Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
sábado, 18 de julho de 2026
Raquel Varela - [Ensino, exames e pedagogia]
quinta-feira, 16 de julho de 2026
Raquel Varela - [O que não deve ser a Escola]
terça-feira, 16 de junho de 2026
«A Emília» - Livro de Leitura da 1.ª Classe (oficial e único do Minho a Timor)
No livro da 1º CLASSE antes do 25 de abril havia um texto sobre a 'Emília' que queria ser uma dona de casa- É possível aceder a esse texto?
Sim, é possível recordar e aceder a esse texto! Esse é um
dos exemplos mais citados quando se analisa o papel da mulher e a ideologia de
género transmitida através do sistema educativo durante o Estado Novo (antes do
25 de Abril de 1974).
O texto em questão pertencia ao Livro de Leitura da 1.ª
Classe (oficial e único na altura) e reflete perfeitamente o ideal da época
de que o destino primordial da mulher era a vida doméstica, o casamento e a
maternidade.
sexta-feira, 12 de junho de 2026
Daniel Oliveira - A bebedeira suicida do PSD
* Daniel Oliveira
Montenegro está
a cavar uma crise de identidade no PSD. Sim, pode matá-lo. A Europa
é um cemitério de partidos estruturantes
da democracia. E a forca foi, quase sempre, demasiado cálculo
para pouca política
11 junho 2026
Ométodo diz da
função. Em poucas semanas, o Governo multiplicou-se em chico-espertices que
sintetizam a carreira da inseparável parelha Montenegro-Soares. A votação da
lei laboral foi marcada para meio do Mundial, para facilitar a negociação com o
Chega, que está mortinho por aprová-la. Uma autorização legislativa sobre a
Prestação Social Única (PSU) retira ao Parlamento o essencial do debate,
impondo a chantagem do risco de perder €620 milhões do PRR por um prazo que o
Governo conhecia há anos. O Chega apresentou a sua proposta de revisão
constitucional, a lei dava um mês para outros o fazerem, mas Aguiar-Branco,
para permitir a negociação com o PSD, não a admitiu e criou o precedente de ser
ele a definir quando começam a contar os prazos. Votar pela calada, chantagear
com urgências fabricadas, dobrar regras que incomodam.
Quanto à
política, depois dos de baixo da imigração, chegou a vez dos de baixo da
pobreza. O padrão é excitar o ressentimento que rende. Na lei da imigração o
Governo recorreu à demagogia das “portas escancaradas” e as primeiras
consequências, segundo notícias, estão a ser a partida de imigrantes de que a
economia depende. Na PSU o alvo mudou, mas a lógica mantém-se. A ideia era,
unificando 13 prestações, simplificar o acesso, reduzir a estigmatização,
tornar o sistema mais legível. O Governo complexificou o acesso, introduziu
novas formas de exclusão e transformou a reforma num instrumento de controlo.
Num país desigual, que gasta em proteção social menos percentagem do PIB do que
a Europa, a pobreza é tratada como um vício de que se suspeita, se vigia e se
pune. Está prevista uma equipa para gerir denúncias de vizinhos sobre quem tem
carro, usa smartphone e pede apoio, nada para mais acompanhamento ou inserção.
E propõe-se trabalho social obrigatório sem qualquer estratégia de
empregabilidade. Só trabalho sem salário, sem direitos, sem contrato, sem
horizonte. Não quebra nenhuma espiral de dependência com formação e acesso a
oportunidades, apenas pune quem nela está.
A política do
ressentimento pode garantir aplausos, mas não constrói um perfil de governo
sustentável. O PSD parece acreditar que, pegando nas bandeiras mais populares
do Chega, disputa os seus eleitores. Só que as pessoas vão aprendendo a farejar
o oportunismo. Quem queria um Governo com a agenda do Chega votou no Chega. Do
PSD esperava resultados na habitação e no SNS, duas das três principais
preocupações dos portugueses, depois da corrupção, onde a imagem também não é a
melhor. A última sondagem para o Expresso exibe o equívoco de Montenegro. Os
eleitores do PSD avaliam o Chega com 2,8 em 10 — pior do que o BE e o PCP (2,9)
e muito pior do que o PS (4,5). E quando se lhes pede uma palavra para
descrever os apoiantes do Chega, 23% escolhem “ameaça extremista”, 41% usam
termos como “fascistas”, “extremistas”, “corruptos” ou “malucos”. Montenegro
está a fazer política para um eleitorado que os seus eleitores consideram uma
ameaça. Há, claro, a possibilidade de o taticismo ser ainda mais retorcido e,
depois do bruaá, recuar na PSU para ter o voto do PS, aprovar a lei laboral com
o Chega e, limitando-se a apresentar o modelo inicial da prestação, dar a ideia
de equidistância. À hora que escrevo não o sei. Sei que é sempre o mesmo:
tática, tática e mais tática.
Costa
desbaratou a maioria absoluta de 2022 porque o cálculo esteve sempre à frente
de qualquer desígnio. O resultado foi o desastre que se seguiu e uma
dificuldade do PS em recuperar os eleitores que perdeu. De tal forma que se pôs
a hipótese de o declínio ser irreversível. Montenegro está a cometer o mesmo
erro, com um taticismo ainda mais desalmado. Só que o contexto é mais instável,
o espaço político à sua direita está em rapidíssima mutação e as consequências
podem ser mais destrutivas. O problema não é apenas estar a governar mal, ao
ponto de, ao fim de dois anos, Carneiro o ter ultrapassado nas sondagens. É
estar a cavar uma crise de identidade no PSD. Conhecemos este filme noutros
países europeus: partidos de centro-direita (e até de centro-esquerda) que
tentaram competir com a extrema-direita no seu próprio terreno acabaram por
perder dos dois lados. E o esvaziamento do PSD é até mais fácil de consumar do
que o do PS: à direita há vários partidos prontos a absorver os fugitivos e o
PS pode facilmente ocupar o centro deixado vago. Ou então o cenário
alternativo, porventura mais perigoso: um Chega com eleitorado sólido e
fidelizado, enquanto PS e PSD se vão esburacando e alternando no poder. Sim,
Montenegro pode matar o PSD. A Europa é um cemitério de partidos estruturantes
da democracia. E a forca foi, quase sempre, demasiado cálculo para pouca
política.
domingo, 7 de junho de 2026
Daniel Oliveira - Pôr os de baixo na ordem
* Daniel Oliveira
Os debates
sobre imigração, apoios sociais e produtividade foram capturados por uma elite
rentista que naturaliza a desigualdade persistente, prometendo pôr na ordem os
de baixo — imigrantes, pobres e trabalhadores —, enquanto os mobiliza contra os
que estão no degrau inferior da escada classista
04 junho 2026
Aburguesia
nacional fez-se sobretudo pela captura de rendas e pela proximidade ao poder
político. À sombra do ouro do Brasil, dos monopólios coloniais, do
condicionalismo industrial, das privatizações que lhe ofereceram monopólios ou
oligopólios, de fundos europeus desbaratados, de concessões de serviços
públicos. Em cada momento histórico açambarcou valor em vez de o criar. Hoje,
assistimos ao bloqueio a qualquer regulação da transferência massiva de capital
de áreas produtivas para o imobiliário, que não arrisca ou compete. Mas o
rentismo não produziu apenas uma estrutura económica viciada e avessa à
inovação. Produziu uma cultura.
quinta-feira, 4 de junho de 2026
Jaime Nogueira Pinto - "O Fascismo nunca existiu"
Apesar do anti-parlamentarismo, do anti-comunismo e de algum folclore de “militarização da política”, nem o 28 de Maio, nem a Ditadura Militar, nem o Estado Novo foram fascistas.
04 jun. 2026,
00:24
* Jaime Nogueira Pinto
“On est toujours le fasciste de quelqu’un”, escrevia o autor de Qu’est-ce-que le fascisme?, Maurice Bardèche, esse sim, um fascista assumido. Mas há que ter algum rigor.
O regime trazido pelo movimento militar do 28 de Maio de 1926, que há uma semana fez cem anos, não foi um regime fascista. Esclareço que o meu intuito não é “branquear” (como agora se diz) o Estado Novo – que, não sendo fascista, podia até ter sido pior que o fascismo em brutalidade e violência. É só mais uma tentativa de trazer algum rigor a um espaço em que reina a confusão, ora pela má-fé dos que sabem e fazem de conta que não sabem, ora pela ignorância ou desinformação da maioria.
Depois de
1945, o adjectivo “fascista” passou a ser um insulto na linguagem política
corrente. Tanto assim foi que, na esquerda maoista e trotskista dos anos 1960,
os comunistas soviéticos passaram a “fascistas” ou a “sociais-fascistas”; e
também nunca faltaram nem faltam direitistas a chamar “fascistas” aos
esquerdistas mais radicais, incluindo aos comunistas, pensando estar, com isso,
a prestar um grande serviço à pátria.
A prova de que a esquerda continua vitoriosa na batalha das palavras é o facto de “comunista” não ter o mesmo poder de insulto, apesar de o comunismo deter o recorde das matanças políticas do século XX, com os Estalines, os Maos, os Pol Pots, os Mengistus e outras glórias e referências do comunismo internacional. Para se medir com eles em criminalidade política só mesmo Adolfo Hitler, que, de resto, encarnou uma deriva de racismo biológico alheia à “doutrina do fascismo”.
A guerra
civil europeia
Ao criar, em
Outubro de 1917, um regime que implantou a “luta de classes” e o conceito de
“inimigo do povo”, à sombra dos quais se criou na Rússia um “terror vermelho” e
consequentemente um “terror branco”, o comunismo acabou por desencadear em
muitos países europeus a supressão das instituições liberais em crise.
Foi também
para responder ao perigo comunista que, em Outubro de 1922, Mussolini e os seus
“camisas negras” fizeram a “marcha sobre Roma”, e que o Rei nomeou o “Duce” do
fascismo chefe do governo. Uma das instituições de base do fascismo, como do
comunismo, é o partido. Nos Estados ideológicos, o Partido comanda a
Administração Pública. Mussolini era chefe do governo porque era líder do
Partido Nacional Fascista, que adoptava uma ideologia económica e socialmente
revolucionária, indissociável do paganismo e da crença num mítico “homem novo”.
A infeliz entrada da Itália na guerra em 1940, pressionada pelo Partido, estava
também integrada numa cultura futurista que via a violência como força
transformadora e a guerra como “higiene do mundo”, perfilhando um nietzscheano
“viver perigosamente”.
O 28 de Maio,
a Ditadura Militar e o Estado Novo, além do que pudessem ter em comum com o
fascismo – o nacionalismo, o autoritarismo, o iliberalismo, o anticomunismo –,
eram diferentes. Eram conservadores, religiosos e o seu antiparlamentarismo não
era dogmático, mas fundado na experiência histórica da Primeira República.
Salazar era um conservador, que não gostava do “viver perigosamente” de
Nietzsche e dos fascistas; preferia, como diria a Henri Massis, o “viver
habitualmente” de alguns estoicos e da esmagadora parte do povo. Dava-se também
que o partido político-institucional de Salazar não era a União Nacional, uma
organização que, para ele, tinha só a utilidade instrumental de seleccionar,
sob sua aprovação, os candidatos à Assembleia Nacional e à presidência da
República.
O Exército
e Salazar
O partido
único e árbitro constituinte do Estado Novo não era a União Nacional, era o
Exército. Por isso o regime caiu pela mão do Exército.
A verdade é
que o regime português teve como líder um homem sem partido e que não gostava
de partidos, um académico tecnocrata cujas ideias provinham de várias raízes e
caudais, mas onde não se vislumbrava o nacionalismo revolucionário fascista,
nem o desejo, também fascista, de mobilizar as massas populares na construção
de um Estado paratotalitário e social.
O que há em
Salazar é um pessimismo antropológico augustiniano, uma visão conservadora e
crítica da História e da Vida, com uma hierarquia de valores políticos onde a
nação – e o Estado como “nação politicamente organizada” – surgem à cabeça. A
sua formação intelectual tem o seu quê de “afrancesado” – Charles Maurras,
Gustave le Bon, Maurice Barrès, Paul Bourget – e é inseparável do catolicismo
social. Mas baseia-se, acima de tudo, na experiência negativa da Primeira
República, das suas fraudes, da sua instabilidade, da sua incoerência entre os
princípios proclamados e a política praticada.
Foi esta
democracia que os militares do 28 de Maio derrubaram há um século, data que
coincidiu com a aparatosa entrada da Polícia Judiciária na sede do Partido
Socialista e na detenção de alguns dos seus distintos militantes (totalmente
alheios ao partido, dizem-nos, a não ser pelo facto de estarem nele inscritos e
de, nessa qualidade, exercerem cargos de confiança).
A cabala
Alguns
dirigentes e militantes socialistas viram na incursão policial uma provocação
fascisto-salazarista: por que outra razão teria a Judiciária escolhido o 28 de
Maio, e logo no ano do centenário do início de “uma das épocas mais negras do
nosso país”, senão para enxovalhar o Partido Socialista, ferindo-o na sua sede,
santuário anti-fascista por excelência? Só porque militantes contratavam
empresas dos seus camaradas para prestar serviços às autarquias onde estavam? E
que tinha o Partido que ver com isso?
Não, a
Judiciária viera propositadamente ao Largo do Rato com todo o aparato para
evocar Gomes da Costa a marchar sobre Lisboa para correr com os Democráticos. E
como não ver naqueles polícias PIDES, prontos a conspurcar, sem mandato
judicial, um idóneo e idoso lar de antifascistas?
E quanta
pequenez! Tanto aparato para dois milhões? O que eram dois milhões, conseguidos
em circuito fechado entre companheiros do PS, comparados com os muitos milhões
do grande Zapatero, negociados no mercado negro da alta política na China e na
Venezuela?
Aqui, onde
os verdadeiros fascistas acabaram na oposição
Há cem anos, a
maior parte dos regimes iliberais europeus, nascidos de ditaduras militares com
recurso ao “estado de excepção”, perante a disfuncionalidade do parlamentarismo
liberal e a radicalização das sociedades à esquerda e à direita, tiveram características
autoritárias e nacional-conservadoras. Mas não foram “fascistas”, como
tantas vezes são qualificados.
Esta
desclassificação não é, insisto, uma forma de tornar os regimes mais benévolos
em matéria, por exemplo, de direitos humanos. O nacional conservadorismo
húngaro do almirante Horthy foi, em termos de repressão, mais brutal do que o
fascismo mussoliniano, até à queda do Duce em Julho de 1943, ao perder a
votação no Grande Conselho Fascista. De resto, o fascismo coexistiu com a
monarquia dos Sabóia e Mussolini abandonou o poder quando o Rei o demitiu.
Além de um
certo folclore de um tempo que era, à esquerda e à direita, de “militarização
da política” – nos hinos, nas marchas, nas camisas (negras, castanhas, verdes,
azuis ou vermelhas) e nas saudações (do braço ao alto à romana ao punho
fechado) – o regime português, apesar de assentar no anti-parlamentarismo e no
anti-comunismo, não foi fascista.
Entre 1926 e 1974 houve em Portugal ditadura, censura, repressão, polícia política, anti-parlamentarismo, anti-liberalismo, anti-comunismo? Com certeza que houve. Mas houve fascismo? Não, não houve. Houve uma tentativa fascista ou fascizante, com o nacional sindicalismo de Rolão Preto. E também houve, no “regime fascista”, personalidades verdadeiramente pró-fascistas, como os capitães Henrique Galvão e Humberto Delgado. Acabaram todos na oposição.
Jaime Nogueira Pinto - O 28 de Maio de há um século
* Jaime Nogueira Pinto
Indiferentes
à agonia de uma República Democrática a que deviam muito pouco, as massas
trabalhadoras acabariam colaborar, por acção ou inacção, com os militares da
Revolução de Maio.
28 mai. 2026
Há cem anos,
deu-se em Portugal um movimento militar por iniciativa de jovens oficiais –
capitães e tenentes da guarnição militar de Braga – a que a presença e a voz do
general Gomes da Costa emprestaram respeitabilidade institucional. Gomes da
Costa foi levado de Lisboa a Braga por um grupo de militares e civis de que
faziam parte os tenentes Armando Pinto Correia e João Pereira de Carvalho e os
civis Luís Charters de Azevedo e João da Silva, que conduzia o Cadillac.
Braga era a
sede da 8ª Divisão do Exército, cujos quadros médios estavam mobilizados para
iniciar a revolução. O golpe vinha pouco mais de um ano depois da chamada
“revolta dos generais”, que acontecera em Lisboa entre 18 e 21 de Abril de
1925, uma conjura falhada em que tinham participado os generais Gomes da Costa,
ex-Comandante do Corpo Expedicionário Português (CEP), e Sinel de Cordes,
ex-Chefe de Estado-Maior do CEP na Flandres, apesar de o verdadeiro mentor e
alma da revolta ter sido o coronel Raul Esteves.
A República
jacobina
Com um record
de governos sem precedentes – 45 em 16 anos –, a Primeira República
caracterizou-se pela instabilidade e pela quantidade de golpes e confrontos
militares. Apesar de ser democrática – ou talvez por isso –, não escapou ao
monopólio mais ou menos continuado de uma facção do Partido Republicano
Português, a facção jacobina de Afonso Costa, conhecida por “os democráticos”.
Costa e os seus copiavam os radicais jacobinos franceses de Émile Combes, que
tinham encarnado a política anti-católica em 1905-1906, nacionalizando os bens
da Igreja, expulsando as congregações religiosas, usando os jornais para
apresentar a Igreja Católica e os fiéis como inimigos da Razão, da Ciência, do
Progresso e da Liberdade.
Afonso Costa e
os principais dirigentes “democráticos” perseguiram a Igreja e os monárquicos,
reprimindo, prendendo e exilando centenas de “inimigos do povo” e fixando-lhes
arbitrariamente residência nas colónias. Os jesuítas, como era da praxe,
serviram de “bode expiatório” e foram expulsos do país. Bispos e até o
cardeal-patriarca de Lisboa, D. António Mendes Belo, foram forçados ao exílio.
Mas a repressão
não se ficou pelos conservadores, os da direita. À esquerda, o movimento
sindical e os “avançados” também foram perseguidos, as greves reprimidas a tiro
pela GNR, os dirigentes enviados administrativamente para o degredo. De certa
forma, Afonso Costa e os “democráticos”, apesar do seu posicionamento bem à
esquerda, procuraram aparecer como um “centrão” entre extremos, não se
inibindo, para tal fim, de usar meios extremistas.
Por isso, além
de combaterem as incursões monárquicas de Julho de 1911 e de Julho de 1912,
enfrentaram a efémera “ditadura” de Pimenta de Castro, de Janeiro a Maio de
1915. Em Dezembro de 1917, veio o bem-sucedido golpe militar de Sidónio Pais, o
“presidente-rei” de Fernando Pessoa que, como D. Carlos, foi assassinado,
confirmando uma prática enraizada na esquerda portuguesa: o recurso a formas
superiores de luta em caso de necessidade.
A seguir ao
sidonismo veio a monarquia do Norte, contra a qual se reuniram “democráticos” e
“avançados” pela última vez. Em Outubro de 1921, depois da queda do governo de
António Granjo, deu-se a tenebrosa Noite Sangrenta (19-20 de Outubro de 1921);
a noite em que, à soviética, os guardas republicanos e os marinheiros em
revolta assassinaram republicanos conservadores ou contrários aos
“democráticos”, entre eles o próprio Granjo e o herói do 5 de Outubro, Machado
Santos.
O Zeitgeist
europeu
Dera-se,
entretanto, a revolução soviética e, por toda a Europa, o medo do comunismo
trouxe uma série de movimentos iliberais de contenção do radicalismo violento
da esquerda. A maioria destes movimentos, quer na Europa Oriental, quer em
Espanha, foram de natureza nacionalista e conservadora. A excepção foi o
fascismo italiano, que chegou ao poder em Outubro de 1922 como expressão de uma
“direita revolucionária”, corporativa, intervencionista e monopartidária. A
maioria dos movimentos autoritários, embora partilhando com os fascistas o
nacionalismo, o anti-parlamentarismo e o anticomunismo, tinham na base
militares, como Primo de Rivera em Espanha, o almirante Horthy na Hungria e o
general Pilsudski na Polónia, que ali tomou o poder em meados de Maio de 1926,
dias antes do 28 de Maio.
Em Portugal
também foi assim: o 28 de Maio partiu de Braga contra “uma minoria devassa e
tirânica” – como diria Gomes da Costa no seu manifesto à Nação. Era a classe
política, os “democráticos” que, na falta de Afonso Costa, que ficara por Paris
depois da guerra, eram dirigidos por António Maria da Silva, engenheiro de
Minas pela Escola do Exército, e dirigente da Alta Venda Carbonária,
organização secreta fundada por Luz de Almeida e muito importante no activismo
anti-monárquico.
A
tripartição fatal
Os anos finais
da República tinham sido de contínua agitação (mais de 150 greves, mais de 300
bombas em Lisboa), com três forças políticas em luta – a oposição conservadora
católica, monárquica e nacionalista, o poder republicano dos “democráticos” e a
nascente esquerda radical, os “avançados”, “vermelhos” ou “comunistas”. O
partido comunista foi fundado em 6 de Março de 1921, dois anos depois da
criação da III Internacional dos bolcheviques. Ao contrário do que acontecia em
França e em Itália, em Portugal os comunistas não vinham de uma dissidência
socialista, mas do meio anarco-socialista operário. Como escreve Pacheco
Pereira, o PCP inicial era um “partido de caixeiros, arsenalistas, funcionários
públicos, alfaiates e ferroviários”.
Mas o PCP era
então, e iria ser até ao fim da URSS, um partido obediente a Moscovo e ao
internacionalismo proletário. Assim, as notícias do progressivo centralismo
soviético e da liquidação, na Rússia, dos militantes anarquistas pela “troika”
Estaline, Zinoviev e Kamenev, da mesma forma brutal usada contra os “brancos”,
os “burgueses” e os “inimigos do povo”, levariam a uma forte desconfiança no
movimento operário português em relação aos comunistas.
De qualquer
modo, as massas trabalhadoras vão ser indiferentes à agonia da República
Democrática, o fim de um regime que piorara a situação económica do país, não
alargara, antes restringira, o sufrágio e mantivera o analfabetismo nos 70%.
Por isso, vão tolerar ou mesmo colaborar com os militares revoltados – não
houve qualquer sabotagem dos ferroviários aos comboios que transportaram os
cerca de 15.000 homens das divisões sublevadas até Sacavém para o desfile da
vitória de Gomes da Costa, do Campo Grande aos Restauradores, em 6 de Janeiro
de 1926.
O partido
(militar) do Estado Novo
É neste
acampamento de Sacavém que vão funcionar, por algum tempo, os “sovietes” de
tenentes e capitães que, numa antecipação do Movimento das Forças Armadas de
1974, dominaram a primeira fase da ditadura militar. E que vão purgando
os chefes: primeiro, Mendes Cabeçadas, o marinheiro anti-“democráticos”, herói
do 5 de Outubro; depois, Gomes da Costa, exilado para os Açores em 11 de Julho,
com a família. Vão ficar Carmona – oficial diplomata, prudente, mais de salão
do que do terreno – e Sinel de Cordes, éminence grise que,
apesar dos esforços, não vai conseguir resolver o problema central do governo:
a crise financeira.
Como em todos
os governos da direita iliberal europeia, o congelamento das instituições
parlamentares viera a par do apelo às “competências técnicas” fora da política.
Foi perante a paralisia institucional, a instabilidade do parlamentarismo e o
perigo que vinha da Eurásia bolchevique que há um século, nesses outros anos
vinte, metade da Europa recorreu à “ditadura comissarial”, em estado de
excepção.
Aqui a
diferença foi o tecnocrata das Finanças, que além das “competências técnicas”
requeridas, tinha pensamento e valores políticos e estava disposto a
aplicar-se, com inteligência, vontade e realismo, na estabilização e reforma do
país. E fê-lo num contrato implícito com o Exército, que seria o poder
constituinte do seu consulado. O Estado Novo vai ser, à sua imagem, um Estado
de ordem, nacional-conservador e autoritário, que proíbe os partidos políticos,
institui a censura prévia e mantém uma polícia política.
A esquerda
unida e o centrão querem hoje convencer-nos, em estudos orientados e filmes
encomendados e subsidiados, que o Estado Novo foi só isso: Salazar, a PIDE, a
Censura, o Tarrafal; e que as obras públicas, a segunda industrialização e a
modernização, ou não aconteceram ou foram conquistas de Abril. Que Salazar
manteve Portugal fora da Segunda Guerra Mundial e reduziu drasticamente o
analfabetismo (em 1940, pela primeira vez em Portugal, havia mais gente que
sabia ler e escrever do que analfabetos), apesar de serem factos inegáveis,
tendem a chumbar nos actuais polígrafos.
Nos anos 50 –
não porque fosse, como os primeiros republicanos, um “africanista” ou um
“colonial” –, Salazar não seguiu a vaga descolonizadora europeia. Entendia que
o império ultramarino era essencial para independência e para importância
política de Portugal. Tal levou a que o poder militar se viesse a sublevar –
primeiro numa revolta de generais, em Abril de 1961, que Salazar foi capaz de
desmontar e vencer; depois, já com o seu sucessor, numa revolta de capitães, em
Abril de 1974.
Salazar criara
um regime à sua medida, que funcionava, essencialmente, com ele e só com ele,
com a sua inteligência e, sobretudo, com a sua vontade e decisão. Um regime que
não sobreviveria nem a um tempo em que já se esvaíra a memória da “balbúrdia
sanguinolenta” que levara ao 28 de Maio, à ditadura militar e depois ao Estado
Novo, nem ao seu sucessor, a quem não faltava a inteligência, mas a quem
faltaram o tempo e o modo – a conjuntura, a vontade e a decisão.
terça-feira, 26 de maio de 2026
Há sempre personagens inevitáveis nestas reuniões políticas improvisadas da internet portuguesa.
domingo, 17 de maio de 2026
Carlos Coutinho - [Ernst Bloch e o nacional-socialismo]
quinta-feira, 14 de maio de 2026
Jaime Nogueira Pinto - A Idade da Reforma e o reformismo
* Jaime Nogueira Pinto
A proposta
de André Ventura não é necessariamente “de esquerda” ou “socialista”. Dizê-lo é
ignorar ou desprezar a existência, à direita, de toda uma tradição social e
reformista
14 mai. 2026,
A Esquerda
rejubilou perante as críticas quase unânimes, varrendo todo o espectro
político, ao líder que nem há um mês enlameava a memória do “dia inicial
inteiro e limpo” em plena “Casa da Democracia”. Como é que o inimigo número 1
da lusa “democraticidade”, o “caluniador de Abril”, se atrevia a propor que se
antecipasse a idade da reforma? Além de usurpar uma “medida de esquerda”, a
proposta era irrealizável e indesejável no actual contexto. Mais para o
centro e para o centro-direita, e também com natural júbilo, sublinhou-se,
implicitamente, o suposto monopólio da “questão social” por parte da Esquerda:
afinal Ventura e o Chega não passavam de “socialistas encobertos”.
Independentemente
da viabilidade, conveniência e oportunidade da proposta ou da reivindicação, de
resto, notoriamente inviável, inconveniente e inoportuna (a não ser que a
oportunidade fosse amalgamar governo e oposição num qualquer “todos contra
um”), há aqui muita confusão na admissão, errada de base, de que o que separa a
Esquerda e a Direita é, sobretudo, a Economia. Como que numa eterna Guerra
Fria, a Direita seria sempre pelo mercado e respectiva “mão invisível” e a
Esquerda sempre pelo Estado e respectivas preocupações sociais.
Nada mais
falso, quer em termos históricos, de História das Ideias e categorias
político-económicas, quer em relação aos actuais alinhamentos
político-partidários na Europa e na América.
Para os
conceitos de Esquerda e Direita temos a arrumação inaugural, na Assembleia
Constituinte francesa, no princípio da Revolução – os partidários do veto real
arrumaram-se à direita, os adversários à esquerda. Ou seja, nesta oposição
inicial, uns eram conservadores, outros progressistas; uns partidários da
Religião e da Monarquia tradicional, outros partidários da laicização e da
monarquia limitada.
A Questão
Social – Marx, Bismarck, Leão XIII
Na primeira
metade do século XIX, os partidários da laicização e da monarquia limitada
acabaram por vencer. Foi também nesses princípios do século XIX que despontou a
chamada questão social, com a industrialização nas grandes cidades de
Inglaterra, da futura Alemanha e de França a arrastarem centenas de milhares de
famílias, até aí rústicas, para o proletariado urbano. Foi desse proletariado
urbano, com ele e por causa dele, que nasceu a “Questão Social”. Marx e Engels,
no Manifesto Comunista, dissecaram essa realidade e apresentaram as suas
soluções.
Com o Manifesto
e a continuação da obra de Marx e Engels, foi estabelecida, então, a doutrina
socialista. Em linhas gerais, e em primeiro lugar, era uma doutrina
materialista, assente no materialismo histórico e “científico”, convicção
primeira dos redactores do Manifesto que também integravam ali o contributo de
Ludwig Feuerbach.
A ideia
primeira e principal era, pois, a de que a realidade humana era apenas a que
podia ser sentida e apreendida pelos cinco sentidos. O resto não existia. A
segunda, era a de que a Economia era senhora do mundo e condicionava tudo, da
política às artes e à vida social e cultural. A terceira, era a de que a
Economia determinava a existência de duas classes – a Burguesia e o
Proletariado. E a quarta era que essas duas classes eram inimigas irredutíveis,
num conflito de sempre, mas que tendia a agudizar-se, indicando “a marcha da
História” que, no final feliz dessa história e da História, o Proletariado
sairia vencedor da luta.
As ideias
socialistas, ao longo do século XIX, foram-se espalhando pela Europa e pelas
Américas, com maior ou menor sucesso. Além do “socialismo científico” de
Marx-Engels, havia uma colecção de socialismos utópicos. Mais tarde, surgia a
social-democracia, que recusava o lado violento da luta de classes e sustentava
a luta operária dentro das regras da democracia liberal. O raciocínio era
elementar: a luta de classes era desnecessária porque, com o alargamento do
sufrágio, a tendência seria para a vitória final das maiorias proletárias sobre
as minorias burguesas – e sem derramamento de sangue.
Mas ao mesmo
tempo que, na Esquerda política, emergiam estas correntes, surgia, no campo
cristão e católico, um pensamento social alternativo, que, em nome de ideais de
justiça e redistribuição da riqueza, combatia, também, o liberalismo
capitalista. Ideais eminentemente cristãos que, de resto, e depois de
devidamente extirpados de transcendência, eram a óbvia inspiração das utopias
materialistas da Esquerda. Veio daí o pensamento social da Igreja Católica, que
depois das preocupações de Lamennais – e, mais tarde, logo a seguir ao episódio
sangrento da Comuna de Paris (1870-1871) –, daria origem, com Albert de Mun,
Maurice Maignen e René de La Tour du Pin, aos Círculos Operários Católicos.
Também, na área
nacional conservadora, o chanceler Bismarck, na Alemanha reunificada e
industrializada, negociaria com os nascentes sindicatos e com os dirigentes
socialistas um pacto que daria origem às primeiras instituições europeias de
segurança social. Na Alemanha de Bismarck, a lei dos seguros de doença (1883),
a lei dos acidentes de trabalho (1884) e as leis sobre os seguros de velhice e
invalidez (1889) passariam a aplicar-se aos trabalhadores industriais e
agrícolas.
E em 1891, Leão XIII publicava a Encíclica Rerum Novarum, que tornava doutrina oficial da Igreja Católica o repúdio dos excessos, tanto do capitalismo liberal como do socialismo marxista, defendendo uma terceira via que aplicava conceitos éticos aos mecanismos dos mercados e instituía bases morais de legitimação da intervenção institucional para a justiça social, em liberdade e fora do socialismo.
São exemplos de
pioneirismo social, vindos da direita nacional-conservadora, na Alemanha de
Bismarck, e da direita católico-social, na França do século XIX e na Santa Sé,
com os papas sociais.
A direita
revolucionária
Outra linha de
reformismo social, com outras origens, encontramo-la na radicalidade social de
base estatal da direita revolucionária, com o fascismo italiano e o falangismo
ou nacional-sindicalismo espanhol. Do mesmo modo que promoveram políticas
intervencionistas e de nacionalismo e proteccionismo industrial, estas direitas
autoritárias deram expressão ao chamado “fascismo de sinistra” ou “fascismo de
esquerda” no mundo do trabalho, representado por Giuseppe Bottai e Ugo Spirito,
ou por escritores como Elio Vittorini que, depois da guerra civil espanhola, se
tornou antifascista. O empenho social reformista da Falange espanhola
nacional-sindicalista, fundada por José António Primo de Rivera, ficava também
bem evidente na trilogia “Patria, Pan e Justicia”.
Haveria muito mais exemplos da tradição social das direitas, quer na direita católica e intervencionista, quer nas “direitas revolucionárias” (como a introdução das primeiras férias pagas na Itália de Mussolini pela Carta del Lavoro de 1927, inovação falsamente atribuída à Frente Popular francesa em 1936). Ou seja, ao contrário do que nos querem fazer crer, por táctica ou ignorância, a Esquerda não tem o monopólio da preocupação e da acção social.
A idade da
reforma
Em resumo, a
proposta de antecipação da idade de reforma de André Ventura não é
necessariamente “de esquerda” ou uma cedência à Esquerda, como alguns críticos
afirmaram ou insinuaram. O problema da proposta é a sua desadequação ao caso
português e às tendências dominantes no sector de trabalho, em Portugal e na
Europa.
Deixar à
Esquerda o monopólio da intervenção e da justiça no trabalho, monopólio que
notoriamente não lhe pertence, é desconhecer a História ou ceder ao interessado
e manipulado discurso dominante.
Afinal, é hoje
com o voto do que resta das classes trabalhadoras da Europa e da América do
Norte, cujas lutas e direitos foram abandonados pelas esquerdas em favor de
minorias mais coloridas, que os partidos da direita nacional e popular têm
vindo a crescer e a ganhar eleições.
Marta Pinho Alves - Cinema de Abril
Quando chega Abril, o cinema e os seus criadores explodem de emoção
Portugal. Abl. Cinema.
A Revolução de 1974 que terminou com os 48 anos de ditadura fascista a que Portugal fora submetido abriu caminho à criação cultural que tanto tempo havia estado amordaçada ou confinada a fronteiras rígidas. No caso do cinema, a história é bastante particular e complexa, mas tentaremos sintetizar. Portugal começa o seu labor cinematográfico no final do século XIX, alinhado com o que acontece na Europa e nos EUA. Quando se inicia o cinema sonoro no nosso país, este surge já enfileirado com o Estado fascista recém-criado e como instrumento de propaganda. É o tempo das “comédias à portuguesa” ou “comédias de Lisboa”, de que são exemplo filmes como Canção de Lisboa (José Cottinelli Telmo, 1933) ou Pátio das Cantigas (Francisco Ribeiro, 1942), e dos filmes dedicados à história e literatura nacionais eleitas por António Ferro, tais como Amor de Perdição (António Lopes Ribeiro, 1943) ou Camões (António Leitão de Barros, 1946). Esgotadas estas fórmulas junto do público, facto que culminou em 1955, no chamado ano zero do cinema português, com a não produção de nenhuma longa-metragem comercial, fruto de iniciativas estatais que pretendiam reabilitar o interesse do público pelo cinema feito em Portugal e formar profissionais, em particular para a televisão, cujo aparecimento em Portugal, apesar de adiado, era cada vez mais inevitável, o cinema português é alvo de uma mudança significativa. Expressar essas mudanças e a recepção desse cinema numa só frase é impossível, mas talvez se possa tentar referindo a corrente do Novo Cinema Português, que contém obras como Os Verdes Anos (Paulo Rocha, 1963) ou Belarmino (Fernando Lopes, 1964), filmes que abandonam o registo épico dos filmes histórico-literários ou fantasiado da “comédia à portuguesa”, para mostrarem um país real, os seus verdadeiros cidadãos e os seus desafios, angústias e imposta imobilidade.
Quando chega Abril, o cinema e os seus criadores explodem de emoção como praticamente todas as dimensões da sociedade. É preciso dizer agora abertamente o que antes não era possível, é preciso demonstrar o que antes era apenas sugerido, é preciso gritar a raiva do passado e a promessa do futuro. “Cinema de Abril” é a designação encontrada para o período, curto, em que o cinema se organizou, saiu à rua, mobilizou todos com uma câmara na mão. Nesta época, organizou-se um sindicato de cinema, cooperativas, reivindicou-se mais dinheiro para a produção, o PCP criou no seio do seu Sector Intelectual uma Célula de Cinema, dedicada a produzir filmes sobre Abril, tudo isto tendo em vista o esclarecimento e a politização das massas. Ler e escrever imagens podia e devia ser direito de todos, não apenas dos já entendidos e iniciados como autores1. Vale muito a pena regressar ao cinema produzido nesse período e perceber como foi relatar, no momento em que acontecia, aquele momento histórico e a sua potência.
Para finalizar, uma nota de actualidade. O que permanece do cinema de Abril no cinema português? Quando evocámos os filmes da época é de passado que falamos ou também é do que somos hoje? Qual o legado para os filmes que fazemos no Portugal de 2026? Qual a marca deixada nos seus autores? É possível não falarmos de Abril e continuarmos a evocar as conquistas de Abril? Há uma especificidade naquilo que frequentemente designamos como o cinema autoral português – para o distinguir da corrente que afirma que o “cinema deve ir para o mercado”, estar alinhado com as indústrias culturais –, que o aproxima da intenção da cinematografia iniciada em Abril de 1974?


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