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terça-feira, 26 de novembro de 2013

António Pina - O sonho






 2013.11.26

Uma boa noite onde o sonho encontre o corpo e a mente parta à aventura.

Não o Sonho

Talvez sejas a breve
recordação de um sonho
de que alguém (talvez tu) acordou
(não o sonho, mas a recordação dele),
um sonho parado de que restam
apenas imagens desfeitas, pressentimentos.
Também eu não me lembro,
também eu estou preso nos meus sentidos
sem poder sair. Se pudesses ouvir,
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos,
animais acossados e perdidos
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim,
desamarraram-me de mim e agora
só me lembro pelo lado de fora.

Manuel António Pina, in "Atropelamento e Fuga"

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Victor Nogueira Eu a ler-te encantado como sempre, que bem que ela escreve, dum modo diferente e superior ao meu, apesar de ter tropeçado num "o" qd deveria ser um "a", e vou por aí adiante até que o encanto se esfumou, pk não foi a tua marca que encontrei, assinando.


sábado, 21 de abril de 2012

Um texto de Joaquim Pessoa


Espero que tenham tido um bom sábado e tal como diz o poeta " Contem comigo sempre".Boa noite a todos.



Conta comigo sempre. Desde a sílaba inicial até à última gota de sangue. Venho do silêncio incerto do poema e sou, umas vezes constelação e outras vezes árvore, tantas vezes equilíbrio, outras tantas tempestade. A nossa memória é um mistério, recordo-me de uma música maravilhosa que nunca ouvi, na qual consigo distinguir com clareza as flautas, os violinos, o oboé.

O sonho é, e será sempre e apenas, dos vivos, dos que mastigam o pão amadurecido da dúvida e a carne deslumbrada das pupilas. Estou entre vazios e plenitudes, encho as mãos com uma fragilidade que é um pássaro sábio e distraído que se aninha no coração e se alimenta de amor, esse amor acima do desejo, bem acima do sofrimento.
Conta comigo sempre. Piso as mesmas pedras que tu pisas, ergo-me da face da mesma moeda em que te reconheço, contigo quero festejar dias antigos e os dias que hão-de vir, contigo repartirei também a minha fome mas, e sobretudo, repartirei até o que é indivisível. Tu sabes onde estou.

Sabes como me chamo. Estarei presente quando já mais ninguém estiver contigo, quando chegar a hora decisiva e não encontrares mais esperança, quando a tua antiga coragem vacilar. Caminharei a teu lado. Haverá, decerto, algumas flores derrubadas, mas haverá igualmente um sol limpo que interrogará as tuas mãos e que te ajudará a encontrar, entre as respostas possíveis, as mais humildes, quero eu dizer, as mais sábias e as mais livres.
Conta comigo. Sempre.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'
 — com Augusto Santos e 49 outras pessoas.

domingo, 23 de outubro de 2011

Que pode uma criatura - Carlos Drummond de Andrade


Que pode uma criatura

Que pode uma criatura senão,
entre outras criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Carlos Drummond de Andrade
 ·  · há 5 horas · 

terça-feira, 23 de março de 2010

Visita-me Enquanto não Envelheço - Al Berto

Visita-me Enquanto não Envelheço
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visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado
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tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores
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ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos
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antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro
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perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água
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com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te
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Al Berto, in 'Salsugem'..
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Margarida diz:
13/Mar/2010 11:28
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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Os amigos - Eugénio de Andrade

Os Amigos
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Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.
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Eugénio de Andrade, in "Coração do Dia"
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Enviado por Margarida Garcia (hi5)  - 7/Fev 12:32
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domingo, 29 de novembro de 2009

Recado aos Amigos Distantes - Cecília Meireles

Amigos por motivos de doença vejo-me impossibilitada de vos enviar comentários personalizados.Por isso aqui fica um geral com o mesmo carinho de sempre.

Distribuido por Margarida Garcia (hi5)

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Recado aos Amigos Distantes

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Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados.
Mas é certo que vos amo.
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Nem sempre os que estão mais perto
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto,
todos sabem quando é dia.
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Pelo vosso campo imenso,
vou cortando meus atalhos.
Por vosso amor é que penso
e me dou tantos trabalhos.
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Não condeneis, por enquanto,
minha rebelde maneira.
Para libertar-me tanto, fico vossa prisioneira.
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Por mais que longe pareça,
ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança.
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Cecília Meireles, in 'Poemas (1951)'
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domingo, 22 de novembro de 2009

Retrato de Amigo - Ary dos Santos

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Por ti falo. E ninguém sabe. Mas eu digo
meu irmão minha amêndoa meu amigo
meu tropel de ternura minha casa
meu jardim de carência minha asa.
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Por ti morro e ninguém pensa. Mas eu sigo
um caminho de nardos empestados
uma intensa e terrífica ternura
rodeado de cardos por muitíssimos lados.
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Meu perfume de tudo minha essência
meu lume minha lava meu labéu
como é possível não chegar ao cume
de tão lavado céu?
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Ary dos Santos, in 'Fotosgrafias'
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Enviado por Margarida Garcia (hi5)
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