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quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Valdemar Cruz - 100 objetos que contam histórias de um século de vida do PCP

 SOCIEDADE

 * Valdemar Cruz, Jornalista



Na noite de 28 de fevereiro de 1935, no Barreiro, a luz foi cortada e, protegidos pela escuridão, militantes comunistas espalharam propaganda em diversas ruas. Numa ação espetacular, içaram oito bandeiras vermelhas com a foice e o martelo

Da caixa de fósforos da casa clandestina ao jogo de xadrez feito com pão, da bicicleta do funcionário ao violino construído na prisão, da marmita para esconder o “Avante!” à máquina de escrever silenciosa, da bandeira hasteada no Barreiro em 1935 à primeira pedra arremessada no ataque ao Centro de Trabalho de Aveiro em 1975, o livro “Vozes ao Alto!” conta 100 histórias contidas na história do PCP. Neste artigo, contamos - e mostramos - uma vintena delas

2 SETEMBRO 2021 12:27


Éum mergulho profundo num mar de histórias materializadas a partir das narrativas contidas nos objetos mais díspares e inimagináveis. Intitulado “Vozes ao alto!”, o livro a lançar esta sexta-feira na festa do “Avante!” propõe-se, com base num intenso trabalho de recolha de objetos, alguns óbvios, outros de presença e importância inesperada, contar os múltiplos caminhos seguidos pela vivência dos comunistas portugueses durante um século.

Dividido em três períodos distintos, começa em 1921 e abrange os primeiros cinco anos de existência do PCP, numa legalidade precária que corresponde à crise final da Primeira República. Segue pelos 48 anos de resistência na clandestinidade, entre 1926 e 1974. E conclui com os já 45 anos de vivência em regime democrático.

Projeto coletivo concretizado através de financiamento colaborativo ao qual aderiram centenas de pessoas através das redes sociais, o livro foi elaborado com fotografias dos premiados Adriano Miranda, Egídio Santos e Paulo Pimenta, e textos de Cristina Nogueira, doutorada em Ciências da Educação e investigadora de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, Isabel Nogueira, psicóloga, Maria Alice Samara, doutorada em História Institucional e Política Contemporânea, e Vanessa de Almeida, licenciada em História e com mestrado em Antropologia. Não são todos comunistas, ou militantes do PCP. Como escreve o historiador Manuel Loff no prefácio, “não é preciso ser-se militante comunista para partilhar uma parte da cultura da sociabilidade comunista, mesmo que apenas, como fazem todas/os estas/es autoras/es, na afirmação pública do reconhecimento das motivações e dos valores que fundamentaram a conceção e a preservação de cada um destes objetos”.

UM VESTIDO EM CAXIAS
Começaram a envolver-se nesta aventura aos poucos, inspirados por fragmentos, ideias dispersas, curtas passagens de leituras diversas, como quando alguém chamada Conceição disse ter feito um vestido em Caxias. Ou a partir dos múltiplos significados e inimaginável importância de um objeto tão comum como uma caixa de fósforos, percepcionada durante a leitura de um artigo assinado por uma “Leonor”, publicado em “A Voz dos Camaradas”.

Depois começam as perguntas. Por exemplo, porque era tão importante uma caixa de fósforos numa casa clandestina? “Leonor” era Margarida Tengarrinha e dá a resposta no tal artigo, que se intitulava “A caixa de fósforos do Partido”. Ao referir-se àquele objeto afinal tão discreto, Tengarrinha, citada no livro, escreveu: “Acreditem que isto não é dar excessiva importância aos objetos, nem mesmo querer tornar simbólica uma questão de pormenor. Mas a ‘caixa de fósforos do Partido’ representa ainda hoje para mim a disciplina constante que se educa nas pequenas como nas grandes coisas”.

O PRIMEIRO COMUNICADO
A viagem de um século proporcionada por este livro é impressionante. Abre com a reprodução de uma folha de papel de 104 por 76 centímetros encontrada na Torre do Tombo. É uma proclamação intitulada “Ao País”, data de 1921 e é tido como o primeiro comunicado do PCP. Foi apreendido pela polícia na algibeira de um jovem barbeiro oriundo do Porto, José Carlos Rodrigues Frias, às 7 horas da manhã do dia 13 de março de 1922 numa morada na Calçada de S. Vicente, em Lisboa.

Depois, é um constante navegar por uma verdadeira galáxia de objetos, alguns icónicos, outros apenas reflexo de um quotidiano vernacular. Podem incluir o cartão de militante, datado de 1925 e ainda chamado “bilhete de identidade”, a bandeira do PCP hasteada no Barreiro no dia 28 de fevereiro de 1935, depositada na Torre do Tombo e referente a um processo em que os réus são acusados do crime de "propaganda revolucionária". Naquele dia, pelas 22h15, é cortada a luz elétrica na vila e impõe-se a escuridão total. Militantes comunistas aproveitam para espalhar materiais de propaganda e são içadas oito bandeiras vermelhas, uma delas de grandes dimensões, no topo da chaminé de 36 metros de altura das Oficinas Gerais dos caminhos de ferro.

UM VIOLINO CONSTRUÍDO NO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO
Há objetos inusitados, como um violino construído no campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, por um comunista da Marinha Grande, algures entre 1936 e 1953. Se há um elemento icónico da clandestinidade comunista é a bicicleta utilizada por funcionários nas deslocações pelo país. Também lá está representada, tal como uma das brochuras mais míticas de quantas foram criadas pelo PCP: “Se Fores Preso, Camarada...”. O livro reproduz a primeira edição, de 1947, com capa azul e a foice e o martelo. Não é indicado o autor, mas sabe-se ter sido Álvaro Cunhal a perceber a necessidade absoluta de escrever um texto com recomendações para melhor ser enfrentada a duríssima prova da prisão e tortura. Como se explica no livro, “a leitura e a discussão desta obra eram obrigatórias. Nesta revela-se aquilo que o preso devia esperar, os métodos de tortura aplicados, bem como as alucinações daí resultantes. Descrevem-se os espancamentos ‘durante horas e horas a cavalo-marinho com grossas tábuas’, os ‘apertos de testículos, queimaduras com faíscas elétricas e com cigarros, pancadas brutais nas plantas dos pés descalços’, a tortura do sono, a estátua, assim como a incomunicabilidade”, a representação de papéis pela PIDE, com o polícia bom versus o polícia mau, bem como as permanentes ameaças e calúnias.

Por tudo isto, a brochura termina com um apelo ao orgulho do resistente: “Se fores preso, camarada, e souberes vencer as torturas e as horas difíceis, e se souberes honrar o teu nome de comunista, e se não prestares à polícia fascista, a esses inimigos do povo, quaisquer declarações prejudiciais ao Partido -, sentirás uma profunda alegria pelo teu próprio comportamento, ficarás profundamente satisfeito pela tua firmeza, pela confiança em ti próprio, e pela confiança e consideração do Partido, dos teus camaradas, da classe operária, dos trabalhadores, de todos os portugueses honrados.”

UMA COISA ESTRANHA
Os autores deixam bem claro não pretenderem com este livro elaborar uma história do PCP. Quando muito, serão contributos para uma melhor compreensão do universo comunista ao longo de vários períodos históricos. Na sua diversidade, os objetos representados – e são estes como poderiam ser muitos outros – abrem espaços de reflexão, não apenas para a história do PCP, como para a do mundo em que o partido nasceu, cresceu e se solidificou. Como escreve Manuel Loff, “estes cem anos confundem-se inevitavelmente com a história do país e do mundo em que o PCP existiu e existe, mas para o observador desatento, muito do que aqui se mostra, se explica, se recorda, pode parecer ter uma natureza estranha – porque, á luz da cultura política dos últimos quarenta anos, a clandestinidade é estranha, é estranha a decisão de dedicar uma vida inteira à luta política (quer a clandestina, quer a da democracia, como muitos comunistas, desde há quase meio século dedicam), estranha é a experiência da prisão política, que fica absolutamente longínqua da imaginação que a grande maioria de nós e dos nossos contemporâneos tem do que faz parte do campo do possível, do provável na vida colectiva dos portugueses”.

A HISTÓRIA DE UMA PEDRA DE CALÇADA
Há objetos, sublinha o historiador “que quase marcam a continuidade entre dois ciclos de resistência – a resistência antifascista contra a ditadura e a resistência antifascista face á contrarrevolução. Em ambas esteve o PCP na primeira fila. É aqui que aparece uma pedra da calçada” conservada por um militante de Aveiro como prova material do ataque aos Centros de Trabalho (CT) do PCP perpetrados, sobretudo no norte do país, no Verão Quente de 1975, com destruição de Centros de Trabalho, ataques bombistas, assassinatos.

Esse é um passado, sublinha Loff, “de que quase não se fala quando se faz a história da Revolução Portuguesa. Aquelas pedras da calçada, eram pedras preparadas para matar, como se escreve no livro e constituíam apenas um dos elementos do imenso manancial de artefactos usados, escreve o historiador, pelo sortido mundo da contrarrevolução, “nessa bizarra (mas reveladora) coligação que ia da extrema-direita ao PS, passando pela hierarquia da igreja católica, ex-combatentes organizados e caciques locais”. Tentaram, e em muitos casos conseguiram, destruir “centenas de espaços que os comunistas e militantes de outros partidos e de sindicatos de esquerda tinham transformado nas suas sedes políticas e espaços de convívio”.
 
O livro tem duas formas de leitura, ou duas capas. A primeira, a azul, abrange a curta existência legal, entre 1921 e 1926, e o período de clandestinidade, de 1926 a 1974. A capa vermelha remete para o tempo da liberdade, entre 1974 e 2021

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https://expresso.pt/sociedade/2021-09-02-100-objetos-que-contam-historias-de-um-seculo-de-vida-do-PCP-56e9f6c0 

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Valdemar Cruz - XX - Nenhum homem decente lê sonetos de Shakespeare

O mundo à janela visto do Porto

* Valdemar Cruz

Acabam aqui estas crónicas. Retiro-me com palavras do autor dos autores. Aquele a quem meus olhos veem ungido pela genialidade absoluta

Numa longa conversa telefónica com Albuquerque Mendes, sugeria-me há dias o pintor, não sem alguma malícia, mas com muita graça, que aproveitasse o ocasional papel de cronista para, liberto das apertadas regras do jornalismo, dar largas à imaginação quando assumo o pérfido papel de “voyeur” e olho através da janela para a rua.

Seria tentador, pouco útil e nada comparável com os resultados da atitude de Ptolomeu I (305 a 282 antes da nossa era). Terá sido um dos maiores, mais interessantes e mais úteis “voyeurs” da História. Espreitava o fulgor cultural de Atenas com uma insolente inveja.

Soube, porém, transformar a cobiça num dos maiores e gloriosos projetos da antiguidade clássica. Quis fazer de Alexandria uma espécie de espelho da inalcançável Atenas. Criou o Museu de Alexandria e teceu uma estratégia de atração de todos os saberes. Soube, há mais de dois mil anos, criar uma antevisão do que viriam a ser os atuais centros de investigação e laboratórios de ideias.

Convidou todos os grande filósofos, cientistas, poetas e escritores da época. Por lá passaram o matemático Euclides, que formulou os teoremas da geometria; Erastótenes, que calculou o perímetro da Terra; Herófilo, pioneiro da anatomia; Arquimedes, inventor da hidrostática; Dionisio de Trácia, autor do primeiro tratado de gramática, além de muitos outros responsáveis por grandes revoluções teóricas, ou outras, como o rompimento do tabu da dissecação de cadáveres, fundamental para a evolução da medicina.

Como espaço central de todo aquele núcleo de sábios e pensadores reunidos numa mesma cidade, impunha-se a hoje mítica Biblioteca de Alexandria. Ptolomeu sonhava um espaço onde pudessem ser recolhidas as obras já produzidas em todas as culturas e línguas das diversas latitudes. Emissários foram enviados a todos os recantos do Império à procura dos papiros com o saber acumulado.

Seria uma antecipação da delirante e infinita “Biblioteca de Babel”, do conto de Jorge Luís Borges. Hipótese sonegada agora, com todas as bibliotecas públicas encerradas.

Salvam-nos as bibliotecas por cada um de nós construídas. A partir de hoje fecha-se esta janela. Acabam estas crónicas. O mundo continua lá fora. Cá dentro prossegue a viagem, sempre à descoberta de outros lugares e novas palavras escondidas nos livros da biblioteca da minha vida.

Retomarei a assumida e indecente atitude de “voyeur”, à procura de uma impossibilidade: o livro perfeito. Sei que jamais o encontrarei. Faz-se dessa procura o permanente desejo de leitura. E há tantos e tão bons escritores à espera de serem lidos.

É impossível nomeá-los. Reúno-os num só. Assim, e não obstante Mr. Richard Dalloway, marido da fascinante Mrs. Dalloway, criada por Virginia Woolf, dizer que nenhum homem decente deve ler os sonetos de William Shakespeare, retiro-me com palavras do autor dos autores. Aquele a quem meus olhos veem ungido pela genialidade absoluta.

É o soneto 30, na belíssima tradução de Ana Luísa Amaral, inserido na coletânea “31 Sonetos” de William Shakespeare, publicado pela Relógio D’Água:

Sempre que, debatendo no mais doce silêncio,
Convoco na memória tudo o que foi passado,
Suspiro pela ausência do que foi desejado
E assim gasto o meu tempo valioso em velhos prantos.

E os meus olhos se afogam, eu, que mal sei chorar,
Por amigos perdidos na morte sem idade,
E torno a lamentar amores antes sarados
E pranteio por tudo o que gastei do olhar.

Posso sofrer então por sofrimentos idos,
Contar de mágoa em mágoa, da forma mais dorida,
A minha triste história de queixas mais antigas

Cobrando, nova, a história, como nunca cobrada.
Mas quando, amigo meu, me vens ao pensamento
Recuperam-se as perdas e finda o sofrimento.

2020.04.20
https://expresso.pt/opiniao/2020-04-20-XX---Nenhum-homem-decente-le-sonetos-de-Shakespeare

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Óscar Lopes - Todos os amores são de perdição

13.11.2018 às 8h00

Na primavera de 1955, Óscar Lopes, preso nos calabouços da PIDE no Porto, escreveu uma carta/ensaio de amor agora revelada
ANTÓNIO PEDRO FERREIRA
Carta/ensaio de amor escrita há 63 anos por Óscar Lopes quando estava preso nos calabouços da PIDE no Porto, encontrada agora no meio de papéis do espólio do professor e ensaísta, revela uma intensa digressão filosófica sobre o conceito de amor

texto
foto

De Óscar Lopes há ainda uma imensa história por contar, radicada, por exemplo, na escassa poesia publicada pelo professor e ensaísta (1917-2013) e na muita poesia que se lhe adivinha em todo o seu percurso de intelectual empenhado, marcado por um grande fascínio pelo saber científico, pelas matemáticas, pela linguística ou pela literatura. O seu espólio continua a ser estudado e descoberto. Pelo meio aparecem preciosidades, como a carta/ensaio de amor que se supõe ter sido escrita na primavera de 1955. Estava então preso nos calabouços da PIDE no Porto e supõe-se que terá sido dirigida a sua mulher, Maria Helena Madeira. Mesmo se, em rigor, pode ser vista como uma carta de um amor imenso, intenso, dirigido à mulher como ser global.
Descoberta por Manuela Espírito Santo, autora de “Retrato de Rosto”, a fotobiografia de Óscar Lopes publicada no final do ano passado, a carta deambulava, sem rumo, sem data, local ou destinatário, numa torrente de papéis constituída por notas de apoio às aulas, fichas de leitura, correspondência, manuscritos e tudo o mais que preenche o acervo do professor. A única referência ao ensaio de amor até agora encontrada deve-se a Eduardo Prado Coelho, numa carta datada de 2 de maio, muito provavelmente escrita na década de 1960.

Reprodução de uma das folhas datilografadas do texto de Óscar Lopes
“Dantes o espaço não tinha um centro. Ganhou-o agora; um olhar, um remoinho de coisas inapreensíveis a que chamo tu. Mas é um centro inquieto. És tu, ou talvez antes, qualquer coisa que só alcanço por ti. É, sob essa voz estridente de desespero e disfarce, uma outra voz inaudível mas infinitamente certa. É, sob esses gestos de fuga e atordoamento, o medo que para ti represento, um medo afinal ao encontro, ao impossível encontro de dois mundos condenados à incoincidência”.
Começa assim uma carta que, poucas linhas abaixo, proclama: “Sabemos que o amor é sempre de perdição por essência, que nunca o podemos medir com a vida; sobra sempre aquele resto que tanto dói e nos revolta sem causa. E a impossibilidade moral de comunhão física entre ambos dá-nos, por isso, ao menos, a imensa e difícil alegria trágica de viver a incomensurabilidade do amor, sem ser preciso romanceá-lo. Não confundimos a tragédia de essência com as fórmulas romanescas; o monte dos vendavais está-nos no sangue”.
À sensação de totalidade junta-se a noção de perda, porque àquela a quem se dirige (“Tu és o tu que digo a tudo o que tenho amado”), não pode deixar de oferecer palavras intensas como estas: “Amo-te como se tem um enorme desgosto.”
Pouco depois, acrescenta: “Quero-te porque existes, porque não posso enganar-me, que eu amo como só se pode amar com a certeza de estar certo; mas tudo o que tem valor neste mundo é filho de um amor de suor e agonia, sobre a cama de todo um infinito a separar-nos, e a ligar-nos por isso mesmo”.

Óscar Lopes junto da sua biblioteca
A intensidade do amor plasma-se numa constatação: “Amei sempre em tudo, e em qualquer corpo, o teu sorriso em mim já tão antigo.” Ciente de que “vivemos num mundo feito para deuses, mas não somos deuses”, Óscar Lopes prossegue: “Tu és hoje para mim o verso, a frase, a certeza fixada, a evidência da nossa divindade humana e real, pulverizada em tantos instantes a reaver. És o alfabeto com que leio a presença real no mundo de tudo o que os mitos prometem sem saber o que dizem.”
Àquele rosto “que dá expressão e sentido a tudo quanto existe”, o autor assegura: “Eu amo, porque te amo (e amo neste meu amar-te) toda esta leva de condenados à morte que temos sido desde as células mais antigas; e quando te beijo sem boca, que é o que faço todos os momentos, quando as minhas mãos se fazem olhar e te poisam levemente no corpo, há a amargura de um fim que é mais do que o nosso; é uma cólera represa a conspirar contra todas as cruzes dos cemitérios.”
Certo de que “não existe o que se chama um amor feliz (seria um contentamento apenas contente)”, parte desta evocação de Camões para a constatação de que “a nossa gloriosa espécie inventou o amor”. Porém, prossegue mais adiante: “tudo o que na terra e no mar nos aturde e delicia de mistério não basta, como imagem, para traduzir esta tão simples, e até imaginária explosão do teu corpo, num rito a que renuncio, mas que, simples amor, se me faz consciência.”
Há um amor absoluto a percorrer aquelas páginas datilografadas onde se escreve: ”Não existo como Adão masculino, porque nunca estarei completo fora de uma identidade contigo que, no entanto, passa pelo meu desejo, portanto pela evidência de seres radicalmente outra como a luva na mão. E não existo como Adão de Eva incluída, porque (ai de nós!) há entre ti e mim, como entre todos os que também dizem eu (e não sei amar como a ti), toda aquela infinita distância tu-eu que muda de sentido para cada um de nós mas subsiste sempre como relação invencível”.
Já muito perto do final da longa carta/ensaio, Óscar Lopes desabafa: “Odeio e estilhaço todos os espelhos em que me veja direta ou inversamente contente, e até em que simplesmente me veja (eu que não existo), na epopeia de uma matéria humanizada cuja eloquência mais viva é hoje a dos seus ritmos.”
A concluir, um apelo: “Ajuda-me a fazer essa alma. E que o teu sorriso tão antigo, sorriso de toda a mãe, irmã, namorada que me resta, me olhe desde essa esperança, a mais inominável e a mais certa, a quem emprestaste o teu rosto.”

A carta com as emendas do professor e ensaísta
A carta foi agora divulgada num opúsculo editado pela Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, da qual Óscar Lopes foi ativo dirigente. Contém um posfácio de José Manuel Mendes e um prefácio de Lídia Jorge. Aí, a escritora sublinha que o professor e ensaísta “produziu um texto misto, que parece ter sido escrito em estado de êxtase, dirigido não a uma mulher concreta mas a uma mulher total, presente e ausente, passada e futura, amante, amada, filha e mãe, seu destino e sua própria causa, o que significa, e o texto várias vezes o refere, “tratar-se de uma torrente de escrita dirigida à Mulher Total, uma conceção próxima da forma como os neoplatónicos a descreviam e de como os românticos mais evanescentes a concebiam”.


sábado, 20 de agosto de 2016

A última imagem e o próximo combate -- Um trecho de antologia

* Valdemar Cruz 
Jornalista

19 de Agosto de 2016 

A última imagem e o próximo combate

Rapaz numa ambulância. O estupor provocado por uma imagem, um só retrato, uma só punhalada nas certezas acomodadas, pode ter um efeito demolidor. A repetição até a náusea dessa imagem arrasadora, nas televisões, nos jornais, nas redes sociais, mesmo se aparentemente inevitável numa sociedade cada vez mais dependente da mediatização dos acontecimentos, tem um reverso perigoso e para o qual cada vez será mais difícil encontrar antídotos. Assistimos à banalização de uma dor incomensurável e impossível de reduzir a uma imagem cujo significado corre o risco de se esgotar na emoção do momento, até a próxima criança, até a próxima imagem, até o próximo combate do qual resulte mais um olhar desesperado, mais um rosto a rasgar a sensibilidade das consciências. E essa é, também, uma das gritantes e deploráveis hipocrisias associadas a estes arrastões noticiosos, sobretudo quando abafam a complexidade dos conflitos onde são gerados. A Síria é hoje palco de uma guerra onde se confrontam demasiados poderes e interesses para que seja possível assumir, sem a questionar, a sempre eficaz, mas simplista, divisão entre os inquestionavelmente bons e os definitivamente maus. Como se vê, de resto, pelas hesitações dos EUA, que ora diabolizam o papel da Rússia no apoio (constante, antigo) a Assad, ora colaboram com as forças armadas russas na tentativa de desalojar o chamado Estado Islâmico. O que se passa na Síria é uma batalha longa e cruel, na qual estão envolvidas o exército sírio e milícias do Hezbollah, uma amálgama de grupos terroristas colocados na órbita do Daesh, brigadas com ligações à al-Qaeda, outros grupos islamistas, milícias curdas que controlam algumas áreas no Norte do país e ainda outros grupos apoiados pelos EUA e vários países europeus. No meio disto tudo é preciso contar ainda com os interesses da Turquia, que combate os curdos, que por sua vez combatem o Daesh, do Irão, da Arábia Saudita, do Qatar ou da Jordânia. O olhar perdido no infinito de um rapaz sentado numa ambulância é um olhar acusador. Verbaliza, mesmo se em silêncio, o horror da guerra. O olhar perdido no infinito de um rapaz sentado numa ambulância é o olhar onde se escondem os olhares perdidos no infinito de milhares e milhares de crianças cujo rosto não vemos, às quais as ambulâncias não chegam, nem o olho das objetivas captam. Estão longe, estão perdidas, estão a morrer em silêncio. Mas existem. Em todos os lados de todos os conflitos.
(...) 

(em Expresso curto)

Publicada por Sérgio Ribeiro à(s) 19:12
http://anonimosecxxi.blogspot.pt/2016/08/um-trecho-de-antologia.html


GUERRA NA SÍRIA
Omran Daqneesh: o rapaz da ambulância que é o espelho da guerra civil na Síria
18 DE AGOSTO DE 2016 - 11:53

Coberto de lama e sangue, sentando na parte de trás de uma ambulância, Omran é apenas mais uma vítima da guerra pelo controlo de Alepo, na Síria.


Filhos da guerra - os outros Omran e Aylan - Mahmoud Rslan/Reuters

Síria
Internacional
A fotografia de Omran Daqneesh, um jovem de cinco anos que ficou ferido nos mais recentes ataques aéreos em Alepo, na Síria, está a correr o mundo. Desorientando, coberto de lama e sangue, Omran foi filmado e fotografado na parte de trás da ambulância, onde aparece sentado.

A imagem de Omran faz parte de um vídeo colocado em circulação pelo Aleppo Media Centre, um grupo de ativistas anti-governo, que alega que Omran é mais uma vítima dos bombardeamentos realizados pela Rússia, aliada do presidente sírio Bashar al-Assad.

Omran acabou por sobreviver, bem como a sua família, onde se contam três irmãos, com um, seis e 11 anos e ainda os pais. Um fotógrafo da Reuters captou um momento a seguir ao vídeo, onde Omran aparece ao lado de uma irmã.

De acordo com a ONU, há um mês que não entra qualquer ajuda humanitária na cidade, a segunda maior da Síria, centro dos combates entre as forças do regime e os grupos rebeldes e jihadistas.

http://www.tsf.pt/internacional/interior/omran-daqneesh-o-rapaz-da-ambulancia-que-e-o-resultado-da-guerra-civil-na-siria-5344642.html