lado a etimologia grega de ‘Hitlodeu’ aponta para o facto de ele ser um ‘perito em bagatelas’”, diz Fátima Vieira. Em Utopia, esclarece, há constantes contradições. Mas como interpretá-las? “Todas estas contradições remetem a ilha da Utopia para o plano das ideias, para o plano meramente teórico, e era isso que More pretendia”, explica Fátima Vieira, que preside a Utopian Studies Society/Europe, uma associação interdisciplinar dedicada a estudos sobre o pensamento utópico e que está a preparar várias iniciativas para assinalar os 500 anos da obra de More.
É justamente no livro II que a inovação de More é visível – e acentua-se quando nos apercebemos de que vários princípios da sociedade utopiana, a que continuamos a ambicionar hoje, não são ainda uma realidade em muitos pontos do globo.

A sociedade utopiana é “uma democracia, visto que são os cidadãos que elegem os seus representantes”, diz Paulo Tunhas, professor de filosofia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. “Mas é uma democracia que tem componentes totalitárias. É, indiscutivelmente, um sistema fechado”, como evidenciam alguns princípios: “não se pode, por exemplo, sair de uma zona do território para outra sem autorização”. Numa época de monarquias, a ilha da Utopia tem um sistema político baseado na vontade do povo. “É uma nova forma de fazer política, em que todos os cidadãos podem participar”, explica Mónica Dias, professora do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa. Para que isso seja possível, More “apresenta o ideal educativo – o acesso de todos à educação é uma das facetas mais importantes da ilha”.

A obra de More tem, além disso, um importante papel na área do Direito. “Há uma ideia de Estado de Direito marcada – as pessoas não são condenadas pela arbitrariedade e pela vontade de um príncipe, há leis conhecidas e respeitadas por todos”, nota Mónica Dias.

O autor inglês não esquece, também, a religião e dedica-lhe um capítulo. Na ilha da Utopia há liberdade religiosa (ainda que existam algumas crenças obrigatórias, como a imortalidade da alma) – “isto é a aceitação da diferença, é a modernidade”, advoga Frias Martins.

Mas para o professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a modernidade de Thomas More relaciona-se principalmente com a ideia de “identificar a propriedade privada como o cerne das desigualdades sociais”, diz. É por isso que o autor cria na sua Utopia uma sociedade em que a propriedade privada não existe. “O iluminismo do século 19 vai beber à Utopiamuitos dos seus ideais e sobretudo o modo como vai ler os males sociais. Vai propor correções dos males sociais em termos de reorganização política da sociedade.”

Como Fátima Vieira observa, durante muito tempo pensou-se que More propôs a abolição da propriedade privada, “e por isso foi muitas vezes descrito como um protocomunista”, mas a académica defende que não se pode olhar para Rafael Hitlodeu como um porta-voz de More. “Essa ideia da ausência de propriedade privada de que Rafael Hitlodeu fala ao descrever a ilha da Utopia, não é necessariamente uma proposta defendida por Thomas More”, diz. “A ideia de olhar para o livro e associar-se ao pensamento comunista é típica do século 19 e do século 20, mas é errada porque se está a confundir a ideia de utopia – a ideia de pensar uma alternativa – com as idealizações dessa utopia.”

Mónica Dias defende que não é possível ver um paralelismo directo entre o princípio de abolição da propriedade privada expresso em Utopia e o princípio teorizado no socialismo que surge apenas no século 19, num contexto filosófico, económico e social muito diferente. “Os socialistas não vão, aliás, buscar essa ideia a More, vão sim a Platão, em A República, e a outros filósofos”, advoga.

A docente do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa rejeita comparações entre o socialismo científico enunciado por Karl Marx e Friedrich Engels no século 19 e o texto de Thomas More. “O socialismo científico do século 19, de Karl Marx e Friedrich Engels, aponta para uma sociedade perfeita num fim da História – onde a utopia já não seria necessária — e por isso apela a algo mais drástico, uma revolução – uma alteração total do sistema social —, que não é o que More queria”, afirma Mónica Dias.

“Podemos dizer é que, da mesma maneira que Thomas More olhou para a sua sociedade, viu que havia desigualdades e escreveu Utopia apresentando uma forte crítica social e mostrando que havia um caminho alternativo, os reformistas sociais do século 19 olharam para a sua sociedade e propuseram reformas sociais”. Foi o caso de Robert Owen, reformista britânico considerado um dos rostos do socialismo utópico e que, entre outras medidas, propôs melhorias para as condições de trabalho. “Thomas More nunca foi um revolucionário [como Marx e Engels], foi um reformista. Não escreveu um manifesto [como Marx e Engels], mas uma obra literária.”

More destina ainda um capítulo à guerra, considerada pelos utopianos como “bestial”. Homens e mulheres estão preparados para combater, caso seja necessário, mas na ilha da Utopia a guerra é sempre encarada como uma medida de último recurso. “Esta ideia de paz, por oposição à guerra, é uma ideia que começa no final da Idade Média e avança no Renascimento. O Humanismo é-lhe muito sensível. O século 16 é o século das guerras religiosas, e portanto a questão da paz acaba por ser um elemento central de quem se interessa por pensar o seu tempo. A questão da guerra é, de facto, a questão da paz, ou seja, a valorização da paz e a crença de que a guerra é um desiderato anti-humano, anti-social e anti-bem comum”, explica o professor de Cultura Renascentista da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

As convicções religiosas de More viriam a ser, aliás, o motivo da sua morte. Em 1531, o rei inglês Henrique VIII, que queria casar com Ana Bolena, proclama-se Chefe Supremo da Igreja, depois de o Papa Clemente VII lhe negar o divórcio de Catarina de Aragão. More, que não reconhece Henrique 8 como chefe da Igreja e se opõe ao divórcio, é condenado à morte por traição. É decapitado em 1535 e a sua cabeça exposta na Torre de Londres.

As utopias para além da Utopia

Apesar de não ser o primeiro texto sobre um ideal utópico, Utopia — uma palavra criada por More — viria a inaugurar uma tradição de obras que foram, depois, publicadas à luz de uma génese comum: a proposta de projetos alternativos para a sociedade. Para se proteger, Thomas More escreveu de maneira a que fosse sempre “Rafael Hitlodeu a fazer a apologia dessa ordem alternativa” e não o autor propriamente dito, diz Fátima Vieira, que explica que “o género literário utópico, em virtude desta estratégia narrativa, permite a crítica e a passagem de uma mensagem subversiva, tendo por isso conhecido grande pujança, ao longo destes cinco séculos, em tempos de opressão”.

À obra de Thomas More seguiram-se outras utopias renascentistas e, já no século 17, em 1624, Nova Atlântida, do britânico Francis Bacon aparece como a primeira utopia científica, em que “a base do progresso da sociedade é assegurada por avanços científicos”, afirma a professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Hoje, Nova Atlântida é “considerada fundadora de um género literário muito próximo do utópico: a ficção científica”.

No século 18, a presidente do ramo europeu da Utopian Studies Society destaca As Viagens de Gulliver do irlandês Jonathan Swift, publicada em 1726. “São paradigmáticas de uma atitude cínica em relação à ideia de possibilidade de aperfeiçoamento do ser humano e dos modos de organização em sociedade – é um bom exemplo de uma utopia satírica”. Mas nesse século houve também “um movimento mais positivo, informado pela visão iluminista do ser humano, e que se estende pelo século 19. No século 18 encontramos um conjunto de utopias que, na lógica do pensamento iluminista, nos falam de um futuro de felicidade. São, nessa medida, ‘eucronias’. Memoirs of Planetes (1795), de Thomas Northmore, é um bom exemplo de uma utopia que vê o futuro como forçosamente melhor do que o presente”.

As utopias do século 19 apostam na educação — “confiava-se que a sociedade melhor surgiria como reflexo de um indivíduo melhor”, esclarece Fátima Vieira. É neste século que, no contexto da Revolução Industrial e da “agudização do conflito de classe”, surgem as utopias marxistas. Entre elas, a professora destaca Notícias de Lugar Nenhum (1890), do britânico William Morris, em que “a revolução, abolindo todas as formas de propriedade privada, liberta o indivíduo para uma forma de vida mais solidária”, elucida.

A partir da ideia de utopia surgiram variantes, como a distopia. O século 20 ficou precisamente marcado por distopias, entre as quais se destacam várias obras dos britânicos H. G. Wells, Aldous Huxley e George Orwell e do russo Yevgeny Zamyatin. Nas décadas de 60 e 70 houve, porém, “um revivalismo utópico de feição feminista e ecologista”, nota Fátima Vieira. Foi nessa conjuntura que surgiram obras como Ecotopia (1975) de Ernest Callenbach ou Woman on the Edge of Time (1976) de Marge Piercy.

A especialista em estudos sobre utopia esclarece, no entanto, que as distopias não são necessariamente pessimistas, uma vez que não são antónimas das utopias. “A percepção que temos da distopia mudará se a entendermos como um aviso – a ideia de que aquele é um caminho que não devemos seguir – que ainda vamos a tempo de ouvir.”

Fátima Vieira nota que, nos últimos anos, várias obras têm apontado “para uma redefinição da utopia literária”, entre as quaisUtopia III (2006) do português José de Pina Martins, Inglaterra, uma Fábula (1999) do argentino Leopoldo Brizuela ou A Ilha da Mão Esquerda (1995) do francês Alexandre Jardin. “Estas obras são meta-utópicas, isto é, são exercícios de reflexão sobre o pensamento utópico, e buscam revalidar a utopia como estratégia para a construção do futuro. Cada uma das obras revisita uma obra utópica e atualiza-a para os nossos dias. O que sai valorizado dessas obras é a utopia enquanto estratégia, considerada válida hoje, como ontem, para a imaginação de formas de organização alternativa da sociedade.”

O lugar das utopias

Hoje, importa perceber qual é o lugar e o sentido de Utopia e das utopias em geral. Manuel Frias Martins acredita que as utopias existem “para serem perseguidas” e que devem ser concretizadas “em alguns dos seus ideais”, mas alerta para os seus perigos: “Costumo dizer que se alguma vez uma utopia se realizar, realiza-se sempre como tragédia. Porque a utopia não é realizável, por isso é que é uma utopia. Implementar uma utopia como objectivo final significa eliminar diferenças dentro da própria utopia e eliminar diferenças só se faz através da repressão da diferença. Que, neste contexto, é exactamente o contrário da utopia. Se isso acontecer, estamos perante tragédias que envolvem a morte de milhões de pessoas”.

Paulo Tunhas acredita que “a associação entre utopias e sistemas totalitários desfez o impulso utópico” e defende que a palavra “utopia” é, hoje, “utilizada num sentido muito vago”. “Hoje em dia reivindica-se a utopia, o direito à utopia, como se a utopia fosse uma coisa fácil, digamos assim”, acrescenta.

Fátima Vieira considera que já passou o tempo “dos grandes planos para a transformação do mundo, como os que foram oferecidos no século 19”. Ainda assim, “o desejo de mudança continua”, diz. A especialista em estudos sobre a utopia destaca as leituras do sociólogo francês Michel Maffesoli, que defende que existem hoje utopias intersticiais: “As utopias não existem como grandes planos, mas existem como pequenos planos, em micro-utopias que vão sendo realizadas. Quase não se dá por elas, mas vão efetivamente contribuindo para alterar o mundo.” Fala ainda do filósofo francês Gilles Lipovetsky que acredita, por sua vez, que nos nossos dias são comuns as “utopias individuais, decorrentes da consciência de que a transformação coletiva poderá decorrer da ação de indivíduos comuns, formando redes”.

Quanto ao sentido da utopia, a especialista não tem dúvidas: “a utopia é hoje vista como uma estratégia de pensamento prospectivo e holístico. Na verdade, o raciocínio utópico parte do entendimento de que as sociedades funcionam como sistemas e que, por isso, cada vez que for alterado um dos aspectos desse sistema (por exemplo, o económico), todos os outros aspectos serão afetados.” Fátima Vieira remete para um vídeo publicado no YouTube*, no qual o escritor uruguaio Eduardo Galeano descreve “a forma exemplar como o realizador de cinema argentino Fernando Birri terá explicado para que serve a utopia: a utopia é algo que colocamos no nosso horizonte, damos dez passos e ela afasta-se dez passos, damos mais dez passos e ela afasta-se outros dez. Mas é para isso mesmo que ela serve – para nos fazer caminhar”.


Fonte: Blog do Rogério Cerqueira Leite

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