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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

 

03/12/10

Hoje no «JN»



A Alice recorda Carlos Oliveira
Carlos de Oliveira em quadro de Mário Dionísio
Crónica de Alice Vieira, hoje no JN: - «Recordando Carlos de Oliveira - .
«Quando chega Dezembro, começamos a notar que à mesa familiar falta cada vez mais gente. "Mesa familiar" é, no fundo, a metáfora que usamos para nesta altura abraçarmos um pouco mais os amigos e ficarmos felizes só pelo facto de eles estarem ao nosso lado. Mas ao nosso lado vai havendo cada vez mais lugares vagos. A minha mesa familiar ainda não se habituou às ausências do João Aguiar, da Rosa Lobato de Faria, da Matilde Rosa Araújo, do Raul Solnado, da Mariana Rey Monteiro, todos eles ainda tão dentro de mim.
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Mas, de repente, chega-me uma terrível e inesperada saudade de alguém que há muitos anos desapareceu da minha mesa.
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Tudo por causa de um programa que a RTP2 passou, dedicado aos "Grande livros".
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Naquela noite, o livro era "Uma abelha na chuva", do Carlos de Oliveira.
É um grande romance da nossa literatura e foi bom recordarmos as imagens do filme do Fernando Lopes, e ouvir falar dele (a Laura Soveral e a sua voz incomparável...)
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Mas o que sobretudo me marcou foi o rosto do Carlos de Oliveira - aquele olhar que entrava dentro de nós e nos dizia tudo o que era preciso, aquele sorriso que me recebia sempre, quando eu chegava à sua mesa do "Monte Carlo".
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Ele e o Zé Gomes Ferreira - sempre. Depois, às vezes por lá caíam o Abelaira, o Mário Dionísio, tantos outros.
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Mas o Carlos e o Zé Gomes eram a minha âncora. E foram a minha verdadeira universidade. Eu, 20 e poucos anos, deslumbrada no convívio diário com gente que nunca pensara vir a conhecer.
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E, de repente, quando a revolução de Abril dava os seus primeiros passos, o Carlos de Oliveira morre. De um dia para o outro.
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Nunca perdoei ao destino, e acho que aquela geração mais nova que privou com ele nunca mais se recompôs.
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Fosse o que fosse que fizéssemos ou escrevêssemos, pensávamos sempre: "O que é que o Carlos dirá disto".
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Ele era o rigor, a coerência, a lucidez em estado puro.
Ele era a nossa consciência moral.
Nunca mais tivemos outra.»
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sexta-feira, 2 de julho de 2010

Arte e Poesia em Modus Vivendi

 

02 de julho de 2010

Louise Camille Fenne

LeneLouise%20Camille%20Fenne.jpg
Lene, ou um retrato contemporâneo
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O alvo invisível

Nenhuma seta atinge
O alvo invisível do amor.
Nenhum arco atinge
o meio do coração
o arqueiro ultrapassa o espaço
como a ave no seu voo
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Hélène Dorion, trad. Amélia Pais

01 de julho de 2010

Robert Henri

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Eulabee Dix, vestida para o casamento com Alfred Leroy Becker, em 1910.
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se ao menos fosse possível

(gentileza de Amélia Pais)
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se ao menos fosse possível
lembrar com mais clareza da infância
(tão longe quanto um país distante)
quando meus olhos teimavam observar
os cavalos galopando em direção ao lago
onde se banhavam e dali saíam
ainda mais brilhantes como se ungidos
se ao menos fosse possível acordar com
o barulho dos seus cascos ladeira abaixo
voltaria a me sentir próximo
das coisas que me foram ternas
e longe do fim que se aproxima rápido
como o chão ao corpo dos suicidas
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Sérgio Ornellas
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30 de junho de 2010

Granacci

granacci_jigsaw.jpg
Francesco Granacci (1469 — 1543) foi um pintor italiano da Renascença. Nasceu em Villamagna di Volterra e praticou no estúdio de Domenico Ghirlandaio. Boa escola.
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Desprazer

desenha com a ponta dos teus dedos
as fronteiras exactas do meu rosto
as rugas os sinais a cicatriz que ficou da infância
o lento sulco das lâminas onde no peito
se enterra o mistério do amor
e diz-me
o que de mim amaste noutros corpos
noutras camas noutra pele
prometo que não choro mas repete
as palavras um dia minhas que sem querer
misturaste nas tuas e levaste
com as chaves de casa e os documentos do carro
- e largaste sobre a mesa com o copo de gin a meio
na primeira madrugada em que me esqueceste
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Alice Vieira
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29 de junho de 2010

Marco Zoppo

saint-peter-marcozoppo.jpg
São Pedro, o "meu" santo especial, no dia dedicado ao príncipe dos Apóstolos e
primeiro Papa da Igreja.
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Esta festa foi instituída por volta do século IV, antes mesmo de ser definida a data actual da festa do Natal. Pedro era um pescador e o seu nome originalmente era Simão, filho de Jonas e irmão de André. Mas Jesus mudou-lhe o nome para Pedro, que significa pedra, pois ele seria a rocha forte sobre a qual edificaria a sua Igreja. Por isso se diz que foi o primeiro Papa da Igreja Católica Apostólica Romana.
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Retrato de Mulher Triste

Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.
Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.
Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.
Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.
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Cecília Meireles
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28 de junho de 2010

Andy Ameral

ValentinaAndy%20Ameral.jpg
Valentina, ou um ar amuado
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sábado, 19 de dezembro de 2009

O Psicólogo - Alice Vieira

 

O psicólogo

O psicólogo

Jornal de Notícias - 2009-10-24

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Há muito tempo que não via a Lurdes, minha antiga colega de faculdade. Daí a gargalhada de ambas quando esbarrámos no café, e lá abancámos diante de uma bica, a pôr a vida em dia. Saltaram as fotografias da carteira, e o relato fatal das gracinhas infantis.
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É então que ela me diz, apontando para a cara risonha do seu neto de três anos, "este até já anda no psicólogo". Eu fiquei sem saber o que dizer, tanto mais que a Lurdes falara com um indisfarçável orgulho na voz, assim como se dissesse, "este já anda no judo e é cinturão negro".
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Que eu soubesse não tinha havido revolução de maior na vida da criança, nem pais separados, nem um novo irmão, nem nenhum morto, mas a Lurdes, com um sorriso condescendente, lá explicou que o recurso ao psicólogo se devia ao facto de a criança ir entrar agora pela primeira vez para a escola infantil: "Eventualmente poderá haver um problema de rejeição da escola, e é preciso tratar." Ainda perguntei por que não eram os pais a ocupar-se disso - mas logo a Lurdes disse que nem pensar, porque os pais não tinham "preparação técnica".
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E pronto. Lá vai a criança, de três anos de idade, todas as semanas ao psicólogo, que a ajuda a resolver um problema que muito possivelmente ela nem nunca terá. Ou seja: que lhe dirá (espero…) aquilo que nós todos dizemos às nossas crianças em alturas semelhantes: vais gostar muito de brincar com os outros meninos, vais aprender muitos jogos, e muitas cantigas, etc.,etc…
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Mas hoje os pais já quase não sabem falar ou brincar com as crianças. Pensam que brincar é uma coisa que só se faz diante de um ecrã. Brincar com uma criança é, cada vez mais, pô-las a ver televisão, ou atirar-lhes com um computador para que fiquem horas a fazer jogos.
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E não há nada mais triste do que uma pessoa que não sabe conversar nem brincar com uma criança.
Uma pessoa que olha para uma criança como se ela fosse um país estrangeiro. Um país inimigo.
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Por isso, despeço-me da Lurdes e chego a casa estupidamente cheia de saudades da minha mesa da casa de jantar, que range mal se lhe toca, que tem a tábua do meio partida e as pernas desengonçadas - mas que os meus filhos me proíbem de substituir, porque foi nela que o pai os ensinou a jogar ping-pong; e nem me importo com os buracos ainda visíveis na parede ao fundo do corredor, do tempo em que lá estava pregado um cesto de basquete onde todos exercitavam a pontaria; e lembro a choradeira que foi no dia em que decidimos lavar a parede do quarto do meu filho (o rapaz já tinha entrado na faculdade!) onde ele e o pai escreviam todas as coisas que queriam dizer um ao outro e às vezes não tinham coragem.
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E nunca sequer nos passou pela cabeça saber se tínhamos ou não preparação técnica.
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A vacina - Alice Vieira

 

A vacina

A vacina

Jornal de Notícias - 2009-11-07

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O meu amigo António acaba de receber uma carta avisando-o de que, a partir do dia tal, deverá ir ao centro de saúde, das tantas às tantas, para lhe ser administrada a dose da vacina a que tem direito.
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O meu amigo António é mais novo do que eu, professor recentemente reformado. Solteiro e sem filhos, vive sozinho lá no seu casarão numa pequena cidade dos arredores de Lisboa, entre quadros, livros e música. O meu amigo António não é obeso, não tem asma, não tem nenhuma doença crónica, não sofre de coisa nenhuma em especial e, evidentemente, não está grávido.
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O meu amigo António não guia táxi, não é deputado, não atende ao balcão, e não pratica enfermagem nos tempos livres. Além disso, o meu amigo António teve a asiática em pequenino ("foi uma festa, fecharam as escolas todas!") e parece que isso garante uma certa imunidade à gripe A.
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O meu amigo António olhou para a carta, leu-a e releu-a, e de repente começou a sentir-se mal. Muito mal mesmo. Porque, sendo uma pessoa absolutamente saudável, o meu amigo António sofre de uma doença absolutamente incurável: é hipocondríaco em altíssimo grau.
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E neste momento anda a incomodar meio mundo (médico de família, médicos da urgência a que costuma recorrer, família, amigos chegados, meio chegados, afastados, afastadíssimos, vagamente conhecidos) para que lhe digam a verdade. Ou seja: ele deve estar muito mal e não sabe. Ele deve estar em risco de patinar e toda a gente lhe anda a esconder o seu estado.
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"Ó doutor, o doutor já me conhece, eu aguento, juro que aguento, mas não me esconda nada! Se os serviços de saúde me convocaram - e olhe aqui, não há dúvida, é o meu nome todo… - é porque devem saber mais do que eu… Diga-me lá, doutor: é grave?"
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O pobre do médico já lhe disse quinhentas vezes que ele não tem nada, está em óptimas condições de saúde, até a tensão é a de um jovem, nem colesterol alto, nada de nada. Mas ele não se conforma: se os serviços de saúde o chamaram, é porque é prioritário; se é prioritário é porque alguma coisa de mal deve ter…
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De vez em quando telefona-me e, em voz cava, pergunta: "Já te chamaram?" E eu vou sempre dizendo que não, mas ele que não perca a esperança, um dia destes se calhar lembram-se de que tive hepatite C há 50 anos, e um cancro já lá vão mais de 20 - e também me consideram prioritária.
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Mas ontem o António telefonou muito mais animado. Assim como se lhe tivessem tirado um peso de cima. É que segundo leu nos jornais, parece que os centros de saúde lá da cidade dele receberam doses da vacina que nunca mais acabam, e por isso vai ser tudo vacinado a eito. Respirou ele fundo e respirámos nós. A vacina pode vir a ser-lhe muito eficaz a prevenir a gripe, mas ia-o matando de coração.
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O que vale a pena - Alice Vieira

 

O que vale a pena

O que vale a pena

Jornal de Notícias - 2009-11-21

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Não sou daqueles que andam sempre a rir - até porque, como diz Millor Fernandes, quem anda sempre a rir ou é tolo ou tem a dentadura mal ajustada. Mas também me aborrecem muito os que passam a vida a chorar, a queixar-se, a lastimar-se, os que vêem sempre o copo meio vazio, e têm um discurso onde repetem, à exaustão, "só neste país é que…" Pelo que dizem jornais e televisões, parece que realmente nestes últimos tempos não temos tido motivo para grandes alegrias…
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Mas se calhar os jornais e as televisões não dizem tudo. Porque a verdade é que, apesar de tudo, "este país" já tem muita coisa de que se devia orgulhar, não fosse o caso de sermos irremediavelmente mais propensos à pateada do que às palmas. Há dias, vinha no avião do Funchal para Lisboa a ler a revista da TAP. E, pelo meio de vários artigos mais ou menos turísticos, descubro um artigo do prof. Alexandre Quintanilha sobre o estado actual da investigação científica no nosso país. E, para meu grande espanto, ele não se lastimava de falta de apoio, não pedia subsídios, nem fazia o choradinho do "tão pobrezinhos que nós somos".
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No artigo, o prof. Quintanilha dizia que já era compensador fazer investigação científica no nosso país e que muitos jovens cientistas tinham decidido trabalhar cá e estavam a desenvolver trabalhos de grande importância em laboratórios, universidades e centros de investigação portugueses. Eu bem sei que uma revista que se faz para ser lida enquanto o pessoal anda pelo ar tem de ser uma revista optimista. Mas também sei que o prof. Quintanilha não é nem um "entertainer" nem membro do Governo a puxar a brasa à sua sardinha - e portanto sabe muito bem do que fala. De resto, pouco depois chegava a notícia de que a jovem cientista portuguesa Mónica Bettencourt Dias, a trabalhar no Instituto Gulbenkian de Ciência, tinha sido incluída, pela Organização Europeia de Biologia Molecular, na lista dos mais talentosos jovens cientistas da Europa. (E acrescente-se que já tinha sido, em anos anteriores, distinguida internacionalmente pelas suas pesquisas, que podem levar a novos métodos de diagnóstico e combate ao cancro). E o que se passa na área científica passa-se noutras áreas. É notável o trabalho actual de muitos jovens músicos, compositores e intérpretes - que, infelizmente, não são divulgados pela televisão nem têm direito a grande espaço nos jornais. Mas existem. E estão a trabalhar muito bem. E, se não há condições, eles inventam-nas.
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Tenho a certeza de que se as pessoas entendessem que há vida para lá da chicana política e do futebol, vendia-se muito menos Prozac e os consultórios dos psiquiatras não estavam tão cheios.
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Orquídeas... - Alíce Vieira

 

Orquídeas...

Orquídeas...

Jornal de Notícias - 2009-12-05

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Com tanta gritaria que vai por aí - ouviu ou não ouviu, foi ou não foi escutado, roubou ou não roubou, foram milhares de euros ou uns trocaditos para o parquímetro, a vacina mata ou a vacina salva - eu hoje decidi fechar para férias.
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Isto é: decidi impermeabilizar ouvidos e olhos a todo o arraial que vai lá por fora, e ficar a olhar para as minhas orquídeas. Qual Nero Wolf de S.Sebastião da Pedreira. Claro que hoje já ninguém sabe quem era Nero Wolf. Os ingénuos romances policiais, de detectives a escorrer brilhantina com secretárias a escorrer Chanel n.º5, foram à vida. Mesmo os que se consideravam "negros" são hoje cor-de-rosa claro, comparados com todas as séries do género que a televisão mostra. E, sem o cigarro na ponta dos dedos, os "private-eyes" e as mulheres-fatais ficaram, definitivamente, desempregados, porque toda a gente sabia que era daquelas baforadas de fumo que havia de sair a resolução do problema (no primeiro caso) e a ida para a cama (no segundo).
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Mas Nero Wolf (criado por Rex Stout) nem sequer se encaixa muito nessa categoria, nem é sequer das minhas personagens preferidas, com os seus mastodônticos 130 quilos, bebedor compulsivo de cerveja, de uma inteligência fora do normal e vaidoso dela ("não sou Deus, sou apenas um génio"), sempre metido em casa, e resolvendo os casos depois de o seu assistente lhe ter feito o trabalhinho todo.
A espécie humana interessava-lhe muito pouco, mas amava, apaixonadamente, orquídeas. Milhares de orquídeas povoavam-lhe o telhado e a vida. De um pé de orquídea nasciam logo mais dez ou 20. E é só por causa das orquídeas que eu hoje me lembrei do Nero Wolf.
Por causa da minha orquídea que, se calhar, é descendente de alguma das que ele teria cuidado nas suas estufas. Porque a minha orquídea não pára de florescer.
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Devo dizer que, por ser muito quente no Verão e muito fria no Inverno, a minha casa não é propícia à criação de flores. Todas as plantas que procuro trazer para dar um ar mais verde ao ambiente, passado umas semanas já estão a entregar a sua alma vegetal ao criador.
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Todas - menos a minha orquídea.
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Foi o meu amigo António, o meu habitual "fornecedor" de flores, que ma ofereceu há uns anos. E sem nenhum cuidado especial, a minha orquídea não pára de se reproduzir. Todos os anos tenho orquídeas novas, dou orquídeas a amigos, distribuo orquídeas pela casa toda - e no ano seguinte lá vêm mais. Esta semana acabei de colocar as últimas em todos os cantos disponíveis. E faz bem ficar a olhar para elas e ver como, apesar de tudo e contra tudo, todos os anos renascem.
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Se calhar o velho e insuportável Nero Wolf é que tinha razão: que se lixe o que vai lá por fora - a minha orquídea não desiste.
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"O Lugar do Televisor" de Mário Castrim

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Apresentação do III volume no dia em que o autor faria 83 anos

Foi mais do que uma apresentação de um livro. Foi a homenagem ao seu autor que, neste dia 31 de Julho de 2003 completaria 83 anos. A sua ausência emocionou editores, leitores e amigos. Um deles, Mário Zambujal, declarou, mal pôde, que se tornava embaraçoso apresentar um livro de um “amigo íntimo” quando ele já não está entre nós. Arlindo Pinto que, recordou, recebeu a notícia do seu falecimento em Nampula, onde actualmente é missionário, não escondeu as emoções incontornáveis do momento.
Trata-se do Terceiro Volume de “O lugar do Televisor”. São crónicas, escritas a pensar na juventude, pelo autor que fundou o “DL Juvenil” (Diário de Lisboa Juvenil). Eram aliás desses tempos muitos dos amigos que se reuniram no auditório dos missionários combonianos para recordar “o amigo”.
“A todos tratava por amigos”. A garantia é do Pe. Arlindo Pinto. Foi, aliás, nos tempos em que ele era director da Audácia e da Além-Mar que Mário Castrim começou a publicar as crónicas, agora editadas em livro (já lá vão três volumes). E se a decisão de o fazer “colaborador” da revista Audácia foi clara e rápida (bastou um encontro com o autor), já a sua aceitação não foi tão pacífica: o Pe. Arlindo lembrou comentários que lhe fizeram confrades e amigos, que viam apenas o crítico de tudo e todos.
Os textos publicados desde Setembro de 1993, todos os meses na Revista Audácia, demonstram, no entanto, que Mário Castrim sabe estar atento também à vida dos homens e mulheres, apontando valores necessários à educação das novas gerações. Prova disso é outro livro de Mário Castrim que, adiantou o actual director das revistas dos missionários combonianos, Pe. José Rebelo, era para ser publicado também neste dia. São comentários aos salmos da Bíblia, elaborados pelo mesmo autor de muitas críticas a quem aparecia na televisão.
Mário Zambujal tem dúvidas se é o escritor ou o jornalista que escreve estas crónicas. Garantiu, no entanto, que Mário Castrim agrupa a beleza e a nobreza do trato com a língua portuguesa, qual grande escritor, com a atenção ao realismo da vida, próprio dos grandes repórteres.
“O lugar do televisor - III Volume” revela “o talento e a ternura de um contador da vida” – escreve Mário Zambujal na apresentação – que todos os amigos presentes faziam questão de afirmar, seja durante a sessão formal de apresentação do livro, seja durante o convívio informal que se lhe seguiu. Por parte dos missionários combonianos, palavras de muito reconhecimento ao Mário Castrim, que escreveu e “ainda não fez contas”. Disse, após as primeiras crónicas escritas ao director da altura: “eu vou escrevendo; vocês publicam, se assim o entenderam. Depois veremos quem deve a quem”.
A homenagem estendeu-se à família, que estava presente. Com filhos e netos, Alice Vieira, sua mulher, agradeceu. Agradeceu também o apoio que os missionários combonianos lhe continuam a prestar.
Agora, é ela a colaboradora mensal da Audácia.
Nacional | Paulo Rocha | 2003-07-31 | 23:05:00 | 2932 Caracteres | Combonianos
 http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?id=2168
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quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Rosa, minha irmã Rosa - Alice Vieira

Alice Vieira Rosa Minha Irmã Rosa
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Rosa, Minha Irmã Rosa

Romance de Alice Vieira, publicado em 1979, é uma obra de literatura infanto-juvenil. Corresponde ao primeiro volume de uma trilogia onde se inclui a obra Lote 12, 2º Frente (segundo volume) e ainda Chocolate à Chuva (terceiro volume).
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Apresentando uma estrutura de tipo diário, a obra relata os problemas de uma criança, chamada Mariana, causados pelo nascimento da irmã Rosa. O facto provoca conflitos psicológicos naquela personagem, perturbada pelo ciúme, que se apercebe da partilha de várias coisas a que a irmã obrigará, tais como o quarto, a atenção dos pais e o afecto dos restantes familiares. No entanto, com o passar do tempo, esses conflitos são dissolvidos.
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Em 1979, Alice Vieira, com a obra Rosa, Minha Irmã Rosa, o seu primeiro livro, recebeu o Prémio de Literatura Infantil no Ano Internacional da Criança.

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Como referenciar este artigo:
Rosa, Minha Irmã Rosa. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2009. [Consult. 2009-12-17].
Disponível na www: .

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Alice Vieira: trinta anos de livros e um romance para entregar hoje

"Só gosto da minha vida a partir dos 20 e tal anos"

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Público - 16.12.2009 - 16:22 Por Rita Pimenta
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Começou no jornalismo e entrou pela literatura. Primeiro para crianças e jovens, depois para os outros. Poesia incluída. Diz-se "amigodependente", recebe e faz chamadas às três da manhã. Já foi menos católica, pensa por frases e fala sozinha na rua. Não entra em cemitérios e tem poucas memórias de infância. Hoje vai a uma festa temática: 30 Anos de Livros
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Enric Vives-Rubio

Alice Vieira
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Há 30 anos que escreve livros. Mas foi há mais tempo que Alice Vieira enviou o primeiro texto para um jornal. Não o publicaram. Tinha 14 anos e recebeu uma carta do "Diário de Lisboa" a pedir que não desistisse. Assinatura: Mário Castrim. Tentou uma e outra vez e viu muitos textos serem impressos. Casou com ele, o remetente.
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Uma paixão de 40 anos. "Mas paixão mesmo", diz Alice quando fala do jornalista e escritor. Tinham 23 anos de diferença de idades e só se conheceram "ao vivo" depois de muitos telefonemas e cartas, quando a escritora foi trabalhar, como jornalista, para o "Diário de Lisboa". Pouco depois, iria para o Diário Popular. "As pessoas, quando têm um relacionamento, não devem trabalhar no mesmo sítio. Seja marido e mulher, pai e filho. Por isso, atravessei a rua e fui para o Diário Popular." Seguiu-se o Record e o Diário de Notícias.
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Castrim foi a pessoa mais importante da sua vida. Toda a gente a desaconselhou a viver com ele, pela diferença de idades e pelos problemas de saúde que lhe adivinhavam. "Vais ser a enfermeira toda a vida", diziam-lhe. "Afinal", conta, "quando tive o "cancro da praxe" e fui operada, ele é que foi o meu enfermeiro. A quimioterapia custou-me muito. Há 20 anos, os produtos eram mais agressivos e eu vomitava bastante. Ele obrigava-me a ir imediatamente para o jornal trabalhar. Acho que nem estive um mês de baixa. E ainda bem que me obrigou. Se não fosse isso, eu podia ter ido abaixo. Assim, tinha mais que fazer do que estar infeliz."
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E recorda como sempre a estimulou a escrever, nunca deixando de ser muito crítico. "Não tenho dúvida de que aquilo que sou, aquilo que faço, aquilo que escrevo, foi muito obra dele. Sinto, no entanto, algum remorso por ele se ter afastado da escrita por minha causa. Para eu poder fazer a vida que fiz, ele não publicou tanto como devia. Escrever escrevia (tenho muitos inéditos), mas não publicava."
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E repete várias vezes: "Tive sorte, tive sorte". E ele? "Acho que sim. Ele também teve."

"Não me lembro de mim"
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Alice Vieira, de 66 anos, passou a infância com tias velhas e não gostou. A memória decidiu poupá-la a recordações e não a deixa lembrar-se de quando era criança. "Recordo-me de muito pouca coisa da minha infância. Lembro-me assim de momentos do género: eu estou aqui sentada ao pé de alguém. Mas não me lembro de mim. Acho que é uma defesa."
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No entanto, quando se pergunta se era maltratada, responde: "Não. Eu era super bem tratada. Mas maltratar não é só andar ao estalo às crianças. Eu vivi sempre com pessoas que me diziam (e era verdade) que não eram nem o meu pai nem a minha mãe. E portanto eu não era filha deles e não tinham nada de fazer aquilo que estavam a fazer. Foi sempre um relacionamento um bocado frio, uma coisa entre velhos. Eu só encontrei miúdos da minha idade quando entrei para o liceu. Até aí, nunca tinha tido gente da minha idade ao pé de mim. Roubarem-me essa parte, foi complicado. Isso pode dar cabo de uma pessoa". Não deu.
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Depois de conseguir ter amigos, tornou-se, como diz, numa verdadeira "amigodependente". E alguns até a fizeram ser de novo mais católica. Porque são padres, poetas ou missionários. "É impossível não se ficar tocado por estas pessoas." Pode telefonar a um amigo "às três da manhã". Mas também os atende a todos e a qualquer hora. Eles sabem que os acompanha até ao fim. Só não entra no cemitério. "Eu tinha uma tia muito mórbida. Todas as quartas-feiras, íamos para o Alto de São João limpar as campas. E logo ela, que era má para as pessoas e lhes fazia a vida negra. Depois de mortos é que eram bons." Esta é das suas poucas memórias claras de infância. "Isso [o passado] serviu-me para ser a pessoa que sou hoje, para ser profundamente optimista, acreditar que as coisas se resolvem desde que queiramos. Não podemos estar à espera que as soluções caiam do céu, do céu só cai a chuva. Mas só gosto da minha vida a partir dos vinte e tal anos."
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Depois do curso tirado, Germânicas, como se designava na altura a actual licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Inglês e Alemão, a escolha de ser jornalista não foi lá muito bem vista pela família. "Quando acabei o curso, já era maior e vacinada. Jurei e cumpri que fazia a faculdade. Tinham de aceitar a minha escolha, mas nunca foi profissão de que gostassem muito. Nós ainda hoje rimos porque, quando se falava das sobrinhas, as tias diziam: a fulana é médica, a outra é advogada e a Alice, essa, lá anda na vida que ela escolheu... Parecia que eu era uma perdida", diz, no meio de uma gargalhada.
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Mas o jornalismo era, desde cedo, uma paixão, não o escolheu para contrariar as tias. "Ver as coisas publicadas, com o nome cá em baixo. Eu assinava Alice Vassalo Pereira. E, depois, o cheiro do chumbo conquistou-me definitivamente." Até hoje. Continua a escrever crónicas para o Jornal de Notícias e para as revistas Activa, Audácia e Tempo Livre. "E ainda adoro fazer entrevistas."
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Os livros vieram mais tarde, em resultado do prémio da Gulbenkian, em 1979, de Literatura Infantil Ano Internacional da Criança pela obra Rosa, Minha Irmã Rosa. Na altura, ganhou 75 contos (375 euros) e levou os filhos a Atenas: Catarina, hoje com 40 anos, e André, com 39.
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"Às vezes, penso: eu comecei a escrever tarde, podia ter começado mais cedo. Mas depois penso que não. Se eu tivesse começado antes... mas eu não sou nada a favor de quem começa muito cedo. As pessoas têm de viver um bocadinho, têm de crescer. Quando digo que podia ter começado uns anos antes, se calhar não podia. Ou tinha começado pior, não sei."
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Em 30 anos, já publicou mais de 70 livros, vendeu perto de 2 milhões de exemplares e ganhou dez dos mais significativos prémios literários da literatura infantil e juvenil. Foi nomeada este ano para o Astrid Lindgren Memorial Award, um dos mais importantes prémios nesta área, com o valor de 500 mil euros.
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Não escreve por dinheiro, mas gosta de ser paga pelo seu trabalho. Irrita-se que lhe digam que a escrita é um hobby. "Vou a escolas quase todos os dias e durante as horas em que estou lá não estou a desenvolver o meu trabalho de escrita. Estou a trabalhar no horário de outras pessoas. Vou porque gosto, porque vejo satisfação nos olhos dos miúdos e isso é bom. Mas não tenho obrigação de fazer com que os meninos gostem de ler. Noventa por cento das escolas nem sequer compram os meus livros. E pagam as minhas visitas a contragosto. Quando eu quiser dar o meu trabalho, dou, mas sou eu que escolho."
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No entanto, tem muita dificuldade em dizer "não" quando a convidam, mesmo se o pagamento não está previsto. "Agora, felizmente, a Leya trata disso. Gere a minha agenda e eu já não tenho de andar a negociar com as escolas. O ano de 2010 já está completo. A Leya foi o melhor que me aconteceu." Mas não só por isto.
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Romance em Porto Santo
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A escritora divide-se entre quatro editoras (Caminho, Texto, Casa das Letras, Oficina do Livro e Dom Quixote) e o facto de pertencerem todas ao mesmo grupo facilita-lhe a vida. "No outro dia, o patrão da Leya dizia-me: quer trabalhar em mais alguma editora? Diga, que a gente compra. Eu dou-me bem com eles porque sou muito profissional e cumpridora. Eu preciso de prazos. Se não me põem prazos, não faço nada. E trabalho muito mais e até melhor se tiver muitas coisas para fazer ao mesmo tempo. Isso vem do jornalismo. Há uma sobrecarga de trabalho e a gente despacha tudo (jornalismo diário, claro).
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Há autores que me dizem: "Como é que tu podes saber que daqui a uns dias tens um livro pronto? E se não consegues?" Tenho de conseguir. Essa relação de trabalho para mim é boa. Por exemplo, agora sei, mas sei rigorosamente que até dia 16 [hoje], mesmo dia 16, tenho de entregar um romance." Chama-se Meia Hora para Mudar a Minha Vida, "como a cantiga da Adriana Calcanhotto".
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Será mais um romance juvenil com uma rapariga de 16 anos como protagonista. Uma actriz de teatro amador. Passa-se em Lisboa, sempre Lisboa. "Sou muito lisboeta e não gosto de escrever sobre coisas que não conheço. Não dá para chegar a um sítio, estar lá dois dias e escrever uma história. Ou é um romance histórico ou então não consigo. Só tenho um romance juvenil que é metade em Lisboa, metade na zona das Gafanhas, Aveiro, que é donde eu sou: Viagem à Roda do Meu Nome."
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Hoje, depois da festa (e de entregar o livro), ficará mais liberta para pensar num romance de base histórica que lhe anda a passear na cabeça há uns tempos. "Passa-se na ilha de Porto Santo, no séc. XVI. Fui à Madeira e aproveitei para recolher umas informações que faltavam. Em 1533, houve uma heresia, a heresia dos profetas, que pôs a ilha a ferro e fogo. Só no Porto Santo, nem chegou à Madeira. Quando estava a escrever sobre os Açores, sobre uma heroína de Angra do Heroísmo, descobri esta história. Por isso, a palavra "profeta" é um bocado pejorativa na ilha. E não digo mais nada." Não é preciso.
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Alice Vieira tem quatro netos (Adriana, de 14 anos; Diogo, 10; Pedro, nove; Isabel, cinco), muitos amigos, muitos leitores e um namorado. Às 17h, têm encontro marcado no Jardim de Inverno do Teatro de São Luiz, em Lisboa. Porque está de parabéns
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Alice Vieira

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

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Alice Vieira (Lisboa, 1942) é uma escritora e jornalista portuguesa. Licenciou-se em Filologia Germânicas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, mas dedicou-se desde cedo ao jornalismo, dirigindo os suplementos Juvenil e Catraio no Diário de Notícias. Também trabalhou em vários programas de televisão para crianças e é considerada uma das mais importantes autoras portuguesas de literatura infanto-juvenil.
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As suas obras foram traduzidas para várias línguas, como o alemão, o búlgaro, o basco, o castelhano, o galego, o francês, o húngaro, o holandês, o russo e o servo-croata. Foi casada com o também jornalista e escritor Mário Castrim.

Índice

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Obras

Literatura infanto-juvenil

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  • 1979 - Rosa, Minha Irmã Rosa
  • 1979 - Paulina ao Piano
  • 1980 - Lote 12 - 2º Frente
  • 1982 - Chocolate à Chuva
  • 1981 - A Espada do Rei Afonso
  • 1983 - Este Rei que eu Escolhi
  • 1984 - Graças e Desgraças na Corte de El Rei Tadinho
  • 1985 - Águas de Verão
  • 1986 - Flor de Mel
  • 1987 - Viagem à Roda do meu Nome
  • 1988 - Às Dez a Porta Fecha
  • 1990 - Úrsula, a Maior
  • 1990 - Os Olhos de Ana Marta
  • 1991 - Promontório da Lua
  • 1991 - Leandro, Rei de Helíria (peça escrita a partir de Rei Lear, de Shakespeare)
  • 1995 - Caderno de Agosto
  • 1997 - Se Perguntarem por mim, Digam que Voei
  • 2005 - Livro com Cheiro a Chocolate
  • 2006 - Livro com Cheiro a Morango
  • 2007 - Livro com Cheiro a Baunilha

Outros

  • 1986 - De que são Feitos os Sonhos
  • 1988 - As Mãos de Lam Seng
  • 1988 - O que Sabem os Pássaros
  • 1988 - As Árvores que Ninguém Separa
  • 1988 - Um Estranho Baralho de Asas
  • 1988 - O Tempo da Promessa
  • 1990 - Macau: da Lenda à História
  • 1991 - Corre, Corre, Cabacinha
  • 1991 - Um Ladrão debaixo da Cama
  • 1991 - Fita, Pente e Espelho
  • 1991 - A Adivinha do Rei
  • 1992 - Rato do Campo, Rato da Cidade
  • 1992 - Periquinho e Periquinha
  • 1992 - Maria das Silvas
  • 1993 - As Três Fiandeiras
  • 1993 - A Bela Moura
  • 1994 - O Pássaro Verde
  • 1994 - A tua avó é luisa
  • 1994 - O Coelho Branquinho
  • 1994 - Eu Bem Vi Nascer o Sol
  • 1997 - Praias de Portugal
  • 1999 - Um Fio de Fumo nos Confins do Mar
  • 2006 - A Lua não está à venda

Prémios

  • 1979 - Prémio de Literatura Infantil Ano Internacional da Criança com Rosa, Minha Irmã Rosa.
  • 1983 - Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura Infantil com Este Rei que Eu Escolhi.
  • 1994 - O Grande Prémio Gulbenkian, pelo conjunto da sua obra.

Ligações externas

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ver
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    Alice Vieira - Nova obra celebra 30 anos de livros

    Correio da Manhã - 17 Dezembro 2009 - 00h30

    Homenagem: Amigos reunidos no Teatro São Luiz

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    Uma carreira de 30 anos, mais de 70 livros publicados, cerca de dois milhões de livros vendidos e dez dos mais significativos prémios literários ganhos em Portugal e no estrangeiro foram algumas das razões da homenagem feita ontem à escritora Alice Vieira, no Teatro Municipal de São Luiz, em Lisboa.
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    "Apesar de me sentir mais velha gosto de ver aqui os meus amigos todos. É mesmo muito bom", disse ao CM a escritora, que comemorou ontem três décadas de escrita e assinalou o dia com a entrega da sua nova obra, ‘Meia Hora para Mudar a Minha Vida’, que chegará às livrarias "em Fevereiro ou Março".
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    Escritora ímpar no universo da literatura infanto-juvenil em Portugal, Alice Vieira admite o quanto gosta de escrever: "Acho que nasceu comigo. Escrevo histórias que gosto de contar. O novo livro é sobre relações interpessoais e fala de uma rapariga ligada ao teatro amador. Tem tudo a ver com aquele ambiente", revelou a autora de livros como ‘Rosa, Minha Irmã Rosa’.
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    Sobre o segredo de tanto sucesso, a homenageada revelou que para ser escritor é preciso "trabalhar muito, ter muita paciência e gostar do que se faz".
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    "Ela é extraordinária. Não é fácil escrever assim. Sinto-me a ver televisão", disse ao CM Simone de Oliveira, que marcou presença, assim como Manuel Luís Goucha, Vítor de Sousa e outros amigos, numa sala completamente cheia.
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    Bruno Colaço  A autora à conversa com Helena Sacadura Cabral e Simone de Oliveira  
    A autora à conversa com Helena Sacadura Cabral e Simone de Oliveira
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