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segunda-feira, 1 de junho de 2026

Carlos Coutinho - [Crianças e pobreza em Portugal]

* Carlos Coutinho
 
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       São largas as dezenas de pessoas atreitas ao ato de virar a casaca – humaníssimos casos de cidadãos que ou conheço ou conheci – já que é determinante a terrível opção de, perante o futuro implacável, apodrecerem ou morrerem se perderam o emprego. 

   Olho para uma imagem inapagável na nossa consciência e no rasto da Humanidade, a do bombardeamento de Guernica, e confirmo que tudo foi deformado, não sei se para sempre. 

   Colho o grito desdentado e humaníssimo do cavalo, o olho deslocado do touro manso com uma lâmina preta a brotar-lhe da sobrancelha, o silenciado brado das crianças e dos adultos, as gradações do negro e a fragmentação da luz, assim como percebo o enigma que Picasso incrustou em cada traço, em cada dedo, em cada perna, em cada fisionomia sugerida, em cada fé, em cada religião, já que uma abarca todas as trevas da ancestralidade e a outra corporiza os complexos rios metafísicos que transformam superstições em religiões.

   Então, não há absurdos que não sejam lógicos, dislates que não sejam teoremas, nem notícias tão dolentes como, por exemplo, a de uma em cada 20 crianças portuguesas já haver sentido fome e ficado sem comer, só porque acabou o dinheiro lá em casa.

   Segundo o relatório “Portugal, Balanço Social 2025”, da responsabilidade da economista Susana Peralta, académica da Nova School of Business & Economics (Nova SBE), que cita o Instituto Nacional de Estatística (INE), uma em cada 20 crianças, em 2024, não comeu, por falta de recursos financeiros do seu agregado familiar. 

   Em percentagem, esta fatia representa quase 5% do grupo das mais de 301 000 crianças pobres que existem em Portugal, o que remete o meu pensamento para Guernica, dado que, mesmo que fosse apenas 1% eram mais de 3 000 crianças a passar fome.

   Trocando por miúdos este tipo de privação, que tem tradução prática e quotidiana, o INE considera que metade das crianças pobres (49,7%) não tinha meios para participar, por exemplo, numa atividade extracurricular ou de lazer, de forma regular, o que traduz outra forma de pobreza. E isto, quando vemos o que se passa na Saúde, na Educação, na Habitação e nas necessidades básicas dos portugueses, com o País a participar em guerras e o Governo a investir no armamento.

2026 Junho 01

https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896

terça-feira, 8 de abril de 2025

Cecília Meireles - Ou isto ou aquilo

* Cecília Meireles

Ou se calça a luva e não se põe o anel, ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão, quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce, ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo… e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo, se saio correndo ou fico tranquilo.
Mas não consegui entender ainda qual é melhor: se é isto ou aquilo.

(Cecília Meireles, 1990)

in «Ou isto ou aquilo: escolhas, conflitos e saídas criativas»  https://blog.ijep.com.br/ou-isto-ou-aquilo-escolhas-conflitos-e-saidas-criativas/

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Pedro Tadeu - Os nossos políticos são cobardes?

OPINIÃO
21 fevereiro 2024

* Pedro Tadeu
Jornalista

O ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, João Gomes Cravinho, imitando o que outros ministros europeus fizeram na sequência da morte, tremendamente suspeita, de Alexei Navalny, opositor do presidente russo Vladimir Putin, chamou o embaixador da Rússia ao seu ministério para que fossem prestados esclarecimentos... Muito bem!

O ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, João Gomes Cravinho, que se saiba, ainda não chamou ao seu ministério o embaixador de Israel no nosso país para pedir esclarecimentos sobre a morte de 10 mil a 30 mil civis (conforme as fontes) e o valor de quase dois milhões de deslocados, imensas vítimas inocentes provocadas pela retaliação de Israel ao ataque do Hamas de 7 de outubro que, por seu lado e perante indignação geral, matou 1200 pessoas... Muito mal!

Note-se que, no caso da Palestina, aos mortos e deslocados acrescenta-se uma situação humanitária catastrófica em Gaza: faltam ali medicamentos, comida, água, combustível e os hospitais estão em colapso, como vemos, todos os dias, nas TV.

A União Europeia (e Portugal por arrasto) está a tornar banal a utilização contraditória do argumento da Defesa dos Direitos Humanos para tornar efetivas as decisões políticas mais desumanas da sua história, contrariando claramente a sua retórica oficial.

Para além das sanções e das denuncias de violações de Direitos Humanos só se fazerem se forem cometidas pelos “inimigos do Ocidente” e se ignorarem ou escamotearem as que são cometidas por “Aliados” - e o caso da brandura inconsequente com que os Governos europeus analisam o que Israel tem feito é o exemplo mais pungente de como a hipocrisia política mata -, a própria União Europeia começa a tornar legal, dentro do seu próprio território, a violação de Direitos Humanos.

Temos agora o exemplo noticiado há dias de um texto que está pronto para ser aprovado em abril pelo Parlamento Europeu e que preconiza uma série de medidas severas para conter a imigração.

Uma dessas medidas chega ao ponto de prever que crianças, de qualquer idade, acompanhadas ou não pelas famílias, e que sejam requerentes de asilo, podem ser presas durante três meses desde que os estados que as recebam as declarem “perigos para a segurança nacional”, numa violação que a muita gente parece clara da Convenção das Nações Unidas para os Direitos das Crianças.

Numa notícia sobre isso que li no jornal Público diz-se que esse Pacto sobre Migração e Asilo prevê ainda a recolha de dados biométricos, como impressões digitais, a partir dos 6 anos de idade, e permite o recurso à “coação” contra crianças que se recusem a deixar recolher os seus dados.

Mais: as crianças podem ser devolvidas livremente ao país de origem desde que ele seja considerado um “país seguro” e nessa lista incluem-se países com problemas de perseguição a minorias ou com situações de violência social frequente, como a Tunísia, Turquia, Albânia ou Índia.

Outro dado inaceitável: os irmãos já não contarão para figurar em processos de reunificação de famílias, só os pais - se estes não estiverem presentes, os irmãos podem ser separados.

Estamos, portanto, a autorizar que um dia possa haver na União Europeia campos de concentração de crianças refugiadas ou requerentes de asilo... o antigo presidente norte-americano Donald Trump deve estar a rir-se do que os europeus disseram dele quando tentou fazer algo similar na fronteira com o México.

É tristemente significativo que nos debates eleitorais das últimas semanas as grandes questões internacionais, apesar de o mundo estar a arriscar-se a um conflito global, tenham ficado quase completamente ausentes das discussões entre líderes partidários - o medo de analisar seriamente o desvario atual é a prova da reduzida estatura política da maioria dos intervenientes.

Por outro lado, o fechar de olhos e a recusa em vetar os cada vez mais frequentes abusos da União Europeia em matéria de Direitos Humanos - com que a mesma UE enche a boca para condenar o resto do mundo - é a demonstração da cobardia prevalecente nos palácios do poder, nossos e da restante Europa “democrática”.

https://www.dn.pt/5001258510/os-nossos-politicos-sao-cobardes/

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

“O amor é um pássaro verde, num campo azul, no alto da madrugada” - Vitor Barroca Moreira

 A cultura

maio 31, 2004

Palavra de Criança (no final, "NOTAS VN"

rosa.jpg  LIVRO: «A Criança e a Vida»

Helder Raimundo #

Já conhecia o livro havia tempo. O trabalho de Maria Rosa Colaço, professora do ensino primário, era uma lufada de ar fresco no ensino tonto e saloio dos anos 60 e nas escolas tristes e salazarentas da época. Os textos que recolheu, poesias e histórias, ferventes e imagéticas, de meninos das ruas e dos bairros de lata na margem sul de Lisboa, eram flores anunciando o Abril futuro. Poderiam ter sido escritos por qualquer um de nós, que entre 1960 e 1969, se sentaram irrequietos nos bancos velhos das escolas, aprendendo as letras com que, hoje, nos ajudam a pensar sobre elas próprias.

Lembro de ter lido o poema da contra-capa do livro e ter pensado no quotidiano do Vitor Barroca Moreira, que o escreveu aos nove anos: “O amor é um pássaro verde, num campo azul, no alto da madrugada”. Lembro ainda de ter visto a minha infância neste poema, de liberdade, de aventura, de protesto. Mas havia outros, muitos mais, cheios de flores, amizades e zangas, como o do Inácio da Silva Cruz, de 10 anos: “O amor é como duas borboletas que estivessem sobre uma rosa, a mais linda de todas do jardim. O amor tem que haver. Se não houvesse amor não havia nada bonito. O amor são duas estrelas a brilhar, a brilhar. A rosa e o sol são o amor. O amor é a poesia. O amor são dois passarinhos a construir a sua casinha. O amor é não haver polícias”.

De Maria Rosa Colaço, disse Casimiro de Brito, poeta louletano: “Educadora, escritora vigilante e aberta: aberta à soterrada voz do seu povo, aos longos silêncios que rodeiam a corrupção, à deslumbrada visitação do sol pelas crianças, à quotidiana construção do amor”. Estas são palavras de poeta,  de gente que nega a morte, não negando o poema ou as palavras com que se fazem os Homens.

É como a viagem à lua do Manuel Miranda, de 8 anos: “Despedia-me do meu pai e da minha mãe. Preparava as malas e ia para a lua. Quando lá chegasse falava com Deus e os anjos. Ficava lá com os meus companheiros e nunca mais voltava porque encontrava os anjos a cantar e as estrelas ali mesmo ao pé. Porque lá não havia guerra e lá estava muito sossegadinho e não havia misérias, nem morria ninguém”. Assim, o Manuel viajou à lua, antes de outros, como o principezinho da história.

Maria Rosa Colaço diz-nos que estas crianças “não eram génios, nem poetas, nem meninos prodígios. Eram filhos de pescadores, de varinas, de ladrões de coisas...essenciais ao dia-a-dia. Moravam em casas com buracos e dormiam nos barcos, no vão das portas, nos degraus da doca, em qualquer sítio”.

Comprei este livro em Coimbra, em Novembro de 1992, para voltar a sentir o eco fundo dos seus apelos de criança. E agora, ao pegar nele posso dizer mais uma coisa: a sua autora, Maria Rosa Colaço, depois de rumar a Cacilhas/Lisboa, para educar as crianças da rua, escreveu neste jornal. Na «Voz de Loulé» escreveu muitos textos, insertos na página literária “Prisma de Cristal”, coordenada por Casimiro de Brito. O seu primeiro texto publicado é de 1 de Janeiro de 1957.

É ela que diz: “Companheira do sol e das raízes, cheguei à grande cidade”. Nós acompanhamo-la!

Maria Rosa Colaço A Criança e a Vida, Edições ITAU, Lisboa, 12ª edição.

# http://contrasenso.blogs.sapo.pt
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Notas VN
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29 out. 2010... eram um poster com um casalinho sentado junto a um muro e beijando-se, com o título O amor é um pássaro azul no alto da madrugada. ...
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26 out. 2009 ... «O amor é um pássaro azul no alto da madrugada», dizia um poster do ITAU, «escandaloso», dos anos 60 do passado milénio, que ornamentava o meu quarto de estudante em Évora ...
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Publicada por Victor Nogueira em Sexta-feira, Agosto 31, ...... Comentei para a Celeste, a mãe dos meus filhos, que duvidava que crianças escrevessem daquela maneira. Vai daí, ela foi buscar os cadernos dos alunos que trouxera para ...

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sábado, 19 de dezembro de 2009

O Psicólogo - Alice Vieira

 

O psicólogo

O psicólogo

Jornal de Notícias - 2009-10-24

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Há muito tempo que não via a Lurdes, minha antiga colega de faculdade. Daí a gargalhada de ambas quando esbarrámos no café, e lá abancámos diante de uma bica, a pôr a vida em dia. Saltaram as fotografias da carteira, e o relato fatal das gracinhas infantis.
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É então que ela me diz, apontando para a cara risonha do seu neto de três anos, "este até já anda no psicólogo". Eu fiquei sem saber o que dizer, tanto mais que a Lurdes falara com um indisfarçável orgulho na voz, assim como se dissesse, "este já anda no judo e é cinturão negro".
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Que eu soubesse não tinha havido revolução de maior na vida da criança, nem pais separados, nem um novo irmão, nem nenhum morto, mas a Lurdes, com um sorriso condescendente, lá explicou que o recurso ao psicólogo se devia ao facto de a criança ir entrar agora pela primeira vez para a escola infantil: "Eventualmente poderá haver um problema de rejeição da escola, e é preciso tratar." Ainda perguntei por que não eram os pais a ocupar-se disso - mas logo a Lurdes disse que nem pensar, porque os pais não tinham "preparação técnica".
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E pronto. Lá vai a criança, de três anos de idade, todas as semanas ao psicólogo, que a ajuda a resolver um problema que muito possivelmente ela nem nunca terá. Ou seja: que lhe dirá (espero…) aquilo que nós todos dizemos às nossas crianças em alturas semelhantes: vais gostar muito de brincar com os outros meninos, vais aprender muitos jogos, e muitas cantigas, etc.,etc…
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Mas hoje os pais já quase não sabem falar ou brincar com as crianças. Pensam que brincar é uma coisa que só se faz diante de um ecrã. Brincar com uma criança é, cada vez mais, pô-las a ver televisão, ou atirar-lhes com um computador para que fiquem horas a fazer jogos.
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E não há nada mais triste do que uma pessoa que não sabe conversar nem brincar com uma criança.
Uma pessoa que olha para uma criança como se ela fosse um país estrangeiro. Um país inimigo.
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Por isso, despeço-me da Lurdes e chego a casa estupidamente cheia de saudades da minha mesa da casa de jantar, que range mal se lhe toca, que tem a tábua do meio partida e as pernas desengonçadas - mas que os meus filhos me proíbem de substituir, porque foi nela que o pai os ensinou a jogar ping-pong; e nem me importo com os buracos ainda visíveis na parede ao fundo do corredor, do tempo em que lá estava pregado um cesto de basquete onde todos exercitavam a pontaria; e lembro a choradeira que foi no dia em que decidimos lavar a parede do quarto do meu filho (o rapaz já tinha entrado na faculdade!) onde ele e o pai escreviam todas as coisas que queriam dizer um ao outro e às vezes não tinham coragem.
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E nunca sequer nos passou pela cabeça saber se tínhamos ou não preparação técnica.
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sábado, 2 de agosto de 2008

Estamos Velhos?





clicar nas imagens para ler
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NOTA do EDITOR (VN)
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Ainda hoje é válido o provérbio «Trabalho de menino é pouco, mas quem o despreza é louco».
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Naquele tempo, como hoje mas talvez em maior escala, era o do trabalho infantil, dos moços de recados (mercearias), dos marçanos, dos ardinas de pé descalso, das crianças que trabalhavam na lavoura, de sol a sol e sem tempo para ir à escola, em terras sem cinema (salvo o «ambulante») e sem bibliotecas (salvo as itinerantes da Gulbenkian), das criadas de servir sem juventude nem meninice, (muitas vezes condenadas à prostituição depois de engravidadas pelo filho ou marido da «senora», «patroa»mais ou menos fina e/ou«polida»), dos engraxadores, e de tantas profissões infantis, muitos dos quais, nas berças, mal tinham como horizonte qualquer terra que se situasse para além de 5 ou dez quilómetros. Todos eles sem direitos laborais, registe-se !
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quarta-feira, 30 de julho de 2008

A justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca


Clara Ferreira Alves

Expresso Julho 2008


Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa comisso apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do encobrimento, do compadrio e da corrupção. Os portugueses, na sua infinita e pacata desordem existencial, acham tudo "normal" e encolhem os ombros.

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Por uma vez gostava que em Portugal alguma coisa tivesse um fim, ponto final, assunto arrumado. Não se fala mais nisso. Vivemos no país mais inconclusivo do mundo, em permanente agitação sobre tudo e sem concluir nada.

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Desde os Templários e as obras de Santa Engrácia, que se sabe que, nada acaba em Portugal, nada é levado às últimas consequências, nada é definitivo e tudo é improvisado, temporário, desenrascado.

Da morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia, foi crime, não foi crime, ao desaparecimento de Madeleine McCann ou ao caso Casa Pia, sabemos de antemão que nunca saberemos o fim destas histórias, nem o que verdadeiramente se passou nem quem são os criminosos ou quantos crimes houve.

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Tudo a que temos direito são informações caídas a conta-gotas, pedaços de enigma, peças do quebra-cabeças. E habituámo-nos a prescindir de apurar a verdade porque intimamente achamos que não saber o final da história é uma coisa normal em Portugal e que este é um país onde as coisas importantes são "abafadas", como se vivêssemos ainda em ditadura.

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E os novos códigos Penal e de Processo Penal em nada vão mudar este estado de coisas. Apesar dos jornais e das televisões, dos blogs, dos computadores e da Internet, apesar de termos acesso em tempo real ao maior número de notícias de sempre, continuamos sem saber nada, e esperando nunca vir a saber com toda a naturalidade.

Do caso Portucale à Operação Furacão, da compra dos submarinos às escutas ao primeiro-ministro, do caso da Universidade Independente ao caso da Universidade Moderna, do Futebol Clube do Porto ao Sport Lisboa Benfica, da corrupção dos árbitros à corrupção dos autarcas, de Fátima Felgueiras a Isaltino Morais, da Braga parques ao grande empresário Bibi, das queixas tardias de Catalina Pestana às de João Cravinho, há por aí alguém que acredite que algum destes secretos arquivos e seus possíveis e alegados, muitos alegados crimes, acabem por ser investigados, julgados e devidamente punidos?

Vale e Azevedo pagou por todos.

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Quem se lembra dos doentes infectados por acidente e negligência de Leonor Beleza com o vírus da sida?
Quem se lembra do miúdo electrocutado no semáforo e do outro afogado num parque aquático?
Quem se lembra das crianças assassinadas na Madeira e do mistério dos crimes imputados ao padre Frederico?

Quem se lembra que um dos raros condenados em Portugal, o mesmo padre Frederico, acabou a passear no Calçadão de Copacabana?
Quem se lembra do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja cabeça foi roubada do Instituto de Medicina Legal?
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Em todos estes casos, e muitos outros, menos falados e tão sombrios e enrodilhados como estes, a verdade a que tivemos direito foi nenhuma.

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.No caso McCann, cujos desenvolvimentos vão do escabroso ao incrível, alguém acredita que se venha a descobrir o corpo da criança ou a condenar alguém?

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As últimas notícias dizem que Gerry McCann não seria pai biológico da criança, contribuindo para a confusão desta investigação em que a Polícia espalha rumores e indícios que não têm substância.

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E a miúda desaparecida em Figueira? O que lhe aconteceu? E todas as crianças desaparecida antes delas, quem as procurou?

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E o processo do Parque, onde tantos clientes buscavam prostitutos, alguns menores, onde tanta gente "importante" estava envolvida, o que aconteceu?
Arranjou-se um bode expiatório, foi o que aconteceu.

E as famosas fotografias de Teresa Costa Macedo? Aquelas em que ela reconheceu imensa gente "importante", jogadores de futebol, milionários, políticos, onde estão? Foram destruídas? Quem as destruiu e porquê?

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E os crimes de evasão fiscal de Artur Albarran mais os negócios escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal, onde é que isso pára? O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins da Cruz, apeado por causa de um pequeno crime sem importância, o da cunha para a sua filha.

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E aquele médico do Hospital de Santa Maria, suspeito de ter assassinado doentes por negligência? Exerce medicina?

E os que sobram e todos os dias vão praticando os seus crimes de colarinho branco sabendo que a justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca.

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Passado o prazo da intriga e do sensacionalismo, todos estes casos são arquivados nas gavetas das nossas consciências e condenados ao esquecimento.

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.Ninguém quer saber a verdade. Ou, pelo menos, tentar saber a verdade.

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Nunca saberemos a verdade sobre o caso Casa Pia, nem saberemos quem eram as redes e os "senhores importantes" que abusaram, abusam e abusarão de crianças em Portugal, sejam rapazes ou raparigas, visto que os abusos sobre meninas ficaram sempre na sombra.

Existe em Portugal uma camada subterrânea de segredos e injustiças, de protecções e lavagens, de corporações e famílias, de eminências e reputações, de dinheiros e negociações que impede a escavação da verdade.

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Este é o maior fracasso da democracia portuguesa

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Clara Ferreira Alves - "Expresso"

NOTA do Editor - Não só mas também e não só em Portugal (VN)

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Remetido por P. Sempre

ter 29-07-2008 18:33

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quinta-feira, 13 de março de 2008

África Minha

Mariline Alves
Filipe Vilard Cortez consegue fazer levantar o voo mais belo: Acarinhar rostos que o Mundo esqueceu
Filipe Vilard Cortez consegue fazer levantar o voo mais belo: Acarinhar rostos que o Mundo esqueceu



Reportagem: Filipe Vilard Cortez
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* Mirian Assor
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Há sempre uma criança na vedação. Eles viram as costas à miragem triste. Alguns pseudomagnatas, que multiplicam as suas contas bancárias em Moçambique, quando passam com viaturas topo de gama naquela dura redondeza, escondem a cara com óculos escuros. Não por desprezo ou por considerar que o mal bate sempre à janela do vizinho, mas falta-lhes, dizem entre reuniões, tempo e coragem.
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O orfanato 1º de Maio é igual a todos os infernos de depósito humano; demasiadamente atroz para acreditar. Visitá-lo é capaz, rosnam os egoístas, de provocar a seguinte chatice. Os milionários podem ficar desconcentrados. Os ricaços não sabem, mas são pobres. Pior. Serão pobres. O provérbio africano “Quando o coração está fechado, a sorte não entra” é mais certeiro do que um relógio suíço.

Trinco aberto. Há uma miúda que recebe a visita com olhos acesos. São íris tão envelhecidas que comovem a memória de escrita. Dá os cinco dedinhos. A mão adulta segura-os. Nunca antes sentiu tanto calor em vida fria. “Fina” perdeu mãe e pai e os irmãos ficaram na estrada. Tem três anos e um bibe. Não se importa que a única árvore esteja seca. Da terra seca. O escorrega enferrujado. Um dia - sonha a reportagem - aquele chão mirrado de esperança será um jardim. Os brinquedos terão roda. Nenhum braço faltará à sua boneca. Mas o sonho vai sucumbir.

Subindo um lance de escadas sobe-se ao pesadelo. E as palavras, quaisquer que sejam, matam a respiração. Bebés. Dez, doze bebés. Que apetece beijar, levar e proteger, afundados em cadeirinhas de plástico, parecem anciães sem alma. Uma criatura do tamanho que nenhum mal a deva afligir interrompe o silêncio. Chora. Soluça. Engasga-se no pranto. Um pedaço de gesso arrancado na sua perna pequenina deixou grandes mazelas. Uma funcionária tenta despistar-lhe a dor. Canta uma canção. Mas a melodia não chega. Colo. Sim. É o colo que lhe devolve uma calma tremida.

A instituição estatal moçambicana ligada ao Ministério da Mulher e da Acção Social acolhe estes petizes com passados doridos. Ficaram órfãos ou foram abandonados por pais que apodrecem de HIV, de lepra, de malária, de álcool e de prostituição. É a Polícia Municipal que encontra, nos asfaltos e nos contentores do lixo, tais miniaturas de gente e, consoante vagas disponíveis, entrega-as a estabelecimentos do Estado. No orfanato, que ganhou o nome do dia do trabalhador, há, digamos, um carinho técnico. Existem muitas crianças para cuidar e poucas empregadas que tomem conta delas. Fome? Não. Não há iogurtes todas as manhãs, mas a fome, essa cabra, morreu na rua. Fruta. Papas. Leite. Arroz. Não faltam alimentos para ajudar a fortalecer os seres frágeis. E não sobram. Tal como as roupas, estendidas num corda gasta, esperam que os 37 graus as enxuguem. Os panos improvisados, lavados na água escassa, que bóiam num alguidar, são fraldas.

Mas a partir de agora, a boa nova chegou. Filipe Vilard Cortez, comandante da TAP, membro da CIC - Associação para a Cooperação, Intercâmbio e Cultura – trouxe milagres: fraldas descartáveis. Mais: através de um anónimo conseguiu que, mensalmente, não faltem fraldas. A directora do orfanato sorri. Quem diz o contrário mente; o sorriso africano é largo. Verdadeiro. Dispensa tiques. A mulher de estatura alta, derme tostada, agradece com um obrigado tímido, enquanto a miudagem festeja a segunda oferta trazida pelo senhor dos aviões: elásticos e ganchos coloridos para enfeitar cabelos. Que pena. A entrevista aguarda pela repórter. A hora marcada não consente atrasos. A mão desprende-se da de “Fina” e os quarenta anos voam com vergonha de cumprir horários.

Se no ar a pontualidade é obrigatória, em terra um atraso é mentira. Nem um minuto passa das oito e meia da manhã e o comandante já está pronto para um voo humanitário, desta vez conduzido num jipe, e com ele vem a freira Luísa - salesiana de Itália, que há décadas preferiu o caminho de missionária a rezar ajoelhada numa igreja. O Colégio Maria Auxiliadora é longe, situa-se no distrito de Namaacha, junto à fronteira com a Suazilândia e a um pulo da África do Sul, mas em Moçambique a distância, comparada com os malditos flagelos e com as malditas doenças mortíferas, muitas delas continuam a matar apenas em África, simboliza um meigo incentivo. O intuito da viagem é unicamente um: Filipe, que arrasa o Pai Natal, e também algumas associações que inventam solidariedade de nariz empinado, vai distribuir prendas aos estudantes-residentes da referida instituição católica.

Kits dentários oferecidos pela Clínica Dermoestética, enciclopédias ofertadas pelo Correio da Manhã/Sábado, roupa interior e acessórios que o próprio comprou, estão na bagageira da viatura. Mas não foi canja conseguir que os pacotes não ficassem estancados ade eternum na teimosia do pessoal alfandegário do aeroporto de Maputo. Uma garrafa de vinho e cem dólares do bolso de Filipe aceleraram, e muitíssimo depressa, a burocracia lenta e gulosa. Não é nenhuma novidade. A religiosa não conhece só o Pai Nosso. Sabe de ginjeira o nojo que representa o contínuo comércio clandestino. Um par de calças poderá representar uma pipa de massa. A freira tosse. Refresca os laivos de corrupção contando uma anedota. Depois, prefere enaltecer os homens que sabem praticar o esboço de Leonardo Da Vinci: “Um piloto está mais próximo de Deus.”

Não é o Éden, mas se calhar entrámos nas redondezas do Paraíso. Canções. Batuques. Flores. Uma carta com metáforas lindas que estremece. As boas-vindas da criançada do Colégio Maria Auxiliadora fazem crer que o Mundo anda cego e cruel e autista. Livros, escovas de dentes, camisolas interiores ou um mero laço transformam-se em ouro nas mãos de um mar de crianças e adolescentes que não desconfiam do futuro. Liliana entrará para um convento. Erika será pediatra. Beleza, diz baixinho, que quer ser bailarina. Mostra talento. Põe os pés em posição de pontas. Eleva os braços em arco. Melhor; canta o Lago de Tchaikkovsky. Inaugurado em 1965 com internato, semi-internato e ensino básico, o Colégio Maria Auxiliadora, durante a sangrenta guerra civil, que magoou o país entre 1976 e 1992, e tantas vítimas proporcionou, já viu os dias contados. Dias negros. Mais escuros que a escuridão. As nacionalizações implementadas pelo então Governo da Frelimo, chefiado por Samora Machel, não se privaram de atingir a medula das instituições religiosas. “Já viu o nosso santo?” Pergunta a irmã Benedita. Já. A figura de Cristo é uma presença constante em todas as paredes. Mas não é de Jesus que falamos. “Venham ver”. E vamos. Quando se olha para o dito santo, a boca espanta. Uma incómoda e estrondosa vontade de rir não fica para dentro. É o próprio. Ele mesmo. Vladimir Ilitch Lenin mano-a-mano com Jesus Cristo. Não que ambos quisessem, mas as reminiscências da propaganda oficial socialista fortemente laica, e, indubitavelmente, anticlerical, explicam a gravura pintada à prova de todas as substâncias e pedidos: “Já a lavámos com sabão. Com lixívia. Até já rezámos e não há meio de sair.”

MARIA PEREIRA

Maria Pereira foi mais forte do que as tintas da tropa de Machel. Forçada a largar as instalações do estabelecimento estudantil, a monja de Pinhel disse cara-a-cara aos camaradas que não iria para parte nenhuma. Ficaria ali. E ficou. O exército não baixou as armas, mas recuou. A recente arteriosclerose tirou-lhe a memória da data de nascimento, a lembrança da morada de Portugal, as deliciosas receitas culinárias, mas não conseguiu apagar esses anos de luta. Beatriz Dias abraçou o celibato em 1962, dez anos depois dos votos veio para Moçambique e lembra-se bem da odisseia política: “Queriam que nós saíssemos, mas quem é que tinha coragem de abandonar as meninas?”

As meninas, as cinquenta raparigas, dormem em camaratas limpas. Estudam. Vivem num cilindro de amor. Não têm o olhar funesto da “Fina”. Dizer-lhes adeus é uma promessa de um até já devido. Uma lição severa e ao mesmo tempo meiga. “O coração fala mais do que as palavras”, atira a freira Apoloni, natural do Ruanda, a directora. A frase não consta do Antigo Testamento nem do Evangelho, mas neste oásis a Bíblia é refeita diariamente. E também a quilómetros do colégio Maria Auxiliadora, no Centro de Acolhimento João Bosco, onde os “meninos de rua” podem viver até serem homens.

Salomão é um rapaz de um bom gosto indiscutível. Veste a camisola do Sport Lisboa e Benfica. Pisca o olho. Pede o endereço da quarentona. Promete um postal. Tomé entrou minúsculo para a instituição e já apara a barba. José vai casar. João recorda-nos que a norma da casa é muito simples: cultivar legumes para comer. Costurar roupa e fardas escolares para vestir. Fazer e vender artesanato para ajudar a custear a manutenção do centro. “Muitos garotos quando aqui chegaram, nem tinham nome”, lembra a irmã Luísa.

Para facilitar a memorização de um batalhão de crianças o baptismo recaiu em nomes equivalentes a feriados religiosos. Apesar de terem sido acolhidos pela ordem religiosa católica, a esmagadora maioria não elegeu o sacerdócio. São técnicos especializados ou concluíram o ensino académico. Tal como a porta se escancarou para que os rapazes entrassem, continua aberta para saírem sempre que desejem. Pouco acontece. “Sinto-me protegido neste sítio” adianta Salô. Não. Não há presentes para dar, mas em breve irá haver.

Filipe, desde a primeira hora que aterrou em Moçambique, não esqueceu a tonelada de roupa presenteada pela fábrica AMC - Representações Têxteis de Coimbra, cujo transporte foi oferecido pela administração da TAP, e que, por três inexplicáveis semanas, continuava retida no absurdo dos armazéns do aeroporto da capital moçambicana. Não haveria adegas e dólares americanos que bastassem para apressar a justa entrega. Depois de muitas voltas, de falar com vários secretários dos secretários de ministros, de telefonar resmas de dias e tardes para um tal doutor ou engenheiro, Filipe recebe finalmente a notícia: a tonelada de esperança foi libertada e encontra-se num gabinete do Ministério da Educação. Na manhã seguinte ao vagaroso aval ministerial, o piloto retoma o volante do jipe. Vai buscar a mercadoria com os seus braços.

Metade será entregue aos milhares de refugiados das cheias que alagaram o norte do país. Os restantes quinhentos quilos de roupa já têm dono. Filipe, que insiste dizer que não é “um gajo porreiro”, segue o itinerário emocional. Passa pelas mesmas estradas fartas de buracos. Regressa aos mesmos lugares. Cumpre a promessa. Entrega camisolas, camisas, calças. As crianças não estão só felizes. Chamam-se felicidade ou então outra designação profunda. O comandante volta a Maputo, a essa cidade ainda por construir, onde o Oceano Índico, apesar de imundo, segue, incrivelmente manso e belo.

Filipe abre a janela. Precisa de suar. Uma rajada de sol braseiro destila os vidros e o corpo. Nas calçadas de avenidas espaçosas, mulheres e homens e crianças esqueléticas procuram sombra para morrer. As imagens da execrável pobreza flagrante, inaceitável, não coincidem com a beleza-fogo africana. A terra de Moçambique é detentora de uma pujança que ultrapassa a Natureza. Há quem diga, inclusive, que África puxa-nos para um fundo carinhoso irreversível. Que nos desperta o espírito. Que nos dita a verdade pelo coração.

MUITO POUCO PARA QUEM MUITO PRECISA

Quando o comandante da TAP abriu as portas da bagageira do automóvel para entregar as boas surpresas que trazia de Portugal, algumas crianças ficaram tão felizes que muitos olhinhos lacrimejaram de tanta felicidade e outras, espontaneamente, cantavam canções africanas para agradecer a visita e os presentes. Escovas e pastas de dentes, enciclopédias, livros, roupa, ganchos e laços para o cabelo, tudo é muito pouco para quem muito precisa, afirma Filipe.

O BEM É PARA SER FEITO E PONTO FINAL

Filipe Vilard Cortez, Comandante da TAP, nasceu na cidade Invicta em 1955, é presidente da organização humanitária “Pilotos sem Fronteiras” e membro da CIC – Associação para a Cooperação, Intercâmbio e Cultura. Bisneto de um senhor bastante aventureiro cuja história serviu, inclusive, de musa para o romance de Miguel Sousa Tavares, “Rio das Flores”, Filipe, homem de cariz generoso extraordinário, sempre atento às necessidades dos mais carenciados, desde sempre se sentiu atraído pela aviação. Em 1970 tira o brevet para ingressar na Força Aérea Portuguesa. Foi piloto de caça, levantou e levanta asas a todos os aeroplanos imagináveis. Viveu nos Estados Unidos. Na Europa. Nos últimos tempos, em Sintra. Tanto faz. O comandante é um cidadão do mundo raro: o bom. Detentor de um coração fora de série de bondade, não gosta que lhe elogiem o que pratica em terra. Porque o bem é para ser feito. Ponto final. Foi o que ele fez em Moçambique. Entregou prendas e levou a esperança a um punhado de crianças. Moveu o céu e a terra para que isso acontecesse.

O 'SANTO' VLADIMIR LLITCH LENIN

É verdade que é muitíssimo estranho ver a imagem de Vladimir Ilitch Lenin na parede de uma igreja, mas existe uma explicação para tal; durante os primeiros tempos do Governo chefiado pelo, então, Presidente de Moçambique, Samora Machel, os ideais radicais da esquerda, que eram bastante anticlericais, não somente perseguiam instituições religiosas como também as transformavam nas suas sedes políticas. Foi exactamente isso o que sucedeu ao Colégio Maria Auxiliadora. Para apagar a gravura do revolucionário russo, as freiras já tentaram todos e mais alguns materiais: lixívia, sabão azul e branco, detergente para ratos. Inclusive, já rezaram a Deus. Mas, até à presente data, o esboço do teórico do Marxismo e autor do “imperialismo” contínua vivo na capela do estabelecimento salesiano. Ao que parece não há nada que o consiga fazer desaparecer.

OS GAROTOS DE MOÇAMBIQUE

Os garotos de Moçambique, que o Mundo arranjou maneira de esquecer, receberam das mãos do comandante Filipe Vilard Cabral roupa oferecida pela fábrica AMC - Representações Têxteis de Coimbra, os mais pequenos fraldas descartáveis, contribuição de alguém que quis ficar anónimo, kits dentários da Clínica Dermoestética e enciclopédias
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. Correio da Manhã/Sábado.
2008.03.09
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Terça-feira, 11 Março


- sandra preto
Foi muito bom conhecer este lado humano do cmd.villard cortez,o meu contacto é apenas a nivel profissional.Gostaria de salientar que tal como este anjo,felizmente,na TAP,existem muitos outros que anonimamente fazem o bem levamdo a mala de roupa para a estadia cheia de roupa,massas,arroz,grão,material escolar,etc.Fico feliz por ainda existir quem se preocupe com estas crianças.sandra,Alverca

- pedro
Lenine numa igreja...boa!!!!

- sidney
é bem verdade que o mundo esqueceu estas crianças.

- Sofia
as crianças que o mundo esqueceu foram acarinhadas por um grande senhor e por uma reportagem muito bonita.

- Chin
ESTES ARTIGOS NÃO SERVEM APENAS PARA ALERTAR O MUNDO EGOISTA EM QUE VIVEMOS, MAS TAMBÉM PARA MELHOR O TANTO QUE ESTÁ MAL. BEM HAJA CORREIO DA MANHÃ.

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