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quinta-feira, 8 de abril de 2021

Correia da Fonseca - Viver com os outros

* Correia da Fonseca

Foi na pas­sada se­gunda-feira: o dia ama­nhe­cera a jus­ti­ficar a sua per­tença à pri­ma­vera, e a te­le­visão, mais exac­ta­mente a RTP1, como que apro­veitou o quase tá­cito con­vite para sair a re­co­lher ima­gens no ex­te­rior, com ci­da­dãos e ci­dadãs que se adi­vi­nhava es­tarem fartos de con­fi­na­mentos de vária ordem a sa­ci­arem pelo menos um pouco a sua sede de ar livre. E, tanto quanto as ima­gens per­mi­tiram ver, não an­davam iso­lados ou apenas aos pares: es­tavam em grupos, como que acres­cen­tando ao prazer do ar livre usu­fruído o outro prazer de es­tarem com ou­tros, como se o ar livre só se com­ple­tasse com a pre­sença de gente e só desse modo o prazer fosse in­teiro. E seria assim, em ver­dade. Porque a ge­ne­ra­li­dade dos pra­zeres que o quo­ti­diano nos ofe­rece só é com­pleto se par­ti­lhável e/​ou par­ti­lhado, ainda que nem sempre te­nhamos clara cons­ci­ência disso. Viver a sério é com os ou­tros, ainda que nem se­quer nos lem­bremos desse con­di­ci­o­na­mento, tão na­tural e bá­sico que ele é. O tí­tulo de um ro­mance de Isabel da Nó­brega, es­cri­tora que pa­rece estar a ser in­jus­ta­mente es­que­cida, é esse mesmo: «Viver com os ou­tros». Que esta apres­sa­dís­sima alusão os re­corde, ao livro e à au­tora, é um mé­rito mí­nimo que lhe cabe.

Ro­binson e Sexta Feira

Sabe-se, é claro, que a so­ci­e­dade hi­per­ca­pi­ta­lista em que vi­vemos, em que na ver­dade es­tamos apri­si­o­nados, pri­vi­legia as so­lu­ções in­di­vi­duais por­ven­tura con­den­sadas no por vezes quase sa­cra­li­zado prin­cípio do de­sen­ras­canço in­di­vi­dual. Até serão muitos os que se sentem cons­tran­gidos pela ne­ces­si­dade prá­tica de viver com os ou­tros e por­ven­tura sentem uma es­pécie de uma in­for­mu­lada e aliás in­con­cre­ti­zável vo­cação para serem Ro­bin­sons Crusoe. Mas até Ro­binson teve o seu Sexta Feira a des­truir a in­teira so­lidão que uma ilha de­serta im­poria e, tanto quanto se en­tende ou adi­vinha, a pre­sença de Sexta Feira foi-lhe de enorme uti­li­dade. Afinal, no de­curso das an­danças que a vida nos impõe, todos pre­ci­samos de Sextas Feiras e só com eles é que tem in­teiro sen­tido o per­curso exis­ten­cial que cum­primos. Por ou­tras e sim­ples pa­la­vras: viver é com os ou­tros e não há outra ma­neira de estar vivo; viver é com os ou­tros mesmo quando pa­rece que viver é contra os ou­tros. Assim, um belo dia so­la­rengo que con­firma a che­gada da Pri­ma­vera só é ade­qua­da­mente sa­bo­reado se o pu­dermos par­ti­lhar com ou­tros. E o que é ver­dade para um dia pri­ma­veril é-o também para ou­tros con­textos menos po­e­ti­zá­veis mas mais ur­gentes: a con­se­cução de ob­jec­tivos co­muns, a de­fesa de di­reitos, a cons­trução de uma so­ci­e­dade. Sem os ou­tros, os ob­jec­tivos bá­sicos somem-se dis­sol­vidos na mi­opia do in­di­vi­du­a­lismo ex­tremo e bronco. Os ou­tros é que dão sen­tido a quase tudo. Vi­vamos com eles.

https://www.avante.pt/pt/2471/argumentos/163676/Viver-com-os-outros.htm

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Correia da Fonseca - A visita de Jean Valjean

* Correia da Fonseca


A visita de Jean Valjean

Quando há mais de século e meio publicou «Os Miseráveis», Victor Hugo não escondeu ao que vinha: na página inicial do seu livro escreveu que «enquanto houver sobre a terra ignorância e miséria, livros como este poderão não ser inúteis». De então para cá, gerações sucessivas mergulharam na leitura do romance, emocionando-se com o percurso de Jean Valjean, querendo mal ao inspector Javert, enternecendo-se com o romance de Mário e Cosette, vibrando porventura com as páginas evocadoras de barricadas erguidas nas ruas de Paris. O Cinema, a Televisão, até o Teatro, fizeram de «Os Miseráveis» material para versões suas. A RTP iniciou há dias a transmissão de uma adaptação do romance feita pela BBC, e é de crer (sobretudo de desejar) que a tradicional qualidade britânica em trabalhos destes não seja prejudicada por algum eventual preconceito ideológico. Porque, como bem se sabe, a BBC é de uma cepa conservadora e «Os Miseráveis» mantem, tantos anos depois, alguma coisa de subversivo.

Uma espécie de estandarte
Já não pode tratar-se, é claro, da denúncia do então selvático regime prisional francês ou da existência na sociedade francesa de «miseráveis» equiparáveis aos que terão inspirado Hugo. Mas, para lá da odisseia de Jean Valjean que podemos agora revisitar, não é necessária muita persistência para encontrarmos, mesmo sem sairmos desta nossa Europa apesar de tudo privilegiada, situações de miséria social (e também de miséria de outra ordem, mas passemos sobre esse aspecto) que há muito deveria ter sido erradicada. De qualquer modo, não é preciso transportar Jean Valjean para este nosso século XXI para encontrarmos sinais de actualidade na narrativa de Victor Hugo: logo no primeiro episódio da adaptação televisiva, o caso do bispo que com espírito cristão «cobre» o roubo dos castiçais de prata que fizeram Valjean cair em tentação pode fazer-nos lembrar a lufada de cristianismo renovado que estará a soprar de Roma. E este relativo pormenor no todo narrativo pode (e deverá) lembrar-nos uma busca de autenticidade cristã que, como se vê, contaminou também a obra e decerto o pensamento de Victor Hugo, o que tem um significado cuja dimensão se mede pelo prestígio que o romancista teve durante décadas junto das massas leitoras e que de algum modo ainda se mantem. Em verdade, o nome de Victor Hugo foi uma espécie de estandarte do pensamento «de esquerda» em tempos de ofensiva maurrasiana dentro e fora de França (Salazar era um veemente admirador de Maurras). E assim se verifica uma vez mais que isto anda tudo ligado.


http://www.avante.pt/pt/2394/argumentos/156698/A-visita-de-Jean-Valjean.htm

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Correia da Fonseca - Talvez um activo em risco



  • Correia da Fonseca 

Talvez um activo em risco
Era um programa habitado pela inteligência e que, transmitido pela RTP2 compreensivelmente por volta da meia-noite dos domingos, terminou agora, esgotadas as treze emissões desde o início previstas. Intitulava-se «Raízes», nele não acontecia mais que uma conversa entre Maria João Seixas e o prof. José Pedro Serra, e quase sempre isso era acontecer muito. Nesta última emissão, falou-se a dada altura da destruição da biblioteca de Alexandria, situada no tempo há bem mais que um par de séculos, e foi então que José Pedro Serra referiu uma projectada ou já por ele empreendida «História Mundial da Destruição dos Livros». Não deixaram de ser então lembrados os autos-de-fé nazis em que foram queimados, em ambiente de sinistra festa, não apenas os livros de Thomas Mann, como Maria João Seixas recordou, mas também obras de outros autores ideologicamente mais à esquerda. E também deverá ter sido referida, ainda que sem as demoras que o assunto justificaria, a institucionalizada acção censória durante a ditadura que Abril derrubou.
Outra «História Mundial»
Por essa altura, talvez muitos telespectadores tenham recordado o «Fahrenheit 451», romance de Ray Bradbury, e/ou a sua notável adaptação ao cinema feita por François Truffaut. Era uma estória terrível, situada entre a advertência e a previsão, que talvez ficasse bem como capítulo último e já profético da tal «História Mundial da Destruição dos Livros»do professor José Pedro Serra. Entretanto, porém, o que decerto é o pior de tudo é que essa destruição não é um caso de pessimista «ficção científica»: prossegue de facto na vida real, ainda que nem todos dêem por isso ou se preocupem. Quando se admite que a leitura de livros nos ecrãs dos computadores pode substituir a leitura de livros em papel sem perda de leitores em número e qualidade, é de facto da destruição dos livros que estamos a falar, semelhantemente ao modo como «e-mails» e «sms»s estão a acabar com as cartas tradicionais excepto quando elas mantêm valor documental como acontece (ainda?) no chamado mundo dos negócios e nas funções oficiais. E para avaliar o que fez o livro pelo avanço civilizacional e pelo progresso das gentes bastará talvez lembrar o relativamente breve período de tempo decorrido entre Gutenberg, falecido já na segunda metade do século XV, e o decisivo «boom» intelectual do século XIX. Em verdade, trata-se de um precioso activo humano que pode estar ameaçado. É claro que o eventual abandono do livro ou a sua decadência como instrumento cultural, isto é, como veículo de entendimento do mundo e da vida, não implica necessariamente o advento da ignorância como dominadora de quase tudo, ainda que certas formas de ignorância mascarada sejam hábeis a avançar. Porém, a expressão «barbárie informatizada» ameaça por vezes vir a ter algum significado concreto. Em verdade, a imaginada «História Mundial da Destruição dos Livros» tem um sentido profético que só por leviandade se desvalorizará. O que é inquietante quando nos lembramos de que também poderia ser imaginada uma «História Mundial da Leviandade Humana».

http://www.avante.pt/pt/2303/argumentos/148337/

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

RTPN - «O Douro nos Caminhos da Literatura»



  • Correia da Fonseca 


Vestígios
Em perfeita legítima defesa, na preocupação de escapar por algum tempo ao massacre por mediocridades e insignificâncias várias que nos diversos canais se alongam pelas tardes de domingo, pelo natural desejo de por algum tempo respirar em paz (pois o telespectador «respira» também pelos olhos e pelos ouvidos, mesmo quando não se dá conta disso), decidi no passado domingo ir ao encontro de Aquilino. Eram 20 horas, a altura dos telenoticiários principais, e eu sabia que essa havia sido a hora escolhida para a transmissão na RTPN da série «O Douro nos Caminhos da Literatura», agora em repetição. Note-se a sabedoria com que o horário foi escolhido: não apenas a exiguidade da audiência provável já estava garantida pelo facto de a RTPN só ser acessível a alguns, alguém sabiamente decidiu que os sete documentários que integram a série haveriam de ser transmitidos quando os três principais canais abertos estivessem a dar aos telespectadores as notícias do País e do mundo. Assim ficou praticamente garantido que a generalidade dos cidadãos telespectadores continuaria na ignorância total ou parcial relativamente aos sete escritores cujo perfil e obra eram abordados pela série: Torga, Junqueiro, João Araújo Correia, Domingos Monteiro, Trindade Coelho, Pina de Morais e Aquilino Ribeiro. Calculo que a estratégia tenha obtido pleno êxito: acerca de Aquilino e de Torga, mesmo de Junqueiro, ainda será possível encontrar com alguma facilidade quem tenha ideia de quem foram e do que escreveram. Mas de João Araújo Correia ou de Domingos Monteiro, quantos saberão deles o mínimo dos mínimos? Muito poucos, decerto, porque nisto de deportar escritores e livros para lugares e tempos onde dificilmente podem ser encontrados aRTP não brinca em serviço.

Como se…

Convém dizer que não foram apenas, nem sobretudo, o amor pela literatura e a admiração por aqueles sete escritores que motivaram esta série, aliás de arranque e concretização aparentemente difíceis e lentos: ter-se-á tratado principalmente de chamar a atenção dos portugueses para a região do Douro e as suas maravilhas naturais, isto no enganoso pressuposto de que a série teria ampla audiência. Tudo bem: a extraordinária beleza da região duriense está perfeitamente a par da grandeza de um Aquilino ou de um Torga, à altura do talento dos outros escritores biografados na série. Talvez para eventual reforço do prestígio da iniciativa foi contratada a colaboração de António Barreto e de Francisco José Viegas, este ainda longe então de subir a secretário de Estado, mas nem seria preciso tanto: os escritores biografados, pela obra e pelo percurso de vida, a paisagem pelo encanto e pela majestade, garantiriam o mérito que a série efectivamente teve. Infelizmente, porém, terá sido vista por pouco mais que um punhado de telespectadores, e é claro que esta circunstância nos devolve uma velha questão sempre remetida pela RTP para a penumbra das omissões mas sempre de fundamentalíssima importância: o crónico e manifesto desapreço da operadora estatal de TV pela cultura literária, pelos livros, pelos escritores, pela leitura. É um fenómeno dificilmente negável, por evidente, e curioso, pois é legítimo supor que quem comanda a RTP em funções de topo saiba ler e escrever e faça aceitável uso destas duas prendas. Contudo, não apenas os livros e a leitura estão reduzidos nas antenas daRTP a meros vestígios, aliás raros, excepto na «2» (e a mera consulta das tabelas de audiências é por si só bastante para que imaginemos as consequências desse exílio), como também o grosso da programação dos restantes canais acompanha avidamente os critérios ditos comerciais das estações privadas quando, de Norte a Sul, semeiam o conforto da ignorância convencida, a superficialidade, os minúsculos escândalos de patamar ou de viela, a incivilidade. Com momentos que funcionam como oásis, será certo. Mas são oásis onde só muito raramente se encontrará uma referência estimulante da leitura ou o explícito apreço pela condição de escritor. Neste caso, talvez só com uma excepção, a de António Lobo Antunes, espero um dia entender porquê, e agora também a de José Saramago que, tendo morrido, deixou de ser tão incómodo quanto era. Para lá disto, sublinho, sobram vestígios. Como se se quisesse consolidar um País que não leia. Isto é, que não pense
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Avante
N.º 1968
18.Agosto.2011 

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Carregado por  em 28 de Jan de 2009
O Douro...Nos Caminhos da Literatura - Vídeo de Apresentação
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Mais vídeos de «O Douro nos Caminhos da Literatura» »

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Os Torcionários - Correia da Fonseca

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Os torcionários

Janeiro 19, 2010 
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Com base em duas reportagens televisivas, Correia da Fonseca denuncia que “em muitas empresas portuguesas é aplicada a tortura a trabalhadores que se tornaram indesejados pelas respectivas gestões”.
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“Dizê-lo parece um exagero. Não é. Não se trata, é certo, daquele tipo de torturas que sabemos ter sido aplicado no quadro de brutalidades mais primitivas e primárias, com sangue a jorrar e as vítimas a uivarem de dor. Mas há outras formas e, de resto, sabe-se que as práticas torcionárias fizeram grandes progressos nos últimos cem anos, número redondo. Agora, usam-se métodos que não fazem sangue e não deixam marcas visíveis nos corpos”.
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Correia da Fonseca – 18.01.10
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Primeiro foi, na RTP1, um brevíssimo apontamento de reportagem transmitido quando o Telejornal daquela noite já ia adiantado, porventura já quase totalmente ausente o inicial interesse do telespectador, esgotado após as primeiras notícias e a primeira meia hora. Depois, num outro dia, foi uma reportagem bem mais extensa, mas na RTPN, isto é, só acessível à minoria que recebe televisão por cabo. De onde, presume-se, que poucos se tenham dado adequada conta da informação.
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Contudo bem mais importante que a maioria das notícias que recheiam telejornais e afins, de facto tão dramática quanto outros dramas de que nos são dados circunstanciados aspectos: em muitas empresas portuguesas é aplicada a tortura a trabalhadores que se tornaram indesejados pelas respectivas gestões.
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Dizê-lo parece um exagero. Não é. Não se trata, é certo, daquele tipo de torturas que sabemos ter sido aplicado no quadro de brutalidades mais primitivas e primárias, com sangue a jorrar e as vítimas a uivarem de dor. Mas há outras formas e, de resto, sabe-se que as práticas torcionárias fizeram grandes progressos nos últimos cem anos, número redondo. Agora, usam-se métodos que não fazem sangue e não deixam marcas visíveis nos corpos.
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Mesmo entre nós, a PIDE utilizou largamente a tortura do sono, sem vestígios sanguinolentos, ainda que na maior parte dos casos combinada com modalidades mais tradicionais. Ora, as formas adoptadas nas empresas portuguesas a que a reportagem se referiu, embora tendo o cuidado de não as identificar, são deste género mais recente. Deve ser um sinal claro de modernidade.
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Porém, quanto aos métodos concretos a reportagem foi um poucochinho mais explícita.
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Desde retirar ao trabalhador (ou trabalhadora, é claro), qualquer tarefa, obrigando-o a manter-se no seu lugar durante todo o tempo do horário sem nada para fazer, ou distribuir-lhe tarefas menoríssimas e inúteis que resultam em humilhação profissional óbvia, até colocar a secretária da vítima virada para uma parede e de costas voltadas para todo o resto durante o dia laboral inteiro, ou ainda, em hipótese mais agressiva, colocar o empregado numa sala vazia de tudo incluindo assentos, há uma gama de «tratos especiais» que algumas empresas aplicam. Com um objectivo: o de pressionar o empregado para que ele peça a demissão, já que em certos casos despedir um trabalhador sem justa causa ainda é oneroso e complicado.
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A tudo isto, chama-se, pelos vistos, «assédio moral». Esta designação soft é que nunca foi descoberta pela PIDE, que seguramente teria gostado dela. Se ainda há por aí algum antigo agente com planos para o futuro ou, mais provavelmente, algum seu descendente ou discípulo, bem poderá reflectir que «fica para a outra vez».
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A reportagem não explicou se este comportamento empresarial, adoptado por directas instruções de algum patronato ou por inspirada iniciativa de quadros de chefia intermédia, se arrisca a ser reprimido por quem vela pelas condições de trabalho em Portugal, e se expõe quem o pratica a sanções severas. Infelizmente, tenho para mim como provável que se mantenha impune, ao menos por agora.
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De qualquer modo, esta denúncia pela TV, relativamente discreta, sugere que está a ser adoptado com certa frequência. Será porventura uma nova etapa na modernização, já há algum tempo em curso, das relações laborais no nosso País, assim se complementando a flexibilização com um estímulo a que poderá chamar-se «flexitortura».
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De qualquer modo, parece impor-se que todos saibamos mais sobre o assunto. Isto é: que sejamos esclarecidos pelos serviços públicos que têm o estrito dever evitar uma confusão, mesmo que pontual, entre patrões e torcionários.
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* Correia da Fonseca é amigo e colaborador de odiario.info
(Vítor Cardoso, por email)

3 comentários

  1. É verdade, amigo! O que se passam em algumas empresas com muitos trabalhadores portuguses é do mais sanguinário e desumano que pode haver contra qualquer ser vivo: acédio moral.
    Eu sei o que é este tipo de selvaria. Sofria na carne, enquanto soldado do exército cobarde e fascista que manteve Portugal naquela situação até ao 25 de Abril. Situação de exército cobarde, entenda-se.
    Agora, penso eu, que todas as entidades patronais que praticam tais crimes deviam ser denunciadas a trabalhadores e trabalhadoras honestos (as), para que todos, em conjunto, estudassem uma forma para que se fizesse um julgamento justo a esses assassinos. E, como é bem evidente, esse ou esses julgamentos nunca deveriam passar pelos nossos tribunais, porque estes, na minha perspectica claro, também estão comprometidos. Por isso, ainda que muitos me venham a chamar de qualquer coisa, devíam ser os próprios lesados a fazer justiça a esses bandidos.
    Eu já estou velho, mas alinho. Acabar o resto da minha vida numa prisão deste sistema judicial, com estes Juízes, corruptos, só traria serenidade ao meu espírito.
    Abraços
    David Santos, São João da Madeira.
     
  2. Acho que os sindicatos podem aqui ter também uma importante palavra a dizer, para além dos deputados progressistas na AR e no PE. Será preciso divulgar a gravidade destes factos perante os órgaos de soberania portugueses e até em tribunais europeus. Poderemos nalguns casos estar a queixar-nos ao bandido, mas se as instituicoes nao cumprirem o seu papel correctamente, devem ser por sua vez denunciadas como tal.
  3. Estau de acordo com os argumentos dos dois comentarios.
    Defacto, os patroês sao todos iguais seja em portugal ou na europa tudo isto chama-se capitalismo.
    Na sociadade capitalista o homem so conta como força de trabalho mais nada,se nao entra no sixtéma fica de lado.A todos os que resistem coragem camaradas,a rasâo é nossa. Joao FERNANDES Toulouse França, 20/01/10

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Liberdade de expressão e liberdade de calúnia - Correia da Fonseca

Na Periferia do Império





Posted: 12 Jan 2010 12:32 AM PST
“Quem de olhos abertos e ouvidos atentos há décadas acompanha estas coisas da informação e da desinformação, da notícia honesta e da invenção sem pudor, bem sabe como sobretudo no terreno da vida política e seus arredores, mas não apenas aí, tem sido abundantemente usada a liberdade de calúnia mascarada de liberdade de expressão."
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Ao abrigo desse equívoco, vem a Esquerda sofrendo um permanente bombardeamento de imposturas que vêm de longe no tempo, que atravessaram a fronteira representada pelo derrubamento do fascismo e prosseguem nesta nossa democracia em velocidade de cruzeiro”.


Correia da Fonseca n'O Diário

Na Periferia do Imperio - http://www.naperiferiadoimperio.blogspot.com
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Liberdade de expressão
e liberdade de calúnia


Correia da Fonseca“Quem de olhos abertos e ouvidos atentos há décadas acompanha estas coisas da informação e da desinformação, da notícia honesta e da invenção sem pudor, bem sabe como sobretudo no terreno da vida política e seus arredores, mas não apenas aí, tem sido abundantemente usada a liberdade de calúnia mascarada de liberdade de expressão.
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Ao abrigo desse equívoco, vem a Esquerda sofrendo um permanente bombardeamento de imposturas que vêm de longe no tempo, que atravessaram a fronteira representada pelo derrubamento do fascismo e prosseguem nesta nossa democracia em velocidade de cruzeiro”.

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Correia da Fonseca* - 23.12.09
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Um senhor polícia muito mediático que já não exerce voltou na passada semana a ser notícia na televisão. É aquele ex-inspector que, a julgar pelo que tem dito e escrito, teve a perspicácia bastante para descobrir que o casal McCain, tristemente célebre na sequência do desaparecimento da sua filha Maddie, tem graves responsabilidades no terrível caso. Não porque tenha assassinado a criança, o senhor ex-inspector não vai tão longe, mas sim porque terá feito desaparecer o corpo da filha morta. Não sei por que motivo ou com que objectivo o terá feito. Decerto por insuficiente vigilância minha, nunca assisti a que o senhor ex-inspector tenha explicado na TV, meio de informação que frequenta muito, os motivos raros e as circunstâncias macabras que levaram o casal McCain a um acto tão sinistro. Também não li o livro por ele escrito sobre o assunto e que, ao que consta, se vendeu muito bem até que uma decisão judicial suspendeu o negócio, com perdão desta palavra que neste caso não fica muito bem mas se utiliza à falta de outra mais suave.
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Estou, portanto, completamente em branco quanto ao móbil do crime que os pais de Maddie terão praticado, crime que, repete-se, não terá sido o de assassínio, mas que não deixa de repugnar e de suscitar um punhadão de suspeitas. Se o livro do ex-inspector ainda estivesse à venda nas livrarias, iria eu a correr comprá-lo, lê-lo seguramente num fôlego, e ficaria esclarecido. Mas não está, pelo que me vejo forçado a tecer elucubrações que, garanto, nunca são lisonjeiras nem sequer generosas para com os pais da menina.
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Como é sabido, os McCain negam tudo quanto o ex-inspector disse e escreveu sobre o assunto, consideram-se insultados e difamados, e por isso mesmo recorreram ao tribunal para que fosse sustada a circulação do livro que alegam ser difamatório. O tribunal acedeu; e por isso aí está o antigo investigador impedido de discorrer publicamente acerca do caso, pelo menos sob a forma de livro mas provavelmente também por qualquer outro meio, e portanto de explicar as raízes decerto sólidas do seu convencimento.
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Perante esta situação, queixa-se o autor do já best-seller de que lhe está a ser coarctada a liberdade de expressão, o que é evidentemente inconstitucional. Aliás, na TV surgiram outras vozes que não a do ex-inspector a expressarem a mesma indignação e a repetirem o mesmo argumento. Assim, o caso alargou o seu âmbito: passou a ser a liberdade de expressão, alegadamente ofendida ou mutilada, a ser a matéria central do assunto, o que não é pouca coisa. E o que confere à questão um relevo ainda maior é o facto de, de há uns tempos a esta parte, a propósito de um ou outro assunto, surgirem na TV e não só queixas semelhantes que apontam para uma situação grave: a liberdade de expressão está a ser recusada.
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Por mim, estou de acordo: a liberdade de expressão, designadamente a da expressão escrita, está mesmo a ser limitada.
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Não, quero crer, por efeito de decisões judiciais, mas sim por outros meios que correspondem à existência de uma censura de facto no interior de pelo menos alguns dos mais poderosos órgãos de comunicação social.
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Porém, o caso do ex-investigador que acusa os pais de Maddie McCain suscita uma outra questão cujo esclarecimento é fundamental para que nas nossas cabecinhas de cidadãos consumidores de informação não se estabeleçam confusões danosas da desejável lucidez: uma coisa é o fundamentalíssimo direito à liberdade de expressão e coisa diferente será um tácito direito à liberdade de calúnia.
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Quem de olhos abertos e ouvidos atentos há décadas acompanha estas coisas da informação e da desinformação, da notícia honesta e da invenção sem pudor, bem sabe como sobretudo no terreno da vida política e seus arredores, mas não apenas aí, tem sido abundantemente usada a liberdade de calúnia mascarada de liberdade de expressão.

Ao abrigo desse equívoco, vem a Esquerda sofrendo um permanente bombardeamento de imposturas que vêm de longe no tempo, que atravessaram a fronteira representada pelo derrubamento do fascismo e prosseguem nesta nossa democracia em velocidade de cruzeiro. Com algum êxito, porque a calúnia é livre mas não o é a reposição da verdade: é a liberdade de expressão de sentido único, usada para tornar livre e eficaz a mentira.
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E é claro que tudo isto tem a ver, dia após dia, com o televisor instalado em nossa casa.


* Correia da Fonseca é amigo e coloborador de odiario.info
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