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quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Manuel Bandeira - A estrela

* Manuel Bandeira

Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

andorinhas na poesia


foto victor nogueira - ninhos de andorinhas

Quem se lembra destes ninhos, construídos em muitos edifícios em Portugal de lés a lés, ninhos de andorinhas que com o seu chilreio anunciavam o regresso cíclico  da Primavera?  

Quem se lembra dos galos que cocoricavam de madrugada, ao despontar do sol, anunciando um novo alvorecer?

Quem se lembra dos burros, machos e mulas, que durante milénios foram as bestas de carga para transportarem mercadorias e pessoas, puxarem o arado ou a carroça ou fazerem girar as noras e outros aparelhos para extraírem água dos poços?

Poesia sobre as andorinhas

* Fernando Pessoa

Andorinha que vais alta,
Porque não me vens trazer
Qualquer coisa que me falta
E que te não sei dizer?

s.d.
Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa
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* Manuel Bandeira

Andorinha lá fora está dizendo:
— "Passei o dia à toa, à toa!"

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa...
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* Casssiano  Ribeiro   

As Andorinhas de António Nobre 

—Nos
—fios
—ten
sos

—da
—pauta
—de me-
tal

—as
— an/
do/
ri/
nhas
—gri-
tam

—por
—fal/
ta/
—de u-
ma
—cl’a-
ve
—de
—sol
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* Natália Correia  

O Espírito 

Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;

E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.

Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:

Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.

Natália Correia, in “Poesia Completa
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* Florbela Espanca 

Filtro

Meu Amor, nao é nada: - Sons marinhos
Numa concha vazia, choro errante...
Ah, olhos que nao choram! Pobrezinhos...
Nao há luz neste mundo que os levante!

Eu andarei por ti os maus caminhos
E as minhas maos, abertas a diamante,
Hao de crucificar-se nos espinhos
Quando o meu peito for o teu mirante!

Para que corpos vis te nao desejem,
Hei de dar-te o meu corpo, e a boca minha
Pra que bocas impuras te nao beijem!

Como quem roça um lago que sonhou,
Minhas cansadas asas de andorinha
Hao-de prender-te todo num só vóo...
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* Maria João Brito de Sousa

Acenar a Primavera nas asas duma andorinha

Aonde as andorinhas que as não vejo?
Atrasos? Nunca os houve neste céu!
Talvez seja, afinal, engano meu
Ou talvez seja céu quanto eu desejo...

Aonde os negros fatos que eu invejo?
Aonde os aventais que Deus teceu?
Aonde as asas negras como breu
Criando aéreas pontes sobre o Tejo?

Aonde as andorinhas que chegavam,
Em louca revoada, ao Portugal
Que havia nos meus tempos de menina?

Até onde os meus olhos alcançavam
As negras asas davam-me o sinal
Para acender, num sonho, a luz divina.

 
Maria João Brito de Sousa - 18.03.2008
~~~~~~~

(Popular)

Ó meu amor de tão longe,
Escreve-me uma cartinha;
Se não tiveres papel,
Nas asas duma andorinha

(Cancioneiro da Serra de Agra)

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Bertolt Brecht - Aos que vierem depois de nós

* Bertolt Brecht
(Tradução de Manuel Bandeira)


Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.


Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.

http://www.releituras.com/bbrecht_aosquevierem.asp

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Manuel Bandeira - A Estrela da Manhã

* Manuel Bandeira


Eu quero a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã

Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda a parte

Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa? Eu quero a estrela da manhã

Três dias e três noites
Fui assassino e suicida
Ladrão, pulha, falsário

Virgem mal-sexuada
Atribuladora dos aflitos
Girafa de duas cabeças
Pecai por todos pecai com todos

Pecai com os malandros
Pecai com os sargentos
Pecai com os fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras

Com os gregos e com os troianos
Com o padre e com o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto

Depois comigo

Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas
comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples
Que tu desfalecerás
Procurem por toda parte
Pura ou degradada até a última baixeza
eu quero a estrela da manhã

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Manuel Bandeira - Versos de Natal

*  Manuel Bandeira

Versos de Natal

Espelho, amigo verdadeiro,
Tu reflectes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exacto e minucioso,
Obrigado, obrigado!

Mas se fosses mágico,
Penetrarias até ao fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera de Natal
Pensa ainda em por os seus chinelinhos atrás da porta.

Manuel Bandeira – 1939

sábado, 1 de março de 2014

Manuel Bandeira - Bacanal

           
 
                                                           QUERO BEBER!     Cantar asneiras
                                                             No esto brutal das bebedeiras
                                                           Que tudo emborca e faz em caco...

                                                                         Evoé Baco! 

                                                              Lá se me parte a alma levada
                                                               No torvelim da mascarada,
                                                             A gargalhar em doudo assomo...

                                                                           Evoé Momo!

                                                                 Lacem-na toda, multicores,
                                                                As serpentinas dos amores,
                                                                Cobras de lívidos venenos...

                                                                         Evoé Vênus!

                                                           Se perguntarem: Que mais queres,
                                                               Além de versos e mulheres?...
                                                         Vinhos!... o vinho que é o meu fraco!...

                                                                    O alfanje rútilo da lua
                                                                  Por degolar a nuca nua
                                                          Que me alucina e que eu não domo!

                                                                         Evoé Momo!

                                                               A Lira etérea, a grande Lira!...
                                                               Por que eu extático desfira
                                                            Em seu louvor versos obscenos.

                                                                          Evoé Vênus!



do livro Carnaval

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

o domingo na poesia segundo vários escritores - 19 - os bobos e truões - 04

29 de Novembro de 2013 às 0:21
* Egito Gonçalves - Sobre os poemas
* Carles Baudelaire - La Betarice
* Guerra Junqueiro - Parasitas
* Manuel Bandeira - Bacanal

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* Egito Gonçalves

Sobre os poemas

         1

     Há poetas que constróem o mundo nos cafés,
     outros que o fazem no claro-escuro
     entre as prisões e os intervalos.

     Há poetas que aguardam cartas de apresentação
     nem eles sabem para onde:
     para a vida que falhou?, para a manteiga
     que lhes foi negada?

     Mas todos têm um sonho, todos
     se esforçam por valer o pão que amassam
     — lançam seu delicado peso na balança.

     Eles sabem, esses poetas,
     que nada é eterno e imutável.


        2

     Tal a "Cadeia de Santo Onofre:
     Copie o texto: envie a cinco amigos"...
     há poetas que se multiplicam, fendem
     a vaga limite, impedem o suicídio,
     explicam a vida, argamassam
     dedicação e raiva.

     Girassóis, rodam sobre si mesmos,
     indicam o ponto onde a luz se abre.


        3

     Há poetas cuja poesia reagrupa, fornece
     uma canção à cidade, martela
     os que dormem alheios, move-se
     silenciosamente ao jeito das estátuas.

     Pacífica vaca ruminando na linha do rumo;
     rosto impreciso solidificando breve;
     tênue tinta azul no papel claro ...

     Os poetas têm
     como os peles-vermelhas do cinema
     o seu fumo e os seus cobertores.


        4

     Há poetas que renegam cartas
     de apresentação para o arrivismo;
     recusam a mão ao salário da trampa;
     não enfeixam o nome e a desonra
     nos telegramas do medo.


     Enquanto bebem o café um histrião noturno
     arenga; executa o seu número; recebe
     por nova pirueta uma ajuda de custo.

~~~~~~~~~~

* Charles Baudelaire

La Betarice

Dans des terrains cendreux, calcinés, sans verdure,
Comme je me plaignais un jour à la nature,
Et que de ma pensée, en vaguant au hasard,
J'aiguisais lentement sur mon coeur le poignard,
Je vis en plein midi descendre sur ma tête
Un nuage funèbre et gros d'une tempête,
Qui portait un troupeau de démons vicieux,
Semblables à des nains cruels et curieux.
À me considérer froidement ils se mirent,
Et, comme des passants sur un fou qu'ils admirent,
Je les entendis rire et chuchoter entre eux,
En échangeant maint signe et maint clignement d'yeux:
— «Contemplons à loisir cette caricature
Et cette ombre d'Hamlet imitant sa posture,
Le regard indécis et les cheveux au vent.
N'est-ce pas grand'pitié de voir ce bon vivant,
Ce gueux, cet histrion en vacances, ce drôle,
Parce qu'il sait jouer artistement son rôle,
Vouloir intéresser au chant de ses douleurs
Les aigles, les grillons, les ruisseaux et les fleurs,
Et même à nous, auteurs de ces vieilles rubriques,
Réciter en hurlant ses tirades publiques?»
J'aurais pu (mon orgueil aussi haut que les monts
Domine la nuée et le cri des démons)
Détourner simplement ma tête souveraine,
Si je n'eusse pas vu parmi leur troupe obscène,
Crime qui n'a pas fait chanceler le soleil!
La reine de mon coeur au regard nonpareil
Qui riait avec eux de ma sombre détresse
Et leur versait parfois quelque sale caresse.


— Charles Baudelaire



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* Guerra Junqueiro

Parasitas

No meio duma feira, uns poucos de palhaços
Andavam a mostrar, em cima dum jumento
Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,
Aborto que lhes dava um grande rendimento.
Os magros histriões, hipócritas, devassos,
Exploravam assim a flor do sentimento,
E o monstro arregalava os grandes olhos baços,
Uns olhos sem calor e sem entendimento.
E toda a gente deu esmola aos tais ciganos:
Deram esmola até mendigos quase nus.
E eu, ao ver este quadro, apóstolos romanos,
Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz,
Que andais pelo universo há mil e tantos anos,
Exibindo, explorando o corpo de Jesus.

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*  Manuel Bandeira

    Bacanal

    Quero beber! cantar asneiras
    No esto brutal das bebedeiras
    que tudo emborca e faz caco...

    Quero beber! cantar asneiras
    No esto brutal das bebedeiras
    que tudo emborca e faz caco...
          Evoe' Baco!

    La se me parte a alma lavada
    No torvelim da mascarada,
    A gargalhar em doudo assomo...
         Evoe' Momo!

    Lacem-na toda, multicores,
    As serpentinas dos amores,
    Cobras de lividos venenos ...
         Evoe' Venus!

    Se perguntarem: Que mais queres,
    Alem de versos e mulheres?...
    - Vinhos!... o vinho que é meu fraco!...
         Evoe' Baco!

    O alfange rutilo da lua,
    Por degolar a nuca nua
    Que me alucina e que eu nao domo!...
         Evoe' Momo!

    A Lira etérea, a grande Lira!...
    Por que eu extatico desfira
    Em seu louvor versos obscenos,
         Evoe' Venus!


               Manoel Bandeira (publicada em 1918)

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vem de o domingo na poesia segundo vários escritores - 18 - os bobos e truões - 03

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Diogo Rivera -- Revolução Mexicana
Diogo Rivera -- Revolução Mexicana



Caravaggio - Os trapaceiros
Caravaggio - Os trapaceiros



Caravaggio - Baco

Caravaggio - Baco

Vigee Lebrun - Bacchante

Vigee Lebrun - Bacchante

Frieze in Seefeld (Zürich) por A. Meyer (1900)

Frieze in Seefeld (Zürich) por A. Meyer (1900)

O jovem Baco e seus seguidores, (1884) de William-Adolphe Bouguereau

O jovem Baco e seus seguidores, (1884) de William-Adolphe Bouguereau

A Bacanal, de Peter Paul Rubens.

A Bacanal, de Peter Paul Rubens.