Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
sexta-feira, 31 de julho de 2026
Miguel Sousa Tavares - Sinais de fogo
quinta-feira, 14 de maio de 2026
José Duarte - Restaurar o serviço militar obrigatório?
Pacheco Pereira parece não ter conseguido expressar qual era a sua preocupação quanto à guerra: receia que a guerra se expanda para os países da União Europeia? Será medo de que a frente de batalha passe de Kiev para Berlim? Para Lisboa? Restaurar o SMO em Portugal não parece responder a nenhum destes problemas.
* José Duarte
• Maio 12, 2026
ilustração: Mantraste
Assistimos há dias à publicação de um artigo de opinião um quanto triste no Público, da autoria do historiador Pacheco Pereira, em que ele defende a importância de restaurar o serviço militar obrigatório em Portugal face à crescente agressão da Rússia na frente ucraniana.
Pacheco Pereira começa por argumentar que, nas circunstâncias presentes em território europeu, a invasão da Ucrânia coloca às democracias europeias uma discussão importante sobre militarização. Porém, o nosso historiador parece não ter conseguido expressar qual era a sua preocupação quanto à guerra: receia que a guerra se expanda para os países da União Europeia? Será medo de que a frente de batalha passe de Kiev para a Berlim? Para Lisboa? Será a Rússia uma ameaça às democracias europeias?
O serviço militar obrigatório em Portugal não parece responder a nenhum destes problemas. Será importante mencionar que a expansão da guerra para o resto da Europa é um cenário altamente improvável. Mesmo que fosse provável, números publicados indicam que os países da UE possuem meios armados suficientes, tanto em número de efetivos como em gastos militares, para fazer frente ao exército russo. Não há um cenário de vitória para a Rússia numa guerra contra os países europeus. E ninguém sabe porque quereria a Rússia invadir o resto da Europa. Pacheco Pereira também parece ter uma preocupação um quanto cínica no que toca à democracia na Europa. Para ele, o desinvestimento na saúde e na educação, a pior crise da habitação na UE, o ataque aos direitos laborais e a omissão dos financiadores dos partidos parece que são algo com que a “nossa democracia” consegue conviver: não parecem preencher requisitos de “maior ataque à democracia”.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
" You're in the Army Now "
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
Nate Bear - MENTIRAS POR OMISSÃO
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
Pedro Tadeu - TEMOS DE SER VASSALOS OU ESCRAVOS DE TRAMP?
quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
Ricardo E. Rubenstein - As intervenções ignóbeis de Trump: como o “imperialismo regional” leva à guerra mundial
Ricardo E. Rubenstein
Pouco depois da
primeira eleição de Donald Trump como presidente, alguém me perguntou num fórum
público se eu o considerava um fascista. Respondi que Trump era um conservador
ultranacionalista que tentaria privatizar os serviços públicos, fortalecer
ainda mais os oligarcas e reverter muitas políticas sociais liberais – mas que
dois aspetos essenciais do fascismo estavam ausentes de sua agenda MAGA. Um
deles era o compromisso de conduzir guerras agressivas contra nações
“inferiores” consideradas ameaças à segurança da Pátria Sagrada. O segundo era
a militarização da sociedade civil, acompanhada por um poder executivo
descontrolado, negação generalizada dos direitos civis e campanhas de terror de
Estado contra os oponentes reais ou imaginários do Líder.
Esses dois
aspetos do fascismo, como Hannah Arendt apontou há 50 anos em As
Origens do Totalitarismo, estão organicamente relacionados. As técnicas de
conquista e dominação de populações subjugadas, utilizadas em guerras
imperialistas, são trazidas de volta para casa pelos belicistas e tornam-se
ferramentas essenciais da governação interna. Primeiro, os fascistas decapitam,
dividem e conquistam as nações “de merda” (para citar o Sr. Trump). Depois,
fazem o mesmo com elementos “de merda” da população da sua própria nação.
Na minha
opinião, esse processo ainda não foi concluído nos Estados
Unidos. Apesar dos graves abusos do poder executivo por parte de Trump, das
políticas desumanizadoras do movimento MAGA e dos excessos violentos do ICE, a
militarização interna ainda não chegou ao ponto de terrorismo de Estado contra
a maioria dos cidadãos americanos. Mas a direção dessas políticas é inegável. O
ataque à Venezuela, na sequência do genocídio financiado pelos EUA em Gaza, é
um passo claro em direção a uma política externa fascista, cuja prossecução
gera guerras globais.
O que obscurece
essa realidade no momento e confunde a cobertura mediática da situação é a
invocação, por Trump, da Doutrina Monroe (também conhecida como Doutrina
Don-Roe) para justificar a sua viragem brusca em direção ao intervencionismo.
Sim, ele sequestrou os Maduros, matou soldados venezuelanos e cubanos,
declarou-se dono do petróleo da Venezuela, destruiu ou capturou navios e
tripulações que partiam de portos venezuelanos, ameaçou os governantes da
Colômbia, Cuba, México e Brasil e prometeu anexar a Groenlândia. Ele também
interveio direta e indiretamente no Médio Oriente, na Ucrânia, na África e
noutros lugares. Mesmo assim, muitos comentadores concluem que a intenção de
Trump é exercer o poder militar principalmente no “quintal” caribenho e latino-americano
dos EUA, enquanto outras potências regionais, como a China e a Rússia, agem
como bem entendem nas suas próprias esferas de influência.
Essa versão
autoritária da multipolaridade pode satisfazer os membros da coligação MAGA que
querem acreditar que o aspirante ao Nobel permanecerá fiel à sua promessa
original de evitar “guerras intermináveis”. Ela até ganhou aceitação entre
alguns analistas de publicações de política externa e ONGs tradicionais.
Aceitar esse foco regional, no entanto, significa fechar os olhos para a
história e para a dinâmica do imperialismo.
História.
No meio da enxurrada de artigos e transmissões sobre a aventura venezuelana de
Trump, encontram-se poucas análises que comparam a agressão dos EUA com as
guerras imperiais da década de 1930: em particular, a anexação da Manchúria
pelo Japão, a invasão da Etiópia por Mussolini e as intervenções de Hitler na
Europa Central e na Guerra Civil Espanhola. Mas a analogia é surpreendente.
Assim como as ações recentes de Trump, esses foram ataques assimétricos e de
curto prazo contra nações que resistiam à dominação de uma potência hegemónica
regional. O seu impacto foi minimizado ao serem caracterizados como guerras
limitadas, conduzidas na esfera de influência de alguma potência imperial. Mas
hoje entendemos que também foram passos significativos rumo a uma guerra
mundial.
Por quê? Por
que motivo esse tipo de violência não permanece restrito à esfera regional, em
vez de gerar conflitos globais? O primeiro motivo é que essas intervenções
visam concorrentes imperialistas, não apenas resistentes locais. A guerra da
Itália na Etiópia tinha como alvo os interesses britânicos no Corno de África,
a agressão do Japão na Manchúria visava os interesses chineses e russos, e as
maquinações da Alemanha na Europa visavam os interesses ocidentais e russos.
Quarenta anos depois, Richard Nixon e Henry Kissinger derrubaram o regime de
Allende no Chile e instalaram a ditadura de Pinochet porque consideravam
Allende um potencial aliado soviético (e cubano). Da mesma forma, o objetivo
principal de Trump na América Latina é limitar a crescente influência da China
(e a influência menos substancial da Rússia) naquele continente.
Dinâmica. Deixando
de lado as doutrinas Don-Roe, o aparente foco local de operações como o ataque
à Venezuela é uma ilusão. O fato de o alvo principal ser um império rival
obriga outras nações da região afetada a tomar partido – um processo
polarizador que tende a criar blocos multinacionais armados e uma ordem mundial
bipolar. A obra clássica de Barbara Tuchman, Os Canhões de Agosto,
mostra exatamente como isso funcionou para produzir a incrivelmente destrutiva
“guerra para acabar com todas as guerras” em 1914. É provável que vejamos essa
polarização ocorrer com intensidade crescente nos próximos anos na América
Latina, África e Ásia Oriental.
Mas isso não é
tudo. As potências imperiais, impedidas de adquirir recursos industriais
essenciais em regiões reivindicadas pelos seus concorrentes, tendem a retaliar
tomando o controlo de outras regiões onde esses recursos podem ser obtidos. Em
1931, as tentativas ocidentais de enfraquecer e conter os japoneses levaram o
regime de Tóquio a forjar um incidente de “falsa bandeira” na Manchúria para se
apoderar do carvão e do ferro daquela nação. Uma década depois, os
imperialistas japoneses conquistaram o Vietname, a Indonésia e a Malásia para
garantir o petróleo, a borracha, o estanho e outros materiais industriais
monopolizados pelos imperialistas franceses, holandeses e britânicos no que até
então era considerado o quintal da Europa.
Qual é a moral
da história? Todos os impérios modernos são globais. Os EUA e os seus rivais
não são como os antigos impérios que conquistavam nações mais fracas por
desporto, cobrando tributos dos seus governantes, mas geralmente deixando os
povos subjugados à própria sorte. Os impérios modernos são potências do
capitalismo tardio, impulsionadas a competir globalmente por matérias-primas
industriais essenciais, mercados e oportunidades de investimento, e compelidas
a “desenvolver” ou transformar as sociedades que dominam. Não há como manter as
suas classes dominantes confinadas nos seus próprios territórios – e quando
viajam para o exterior (como precisam de fazer para manter a sua própria
viabilidade), vão armadas até aos dentes.
Comentadores
liberais e conservadores podem ser relutantes a admitir, mas a obra de Lenine
sobre o imperialismo acertou em cheio. Por períodos limitados, enquanto emitem
ameaças de violência e realizam operações secretas, os construtores de impérios
podem até conseguir negociar as suas diferenças “pacificamente”. Mas esses
períodos de relativa tranquilidade não duram. Incapazes de resolver os
problemas globais que os seus próprios sistemas dominados pelo lucro exacerbam
– problemas como a desigualdade social radical, as mudanças climáticas causadas
pelo homem e a migração em massa –, eles empregam ameaças de guerra e a própria
guerra como métodos prediletos de gestão de conflitos. Chamam a essa estratégia
a “paz pela força”, mas entendemos que o que realmente querem dizer é o Império
em Primeiro Lugar, por quaisquer meios necessários.
O facto de a
guerra estar agora totalmente industrializada e de as armas de destruição em
massa, incluindo as nucleares, estarem proliferando a um ritmo vertiginoso não
altera essa dinâmica. Tampouco a existência de uma Organização das Nações
Unidas lamentavelmente enfraquecida oferece muita esperança de que os conflitos
inter-imperiais possam ser controlados antes que se tornem parte de mais um
prenúncio de violência global. Mais uma vez, a história faz ecoar alarmes que
qualquer pessoa que não esteja ensurdecida pela cacofonia atual deveria ser
capaz de ouvir. Foi precisamente quando a Liga das Nações se mostrou incapaz de
deter a agressão localizada do Japão, da Itália e da Alemanha que o Pacto
Kellogg-Briand, que proibia a guerra como instrumento de política nacional – um
tratado assinado por quase todas as nações do mundo – se tornou letra morta.
Então e agora, o imperialismo regional intensificado era um sintoma de uma
guerra global iminente.
O
intervencionismo de Donald Trump representa, portanto, uma significativa
guinada rumo ao fascismo – mas a sua importância já está a ser minimizada não
apenas pelos seguidores fanáticos do MAGA, mas também por uma ampla gama de
liberais do establishment, centristas de ambos os partidos,
especialistas em política externa e pela grande mídia.
Devotados ao
dogma da “paz pela força”, líderes do Partido Democrata como Chuck Schumer e
Hakeem Jeffries são incapazes de criticar as aventuras militares de Trump,
exceto para reclamar que ele não consulta o Congresso como deveria e, às vezes,
age de forma “imprudente”. Com o Iraque em mente, os editores do New
York Times alertam que tentar ocupar nações que não querem ser
ocupadas é uma má ideia. Mas se Trump conseguir apoderar-se do petróleo
venezuelano sem provocar uma guerra de guerrilha, desestabilizar Cuba sem um
novo ataque na Baía dos Porcos, estabelecer o seu “Conselho de Paz”
colonialista para a devastada Faixa de Gaza ou anexar a Groenlândia por meio de
ameaças e subornos, não ouviremos uma palavra de crítica séria dos defensores
da “liderança mundial” dos EUA.
Sejam
anti-Trump ou pró-Trump, os nossos líderes imperialistas e os seus parceiros
corporativos ignoram as conexões entre guerras regionais, a militarização da
sociedade doméstica e a crescente probabilidade de uma guerra mundial. Essa é a
má notícia. A boa notícia é que o intervencionismo cada vez mais descontrolado
e impenitente de Trump está a despertar as pessoas em diversas frentes.
Império, imperialismo e o complexo militar-industrial não são mais palavras e
conceitos tabu. Até mesmo Marjorie Taylor Greene entende que a promessa de
Trump de ser um bom isolacionista era uma mentira e que a atual onda de
intervenções militares dos EUA é um sintoma de um império em declínio.
Enquanto isso,
os cidadãos do Minnesota e de vários outros estados americanos estão a aprender
o que é ser súbdito da dominação imperial. Os agentes mascarados e armados do
ICE, agindo por medo e raiva num ambiente cada vez mais hostil, poderiam estar
a invadir Fallujah tanto quanto Minneapolis. Levará algum tempo até que o nosso
despertar se torne geral, mas isso acontecerá, espero e rezo, antes que a
violência trumpista gere um movimento irreversível rumo a uma guerra mundial.
Para citar a
faixa que aparece no final do filme antinuclear de Stanley Kramer de 1959, “A
Hora Final” (On the Beach): “Ainda há tempo…irmão”.
21 de janeiro de 2026
https://www.counterpunch.org/2026/01/21/trumps-ignoble-interventions-how-regional-imperialism-leads-to-world-war/
https://estatuadesal.com/2026/01/22/as-intervencoes-ignobeis-de-trump-como-o-imperialismo-regional-leva-a-guerra-mundial
terça-feira, 16 de dezembro de 2025
Viriato Soromenho Marques - A EUROPA À BEIRA DE UMA GUERRA IRRACIONAL
«A EUROPA À BEIRA DE UMA GUERRA IRRACIONAL! MAS SEREMOS CAPAZES DE A IMPEDIR?»
* Maria João Caetano
2025 12 14
O filósofo Viriato Soromenho Marques aponta o dedo aos EUA e à Europa pela forma como trataram a Rússia e subestimaram Vladimir Putin. E espera que no meio da escalada a que temos vindo a assistir, os líderes políticos de hoje tenham a inteligência que outros tiveram no passado e saibam dar um passo atrás. Até porque, os desafios que a nossa civilização enfrenta vão muito além da possibilidade de uma guerra: "A guerra nuclear será um ataque cardíaco. Por outro lado, a esclerose generalizada, que é um processo de morte, mas mais lento, é a crise ambiental"
~~~~~~ooo0ooo~~~~~~
«Eu fiz as
contas. No dia 12 de janeiro do próximo ano, a guerra na Ucrânia, a tal operação
especial, como dizem os russos, terá mesma duração da guerra da Alemanha com a
Rússia na Segunda Guerra Mundial. São 1.418 dias. De 22 de junho de 1941,
quando Hitler invade a União Soviética até 8 de maio de 1945." No dia 12
de janeiro de 2026, completam-se 1.418 de guerra da Ucrânia. "E não me
parece que neste momento a Rússia esteja esgotada", diz. "Tudo indica
que este esforço de guerra está a acontecer com economia de meios e com
economia de baixas", diz Soromenho Marques. Podemos estar numa escalada
que obrigue a Rússia ou a desistir ou então a passar para a fase seguinte, com
as armas nucleares, antecipa. "A verdade é que não temos nenhum exemplo de
uma guerra nuclear anterior entre potências nucleares. O meu receio é que ninguém
saiba controlar esta escalada».
Foi no passado
dia 12, numa noite de inverno, fria e chuvosa, que um grupo de
"corajosos", como lhe chamou Viriato Soromenho Marques, se juntou no
auditório da Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva para o debate "Guerra
e paz: respostas, causas e soluções de hoje", o último dos três debates do
ciclo "Uma ideia de harmonia", comissariado pela jornalista Alexandra
Carita. Na mesa estava também Tatiana Moura, diretora da plataforma
masculinidades.pt e investigadora do CES - Centro de Estudos Sociais da Universidade
de Coimbra. Mas foi o filósofo e professor da Universidade Nova de Lisboa que,
inegavelmente dominou a conversa.
Em 1983, em
plena Guerra Fria, Viriato Soromenho Marques era um jovem a fazer inter-rail e
passou algum tempo em casa de um amigo em Witten, na Alemanha. A estadia
coincidiu com muitas manifestações pela paz devido à crise dos "euromísseis".
"Nessa altura, a tensão entre o Pacto de Varsóvia e a NATO tinha crescido
de forma exponencial. Novos mísseis estavam a ser colocados, quer no lado do
lado soviético, quer do lado norte-americano e europeu", recorda o filósofo
que tem atualmente tem 68 anos. "Só que nessa altura existia uma literacia
sobre guerra nuclear que hoje está completamente ausente", diz, lembrando,
por exemplo, que a mãe do amigo, que era dona-de-casa, "saía da sua vida e
ia para a rua protestar"; ou ainda que havia uma canção "muito medíocre"
que nesse verão foi um sucesso na Alemanha, intitulada "Besuchen Sie
Europa (solange es noch steht)" - "Visita a Europa enquanto ela ainda
lá está", que falava precisamente dessa ideia de que "isto vai acabar
tudo em breve".
Terá sido esta
vivência que o despertou para o problema da guerra na Europa. Depois dessa
viagem, Viriato começou a pesquisar e a fazer entrevista e, em 1985, publicou o
livro "Europa, o risco do futuro: a incerteza estratégica dos anos
80". O livro foi publicado duas semanas antes de Gorbachev ter tomado
posse, iniciando o caminho para o fim da Guerra Fria.
"Isto que
está a acontecer agora [na Europa], para mim, tem 42 anos. Isto não começou no
dia 24 de fevereiro de 2022", diz, concluindo: "Para mim, isto é um
pesadelo, porque eu, nessa altura, já era ambientalista e olhava para estas
duas grandes ameaças. Por um lado, o ataque cardíaco. A guerra nuclear será um
ataque cardíaco. Por outro, a esclerose generalizada, que é um processo de
morte, mas mais lento, que é a crise ambiental", diz, introduzindo aqui um
tema que é essencial no seu pensamento. Mas já lá vamos. Para entender o que se
passa hoje na Europa o professor recua, precisamente, até à Guerra Fria e ao
modo como esta terminou. E talvez, até, recuar um pouco mais, e perceber porque
é que existem guerras.
AS GUERRAS SÃO
EVITÁVEIS?
"Em toda
guerra existe violência, mas nem toda violência é guerra. Isto é importante
porque a violência pode ser exercida pelo indivíduo, está relacionada,
individualmente, com a agressividade. Mas a condição fundamental para a guerra é
a existência de uma entidade artificial, que é o estado - uma estrutura que é
uma pessoa coletiva, uma estrutura sem paixão, que decide do uso da violência bélica",
explica Viriato Soromenho Marques.
É por isso que
para perceber as guerras é preciso entender o conceito de estado soberano.
"A guerra e a paz entre nações está também associada à teoria do contrato
social, que se parece um pouco com a física atómica", diz. "Temos os
indivíduos que são pequenos átomos e que depois se organizam em moléculas que são
sociedades." Na ordem política e na ordem legal, existe um poder de sanção.
Mas, neste aspeto, "a analogia com a sociedade das nações é imperfeita.
Porque na sociedade das nações não existe esse poder de sanção, é um direito
imperfeito. Isto é, podem existir tribunais internacionais. Há tratados. Há uma
Organização das Nações Unidas. Mas não existe um poder comum capaz de aplicar a
sanção. As grandes potências não são sancionáveis."
Thomas Hobbes,
pensador doa séculos XVI XVII, dizia que "os príncipes e os Estados estão
permanentemente em estado de natureza, ou seja, preparados para a guerra. E não
há nenhum tratado, não há nenhuma lei internacional que leve os príncipes a
dormir descansados. É por isso que têm exércitos permanentes. Porque há uma
desconfiança permanente".
O professor
cita ainda o general prusso Carl von Clausewitz ("uma espécie de Newton da
guerra"), que no século XIX escreveu a obra "Vom Krieg - Da
Guerra", que é, nas suas palavras, "o grande livro contemporâneo
sobre a guerra": "A guerra é uma ação em que a violência é usada como
instrumento de objetivos políticos". Clausovitz diz mais: "A guerra é
a continuação da política por outros meios" - uma frase que já todos
ouviram. O que é que isto significa? "A guerra tem apenas uma gramática, a
política tem a lógica. E deve ser a política que comanda a guerra.
Evidentemente que para fazer a guerra é preciso tecnologia, é preciso treino,
etc. Mas isso é a gramática. E no limite, se fosse possível, atingir esses
objetivos sem a violência, não haveria guerra. Mas sem a violência não há coação.
Agora, o que pode acontecer é que, perante ameaça do uso da força militar, um
Estado pode recuar e conceder. Clausevitz considera que quando a diplomacia
falha é muito improvável que se consiga retomá-la sem o sucesso das
armas."
"Na guerra
existe uma lógica essencialmente de custo-benefício. O pensamento estratégico
militar é um pensamento de custo-benefício. É um pensamento instrumental. A
ideia de uma guerra com as luvas brancas não existe", afirma o filósofo. Não
existe guerra sem danos colaterais e sem crimes de guerra. O que os políticos
que tomam a decisão de iniciar ou entrar numa guerra fazem é tentar avaliar se
vale ou não a pena. Isto, dito assim, pode parecer cruel, mas não é novo.
"Os aliados, que venceram a Alemanha nazi, também cometeram imensos
crimes. Hamburgo foi destruída em julho de 1943 e 40 mil pessoas foram mortas
com bombas de fósforo. Antes das bombas atómicas, que foram crimes de guerra
também, porque visaram populações civis, tivemos 700 mil japoneses que foram vítimas
de bombardeamentos convencionais pela aviação americana. Isso são crimes de
guerra", sublinha.
UMA GUERRA
IRRACIONAL – EM QUE TODOS SAEM DERROTADOS
"Hoje em
dia, a guerra que podemos ter será uma guerra absolutamente irracional",
diz Viriato Soromenho Marques. Porquê? Segundo Clausevitz, a guerra é até 1945,
tinha violência, mas tinha racionalidade. "Ou seja, havia sofrimento, mas
havia a possibilidade da vitória. Os povos perdiam milhões de vidas, mas
atingiam o objetivo e havia vitória. Hoje, é uma das características da guerra
contemporânea, é a possibilidade de uma guerra em que todos saem
derrotados".
Durante os 40
anos da Guerra Fria, houve um consenso entre os dois lados, explica o
professor. A crise dos misseis de Cuba em outubro de 1962, em que o mundo
esteve à beira de uma guerra nuclear, "fez com que tanto Krushov como o
Kennedy percebessem o que seria a irracionalidade da guerra", diz
Soromenho Marques. "O que Kennedy fez a seguir a outubro de 62 foi
fundamentalmente um processo de construção da paz, em colaboração com a União
Soviética: a criação do telefone vermelho, a proibição de testes nucleares e
outras ideias que ele tinha para a frente, de cooperação alargada com a União
Soviética e com os países que estavam no Pacto de Varsóvia e que o assassinato
impediu. No discurso que fez em Washington em 10 de junho de 63, Kennedy dizia
o seguinte: 'Enquanto defendem os seus próprios interesses vitais, as potências
nucleares devem evitar os confrontos que levam o adversário a optar entre uma
retirada humilhante ou uma guerra nuclear. "Adotar esse tipo de atitude,
ou seja, querer insistir numa escalada em potências nucleares, na era nuclear,
seria apenas uma prova da falência da nossa política ou de um desejo coletivo
de morte'."
Ronald Reagan,
que foi presidente dos EUA durante a Guerra Fria, "acolheu positivamente,
com entusiasmo, Gorbachev", diz o professor, contando algo que percebeu ao
ler as memórias do presidente: "Em novembro de 1983, Reagan foi um dos
primeiros americanos a ver até o filme 'The Day After' [filme ficção científica
que imagina o que aconteceria após uma guerra nuclear]. E ele ficou
aterrorizado com o que viu. É interessante que em janeiro de 84 ele faz um
discurso que causou surpresa. Enquanto o discurso do ano anterior tinha sido o
discurso do "Guerra da Estrelas", vamos criar um sistema no espaço, o
discurso de janeiro de 84 dizia que temos de evitar a autodestruição".
O FIM DA UNIÃO
SOVIÉTICA: UMA OPORTUNIDADE DESPERDIÇADA
A Guerra Fria
prolongou-se, com esse jogo de contenção de forças, até à Perestroika. Viriato
Soromenho Marques considera que a transição democrática da União Soviética, com
a "dissolução pacifica do Pacto de Varsóvia", "é o único caso
que temos na História em que um sistema bipolar acaba porque o outro lado
desiste".
Inicialmente,
recorda o filósofo, "houve imensa vontade de estabelecer relações, de
apoiar economicamente a transição da Rússia. O que eles fizeram foi uma coisa
brutal". Mas logo se percebeu que os interesses económicos se iriam
sobrepor aos bem político. Passou-se "de uma economia planificada que não
funcionava, para uma economia de mercado que foi pilhada. O que aconteceu no
tempo do Ieltsin foi uma catástrofe para a Rússia. A Rússia perdeu cinco anos
de esperança de vida. O desemprego galopou. A mortalidade infantil aumentou
imenso. O alcoolismo explodiu. A criminalidade, as mortes violentas. Depois, a
formação dos oligarcas, a privatização com as grandes companhias americanas por
trás. No fundo, a Rússia era um cadáver gigantesco, 17 milhões de quilómetros
quadrados, que estava ali para ser devorado", diz Soromenho Marques.
"Foi uma
tragédia. Não só económica, mas também política." A Europa poderia ter-se
tornado um aliado, um parceiro. "Era preciso criar uma relação de confiança
mútua, e isso não aconteceu. Até porque era preciso ter um inimigo, como é que
nós vendíamos a expansão da Nato se não tivéssemos um papão do lado lá?"
"O
analfabetismo e russofobia é também uma coisa que nos está a envenenar.
Envenena-nos a alma e corrói o pensamento", afirma Soromenho Marques.
QUANDO PUTIN
DEIXOU DE SER UM AMIGO – AS ORIGENS DA GUERRA DA UCRÂNIA
Soromenho
Marques diz que é preciso "admitir o fracasso de todas as políticas que
começaram em 1991, quando os Estados Unidos recusaram integrar a Rússia no
sistema internacional" e decidiram deixar a Rússia de foram da Nato.
"Esta guerra [na Ucrânia] começou porque a Rússia não tinha garantias de
segurança. Pediu primeiramente que a Nato não se alargasse, mas a Nato
alargou-se. Depois pediu para não se alargar para zonas que são estratégicas,
porque as grandes potências têm zonas de segurança, a que se chama zonas de
influência", e, mais uma vez, isso não acontece. Em 2008, em Bucareste, a
Nato ofereceu um convite à Ucrânia. "E Putin, que nessa altura era
convidado a ir às reuniões da Nato, fez um grande discurso a explicar porque é
que isso era uma coisa que não podia ser aceite pela Rússia. Então, Sarkozy e
Merkel falam com Bush e decidem arrastar isso para não arranjar problemas. As
coisas foram-se arrastando assim."
"O ponto
em que as coisas realmente se transformaram foi com a Praça Maidan. Foi aí que
as coisas se tornaram mesmo azedas", diz o filósofo. "Esta guerra
começou aí. A Operação Especial começou na Praça Maidan. O Viktor Yanukovych
foi eleito em eleições reconhecidas por todos os observadores, incluindo os
nossos, da União Europeia, que estiveram lá. A Victoria Nuland, que é a
vice-secretária de Estado, esteve pessoalmente a comandar as operações de
montagem da Praça Maidan. Inclusive ela, no inverno, em dezembro de 2013, faz
uma pequena intervenção, em que chega a dizer que até agora o nosso
investimento na Ucrânia foi de cinco milhões de dólares. Em 2024, o historiador
ucraniano Ivan Katchanovski publicou um livro notável a explicar a Praça
Maidan."
"A
Alemanha foi seduzida pela possibilidade de também tirar algum partido da Ucrânia.
E, além disso, ninguém acreditava que a Rússia tivesse capacidade para fazer
esta guerra. O Biden dizia, em 2017: os russos engolem tudo o que lhe pusermos
pela garganta abaixo", lembra Soromenho Marques. Em 2019, ainda Merkel
estava no poder, e a Ren Corporation, que é o principal think tank da política
externa americana, publica um livro que se chamava "Extending
Russia". Esses analistas diziam que se deviam "criar dificuldades em
muitos pontos à Rússia para que ela se parta. E um dos objetivos do Extending
Russia é impedir a ligação entre a Alemanha e a Rússia. Não só energética.
Avisadamente, eles percebiam que uma boa relação entre a Alemanha e a Rússia ia
causar problemas a quem queria continuar a ser o dono do mundo".
O FIM DO DOMÍNIO
AMERICANO E AS NOVAS RELAÇÕES DE PODER .
"Os
Estados Unidos estão, nesta fase, a passar de interveniente principal, para
algo diferente", afirma Soromenho Marques. "Reconhecem que já não têm
capacidade para aquele pesadelo que foi o unipolarismo. Biden foi o último
representante da ideia tonta de que era possível os Estados Unidos dominarem o
mundo e imporem, com recompensas e com violência e com sanções, o domínio. Hoje
estamos num mundo completamente diferente."
E explica:
"Do ponto de vista económico, os Estados Unidos são uma sombra do que
foram. No auge do poderio americano, no tempo do Truman, 50% do produto interno
bruto era americano. Hoje, os Estados Unidos têm uma percentagem muito menor,
estamos a falar de 20%, 21%. para ser otimista. Por outro lado, do ponto de
vista científico, a situação é absolutamente avassaladora. No ano passado, um
instituto australiano publicou um estudo que era uma análise de 20 anos de
inovação científica no mundo, em 64 tecnologias de ponta. E o contraste é
absolutamente esmagador. Em 2003, os Estados Unidos dominavam 61 das 64. E a
China dominava 3. Em 2023, a China domina 57 das 64. E os Estados Unidos
dominam as outras 7."
"Ou seja,
o que temos hoje é um novo sistema internacional. Estamos numa fase horrível
que é a transição. As transições são sempre terríveis, mesmo na vida dos indivíduos",
diz o professor. Mas há algo positivo nesta situação, que é o facto de os
Estados Unidos "já não considerarem a China como um inimigo com o qual
poderiam entrar em guerra em 15 anos, mas como um competidor. Há uma diferença
entre competidor e inimigo".
Já em relação à
Rússia, na Estratégia de Segurança Nacional (ESN) os EUA assumem o objetivo de
"estabilizar as relações com a Europa, nomeadamente com a Rússia. O que não
parece uma coisa idiota, parece uma coisa até bastante sensata. Não sei como é
que é possível alguém que conheça um pouco da situação atual e da situação histórica
pensar que é possível excluir a Rússia do sistema internacional e do sistema
europeu, para mim é uma ideia completamente absurda", afirma.
E A EUROPA NO
MEIO DE ISTO TUDO?
"Estamos a
viver um desastre do projeto europeu", diz Viriato Soromenho Marques,
lembrando que em 2014 publicou livro sobre a crise do euro que se chamava
"Portugal na queda da Europa". "A tese era que a crise de 2008 não
foi uma crise das dívidas soberanas, como se dizia, foi uma crise do euro. O
euro foi construído sem qualquer mecanismo que o tornasse uma moeda funcional,
não era uma moeda federal. O euro foi criado sem sequer um sistema de prevenção
das crises bancárias, por exemplo. Nada. E os países endividaram-se nessa
altura para socorrer o sistema financeiro, os bancos, que estavam lá soltos. Os
bancos nessa fase inicial faziam o que queriam. Falhámos. O Euro podia ser a
primeira etapa do federalismo europeu, e nós falhámos. Em 2014, a minha
perspetiva era que estávamos a entrar num processo de decadência europeia, de
queda".
"Só que
agora já estamos dentro da queda", admite, dando como exemplo máximo a
forma como a Europa está a conduzir esta guerra na Ucrânia. "Primeiro: não
temos nenhuma providência, nenhum artigo que conceda os poderes que a senhora
von der Leyen se arrogou para funcionar como se fosse a comandante suprema de
uma coisa que não existe, que são as Forças Armadas Europeias. Segundo: existe
uma confusão total entre a União Europeia e a NATO. Chegámos a este ponto.
Confundimos totalmente. Terceiro: o uso de procedimentos, e dia 18 de dezembro
vamos ver se isto vai acontecer ou não, procedimentos que vão conduzir a uma
situação dramática".
Depois de na
passada sexta-feira a União ter aprovado, por maioria e com os votos contra da
Hungria e Eslováquia, uma decisão para manter os ativos russos imobilizados
indefinidamente no espaço comunitário, o tema volta a ser debatido esta semana
pelos ministros europeus dos Negócios Estrangeiros que vão decidir se esse
dinheiro pode ser usado para o empréstimo de reparações à Ucrânia. "Se
isso for roubado à Rússia e entregue à Ucrânia, eu acho que somos nós, os
europeus, que não depositamos mais o nosso dinheiro aqui, são também os
estrangeiros que cá têm dinheiro que vão para outro sítio", antecipa o filósofo.
"A gente do mundo árabe, a gente da África, a gente da América Latina, os
magnatas, etc., vão para outro sítio. E também os portugueses. Vão transformar
esses euros em ienes e vão pô-los na China, ou transformam-nos dólares e põem
nos Estados Unidos."
A ESCALADA
ACTUAL: "NÃO PODEMOS. COMO CIDADÃOS, ACEITAR ESTE DISCURSO DA
INEVITABILIDADE DA GUERRA”
Chegamos,
assim, aos dias de incerteza em que vivemos. Viriato Soromenho Marques
"colecionou" uma série de frases proferidas nos últimos dias por
"altos responsáveis políticos e militares da nossa Europa" e que
mostram bem o estado do mundo:
• 3 de
Novembro: Boris Pistorius, ministro da defesa da Alemanha, falando sobre o
plano de reconstrução armamentista da Alemanha, que está outra vez na corrida
dos armamentos, está a preparar um sistema que permita a rápida passagem para
leste, ou seja, em direção à Rússia de 800 mil soldados da NATO, disse: "Há
quem fale que a guerra vai ser em 2029. Há outros que dizem que vai ser em
2028. Mas há alguns que dizem mesmo que gozámos em 2025 o último verão em
paz".
• 16 de
novembro: o general Fabien Mandon, que era conselheiro do presidente Macron, da
França, diz que "temos de aceitar perder os nossos filhos, sofrer
economicamente".
• 3 de
Dezembro: o almirante Giuseppe Cavo Dragone, chefe do Comité Militar da Nato,
disse ao Financial Times que a NATO deveria considerar a possibilidade de uma ação
preventiva contra a Rússia.
• 11 de
Dezembro: Mark Rutte, secretário-general da NATO, diz que "depois da Ucrânia
nós somos o próximo alvo da revolução. E nós precisamos estar prontos. Devemos
estar preparados para uma guerra da escala dos nossos avós e dos nossos bisavós.
Preparados para a possibilidade de milhões de mortos" e dizendo que, por
isso, nós precisamos gastar 5% do PIB na corrida ao armamento.
• Entretanto,
Vladimir Putin, interrogado numa conferência de imprensa, a seguir às declarações
de Dragone, diz: "Se a Europa começar subitamente, o tal ataque
preventivo, uma guerra contra nós, eu penso que essa guerra acabará
rapidamente. Isso não será a Ucrânia. Com a Ucrânia nós estamos a atuar com
precisão cirúrgica, cuidadosamente, isto não é uma guerra no sentido direto,
moderno da palavra. Se a Europa começar uma guerra contra a Rússia, em breve,
Moscovo não terá ninguém com quem negociar."
•
Perante isto,
Soromenho Marques questiona-se até que ponto é que aquela ideia de Kennedy, que
é fruto do conceito da "destruição mútua assegurada", ainda estará
atualizada. "Na altura de Kennedy existiam 70 mil armas militares. Hoje
existem à volta de 13 mil. Mas 13 mil são suficientes para dar cabo de tudo. E
eu pergunto-vos, será que estas pessoas partilham desta preocupação?",
pergunta.
E ainda, mais
incisivo: "A questão que me parece prioritária é não aceitarmos, como
cidadãos, este discurso da inevitabilidade da guerra", diz.
Na sua
perspetiva, "uma guerra em que fossem usadas armas nucleares representaria
o fim da história". "Mas vamos pensar que haverá ainda alguma sombra
de cuidado com o futuro, e alguma inteligência também, e que não vamos entrar
por aí", diz, recorrendo ao que resta do seu otimismo.
"QUAL A
POSSIBILIDADE QUE TEMOS DE SOBREVIVER A ISTO? (E «ISTO» NÃO É SÓ A GUERRA NA
UCRÂNIA)”
"Este
conflito [na Ucrânia] é o centro do vulcão. Claro que temos conflitos noutros
lugares no mundo, mas a Europa é, mais uma vez, o centro do vulcão e é onde, de
facto, a situação pode ficar completamente fora de controlo. Mas eu pergunto:
será apenas na guerra que estamos fora do controlo? Não me parece."
Viriato Soromenho Marques tem um olhar mais abrangente. "Nós, europeus,
temos muito orgulho na maturidade, com todo o contributo para a ciência e para
a tecnologia moderna, mas realmente os grandes desígnios da modernidade, que
eram a emancipação humana, que era, como no tempo do grefos, vencer um destino,
uma moira, a que estávamos condenados pelos deuses, ou, como dizia depois
Descartes, vencer a vida curta, prolongar a vida humana, impedir as tragédias,
o sofrimento - será que conseguimos isso? A verdade é que nós construímos um
aparato gigantesco para combater esse destino natural, mas temos uma crise
existencial na área do ambiente. Portanto, eu colocaria o nosso debate sobre a
guerra e a paz no quadro de uma interrogação ainda mais penetrante: qual é a
possibilidade que temos de sobreviver a isto? Onde é que erramos? E teremos a
coragem para primeiro identificar as causas fundamentais e depois agir em
consequência? Ou seja, sermos capazes de fazer a renúncia a tanta coisa a que
nos acostumamos a considerar fundamentais?"
A verdade, diz,
"é que estamos numa situação em que, perante os desafios existenciais que
temos, nomeadamente o facto de estarmos a viver num planeta que estamos a
destruir, que estamos a devorar", deveríamos estar preocupados com outros
problemas. "Quando começou a guerra na Ucrânia, surgiu um artigo chamado
'Uma guerra no convés do Titanic'. Nós temos que que fazer o possível para que
ele não afunde. E neste momento não vemos muita gente que esteja preocupada com
isto", lamenta.
Na sua opinião,
seria necessária "uma visão integrada". Em primeiro lugar, deveríamos
"tomar consciência da gravidade da situação. Já não é evitar, não, é de
fazer uma adaptação que permita a continuação da história humana e que permita
uma visão de reconstrução do modo como as nossas instituições, nomeadamente a
nossa economia, que é uma economia primitiva. Nós precisamos de uma economia
ecológica, ou seja, de uma economia que considere que é um subsistema da
ecologia e não o contrário".
Cícero dizia
que «a salvação do povo seja a suprema lei».
«Quando a gente
fala em salvação do povo, está a falar fundamentalmente da vida das pessoas e
da fazenda das pessoas, do que as pessoas têm. A minha preocupação é com a
nossa vida. Porque acho que a fazenda já está perdida».
Wyndham Lewis, «The Waste Land», sobre o poema de T.S. Eliot
https://cnnportugal.iol.pt/guerra/ucrania/nao-podemos-aceitar-este-discurso-da-inevitabilidade-da-guerra-a-europa-esta-a-beira-de-uma-guerra-irracional-mas-seremos-capazes-de-a-impedir/20251215/693fe7afd34e3caad84c62ea
sábado, 6 de dezembro de 2025
Domingos Lopes - Give peace a chance
sexta-feira, 28 de novembro de 2025
William Schryver - O Presidente da Paz Imaginário
* William Schryver
27 de novembro de 20- 25
Uma das afirmações mais comuns sobre o governo Trump 45 é
que "ele não iniciou nenhuma guerra nova".
Isso é comprovadamente FALSO.
Durante seu primeiro mandato, Trump se tornou o principal
agente causal de todos os conflitos atuais com a Rússia, a China, o Irã e a
Venezuela.
Ele não apenas manteve a trajetória desses conflitos
estabelecida pelas administrações americanas anteriores, como também aumentou
drasticamente a tensão e acelerou o ritmo da marcha para a guerra.
Ucrânia
Na Ucrânia, entre 2017 e 2021, os preparativos já iniciados
para a #MãeDeTodosOsExércitosPorProcuração foram ampliados e acelerados a um
nível sem precedentes.
Quase duas dezenas de bases secretas de inteligência dos EUA
foram estabelecidas em todo o leste da Ucrânia. Um grande número de militares
ucranianos participou de programas de treinamento EUA/OTAN. Oficiais ucranianos
foram instruídos no uso de comunicações EUA/OTAN e dados de
inteligência/vigilância/reconhecimento (ISR). Uma cadeia de comando foi
estabelecida de Kiev até o quartel-general EUA/OTAN na Base Aérea de Ramstein,
na Alemanha. Armamento pesado americano foi pré-posicionado na Polônia, e acordos
preliminares foram firmados com antigos países do Pacto de Varsóvia (muitos
deles agora membros da OTAN) para fornecer à Ucrânia artilharia, blindados,
munições e aeronaves de combate soviéticos.
As tropas ucranianas foram introduzidas ao uso de mísseis
guiados antitanque Javelin, obuseiros M-777 de 155 mm e sistemas de lançamento
múltiplo de foguetes HIMARS.
Algumas aeronaves soviéticas antigas da Força Aérea
Ucraniana foram modificadas para transportar e lançar mísseis dos EUA/OTAN.
O enorme complexo de fortificações na região de Donbass foi
ampliado e reforçado.
Alguns milhares de "contratados" dos EUA/OTAN
foram integrados às forças armadas ucranianas, com preferência para as brigadas
neonazistas mais radicais, consideradas as unidades de "elite" das
Forças Armadas da Ucrânia.
O foco estratégico durante todo o governo Trump foi concluir
a preparação das forças armadas ucranianas para atacar e esmagar os
separatistas pró-Rússia em Donbass e, em seguida, retomar a Crimeia, que os
russos haviam tomado após o golpe de Estado liderado pelos Estados
Unidos em Kiev, em 2014 – e que foi formalmente reintegrada à
Federação Russa como resultado de um referendo popular com ampla maioria.
Trump chegou a se gabar de ter sido ele quem começou a armar
os ucranianos em uma escala muito maior do que Obama jamais havia feito.
“Fui eu quem forneceu os mísseis Javelin. Lembram-se dos
famosos Javelins? Fui eu. Não foi o Obama. Não foi o Biden. Não foi ninguém
mais. Fui eu. E eles destruíram muitos tanques com esses Javelins. A expressão
era: 'Obama deu lençóis'. E eu forneci os Javelins. Isso foi muito importante
na época. Foi no começo, quando as pessoas disseram: 'Uau, isso é
impressionante!'. Bem, aquilo era equipamento americano. Sem equipamento
americano, esta guerra teria terminado muito rapidamente.”
Presidente Donald J. Trump, Conferência de Imprensa no Salão
Oval, 26 de fevereiro de 2025
Aqui está o vídeo completo de onde foi retirada a citação
acima:
Este é um fato irrefutável: o governo Trump 45 acelerou e
tornou inevitável a guerra cujo estopim final foi aceso no início de fevereiro
de 2022, quando os ucranianos iniciaram uma escalada de artilharia em larga
escala contra o que alegavam ser posições da milícia de Donbass, mas que eram
indistinguíveis de alvos civis aleatórios.
A combinação de todos esses fatores obrigou os russos a agir
de forma decisiva (e mais cedo do que desejavam) para ampliar sua presença
estratégica na região.
Todos aqueles que afirmam que Trump não tem culpa na guerra
na Ucrânia ou desconhecem os inúmeros fatos objetivos, ou os negam.
Diversas vozes geopolíticas proeminentes já alertavam sobre
a possibilidade de uma guerra na Ucrânia mesmo antes de Victoria Nuland, John
McCain, Lindsey Graham e outros marcharem pelas ruas da Kiev conquistada em
2014.
E durante toda a guerra civil que se seguiu, até a
intervenção russa no final de fevereiro de 2022, agentes de inteligência e
forças especiais dos EUA/OTAN atuaram na Ucrânia, apoiando as movimentações
militares do governo de Kiev em Donbass.
A crise tornou-se cada vez mais aguda ao longo do primeiro
mandato de Trump, mesmo quando os objetivos gêmeos de subjugar o Donbass e
retomar a Crimeia se tornaram cada vez mais evidentes.
Como publiquei no
Twitter em abril de 2021:
A Ucrânia tem duas opções: aceitar seu papel como um
estado-tampão ou ser desmembrada. Se os EUA a incitarem a tentar subjugar o
Donbass, a Rússia irá separar o leste da Ucrânia e assimilá-lo — e não há
*nada* que os EUA possam fazer para impedir isso.
Na verdade, as grandes guerras geoestratégicas entre
Estados-nação sempre levam décadas para se concretizar. Assim
foi no caso da guerra na Ucrânia.
Mas a trajetória inevitável da guerra foi traçada durante
o PRIMEIRO mandato de Donald Trump na Casa Branca. Trump é mais responsável
pela Guerra da Ucrânia do que Joe Biden pela sua caneta automática. Ao menos
Trump demonstrou um grau modesto de coerência em seu primeiro mandato.
A aparição de Joe Biden, atordoada e confusa,
simplesmente assistiu, estupefata, aos eventos há muito predestinados passarem
diante de seus olhos vazios.
China
Uma das primeiras ações de Trump após sua posse em 2017 foi
anunciar a venda para Taiwan de mísseis antinavio Harpoon, mísseis de defesa
aérea naval SM-2 e SM-3, torpedos MK-48 e sistemas de radar avançados.
Em 2019, com grande alarde, Trump anunciou a venda de 66
caças F-16V para Taiwan.
Em 2020, Trump anunciou a venda de ainda mais mísseis
antinavio Harpoon, sistemas HIMARS e drones MQ-9B.
Durante seu primeiro mandato, Trump também enviou cerca de
300 operadores das forças especiais do Exército e da Marinha dos EUA para
Taiwan. Desde o início de seu segundo mandato, esse número aumentou para mais
de 500, incluindo contingentes substanciais em Penghu e na ilha de Kinmen, que
fica a apenas dez quilômetros da costa chinesa.
b
O estacionamento permanente de um batalhão inteiro de tropas
americanas em Taiwan era algo sem precedentes antes do primeiro mandato de
Trump. E, compreensivelmente, é considerado pela China uma provocação sem
precedentes. Consequentemente, os preparativos chineses para uma possível
guerra em suas águas territoriais e arredores foram intensificados
consideravelmente.
E, naquela que é possivelmente a sua jogada estrategicamente
mais mal aconselhada, Trump 45 iniciou a guerra comercial e retórica com a
China, que continua até os dias de hoje.
Já circulam rumores generalizados de que o Departamento de
Guerra dos EUA está preparando um bloqueio naval às importações de energia da
China — um ato de completa loucura.
Irã
Trump, em conjunto com os israelenses, iniciou a grande
guerra com o Irã, que continua até hoje — embora atualmente esteja em um de
seus intervalos típicos.
Naquele que considero o ato de guerra mais descarado de seu
primeiro mandato, Trump ordenou o assassinato do general iraniano Qasem
Soleimani, em 3 de janeiro de 2020, no aeroporto de Bagdá.
Soleimani estava em missão diplomática em Bagdá a convite do
primeiro-ministro iraquiano, Adil Abdul-Mahdi, que atuava como intermediário
entre os sauditas e os iranianos, que trabalhavam para reduzir a escalada dos
ataques com drones e mísseis realizados por milícias iraquianas contra bases
americanas no Iraque e a Zona Verde em Bagdá.
Soleimani estava viajando para entregar a resposta oficial
do Irã a uma proposta de mediação da Arábia Saudita.
Em 31 de dezembro de 2019, aparentemente em apoio a essas
iniciativas saudita-iranianas para amenizar a situação no Iraque, o presidente
Trump fez um telefonema pessoal para o primeiro-ministro iraquiano,
Abdul-Mahdi. O líder iraquiano, por sua vez, telefonou para Soleimani para
combinar uma reunião na Zona Verde, em Bagdá, marcada para a manhã de 3 de
janeiro de 2020.
Soleimani e sua pequena comitiva viajaram abertamente em um
voo comercial e foram recebidos no aeroporto pelo líder da milícia iraquiana
Abu Mahdi al-Muhandis e alguns outros iraquianos. Enquanto Soleimani,
al-Muhandis e outros oito se deslocavam do aeroporto para a Zona Verde em dois
veículos, um drone americano MQ-9 Reaper disparou mísseis Hellfire, reduzindo
todos eles a escombros.
O presidente Trump ordenou diretamente o ataque e,
posteriormente, vangloriou-se publicamente de sua perfídia.
Soleimani era considerado um herói nacional no Irã e,
possivelmente, a segunda figura política mais poderosa e influente do país na
época, atrás apenas do aiatolá Khamenei.
Os iranianos ficaram justificadamente indignados.
Em 8 de janeiro de 2020, o Irã lançou um ataque com mísseis
balísticos contra a base aérea americana de Ayn al-Asad, no Iraque. Cerca de 15
mísseis balísticos iranianos atingiram a base com uma precisão impressionante,
embora fosse evidente que o ataque tinha um caráter meramente demonstrativo e
que os iranianos evitaram deliberadamente matar soldados americanos.
Ainda assim, a potência do ataque claramente surpreendeu
tanto os americanos quanto os israelenses, resultando em uma diminuição dos
ataques dos EUA e de Israel contra alvos iranianos até 1º de abril de 2024,
quando os israelenses mataram sete oficiais da Guarda Revolucionária Iraniana
em um ataque com mísseis contra a embaixada iraniana em Damasco.
Duas semanas depois (13 e 14 de abril de 2024), os iranianos
lançaram um ataque massivo e sem precedentes com mísseis contra Israel. Isso
levou diretamente a uma série de confrontos entre Israel e Irã que ocorreram ao
longo dos meses seguintes, culminando na chamada Guerra
dos Doze Dias entre os EUA/Israel e o Irã, de 13 a 24 de junho de
2025.
É claro que é preciso entender que esta guerra entre os
EUA/Israel e o Irã AINDA NÃO acabou. Ela está apenas em um breve hiato, e há
indícios nos últimos dias de que Israel está planejando novos ataques contra o
Irã.
Mas não se enganem, o evento catalisador para essa guerra
drasticamente intensificada com o Irã foi o assassinato traiçoeiro de Qasem
Soleimani por Trump em 3 de janeiro de 2020.
Venezuela
Trump começou a expressar publicamente seu desejo de entrar
em guerra contra a Venezuela e de se apoderar de seu petróleo, no máximo, em
julho de 2017. Isso se tornou um tema recorrente para ele, culminando na
tentativa fracassada de golpe de Estado de 2019 contra Nicolás
Maduró, quando os EUA tentaram instalar o fantoche Juan Guaidó como líder da
Venezuela.
Trump
teria dito:
“Não entendo por que não estamos olhando para a Venezuela.
Por que não estamos em guerra com a Venezuela?”
“É com esse país que deveríamos entrar em guerra. Eles têm
todo esse petróleo e estão bem na nossa porta dos fundos.”
A linguagem belicosa de Trump em relação à Venezuela
continuou durante todo o seu primeiro mandato e, como resultado, os aliados de
longa data da Venezuela, Rússia, China e Irã, começaram a fortalecer de forma
mais agressiva as capacidades militares venezuelanas, antecipando um eventual
ataque dos EUA e uma potencial invasão do país sul-americano que detém as
maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo.
Agora, enquanto escrevo aqui no Dia de Ação de Graças de
2025, os Estados Unidos posicionaram uma enorme frota naval e uma força de
desembarque de fuzileiros navais na costa da Venezuela, e parece quase certo
que as operações militares contra o regime de Maduro começarão em breve, com o
objetivo declarado de instalar um novo governo fantoche cuja suposta líder, a
ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, María Corina Machado, preparada pela CIA,
pediu explicitamente uma invasão americana da República Bolivariana e prometeu
permitir que os EUA assumam o controle do petróleo, ouro e outras riquezas
minerais da Venezuela.
O Comando Sul (SOUTHCOM) chegou a produzir um vídeo
promocional bem elaborado para a próxima guerra contra a Venezuela:
O Presidente da Paz Imaginário
Trump, consumido por sua própria ânsia de se tornar um
laureado com o Prêmio Nobel da Paz, vem afirmando há meses ter encerrado nada
menos que oito guerras imaginárias.
Na realidade, o presidente Donald J. Trump demonstrou ser um
dos presidentes americanos mais propensos a agir impulsivamente que já vi
(Eisenhower ainda era presidente quando eu nasci).
Incrivelmente, ele optou por entrar em conflito com os
adversários mais poderosos que os EUA enfrentaram desde a Segunda Guerra
Mundial: Rússia, China e Irã. E, pior ainda, catalisou a formação de uma aliança
militar e econômica imbatível entre essas três potências
civilizacionais em ascensão, mesmo enquanto o poderio militar americano se
deteriorava ao seu ponto mais baixo desde o pós-Segunda Guerra Mundial.
É claro que a maioria dos americanos possui conhecimento e
compreensão sobre a guerra e o poderio militar dos EUA, tal como retratado
durante décadas em filmes de Hollywood e videogames. Portanto, quando Trump se
vangloria de ser a maior força militar dos Estados Unidos na história da
humanidade, a vaidade americana é facilmente convencida de que não há nação na
Terra que os EUA não possam subjugar com uma mão amarrada nas costas.
Nem Donald Trump, nem muitos americanos, percebem que não há
mais guerras fáceis para lutar. Mas essa verdade perturbadora será exposta para
todos verem daqui até o fim do último mandato do Presidente da Paz Imaginário.







