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sábado, 18 de julho de 2026

Raquel Varela - [Ensino, exames e pedagogia]

* Raquel Varela

Sabem o que ensinam os professores antes de um exame? Leiam atentamente as perguntas todas antes de começar a responder a cada uma delas, no fim revejam o exame todo, se há uma questão difícil passa para a próxima, e volta a esta mais tarde. Verifica os erros ortográficos. Dorme e come bem antes do exame. Quando sair a nota fazemos a correcção colectiva, na aula, e em cada exame está a correcção individual, se tens dúvidas vem falar comigo no final da aula e ficamos a ver juntos o exame e, ao teu lado, demonstro o que está mal, bem, o que podia ser melhor. 

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Raquel Varela - [O que não deve ser a Escola]

*  Raquel Varela
 
 ·
Ontem fiquei a saber que uma professora de geografia fez sucesso ao dizer que adora classificar intens, resolvi ir ver o exame de geografia. Não ouvi a professora, confesso, estava a caminho de Ponte Sor, numa automotora que acompanha o Tejo, atravessa montados, e onde toda a gente se trata por tu, do maquinista à senhora que trabalha numa fábrica no Carregado, do revisor, que com ternura dá águas quando o ar condicionado pifa, ao agrónomo que ia me falando dos cavalos, dos javalis e , claro, dos jovens maquinistas em formação, em visita de estudo, que me dedicaram o seu sorrido, conversa e um deles até me mostrou a foto das bochechas de porco preto que comeu com a avó. Devolvi contando das grandes greves dos heróis ferroviários no século XIX. Não há calor que me tire de um comboio, o transporte mais belo do mundo. Se é uma automotora a 100 à hora, o dia foi perfeito. Walter Benjamin, filósofo, disse um dia que a revolução não é o comboio da história, é o travão de emergência. Eu, ali, na automotora a caminho de uma formação de professores, levava no colo Vigotsky, o mais importante psicólogo que explica no fundo como aprendemos e desenvolvemos o cérebro. 

terça-feira, 16 de junho de 2026

«A Emília» - Livro de Leitura da 1.ª Classe (oficial e único do Minho a Timor)

No livro da 1º CLASSE antes do 25 de abril havia um texto sobre a 'Emília' que queria ser uma dona de casa- É possível aceder a esse texto?

Sim, é possível recordar e aceder a esse texto! Esse é um dos exemplos mais citados quando se analisa o papel da mulher e a ideologia de género transmitida através do sistema educativo durante o Estado Novo (antes do 25 de Abril de 1974).

O texto em questão pertencia ao Livro de Leitura da 1.ª Classe (oficial e único na altura) e reflete perfeitamente o ideal da época de que o destino primordial da mulher era a vida doméstica, o casamento e a maternidade.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Daniel Oliveira - A bebedeira suicida do PSD

* Daniel Oliveira

Montenegro está a cavar uma crise de identidade no PSD. Sim, pode matá-lo. A Europa é um cemitério de partidos estruturantes da democracia. E a forca foi, quase sempre, demasiado cálculo para pouca política

11 junho 2026  

Ométodo diz da função. Em poucas semanas, o Governo multiplicou-se em chico-espertices que sintetizam a carreira da inseparável parelha Montenegro-Soares. A votação da lei laboral foi marcada para meio do Mundial, para facilitar a negociação com o Chega, que está mortinho por aprová-la. Uma autorização legislativa sobre a Prestação Social Única (PSU) retira ao Parlamento o essencial do debate, impondo a chantagem do risco de perder €620 milhões do PRR por um prazo que o Governo conhecia há anos. O Chega apresentou a sua proposta de revisão constitucional, a lei dava um mês para outros o fazerem, mas Aguiar-Branco, para permitir a negociação com o PSD, não a admitiu e criou o precedente de ser ele a definir quando começam a contar os prazos. Votar pela calada, chantagear com urgências fabricadas, dobrar regras que incomodam.

Quanto à política, depois dos de baixo da imigração, chegou a vez dos de baixo da pobreza. O padrão é excitar o ressentimento que rende. Na lei da imigração o Governo recorreu à demagogia das “portas escancaradas” e as primeiras consequências, segundo notícias, estão a ser a partida de imigrantes de que a economia depende. Na PSU o alvo mudou, mas a lógica mantém-se. A ideia era, unificando 13 prestações, simplificar o acesso, reduzir a estigmatização, tornar o sistema mais legível. O Governo complexificou o acesso, introduziu novas formas de exclusão e transformou a reforma num instrumento de controlo. Num país desigual, que gasta em proteção social menos percentagem do PIB do que a Europa, a pobreza é tratada como um vício de que se suspeita, se vigia e se pune. Está prevista uma equipa para gerir denúncias de vizinhos sobre quem tem carro, usa smartphone e pede apoio, nada para mais acompanhamento ou inserção. E propõe-se trabalho social obrigatório sem qualquer estratégia de empregabilidade. Só trabalho sem salário, sem direitos, sem contrato, sem horizonte. Não quebra nenhuma espiral de dependência com formação e acesso a oportunidades, apenas pune quem nela está.

A política do ressentimento pode garantir aplausos, mas não constrói um perfil de governo sustentável. O PSD parece acreditar que, pegando nas bandeiras mais populares do Chega, disputa os seus eleitores. Só que as pessoas vão aprendendo a farejar o oportunismo. Quem queria um Governo com a agenda do Chega votou no Chega. Do PSD esperava resultados na habitação e no SNS, duas das três principais preocupações dos portugueses, depois da corrupção, onde a imagem também não é a melhor. A última sondagem para o Expresso exibe o equívoco de Montenegro. Os eleitores do PSD avaliam o Chega com 2,8 em 10 — pior do que o BE e o PCP (2,9) e muito pior do que o PS (4,5). E quando se lhes pede uma palavra para descrever os apoiantes do Chega, 23% escolhem “ameaça extremista”, 41% usam termos como “fascistas”, “extremistas”, “corruptos” ou “malucos”. Montenegro está a fazer política para um eleitorado que os seus eleitores consideram uma ameaça. Há, claro, a possibilidade de o taticismo ser ainda mais retorcido e, depois do bruaá, recuar na PSU para ter o voto do PS, aprovar a lei laboral com o Chega e, limitando-se a apresentar o modelo inicial da prestação, dar a ideia de equidistância. À hora que escrevo não o sei. Sei que é sempre o mesmo: tática, tática e mais tática.

Costa desbaratou a maioria absoluta de 2022 porque o cálculo esteve sempre à frente de qualquer desígnio. O resultado foi o desastre que se seguiu e uma dificuldade do PS em recuperar os eleitores que perdeu. De tal forma que se pôs a hipótese de o declínio ser irreversível. Montenegro está a cometer o mesmo erro, com um taticismo ainda mais desalmado. Só que o contexto é mais instável, o espaço político à sua direita está em rapidíssima mutação e as consequências podem ser mais destrutivas. O problema não é apenas estar a governar mal, ao ponto de, ao fim de dois anos, Carneiro o ter ultrapassado nas sondagens. É estar a cavar uma crise de identidade no PSD. Conhecemos este filme noutros países europeus: partidos de centro-direita (e até de centro-esquerda) que tentaram competir com a extrema-direita no seu próprio terreno acabaram por perder dos dois lados. E o esvaziamento do PSD é até mais fácil de consumar do que o do PS: à direita há vários partidos prontos a absorver os fugitivos e o PS pode facilmente ocupar o centro deixado vago. Ou então o cenário alternativo, porventura mais perigoso: um Chega com eleitorado sólido e fidelizado, enquanto PS e PSD se vão esburacando e alternando no poder. Sim, Montenegro pode matar o PSD. A Europa é um cemitério de partidos estruturantes da democracia. E a forca foi, quase sempre, demasiado cálculo para pouca política.

 https://expresso.pt/opiniao/2026-06-11-a-bebedeira-suicida-do-psd 


domingo, 7 de junho de 2026

Daniel Oliveira - Pôr os de baixo na ordem

 


Foto Tiago Miranda


* Daniel Oliveira

Os debates sobre imigração, apoios sociais e produtividade foram capturados por uma elite rentista que naturaliza a desigualdade persistente, prometendo pôr na ordem os de baixo — imigrantes, pobres e trabalhadores —, enquanto os mobiliza contra os que estão no degrau inferior da escada classista

04 junho 2026  

Aburguesia nacional fez-se sobretudo pela captura de rendas e pela proximidade ao poder político. À sombra do ouro do Brasil, dos monopólios coloniais, do condicionalismo industrial, das privatizações que lhe ofereceram monopólios ou oligopólios, de fundos europeus desbaratados, de concessões de serviços públicos. Em cada momento histórico açambarcou valor em vez de o criar. Hoje, assistimos ao bloqueio a qualquer regulação da transferência massiva de capital de áreas produtivas para o imobiliário, que não arrisca ou compete. Mas o rentismo não produziu apenas uma estrutura económica viciada e avessa à inovação. Produziu uma cultura.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Jaime Nogueira Pinto - "O Fascismo nunca existiu"

Apesar do anti-parlamentarismo, do anti-comunismo e de algum folclore de “militarização da política”, nem o 28 de Maio, nem a Ditadura Militar, nem o Estado Novo foram fascistas.

04 jun. 2026, 00:24

* Jaime Nogueira Pinto

On est toujours le fasciste de quelqu’un”, escrevia o autor de Qu’est-ce-que le fascisme?, Maurice Bardèche, esse sim, um fascista assumido. Mas há que ter algum rigor.

O regime trazido pelo movimento militar do 28 de Maio de 1926, que há uma semana fez cem anos, não foi um regime fascista. Esclareço que o meu intuito não é “branquear” (como agora se diz) o Estado Novo – que, não sendo fascista, podia até ter sido pior que o fascismo em brutalidade e violência. É só mais uma tentativa de trazer algum rigor a um espaço em que reina a confusão, ora pela má-fé dos que sabem e fazem de conta que não sabem, ora pela ignorância ou desinformação da maioria.

Depois de 1945, o adjectivo “fascista” passou a ser um insulto na linguagem política corrente. Tanto assim foi que, na esquerda maoista e trotskista dos anos 1960, os comunistas soviéticos passaram a “fascistas” ou a “sociais-fascistas”; e também nunca faltaram nem faltam direitistas a chamar “fascistas” aos esquerdistas mais radicais, incluindo aos comunistas, pensando estar, com isso, a prestar um grande serviço à pátria.

A prova de que a esquerda continua vitoriosa na batalha das palavras é o facto de “comunista” não ter o mesmo poder de insulto, apesar de o comunismo deter o recorde das matanças políticas do século XX, com os Estalines, os Maos, os Pol Pots, os Mengistus e outras glórias e referências do comunismo internacional.  Para se medir com eles em criminalidade política só mesmo Adolfo Hitler, que, de resto, encarnou uma deriva de racismo biológico alheia à “doutrina do fascismo”.

A guerra civil europeia

Ao criar, em Outubro de 1917, um regime que implantou a “luta de classes” e o conceito de “inimigo do povo”, à sombra dos quais se criou na Rússia um “terror vermelho” e consequentemente um “terror branco”, o comunismo acabou por desencadear em muitos países europeus a supressão das instituições liberais em crise.

Foi também para responder ao perigo comunista que, em Outubro de 1922, Mussolini e os seus “camisas negras” fizeram a “marcha sobre Roma”, e que o Rei nomeou o “Duce” do fascismo chefe do governo. Uma das instituições de base do fascismo, como do comunismo, é o partido. Nos Estados ideológicos, o Partido comanda a Administração Pública. Mussolini era chefe do governo porque era líder do Partido Nacional Fascista, que adoptava uma ideologia económica e socialmente revolucionária, indissociável do paganismo e da crença num mítico “homem novo”. A infeliz entrada da Itália na guerra em 1940, pressionada pelo Partido, estava também integrada numa cultura futurista que via a violência como força transformadora e a guerra como “higiene do mundo”, perfilhando um nietzscheano “viver perigosamente”.

O 28 de Maio, a Ditadura Militar e o Estado Novo, além do que pudessem ter em comum com o fascismo – o nacionalismo, o autoritarismo, o iliberalismo, o anticomunismo –, eram diferentes. Eram conservadores, religiosos e o seu antiparlamentarismo não era dogmático, mas fundado na experiência histórica da Primeira República. Salazar era um conservador, que não gostava do “viver perigosamente” de Nietzsche e dos fascistas; preferia, como diria a Henri Massis, o “viver habitualmente” de alguns estoicos e da esmagadora parte do povo. Dava-se também que o partido político-institucional de Salazar não era a União Nacional, uma organização que, para ele, tinha só a utilidade instrumental de seleccionar, sob sua aprovação, os candidatos à Assembleia Nacional e à presidência da República.

O Exército e Salazar

O partido único e árbitro constituinte do Estado Novo não era a União Nacional, era o Exército. Por isso o regime caiu pela mão do Exército.

A verdade é que o regime português teve como líder um homem sem partido e que não gostava de partidos, um académico tecnocrata cujas ideias provinham de várias raízes e caudais, mas onde não se vislumbrava o nacionalismo revolucionário fascista, nem o desejo, também fascista, de mobilizar as massas populares na construção de um Estado paratotalitário e social.

O que há em Salazar é um pessimismo antropológico augustiniano, uma visão conservadora e crítica da História e da Vida, com uma hierarquia de valores políticos onde a nação – e o Estado como “nação politicamente organizada” – surgem à cabeça. A sua formação intelectual tem o seu quê de “afrancesado” – Charles Maurras, Gustave le Bon, Maurice Barrès, Paul Bourget – e é inseparável do catolicismo social. Mas baseia-se, acima de tudo, na experiência negativa da Primeira República, das suas fraudes, da sua instabilidade, da sua incoerência entre os princípios proclamados e a política praticada.

Foi esta democracia que os militares do 28 de Maio derrubaram há um século, data que coincidiu com a aparatosa entrada da Polícia Judiciária na sede do Partido Socialista e na detenção de alguns dos seus distintos militantes (totalmente alheios ao partido, dizem-nos, a não ser pelo facto de estarem nele inscritos e de, nessa qualidade, exercerem cargos de confiança).

A cabala

Alguns dirigentes e militantes socialistas viram na incursão policial uma provocação fascisto-salazarista: por que outra razão teria a Judiciária escolhido o 28 de Maio, e logo no ano do centenário do início de “uma das épocas mais negras do nosso país”, senão para enxovalhar o Partido Socialista, ferindo-o na sua sede, santuário anti-fascista por excelência? Só porque militantes contratavam empresas dos seus camaradas para prestar serviços às autarquias onde estavam? E que tinha o Partido que ver com isso?

Não, a Judiciária viera propositadamente ao Largo do Rato com todo o aparato para evocar Gomes da Costa a marchar sobre Lisboa para correr com os Democráticos. E como não ver naqueles polícias PIDES, prontos a conspurcar, sem mandato judicial, um idóneo e idoso lar de antifascistas?

E quanta pequenez! Tanto aparato para dois milhões? O que eram dois milhões, conseguidos em circuito fechado entre companheiros do PS, comparados com os muitos milhões do grande Zapatero, negociados no mercado negro da alta política na China e na Venezuela?

Aqui, onde os verdadeiros fascistas acabaram na oposição

Há cem anos, a maior parte dos regimes iliberais europeus, nascidos de ditaduras militares com recurso ao “estado de excepção”, perante a disfuncionalidade do parlamentarismo liberal e a radicalização das sociedades à esquerda e à direita, tiveram características autoritárias e nacional-conservadoras.  Mas não foram “fascistas”, como tantas vezes são qualificados.

Esta desclassificação não é, insisto, uma forma de tornar os regimes mais benévolos em matéria, por exemplo, de direitos humanos. O nacional conservadorismo húngaro do almirante Horthy foi, em termos de repressão, mais brutal do que o fascismo mussoliniano, até à queda do Duce em Julho de 1943, ao perder a votação no Grande Conselho Fascista. De resto, o fascismo coexistiu com a monarquia dos Sabóia e Mussolini abandonou o poder quando o Rei o demitiu.

Além de um certo folclore de um tempo que era, à esquerda e à direita, de “militarização da política” – nos hinos, nas marchas, nas camisas (negras, castanhas, verdes, azuis ou vermelhas) e nas saudações (do braço ao alto à romana ao punho fechado) – o regime português, apesar de assentar no anti-parlamentarismo e no anti-comunismo, não foi fascista.

Entre 1926 e 1974 houve em Portugal ditadura, censura, repressão, polícia política, anti-parlamentarismo, anti-liberalismo, anti-comunismo? Com certeza que houve. Mas houve fascismo? Não, não houve. Houve uma tentativa fascista ou fascizante, com o nacional sindicalismo de Rolão Preto. E também houve, no “regime fascista”, personalidades verdadeiramente pró-fascistas, como os capitães Henrique Galvão e Humberto Delgado. Acabaram todos na oposição. 

https://observador.pt/opiniao/o-fascismo-nunca-existiu/

Jaime Nogueira Pinto - O 28 de Maio de há um século

Jaime Nogueira Pinto

Indiferentes à agonia de uma República Democrática a que deviam muito pouco, as massas trabalhadoras acabariam colaborar, por acção ou inacção, com os militares da Revolução de Maio.

28 mai. 2026

Há cem anos, deu-se em Portugal um movimento militar por iniciativa de jovens oficiais – capitães e tenentes da guarnição militar de Braga – a que a presença e a voz do general Gomes da Costa emprestaram respeitabilidade institucional. Gomes da Costa foi levado de Lisboa a Braga por um grupo de militares e civis de que faziam parte os tenentes Armando Pinto Correia e João Pereira de Carvalho e os civis Luís Charters de Azevedo e João da Silva, que conduzia o Cadillac.

Braga era a sede da 8ª Divisão do Exército, cujos quadros médios estavam mobilizados para iniciar a revolução. O golpe vinha pouco mais de um ano depois da chamada “revolta dos generais”, que acontecera em Lisboa entre 18 e 21 de Abril de 1925, uma conjura falhada em que tinham participado os generais Gomes da Costa, ex-Comandante do Corpo Expedicionário Português (CEP), e Sinel de Cordes, ex-Chefe de Estado-Maior do CEP na Flandres, apesar de o verdadeiro mentor e alma da revolta ter sido o coronel Raul Esteves.

A República jacobina

Com um record de governos sem precedentes – 45 em 16 anos –, a Primeira República caracterizou-se pela instabilidade e pela quantidade de golpes e confrontos militares. Apesar de ser democrática – ou talvez por isso –, não escapou ao monopólio mais ou menos continuado de uma facção do Partido Republicano Português, a facção jacobina de Afonso Costa, conhecida por “os democráticos”. Costa e os seus copiavam os radicais jacobinos franceses de Émile Combes, que tinham encarnado a política anti-católica em 1905-1906, nacionalizando os bens da Igreja, expulsando as congregações religiosas, usando os jornais para apresentar a Igreja Católica e os fiéis como inimigos da Razão, da Ciência, do Progresso e da Liberdade.

Afonso Costa e os principais dirigentes “democráticos” perseguiram a Igreja e os monárquicos, reprimindo, prendendo e exilando centenas de “inimigos do povo” e fixando-lhes arbitrariamente residência nas colónias. Os jesuítas, como era da praxe, serviram de “bode expiatório” e foram expulsos do país. Bispos e até o cardeal-patriarca de Lisboa, D. António Mendes Belo, foram forçados ao exílio.

Mas a repressão não se ficou pelos conservadores, os da direita. À esquerda, o movimento sindical e os “avançados” também foram perseguidos, as greves reprimidas a tiro pela GNR, os dirigentes enviados administrativamente para o degredo. De certa forma, Afonso Costa e os “democráticos”, apesar do seu posicionamento bem à esquerda, procuraram aparecer como um “centrão” entre extremos, não se inibindo, para tal fim, de usar meios extremistas.

Por isso, além de combaterem as incursões monárquicas de Julho de 1911 e de Julho de 1912, enfrentaram a efémera “ditadura” de Pimenta de Castro, de Janeiro a Maio de 1915. Em Dezembro de 1917, veio o bem-sucedido golpe militar de Sidónio Pais, o “presidente-rei” de Fernando Pessoa que, como D. Carlos, foi assassinado, confirmando uma prática enraizada na esquerda portuguesa: o recurso a formas superiores de luta em caso de necessidade.

A seguir ao sidonismo veio a monarquia do Norte, contra a qual se reuniram “democráticos” e “avançados” pela última vez. Em Outubro de 1921, depois da queda do governo de António Granjo, deu-se a tenebrosa Noite Sangrenta (19-20 de Outubro de 1921); a noite em que, à soviética, os guardas republicanos e os marinheiros em revolta assassinaram republicanos conservadores ou contrários aos “democráticos”, entre eles o próprio Granjo e o herói do 5 de Outubro, Machado Santos.

O Zeitgeist europeu

Dera-se, entretanto, a revolução soviética e, por toda a Europa, o medo do comunismo trouxe uma série de movimentos iliberais de contenção do radicalismo violento da esquerda. A maioria destes movimentos, quer na Europa Oriental, quer em Espanha, foram de natureza nacionalista e conservadora. A excepção foi o fascismo italiano, que chegou ao poder em Outubro de 1922 como expressão de uma “direita revolucionária”, corporativa, intervencionista e monopartidária. A maioria dos movimentos autoritários, embora partilhando com os fascistas o nacionalismo, o anti-parlamentarismo e o anticomunismo, tinham na base militares, como Primo de Rivera em Espanha, o almirante Horthy na Hungria e o general Pilsudski na Polónia, que ali tomou o poder em meados de Maio de 1926, dias antes do 28 de Maio.

Em Portugal também foi assim: o 28 de Maio partiu de Braga contra “uma minoria devassa e tirânica” – como diria Gomes da Costa no seu manifesto à Nação. Era a classe política, os “democráticos” que, na falta de Afonso Costa, que ficara por Paris depois da guerra, eram dirigidos por António Maria da Silva, engenheiro de Minas pela Escola do Exército, e dirigente da Alta Venda Carbonária, organização secreta fundada por Luz de Almeida e muito importante no activismo anti-monárquico.

A tripartição fatal

Os anos finais da República tinham sido de contínua agitação (mais de 150 greves, mais de 300 bombas em Lisboa), com três forças políticas em luta – a oposição conservadora católica, monárquica e nacionalista, o poder republicano dos “democráticos” e a nascente esquerda radical, os “avançados”, “vermelhos” ou “comunistas”. O partido comunista foi fundado em 6 de Março de 1921, dois anos depois da criação da III Internacional dos bolcheviques. Ao contrário do que acontecia em França e em Itália, em Portugal os comunistas não vinham de uma dissidência socialista, mas do meio anarco-socialista operário. Como escreve Pacheco Pereira, o PCP inicial era um “partido de caixeiros, arsenalistas, funcionários públicos, alfaiates e ferroviários”.

Mas o PCP era então, e iria ser até ao fim da URSS, um partido obediente a Moscovo e ao internacionalismo proletário. Assim, as notícias do progressivo centralismo soviético e da liquidação, na Rússia, dos militantes anarquistas pela “troika” Estaline, Zinoviev e Kamenev, da mesma forma brutal usada contra os “brancos”, os “burgueses” e os “inimigos do povo”, levariam a uma forte desconfiança no movimento operário português em relação aos comunistas.

De qualquer modo, as massas trabalhadoras vão ser indiferentes à agonia da República Democrática, o fim de um regime que piorara a situação económica do país, não alargara, antes restringira, o sufrágio e mantivera o analfabetismo nos 70%. Por isso, vão tolerar ou mesmo colaborar com os militares revoltados – não houve qualquer sabotagem dos ferroviários aos comboios que transportaram os cerca de 15.000 homens das divisões sublevadas até Sacavém para o desfile da vitória de Gomes da Costa, do Campo Grande aos Restauradores, em 6 de Janeiro de 1926.

O partido (militar) do Estado Novo

É neste acampamento de Sacavém que vão funcionar, por algum tempo, os “sovietes” de tenentes e capitães que, numa antecipação do Movimento das Forças Armadas de 1974, dominaram a primeira fase da ditadura militar.  E que vão purgando os chefes: primeiro, Mendes Cabeçadas, o marinheiro anti-“democráticos”, herói do 5 de Outubro; depois, Gomes da Costa, exilado para os Açores em 11 de Julho, com a família. Vão ficar Carmona – oficial diplomata, prudente, mais de salão do que do terreno – e Sinel de Cordes, éminence grise que, apesar dos esforços, não vai conseguir resolver o problema central do governo: a crise financeira.

Como em todos os governos da direita iliberal europeia, o congelamento das instituições parlamentares viera a par do apelo às “competências técnicas” fora da política. Foi perante a paralisia institucional, a instabilidade do parlamentarismo e o perigo que vinha da Eurásia bolchevique que há um século, nesses outros anos vinte, metade da Europa recorreu à “ditadura comissarial”, em estado de excepção.

Aqui a diferença foi o tecnocrata das Finanças, que além das “competências técnicas” requeridas, tinha pensamento e valores políticos e estava disposto a aplicar-se, com inteligência, vontade e realismo, na estabilização e reforma do país. E fê-lo num contrato implícito com o Exército, que seria o poder constituinte do seu consulado. O Estado Novo vai ser, à sua imagem, um Estado de ordem, nacional-conservador e autoritário, que proíbe os partidos políticos, institui a censura prévia e mantém uma polícia política.

A esquerda unida e o centrão querem hoje convencer-nos, em estudos orientados e filmes encomendados e subsidiados, que o Estado Novo foi só isso: Salazar, a PIDE, a Censura, o Tarrafal; e que as obras públicas, a segunda industrialização e a modernização, ou não aconteceram ou foram conquistas de Abril. Que Salazar manteve Portugal fora da Segunda Guerra Mundial e reduziu drasticamente o analfabetismo (em 1940, pela primeira vez em Portugal, havia mais gente que sabia ler e escrever do que analfabetos), apesar de serem factos inegáveis, tendem a chumbar nos actuais polígrafos.

Nos anos 50 – não porque fosse, como os primeiros republicanos, um “africanista” ou um “colonial” –, Salazar não seguiu a vaga descolonizadora europeia. Entendia que o império ultramarino era essencial para independência e para importância política de Portugal. Tal levou a que o poder militar se viesse a sublevar – primeiro numa revolta de generais, em Abril de 1961, que Salazar foi capaz de desmontar e vencer; depois, já com o seu sucessor, numa revolta de capitães, em Abril de 1974.

Salazar criara um regime à sua medida, que funcionava, essencialmente, com ele e só com ele, com a sua inteligência e, sobretudo, com a sua vontade e decisão. Um regime que não sobreviveria nem a um tempo em que já se esvaíra a memória da “balbúrdia sanguinolenta” que levara ao 28 de Maio, à ditadura militar e depois ao Estado Novo, nem ao seu sucessor, a quem não faltava a inteligência, mas a quem faltaram o tempo e o modo – a conjuntura, a vontade e a decisão.

https://observador.pt/opiniao/o-28-de-maio-de-ha-um-seculo/

terça-feira, 26 de maio de 2026

Há sempre personagens inevitáveis nestas reuniões políticas improvisadas da internet portuguesa.

* canal #moritz

2026 05 26
 ·
Há sempre personagens inevitáveis nestas reuniões políticas improvisadas da internet portuguesa. Não importa se a conversa começa sobre salários, guerra, imigração ou o preço da electricidade. Ao fim de dez minutos aparecem sempre os mesmos arquétipos políticos, carregados de certezas absolutas, contradições épicas e uma impressionante capacidade para dizer tudo e o seu contrário sem pestanejar.

A primeira a entrar costuma ser a , socialista de televisão, europeísta de ocasião e anti-comunista preventivamente nervosa. É daquelas pessoas que conseguem, na mesma frase, elogiar o Estado Social, defender o PS, citar valores de Abril e terminar a pedir “responsabilidade dos mercados”. Para ela, o capitalismo americano é profundamente injusto, mas ao mesmo tempo representa “a democracia liberal que nos protege”. A União Soviética acabou há décadas, mas a dona Matilde continua a falar dos soviéticos como quem espera uma invasão anfibia em Peniche.

Depois aparece o inevitável , representante da esquerda domesticada, higienizada e compatível com painéis televisivos patrocinados por bancos. O Luís apresenta-se como homem do Bloco de Esquerda, progressista, defensor de causas sociais e especialista em indignação selectiva. Revolta-se contra tudo o que não coloque verdadeiramente em causa o sistema económico. Fala muito de linguagem inclusiva, diversidade e empatia, mas quando a conversa chega a imperialismo, NATO, grandes grupos económicos ou concentração de riqueza, entra imediatamente em modo nevoeiro ideológico:

 “A questão é complexa.”

Complexa, neste caso, significa:

 “Tenho medo de dizer algo que me retire convites para debates televisivos.”

O curioso é que esta pseudo-esquerda vive obcecada em parecer “responsável” perante o mesmo sistema que diz combater. Quer fazer revolução, mas sem incomodar acionistas. Quer combater desigualdades, mas sem tocar nos lucros. Quer defender trabalhadores, mas sem assustar comentadores da SIC Notícias.

E claro, nenhuma reunião estaria completa sem a lendária , patriota profissional do sofá, inimiga mortal dos imigrantes — excepto daqueles que lhe fazem os trabalhos todos que ela nunca quis fazer. A dona Rebola Caixotes passa a vida a repetir que “os estrangeiros vêm roubar empregos aos portugueses”, embora ela própria nunca tenha mostrado grande interesse em trabalhar. Defende valores tradicionais, acha que a mulher deve ficar em casa e acredita que o país está a ser destruído por gente de fora. No entanto, o jardineiro é imigrante, o estafeta é imigrante, o homem das obras é imigrante e provavelmente até o técnico da internet que lhe permite espalhar teorias absurdas no Facebook também é imigrante.

Mas esses não contam.

Porque no imaginário dela existem sempre dois tipos de estrangeiros:

* os “bons”, que trabalham barato e em silêncio;
* e os “maus”, inventados diariamente por páginas de propaganda e vídeos alarmistas.

No meio deste circo ideológico sobra apenas o , que apesar das minis e da linguagem caótica, por vezes é o único que percebe o absurdo geral da conversa. É ele quem pergunta como é possível um partido dizer-se socialista enquanto governa para grandes interesses económicos. É ele quem se ri de uma esquerda que evita certos temas para não parecer “radical”. E é ele quem nota que muitos dos que gritam contra pobres, imigrantes ou subsídios normalmente nunca criticam os verdadeiros centros de poder económico.

No fundo, aquela reunião online não era apenas uma conversa caricata. Era um retrato bastante fiel da confusão política moderna: uma direita agressiva alimentada pelo medo, uma pseudo-esquerda preocupada em parecer aceitável para o sistema, um centrismo disfarçado de socialismo e um povo perdido no meio de propaganda, redes sociais e slogans vazios.

https://www.facebook.com/canalmoritzptnet

domingo, 17 de maio de 2026

Carlos Coutinho - [Ernst Bloch e o nacional-socialismo]

* Carlos Coutinho
 ·
Já passou quase um século após o aparecimento de um verdadeiro tratado sobre a canalhice, mas não me parece que já não seja de ter em conta a vantagem da sua vigência, dadas a sua abrangência e, sobretudo, a sua profundidade. 

   Aconteceu nas vésperas da Segunda Guerra Mundial o aparecimento nas livrarias de um livro feroz do filósofo alemão Ernst Bloch que analisa a ascensão de Hitler ao poder e se interroga sobre como foi possível que a consciência coletiva de quase todo o país se tivesse degradado a ponto de aceitar a nazificação, como uma espécie apodrecimento que quase nunca parou de se agravar.

   A propaganda oficial e o trauma da humilhação, em resultado da derrota e do esbulho sofrido às mãos dos vencedores em 1918, reivindicavam a continuidade do Terceiro Reich, restaurando o Primeiro – o do Sacro Império Romano-Germânico – criado por quem reclamava a atualização do instaurado por Carlos Magno que durou entre 962, e a suas aniquilação por Napoleão, em 1806, seguindo-se o Segundo Reich, isto é, o império que foi erguido com a unificação da Alemanha e a guerra franco-prussiana em 1871, cujos efeitos só foram travados com o colapso alemão na Primeira Guerra Mundial, mas tal consequência não explica para Ernst Bloch a mórbida e sanguinária aceitação da ditadura nazi.

   Como se fizeram, então, os canalhas e se instituiu o seu regime? Como foi aceite a fábula segundo a qual este novo império iria durar 1000 anos? E o que se pode concluir desta histórica tragédia que custou perto de 70 milhões de mortos? Não estava escrito que o führer conquistasse o poder e que 10 anos depois de ter ocupado a presidência do partido nazi, bem como que, após uma curta prisão por envolvimento numa tentativa de golpe de Estado, o paranoico político aguarelista austríaco disputasse a segunda volta das eleições presidenciais alemãs em abril de 1932 e obtivesse 37% dos votos e que os comunistas e os social-democratas somados se ficassem pelos 36%. 

   Contudo o presidente eleito, o tão celebrado marechal Hindenburg entregou-lhe o lugar em Berlim, que não era a capital da Áustria, mas viria ser anexada com geral aplauso germânico,  em 30 de janeiro de 1933.

   Quando, poucos anos depois, Blcch se pergunta sobre como se chegou a este desfecho, a conclusão que encontra é que o centro e a direita, aceitam a receita da  extrema direita, aceitam Hitler como se de uma solução de curto prazo se tratasse, ou apenas fosse um mal menor, para impor a ordem, enquanto amplos setores da burguesia e do que hoje se chama classe média, como comerciantes, militares e acadêmicos, celebravam no despotismo.

   Havia nisso a evocação de um fundo cultural – considera Bloch – e não foi a magia propagandística de Goebbels que respondeu à desintegração do regime de Weimar. Foi antes a recuperação de mitos incrustados na crença da epopeia germanista mobilizando um romantismo reacionário que se apropriou de Nitzsche e de Wagner, ou seja, foi a ideologia social dominante que fez de Hitler o seu porta-voz e o estandarte dos interesses económicos dominantes.

   Leio estas análises e percebo melhor os êxitos eleitorais do nosso Ventura e de quem lhe paga as campanhas, bem como os favores que recebe da comunicação social quase toda. 

   Vade retro, Satanas…  

2026 05 17

https://www.facebook.com/carlos.coutinho.14855377

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Jaime Nogueira Pinto - A Idade da Reforma e o reformismo

* Jaime Nogueira Pinto

A proposta de André Ventura não é necessariamente “de esquerda” ou “socialista”. Dizê-lo é ignorar ou desprezar a existência, à direita, de toda uma tradição social e reformista

14 mai. 2026, 

A Esquerda rejubilou perante as críticas quase unânimes, varrendo todo o espectro político, ao líder que nem há um mês enlameava a memória do “dia inicial inteiro e limpo” em plena “Casa da Democracia”. Como é que o inimigo número 1 da lusa “democraticidade”, o “caluniador de Abril”, se atrevia a propor que se antecipasse a idade da reforma? Além de usurpar uma “medida de esquerda”, a proposta era irrealizável e indesejável no actual contexto.  Mais para o centro e para o centro-direita, e também com natural júbilo, sublinhou-se, implicitamente, o suposto monopólio da “questão social” por parte da Esquerda: afinal Ventura e o Chega não passavam de “socialistas encobertos”.

Independentemente da viabilidade, conveniência e oportunidade da proposta ou da reivindicação, de resto, notoriamente inviável, inconveniente e inoportuna (a não ser que a oportunidade fosse amalgamar governo e oposição num qualquer “todos contra um”), há aqui muita confusão na admissão, errada de base, de que o que separa a Esquerda e a Direita é, sobretudo, a Economia. Como que numa eterna Guerra Fria, a Direita seria sempre pelo mercado e respectiva “mão invisível” e a Esquerda sempre pelo Estado e respectivas preocupações sociais.

Nada mais falso, quer em termos históricos, de História das Ideias e categorias político-económicas, quer em relação aos actuais alinhamentos político-partidários na Europa e na América.

Para os conceitos de Esquerda e Direita temos a arrumação inaugural, na Assembleia Constituinte francesa, no princípio da Revolução – os partidários do veto real arrumaram-se à direita, os adversários à esquerda. Ou seja, nesta oposição inicial, uns eram conservadores, outros progressistas; uns partidários da Religião e da Monarquia tradicional, outros partidários da laicização e da monarquia limitada.

A Questão Social – Marx, Bismarck, Leão XIII

Na primeira metade do século XIX, os partidários da laicização e da monarquia limitada acabaram por vencer. Foi também nesses princípios do século XIX que despontou a chamada questão social, com a industrialização nas grandes cidades de Inglaterra, da futura Alemanha e de França a arrastarem centenas de milhares de famílias, até aí rústicas, para o proletariado urbano. Foi desse proletariado urbano, com ele e por causa dele, que nasceu a “Questão Social”. Marx e Engels, no Manifesto Comunista, dissecaram essa realidade e apresentaram as suas soluções.

Com o Manifesto e a continuação da obra de Marx e Engels, foi estabelecida, então, a doutrina socialista. Em linhas gerais, e em primeiro lugar, era uma doutrina materialista, assente no materialismo histórico e “científico”, convicção primeira dos redactores do Manifesto que também integravam ali o contributo de Ludwig Feuerbach.

A ideia primeira e principal era, pois, a de que a realidade humana era apenas a que podia ser sentida e apreendida pelos cinco sentidos. O resto não existia. A segunda, era a de que a Economia era senhora do mundo e condicionava tudo, da política às artes e à vida social e cultural. A terceira, era a de que a Economia determinava a existência de duas classes – a Burguesia e o Proletariado. E a quarta era que essas duas classes eram inimigas irredutíveis, num conflito de sempre, mas que tendia a agudizar-se, indicando “a marcha da História” que, no final feliz dessa história e da História, o Proletariado sairia vencedor da luta.

As ideias socialistas, ao longo do século XIX, foram-se espalhando pela Europa e pelas Américas, com maior ou menor sucesso. Além do “socialismo científico” de Marx-Engels, havia uma colecção de socialismos utópicos. Mais tarde, surgia a social-democracia, que recusava o lado violento da luta de classes e sustentava a luta operária dentro das regras da democracia liberal. O raciocínio era elementar: a luta de classes era desnecessária porque, com o alargamento do sufrágio, a tendência seria para a vitória final das maiorias proletárias sobre as minorias burguesas – e sem derramamento de sangue.

Mas ao mesmo tempo que, na Esquerda política, emergiam estas correntes, surgia, no campo cristão e católico, um pensamento social alternativo, que, em nome de ideais de justiça e redistribuição da riqueza, combatia, também, o liberalismo capitalista. Ideais eminentemente cristãos que, de resto, e depois de devidamente extirpados de transcendência, eram a óbvia inspiração das utopias materialistas da Esquerda. Veio daí o pensamento social da Igreja Católica, que depois das preocupações de Lamennais – e, mais tarde, logo a seguir ao episódio sangrento da Comuna de Paris (1870-1871) –, daria origem, com Albert de Mun, Maurice Maignen e René de La Tour du Pin, aos Círculos Operários Católicos.

Também, na área nacional conservadora, o chanceler Bismarck, na Alemanha reunificada e industrializada, negociaria com os nascentes sindicatos e com os dirigentes socialistas um pacto que daria origem às primeiras instituições europeias de segurança social. Na Alemanha de Bismarck, a lei dos seguros de doença (1883), a lei dos acidentes de trabalho (1884) e as leis sobre os seguros de velhice e invalidez (1889) passariam a aplicar-se aos trabalhadores industriais e agrícolas.

E em 1891, Leão XIII publicava a Encíclica Rerum Novarum, que tornava doutrina oficial da Igreja Católica o repúdio dos excessos, tanto do capitalismo liberal como do socialismo marxista, defendendo uma terceira via que aplicava conceitos éticos aos mecanismos dos mercados e instituía bases morais de legitimação da intervenção institucional para a justiça social, em liberdade e fora do socialismo.

São exemplos de pioneirismo social, vindos da direita nacional-conservadora, na Alemanha de Bismarck, e da direita católico-social, na França do século XIX e na Santa Sé, com os papas sociais.

A direita revolucionária

Outra linha de reformismo social, com outras origens, encontramo-la na radicalidade social de base estatal da direita revolucionária, com o fascismo italiano e o falangismo ou nacional-sindicalismo espanhol. Do mesmo modo que promoveram políticas intervencionistas e de nacionalismo e proteccionismo industrial, estas direitas autoritárias deram expressão ao chamado “fascismo de sinistra” ou “fascismo de esquerda” no mundo do trabalho, representado por Giuseppe Bottai e Ugo Spirito, ou por escritores como Elio Vittorini que, depois da guerra civil espanhola, se tornou antifascista. O empenho social reformista da Falange espanhola nacional-sindicalista, fundada por José António Primo de Rivera, ficava também bem evidente na trilogia “Patria, Pan e Justicia”.

Haveria muito mais exemplos da tradição social das direitas, quer na direita católica e intervencionista, quer nas “direitas revolucionárias” (como a introdução das primeiras férias pagas na Itália de Mussolini pela Carta del Lavoro de 1927, inovação falsamente atribuída à Frente Popular francesa em 1936). Ou seja, ao contrário do que nos querem fazer crer, por táctica ou ignorância, a Esquerda não tem o monopólio da preocupação e da acção social.

A idade da reforma

Em resumo, a proposta de antecipação da idade de reforma de André Ventura não é necessariamente “de esquerda” ou uma cedência à Esquerda, como alguns críticos afirmaram ou insinuaram. O problema da proposta é a sua desadequação ao caso português e às tendências dominantes no sector de trabalho, em Portugal e na Europa.

Deixar à Esquerda o monopólio da intervenção e da justiça no trabalho, monopólio que notoriamente não lhe pertence, é desconhecer a História ou ceder ao interessado e manipulado discurso dominante.

Afinal, é hoje com o voto do que resta das classes trabalhadoras da Europa e da América do Norte, cujas lutas e direitos foram abandonados pelas esquerdas em favor de minorias mais coloridas, que os partidos da direita nacional e popular têm vindo a crescer e a ganhar eleições.

 https://observador.pt/opiniao/a-idade-da-reforma-e-o-reformism

Marta Pinho Alves - Cinema de Abril


Marta Pinho Alves

Quando chega Abril, o ci­nema e os seus cri­a­dores ex­plodem de emoção

Por­tugal. Abl. Ci­nema.

A Re­vo­lução de 1974 que ter­minou com os 48 anos de di­ta­dura fas­cista a que Por­tugal fora sub­me­tido abriu ca­minho à cri­ação cul­tural que tanto tempo havia es­tado amor­da­çada ou con­fi­nada a fron­teiras rí­gidas. No caso do ci­nema, a his­tória é bas­tante par­ti­cular e com­plexa, mas ten­ta­remos sin­te­tizar. Por­tugal co­meça o seu labor ci­ne­ma­to­grá­fico no final do sé­culo XIX, ali­nhado com o que acon­tece na Eu­ropa e nos EUA. Quando se inicia o ci­nema so­noro no nosso país, este surge já en­fi­lei­rado com o Es­tado fas­cista recém-criado e como ins­tru­mento de pro­pa­ganda. É o tempo das “co­mé­dias à por­tu­guesa” ou “co­mé­dias de Lisboa”, de que são exemplo filmes como Canção de Lisboa (José Cot­ti­nelli Telmo, 1933) ou Pátio das Can­tigas (Fran­cisco Ri­beiro, 1942), e dos filmes de­di­cados à his­tória e li­te­ra­tura na­ci­o­nais eleitas por An­tónio Ferro, tais como Amor de Per­dição (An­tónio Lopes Ri­beiro, 1943) ou Ca­mões (An­tónio Leitão de Barros, 1946). Es­go­tadas estas fór­mulas junto do pú­blico, facto que cul­minou em 1955, no cha­mado ano zero do ci­nema por­tu­guês, com a não pro­dução de ne­nhuma longa-me­tragem co­mer­cial, fruto de ini­ci­a­tivas es­ta­tais que pre­ten­diam re­a­bi­litar o in­te­resse do pú­blico pelo ci­nema feito em Por­tugal e formar pro­fis­si­o­nais, em par­ti­cular para a te­le­visão, cujo apa­re­ci­mento em Por­tugal, apesar de adiado, era cada vez mais ine­vi­tável, o ci­nema por­tu­guês é alvo de uma mu­dança sig­ni­fi­ca­tiva. Ex­pressar essas mu­danças e a re­cepção desse ci­nema numa só frase é im­pos­sível, mas talvez se possa tentar re­fe­rindo a cor­rente do Novo Ci­nema Por­tu­guês, que contém obras como Os Verdes Anos (Paulo Rocha, 1963) ou Be­lar­mino (Fer­nando Lopes, 1964), filmes que aban­donam o re­gisto épico dos filmes his­tó­rico-li­te­rá­rios ou fan­ta­siado da “co­média à por­tu­guesa”, para mos­trarem um país real, os seus ver­da­deiros ci­da­dãos e os seus de­sa­fios, an­gús­tias e im­posta imo­bi­li­dade.

Quando chega Abril, o ci­nema e os seus cri­a­dores ex­plodem de emoção como pra­ti­ca­mente todas as di­men­sões da so­ci­e­dade. É pre­ciso dizer agora aber­ta­mente o que antes não era pos­sível, é pre­ciso de­mons­trar o que antes era apenas su­ge­rido, é pre­ciso gritar a raiva do pas­sado e a pro­messa do fu­turo. “Ci­nema de Abril” é a de­sig­nação en­con­trada para o pe­ríodo, curto, em que o ci­nema se or­ga­nizou, saiu à rua, mo­bi­lizou todos com uma câ­mara na mão. Nesta época, or­ga­nizou-se um sin­di­cato de ci­nema, co­o­pe­ra­tivas, rei­vin­dicou-se mais di­nheiro para a pro­dução, o PCP criou no seio do seu Sector In­te­lec­tual uma Cé­lula de Ci­nema, de­di­cada a pro­duzir filmes sobre Abril, tudo isto tendo em vista o es­cla­re­ci­mento e a po­li­ti­zação das massas. Ler e es­crever ima­gens podia e devia ser di­reito de todos, não apenas dos já en­ten­didos e ini­ci­ados como au­tores1. Vale muito a pena re­gressar ao ci­nema pro­du­zido nesse pe­ríodo e per­ceber como foi re­latar, no mo­mento em que acon­tecia, aquele mo­mento his­tó­rico e a sua po­tência.

Para fi­na­lizar, uma nota de ac­tu­a­li­dade. O que per­ma­nece do ci­nema de Abril no ci­nema por­tu­guês? Quando evo­cámos os filmes da época é de pas­sado que fa­lamos ou também é do que somos hoje? Qual o le­gado para os filmes que fa­zemos no Por­tugal de 2026? Qual a marca dei­xada nos seus au­tores? É pos­sível não fa­larmos de Abril e con­ti­nu­armos a evocar as con­quistas de Abril? Há uma es­pe­ci­fi­ci­dade na­quilo que fre­quen­te­mente de­sig­namos como o ci­nema au­toral por­tu­guês – para o dis­tin­guir da cor­rente que afirma que o “ci­nema deve ir para o mer­cado”, estar ali­nhado com as in­dús­trias cul­tu­rais –, que o apro­xima da in­tenção da ci­ne­ma­to­grafia ini­ciada em Abril de 1974?

Ten­ta­remos, em pró­ximos textos, apro­xi­marmo-nos de uma res­posta quase im­pos­sível à per­gunta: o que é o ci­nema por­tu­guês (con­tem­po­râneo)?

1Sobre este tó­pico, ver o tra­balho vasto e di­verso dos in­ves­ti­ga­dores José Fi­lipe Costa e Paulo Cunha


https://www.avante.pt/pt/2733//183358

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Fernando Martins - Ainda a propósito da morte de Carlos Brito


 ª  Fernando Martins~

CARLOS BRITO E O COMUNICADO

Carlos Brito foi um combatente antifascista e comunista durante uma parte da sua vida, como tantos outros e outras. Depois, abjurou (sem o "eppur si muove") e tornou-se social-democrata. Traiu o seu ideário original e os camaradas que nele confiavam. Nada mais natural que o PCP louve a parte inicial do seu percurso existencial, prestando-lhe assim a merecida homenagem, e omita o resto, por respeito para com o decesso e a dor dos próximos. O resto (que incluiria hipócritas "sentidas condolências") é o habitual aproveitamento político dos anticomunistas. O combate político e a luta de classes não são disputas futebolísticas em que os adversários se podem abraçar findo o jogo. Porque o que está em jogo não é uma tabela de classificações, mas sim o futuro da humanidade, que não se compraz com rodriguinhos aristocrático-burgueses

2026 05 11
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A nota do PCP coube num parágrafo. Os comentários nas redes sociais encheram três dias. Entre um e outro, a fotografia de Carlos Brito jovem, de cravo na mão, circulou como prova, como acusação, como saudade, tudo ao mesmo tempo.

A nota era breve. Referia o antifascista, o resistente, o homem de Abril. Não havia ali afecto encenado nem absolvição de última hora. Havia distância. E a distância, como já se escreveu esta semana, não nasceu agora: tem vinte e cinco anos.

Carlos Brito rompeu com o PCP em 2000. Não se limitou a retirar-se. Fundou uma associação, defendeu aproximações ao PS, fez a sua escolha. O Partido fez a dele. Até aqui, uma história comum nas democracias normais. Em Portugal, uma ferida que reabre sempre ao primeiro toque.

Foi também por isso que regressou agora à circulação a carta publicada há anos por Miguel Carvalho na Visão. O trabalho jornalístico, diga-se, era irrepreensível. Qualquer jornalista teria feito o mesmo. O problema não está no acto de publicar. Está na reutilização da carta, um quarto de século depois, como se tivesse sido escrita ontem, como se o contexto específico da luta interna no comunismo português dos anos 90 pudesse ser apagado em nome da indignação do momento.

Lida sem histerias nem devoções, a carta mostra sobretudo um homem profundamente desiludido com o rumo do Partido. Fala de suspeição, de rigidez, de incapacidade de renovação. Matéria incómoda, sim. Mas só se incomoda verdadeiramente quem acredita que os partidos sobrevivem sem fracturas.

O que me interessa nesta polémica, no entanto, não é a nota. É uma pergunta que quase ninguém faz: e se o PCP tivesse razão em manter a frieza? Não razão sentimental. Razão política.

Num tempo em que os partidos se vendem como biografias, o líder, o salvador, o rosto, o PCP conserva uma anomalia rara: não depende de um homem só. Carlos Brito foi importante. Mas o Partido nunca foi dele. E essa característica é, ao mesmo tempo, a sua força e a sua dureza. Explica tanto as suas resistências como os seus silêncios.

Há, no fundo, algo de profundamente desconfortável na forma como a esquerda portuguesa lida com os seus mortos. Exige-se ao PCP que chore como uma família quando há vinte e cinco anos que não existem laços familiares. Exige-se calor onde houve ruptura. E, no limite, exige-se que um partido minta sobre a sua própria história para não ferir susceptibilidades externas. Não me parece sério.

Na verdade, o debate daquela época era mais fundo do que hoje se quer fazer parecer. Não se discutiam apenas estilos de liderança. Discutia-se a própria natureza do PCP após a queda da União Soviética. Havia quem defendesse uma transformação numa força eurocomunista, mais adaptada aos novos tempos, mais permeável a entendimentos governativos e mais próxima da social-democracia europeia. Carlos Brito situava-se nessa linha.

Só que a história europeia acabou por ser cruel para quase todos os partidos comunistas que seguiram esse caminho. Muitos dissolveram-se na irrelevância ou foram absorvidos pelo centrismo liberal que julgavam conseguir domesticar. O PCP, pelo contrário, manteve-se. Menor, mais envelhecido eleitoralmente. Mas vivo.

E aqui entra um dado que raramente aparece nas análises apressadas: o declínio comunista não é um fenómeno exclusivamente português, nem pode ser explicado apenas por decisões internas. A desindustrialização fragmentou comunidades de trabalho, os sindicatos perderam peso social, o individualismo tornou-se ideologia dominante e a política passou a disputar-se em territórios digitais controlados por gigantes tecnológicos que moldam emoções e indignações em tempo real.

Nesse ambiente, partidos assentes em organização militante, disciplina colectiva e trabalho de base entram inevitavelmente em desvantagem perante movimentos líquidos e algoritmos desenhados para premiar o ruído. As grandes plataformas digitais não criaram a crise dos partidos tradicionais, mas aceleraram-na brutalmente.

Talvez por isso haja qualquer coisa de paradoxal nesta polémica. Muitos dos que hoje acusam o PCP de frieza são os mesmos que, há décadas, anunciam com entusiasmo o seu desaparecimento iminente. E no entanto o Partido continua ali. Sobrevivendo a cisões, à queda do bloco soviético, à desertificação industrial, ao colapso da imprensa partidária e à era digital.

Isto não é uma defesa acrítica do PCP. O Partido tem falhas evidentes, teimosias que custam votos, uma dificuldade real em falar para quem não fala a sua língua. Mas o que realmente parece incomodar não é nenhuma dessas falhas. É o facto de o PCP insistir em permanecer de pé.

Num tempo em que as convicções duram o tempo de um scroll, uma organização que conserva disciplina, memória e uma certa teimosia institucional torna-se quase obscena.

Carlos Brito foi uma figura importante da história comunista portuguesa. Ninguém sério o negará. Mas 
o PCP reconheceu o seu papel histórico sem fingir uma proximidade política inexistente há décadas. 
Pode parecer frio. Talvez seja. Mas também há uma honestidade particular nisso.

No fim de contas, o incómodo real não está na nota de pesar. Está no que ela representa: a recusa de um 
partido em encenar sentimentos que não tem. E, mais do que isso, a recusa em desaparecer só porque o calendário eleitoral ou o tribunal das redes sociais assim o exigem. É essa teimosia que irrita. É também essa teimosia que o mantém vivo.

2026 05 12

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Ainda a propósito de C. Brito e de um comentário a post anterior

O Dicionário da Língua Portuguesa 2006, da Porto Editora, define assim o substantivo feminino “traição”: «1 crime de quem deserta para o inimigo ou passa informações para outro país; 2 infidelidade conjugal; 3 deslealdade para com um amigo ou pessoa com quem se tem algum laço de solidariedade ou outro tipo de compromisso […].»

Descontada a infidelidade conjugal e o passar de informações para outro país, que não vêm ao caso, o Carlos Brito cometeu (1) deserção para o inimigo e (3) deslealdade para com os seus camaradas, obviamente enquadráveis na designação de “amigos ou pessoas com quem se tem algum laço de solidariedade ou outro tipo de compromisso”. 

Quanto ao “laço de solidariedade”, os homens e mulheres que aderem livremente a um projecto político de construção de uma sociedade nova, sem classes, solidária, fraterna e igualitária estão unidos pelo mesmo objectivo ou compromisso, e só em conjunto, só unidos, só solidariamente (“solidário” tem que ver com “sólido”) podem aspirar à sua consecução.


É mais do que evidente que a definição de “traição” não se circunscreve ao âmbito das seitas e irmandades. Para nos cingirmos ao domínio político e ao rigor com que a traição era tratada noutra época, porque estavam em causa a segurança da organização e a vida de muitos camaradas (para além do futuro do país e do mundo), quando ocorria uma traição por parte de resistentes, durante a ocupação nazi da França, no início dos anos 40 do séc. XX, o traidor era, muitas vezes, executado.

Claro que o contexto da guerra e da ocupação não é comparável àquele em que vivemos, mas traição é traição em qualquer contexto.

A deserção para o inimigo não é menos óbvia. Para quem não conhece os princípios marxistas ou não tem consciência de classe ou se compraz em raciocínios de cariz liberal ou neoliberal dominantes no Estado burguês, este vocabulário parecerá naturalmente excessivo, agressivo ou mesmo indutor do ódio. Mas não. Não se trata disso. Trata-se, sim, da consciência de que os interesses da classe dominante são antagónicos dos interesses da classe trabalhadora e de que a história da humanidade é a história da luta de classes, como soube ver o autor dos princípios que refiro mais atrás, autor esse que, aliás, também deu uma nova dimensão à filosofia: até então, a filosofia limitava-se a explicar o mundo; o marxismo visa transformá-lo. O afastamento de CB dos princípios e da acção do seu Partido de origem e a sua aproximação aos partidos da classe dominante configuram claramente uma traição, por muito que ele tenha dito que continuava a ser comunista.

Coisas difíceis de entender por quem vê a acção política como um torneio entre equipas vermelhas, azuis, verdes, torneio esse que se disputa durante uma época e que recomeça daí a meses, com ou sem mudança de treinador e de jogadores, em função dos resultados obtidos e do capital disponível nos cofres da equipa. Ora, para os comunistas, a acção política não é um torneio; é um objectivo de vida, é a acção continuada pela concretização do projecto de transformação político-social, e este objectivo, esta busca persistente do bem comum e não da satisfação pessoal não se compadece com o divisionismo nem com alianças espúrias com o inimigo de classe, seja qual for a designação oficial da organização em causa, excepção feita de acordos pontuais, visando afastar do poder as facções mais aguerridas da classe dominante.

Para concluir:
1. Liberdade de pensamento é coisa de que os comunistas não têm falta. Acontece é que os comunistas são capazes de aceitar nem sempre terem razão naquilo que pensam, o que os leva a deixar o seu pensamento em surdina, quando isso acontece, e a junta
r-se à maioria, que pode ter uma opinião diferente.
2. “Não há machado que corte a raiz ao pensamento”, mas, pelos vistos, há machados que cortam a fidelidade a princípios e a compromissos assumidos

2026 05 13
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terça-feira, 12 de maio de 2026

Natasha Smirnoff - A MORTE DE CARLOS BRITO E O QUE REALMENTE INCOMODA NO PCP

* Natasha Smirnoff

A nota do PCP coube num parágrafo. Os comentários nas redes sociais encheram três dias. Entre um e outro, a fotografia de Carlos Brito jovem, de cravo na mão, circulou como prova, como acusação, como saudade, tudo ao mesmo tempo.

A nota era breve. Referia o antifascista, o resistente, o homem de Abril. Não havia ali afecto encenado nem absolvição de última hora. Havia distância. E a distância, como já se escreveu esta semana, não nasceu agora: tem vinte e cinco anos.

Carlos Brito rompeu com o PCP em 2000. Não se limitou a retirar-se. Fundou uma associação, defendeu aproximações ao PS, fez a sua escolha. O Partido fez a dele. Até aqui, uma história comum nas democracias normais. Em Portugal, uma ferida que reabre sempre ao primeiro toque.

Foi também por isso que regressou agora à circulação a carta publicada há anos por Miguel Carvalho na Visão. O trabalho jornalístico, diga-se, era irrepreensível. Qualquer jornalista teria feito o mesmo. O problema não está no acto de publicar. Está na reutilização da carta, um quarto de século depois, como se tivesse sido escrita ontem, como se o contexto específico da luta interna no comunismo português dos anos 90 pudesse ser apagado em nome da indignação do momento.

Lida sem histerias nem devoções, a carta mostra sobretudo um homem profundamente desiludido com o rumo do Partido. Fala de suspeição, de rigidez, de incapacidade de renovação. Matéria incómoda, sim. Mas só se incomoda verdadeiramente quem acredita que os partidos sobrevivem sem fracturas.

O que me interessa nesta polémica, no entanto, não é a nota. É uma pergunta que quase ninguém faz: e se o PCP tivesse razão em manter a frieza? Não razão sentimental. Razão política.

Num tempo em que os partidos se vendem como biografias, o líder, o salvador, o rosto, o PCP conserva uma anomalia rara: não depende de um homem só. Carlos Brito foi importante. Mas o Partido nunca foi dele. E essa característica é, ao mesmo tempo, a sua força e a sua dureza. Explica tanto as suas resistências como os seus silêncios.

Há, no fundo, algo de profundamente desconfortável na forma como a esquerda portuguesa lida com os seus mortos. Exige-se ao PCP que chore como uma família quando há vinte e cinco anos que não existem laços familiares. Exige-se calor onde houve ruptura. E, no limite, exige-se que um partido minta sobre a sua própria história para não ferir susceptibilidades externas. Não me parece sério.

Na verdade, o debate daquela época era mais fundo do que hoje se quer fazer parecer. Não se discutiam apenas estilos de liderança. Discutia-se a própria natureza do PCP após a queda da União Soviética. Havia quem defendesse uma transformação numa força eurocomunista, mais adaptada aos novos tempos, mais permeável a entendimentos governativos e mais próxima da social-democracia europeia. Carlos Brito situava-se nessa linha.

Só que a história europeia acabou por ser cruel para quase todos os partidos comunistas que seguiram esse caminho. Muitos dissolveram-se na irrelevância ou foram absorvidos pelo centrismo liberal que julgavam conseguir domesticar. O PCP, pelo contrário, manteve-se. Menor, mais envelhecido eleitoralmente. Mas vivo.

E aqui entra um dado que raramente aparece nas análises apressadas: o declínio comunista não é um fenómeno exclusivamente português, nem pode ser explicado apenas por decisões internas. A desindustrialização fragmentou comunidades de trabalho, os sindicatos perderam peso social, o individualismo tornou-se ideologia dominante e a política passou a disputar-se em territórios digitais controlados por gigantes tecnológicos que moldam emoções e indignações em tempo real.

Nesse ambiente, partidos assentes em organização militante, disciplina colectiva e trabalho de base entram inevitavelmente em desvantagem perante movimentos líquidos e algoritmos desenhados para premiar o ruído. As grandes plataformas digitais não criaram a crise dos partidos tradicionais, mas aceleraram-na brutalmente.

Talvez por isso haja qualquer coisa de paradoxal nesta polémica. Muitos dos que hoje acusam o PCP de frieza são os mesmos que, há décadas, anunciam com entusiasmo o seu desaparecimento iminente. E no entanto o Partido continua ali. Sobrevivendo a cisões, à queda do bloco soviético, à desertificação industrial, ao colapso da imprensa partidária e à era digital.

Isto não é uma defesa acrítica do PCP. O Partido tem falhas evidentes, teimosias que custam votos, uma dificuldade real em falar para quem não fala a sua língua. Mas o que realmente parece incomodar não é nenhuma dessas falhas. É o facto de o PCP insistir em permanecer de pé.

Num tempo em que as convicções duram o tempo de um scroll, uma organização que conserva disciplina, memória e uma certa teimosia institucional torna-se quase obscena.

Carlos Brito foi uma figura importante da história comunista portuguesa. Ninguém sério o negará. Mas o PCP reconheceu o seu papel histórico sem fingir uma proximidade política inexistente há décadas. Pode parecer frio. Talvez seja. Mas também há uma honestidade particular nisso.

No fim de contas, o incómodo real não está na nota de pesar. Está no que ela representa: a recusa de um partido em encenar sentimentos que não tem. E, mais do que isso, a recusa em desaparecer só porque o calendário eleitoral ou o tribunal das redes sociais assim o exigem. É essa teimosia que irrita. É também essa teimosia que o mantém vivo.

2026 05 12 

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Sófia Puschinka - Na morte de Carlos Brito

 * Sófia Puschinka :

Claro que o frustrado do Daniel tinha que escrever algo hehehehe

Não conhece mesmo o PCP esse pobre homem.

Bem… Eu pessoalmente nem entendo o sentido que ele dá à “traição” como se fosse algo bom ou desculpável.

Eu que nunca vivi em ditadura e que não sou “o PCP “ não desculpo traições, na minha vida, no quotidiano… E se até posso ignorar as traições de quem não me diz nada, até porque geralmente conto com elas à priori, jamais desculpo a traição de pessoas em quem confio e que para mim são importantes, seja um amigo, amiga ou familiar. É fim de linha, jamais volta a ser o que era, não me vingo, não refilo, não vou tirar satisfações, faço um risco, como se a pessoa já não existisse mais, desprezo completo. Ate porque, neste monte de imperfeição que eu sou, jamais trai alguém que me era querido e exijo o mesmo nível de lealdade aos meus amigos como a que tenho com eles, é carácter. É decência.

Mas adiante…. Ora para quem conhece a História do PCP sabe, ou deveria saber que o PCP não sobrevive há mais de um século com traidores e sim com pessoas leais, sabe ou deveria saber que durante a ditadura a traição colocava em causa a vida de muitos camaradas. Já não vivemos em ditadura é facto, mas o carácter dos comunistas continua igual, apesar de vivermos em democracia os comunistas continuam a resistir contra tudo e todos porque, 52 anos após o 25 de abril, continuam a ser alvo de discriminação, ódio, inveja e mais um par de botas…

É por isso que por muito que tentem deitar abaixo ou acabar com o PCP não conseguem.

O PCP é constituído por gente de carácter, os comunistas não são perfeitos mas, procuram e tentam ser o mais perfeitos possível em tudo o que fazem, colocam alma, amor, dádiva em tudo. São leais aos seus camaradas, dão a vida por eles.

Ora sempre que alguém deixa o PCP, sobretudo pessoas que tiveram relevo , fosse por terem funções de direção, por terem lutado contra a ditadura de forma heróica ou simplesmente porque eram camaradas, o que os comunistas sentem logo é uma facada no peito, uma dor lacerante, sentem-na calados, porque numa coisa o Daniel tem razão, no PCP há emoções fortes, profundas, como não haverá em nenhum outro partido, por questões óbvias, os comunistas são rijos, resistem a tudo de cabeça erguida e sem vergarem mas sabem que nunca estão sós, que há milhares de outros que os resgatam e dão a vida por eles se tal for necessário, no PCP há fraternidade, há abraços como não existem em mais nenhum partido, há amizade pura e sem interesse, há respeito e integração. Nenhum comunista o é por interesse pessoal ou ambição, os comunistas não ganham nada nem com a política nem com o Partido, muito pelo contrário, os comunistas pagam para serem comunistas, trabalham de borla, doam, e fazem-no felizes.

Mas ninguém se questiona quando lêem estes disparates como os que escreveu o Daniel e outros, que acusam o PCP de falta de democracia entre outros disparates, porque raio os comunistas são leais toda uma vida, trabalham de borla e com vontade, doam, levam porrada de todo o lado e resistem? 😄

Porque aquilo que existe no PCP é muito superior a tudo aquilo que os comuns mortais possam imaginar, alguns até percebem isso e é por isso que têm tanto ressabiamento.

O que se vive ali é pureza, altruísmo, amor, amizade, vida, resistência, luta, tudo no estado mais puro e honesto, para o bem e para o mal, algo que a maioria nem faz ideia o que é, são incapazes de serem fiéis até a eles próprios.

O que o PCP faz quando um dos seus abandona o barco é calar-se e sofrer a dor porque deixam dor, porque só não há dor quando as pessoas não são importantes e no PCP todos são importantes, todos, desde a base à direção. Nos outros partidos é normal que não sintam nada, mais um menos um aquilo é o normal, tenho dúvidas que nos outros partidos alguém confie a própria vida nos outros 😂, no PCP garanto que confiam, é gente credível e de confiança.

No caso específico de Carlos Brito, ele rompeu com as regras que ele próprio ajudou a criar, esquecendo-se que no PCP não há individualidades, não há orgulho, não ha egos, há um colectivo e decide a maioria. Desrespeitou as regras e foi suspenso como acontece noutros partidos, ficou melindrado, provavelmente foi influenciado, quando estamos sensíveis ou melindrados nem sempre devemos ouvir conselhos, mas não sei se terá sido assim, o que sei é que decidiu afastar-se, acabou por declarar que já não era leninista ou seja deixou de ser comunista, de esquerda sim mas não comunista. Qual é a dúvida? Se deixou dor ao PCP? Claro. Se o PCP reconhece o seu passado? Obviamente

Se o PCP tinha de homenagear? Não, até porque ao fazê-lo estava a chamar a si (PCP) a individualidade “Carlos Brito” e Carlos Brito já não era do PCP há mais de 20 anos.

O PCP não se aproveita de ninguém em vida muito menos na morte.

https://www.facebook.com/jose.russell