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quarta-feira, 17 de junho de 2026

(29) Quando i primi missionari arrivarono in Africa ...

 

2026 06 17 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - Contra o colonialismo

Este mural em Orgosolo   aborda uma perspetiva crítica sobre o colonialismo e a perda de soberania dos povos indígenas, utilizando uma citação histórica célebre.

O que está escrito?

O texto central está escrito em italiano com uma caligrafia cursiva avermelhada na parede de tom ocre:

"Quando i primi missionari arrivarono in Africa, noi avevamo la terra e loro la Bibbia. Allora chiudemmo gli occhi e pregammo. Quando li riaprimmo noi avevamo in mano la Bibbia e loro avevano la terra. (DESMOND TUTU Vescovo anglicano del Sud Africa)"

Tradução:

"Quando os primeiros missionários chegaram a África, nós tínhamos a terra e eles tinham a Bíblia. Então fechámos os olhos e rezámos. Quando os reabrimos, nós tínhamos a Bíblia na mão e eles tinham a terra. (DESMOND TUTU, Bispo anglicano da África do Sul)"

(Nota: Embora a frase seja frequentemente atribuída ao Arcebispo Desmond Tutu ou a Jomo Kenyatta, o primeiro presidente do Quénia, ela resume uma crítica partilhada sobre os métodos de subjugação colonial).

Esta frase em específico tem um percurso muito curioso: ela não pertence a um livro ou a um manifesto longo e estruturado, mas nasceu originalmente como uma parábola ou provérbio oral popular partilhado entre as comunidades africanas durante a descolonização.

Por se tratar de uma expressão da tradição oral, não existe um "texto integral" ou um documento de arquivo de onde tenha sido extraída. No entanto, ela foi popularizada mundialmente de duas formas principais:

1. A versão e o ensaio de Desmond Tutu

Embora o mural atribua a frase a Desmond Tutu, o próprio Arcebispo sul-africano explicou num ensaio biográfico posterior que esta já era uma "velha rábula" (an old saying) que os negros sul-africanos contavam quando debatiam a perda das suas terras sob o regime do Apartheid.

Tutu utilizava-a frequentemente nos seus discursos para quebrar o gelo, acrescentando-lhe um desfecho irónico e teológico:

"A storiella racconta un cattivo affare? Uno perde la propria terra in cambio di che cosa? Della Bibbia. [...] Ma io voglio affermare nella maniera più netta che non abbiamo fatto un cattivo affare: la Bibbia è un libro sovversivo. I colonizzatori ci hanno dato il libro che conteneva i semi della nostra stessa liberazione."

Tradução: "Será que a história conta um mau negócio? Perder a terra em troca de quê? Da Bíblia. [...] Mas eu quero afirmar da maneira mais clara que não fizemos um mau negócio: a Bíblia é um livro subversivo. Os colonizadores deram-nos o livro que continha as sementes da nossa própria libertação."

2. A atribuição a Jomo Kenyatta

Muitos historiadores associam originalmente a autoria desta metáfora a Jomo Kenyatta (o líder da independência do Quénia e seu primeiro presidente), que a utilizava nos seus comícios políticos na década de 1950 para ilustrar o processo de expropriação forçada sofrido pela etnia Kikuyu face aos colonos britânicos. Na sua versão, o foco era puramente a perda dos recursos:

"When the Missionaries arrived, the Africans had the land and the Missionaries had the Bible. They taught us how to pray with our eyes closed. When we opened them, they had the land and we had the Bible."

Resumo: O texto que vê no mural é, na verdade, o texto completo em si. Ele condensa em poucas linhas um aforismo anticolonial que se tornou universal e que os muralistas de Orgosolo adotaram para espelhar a sua própria desconfiança histórica em relação às forças externas que tentavam ocupar as terras da Sardenha.

O texto não faz parte de um discurso oficial longo ou de uma obra literária estruturada. É exatamente isso: a frase funciona por si só como um aforismo ou uma parábola de tradição oral.

A força dessa mensagem reside precisamente na sua capacidade de condensar uma realidade histórica complexa — o processo de colonização e a perda de soberania de um povo — numa metáfora curta, direta e de fácil memorização. Foi por ser uma tirada tão marcante e curta que se espalhou pelo mundo, sendo adotada por diferentes líderes políticos e, eventualmente, pintada nas paredes de Orgosolo como um lema universal de resistência (Google Gemini)

sábado, 6 de junho de 2026

Luís Osório - O dia em que começámos a traficar escravos

                                     

* Luís Osório 


POSTAL DO DIA
1.
Orgulho-me da nossa História.
Dos nossos heróis, mas também dos cobardes, dos que morreram anónimos, dos loucos e maquiavélicos.
Uma História, das famílias e dos países, é sempre uma soma de interesses e sentimentos contraditórios.
Fomos o primeiro país a abolir a pena de morte e o último a abandonar a escravatura.
Fomos os precursores da diplomacia moderna e o resistimos mais do que ninguém a matar o colonialismo.
2.
De todas as personagens da nossa epopeia, talvez o Infante D. Henrique seja o mais difícil de compreender – mesmo sendo um homem do seu tempo e, por isso, impossível de comparar a partir dos nossos valores e padrões.
Por um lado, o estratega que criou os alicerces da expansão e do Império. O que com engenho desenvolveu as caravelas e a moderna cartografia, o que conquistou Ceuta e dobrou o Bojador.
Por outro lado, o que sacrificou o irmão mais novo em Tânger ou o que enriqueceu à custa do tráfico de escravos instituindo a escravatura como um negócio de Estado.
3.
Só há muito pouco tempo li a Crónica dos Feitos da Guiné, de Gomes Eanes de Zurara, a sua descrição do primeiro grande desembarque em Lagos, no verão de 1444.
Dos negros a serem desempilhados da caravela.
Das grilhetas e correntes.
Dos chicotes a cortarem o corpo de mães que esperneavam para que os filhos delas não se separassem.
Dos gritos que Zurara descreve como impossíveis de esquecer.
E do Infante D. Henrique montado a cavalo a ver tudo e a ter o privilégio de ser o primeiro a escolher os pretos que levava para as suas terras e as mulheres que levava para as suas casas.
E depois a fazer as contas aos que restavam, aos que eram comprados – o Infante ganhava vinte por cento em cada venda, o seu quinto consagrado na lei.
Havia também os que não eram vendidos, os que não tinham valor, os que eram mortos e sangrados em valas comuns como animais inférteis.
4.
O Mercado de Escravos é um museu que vale a pena visitar em Lagos, a cidade portuária que foi o primeiro santuário de escravos da Europa moderna.
A face oculta dos Descobrimentos.
Passaram muitos anos, que são poucos.
Um sopro de tempo na escala humana.
Um sopro ainda menor na escala da vida no planeta.
Se experimentares ler a crónica de Zurara, e se fechares os olhos, conseguirás ouvir nitidamente os gritos daquelas mães e o Infante a trote num cavalo que não era alado.
LO

2026 06 06
https://www.facebook.com/luis.osorio.940/posts/postal-do-dia-o-dia-em-que-come%C3%A7%C3%A1mos-a-traficar-escravos1orgulho-me-da-nossa-his/27663786879891636/

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Boaventura Sousa Santos - Em Leninegrado, a pensar em Cuba e Gaza

* Boaventura Sousa Santos 

Ao longo da história, o cerco de populações foi muito utilizado como estratégia para obter a rendição das forças políticas e militares defensoras dos territórios cercados. A razão fundamental para crer na eficácia do cerco era a fome e a doença impostas à população civil. Alguns cercos duraram meses, outros duraram anos. Todos provocaram um sofrimento inaudito às populações, sobretudo às populações civis, as populações não diretamente envolvidas nos combates. Os militares e todos os funcionários de serviços de que dependiam, bem como os líderes políticos, sempre tiveram alguns privilégios.

A história sobre o êxito ou o fracasso dos cercos é fascinante. Se é verdade que muitas populações cercadas sucumbiram, em muitos outros casos resistiram e obrigaram os atacantes a retirar. Em tempos de autarcia das populações, o cerco era literal, à volta das muralhas, impedindo saídas e entradas e recorrendo muitas vezes à táctica da “terra arrasada”: queima de colheitas, abate de gado, envenenamento dos poços. Desde a era moderna, com a globalização do capitalismo e a liberalização do comércio internacional de mercadorias (e de pessoas), criaram-se tantas formas de interdependência entre os povos que novos instrumentos de encercamento foram postos à disposição dos atacantes (guetos, bloqueios, embargos, sanções, políticas anti-imigração, espaços aéreos fechados, criminalização internacional de líderes políticos, etc.). Reciprocamente, tais interdependências tornaram possíveis às populações cercadas novas táticas de resistência.

Não é objetivo deste texto analisar as virtualidades bélicas dos cercos. Centro-me exclusivamente no sofrimento humano que os cercos causam às populações civis cercadas. Para ilustrar esse sofrimento, escolho o cerco mais brutal da história contemporânea, o cerco de Leninegrado pelo exército Nazi entre Setembro de 1941 e Janeiro de 1944. Escolho-o pela sua brutalidade, mas também por ilustrar um caso de derrota do atacante, aliás, considerado ao tempo do cerco um inimigo todo poderoso. Faço-o a pensar em Cuba e na Palestina. Sobretudo tendo em mente que o mundo da comunicação social tem tido o papel nefasto de trivializar o sofrimento, mesmo quando aparentemente o dramatiza. Por esta razão, não se cria uma população mundial horrorizada e mobilizada contra o sofrimento humano injusto. Em vez disso, delega-se a má consciência a pequenos grupos de corajosos ativistas que, pela sua natureza, revelam tanto a possibilidade da resistência como a fatalidade da sua derrota.

Como me centro no sofrimento humano, socorro-me das descrições do cerco por parte daqueles que o viveram. A descrição deles e delas é mais poderosa do que qualquer análise abstrata. Entre muitas descrições, seleccionei a de Constantine Krypton (pseudónimo?) publicado em 1954 na revista Russian Review, vol 13:4, pp 255-265.[i] É uma longa citação:

O inimigo não conseguiu destruir os edifícios de pedra; conseguiu, sim, uma aniquilação terrível da vida dentro deles. A causa principal da destruição entre a população foi a fome. De acordo com o recenseamento oficial de 1939, a população de Leninegrado era de 3.191.304 habitantes. O processo de aniquilação da população começou no final do mês de Novembro de 1941. O seu sinal exterior na vida da cidade foi o aparecimento nas ruas de todo o tipo de trenós, principalmente trenós de crianças atrelados uns aos outros com cadáveres sobre eles. Mais tarde, transportavam frequentemente os mortos em trenós individuais, especialmente se fossem mais compridos. Envolviam os cadáveres em lençóis, cobertores, tapetes, sacos de todo o tipo e todo o tipo de trapos. Dia após dia, o número destes trenós aumentava, criando, num determinado período, no final de Dezembro e início de Janeiro, uma procissão interminável ao longo das ruas principais.

O processo de morte da população de Leninegrado recebeu, na linguagem médica, o nome de «distrofia». A distrofia tinha três fases. A distrofia da primeira fase caracterizava-se por um enfraquecimento geral do organismo e uma grande perda de peso. A distrofia do segundo estágio trazia ainda maior fraqueza e perda de peso, juntamente com uma série de doenças que apresentavam, em particular, os seguintes sintomas: gengivas escamosas, formigueiros na parte superior do abdómen, úlceras, inchaço, dormência, problemas de estômago e similares. Esses sintomas já estavam parcialmente presentes no primeiro estágio. Na segunda fase, as pessoas começaram, como se dizia naquela época, «a devorar os seus músculos». A distrofia da terceira fase, com duração média de duas semanas, caracterizava-se pelo colapso completo da pessoa, depois a morte. Diz-se que aqueles que passavam para a terceira fase da distrofia não podiam ser salvos. Tive a oportunidade de observar dois casos em que familiares de uma pessoa distrófica acamada obtiveram manteiga e outros alimentos nutritivos, mas era absolutamente impossível proporcionar qualquer alívio real.

As pessoas que tinham entrado no período crítico permaneciam indiferentes a tudo à sua volta, num estado de completa apatia. As pessoas caíam e morriam inesperadamente enquanto caminhavam na rua, estavam na fila, no trabalho ou em casa. Certa vez, ao chegar ao Instituto, onde nas salas frias e sem aquecimento ainda decorriam aulas com três ou quatro pessoas, fui literalmente atacado por um homem bastante baixo. A mim, na qualidade de reitor da faculdade, ele expressou com grande ênfase a sua indignação pelo facto de tão poucos estudantes comparecerem às aulas. Parece que este homem era um professor de desenho técnico, que eu ainda não tinha conhecido. No semestre seguinte, ele iria dar um curso. Quanto ao número de alunos, ele teria sete. Então eu disse-lhe: «O facto de ter sete alunos, em vez dos habituais quatro ou cinco, demonstra um progresso notável, que só pode ser explicado pelo grande interesse na sua disciplina.» Isso acalmou-o um pouco, mas, dirigindo-se ao grupo de alunos, gritou com toda a força: «Sim, mas eu quero ter 25 alunos. Quero lutar por cem por cento.» Trinta ou trinta e cinco minutos depois, uma jovem aluna veio a correr ter comigo para informar que o professor de desenho técnico estava morto.

A taxa de mortalidade era excecional entre aqueles que estavam a concluir os seus estudos. Aqui, a competição cobrou o seu preço. Essas pessoas, apesar de todos os obstáculos, queriam concluir o seu trabalho de graduação e concluí-lo bem. Sem comida, em dormitórios frios, trabalhavam teimosamente e escreviam os seus trabalhos. Não viviam muito tempo depois disso — cerca de dez a quinze dias. O esforço intelectual excessivo com o estômago vazio tinha esgotado qualquer reserva de força que eles tivessem.

Na opinião dos médicos, no início de Dezembro de 1941, uma grande percentagem da população de Leninegrado encontrava-se na segunda fase de distrofia. O mês de Dezembro foi o período de transição para a segunda fase para a grande maioria da população. As condições de vida contribuíram fortemente para isso. A distribuição de alimentos em Dezembro tornou-se totalmente insignificante. Os trabalhadores recebiam 200 gramas de pão por dia; os funcionários civis e seus dependentes, ainda menos. A ração de cereais permitia preparar sopa apenas três ou quatro vezes por semana. As batatas tinham sido distribuídas pela última vez em Setembro. O número de cartões de trabalhadores (primeira categoria), que garantiam mais pão e cereais, era estritamente limitado. Um titular de uma cátedra nas escolas superiores de um instituto recebeu esses cartões apenas em Janeiro de 1942; mas os docentes, estudantes de pós-graduação e outros tinham os cartões de funcionários civis (segunda categoria).

Os suprimentos privados pertencentes à população esgotaram-se em meados ou, no máximo, no final de Novembro. Durante esse mês, as pessoas comiam gatos na cidade. Enquanto esperava na fila pelos cartões de racionamento de Dezembro, ouvi involuntariamente a conversa de alguns estudantes. Eles tinham descoberto que a carne de gato era muito saborosa; era algo semelhante à de coelho e só havia uma coisa desagradável: matar o gato. Os gatos defendem-se desesperadamente. Mas logo deixei de ouvir tais conversas — já não havia mais gatos para matar. Em Dezembro, as pessoas começaram a comer ratazanas, ratos e pombos. A uma mulher idosa que estava a morrer, a sua jovem sobrinha trouxe meio rato que tinha conseguido apanhar e deu-lho. No entanto, a mulher moribunda e a sua sobrinha, juntamente com os seus familiares, morreram pouco tempo depois. Seguiram-se os cães.

Os músculos eram a fonte básica de vida. Os médicos recomendavam em particular que as pessoas caminhassem menos e gastassem este recurso de forma mais razoável, uma vez que não seriam capazes de o reconstruir. Em condições especiais, os trabalhadores do NKVD (Comissariado do Povo para Assuntos Internos), o pessoal do estado-maior de guerra, os principais quadros do partido e a maioria dos trabalhadores responsáveis recebiam provisões alimentares. Estas pessoas, claro, não conheciam a fome. Os membros do Partido tinham alguns privilégios. No entanto, para além de porções extra de sopa sem cartões de racionamento e de um ou dois cartões adicionais, esses privilégios não ultrapassavam a quota legal. Aqueles que tinham alguma ligação com o abastecimento, como um serviço de refeições em alguma instituição, saíam-se um pouco melhor. A alimentação de alguns membros muito necessários do pessoal técnico de engenharia era melhor. Eram obrigados a viver em instalações governamentais, onde eram alimentados em refeitórios especiais e recebiam alguma comida para levar consigo. No entanto, quando um dos engenheiros levou a mãe para partilhar a sua comida com ela, recebeu uma repreensão do director. A melhor alimentação destinava-se a garantir a sua máxima capacidade de trabalho. A mãe teve de ir directamente para casa, a fim de partilhar o destino comum da população.

No final de Novembro e início de Dezembro, os ataques aéreos alemães chegaram ao fim. Isso, ao que parecia, poderia facilitar a aplicação dos conselhos médicos sobre a economia de energia física. A população poderia dormir tranquilamente à noite; não seria necessário correr para os abrigos antiaéreos nem apagar incêndios. No entanto, em vez dos bombardeamentos que tinham esgotado as suas forças físicas, a vida assumiu algo de novo e mais árduo. Em primeiro lugar, os eléctricos tinham deixado completamente de circular na cidade. Enquanto pela calçada se movia uma sucessão de trenós com cadáveres, nas calçadas, e por vezes nas ruas, havia um grande número de pessoas a caminhar, uma vez que careciam de qualquer outro meio de transporte. Para onde quer que se fosse, era preciso ir a pé: para o trabalho, para fazer recados diversos, simplesmente para visitar as casas das pessoas vizinhas. Todos tinham de fazer um esforço colossal e gastar uma quantidade extraordinária de energia. Uma grande desgraça foi o início do frio, e mais tarde o frio extremo do Inverno, chegando a 50 graus negativos.

Todos os esforços para salvar o sistema de água foram em vão, e toda a população da cidade começou a dirigir-se às bombas próximas que ainda estavam em funcionamento. Durante muito tempo, um buraco aberto na rua por um projétil de artilharia, a oito ou dez minutos a pé da nossa casa, salvou-me. Havia sempre água ali, que as pessoas dos apartamentos próximos vinham buscar. Muitas pessoas, não tendo uma bomba na vizinhança, nem buracos na rua, tiveram de percorrer longas distâncias, por vezes até ao rio, para ir buscar água. O problema da casa de banho foi resolvido despejando tudo na neve nos quintais.

Era impossível aquecer esses quartos. Era preciso dormir vestido, vestindo todas as peças de roupa disponíveis para se manter aquecido. Devido ao frio e à falta de água, muitas pessoas deixaram completamente de se lavar. Cozinhas e quartos de hóspedes irremediavelmente gelados foram transformados em locais de armazenamento. Aqui, frequentemente, eram construídas casas de banho. Uma circunstância extremamente difícil era a completa falta de luz eléctrica. Pequenas lâmpadas fumegantes da época da guerra civil lançavam luz apenas suficiente para permitir que alguém se movimentasse pela sala.

Entretanto, em Leninegrado, no final de Dezembro e em Janeiro, a situação assumiu um carácter catastrófico. O número diário de mortos disparou para entre 25.000 e 30.000. Possivelmente, para a parte da população que estava a morrer, esta foi a transição natural para o período crítico, com as suas consequências inevitáveis. As autoridades administrativas, literalmente sobrecarregadas pelo aumento da taxa de mortalidade, deram ordens para abrir os necrotérios. Estes surgiram nos pátios das casas de Leninegrado. Era escolhido um pátio de grandes dimensões para cada sete a dez casas, dependendo do número de residentes. Era afixado um cartaz e, através do administrador do prédio, era feita uma notificação adequada. Todos podiam agora levar os seus mortos para o necrotério. Para remover os cadáveres das ruas, foram atribuídos camiões, mas estes encontravam-se frequentemente em condições insatisfatórias. Era um trabalho difícil para os carregadores de camiões. Frequentemente, no meio das suas tarefas, caíam mortos e era necessário procurar substitutos. Em média, dez ou doze camiões carregados de cadáveres passavam pela nossa rua todos os dias. Nas ruas principais, o seu número era muito maior.

Embora a maioria das pessoas, independentemente do seu sofrimento, permanecesse notavelmente controlada, ocasionalmente ouvia-se falar de algum comportamento particularmente agressivo [ii]. Em meados de Dezembro, uma conhecida minha, uma senhora idosa, cuja filha estava num campo de concentração, saiu à rua, segurando o seu amado cão pela trela. O cão estava com ela há muito tempo. Antes que a senhora se apercebesse, vários homens lançaram-se sobre ela. Alguns queriam agarrar o cão; outros tentavam arrancar-lhe a trela da mão. Todos disputavam entre si, gritando: «o cão é meu.» Nesse momento, outros transeuntes chegaram a tempo de deter os agressores e afastá-los. A velha senhora regressou, agradecida, a casa com o cão, mas, mesmo assim, três ou quatro semanas depois, acabou por comer o próprio animal.

Aconselhava-se as pessoas a andarem com cuidado nas escadas escuras de madrugada. Ocorreram casos em que, partindo do princípio de que uma pessoa ia buscar pão, alguém lhe batia na cabeça e lhe roubava os cartões de racionamento. Normalmente, era necessário ter cuidado nessas escadas escuras depois de o pão ter sido adquirido. O pão tinha de ser transportado embrulhado e escondido. Por vezes, nas filas nas instalações da loja, os rapazes aventuravam-se a roubar o pão aos donos. Esperavam pelo momento certo e, então, cravavam os dentes num pedaço de pão nas mãos de alguém, tentando morder um pedaço. Por acaso, eu próprio observei uma cena dessas. A dona do pão em que o menino tinha cravado os dentes agarrou-o com grande violência pelo pescoço e não o deixava engolir; depois, a chorar, disse que tinha um menino como ele que estava a morrer em casa. Todas estas coisas eram excessos individuais, resultando num certo aumento da ilegalidade.

É possível até falar de novos tipos de «crime». Um deles era chamado de «esconder cadáveres». Ao manter o cadáver em casa durante cerca de uma semana e ocultar a morte, algumas pessoas conseguiam acumular pão suficiente no cartão do falecido para pagar a escavação da sepultura. Outras faziam-no para ficar com o pão e outros cartões de racionamento do falecido para uso pessoal. Conservar um cadáver nos apartamentos gelados daquela época não era tarefa difícil.

Eu conhecia uma funcionária civil que conseguiu esconder a sua tia morta durante quase um mês inteiro. Mais tarde, ela lamentou não ter feito o mesmo com a sua mãe, que tinha morrido dois ou três dias antes da tia. Mais tarde ainda, ela própria morreu, e um vizinho conseguiu escondê-la também durante cinco dias. Na prática, era difícil usar os cartões de uma pessoa morta por mais de doze ou catorze dias. Além disso, apenas uma pequena percentagem da população se dedicava a esta prática. Durante a segunda quinzena de Janeiro, dizia-se que a taxa de mortalidade tinha descido para 9.000 ou 10.000 por dia. Isto pode ter-se devido ao facto de as pessoas mais fracas já terem morrido ou, possivelmente, a uma alteração na qualidade do pão racionado. Seja como for, a melhoria das condições foi de curta duração. Uma nova desgraça abateu-se sobre a cidade. As fortes geadas e o estado geral de degradação dos edifícios da cidade levaram à paralisação do trabalho nas padarias da cidade e a maior parte das lojas ficou sem pão. Em algumas lojas onde o pão chegou, formaram-se filas enormes que se mantiveram desde o início da manhã até ao fim da tarde. Multidões de pessoas, após esperarem dez ou doze horas sob temperaturas geladas, saíram de mãos vazias. A falta de pão, juntamente com a exaustão extrema causada pela espera no frio, fez com que a taxa de mortalidade disparasse de imediato para o valor anterior de 25.000 a 30.000. Algumas pessoas morreram na fila; muitas morreram nas ruas, depois de correrem desesperadamente de loja em loja para perguntar se havia alguma esperança de uma entrega de pão.

No início de 1942, ocorreram alguns acontecimentos que foram muito embaraçosos para as autoridades militares e civis da cidade. Multidões de pessoas que estavam na fila assaltaram várias padarias. Mais impactante do que a pilhagem de algumas mercearias, considerando as condições particulares da vida soviética, foi um acontecimento de significado político. Duas organizações de mulheres (Trabalhadoras da Engenharia Técnica) uniram-se e apresentaram uma petição na qual solicitavam, em nome das crianças moribundas, a rendição da cidade. Elas apontavam para a prática geral das relações internacionais e, especialmente, para o recente anúncio de que Paris seria declarada uma «cidade aberta». Se esta petição conseguiu chegar a algum representante de nível superior a Pyotr Popkov, o presidente do Soviete de Leninegrado, nunca vim a saber. Na cidade, a petição não causou grande impressão, embora muitas pessoas soubessem da sua existência. Algumas mulheres trabalhadoras do Partido chegaram mesmo a discutir o assunto comigo, apesar de eu não ser membro do Partido e, o que é mais surpreendente, não condenaram as mulheres que tinham redigido a petição.”

A brutalidade do sofrimento humano do cerco de Leninegrado – um milhão e meio de mortos – não é qualitativamente diferente dos muitos genocídios coloniais e imperiais entre o século XVI e o século XX: os vários genocídios de povos originários das Américas e de África pelos colonizadores europeus e seus descendentes, o genocídio do povo herero e nama da Namíbia pelo Império Alemão entre 1904 e1908, o genocídio do povo arménio entre 1915-1923 pelo Império Otomano, o genocídio do povo judeu pela Alemanha Nazi, o genocídio do povo tutsi pela elite hútu no Ruanda em 1994, genocídio dos bósnios muçulmanos pelas forças sérvias entre 1992 e 1995 e o genocídio do povo rohingya pelo exército e polícia de Mianmar ao longo das duas últimas décadas.

O que distingue Leninegrado é a forma-cerco levada ao extremo. A mesma forma-cerco está em curso, de modos diferentes, na Palestina e em Cuba. Apesar do seu extremismo, o cerco de Leninegrado foi repelido e estou confiante que mais tarde ou mais cedo será também repelido na Palestina e em Cuba. Para isso é fundamental a solidariedade internacional.

Se Cuba e Palestina não romperem o cerco, seremos todos nós os derrotados, acordando tarde demais para o facto de que o cerco à volta da Palestina e de Cuba está já germinando à nossa volta, multiplicando-se, qual Hidra de Lerna, graças à nossa passividade. Começa a ser tarde demais para a intervenção de Hércules!

Cuba vencerá! Palestina vencerá!

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NOTAS
[i] Trata-se da tradução reduzida de dois capítulos do livro do autor, Osada Leningrad, N. Y., Chekhov Publishing House, 1952. Esta descrição tem as suas limitações, sobretudo tendo em vista a documentação oficial e de arquivo diarista que veio a lume posteriormente. Torna a história do cerco ainda mais dramática. Consultar sobre esta bibliografia Sarah Gruszka, «L’historiographie du siège de Leningrad», Revue des études slaves, Vol. 83:1, 2012, pp. 269-281.

[ii] À luz do que escreve Gruszka, op. cit., houve muita criminalidade e alguma bem grave. É o caso de canibalismo e do comércio de carne humana. Estes crimes eram severamente punidos. A punição de crimes políticos foi igualmente severa.

24 de Maio de 2026

https://estatuadesal.com/2026/05/25/em-leninegrado-a-pensar-em-cuba-e-gaza/
https://aviagemdosargonautas.net/2026/05/24/em-leninegrado-a-pensar-em-cuba-e-gaza-por-boaventura-de-sousa-santos/
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quarta-feira, 20 de maio de 2026

Fernando Serrano - O Sr. Ventura falou...falou...falou...

* Fernando Serrano

14 de abril  de 2026

O Sr. Ventura falou...falou...falou...

Mas negou a verdade, que talvez saiba, mas não quis dizer...

Primeiro escondeu que o Povo Português deu a Salazar, seu ídolo, 13 anos para que fizesse a descolonização bem feita, e Salazar não a fez. Salazar não soube, ou não quis fazer. Salazar falhou.

Mesmo depois do desastre da Índia, não aprendeu nada. Nem ele, nem os seus sequazes.

Salazar tratou os heróis da Índia como traidores, negando-se a trazê-los para Portugal. Salazar negou os seus soldados. Salazar desprezou os filhos das Mães de Portugal. Salazar não tinha filhos. Nunca ninguém lhe chamou pai. Não tivesse sido a ONU ainda hoje ali estariam...

Puniu, humilhou, severamente, o general Vassalo e Silva e o brigadeiro António Leitão porque se negaram a sacrificar os filhos das mães de Portugal numa luta impossível de vencer.

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O Sr. Ventura mentiu quando diz que o retornados foram abandonados.

O Sr. Ventura não conhece o célebre decreto de Mário Soares que dava prioridade absoluta na colocação aos retornados que fossem funcionários públicos, e aos outros se a estes lugares que concor ressem?!

Só depois de todos os retornados terem sido colocados, os portugueses de Portugal teriam direito a concorrer. V.Exª, senhor Ventura, não tem conhecimento disto?

Os portugueses de Portugal receberam os retornados muito bem.

Tivesse sido o contrário, os portugueses de Portugal a terem de procurar refúgio em Angola ou Moçambique e a música seria bem diferente.

Basta que se saiba a forma como éramos olhados, mesmo quando estávamos ali para lhes defender os interesses...Total desprezo...Eles eram uma raça superior e nós os animais domésticos...

Não fazíamos lá falta, e só lá íamos para encher os bolsos… Diziam

eles.

O Sr. Ventura não sabe isto...Não passou por lá. O Sr. Ventura fala do que não conheceu, nem conhece.

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Uma descolonização não se faz em dois anos, nem em três, nem em quatro...

Uma descolonização bem feita teria de levar, pelo menos, mais 10 anos a fazer.

Estaria o Povo Português disposto a suportar uma guerra por mais 10 anos?

Eu não estava... 80% dos que lá fomos não estávamos. A guerra tinha que acabar.

O tempo de ser negociada a descolonização tinha passado....Salazar falhou.

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Quanto aos presos políticos.

48 anos de repressão…a PIDE ...de prisões...de mortes…Aljube...Peniche...Caxias...Tarrafal...

Catarina Eufémia- Dias Coelho- Humberto Delgado e tantos outros…

«A morte saiu à rua num dia assim...»

Comparar este tempo- 48anos - com 1ano e 6 meses...é desonesto, Sr. Ventura...Muito desonesto.

O Sr. Ventura quer destruir o 25 de Abril e baralha tudo. O Sr. Ventura quer comparar os Homens de Abril com a canalha da extrema esquerda, igual à extrema direita, que durante 18 meses lançou a desordem nesta terra. A bandalheira acabou com o 25 de Novembro, que veio restaurar a pureza de Abril, conspurcado pelos referidos grupelhos de extrema direita e extrema esquerda.

E sabe, Sr.Ventura, os autores desta miséria eram rapazotes da extrema esquerda. Sem princípios nem valores…Tal como a extrema direita que o Sr representa, e basta ver como se comporta na AR.

Após o 25 de Novembro de 1975 as coisas entraram na ordem...

Não houve mais um preso político...Hoje, posso responder ou contrariar a opinião dos políticos que me governam sem ter medo de ser preso, se o fizer com elevação. Até quando, não sei. Sabê-lo-ei no dia em que o sr.Ventura tiver poder, se ainda for vivo, espero que não, pois uma vez chega.

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O Sr. André não viveu o antes de Abril, mas eu vivi. O Sr. André não foi à guerra, mas eu fui.

O Sr André não viu camaradas morrerem, mas vi morrer dois nos meus braços.

O Sr. André não chorou de dor e de revolta, mas eu chorei de dor, de revolta, de saudade e desespero.

O Sr.André Ventura foi desonesto e Pacheco Pereira não soube acabar-lhe com o «cacarejar...

Quanto aos massacres da UPA... Sr. André Ventura, tem razão...

E o rebola a bola que a bola é cabeça de preto em Angola?

E o Napalm na Guiné?!...

E Wiryamu em Moçambique?

E os guerrilheiros mortos no momento da rendição?

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Ó senhor Ventura, deixe de falar nos antigos combatentes...

Se estamos abandonados o seu querido Salazar é culpado. Mandava-nos para a guerra e nem sequer nos assegurava o regresso...Muito menos condições de adaptação ao fim de 30 meses de guerra, à nova situação...

Um combatente eu vi que entrar no Hospital Militar num sábado, acabado de regressar, doente com doença adquirida em serviço, mas porque já tinha passado à disponibilidade ser expulso, na segunda-feira, da Medicina 3 do HMP, pelo director do mesmo.

O médico que lhe deu entrada e o enfermeiro que o recebeu foram repreendidos, porque o aceitaram...

Hoje, 50 anos depois de Abril, esse homem seria tratado com respeito e carinho em qualquer hospital militar.

Salazar foi o tal que abandonou os seus soldados.

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56 anos depois de regressar da guerra- repare que eu digo 56 anos depois de regressar da guerra onde foi severamente ferido em combate, um ex-combatente, viu ser-lhe reconhecido o direito a uma indemnização por deficiência de 34%, e vai receber uma pensão que é devida desde 1970, porque Salazar não quis saber dos estilhaços que tem espalhados por todo o corpo...Os estilhaços estão lá, provocam dores, mas não o impediam de trabalhar... logo não tinha direito a nada... Antes de Abril, não teve direitos...Depois de Abril, sim. Abril não esqueceu os antigos combatentes... Salazar, sim.

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O senhor Ventura não sabe que a dita guerra do ultramar não começou em 1961...Em 1961 recomeçou...

Não esqueça as campanhas africanas que acabaram com a prisão do Gungunhana e sobre as quais Salazar mandou fazer o célebre filme« CHAIMITE»...Para propaganda do regime, onde os maus eram os negros, que perderam sempre… Marracuene… Coolela…Magul…Macontene…Mas não foi bem assim.

Entre 1910 e 1961 houve sempre uma paz aparente. Os negros sempre que podiam acertavam-nos o passo, como dizer sói…

Em 1961 a guerra recomeçava. Desta vez os negros tinham aprendido muito e já não avançavam para o quadrado a peito descoberto. Começava uma guerra de guerrilha…Eu estive nesta guerra.

E sabe por quê? Por amar a minha Pátria, por amar a minha família, por amar a minha noiva.

Se não fosse Salazar tirava-me o direito se ser Português, proibia-me de ver a minha família, proibia-me de amar uma portuguesa. Ou ia, ou Salazar prendia-me, ou exilava-me. Salazar fazia chantagem com os jovens de Portugal.

O senhor Ventura mentiu quando disse que Salazar nunca mandou prender ninguém. Mentiu por ignorância ou por maldade?!

Salazar ordenou a Silva Pais, o patrão da PIDE-DGS, que prendesse todos os que se negassem ir pra a guerra. Não me diga que não sabia isto?! Então fique a saber…

Eu sei como as coisas se passavam, porque estive lá. Eles jogavam às escondidas connosco.

Leia...informe-se e talvez compreenda que uma guerra contra um Povo que luta ela sua liberdade, só é ganha, se se exterminar esse Povo.

Recorde-1143-1385-1640…E Junot…Soult…Massena ( o filho querido da vitória), que o digam.

Salazar enganou os nossos colonos. Prometeu-lhes aquilo que não podia dar-lhe. Garantiu-lhes que Angola, Moçambique e Guiné eram terras de Portugal e, na verdade, não eram. Eram colónias e o tempo das colónias tinha os dias contados. Bastava saber ler os ventos da História…

Diz o Povo…«Se vires as barbas do teu vizinho a arder…põe as tuas de molho.»

Espanha descolonizou…Inglaterra descolonizou…França descolonizou…Bélgica descolonizou…Holanda descolonizou…

Salazar, « O Grande »…Levou-nos ao que levou. Orgulhosamente, sós! O país mais pobre da Europa Ocidental…

Uma taxa de analfabetismo de 45%. Acesso a uma Escola Superior só para elites com dinheiro.

Mas com uma moeda fortíssima, sim. Com muito ouro nos cofres, sim. Ouro roubado aos mineiros moçambicanos da África do Sul. Sabia, Sr. Ventura?!

Um Povo Explorado até ao tutano. Os servos da gleba e duas classes de altos privilégios- Clero e Nobreza.

O Sr. Ventura sabe que a guerra acabou em 1945, mas em 1951 ainda havia racionamento em Portugal?

Salazar obrigava o Povo Português a passar fome. Salazar obrigava os Povo Português a emigrar a salto, arriscando a vida, mas depois ficava-lhe com o dinheiro que para cá mandava e servia-se desse dinheiro, não para desenvolver as regiões de onde os emigrantes eram naturais, mas para investir nas colónias.

Salazar explorava o Povo Português em favor das colónias.

Claro que não sabe? O Sr. Já nasceu depois de Abril…

Esse Abril que nos ofertou a Liberdade. Prenda que eu duvido que o senhor mereça.

Respeitosamente,

Um Português de Portugal, Patriota.

Antigo combatente que ama o seu país e a liberdade.

25 de Abril sempre… 

2026 04  14
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sábado, 14 de fevereiro de 2026

Discurso de Marco Rubio na Conferência de Segurança de Munique



* Marco Rubio

14 Fevereiro 2026

Muito obrigado. Estamos reunidos aqui hoje como membros de uma aliança histórica, uma aliança que salvou e transformou o mundo. Quando esta conferência começou em 1963, ela ocorreu em uma nação – na verdade, em um continente – que estava dividido internamente. A linha divisória entre o comunismo e a liberdade atravessava o coração da Alemanha. As primeiras cercas de arame farpado do Muro de Berlim haviam sido erguidas apenas dois anos antes. 

E apenas alguns meses antes daquela primeira conferência, antes que nossos predecessores se reunissem aqui pela primeira vez, em Munique, a Crise dos Mísseis de Cuba havia levado o mundo à beira da destruição nuclear. Mesmo enquanto a Segunda Guerra Mundial ainda viva na memória de americanos e europeus, nos vimos diante de uma nova catástrofe global – uma com potencial para um novo tipo de destruição, mais apocalíptica e definitiva do que qualquer outra antes na história da humanidade.  

Na época daquele primeiro encontro, o comunismo soviético estava em expansão. Milhares de anos da civilização ocidental estavam em jogo. Naquele momento, a vitória estava longe de ser certa. Mas éramos movidos por um propósito comum. Estávamos unidos não apenas por aquilo contra o que combatíamos, mas também por aquilo que defendíamos. E juntos, a Europa e a América prevaleceram e um continente foi reconstruído. Nossos povos prosperaram. Com o tempo, os blocos do Leste e do Oeste se reuniram. Uma civilização tornou-se novamente inteira.  

Aquele infame muro que havia dividido esta nação em duas partes caiu, e com ele um império maligno, e o Oriente e o Ocidente se tornaram um só novamente. Mas a euforia desse triunfo nos levou a uma ilusão perigosa: a de que havíamos entrado, entre aspas, “no fim da história”; que todas as nações seriam agora democracias liberais; que os laços formados pelo comércio e pelas trocas comerciais, por si só, substituiriam a nacionalidade; que a ordem global baseada em regras – um termo banalizado – substituiria o interesse nacional; e que passaríamos a viver agora em um mundo sem fronteiras, no qual todos se tornariam cidadãos do mundo.  

Essa foi uma ideia insensata que ignorou tanto a natureza humana quanto as lições de mais de 5 mil anos de história humana registrada. E isso nos custou caro. Nessa ilusão, abraçamos uma visão dogmática de comércio livre e irrestrito, mesmo enquanto algumas nações protegiam suas economias e subsidiavam suas empresas para prejudicar sistematicamente as nossas – fechando nossas fábricas, resultando na desindustrialização de grande parte de nossas sociedades, na transferência de milhões de empregos da classe trabalhadora e da classe média para o exterior e na entrega do controle de nossas cadeias de suprimentos essenciais tanto a adversários quanto a rivais. 

Cada vez mais, terceirizamos nossa soberania para instituições internacionais, enquanto muitas nações investiam em enormes estados de bem-estar social, em detrimento de manter a capacidade de se defender. Isso enquanto outros países investiram na mais rápida expansão militar de toda a história da humanidade e não hesitaram em usar a força para perseguir seus próprios interesses. Para apaziguar um culto climático, impusemos a nós mesmos políticas energéticas que estão empobrecendo nosso povo, enquanto nossos concorrentes exploram petróleo, carvão, gás natural e tudo o mais – não apenas para impulsionar suas economias, mas também para usá-las como forma de pressionar a nossa. 

E na busca por um mundo sem fronteiras, abrimos nossas portas a uma onda sem precedentes de migração em massa que ameaça a coesão de nossas sociedades, a continuidade de nossa cultura e o futuro de nosso povo. Cometemos esses erros juntos e, agora, juntos, devemos ao nosso povo encarar esses fatos e seguir em frente, para reconstruir. 

Sob a liderança do presidente Trump, os Estados Unidos da América assumirão mais uma vez a tarefa de renovação e restauração, impulsionados por uma visão de um futuro tão orgulhosa, soberana e vital quanto o passado de nossa civilização. E embora estejamos preparados, se necessário, para fazer isso sozinhos, é nossa preferência e nossa esperança fazê-lo em conjunto com vocês, nossos amigos aqui na Europa. 

Para os Estados Unidos e a Europa, pertencemos uns aos outros. Os Estados Unidos foram fundados há 250 anos, mas suas raízes começaram aqui, neste continente, muito antes. O homem que colonizou e construiu a nação onde nasci chegou em nosso território trazendo consigo as memórias, as tradições e a fé cristã de seus antepassados como uma herança sagrada, um elo indissolúvel entre o velho mundo e o novo. 

Fazemos parte de uma única civilização – a civilização ocidental. Estamos unidos pelos laços mais profundos que as nações podem compartilhar, forjados por séculos de história comum, fé cristã, cultura, herança, idioma, ancestralidade e pelos sacrifícios que nossos antepassados fizeram juntos pela civilização comum da qual somos herdeiros. 

E é por isso que nós, americanos, às vezes podemos parecer um pouco diretos e insistentes em nossos conselhos. É por isso que o presidente Trump exige seriedade e reciprocidade de nossos amigos aqui na Europa. A razão, meus amigos, é porque nos importamos profundamente. Nós nos importamos profundamente com o futuro de vocês e com o nosso. E se, por vezes, discordamos, nossas discordâncias decorrem de nossa profunda preocupação com uma Europa com a qual estamos conectados – não apenas economicamente, não apenas militarmente. Estamos conectados espiritual e culturalmente. Desejamos que a Europa seja forte. Acreditamos que a Europa deve sobreviver, porque as duas grandes guerras do século passado servem para nós como um lembrete constante da história de que, em última análise, nosso destino está e sempre estará entrelaçado com o de vocês, porque sabemos – (aplausos) – porque sabemos que o destino da Europa jamais será irrelevante para o nosso. 

Segurança nacional, tema central desta conferência, não se resume a uma série de questões técnicas – quanto gastamos em defesa ou onde, como a utilizamos, são questões importantes. Sem dúvida. Mas não são a questão fundamental. A questão fundamental que devemos responder desde o início é: o que exatamente estamos defendendo? Porque os exércitos não lutam por abstrações. Os exércitos lutam por um povo; lutam por uma nação. Exércitos lutam por um modo de vida. E é isso que estamos defendendo: uma grande civilização que tem todos os motivos para se orgulhar de sua história, estar confiante em seu futuro e almejar sempre ser dona de seu próprio destino econômico e político.  

Foi aqui na Europa que nasceram as ideias que plantaram as sementes da liberdade que transformaram o mundo. Foi aqui, na Europa, que surgiram as ideias que deram ao mundo o Estado de Direito, as universidades e a revolução científica. Foi este continente que produziu o gênio de Mozart e Beethoven, de Dante e Shakespeare, de Michelangelo e Da Vinci, dos Beatles e dos Rolling Stones. E é aqui que a abóboda da Capela Sistina e as torres imponentes da grande catedral de Colônia testemunham não apenas a grandeza de nosso passado ou a fé em Deus que inspirou essas maravilhas. Eles prenunciam as maravilhas que nos aguardam no futuro. Mas somente se não nos desculparmos pela nossa herança e nos orgulharmos dessa herança comum, poderemos juntos começar o trabalho de imaginar e moldar nosso futuro econômico e político. 

A desindustrialização não foi inevitável. Foi uma escolha política consciente, um empreendimento econômico de décadas que privou nossas nações de sua riqueza, de sua capacidade produtiva e de sua independência. E a perda de nossa soberania sobre nossas cadeias de suprimentos não foi consequência de um sistema de comércio global próspero e saudável. Foi insensata. Foi uma transformação insensata, porém voluntária, de nossa economia, que nos deixou dependentes de outros para suprir nossas necessidades e perigosamente vulneráveis a crises. 

A migração em massa não é, nunca foi, nem é uma preocupação marginal de pouca importância. Foi e continua sendo uma crise que está transformando e desestabilizando sociedades em todo o Ocidente. Juntos, podemos reindustrializar nossas economias e reconstruir nossa capacidade de defender nosso povo. Mas o trabalho dessa nova aliança não deve se concentrar apenas na cooperação militar e na recuperação das indústrias do passado. Deve também se concentrar em, juntos, promover nossos interesses mútuos e novas fronteiras, libertando nossa engenhosidade, nossa criatividade e o espírito dinâmico para construir um novo século para o Ocidente. Viagens espaciais comerciais e inteligência artificial de ponta; automação industrial e manufatura flexível; criação de uma cadeia de suprimentos ocidental para minerais críticos que não seja vulnerável à extorsão de outras potências; e um esforço unificado para competir por participação de mercado nas economias do Sul Global. Juntos, podemos não apenas retomar o controle de nossas próprias indústrias e cadeias de suprimentos, como também prosperar nas áreas que definirão o século 21. 

Mas também precisamos retomar o controle de nossas fronteiras nacionais. Controlar quem e quantas pessoas entram em nossos países não é uma expressão de xenofobia. Não é ódio. É um ato fundamental de soberania nacional. E deixar de fazê-lo não é apenas uma abdicação de um dos nossos deveres mais básicos para com o nosso povo. É uma ameaça urgente ao tecido de nossas sociedades e à própria sobrevivência de nossa civilização. 

E, finalmente, não podemos mais colocar a chamada ordem global acima dos interesses vitais de nossos povos e nações. Não precisamos abandonar o sistema de cooperação internacional que criamos, nem precisamos desmantelar as instituições globais da antiga ordem que construímos juntos. Mas elas precisam ser reformadas. Precisam ser reconstruídas. 

Por exemplo, as Nações Unidas ainda têm um enorme potencial para ser uma ferramenta para o bem no mundo. Mas não podemos ignorar que hoje, nas questões mais prementes que enfrentamos, não têm respostas e praticamente não desempenham nenhum papel. Não conseguiram resolver a guerra em Gaza. Em vez disso, foi a liderança americana que libertou prisioneiros de bárbaros e estabeleceu uma trégua frágil. Não resolveram a guerra na Ucrânia. Foram necessárias a liderança americana e a parceria com muitos dos países aqui presentes para levar os dois lados à mesa de negociações em busca de uma paz ainda difícil de alcançar.  

Os EUA foram impotentes para conter o programa nuclear de clérigos xiitas radicais em Teerã. Isso exigiu 14 bombas lançadas com precisão por bombardeiros B-2 americanos. E também foram incapazes de lidar com a ameaça à nossa segurança representada por um ditador narcoterrorista na Venezuela. Em vez disso, foi necessária a intervenção das Forças Especiais americanas para levar esse fugitivo à justiça.  

Em um mundo ideal, todos esses problemas e muitos outros seriam resolvidos por diplomatas e resoluções redigidas em termos firmes. Mas não vivemos em um mundo perfeito e não podemos continuar permitindo que aqueles que ameaçam aberta e descaradamente nossos cidadãos e colocam em risco nossa estabilidade global se escondam atrás de abstrações do Direito Internacional que eles próprios violam rotineiramente. 

Este é o caminho que o presidente Trump e os Estados Unidos trilharam. É o caminho que pedimos que vocês, aqui na Europa, se juntem a nós para percorrer. É um caminho que já percorremos juntos e que esperamos percorrer juntos novamente. Durante cinco séculos, antes do fim da Segunda Guerra Mundial, o Ocidente esteve em expansão – seus missionários, seus peregrinos, seus soldados, seus exploradores partindo de suas costas para cruzar oceanos, colonizar novos continentes, construir vastos impérios que se estendiam por todo o globo.  

Mas em 1945, pela primeira vez desde a época de Colombo, a Europa estava em retração. A Europa estava em ruínas. Metade dela vivia atrás de uma Cortina de Ferro e o resto parecia destinado a seguir o mesmo caminho. Os grandes impérios ocidentais haviam entrado em declínio terminal, acelerado por revoluções comunistas ateias e por levantes anticoloniais que transformariam o mundo e estampariam a foice e o martelo vermelhos em vastas extensões do mapa nos anos seguintes.  

Diante desse cenário, então como agora, muitos passaram a acreditar que a era de domínio do Ocidente havia chegado ao fim e que nosso futuro estava fadado a ser um eco fraco e pálido do nosso passado. Mas juntos, nossos predecessores reconheceram que o declínio era uma escolha, e uma escolha que se recusaram a fazer. Foi isso que fizemos juntos uma vez antes, e é isso que o presidente Trump e os Estados Unidos querem fazer novamente agora, junto com vocês. 

E é por isso que não queremos que nossos aliados sejam fracos, pois isso nos torna mais fracos. Queremos aliados que possam se defender, para que nenhum adversário jamais se sinta tentado a testar nossa força coletiva. É por isso que não queremos que nossos aliados estejam acorrentados pela culpa e pela vergonha. Queremos aliados que se orgulhem de sua cultura e de sua herança, que compreendam que somos herdeiros da mesma grande e nobre civilização e que, juntamente conosco, estejam dispostos e sejam capazes de defendê-la. 

E é por isso que não queremos que nossos aliados racionalizem o status quo fracassado em vez de enfrentar o que é necessário para corrigi-lo, pois nós, nos Estados Unidos, não temos interesse em sermos guardiões educados e ordeiros do declínio administrado do Ocidente. Não buscamos a separação, mas sim revitalizar uma antiga amizade e renovar a maior civilização da história da humanidade. O que queremos é uma aliança revigorada que reconheça que o que aflige nossas sociedades não é apenas um conjunto de políticas equivocadas, mas um mal-estar de desesperança e complacência. Uma aliança – a aliança que desejamos é aquela que não fica paralisada pelo medo – medo das mudanças climáticas, medo da guerra, medo da tecnologia. Em vez disso, queremos uma aliança que avance audaciosamente rumo ao futuro. E o único medo que temos é o medo da vergonha de não deixarmos nossas nações mais orgulhosas, mais fortes e mais ricas para nossos filhos. 

Uma aliança pronta para defender nosso povo, salvaguardar nossos interesses e preservar a liberdade de ação que nos permite moldar nosso próprio destino – não uma aliança que exista para operar um estado de bem-estar social global e expiar os supostos pecados das gerações passadas. Uma aliança que não permita que seu poder seja terceirizado, restringido ou subordinado a sistemas fora de seu controle; uma aliança que não dependa de outros para as necessidades essenciais de sua vida nacional; e uma aliança que não mantenha a pretensão polida de que nosso modo de vida é apenas mais um entre muitos e que peça permissão antes de agir. E, acima de tudo, uma aliança baseada no reconhecimento de que nós, o Ocidente, herdamos juntos – aquilo que herdamos juntos é algo único, distinto e insubstituível, pois essa é, afinal, a própria base do vínculo transatlântico. 

Agindo juntos dessa forma, não apenas ajudaremos a recuperar uma política externa sensata. Isso nos devolverá uma compreensão mais clara de quem somos. Restituirá a nós um lugar no mundo e, ao fazê-lo, repreenderá e dissuadirá as forças de apagamento civilizacional que hoje ameaçam tanto a América quanto a Europa.  

Então, em tempos de manchetes anunciando o fim da era transatlântica, que fique claro para todos que esse não é nosso objetivo nem nosso desejo – porque, para nós, americanos, nosso lar pode estar no Continente Americano, mas sempre seremos filhos da Europa. (Aplausos.) 

Nossa história começou com um explorador italiano cuja aventura rumo ao grande desconhecido, em busca de um novo mundo, levou o cristianismo para as Américas – e se tornou a lenda que definiu o imaginário de nossa nação pioneira. 

Nossas primeiras colônias foram construídas por colonos ingleses, aos quais devemos não apenas o idioma que falamos, mas também todo o nosso sistema político e jurídico. Nossas fronteiras foram moldadas pelos escoceses-irlandeses – aquele clã orgulhoso e aguerrido das colinas do Ulster que nos deu Davy Crockett, Mark Twain, Teddy Roosevelt e Neil Armonstrong. 

Nossa grande região central do Meio-Oeste foi construída por agricultores e artesãos alemães que transformaram planícies vazias em uma potência agrícola global – e, aliás, melhoraram drasticamente a qualidade da cerveja americana. (Risos.) 

Nossa expansão para o interior seguiu os passos de comerciantes de peles e exploradores franceses, cujos nomes, aliás, ainda adornam placas de rua e nomes de cidades por todo o Vale do Mississippi. Nossos cavalos, nossos ranchos, nossos rodeios – todo o romantismo do arquétipo do caubói que se tornou sinônimo do Oeste americano – tudo isso nasceu na Espanha. E nossa maior e mais icônica cidade se chamava Nova Amsterdã antes de se chamar Nova York. 

E vocês sabiam que, no ano em que meu país foi fundado, Lorenzo e Catalina Geroldi viviam em Casale Monferrato, no Reino do Piemonte-Sardenha? E José e Manuela Reina viviam em Sevilha, na Espanha? Não sei o que, se é que sabiam algo, eles sabiam sobre as 13 colônias que haviam conquistado sua independência do Império Britânico, mas eis de uma coisa tenho certeza: jamais poderiam imaginar que, 250 anos depois, um de seus descendentes diretos estaria de volta aqui, neste continente, como o principal diplomata daquela jovem nação. E, no entanto, aqui estou eu, lembrado pela minha própria história de que tanto nossas histórias quanto nossos destinos sempre estarão interligados. 

Juntos, reconstruímos um continente devastado após duas guerras mundiais catastróficas. Quando nos vimos novamente divididos pela Cortina de Ferro, o Ocidente livre uniu forças com os corajosos dissidentes que lutavam contra a tirania no Leste para derrotar o comunismo soviético. Lutamos uns contra os outros, depois nos reconciliamos, depois lutamos, e depois nos reconciliamos novamente. E sangramos e morremos lado a lado em campos de batalha de Kapyong a Kandahar. 

E estou aqui hoje para deixar claro que os Estados Unidos estão traçando o caminho para um novo século de prosperidade e que, mais uma vez, queremos fazer isso junto com vocês, nossos estimados aliados e nossos amigos de longa data. (Aplausos.) 

Queremos fazer isso juntos com vocês, com uma Europa orgulhosa de sua herança e de sua história; com uma Europa que tenha o espírito criador da liberdade que enviou navios a mares desconhecidos e deu origem à nossa civilização; com uma Europa que tenha os meios para se defender e a vontade de sobreviver. Devemos nos orgulhar do que conquistamos juntos no século passado, mas agora precisamos enfrentar e abraçar as oportunidades de um novo século – porque o ontem já passou, o futuro é inevitável e nosso destino juntos nos aguarda. Obrigado. (Aplausos.) 

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PERGUNTA: Sr. secretário, não tenho certeza se o senhor ouviu o suspiro de alívio que ecoou por este salão quando acabamos de ouvir o que interpreto como uma mensagem de tranquilização, de parceria. O senhor falou sobre as relações entrelaçadas entre os Estados Unidos e a Europa – isso me lembra declarações feitas décadas atrás por seus predecessores, quando a discussão era: os Estados Unidos são realmente uma potência europeia? Os Estados Unidos são uma potência na Europa? Agradeço por transmitir essa mensagem de tranquilização sobre nossa parceria.    

Na verdade, esta não é a primeira vez que Marco Rubio está aqui na Conferência de Segurança de Munique – ele já esteve aqui algumas vezes, mas é a primeira vez que ele vem como palestrante na qualidade de secretário de Estado. Então, obrigado novamente. Temos apenas alguns minutos agora para algumas perguntas e, se me permitem, coletamos algumas perguntas da plateia.  

Uma das questões-chave aqui ontem, e hoje, é, claro – e continua sendo – como lidar com a guerra na Ucrânia. Muitos de nós, nas discussões ao longo do último dia, das últimas 24 horas, expressamos a impressão de que os russos – para usar uma expressão coloquial – estão ganhando tempo, não estão realmente interessados em uma solução significativa. Não há indicação de que estejam dispostos a ceder em nenhum de seus objetivos maximalistas. Se possível, gostaria que nos apresentasse sua avaliação de onde estamos e para onde o senhor acredita que podemos ir. 

SECRETÁRIO RUBIO: Bem, acho que onde estamos neste momento é que as questões em jogo que precisam ser enfrentadas foram delimitadas. Essa é a boa notícia. A má notícia é que elas foram reduzidas às questões mais difíceis de responder, e ainda há trabalho a ser feito nesse sentido. Entendo seu ponto de vista – a resposta é que não sabemos. Não sabemos se os russos estão falando sério sobre acabar com a guerra; eles dizem que sim – e sob quais termos estariam dispostos a fazê-lo, e se podemos encontrar termos aceitáveis para a Ucrânia que a Rússia sempre aceitará. Mas vamos continuar testando isso. 

Enquanto isso, tudo o mais continua acontecendo. Os Estados Unidos impuseram sanções adicionais ao petróleo russo. Em nossas conversas com a Índia, obtivemos o compromisso deles de interromper compras adicionais de petróleo russo. A Europa tomou suas medidas para seguir em frente. O Programa PURL continua, por meio do qual armamentos americanos estão sendo vendidos para o esforço de guerra ucraniano. Portanto, tudo isso continua. Nada foi interrompido nesse ínterim. Logo, não há como ganhar tempo nesse sentido. 

O que não podemos responder – mas continuaremos a testar – é se há um desfecho com o qual a Ucrânia possa conviver e que a Rússia aceite. E eu diria que tem sido elusivo até o momento. Fizemos progresso no sentido de que, pela primeira vez, acredito que em anos, pelo menos no nível técnico, houve autoridades militares de ambos os lados que se reuniram na semana passada, e haverá novas reuniões na terça-feira, embora talvez não com o mesmo grupo de pessoas. 

Vejam, vamos continuar fazendo tudo o que pudermos para desempenhar esse papel de pôr fim a esta guerra. Não creio que alguém nesta sala seja contra uma solução negociada para esta guerra, desde que as condições sejam justas e sustentáveis. E é isso que pretendemos alcançar, e vamos continuar tentando alcançar, mesmo enquanto todas essas outras medidas continuem acontecendo na frente das sanções e assim por diante. 

PERGUNTA: Muito obrigado. Tenho certeza de que, se tivéssemos mais tempo, haveria muitas perguntas sobre a Ucrânia. Mas me permitam-me concluir com uma pergunta sobre algo completamente diferente. O próximo orador, daqui a alguns minutos, será o ministro das Relações Exteriores da China. Quando o senhor era senador, era considerado um crítico ferrenho da China. 

SECRETÁRIO RUBIO: Eles também. 

PERGUNTA: E foi mesmo? 

SECRETÁRIO RUBIO: Sim. 

PERGUNTA: Sabemos que haverá, daqui a cerca de dois meses, uma reunião de cúpula entre o presidente Trump e o presidente Xi Jinping. Quais são as suas expectativas? O senhor está otimista? Pode haver um, entre aspas, “acordo” com a China? O que o senhor espera? 

SECRETÁRIO RUBIO: Bem, eu diria o seguinte. As duas maiores economias do mundo, duas das grandes potências do planeta, temos a obrigação de nos comunicar e dialogar, assim como muitos de vocês fazem bilateralmente. Quero dizer, seria um erro geopolítico grave não manter conversas com a China. Eu diria o seguinte: como somos dois grandes países com enormes interesses globais, nossos interesses nacionais muitas vezes não estarão alinhados. Os interesses nacionais deles e os nossos não estarão alinhados, e devemos ao mundo tentar administrar isso da melhor maneira possível, obviamente evitando conflitos, tanto econômicos quanto piores. E isso – portanto, é importante para nós mantermos comunicação com eles nesse sentido. 

 Nas áreas em que nossos interesses estejam alinhados, acredito que podemos trabalhar juntos para gerar um impacto positivo no mundo, e buscamos oportunidades para isso com eles. Portanto, precisamos manter uma relação com a China. E qualquer um dos países aqui representados hoje terá de manter uma relação com a China, sempre entendendo que nada do que acordarmos pode ocorrer às custas de nosso interesse nacional. E, francamente, esperamos que a China aja em seu interesse nacional, assim como esperamos que todos os Estados-nações ajam em seu interesse nacional. E o objetivo da diplomacia é tentar navegar os momentos em que nossos interesses nacionais entram em conflito, sempre buscando fazê-lo de maneira pacífica. 

Penso que também temos uma obrigação especial, porque tudo o que acontece entre os EUA e a China em matéria de comércio tem implicações globais. Portanto, existem desafios de longo prazo que enfrentamos e que teremos de enfrentar e que serão fontes de tensão em nossa relação com a China. Isso não se aplica apenas aos Estados Unidos; aplica-se a todo o Ocidente. Mas acredito que precisamos tentar administrar isso da melhor forma possível a fim de evitar atritos desnecessários, se possível. Ninguém, no entanto, está sob ilusões. Existem alguns desafios fundamentais entre nossos países e entre o Ocidente e a China que persistirão em um futuro previsível por uma série de razões, e são algumas das questões em que esperamos trabalhar em conjunto com vocês.  

PERGUNTA: Muito obrigado, Sr. secretário. Nosso tempo se esgotou. Lamento não poder atender a todos que desejavam fazer perguntas. Sr. secretário de Estado, agradeço por esta mensagem tranquilizadora. Creio que ela foi muito bem recebida aqui no salão. Vamos oferecer uma salva de palmas. (Aplausos.) 

https://www.state.gov/translations/portuguese/secretario-de-estado-marco-rubio-na-conferencia-de-seguranca-de-munique

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Pedro Tadeu - TEMOS DE SER VASSALOS OU ESCRAVOS DE TRAMP?

🤔
Por Pedro Tadeu - Jornalista 

"Ser um vassalo feliz é uma coisa. Ser um escravo infeliz é outra coisa.” Esta frase de protesto contra o presidente norte-americano, Donald Trump, dita na segunda-feira em Davos no Forum Económico Mundial, pelo primeiro-ministro da Bélgica, Bart de Wever, desvenda, por um lado, como as elites europeias sempre aceitaram pacificamente uma subserviência com características medievais face aos Estados Unidos da América e, por outro lado, como não desejam o fim desta forma de feudalismo e aceitam ter um suserano desde que ele, magnânimo, lhes dê algumas benesses.

Durante décadas a União Europeia e o Reino Unido viveram numa condição de subserviência estratégica, disfarçada de aliança e parceria. A narrativa que nos contaram após o fim da União Soviética era a de que passava a vigorar uma “ordem internacional baseada em regras”. A União Europeia até integrou a definição no artigo 21.º do Tratado da UE, mas ligou-a ao cumprimento do direito internacional e da Carta das Nações Unidas. Contudo, essa ordem continha, desde o seu início, a semente da hegemonia norte-americana, que sempre se esteve nas tintas para a ONU.~

Tivemos assim a intervenção da NATO na Jugoslávia (1999). Esta ação não foi autorizada pelo Conselho de Segurança da ONU, a Carta da ONU. Os europeus, vassalos, aceitaram e participaram.

Tivemos a invasão do Iraque pela coligação liderada pelos EUA e pelo Reino Unido em 2003, também sem aprovação do Conselho de Segurança, baseada em justificações falsas, como a alegação de armas de destruição massiva. Os europeus, vassalos, aceitaram e participaram.

Tivemos intervenções com “mudança de regime” e uso abusivo de mandados da ONU, como foi o caso da Líbia, em 2011. Os europeus, vassalos, aceitaram e participaram.

Temos o caso do embargo a Cuba. Desde 1962, os EUA mantêm um embargo e, ano após ano, a ampla maioria dos países vota na Assembleia Geral da ONU a condenação dessa política. Os europeus, vassalos, aceitam a vontade norte-americana.

Temos casos de duplo-padrão na adesão às instituições jurídicas internacionais. Por exemplo, a Convenção da ONU sobre o Direito do Mar (UNCLOS): os EUA não ratificaram o tratado, mas invocam as suas disposições em patrulhas de “liberdade de navegação” no Mar do Sul da China.

O mesmo se passa no caso do Tribunal Penal Internacional (TPI): os EUA recusaram aderir ao Estatuto de Roma, mas apoiam o recurso ao TPI contra lideranças de países adversários.

E há o duplo-critério. Um exemplo recorrente é a relação dos EUA com Israel, que viola imensas resoluções do Conselho de Segurança e da Assembleia-Geral, mas tem uma garantia de excecionalidade que até lhe permitiu fazer um verdadeiro genocídio em Gaza.

Os europeus são cúmplices e participantes de tudo isto.

Esta subserviência política, esta aceitação de um sistema de “regras” definidas por Washington, foi consentida e alimentada durante décadas pelos europeus, muito antes de Trump decidir que quer ficar com a Gronelândia, de raptar o presidente da Venezuela, de fazer uma “ONU privada” com o seu Conselho da Paz e de querer dominar todo o continente americano. É uma “ordem internacional baseadas em regras” variáveis, como acontece desde o fim da Guerra Fria, mas agora com vítimas que se achavam donas do mundo e se vêem agora no papel de vassalos ou, pior, de escravos.~

Por mim, nem vassalagem, nem escravidão.


23 Jan 2026

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