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terça-feira, 16 de agosto de 2016

Georges Simenon - A literatura no romance policial

 Miguel Urbano Rodrigues     16.Ago.16      

Perguntaram um dia a André Gide quem era para ele o maior escritor francês. A resposta surpreendeu e chocou muita gente: «Georges Simenon é um romancista genial».
Tenho relido com frequência romances de Simenon. E compreendo a opinião emitida pelo autor de Les Nourritures Terrestres».
Gide exagerou. Mas Simenon foi mesmo um grande escritor.
Reli páginas da sua autobiografia (21 tomos) e alguns ensaios sobre a sua obra e vida.
Foi uma personagem contraditória, imprevisível, enigmática e apaixonante.
Começou a escrever ficção ainda adolescente, na Bélgica onde nasceu, e produziu uma obra torrencial.
Publicou quase 200 romances e os seus livros foram traduzidos em 55 línguas. Mais de 600 milhões de exemplares vendidos até hoje. Na Europa e nos EUA produziram 190 filmes inspirados na sua obra, a maioria sobre o Comissario Maigret, um detetive diferente de qualquer outro, criado em 1929.
Tinha apenas 19 anos quando rompeu com a família e se instalou em Paris. A decisão foi decisiva para a sua carreira. O jovem jornalista despertou a atenção de Colette, então no auge da popularidade. A grande escritora aconselhou-o escrever estórias muito simples, abstendo-se de «fazer literatura»; e introduziu-o nos meios intelectuais.
Seguiu o conselho. Anos depois, já famoso, atribuiu à «adorável Colette», a popularidade do estilo que havia criado.
Uma imaginação prodigiosa, uma enorme capacidade de trabalho e uma sede de viver intensa, que o levou a dezenas de países, com prolongadas permanências nos Estados Unidos e no Canadá permitiram-lhe um conhecimento profundo do homem e da imprevisibilidade do seu comportamento.
Nos anos de maior produtividade levantava-se às 4 da madrugada e escrevia por vezes vinte páginas em poucas horas. Alguns dos romances da série Maigret foram redigidos em onze dias apenas.
Esse ritmo alucinante de trabalho refletiu-se na desigualdade da sua obra.
Simenon tinha adquirido uma grande intimidade com a língua francesa. Mas a facilidade da escrita e o domínio de um estilo irrepetível também o prejudicaram.
Um dos seus admiradores, o critico Robert Poulet, afirmou, com fundamento, que as primeiras cem páginas, na maioria dos seus romances, são magistrais. Na criação dos ambientes, na construção das personagens, na montagem do quadro, urbano ou rural, em que elas se movem, na iluminação do seu mundo interior, na capacidade de prender o leitor e transportá-lo aos cenários da estória. Na segunda parte o nível baixa geralmente muito.
A galeria dessas personagens é quase interminável. Por ela desfilam homens e mulheres diferentíssimos.
Situa alguns romances em países estrangeiros, na Bélgica, na Holanda, na Finlândia, na Inglaterra, nos Estados Unidos. Mas os heróis e os vilões são sobretudo franceses, gente do povo que conhecia bem.
Simenon era um conservador, com pendores reacionários. Durante o início da ocupação alemã foi acusado de colaboracionista, mas a Justiça francesa absolveu-o.
Não consegue ocultar aquilo que leva dentro, que é inseparável da sua mundivencia. Mas, paradoxalmente o seu Maigret, quando entra em contacto com aristocratas, altos funcionários, ou elementos da finança tem dificuldade em os compreender, em dialogar com eles. E, pelo contrario, sente – se à vontade entre les petits gens, o francês da pequena burguesia, as porteiras, os taberneiros, a criadagem dos hotéis e bares, os pescadores, os marinheiros, as prostitutas, os rufiões, os pequenos comerciantes.
Simenon conviveu com uma sexualidade atormentada, que mereceu atenção dos seus biógrafos. Não é de estranhar portanto que a temática do sexo seja identificável em muitos dos seus romances.
Foi amante de mulheres famosas, entre as quais Josephine Baker.
Uma fronteira transparente separa Simenon de muitos autores de romances policiais. O leitor percebe que Simenon não faz batota, ao contrário, por exemplo, de Agatha Christie, que impede o leitor de identificar o criminoso, escondendo ate às últimas páginas personagens e factos importantes. No desfecho, repetitivo, a inglesa reúne todos os suspeitos e mantem o suspense até aos instantes finais.
Com Simenon o responsável pelo crime ou pelo assalto ou roubo não é sempre punido. Maigret, com frequência, não o entrega à justiça.
Simenon explica-se na autobiografia: «interessei-me pelos homens, sobretudo pelo homem da rua, tentei compreendê-lo de uma maneira fraternal».
O escritor bebia muito. Maigret também. Não se embriagava. Mas Simenon apresenta-o como alguém que não podia prescindir diariamente de bebidas alcoólicas: cerveja, calvados, pastis, aguardentes variadas, e vinho branco em grandes doses.
Afirmei no inicio do artigo que Geoges Simenon foi um grande escritor.
Mas creio que teria sido um escritor ainda mais importante se tivesse escrito menos livros. Essa é a minha convicção, não partilhada pelos grandes da crítica literária.
Três ou quatro dos romances não policiais são verdadeiras obras-primas. Ignoro se terá tomado consciência dessa realidade.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Miguel Urbano Rodrigues - Fátima e a enigmática meditação de José Luís Peixoto


Miguel Urbano Rodrigues

16.Mar.16 :: Colaboradores
… «José Luis Peixoto abstêm-se de atacar a religião, as crendices populares e a vidente Lúcia. Empurra para os leitores a tarefa de extrair ensinamentos da sua obra. Um dos méritos de Em teu ventre é, creio, a ausência de teorização. O escritor, humanista fora de época, medita e convida à meditação sobre a aventura humana em busca de Deus por temor da morte.»


José Luis Peixoto é um escritor que deixará marcas profundas na literatura portuguesa. Um dos mais importantes das últimas décadas.

A minha companheira, grande admiradora de José Luis Peixoto, perguntou-me o que pensava de Em teu ventre, o seu mais recente livro.

Respondi que tinha gostado, mas sentia dificuldade em emitir uma opinião pela complexidade da obra.

É diferente de tudo o que escreveu antes. Ele fez-me recordar Kafka e Joyce, mas a sua escrita não tem afinidades com a de Joyce nem com a de Kafka.

Em teu ventre, perturba, surpreende e desorienta da primeira à última página. O leitor interroga-se na busca de respostas que não encontra.

Grandes media internacionais têm elogiado muito o livro. Tudo gira em torno das chamadas aparições de Fátima e da pastorinha Lúcia que, junto de uma azinheira, viu a mãe de Jesus e dela recebeu mensagens que somente revelou parcialmente e a conta-gotas. A última, a da «conversão da Rússia», foi tornada pública pelo Papa Joao Paulo II, que recebeu dela esse segredo.

O livro é uma simbiose daquilo a que chamarei um relato novelesco, de poemas em prosa, e de uma meditação caótica do autor sobre a relação entre o humano, o divino, a maternidade, e a rotina de aldeias do mundo rural português habitadas por seres abertos à procura do transcendente. A ignorância e a banalidade monótona, com frequência dolorosa, das suas existências são indissociáveis do cenário.

O livro abre com uma fala poética de Deus sobre a esperança, mas o Senhor logo empurra quem o escuta para a casa de uma família da aldeola de Aljustrel, Fátima.

Ali nasceu Lúcia, a futura vidente, a ultima de sete filhos de uma camponesa, Maria, e de Abóbora, um pequeno agricultor que prefere conversas na taberna ao falatório sobre aparições de Nossa Senhora. É católico como todos na aldeia, mas não acredita nas aparições. Maria, a mulher, também não e sofre pela filha.

A reza de ave marias e padre nossos e o ritual do agradecimento a Deus das refeições integram o quotidiano da família.

Durante algum tempo até o pároco desconfia das visões dos pastorinhos e das mensagens divinas.

Mas o rumor dos contatos de Lúcia e dos primos Francisco e Jacinta com a mãe do nazareno já ultrapassou o casario da aldeia.

De muito longe começam a chegar peregrinos rumo à Cova da Iria, lugar onde anos depois será construída a capela das aparições e, posteriormente, uma enorme e feia basílica. Numa das primeiras peregrinações ao lugar milhares de pessoas garantem ter visto o sol parar.

Muitos tocam com as mãos Lúcia e os primos, que também viram a Virgem mas não lhe escutaram as mensagens, dirigidas apenas a Lúcia.

Fala-se em milagre e uma auréola de santidade principia a envolver a misteriosa menina, interlocutora da divina judia que gerou Jesus sem pecado.

Maria, a mãe de Lúcia, continua angustiada e o bispo de Leiria, por algum tempo, adota uma atitude de expectativa.

Na aldeia, onde a maioria dos moradores é analfabeta, a Historia é uma ciência desconhecida e ignora-se que a Virgem, afinal, não era virgem, pois Jesus tinha irmãos mais velhos.

Entretanto, o nome da até então obscura freguesia de Fátima (palavra árabe e nome de uma filha do Profeta Maomé, esposa de Ali, o quarto Califa Omeiade, venerado como santo pelos xiitas), já corre pelo vasto mundo.

As supostas aparições são instrumentalizadas pela Igreja atingida pelo ateísmo da I Republica. As gigantescas peregrinações da primavera e do outono chamam a Fátima, hoje cidade, centenas de milhares de devotos da Virgem.

As aparições e mensagens ganham a dimensão de milagres inexplicáveis. Francisco e Jacinta, que morreram adolescentes, com a epidemia da pneumónica, foram beatificados.

Quatro Papas já foram a Fátima e um deles, Joao Paulo II, recebeu de Lúcia, que se tornara freira da Ordem dos Carmelitas Descalços, a revelação do segredo da «conversão da Rússia». Os outros segredos constam de depoimentos da vidente, amplamente divulgados pela hierarquia da igreja católica. Lúcia fala como profeta, anuncia o fim da guerra, a inevitabilidade de outra, maior, alude ao Inferno, que segundo o papa Francisco aliás não existe, tal como o Purgatório.

O falecimento de Lúcia em 2005 ficou assinalado por três dias de luto nacional, decretados pelo governo de Sócrates, que ignorou a morte do general Vasco Gonçalves a 5 de Junho do mesmo ano. A vidente será certamente canonizada, a avaliar pelo processo de beatificação que desrespeitou normas históricas do direito canónico.

As dioceses portuguesas e o Patriarcado estão já ativamente empenhados a preparar as comemorações do centenário das aparições em l917.

O acontecimento terá uma dimensão mundial e atrairá a Fátima o Papa Francisco, devoto como os seus predecessores da Virgem portuguesa. A campanha de divulgação do grande evento já principiou, aliás, a assumir um cariz ideológico que extrapola a religião.

No seu ambicioso livro, José Luis Peixoto abstêm-se de atacar a religião, as crendices populares e a vidente Lúcia. Empurra para os leitores a tarefa de extrair ensinamentos da sua obra. Um dos méritos de Em teu ventre é, creio, a ausência de teorização. O escritor, humanista fora de época, medita e convida à meditação sobre a aventura humana em busca de Deus por temor da morte.

Vila Nova de Gaia, Março de 2016

http://www.odiario.info/?p=3953

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Miguel Urbano Rodrigues - Pepetela, um grande escritor imprevisivel

Miguel Urbano Rodrigues
10.Dez.15 ::  

Entre “Mayombe”, “A Geração da Utopia”, “O Planalto e a Estepe”, “O Tímido e as Mulheres” e outras obras Pepetela construiu uma fulgurante carreira literária e alcançou um justo renome internacional. As personagens do ficcionista, forjadas pelo seu talento, estimulam o leitor a meditar sobre a complexidade das contradições da condição humana. Na Angola que recria literariamente e na própria atitude do escritor em relação à sociedade em que se insere identifica-se um trajecto pessoal que vai da utopia ao desencanto.


O chileno Volodia Teitelboim casou três vezes. Amou intensamente as suas três companheiras. Delas se separou com amargura.

Não conheço outro escritor que tenha retratado tão primorosamente mulheres do seu tempo (incluindo as quatro esposas de Pablo Neruda).

Recordei essas figuras femininas ao ler O Tímido e as Mulheres, de Pepetela. Ele cria personagens femininas fascinantes.

Marisa tem algo de extraterrestre. Terá existido alguma angolana sequer parecida com ela, como fonte de inspiração? Difícil.

Descobri Pepetela nos anos 80 quando li Mayombe. Fez-me sentir a guerra colonial num cenário onde o homem é esmagado por uma natureza hostil. Ao acompanhar em esforço de imaginação os combatentes do MPLA pelas selvas de Cabinda, recordei a guerrilha do Che nas matas e chapadões bolivianos e a de Hugo Blanco na Amazónia peruana. Tudo em Angola fora muito diferente.

A admiração por Pepetela cresceu quando li A Geração da Utopia. Mas o romance perturbou-me tanto que ao visitar Angola em 1994 pedi a uma amiga comum que me levasse a casa do escritor.

Luanda vivia dias caóticos. A UNITA tentava tomar o poder na capital e estava a ser derrotada.

O romance é muito belo, mas destila deceção. Compreendi que Pepetela atravessara a fronteira que o separava da grande literatura, mas encarava o futuro com pessimismo. A personagem principal, um combatente da geração da utopia que havia lutado pela independência com coragem espartana, perdera a esperança. Refugiara-se numa praia deserta de Benguela onde vivia como um eremita.

Porquê?- perguntei a Pepetela. O que o motivara a esboçar um panorama tão sombrio de uma Angola ainda em guerra, acossada pelo imperialismo, um país onde o sonho revolucionário fora enterrado?

Ele não se alargou na resposta. No seu romance, disse, apresentara a contradição brutal entre o romantismo revolucionário da geração que se batera numa entrega total pela independência e a fisionomia humana da Luanda dos anos 90, uma cidade onde as novas elites vindas do mato estavam a ser modeladas pela ambição, o egoísmo, os vícios do sistema capitalista. Nela a realidade do quotidiano era a negação do projeto revolucionário.

Não voltei a encontrar Pepetela e acompanhei mal a sua fulgurante carreira literária. Quando foi distinguido com o Premio Camões em 1997 já era um escritor de prestígio internacional, traduzido em muitas línguas.

Soube que o ex-guerrilheiro, que fora vice-ministro durante sete anos e deputado, se distanciara do Poder. Não voltou a exercer cargos políticos.
Mas não foi sem surpresa que li recentemente O Planalto e a Estepe.

Publicada pela Dom Quixote em 2009, é um estranho romance. Na capa a editora informa que é «a história real de um amor impossível».

Nos primeiros capítulos reencontrei o Pepetela conhecido e admirado.

As páginas em que o narrador evoca a infância e a adolescência no Planalto do Lubango são belíssimas, de um lirismo comovedor. A relação entre a terra e os que nela vivem e o culto da amizade conduz-nos ao telurismo de Pepetela, facilita a compreensão do seu itinerário de revolucionário.

Depois, quando o cenário muda e o narrador vai estudar para a União Soviética não consigo mais atravessar as pontes ombro a ombro com o escritor.

Redigindo na primeira pessoa, para ser mais convincente, Pepetela mergulha o leitor na complexa relação amorosa entre um angolano e uma mongol quando estudavam em Moscovo nos anos 60. Ele é filho de colonos portugueses de poucos recursos; ela de uma família influente, ligada ao poder; o pai é ministro da Defesa, um grande do Partido.

O amor, proibido, é golpeado. Ela, grávida, é sequestrada, levada para o seu país e durante mais de trinta anos o contacto entre ambos rompe-se. O desfecho é um inesperado happy end.

O que choca não é a trama fantástica da estória nem a transformação do jovem num percurso que o conduziu ao generalato.

A surpresa vem do anti-sovietismo do romance. Pepetela foi amigo do general que amou a bela mongol, mas não estudou como ele na URSS.

Daí a minha estranheza pela veemência do anticomunismo que o par amoroso transmite.

Pepetela afirma que, distanciado da política, continua a identificar-se com muitas análises de Marx. Mas isso não transparece no livro. Tendo um conhecimento muito superficial da realidade soviética e da vida quotidiana em Moscovo, seria de esperar que se abstivesse de afirmações categóricas comuns em manuais de anticomunismo, mas agressivas e inesperadas vindas de um grande escritor progressista.

Que impulso o terá levado a condenar com tanta dureza, através dos dois amantes perseguidos, os mecanismos de poder de uma sociedade para ele desconhecida?

O chamado socialismo real não concretizou o projeto de Lenin. Dele se afastou para o deformar.

Mas, apesar dos desvios, erros e deformações, cometidos por um Partido que se perverteu e acabou por apodrecer, na URSS fora possível construir uma sociedade menos cruel, menos desigual, do que a de quaisquer país do Ocidente autoproclamado democrático. A humanidade pagou um alto preço pela desagregação da URSS; a reimplantação do capitalismo na Rússia foi um acontecimento trágico.

Pepetela, pelo que escreveu, demonstra não ter assimilado essa evidência. Esqueceu que a própria descolonização teria sido muitíssimo mais lenta sem a solidariedade da URSS aos povos que se batiam na Africa pela independência contra as potências imperiais que aliás voltam a recolonizar.

OUTRO PEPETELA

O Tímido e as Mulheres também me surpreendeu. Mas por motivos muito diferentes.

Visitei Angola pela primeira vez na época colonial, em 1953. Voltei em 80. Falei então com o presidente José Eduardo dos Santos; reencontrei dirigentes do MPLA que haviam lutado desde a juventude pela independência; estive em Kifangondo, cenário da derrota da ofensiva da FNLA, da UNITA e dos congoleses de Mobutu, desci a Cuíto Cuanavale, Mavinga, e a Mpupa, na fronteira da Namíbia, onde convivi com oficiais e soldados das FAPLA.

O futuro imediato apresentava-se nevoento, carregado de incógnitas, com a Africa do Sul e os EUA a apoiarem Savimbi. A guerra continuava, a escassez de bens essenciais pesava muito no quotidiano, mas o MPLA assumia-se ainda como um partido marcado pelo marxismo; o vento da revolução não desaparecera da terra angolana.

Muito diferente era a atmosfera em Luanda quando ali acompanhei as eleições legislativas em 1992.

Nos breves dias que passei na capital senti mais do que compreendi que a cidade acusava o choque de um terremoto social que anunciava um futuro imprevisível. Um capitalismo selvagem era já identificável como agente de transformações no tecido humano. O comportamento de uma burguesia em formação impressionou-me por incompatível com o sonho ingénuo da geração da utopia.

Mais de vinte anos transcorreram sobre essa visita. A História caminhou no sentido oposto às aspirações dos pioneiros da revolução libertadora.

É a Luanda de hoje que Pepetela nos ajuda a ver e tentar compreender em O Tímido e as Mulheres.

Tudo foi inesperado para mim nesse romance revelação. As tendências e contradições que havia observado agigantaram-se. O livro ilumina uma sociedade cuja evolução galopante a tornou irreconhecível.

Luanda cresceu desmesuradamente. É hoje uma megalópolis povoada por 6 milhões de habitantes. Mais de um terço dos angolanos vive nessa gigantesca metrópole de subúrbios misérrimos onde as classes sociais se estratificaram extraordinariamente em tempo mínimo.

Talvez haja poucas no mundo onde a desigualdade social seja tão grande e chocante.

O petróleo, os diamantes, os minérios, a bolha imobiliária e negócios ilícitos foram determinantes para a inimaginável transformação da Luanda cujo quotidiano Pepetela esboça no seu romance.

Devastado por quarenta anos de guerras, o país deu um salto prodigioso no tempo.

Nele, o seculo XXI coexiste com comunidades tribais arcaicas. As personagens do ficcionista, forjadas pelo seu talento, estimulam o leitor a meditar sobre a complexidade das contradições da condição humana. Porque a Luanda do começo deste século é um laboratório alucinante da mudança do homem, para o melhor e para o pior, quando engrenagens económicas e políticas que não controla e conquistas da técnica e da ciência atuam sobre ele. Dessa Luanda olhando para o futuro, mas com ancoras num passado doloroso, Pepetela traça com magia o painel de uma sociedade jovem onde colidem e convivem o egoísmo, a corrupção desenfreada, a hipocrisia, a solidariedade, a ambição, a violência, a procura do amor, uma sexualidade frenética, a arrogância dos novos-ricos, o humor, a alegria de viver, a recusa do presente e a luta pelo saber das vítimas da desigualdade.
Para onde caminha Angola?

O Tímido e as Mulheres não pretende responder à pergunta. Mas confirma que os escritores, como qualquer homem, não são seres estáticos.

Pepetela, permanecendo o mesmo, mudou.

http://www.odiario.info/?p=3857

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Miguel Urbano Rodrigues - O mundo impenetrável de Mia Couto

* Miguel Urbano Rodrigues
27.Nov.15 ::

Em duas notas de leitura separadas por três anos, a admiração por um “gigante da literatura” e, ao mesmo tempo, a sensação de mal-estar resultante de não ter penetrado no universo criado pela sua escrita.


Ontem e hoje li A Confissão da Leoa, de Mia Couto.

A opinião sobre o livro surge ligada a uma sensação de mal-estar.

De Mia Couto somente tinha lido, há alguns anos, outro livro cujo título esqueci. Recordo que, admirando o seu talento, esse romance deixou memória de um mundo impenetrável, onde se moviam pessoas para mim incompreensíveis.

Agora reencontrei um grande escritor, mas repetiu-se o sentimento do não entendido.

Desconheço Moçambique. Estive três vezes em Angola, meia dúzia de vezes em Cabo Verde, duas na África do Sul e visitei a Guiné-Bissau, São Tomé, a Guine Conakry, a Libéria, o Mali e o Senegal.

Não consigo inserir as personagens de Mia Couto na África subsaariana que conheci. Todas, neste livro, desde Mariamar ao caçador Arcanjo Baleeiro, me aparecem como seres impenetráveis. A minha companheira entende-as; eu não.

O realismo mágico de Mia Couto - se assim lhe posso chamar - não tem pontes a ligá-lo ao dos latino-americanos.

No Peru e na Bolívia, viajando pelas altas planuras andinas, reencontrava nos comuneros de aldeias misérrimas gente com quem podia falar. Pensava compreender neles atitudes, aspirações, lutas. Subia pelo tempo em esforço de imaginação e sentia nos comuneros quechuas ou aymarás do século XX a continuidade dos seus antepassados do incário do século XVI. Conversando com eles, escutando o seu castelhano tosco, tinha a sensação de uma intimidade ilusória, imaginava falar com personagens de José Maria Arguedas e Manuel Scorza.

Com Mia Couto, na aldeia moçambicana de Kulumani, esbarro, no final do século XX, com um muro inultrapassável ao escutar o discurso dos moradores, sejam eles do mundo arcaico ou forasteiros vindos do Maputo.

O romance de Mia Couto fez-me viajar até à Ásia Central. Revi-me entre pachtuns da Fronteira afegã. Uma longa viagem que principiou numa guerra moderna da qual fui espectador e terminou na época de Dario, há dois mil e quinhentos anos, quando o rei dos reis persa atravessou a cordilheira do Hindu Kush rumo à Índia.

Conclui que me sentia próximo daqueles montanheses afegãos que lutaram pelas estradas do tempo contra invasores persas, heftalitas, gregos, árabes, mongóis, turcos, ingleses, russos e americanos, muito longe no espaço e no tempo dos aldeões de Kulumani.

Os pachtuns que conheci há 30 anos, os intelectuais e os montanheses analfabetos, transmitiam, de modo diferente, a herança de uma cadeia de muitas culturas, antagónicas algumas, que se haviam interpenetrado em fusões dolorosas.

Na Kulumani de Mia Couto tudo é diferente, o hoje e ontem não se interpenetram e fundem. Naquela aldeia de Cabo Delgado caminho na escuridão. O amor, os feitiços, o medo, a felicidade, o ódio, os mecanismos da memória, o real e o imaginário, o onírico, o mítico empurram- me para um universo cujas portas me aparecem como inultrapassáveis.

O mal-estar desemboca, paradoxalmente, num sentimento de admiração. Sinto que Mia Couto é um gigante da literatura.

Vila Nova de Gaia, 10 de Julho de 2012

Em dois dias li Cinzas, romance histórico que é o primeiro de uma trilogia moçambicana: As Areias do Imperador.

Transcorreram mais de três anos desde o dia em que escrevi o texto sobre A Confissão da Leoa.

Invadiu-me outra vez, agora mais intensa, a sensação de mal-estar.

Lerei, se vivo estiver quando forem publicados, os outros dois tomos da trilogia. Mas o primeiro contribuiu para o reforço da convicção de que Mia Couto é um grande, um enorme escritor. E também para a certeza de que as portas do seu universo são para mim inultrapassáveis.

Cinzas é uma obra mais ambiciosa do que A Confissão da Leoa. O leitor caminha com dor pela História de Moçambique e as lutas dos seus povos no final do seculo XIX, através do sentir e do viver de camponeses de Inhambane. A relação dessa gente com o mundo é mágica, com frequência onírica, mas o estilo do autor não lembra, repito, o de Arguedas, ou Scorza. É uma relação mágica fascinante que me comove; mas não entendo as personagens, o discurso, as suas reações e comportamento. Permaneço de fora.

Cinzas é simultaneamente um libelo contra o colonialismo, mas diferente das condenações habituais dos seus crimes.
O livro levou-me a outro grande escritor africano de língua portuguesa.

Pepetela e Mia Couto são filhos de portugueses; ambos se assumem como africanos, um como angolano, o outro como moçambicano.

Mas na obra de Pepetela as personagens, com raras exceções, independentemente da sua origem étnica, pensam e falam quase como ocidentais. Nos livros de Mia Couto o quotidiano dos africanos está enraizado na mundividência milenar, nos mitos dos povos de Moçambique. Daí a dificuldade que sinto em me mover no seu mundo fechado.

Parece uma contradição admirar muito um escritor cuja obra me fascina sem conseguir «entender» o mundo que descreve. Mas não sinto essa contradição.

Caty, minha companheira, acha que Mia Couto criou já uma obra merecedora do Nobel de Literatura. Admito que a Academia Sueca não tarde em lho atribuir.

Vila Nova de Gaia, 28 de Outubro de 2015


http://www.odiario.info/?p=3842

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Agatha Christie - O segredo do seu êxito



* Miguel Urbano Rodrigues




Agatha Christie (1890/1978) foi uma escritora importante?

Sim, muito importante. Dos seus livros, traduzidos em 100 idiomas, foram vendidos mais de 4 mil milhões de exemplares. Um total de vendas assombroso, somente superado pela Bíblia e pelas obras de Shakespeare.

Mas porventura foi uma grande figura da literatura mundial? Não.

Sobre ela foram escritos dezenas de livros, quase todos elogiosos. Uma das suas peças de teatro, A Ratoeira, permaneceu no cartaz no Reino Unido durante mais de uma década. A Rainha Elisabeth, sua grande admiradora, atribuiu-lhe o título de Lady do Império.

Mas nunca obteve o apreço da crítica literária séria.

Como explicar o seu êxito comercial que ultrapassa o de qualquer outro autor de romances policiais, de Conan Doyle a Georges Simenon?

A leitura da sua autobiografia* ajudou-me no esforço para encontrar uma resposta.

Agatha nasceu numa mansão da estância balnear de Torquay. O pai era um americano britanizado. Não trabalhava, como era habitual na época vitoriana para quem vivia dos rendimentos.

Nas memórias a escritora recorda uma infância feliz numa família abastada da alta classe média. Quando no final do século XIX diminuíram os dinheiros que chegavam dos EUA, os pais alugaram a casa de Torquay e foram passar um ano no sul de França e depois na Bretanha, onde o custo de vida era menor.

«Uma das coisas que, penso, sentiria mais - escreveu na velhice – se fosse criança nos dias de hoje, seria a ausência de criados».

As referências à criadagem da época, que ela admirava pelo «orgulho profissional», são abundantes.

Agatha nunca frequentou uma escola. Estudou em casa e em pensionatos franceses, sobretudo música e canto.

Casou aos 22 anos, em l912, com Archibald Christie, um oficial da Força Aérea, que, finda a I Guerra Mundial, se tornou corretor da City londrina. Amou intensamente o companheiro, viajou pelo mundo com ele, mas após 14 anos de um casamento harmonioso (nasceu uma filha em 1919), o marido apaixonou-se por uma amiga e pediu o divórcio. A escritora conta que olhou para ele e percebeu que afinal era «um desconhecido». Agatha, angustiada, desapareceu durante dias, sofreu horrores, teve uma crise de amnésia.

O seu primeiro livro, um policial, foi escrito durante a guerra mas, recusado por seis editoras, somente foi publicado em 1920. Passou praticamente despercebido.

Durante anos Agatha resistiu a assumir-se como escritora, embora publicasse romances com alguma frequência. O êxito tardou. Para ele contribuiu a personagem que criou, Hercule Poirot, um excêntrico detetive belga muito vaidoso.

A publicação em folhetins dos primeiros livros e a adaptação ao teatro de outros foi para ela uma importante fonte de recursos. No início da II Guerra Mundial já era a escritora mais lida da Inglaterra e nos EUA a sua popularidade era enorme.

Muito inteligente, sensível, com uma imaginação prodigiosa, sentiu sempre dificuldade em se expressar em público, mas cativava as pessoas, era uma comunicadora superdotada.

«Sou muitas coisas - assim se retratou na Autobiografia - bem-disposta, exuberante, distraída, esquecida, tímida, afetuosa, completamente desprovida de autoconfiança, moderadamente altruísta (…) Gosto de sol, de maçãs, de quase todo o tipo de música, de comboios, de quebra-cabeças numéricos, e de tudo o que tenha a ver com números, de nadar no mar, de silêncio, de dormir, de sonhar, de comer, do cheiro de café, de lírios, da maioria dos cães e de ir ao teatro».

Essa confidência não ajuda muito a avaliar a sua personalidade complexa, contraditória, desconcertante.

Nas suas viagens por todos os continentes acumulou uma soma impressionante de conhecimentos. Mas não os transformou numa cultura extensiva, integral. Não tentou sequer esse desafio.

Nos seus livros o leitor não encontra um pensamento estruturado, uma meditação profunda sobre a existência e a História dos países do Médio Oriente onde viveu largos anos.

Ciente das suas limitações, é uma escritora de espumas. Criou um estilo, mas cultiva o superficial, a banalidade.

O tratamento da temática do quotidiano é em alguns escritores de uma grande riqueza. Em Georges Simenon, por exemplo. Nos seus romances, ele retrata admiravelmente les petits gens, as porteiras de Paris, os taberneiros, as prostitutas, as velhas solteironas, os clochards do Sena. O comissário Maigret é a antítese do Poirot de Agatha.

Perguntaram um dia a André Gide quem era na sua opinião o maior escritor da França. A sua resposta desconcertou o entrevistador: Georges Simenon. Exagerou, mas o criador de Maigret atravessou as portas da grande literatura; a mãe de Poirot não.

A gente de baixo não merece atenção especial de Agatha. Não é por snobismo que a esquece. Concentra a sua atenção na sua gente. Com a exceção dos romances de Miss Marple, a velha senhora de uma aldeia inglesa, e de Tommy e Tupence, escolhe as personagens na aristocracia, na gentry britânica, na alta burguesia, no mundo das artes.

Diz ter sido inspirada por Conan Doyle. Mas um abismo intransponível separa Poirot de Sherlock Holmes.

Os seus livros estão infestados de estereótipos e de lugares comuns, de disparates. É categórica na afirmação de que a amizade entre homens e mulheres lhe aparece como um absurdo. Sofreu muito durante as duas guerras. Mas concluiu que «vencer uma guerra é tão desastroso como perdê-la». Não hesitou em confessar que «o melhor de escrever naquele tempo é que eu relacionava o trabalho diretamente com dinheiro».

Cultiva com requinte o suspense. Mas a sua técnica faz dela, para alguns críticos, uma «escritora batoteira». Porquê?

Agatha lembra que gostou sempre de abrir «pistas falsas», para enganar o leitor. Mas oculta até às últimas páginas informações indispensáveis para a identificação do criminoso. Em alguns casos, depois de matar várias pessoas, este só aparece quase no final.

O happy end, talvez para atenuar o choque inerente à violência do tema, é frequente nos seus livros, sobretudo a relação amorosa entre personagens secundárias.

As viagens da juventude e as prolongadas estadas com o segundo marido no Iraque contribuíram para o êxito de alguns dos seus romances.

A pedido de um amigo, escreveu aliás um romance policial cuja ação se situa no Egipto faraónico.

Mas os leitores não encontram nesses livros algo que possa revelar um interesse profundo da autora – sequer interesse - pelas culturas da Assíria, da Suméria, ou do vale do Nilo no tempo do último Ramsés.

Na Autobiografia, iniciada em 1950 e concluída em 1965, três quartos são dedicados à infância, à adolescência, à juventude, ao convívio com o primeiro marido. Os 48 anos vividos com Max Mallowan, o segundo marido, um eminente arqueólogo, merecem-lhe menos atenção. A desproporção choca o leitor.

***

Agatha Christie somente é concebível na Inglaterra do seu tempo. Como mulher e escritora foi totalmente inglesa, inimaginável noutro país, noutro século.
Mas escreveu para milhões de não ingleses, foi por eles admirada como pelos seus compatriotas.

Como compreender, como explicar o seu imenso, surpreendente êxito literário?

Creio que para ele foi determinante ir ao encontro do que é comum no «gosto» da esmagadora maioria dos leitores de qualquer nacionalidade.

Ela escreveu o que as pessoas gostam que lhes digam.

Agatha faz-me pensar nas audiências enormes das telenovelas, na abertura à mediocridade. Penso também no êxito dos comentadores políticos da televisão cujas opiniões ofendem a inteligência.

Obviamente que Aristóteles ou Einstein não poderiam inspirar ao homo sapiens contemporâneo o interesse despertado pelos livros de Agatha Christie.

29.Ago.15 ::  


Autobiografia, Agatha Christie, 900 páginas, Editora ASA, Lisboa,2011

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quinta-feira, 30 de julho de 2015

Kaputt - Um livro inesquecível

* Miguel Urbano Rodrigues
30.Jul.15 :
Curzio Malaparte foi um aventureiro muito talentoso, frívolo, irresponsável, com uma imaginação prodigiosa. Brinca com as palavras, com os sentimentos, com a História. O penúltimo capítulo de Kaputt sobre a atmosfera humana que encontrou na Itália em guerra é talvez o mais malapartiano do livro. Com uma ironia cínica esboça o quadro de uma sociedade decadente, de uma aristocracia agónica, fundida com uma burguesia igualmente corrupta e venal.


Ao abrir uma edição de Kaputt,* de Curzio Malaparte, pensei que iria reler o livro. Engano. Logo na introdução percebi que o desconhecia. Recordei a admiração que senti na juventude pelo autor de A Pele.**

Kaputt (palavra derivada do hebraico antigo) não é propriamente um romance. Escrito na primeira pessoa, não cabe em géneros literários tradicionais. Não é também uma narrativa, mas uma mistura de reportagem, autobiografia e ensaio. Malaparte escreve como um correspondente de guerra que era simultaneamente oficial do exército italiano; escreve como espectador que condena a guerra.Na agressão alemã à União Soviética esteve em muitas frentes, da Roménia à Finlândia.

Kaputt é uma miscelânea de estilos e temas dificilmente imaginável. A guerra, que lhe inspira repugnância e piedade, está omnipresente, mas são muitos os temas que aborda na maior parte do livro. Malaparte é um escritor barroco que domina um vocabulário riquíssimo, floreado, metafórico, com toques musicais.

As transposições, frequentes e inesperadas, são muitas vezes desconcertantes. De diálogos na Suécia com um irmão do rei salta para Capri, Paris, Roma, Belgrado, Berlim, Helsinki, Jassy na frente da Moldávia, para o ghetto de Varsóvia, a Lapónia finlandesa ou o cerco de Leninegrado.

Hans Frank é uma personagem importante. O retrato que apresenta do gauleiter nazi da Polonia é devastador. Mas convive com ele amigavelmente, participa nos seus banquetes e nos do corpo diplomático. O leitor sente que ele se move com prazer nos amores e mexericos da «alta sociedade» da Europa em guerra.

Kaputt é um livro cruel e o autor um cínico que cultiva a piedade, vive o medo e a angústia.

A sua crueldade é marcada por um humor negro, por vezes sarcástico. Como no episódio do cesto com olhos humanos oferecidos ao croata Ante Pavlich pelos seus ustachis. Ou na estória do bordel de Soroca, instalado pelos SS com jovens judias romenas que satisfaziam em média diariamente 50 oficiais e soldados cada uma e apos três semanas eram fuziladas por imprestáveis.

A personagem e o escritor são um poço de contradições.

Na juventude, Malaparte - filho de um alemão e de uma italiana, batizado como Kurt Suckert- foi fascista, participou da Marcha sobre Roma, embora o negue. Entusiasmou-se com Mussolini, mas a admiração não tardou a ceder o lugar a sentimentos de desprezo e aversão. Sempre inconstante, no final da vida aproximou-se do Partido Comunista Italiano.

O seu primeiro livro, A Técnica do Golpe de Estado, levou-o à prisão. Mas ele, ao contrário do que afirma (mente despudoradamente), não cumpriu integralmente o desterro na ilha de Lipari, graças à intervenção do seu amigo Ciano, genro de Mussolini.

Correspondente de guerra na frente da Roménia, com a patente de capitão, as suas reportagens desagradaram aos alemães. Foi afastado, mas voltou e teve acesso à intimidade de altas patentes da Wehrmach e das SS durante a agressão à URSS.

Não consegue ocultar a sua cumplicidade, disfarça-a com um humor macabro. O horror da guerra toca o leitor em páginas em que desfilam cadáveres putrefactos, cavalos mortos, cemitérios nauseabundos, mulheres violadas pela soldadesca.

O escritor foi um aventureiro muito talentoso, frívolo, irresponsável, com uma imaginação prodigiosa. Brinca com as palavras, com os sentimentos, com a História.

O penúltimo capítulo de Kaputt sobre a atmosfera humana que encontrou na Itália em guerra é talvez o mais malapartiano do livro. Com uma ironia cínica esboça o quadro de uma sociedade decadente, de uma aristocracia agónica, fundida com uma burguesia igualmente corrupta e venal. Nos salões do Palácio da princesa Isabel Colonna altos dignitários do regime e diplomatas, a principiar pelo ministro Galleazzo Ciano, criticam alegremente o fascismo, ridicularizam Mussolini e Hitler. Mas não o fazem por patriotismo. Olham para o próprio povo com desprezo. Essa classe social está apodrecida até à medula. Falta-lhe energia para conspirar; cultiva a intriga, a felonia, numa vertigem de festas quase orgíacas, encharcada em whisky e champagne.

Malaparte pinta um retrato demolidor dessa gente.

Em A Pele, escrito anos depois, retoma o tema, mas situa a ação na Nápoles recém-libertada que lhe inspira piedade e paixão.

Inventa personagens que convivem com as reais. O leitor não consegue separar o que é forjado daquilo que o autor viu e viveu.

Em Kaputt a sua intimidade com generais e altos funcionários nazis é instrumental, empurra o leitor para a condenação da casta nazi, monstruosa, desumana.

Em A Pele o elogio constante do povo americano encobre mal o seu desprezo irónico quase afetuoso pela ignorância, ingenuidade e primarismo dos generais da USS Army e do seu corpo de oficiais.

Malaparte fascina pelo talento e erudição, mas simultaneamente inspira desconfiança, um sentimento próximo da repugnância pela sua leviandade.

Morreu em Roma, aos 59 anos, no auge da popularidade. Pergunto: se vivesse alguns anos mais, que rumo tomaria a obra deste grande escritor contraditório, um dos maiores da sua época? Não consigo imaginar. Um abismo separa a Técnica do Golpe de Estado de Kaputt, do jovem fascista que admirava Mussolini e este do amigo de Togliatti.

*Kaputt, Curzio Malaparte,Editora Denoel,Paris,1946
** La Peau, Curzio Malaparte, Editora Denoel, Paris,1959
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Vila Nova de Gaia e Cascais, Junho e Julho de 2015

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sexta-feira, 8 de março de 2013

Catarina, o Pintor morreu !

Victor Nogueira a Sexta-feira, 8 de Março de 2013 às 21:48
 
 
CANTAR ALENTEJANO
Vicente Campinas*
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Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer
Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou
Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou
Aquela pomba tão branca
Todos a querem p’ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti
Aquela andorinha negra
Bate as asas p’ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar
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* Este poema foi musicado por José Afonso, no álbum «Cantigas de Maio», editado no Natal de 1971
Podes ouvi-lo a seguir
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RETRATO DE CATARINA EUFÉMIA
José Carlos Ary dos Santos
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Da medonha saudade da medusa
que medeia entre nós e o passado
dessa palavra polvo da recusa
de um povo desgraçado.
Da palavra saudade a mais bonita
a mais prenha de pranto a mais novelo
da língua portuguesa fiz a fita encarnada
que ponho no cabelo.
Trança de trigo roxo
Catarina morrendo alpendurada
do alto de uma foice.
Soror Saudade Viva assassinada
pelas balas do solna culatra da noite.
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Meu amor. Minha espiga. Meu herói
Meu homem. Meu rapaz. Minha mulher
de corpo inteiro como ninguém foi
de pedra e alma como ninguém quer.
 
 
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CATARINA EUFÉMIA
Sophia de Mello Breyner Anderson
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O primeiro tema da reflexão grega é a justiça
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente
Pois não deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método obíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos
Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
Porque eras a mulher e não somente a fêmea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste
E a busca da justiça continua.
 
 
*****
 
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Margem Sul (canção Patuleia)
Urbano Tavares Rodrigues
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Ó Alentejo dos pobres
Reino da desolação
Não sirvas quem te despreza
É tua a tua nação. 
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Não vás a terras alheias
Lançar sementes de morte
É na terra do teu pão
Que se joga a tua sorte.
 .
Terra sangrenta de Serpa
Terra morena de Moura
Vilas d'angústia em botão
Dor cerrada em Baleizão.
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Ó margem esquerda do verão
Mais quente de Portugal
Margem esquerda deste amor
Feito de fome e de sal.
 .
A foice dos teus ceifeiros
Trago no peito gravado
Ó minha terra morena
Como bandeira sonhada.
 .
Terra sangrenta de Serpa
Terra morena de Moura
Vilas d'angústia em botão
Dor cerrada em Baleizão.
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Podes ouvir aqui interpretado por Adriano Correia de Oliveira
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Catarina Eufémia (1928 – 1954)
Personifica o exemplo de coragem e tenacidade na luta pela liberdade. Trabalhadora rural, Catarina Eufémia reivindicava pão e melhores salários quando foi assassinada em terras de Baleizão pelas forças do regime salazarista. Viviam-se tempos difíceis no Alentejo. Com condições de vida precárias, os camponeses [assalariados rurias] saíram à rua para protestar. Catarina Eufémia - que se supõe ter sido militante comunista - liderava o movimento. Era o símbolo da dedicação aos ideais, como a justiça e a igualdade, um símbolo da resistência do proletariado rural alentejano à repressão e à exploração do salazarismo e, ao mesmo tempo, um símbolo do combate pela liberdade e da emancipação da mulher portuguesa. A sua trágica história tornou-se numa lenda e inspirou vários poetas ao longo de décadas.
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Todo o país estava em luta. Os trabalhadores sofriam a repressão e a exploração económica. Lutavam por condições mais dignas e melhores salários. Sentiam na pele o regime ditatorial de Salazar. No Alentejo, os trabalhadores agrícolas estavam em greve. Já se recorria a mão-de-obra de outras zonas do País que se sujeitava às condições precárias que ofereciam os empresários. A década de 50 foi um período de grandes tensões sociais. E a PIDE estava à espreita, assim como a GNR, que tinha postos nas próprias herdades.
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Em 19 de Maio de 1954, a situação agravou-se. Os assalariados rurais de Baleizão abordaram abertamente um grupo de trabalhadores recém-chegados para que, também eles, reivindicassem melhores condições de trabalho. Os ânimos aqueceram. Catarina Eufémia, uma ceifeira analfabeta, estava à frente do movimento. Mulher de coragem e determinação, lutava por uma sociedade mais justa e, como a própria afirmava, por “pão e trabalho”. Ao ser abordada pelo tenente Carrajola, da GNR, Catarina respondeu com autoridade. No mesmo momento levou vários tiros e morreu. Tinha 26 anos e três filhos. Crê-se que estava grávida. A notícia chocou o País. Catarina Eufémia morreu como uma resistente, exigindo mais dignidade para os trabalhadores agrícolas.
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[Não me parece que a censuira permitisse a notícia da morte de Catarina, assim como não noticiava as lutas e reivindicações dos trabalhadores - VN]  (...)
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retirado do site da RTP - Concurso Os Grandes Portugueses
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Foto de Catarina
litogravura de José Dias Coelho, dirigente do PCP assassinado pela PIDE em 1961 [1] 
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Publicada por Victor Nogueira à(s) Sexta-feira, Fevereiro 23,
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2007   http://kantoximpi.blogspot.pt/2007/02/cantar-alentejano-vicente-campinas.html
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José Dias Coelho, escultor, militante e dirigentte do PCP, forçado à clandestinidade, foi assassinado pela PIDE em 19 de Dezembro de 1961. É dele que fala .Zeca Afonso - A Morte Saiu À Rua
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A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome para qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue de um peito aberto sai
O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o Pintor morreu
Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina, à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou
Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada à covas feitas no chão
E em todas florirão rosas de uma nação
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Podes ouvi-lo aqui


 
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Catarina Eufémia (1928-1954) - assassinada pela GNR a 19 de Maio (Baleizão)
 

 
José Dias Coelho (1923-1961) - assassinado pela PIDE a 19 de Dezembro /Lisboa)



 
Assassinato de Catarina Eufémia, litogravura por José Dias Coelho