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quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Mistificações em torno do 25 de Novembro

 
* Ana Sousa

 ·
Da responsabilidade do esquerdismo no 25 de Abril não se fala. Não se fala de um Otelo que abandonou os seus e foi para casa. Não se fala das mistificações de Vasco Lourenço a tentar retocar a sua imagem para a posteridade . Não se fala do ElP , do MDLP e de um Carlucci maestro e financiador da contra revolução a mando do Império . 

Os ditos historiadores que participaram nos acontecimentos fazem a história pelas lunetas da sua facção, como é o caso de um Rosas ou de um  Pacheco Pereira  , no Público , no seu mal disfarçado anti comunismo , diz-nos que por alturas do 25 de Novembro eram as forças esquerdistas que dominavam as ruas de Lisboa..Coitado, nenhum oftalmologista  o consegue curar

...Até descobriu um inexistente discurso secreto de Álvaro  Cunhal que  certamente lhe terá sido dado por Zita Seabra que o terá descoberto numa das suas peregrinações ao Santuário de Fátima .

Dos mais recentes não posso deixar de citar o livro da brilhante estúpida Varela que no seu militantismo trotsquista avant lá lettre ainda não percebeu o que é a relação de forças ou a correlação de forças. Valha-nos Deus e a Santíssima Trindade 


26 Novembro 2025 
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terça-feira, 25 de novembro de 2025

Zita Seabra - 25 de Novembro, 50 anos depois: algumas verdades

* Zita Seabra 

O PCP não recuou na via revolucionária por ordem de Ponomariov ou de Suslov, que não quereriam uma Cuba na Europa. Recuou quando Cunhal percebeu que não tinha outro caminho e não podia fazer mais nada

25 nov. 2025 

história do 25 de Novembro de 1975 está feita e bem documentada. Vários testemunhos e memórias de quem participou registaram esse dia inesquecível para quem o viveu do lado dos vencedores ou dos vencidos. No entanto, parece-me importante recordar alguns factos e homenagear os intervenientes decisivos para os acontecimentos marcantes desses dias que puseram fim ao PREC e à tentativa de tomada de poder pelo PCP, unido às forças civis e militares da esquerda radical.. Não seria necessário escrever este texto se não existisse tanto empenho por tantas pessoas em fazer esquecer esta data ou deturpar a ocorrência.

Depois dos tempos de unidade de um Portugal em festa pela queda da ditadura, sabia-se que o PCP tinha um programa a cumprir e uma missão histórica a concretizar, sabia-se também quie não queria que se consolidasse uma democracia burguesa, igual a tantas outras europeias, em que os trabalhadores e a sua vanguarda, a classe operária, continuasse a ser explorada, mas antes passar a um Portugal socialista a caminho do comunismo. Obviamente, era necessário, antes do mais, acabar com a guerra colonial que estava na origem do golpe de Estado levado a cabo pelos militares no 25 de Abril.

Se os comunistas não quisessem e não tivessem como objetivo estratégico passar à fase seguinte da revolução, ou se simplesmente desejassem construir um país livre e democrático, uma democracia liberal, um Estado de Direito, fazer a descolonização, tal teria acontecido e sem mais sobressaltos revolucionários. Mas esse não era o objetivo, nem essa perspectiva constava do programa do PCP. Sonhava-se com uma sociedade socialista a caminho do comunismo. Esclarecia-se mesmo que esta pretensão era científica e inevitável, tal como tinha sido escrito por Marx e Engels e concretizado por Lenine. Assim, passou-se de imediato, desde a chegada de Cunhal ao aeroporto, a concretizar esse objetivo, razão de ser da existência e da luta dura que o PCP travara durante a ditadura. Não se pretendia preparar um novo golpe de estado, mas antes passar à insurreição popular armada, resultante de uma aliança povo/militares ou, como se chamou em Portugal, Aliança Povo/MFA, para alcançar a revolução socialista.

Vejam,os os antecedentes. Álvaro Cunhal dirigiu o PCP desde que fugiu da Cadeia de Peniche, chegando rapidamente a Secretário-Geral em 1960.

Nessa época, o movimento comunista internacional estava profundamente dividido, a cisão sino-soviética, ocorrida nos anos 50/60, provocou divergências profundas entre a URSS de Khrushchov e a China de Mao Tse Tung, fragmentando o movimento comunista internacional.

Cunhal chega à direção do PCP e redireciona a sua linha política, considerando que se vivia um “desvio de direita”. Publica “Rumo à Vitória”, recolocando o PCP na linha de fidelidade ao PC da URSS, ao contrário dos partidos comunistas europeus, os quais rejeitaram a dependência e o controle de Moscovo e assumiram um compromisso com a democracia parlamentar e com o resultado das eleições pluripartidárias. O PC italiano, o espanhol e o francês defendiam oficialmente um “caminho democrático para o Socialismo”, numa célebre declaração conjunta, para se afirmarem como partidos democráticos, demarcando-se do caminho revolucionário do PCP.

Conheci pessoalmente os dirigentes desses partidos, ainda tenho uma caneta oferecida por Berlinguer, já Santiago Carrilho ficou em minha casa quando veio olhar de perto a Revolução dos Cravos. Quanto a Marchais, conheci-o mais tarde numa iniciativa sobre o Vietname, em Paris. No PREC as duas vias para o comunismo e o consequente debate ideológico estavam presentes, Cunhal era praticamente o único dirigente que restava na Europa que mantinha fidelidade à União Soviética, com Podgorny a acabar e Suslov a ascender a principal ideólogo.

Fernando Farinha

Cunhal tinha definido uma revolução em duas fases: uma “Democrática-Nacional” e outra Socialista, que se seguiria à primeira, seguindo o modelo das revoluções russas de Fevereiro e Outubro de 1917

É nesta conjuntura que Cunhal define o Programa do PCP para combater o fim da ditadura através de um golpe de Estado e defender a Insurreição Popular Armada como fase seguinte. Por isto mesmo, Cunhal desconfiou do golpe militar do 25 de Abril, ainda em preparação, como do interior lhe eram enviadas informações do que se preparava. Mas nem essas notícias, nem a sua preparação, conseguiram convencê-lo, ao contrário dos dirigentes do PCP que estavam em Portugal na luta clandestina – Carlos Brito, Octávio Pato, entre muitos outros, e eu própria (camarada Teresa). Tanto não acreditava que, já depois da saída da coluna militar das Caldas, Cunhal convocou uma reunião do Comité Central ainda para a União Soviética, mas que se veio depois a realizar efetivamente em Alhandra.

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No Programa que escreveu, a primeira fase da revolução é chamada de Revolução Democrática e Nacional, a segunda fase é a da Revolução Socialista ou, para facilitar a compreensão e comparando com a Rússia, a primeira seria a revolução de Fevereiro e a segunda a revolução de Outubro. Sobre isso escreveu Cunhal em 1971, esclarecendo os “objetivos programáticos do PCP para as duas etapas da revolução: a fase democrática e nacional poderá ser (parafraseando Marx e Engels) o prelúdio da revolução socialista”, esclarecendo que “a realização da revolução Democrática e Nacional criará condições favoráveis para a conquista do poder pelo proletariado”. Das condições concretas “dependerá a possibilidade do caminho pacífico, ou da necessidade de uma luta violenta”. Ainda nesse mesmo texto demonstra “a inevitabilidade científica da passagem de uma fase para a outra” (in Radicalismo Pequeno Burguês de Fachada Socialista, 1971).

É neste enquadramento teórico que o PCP chega ao PREC, Processo Revolucionário em Curso, e acelera a luta pela tomada do poder, a partir de Janeiro, a pretexto da unicidade sindical, e até ao 25 de Novembro.

OPCP tinha um rumo claro e preciso da tática e da estratégia a seguir na luta pelo socialismo até ao comunismo. Para isso aproveita bem o 11 de Março e, a partir do gabinete de Vasco Gonçalves, concretiza-o quase literalmente.

Partindo dos Governos de Vasco Gonçalves e do seu gabinete, juntamente com os sectores radicais de esquerda política e das forças armadas, avançou-se para as nacionalizações, a reforma agrária, Caxias encheu-se com mais presos políticos do que havia antes do 25 de Abril.

Alguém imagina que se o PCP não estivesse na vanguarda da revolução se tal tivesse acontecido? O PCP fez tudo para impedir as eleições para a Constituinte porque o povo, dizia, não estava preparado para tal. Conseguiu adiá-las, mas a 25 de Abril realizaram-se e perdeu-as mesmo com o apelo do MFA para que aqueles que não soubessem muito de política votassem em branco. Perdeu as eleições e logo a seguir, numa clara demonstração de que não reconhecia os resultados, o PCP impediu a entrada do Dr. Mário Soares no estádio 1 de Maio, ele o vencedor das eleições.

Em choque de manifestações, barricadas e medição de forças viveu-se depois o verão quente. O poder estava na rua e os sovietes “à portuguesa” proliferavam: comissões de trabalhadores, comissões de moradores, quartéis sublevados para rumar à Revolução socialista o Povo e o MFA. O governo, que não correspondia ao resultado eleitoral, não tinha qualquer poder, como reconheceu Pinheiro de Azevedo. Havia armas e barricadas por todo o lado para quê? Com que objetivo estratégico? Expliquem bem a tese dos que asseguram que o PCP não queria o poder revolucionário.

Só parou no 25 de Novembro confrontado com a realidade militar e civil que se lhe opunha. Não recuou no seu Programa revolucionário por ordem de Ponomariov, nem de Suslov, que não quereriam uma Cuba na Europa, como escreveu o historiador José Pacheco Pereira esta semana no Jornal Público. Essa tese é uma diminuição ridícula de Álvaro Cunhal, que recuou porque a correlação de forças se tornou evidente pela ação das chefias da Força Aérea, dos Comandos e dos militares moderados do Grupo dos Nove, do general Eanes e dos partidos democráticos de Mário Soares, Sá Carneiro, Adelino Amaro da Costa, Freitas do Amaral e da Igreja católica. O PCP recuou quando Cunhal percebeu que não tinha outro caminho e não podia fazer mais nada.

Suslov, o grande ideólogo do regime comunista e amigo de Cunhal, esse sim quando percebeu o recuo quis realmente perceber as causas e se era definitivo. Ou se era um passo atrás para poder dar dois em frente mais tarde, como ensinou Lenine. Por esse motivo, eu e o dirigente da União da Juventude Trabalhadora (UJT) da altura, José Pedro Correia Soares, fomos convidados a ir a Moscovo reunir – sei que não fomos os únicos. Recordo bem a emoção de estar pela primeira vez em Moscovo, circular pelos salões do Kremlin até ao gabinete de Suslov e reunir com ele para que pudesse certificar-se da razão do recuo.

Decisivo neste percurso do PREC foi, desde logo, o dirigente Jaime Serra, membro da Comissão Política e do Secretariado do PCP. Era um verdadeiro revolucionário, herói mítico do PCP, e um dos fundamentais homens de confiança do Álvaro Cunhal. Diria, sem exagero, que Jaime Serra foi sempre visto como um Trotsky (militar e estratega da ação) pela vida revolucionária que levou. Várias vezes preso, torturado e condenado, conseguiu sempre fugir das cadeias onde o meteram. São famosas as suas palavras quando assegurou no Tribunal Plenário que o julgou pela última vez, dizendo que podiam condená-lo a quantos anos quisessem que fugiria sempre da cadeia. Três vezes escapou, sempre de forma espetacular, da Cadeia de Caxias e de Peniche, revelando uma coragem sem limite, tanto na tortura da PIDE como na própria concepção das fugas, dignas de um filme ou série policial. Antes do 25 de Abril foi o mentor e fundador do braço armado do PCP contra o aparelho colonial, a ARA, dissolvida no 25 de Abril, sem vítimas mortais nos seus atentados.

Jaime Serra e Jerónimo de Sousa

Jorge Amaral/Global Imagens

Jaime Serra, que chegou a ser visto como o Trotsky do PCP (pois controlava o sector militar, à semelhança do revolucionário russo), já no fim da vida, numa cerimónia com Jerónimo de Sousa

Gostava de estar sempre no meio da ação revolucionária para ajuizar pessoalmente das decisões, foi deputado à Constituinte e foi um dos cercados no mês de Novembro. Na verdade Jaime Serra foi um dos que preparou as ações revolucionárias do PCP, participando pessoalmente em reuniões do MFA, como se sabe, incluindo as que decidiram a ocupação das bases aéreas na madrugada de 25 de Novembro. Cunhal dirigia politicamente o PCP, enquanto ele comandava e preparava a insurreição popular armada – essa sua participação está documentada no despacho do Juiz Francisco Gouveia Pinto que averiguou as FP25, arquivado na amnistia às FP e publicado mais tarde pelo jornal Expresso. Jaime Serra foi o controleiro dos militares comunistas de patente e o responsável pelo sector militar até ao 25 de Novembro e fundamental na decisão de avançar no Verão Quente e na orientação dos militares comunistas, mas também para recuar no dia 25 de Novembro.

Melo Antunes que teve um papel decisivo nestes dias e marcante sobre o futuro dos comunistas portugueses. Amigo do PCP desde antes do 25 de Abril, foi ele que fez chegar ao PCP clandestino o documento-programa do MFA. Não era, nem nunca foi, membro do PCP, mas sim – na minha opinião pessoal – um eurocomunista simpatizante das teses tão em moda de Gramsci, Berlinguer, Carrillo ou Togliati, era um homem culto e muito conhecedor dos livros dos intelectuais de esquerda da época.

No 25 de Novembro foi decisivo para a não ilegalização do PCP. Era evidente que o seu poder estava na rua, nos sindicatos, ou nas universidades, e nalguns quartéis. A ilegalização faria dele mártir e a situação em Portugal caminharia para uma guerra civil.

Melo Antunes era também respeitado pelo PCP porque tinha tido um papel decisivo na descolonização, muito maior do que o de Mário Soares, e conhecia muito bem os movimentos de libertação das ex-colónias. Foi Ministro sem Pasta para a definição da política de descolonização (Maio  de 1974 a Março de 1975) e definiu-a. Foi Ministro dos Negócios Estrangeiros de Março a Setembro de 1975 e teve responsabilidades políticas na forma como decorreu a independência das ex-colónias, esteve pessoalmente no Acordo de Lusaka (Moçambique), no de Alvor (Angola) e no de Argel (Guiné e Cabo Verde).

Melo Antunes foi uma figura central em todo o processo, temia mesmo a possibilidade de uma guerra civil, mas na famosa intervenção que fez logo a seguir mantém a ideia de em Portugal não devíamos ter uma sociedade capitalista

A tese bizarra de que Cunhal recuou durante o Verão Quente, ou depois da Assembleia de Tancos, e de que nada tem a ver com o 25 de Novembro, não faz qualquer sentido se olharmos para Melo Antunes e as suas atitudes públicas. Como explicar a declaração de Melo Antunes nesse mesmo dia? Tenho dele a memória de um homem culto, racional, sabendo sempre o que queria fazer, pelo que não se percebe porque iria falar da não ilegalização do PCP se nada se passava com o Partido Comunista e o golpe se resumia a umas aventuras irresponsáveis entre militares baralhados e radicalizados?

Analisando seriamente os factos desse dia percebe-se bem o momento do recuo. As chefias militares da Força Aérea tiveram um papel decisivo nesse facto e sobre isso não resta nenhuma dúvida. Quando os aviões vieram da base de Cortegaça e passaram num voo rasante por Lisboa e Setúbal percebeu-se claramente de que lado estava a força militar e que a ocupação das bases pelos paraquedistas servia de pouco. Fui chamada à sede do PCP na António Serpa e recebi ordem para desmobilizarmos. Na verdade, os aviões, que deviam estar estacionados nas bases aéreas quando os paraquedistas avançaram e as tomaram, tinham sido desviados para Cortegaça e os que ficaram nas bases estavam incapazes de voar. Sem aviões não se ganha uma insurreição popular armada.

Um relatório da época relata em pormenor e oficialmente o que se passou. É fácil perceber como essa operação de dissuasão, de resistência, surpreendeu todos e foi determinante para o recuo de qualquer espécie de golpe. Pensada e executada ao longo de meses, sob a liderança do General Fernando Vasquez, teve como comandante da esquadra dos sete aviões que levantaram de Cortegaça o General Vaz Afonso. Esta operação secreta teve o nome de “Míscaros” com direito a uma placa evocativa num restaurante de Cascais, onde durante todo o Verão se reuniam secretamente os oficiais da Força Aérea.

Muitos outros militares foram importantes para que Portugal seguisse no caminho da democracia pluralista e do estado de direito ou, por outras palavras, para que o golpe do 25 de Novembro fosse derrotado. Os comandos eram um foco determinante de resistência aos militares revolucionários do PCP e da extrema-esquerda. Foram dos primeiros a perceber para onde caminhava a revolução e a organizar os comandos para a resistência. O culminar deu-se no dia 25 de Novembro. Foram pôr ordem em diversos locais e sofreram baixas frente à Polícia Militar. Mas particularmente significativo e eficaz foi o facto de os comandos cumprirem com a libertação da RTP.

A liberdade de imprensa tinha sido gravemente atingida no Verão Quente. Saramago, então no Diário de Notícias, saneara todos os jornalistas de esquerda e de direita não pró-comunistas, o jornal República foi atacado, a Renascença cercada e a RTP ocupada, no dia 25 de Novembro. Para quem defende a tese de que nada estava a ser preparado e de que Cunhal tinha feito recuar o PCP por ordens de Moscovo, provavelmente com um telefonema de Brejnev para não perturbar a descolonização, é importante que se verifique o que aconteceu na comunicação social nesse dia, e o que levaram a cabo os comunistas naqueles locais.

Por outro lado, há ainda os que imaginam que Álvaro Cunhal não dirigia o seu Partido e ignorava o que os militantes civis e militares andavam a ocupar. Os Comandos de Jaime Neves  foram interromper a RTP ocupada por Duran Clemente que não estava a ver o filme com Danny Kaye “O Homem do Diner´s Club”, pois isso só aconteceu depois de o Major José Coutinho retirar a emissão do ar. Não foi certamente para passar o tempo que o Presidente da RTP, o Major Pedroso Marques, foi fechado numa sala do Lumiar por Duran Clemente e libertado por ordem de Eanes.

Nos quartéis do Sul, excetuando os Comandos que sempre se mantiveram unidos e prontos a defender o regime democrático, havia a maior das confusões revolucionárias. No Norte, Eurico Corvacho, que comandava a região militar e era muito próximo do PCP e amigo pessoal de Ângelo Veloso, sendo que por lá eram poucos os militares da esquerda radical, foi demitido e substituído por Pires Veloso. Essa substituição foi fundamental para que os partidos democráticos ameaçassem mudar a Constituinte para o Norte e que o país fosse divido entre Norte e Sul, a partir de Rio Maior.

Mário Soares, o fundador do PS, tinha grande experiência política e sabia o que era o comunismo, conhecia Cunhal e a sua família. Creio que, durante os primeiros meses após o 25 de Abril, ele acreditava que os ímpetos revolucionários do PCP e da extrema esquerda civil e militar se resolveriam com o resultado de eleições livres. Porém, logo no início do PREC, percebeu que tal não ia acontecer e que teria que enfrentar o radicalismo revolucionário da esquerda comunista. Percebeu também que precisaria de demonstrar o apoio popular, na rua, à liberdade e à democracia, enfrentando o PCP e a esquerda radical civil e militar. Por estar consciente disto, Mário Soares saiu do cerco da Constituinte pela residência oficial do primeiro-ministro, indo para o Norte com Sá Carneiro e o CDS.

Alguém imagina que Mário Soares iria para o Norte se não existisse uma ameaça real revolucionária no Portugal libertado da ditadura? A que propósito? Ou que o cerco à Constituinte tivesse sido apenas uma manifestação dos trabalhadores da construção civil que se equivocaram e foram solicitar aumentos salariais frente à Constituinte? Mas isto faz algum sentido?

Mesmo assim alguns ainda avançam, quando argumentam que não houve nenhuma intenção de fazer um golpe revolucionário, que Cunhal, um homem superiormente inteligente dizem, não se ia meter em tais riscos e já tinha recuado, tanto mais que Angola já estava independente. Então por que motivo Mário Soares e os restantes dirigentes estão no Norte do país? Vale a pena lembrar os apelos dos sindicatos e da CGTP à greve geral nacional e à unidade Povo/MFA.

Apartir do 25 de Novembro de 1975 o país voltou à calma e o PREC acabou. Ao longo de vários anos, fez-se caminho para afirmar a liberdade, a democracia e o Estado de direito. Foi por pouco que Portugal não foi uma Cuba europeia com consequências humanas, económicas, cívicas e sociais.

Por isso é importante comemorar o 25 de Abril mas é igualmente importante lembrar o 25 de Novembro que, ao contrário do que ainda hoje acontece em Cuba, libertou presos de Caxias, repôs a liberdade de imprensa e consolidou a democracia ocidental em que vivemos.

O PCP recuou nesse dia, não por qualquer telefonema de Brejnev a Cunhal, mas porque mediu forças militares e percebeu que não tinha a maioria das forças militares do seu lado, nem as mais decisivas. O país entrou assim na normalidade e seguiu o seu rumo. A exceção foram as forças da esquerda radical, inspiradas por Otelo que não reconheceram a derrota e acederam ao terrorismo e a diversos atentados das FP25 de Abril, sucessoras das Brigadas Revolucionárias de Isabel do Carmo e Carlos Antunes. Essas fizeram diversas vítimas mortais entre as quais uma criança e o Gaspar Castelo Branco, pai de um amigo meu a quem dedico este artigo. Nessa escalada o PCP nunca esteve, obviamente. 

 https://observador.pt/opiniao/25-de-novembro-50-anos-depois-algumas-verdades/

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Espresso Book Machine - Livros à medida das nossas necessidades

Print on demand


Público - 12.04.2010 - 12:18 Por Isabel Coutinho
Em tempos de crise, as editoras têm de controlar os custos. Depois do sucesso internacional da Espresso Book Machine, que quer ser uma espécie de caixa multibanco de produzir livros, Zita Seabra cria em Portugal uma empresa de print on demand.
A Espresso Book Machine elimina o inventário, o armazenamento, o 
custo de transporte, as sobras  
A Espresso Book Machine elimina o inventário, o armazenamento, o custo de transporte, as sobras (Corbis/VMI)

Quando se passa por uma máquina de impressão a pedido e ela não está a funcionar, até se pode confundir o aparelho com uma corriqueira e gigantesca máquina de fotocópias.

Durante anos, vi máquinas de print on demand (impressão a pedido) expostas em feiras dedicadas ao sector livreiro, como a Feira do Livro de Frankfurt ou a Feira do Livro de Londres, e nunca lhes prestei grande atenção. Pareciam trambolhos e quando olhávamos para elas, sem estarem a funcionar, a ideia de que através delas e do print on demand se podia tornar mais racional e menos arriscada a edição de livros parecia ainda uma solução distante.

Foi numa tarde do final de Maio de 2009 que tudo isto mudou. Na Book Expo America (BEA), em Nova Iorque, vi pela primeira vez a Espresso Book Machine a funcionar. Era impressionante.

Esta máquina que imprime e encaderna livros continuava a ter aquele aspecto de fotocopiadora (apesar de ser mais pequena do que as outras) mas quando, num instante, produziu um livro com um acabamento perfeito, conquistou-me. Passou de patinho feio a cisne.

Na verdade, a presença daquela máquina de impressão a pedido na BEA fazia parte de uma estratégia do grupo editorial Perseus. Queriam provar que actualmente é possível produzir um livro em pouquíssimo tempo e distribuí-lo, em inúmeros formatos, em tempo recorde.

Um mês antes, a 28 de Abril de 2009, este grupo editorial norte-americano tinha criado um site onde pedia aos cibernautas que escrevessem a continuação dos seus livros preferidos. O projecto chamava-se Book: The Sequel.

Pediam: “Peguem num livro. Imaginem uma sequela. Escrevam a primeira frase. Dêem-lhe um título fantástico.”

O site (www.bookthesequel. com) ficou aberto durante um mês. No dia 28 de Maio de 2009, deixaram de aceitar contribuições e começaram a produzir “o livro” de várias formas.

O visionário

A obra Book: The Sequel first lines from the classics of the future by inventive imposters foi então produzida, em 48 horas, no recinto desta feira em Nova Iorque. Foi editada, desenhada, paginada e produzida em audiolivro (mp3), em formato digital, eBook, para várias plataformas e fizeram também uma versão impressa na Espresso Book Machine. Esse foi o momento mais emocionante. Em poucos minutos, a máquina de print on demand, ligada a um computador onde existia o ficheiro informático com o livro, imprimiu, organizou as páginas, cortou-as, fez a capa (a cores e brilhante), encaixou-a no maço de folhas e colou tudo. O barulho não era ensurdecedor e podíamos ver passo a passo a impressão e encadernação da obra. Num minuto, a máquina imprimiu cem páginas e de dentro dela saiu um livro, que, se eu não tivesse visto ser impresso à minha frente, pensaria ser um livro de bolso tradicional.

Um assombro. Já passou quase um ano e o meu exemplar de Book: The Sequel first lines from the classics of the future by inventive imposters está na estante para dar e durar. Continua com a capa colorida superbrilhante; as páginas não se descolaram; enfim, o tempo passou e o livro não se desfez.

Por trás desta máquina está a empresa On Demand Books (http://www.ondemandbooks.com) e o famoso editor Jason Epstein. Conhecido por ser o responsável pela colecção Vintage paperbacks (onde publicou Norman Mailer, Nabokov, Gore Vidal ou Philip Roth) e por ter criado, em 1952, quando era editor da Doubleday, a chancela Anchor Books, que foi a primeira a dedicar-se exclusivamente ao formato de livro de bolso. Jason Epstein ajudou também a sua ex-mulher, Barbara Epstein, a fundar a “The New York Review of Books”. Tem uma longa experiência no sector e fama de visionário.

Em 1999, Jason Epstein fez uma série de palestras na Biblioteca Pública de Nova Iorque. Imaginou que no futuro iria aparecer uma máquina que imprimia livros e os vendia de uma forma quase automática. Teria um preço acessível e poderia ser colocada em livrarias de bairro, nos cafés, em hotéis, nos aeroportos ou em cruzeiros de longo curso. Com ela, qualquer pessoa teria facilmente acesso a livros (esgotados ou não). Nessa altura, Jason Epstein não sabia que o protótipo desta máquina já existia: tinha sido inventada por Jeff Marsh. Esta história está contada no site da On Demands Books, empresa que Jason Epstein fundou em 2003 com o seu sócio, Dane Neller (antigo CEO do Dean & DeLuca), para desenvolverem e comercializarem a máquina inventada por Jeff Marsh.

O fim da era Gutenberg

Jason Epstein deu no ano passado uma palestra na conferência da O’Reilly Tools Of Change for Publishing e começou o seu discurso com esta frase: “Não preciso de vos dizer que estamos no fim da era Gutenberg...”. Falava não só de uma nova maneira de publicar livros mas também de uma revolução cultural. Explicava que existem muitos textos cujo valor é efémero e que não precisam de ser impressos. Nesse grupo incluía não só aqueles livros de ficção e de não-ficção que lemos uma vez (ou que nem chegamos a ler até ao fim) mas também dicionários, enciclopédias ou manuais, que ficam obsoletos logo no dia da sua publicação.

Para este editor, os conteúdos “efémeros” vão definitivamente passar a ser consultados e acedidos pelos consumidores através de dispositivos multitarefas (como telemóveis de nova geração ou tablets idênticos ao iPad que acaba de ser lançado pela Apple). Os consumidores terão acesso às obras guardadas em bases de dados através de assinaturas e os documentos digitalizados serão corrigidos ou eliminados à medida das nossas necessidades. “Quando falo em efémero, não o faço de forma depreciativa mas para enfatizar a extrema volatilidade destas obras de referência ou técnicas”, explicava Epstein.

Para ele, os editores vão comercializar online assinaturas que dão acesso a bases de dados sobre assuntos específicos e certos documentos com informações mais técnicas e académicas, estarão disponíveis quer para investigadores quer para utilizadores comuns. Na sua opinião, os leitores de livros electrónicos (que ainda considera aparelhos muito caros) serão substituídos por aparelhos mais baratos e multitarefas, isto é, podem ser utilizados para ler, mas também para jogar, ver filmes ou até navegar na Internet e terão baterias mais duradouras e ecrãs mais legíveis do que os actuais.

Jason Epstein defende também que o trabalho dos escritores precisa de ser protegido legalmente. “De que é que os escritores irão viver? Eles precisam de comer. Não são músicos. Não podem dar concertos ou fazer anúncios”, lembrou.

Nesse seu discurso (que está disponível para consulta online), o antigo editor recordava a palestra que tinha feito há dez anos na Biblioteca Pública de Nova Iorque onde lançara a ideia da tal máquina, que, como uma caixa multibanco, estaria disponível para se imprimirem livros num instante, em qualquer lugar. Na sua opinião, a máquina que mais se aproxima da que ele imaginou na época é a Espresso Book Machine (desenvolvida pela sua própria empresa) que imprime livros até 800 páginas e produz um livro de 320 páginas com a qualidade de um livro de bolso idêntico ao impresso numa tipografia, em sete minutos, por um penny por página.

“A Espresso Book Machine elimina completamente a cadeia de distribuição entregando um livro feito a partir de um ficheiro digital ao consumidor final sem passar por intermediários: sem inventário, sem armazenamento, sem custos de transporte, sem sobras e sem devoluções”, afirmou Epstein indicando que o investimento numa máquina destas equivale ao que se faz numa fotocopiadora. É quase uma revolução e permite acabar com o drama dos livros guilhotinados que tanta polémica tem gerado nos últimos meses.

Por cá, Zita Seabra, da editora Alêtheia, também decidiu seguir os passos de Jason Epstein. Quer contribuir para combater os livros em stock e o desperdício, acabar com armazéns de monos e recuperar bons livros esgotados e por isso criou uma empresa dedicada à impressão a pedido. É a Várzea da Rainha Impressores SA (VRI), teve um investimento de um milhão de euros, está sediada em Óbidos e brevemente vai aceitar encomendas através de um portal na Internet que está a ser construído. Para já, disponibilizam toda a informação sobre os seus serviços no site (http://www. varzeadarainha.pt).

A empresa possui duas máquinas de impressão a pedido: a Nuvera 200 (que imprime a preto e branco) e a Xerox DC 7002 (para imprimir a cores). Os clientes podem escolher imprimir desde um até 1500 exemplares a preços mais acessíveis do que nas impressoras tradicionais. Imprimir 25 exemplares de um livro com 250 páginas a preto e branco e capa a cores pode custar cerca de 185 euros. Por exemplo, a edição de A Nova Tirania, de Juan Manuel de Prada (Alêtheia), já foi lá produzida.

A VRI tem também um pacote apropriado para quem quer publicar livros sem ter de encontrar um editor que aceite editá-lo e sem ter de fazer a tiragem mínima imposta pela impressão nas gráficas. É o serviço de Self Publishing, que custa cerca de 350 euros e inclui a paginação do livro, a inscrição da obra no sistema ISBN, com código de barras, a atribuição da chancela Sinapis Editores e um exemplar impresso do livro é entregue ao autor. A obra é catalogada no portal da empresa e a partir daí poderá ser encomendada e adquirida online pelos leitores que a queiram ler. Sem dramas e sem chatices.

sábado, 8 de setembro de 2007

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Rui Bebiano - Sapatos vermelhos


Diante do recém-editado livro autobiográfico de Zita Seabra (ZS) é muito difícil sustentar um registo de equidade crítica quando a maior parte do que lemos insinua uma rejeição que nem sempre é boa conselheira. Como seria de esperar, a recusa apriorística da possibilidade de ler o livro instalou-se, de imediato, entre pessoas mais ou menos próximas do Partido Comunista ou dos sectores situados à esquerda do PS. E muitas daquelas que o leram, fizeram-no sobretudo à procura das imprecisões ou dos juízos que permitissem depreciar o que a autora escreveu. Acontece, porém, que contando-me entre os portugueses que se distanciaram no passado e se distanciam hoje das posições públicas de ZS – relembro apenas o seu apoio à campanha pelo Não no referendo Rui Bebiano - Sapatos vermelhos a IVG e a sua actual assumpção como parte da ala direita do PSD –, me interesso também pela história recente. Tenho, por isso, uma certa obrigação de me esforçar para compreender a utilidade deste volume.

Livro algum tem necessidade de justificar a sua existência. Porém, não sendo analista, historiadora ou política no activo com um papel relevante, não se encontrando ainda em idade de fazer um «balanço de vida», não tendo nada de particularmente novo para contar e escrevendo até com alguma dificuldade, para quê dar-se a autora ao trabalho de falar publicamente sobre o seu próprio passado? Deixarei para o final deste texto uma tentativa de resposta a esta questão.

Foi Assim relata a infância, a juventude e a vida adulta de ZS sensivelmente até à sua expulsão do PCP, ocorrida em Janeiro de 1989, centrando-se particularmente na experiência de clandestinidade, na intensa actividade pública que manteve nos anos que se seguiram a 1974 e no processo que levou ao seu isolamento político e pessoal dentro do PCP. Todavia, de tudo isto, de um tempo tão intenso, de uma relação tão estreita que manteve com a intervenção dos comunistas na sociedade, nada do que ZS conta se mostra particularmente novo ou interessante, tanto ao nível dos processos como dos métodos. A referência que faz à vida na condição de clandestina, à actividade na UEC, ao seu papel durante o PREC e na Assembleia da República, não contém algo que não se encontre já bem documentado e que, provavelmente, apenas interessará a quem estiver fora destes temas e, levado pela campanha mediática em redor do livro, se decida a comprá-lo. Presumo, no entanto, que, de entre este eventual núcleo de leitores, poucos serão aqueles que o conseguirão ler até ao final. Ou, pelo menos, que serão capazes de o ler com a devida atenção.

De facto, o texto encontra-se escrito de uma forma absolutamente surpreendente para quem o sabe da responsabilidade de uma pessoa que rompeu com o PCP há já quase vinte anos e tem vindo a tomar posições cívicas que a distanciam claramente dessa área de origem. No entanto, a linguagem utilizada, a rígida ética que lhe subjaz, o jargão utilizado na análise do tempo e dos factos aos quais se reporta, são impressionantemente próximos daquele que foi, e em certa medida ainda é, o discurso-padrão dos comunistas. Torna-se quase insuportável para um leitor consciente deste aspecto o modo como ZS usa a «língua de madeira» comunista para falar, de uma forma que se pretende analítica, da sua relação com a experiência de luta e de organização do PCP. Muitas frases revelam essa fala ancorada no passado, feita de clichés, liturgicamente repetidos ao longo de décadas e que, estranhamente, a autora mantém intactos, deles se servindo a todo o momento: «comportamento exemplar» (p. 53), «eivado de irrealismo e de voluntarismo» (p. 65), «um camarada altamente responsável» (p. 71), «um camarada de confiança» (p. 83), «teve bom porte na PIDE» (p. 153), «regressou com uma ampla publicidade» (p. 163), «era uma revolucionária profissional, uma verdadeira bolchevique» (p. 187), «os controleiros das faculdades e os militantes mais destacados» (p. 211), «tal como Lenine ensinou e nós aprendemos» (p. 235), «Amílcar Cabral gozava de prestígio» (p. 250), «só a verdade nos libertará» (p. 436). E a listagem poderia ser multiplicada por dez, quinze ou vinte vezes.

Acrescento ainda este fragmento que parece tirado de uma qualquer cartilha ou de uma proclamação do PCP da era pré-Abril: «Ia finalmente passar à acção directa e preparar a queda do regime através da revolução democrática e nacional, à qual se chegaria pela insurreição popular armada, primeira etapa da revolução socialista. Só após a instalação da ditadura do proletariado se encontraria o caminho livre para a forma suprema de organização da humanidade: o comunismo.» (p. 151). O mesmo posso dizer da sua explicação do «centralismo democrático», que parece tirada de uma síntese escolar do Que Fazer?, de Lenine (p. 174). ZS não se reverá agora, naturalmente, nestas posições, mas a forma como mantém este conjunto de fórmulas para «explicar às criancinhas» o sentido da crença que partilhou com milhares de outros comunistas portugueses, não só não é abonatório da sua actual capacidade de análise, como, e acima de tudo, define um discurso extremamente equívoco, entediante para quem já as conhece e incompreensível para quem, ao ler isto, delas toma conhecimento pela primeira vez.

Esta maneira de escrever parece-me indissociável do percurso cultural da autora. Todo este livro revela uma formação exígua ao nível das leituras (apenas alguns romances e textos teóricos que qualquer pessoa da sua geração e extracto sociopolítico leu), das práticas culturais específicas (quase exclusivamente confinadas ao gosto interrompido pelo ballet), dos interesses por um saber não instrumental. O próprio conhecimento dos clássicos do marxismo-leninismo se afigura insuficiente para uma pessoa que teve as responsabilidades políticas de ZS, o que é revelado na admiração que ainda hoje nutre por quem o detinha (como José Pacheco Pereira, Miguel Portas e, naturalmente, Álvaro Cunhal) e exemplifica o nível da formação teórica de muitos dos quadros comunistas portugueses. A mesma coisa no que se refere aos gostos artísticos (as referências musicais ou do campo da pintura são de uma banalidade atroz, mesmo para a época, não faltando sequer a referência sacramental à Guernica de Picasso) ou ao gosto pelo cinema, que reconhece ter sido muitíssimo limitado pelas imposições da vida clandestina e que, com toda a certeza, não terá podido recuperar nos anos do PREC. Algo de manifestamente estranho, aliás, para quem, entre 1993 e 1995, foi presidente do Instituto Português de Cinema e do organismo que lhe sucedeu. Não é pois de estranhar que, a dado passo, se refira ao filme Emmanuelle como sendo… «pornográfico» (p. 426).

Uma outra área na qual o desconhecimento de ZS se me afigura chocante refere-se às práticas e aos processos organizativos dos sectores que agrupa na designação canónica, leninista, de «esquerdistas». Esta atitude, muito comum entre a generalidade dos antigos militantes ou simpatizantes do PCP que estiveram ligados ao sector estudantil, não é para mim novidade. Mas perceber esta perspectiva limitada e confusa daquela que foi a sua principal dirigente nos anos finais do regime, é, no mínimo, perturbante. Como o é o não ter lido um pouco, antes de escrever, para se informar melhor.

Já tenho alguma dificuldade em pronunciar-me sobre a parte mais apelativa do livro – a situada no domínio da petite histoire – e que é também aquela sobre a qual se podem colocar maiores dúvidas relacionadas com uma interferência profunda da subjectividade ou um questionamento da veracidade de alguns dos episódios relatados. Não me repugna, confrontando este testemunho com outros (como aquele recentemente publicado por Raimundo Narciso), aceitar o carácter complexo, para não dizer tortuoso, da personalidade de Álvaro Cunhal (o «Camarada» que marcou para sempre a vida de Zita). Nem reconhecer a atitude sectária, frequentes vezes seguidista, da generalidade dos apparatchiks do PCP (a sessão do plenário do Comité Central no qual ela foi expulsa do mesmo, do qual por certo existirá uma acta, é particularmente denunciadora de uma crua incapacidade para se aceitar a diferença fora dos processo do «centralismo democrático» e de se reconhecer o que de «bom» fez uma camarada marcada a partir daquela altura pelo «mal»). Mas grande parte do que se conta – algumas frases e atitudes do «Camarada», a confirmarem-se são particularmente abjectas no plano meramente humano – permanecerá no âmbito do testemunho estritamente individual. Sobre esta fase de ruptura, existem já outros depoimentos publicados – entre eles um livro da própria ZS, O Nome das Coisas, escrito «a quente» e editado logo em 1988 –, bem como uma possibilidade de se obterem relatos de pessoas vivas, que permitirão aferir melhor o processo que a autora descreve.

A leitura encontra-se também marcada por traços de personalidade e de estilo de ZS que, sendo respeitáveis na dimensão da sua idiossincrasia, tornam por vezes penosa a comunicação com o leitor. Desde logo as inúmeras provas de arrogância e de exposição de uma dimensão quase providencial das decisões que foi tomando. «Eu fiz», «eu resolvi», «eu escolhi», «eu decidi» são expressões pouco agradáveis para a cultura democrática ou para a educação de muitos daqueles que a lêem. Um exemplo apenas: referindo-se à altura em que, em 1974, Cunhal se tornou ministro sem pasta do governo, conta ZS: «passei-lhe de imediato o Domingos Lopes para chefe de gabinete». Tanto quanto sei, Domingos Lopes não será propriamente um cachecol ou uma garrafa térmica. A afirmação desta «personalidade difícil» é ainda complementada, negativamente, pela inépcia absoluta para lidar com o humor ou com a ironia: mesmo alguns episódios realmente engraçados que conta são, no discurso de Zita, passados à condição de mais um elemento na enumeração dos factos que relata, sem uma exploração literária que melhoraria o prazer da leitura e a aproximaria um pouco mais de quem a lê. A mesma coisa em relação à vida amorosa e aos afectos, pelos quais passa sem referência praticamente alguma, se exceptuarmos o «sentimento de culpa» que, sendo filha única, de certa forma sente pela separação que deles voluntariamente manteve. Ao contrário daquilo que já li, mesmo a referência a Sita Valles, a notável militante comunista que viria a ser torturada e executada em Angola após o falhanço do golpe militar dirigido por Nito Alves, me parece mais do domínio da admiração do que de uma efectiva amizade. Falo daquilo que percebo pela leitura, naturalmente, não daquilo que Zita Seabra eventualmente sentirá e que, por formação ou por deformação, se esforça a todo o momento por esconder.

Volto então à questão colocada inicialmente. Para que serve afinal este livro da Aletheia, marcado por um grafismo propositadamente decalcado das Edições Avante!, ampliado por uma intensa campanha mediática e colocado nos escaparates melhor situados das lojas da Bertrand e da FNAC? Para ser lido, como escreveria o senhor de La Palisse. Mas quem o lerá? Presumo que, para além de uns quantos interessados na nossa história recente, de alguns quadros partidários, e, por dever de ofício, de um ou outro opinion maker, talvez a parte do público estigmatizada ainda pela cultura do anticomunismo, ou aquela outra que espera encontrar neste livro uma versão circunspecta da má-língua de Catarina Salgado. Sob este aspecto, podem desenganar-se. Pouco lhes interessará a vida da mulher que sempre gostou de usar sapatos vermelhos.

Zita Seabra (2007), Foi Assim. Lisboa: Aletheia Editores. 442 páginas.

Sobre o mesmo assunto (uma ajuda do Miguel Cardina):
Zita e o Camarada [João Gonçalves, Portugal dos Pequeninos] O livro que não se deve ler (1) [João Tunes, Água Lisa (6)] O livro que não se deve ler (2) [João Tunes, Água Lisa (6)] Foi assim, não foi nada, talvez fosse [João Tunes, Água lisa(6)] Os verdes anos de Zita [F. Penim Redondo, Dote Come] Não foi assim [Nuno Ramos de Almeida, Cinco Dias] Novo livro de Zita Seabra. Leitura a não perder [Da Rússia, José Milhazes] Foi assim, mas há sempre alguém que não deseja acreditar [José Manuel Correia, Aparências do Real] Foi Assim com Zita Seabra [Raimundo Narciso, A Grande Dissidência] Zita Seabra - defender o quadrado [Sofia Loureiro dos Santos, Defender o Quadrado] Não, não foi assim (1) [Vítor Dias, O Tempo das Cerejas] Não, não foi assim (2) [Vítor Dias, O Tempo das Cerejas] Não, não foi assim (3) [Vítor Dias, O Tempo das Cerejas] Não, afinal não era assim (4 e último) [Vítor Dias, O Tempo das Cerejas]
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Nota
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* Victor Nogueira
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O Instituto Superior Económico e Social de Évora, era a única escola de ensino superior reconhecida pelo Governo anterior ao 25 de Abril, conjuntamente com a Faculdade de Teologia em Braga. O ISESE era uma escola subsidiada pela Fundação Eugénio de Almeida e destinada a formar quadros superiores sobretudo para as empresas capitalistas e para a Administração Pública. No 1º caso nas áreas de gestão económico-financeira e social, no segundo essencialmente nesta e na investigação e acção sociais. A população discente era formada por filhos de grandes capitalistas como Champalimaud, de filhos de latifundiários, de alentejanos que não tinham posses para estudar em Lisboa, de raparigas que deste modo não se perderiam nas «loucuras» e nas noitadas das outras Academias, e por ex-seminaristas. além duma meia dúzia que sabia ao que ia: estudar sociologia, já que o ISCSPU não lhes merecia «confiança», pela sua notória ligação ao regime colonial fascista. Através do ISESE a Companhia de Jesus aguardava a oportunidade de «ressuscitar» a sua Universidade de Évora, que havia sido extinta pelo Marquês de Pombal com a expulsão dos Jesuítas.
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A Associação de Estudantes era pacífica, até que de 1968 a 1971 passou a ser gerida por Direcções mais contestárias. Havia as funções tradicionais (de que se destacam a Junta dos Delegados de Curso, a Secção de Folhas, sustentáculo financeiro da Associação). Mas estas 3 direcções anuais deram um outro outro uso ao placard da Associação, passando a afixar nele recortes de jornais ou revistas que davam outra perspectiva política aos estudantes. Aliás, creio que era a única Escola na altura em que se estudavam as teorias marxistas, em várias cadeiras, todas controladas pelos Jesuítas, se estudava a economia marxista com a mais-valia travestida de «delta» e em cuja biblioteca era possível consultar livremente as obras marxistas ou dissertar livremente em História das Teorias Políticas, em História da Sociologia ou mesmo em Sociologia do Desenvolvimento, p. exemplo.
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Uma vez o Director do ISESE, Pe. Craveiro da Silva, s.j. quando eu estava afixando notícias no placard da AE, pôs-me a mão no ombro e disse: «Victor, acho bem que ponham essas notícias mas por uma questão de equilíbrio deviam pôr também as do outro lado» ao que lhe respondi que o outro lado tinha tudo: a imprensa, a rádio, a televisão e nós só tinhamos aquele placard, pelo que o outro lado de nós não precisava. O Director não insistiu. Também era opinião dele que do Movimento Associativo Estudantil haviam de sair quadros úteis à sociedade. Claro que também dávamos nas vistas nas sessões culturais e creio que nunca fomos incomodados pela PIDE ou a ela chamados porque os jesuítas quereriam que a sua escola fosse um «oásis» e nesse sentido manobrariam talvez os cordelinhos.
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De qualquer modo a nossa Associação de Estudantes era vista de lado pelas das outras três Academias. Quando se deu o 25 de Abril andávamos em reuniões conspiratórias para retomar o «controle» da AE, nas trazeiras dum café ao pé da Praça de Touros. A maioria dos estudantes proclamou a sua adesão ao 25 de Abril e aos princípios do MFA (Democratização, Descolonização, Desenvolvimento) mas muitos eram mais ou menos profundamente anticomunistas. Uma vez mais consegui conciliar todas as tendências no sentido da integração no Movimento Associativo Estudantil e do reconhecimento da nossa luta pelos partidos políticos democráticos. E foi assim que fui nomeado uma espécie de embaixador com êxito, porquanto ao que me lembro o PCP, o PS, o PPD, o MDP, o MES e o PRP-BR manifestaram o seu apoio à nossa luta e o MAE aceitou a nossa integração.
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Perguntarão porquê este arrazoado? Bem, ele veio da leitura do último livro da Zita Seabra, que li sem tomar notas à margem. Só falei uma vez com a Zita, na António Serpa, para expor as razões da nossa luta e solicitar o apoio do PCP. Nunca me lembro de ver a Zita nos inúmeros plenários e RIA´s (Reuniões Inter Associações de Estudantes) e no seu livro nem sequer fala nas tentativas de Fundação da pro-UNEP (União Nacional dos Estudantes Portugueses). De quem me lembro a dar a cara é da Sita Vales e de outros cujos nomes já se me varreram.
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Se é verdade que a primeira parte do livro parece o romance duma menina rebelde que mergulhou na clandestinidade sem saber muito bem ao que ia, com uma ou outra alfinetada pelo meio, a parte final é efectivamente um ajuste de contas. Impressiona-me que fale sempre no «Eu» fiz, «Eu» decidi, «Eu» mandei, Cunhal tinha inveja de mim (que ego tão auto-insuflado!) tal como Mário Soares na alentada entrevista em 3 volumes feita por Maria João Avilez.
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Não sei se Estaline mandou assassinar tantos milhões de que é acusado e porquê. Mas esses incomodam Zita, que adere impávida e serena aos que vivendo das migalhas dos ricos (nem Mário Soares, apesar das louvaminhas, lhe deitou a mão) não se preocupam com os milhões de mortos e os genocícidios cometidos pela Igreja Católica ou pelos capitalistas. Nos massacres das revoltas camponesas, no massacre dos que fizeram a efémera Comuna de Paris ou ordenados pelo Czar de Todas as Rússias, quando os manifestantes, humilde e pacificamente, lhe pediam pão e trabalho.
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Em África foi uma razia para arranjar escravos, «coisas» sem direitos como os trabalhadores assalariados para as fábricas. «escravos» para as explorações agrícolas nas Américas, incluindo os EUA, a pretensa Pátria da Liberdade, da Democracia, dos Direitos Humanos e da Igualdade, ou nas fábricas.
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Zita não se preocupa com o derrube de governos progressistas em todo o mundo, graças às manobras sombrias dos Estados Unidos e Companhia. Zita não se preocupa com o extermínio de africanos nem com o genocídio dos índios, especialmente nos EUA, nem dos aborígenes australianos, pelo Reino Unido, ou dos habitantes da Ilha de Páscoa. Zita, na Versalhes, de sapatos vermelhos, não se preocupa com a fome e a doença endémicas nos países chamados sub-desenvolvidos, cujas economias foram destruídas pelos ávidos capitalistas, amarrados a uma dívida externa imparável. Zita não chora os milhões de mortos pelos Nazis ou de alemães pelos Aliados em Dresden, ou Japoneses em Hiroshima e Nagasaqui. Zita não se preocupa que os EUA tenham sido o único país que lançou as duas únicas bombas atómicas, para amedrontar a URSS e fazer «experiências» humanas, tal como os nazis. Zita esquece que a URSS e os restantes países socialistas tiveram de levantar-se dos escombros da horda nazi sem a ajuda de qualquer Plano Marshall. Zita esquece que uma parte dos recursos do bloco socialista foi absorvido pela corrida aos armamentos para evitar a supremacia dos EUA.
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Zita não diz que os países capitalistas estavam à espera que os nazis derrotassem a URSS para se expandirem, como agora sucedeu após a queda do Muro de Berlim. Zita nada diz dos vergonhosos muros erguidos por Israel, potência nuclear, que não acata as decisões da ONU sem sofrer qualquer embargo dos EUA ou da CE. Como também nada diz do vergonhoso muro que os EUA estão construindo na fronteira com o México, assassinando os mexicanos que atravessam a fronteira clandestinamente em busca de trabalho. Zita nada diz sobre as orelhas moucas dos Aliados aos apelos da URSS para abrirem uma frente Ocidental, para descomprimirem o ataque nazi a Leste. Tiraram a cera, sim, mas só quando viram que o exército vermelho avançava com tal determinação que provavelmente só pararia nas praias portuguesas. Nem uma palavra sobre os argelinos massacrados pelos colonos e pelas forças armadas francesas, aliás como sucedeu nas colónias portuguesas ou nas inglesas.
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Zita nada diz sobre as «purgas» feitas na América Latina na sequência de golpes fascistas apoiados pelos EUA e outros países capitalistas, nem com os falsos argumentos para invadirem o Afeganistão (onde pára Bin Laden, se é que existe ou não está a jogar ao poker com Bush?), depois o Iraque e agora o Irão?
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Zita nada diz sobre as «purgas» feitas por Mário Soares no PS ou Sá Carneiro no PSD. Zita nada diz sobre o facto de Spínola e Sá Carneiro pretenderem manter em funções a polícia política, a continuação dos presos comunistas ou a «clandestinalização» da actividade do PCP.
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Zita agora vive bem, com os seus sapatos vermelhos, frequentando locais de luxo e dedicando-se aos seus rebentos. Em Portugal, como nos países capitalistas, não há bichas porque não há dinheiro e a alternativa é roubar, morrer de fome, emigrar, trabalhar para assegurar dia a dia o pão nosso de cada dia ou acumular empregos precários. Ah! ou meter-se na droga!
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Zita, poderia ter saído do PCP em rota de colisão por discordar da estratégia e da táctica do Partido onde tinha altas responsabilidades e dever de solidariedade na tomada e concretização das decisões. Mas não, Zita, quadro de confiança do PCP, mais ortodoxa que Cunhal, borrou-se inevitavelmente nos capítulos finais do seu «livro». Zita poderia ter saído do PCP por amor dos famélicos, dos explorados, dos alienados na sua consciência de classe, dos deserdados da sorte. Mas Zita saiu no fundo porque se cansou de ser aquilo que se considerava: agora, pode ter mulheres a dias e amas. Que ordenado lhes paga, que regalias e direitos lhes reconhece? Zita divorciou-se da enorme quantidade de mulheres a dias que todos os dias surgem, divorciou-se da solidariedade para com as mulheres sem direitos ou que são obrigadas a entrarem nos circuitos da prostituição.
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Zita não saíu só do PCP. Zita não compreendeu a hipotética «desilusão» de Cunhal pela traição de alguém que era tão importante na estrutura do PCP que até tinha o Gabinete no mesmo andar do Secretário-Geral. Zita traiu o PCP, desiludiu quantos nela confiaram. Quando alguma das suas grandes amigas e confidentes a trai, que faz Zita? Se alguma mulher a dias a roubar naquilo que materialmente lhe é valioso, que faz Zita? Que fez Zita afinal sair do PCP? Que faz Zita ao desvendar pretensos «segredos», sem falar nos partidos à «esquerda», sem implantação nas massas mas «acarinhados» e «visíveis» em determinados momentos, por tolerância» do grande capital, que controla os meios de comunicação? De que tem medo Zita, 20 anos depois, quando a direita avança em grandes passaadas pela batuta de Sócrates, mais «eficiente» que o PSD?
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Zita, qual filha pródiga, regressou ao seio da burguesia, seio que nunca esqueceu e onde encontou a compreensão da família e dos amigos, «magoada» pela incompreensão dos antigos «camaradas».
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Zita ficou impressionada com a (falta) de qualidade das habitações que viu após o colapso do Socialismo. Zita nunca terá visto os bairros de lata, os bidonvilles, as favelas, os musseques ou os contentores ou roulotes que existem miserávelmente mas com «liberdade» em toda a «democrática» sociedade capitalista, a do pensamento único, com o imperialismo travestido de globalização e a economia capitalista como «economia» de mercado, que é muitísimo anterior ao desenvolvimento capitalista.
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Zita não «vê» que as «companheiras» das casas do Partido não eram simples mulheres a dias, mas responsáveis pela segurança das casas e dos camaradas, todos na clandestinidade. Zita não sabe das elevadas taxas de analbetismo entre homens e sobretudo entre as mulheres, que deste modo não podiam ler nem imprimir ou distribuir os documentos de Partido. Mas Zita, uma privilegiada, com estudos, podia fazê-lo.
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Zita escamoteia que naquele tempo e ainda hoje persiste a mentalidade machista e que a Revolução se faz com os homens e mulheres com as virtudes e defeitos do tempo e do lugar em que estão. Ao entrarem para o PCP, os/as comunistas não eram nem são ungidos pelo sacramento do baptismo, limpando-se do pecado original de quererem pensar por si, o que talvez explique muita miséria e mortandade desde os primórdios do(s) cristianismo(s). E difícil seria, naquele tempo, às mulheres andarem por aqui e por ali a «conspirar», numa sociedade em que o lugar da mulher era em casa e o trabalho era quase exclusivamente reservado aos homens!
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Em Évora, eram consideradas «putas» as poucas raparigas que iam ao café connosco ou as mulheres alemãs dos dirigentes da Siemens. Mulher ou rapariga sérias não iam ao café ou andavam sozinhas, quer de noite, quer de dia.
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Quando Zita numa passagem do seu livro relata a brutal actuação da Polícia num país do outro lado da «cortina de ferro». «típica desses países», como afirma, onde estava, dirigente da UEC, quando a polícia carregava sobre os estudantes ou sobre os trabalhadores grevistas em Portugal? Onde está Zita quando a TV passa os brutais ataques da polícia sobre manifestantes nos «democráticos» países capitalistas ou a eles agora «convertidos» com a ajuda da mãozinha de João Paulo II? Tolda-se lhe a vista cansada de escrever e de ler as mortalhas ou aproveita para ir à cozinha beber um copo de água?
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Tal como dizia Alçada Baptista na sua «Peregrinação Interior», eu não sei se os jesuítas são bons ou maus educadores, mas lá que são educadores, são. Com eles aprendi que para sermos eficazes temos de «encontrar» os líderes duma comunidade, lideres muitas vezes informais, e só depois podemos transformá-la. E que devemos estudar o pensamento e modo de agir dos adversários, para melhor podermos combatê-los ou neutralizá-los.
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E depois o retrato «sinistro» que apresenta de Álvato Cunhal e a insinuação de cobardia da Direcção do PCP no exterior! Basta ter estado em comícios ou encontros do PCP ou assistir às «reportagens» na TV para ver como ele era acarinhado pelas populações, como lhes correspondia com humanidade, com fraternidade e simpatia, não isentos de humor! E que dizer do acompanhamento gigantesco dos que lhe quiseram prestar uma última homenagem comparecendo ao seu funeral. Eram todos militantes e simpatizantes do PCP?
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Eu não engoli qualquer sapo ou precisei de tapar o retrato de Mário Soares no boletim de voto. Eu votei Soares contra Freitas do Amaral. Por isso comprei e li o «Foi assim», na perspectiva de alguém que voltou ao calor do seio materno, abandonando os deserdados da sorte, que agora são esmifrados em todo o mundo por uma minoria com quem Zita no fundo nunca terá deixado de estar. Como dizia o poeta «Ah, esta vã glória de mandar»!
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Se Zita visitar a capela dos ossos na Igreja de S. Francisco, em Évora, poderá ler «Nós que aqui estamos pelos vossos esperamos».
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ÉVORA - RESIDÊNCIA DO ESPÍRITO SANTO
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Passados dois séculos após a expulsão, em 1960, os jesuítas voltaram à cidade de de Évora e, de novo, são chamados a desempenhar um papel no ensino .

É criado o Instituto Superior Económico e Social de Évora (ISESE) que durante dez anos funciona em pleno.

As vicissitudes da Revolução de Abril de 1974, levaram que fosse suspensa a leccionação do ISESE, tendo continuado em actividade a biblioteca especializada em Economia e Sociologia e o Gabinete de Investigação e Acção Social (GIAS) orientado sobretudo à publicação da revista semestral "Economia e Sociologia".

Para além do trabalho realizado nestas instituições os jesuítas dedicam-se ao ensino na Universidade de Évora e no Instituto Superior de Teologia e a trabalhos pastorais na ajuda aos párocos, nos Exercícios Espirituais, no acompanhamento pessoal e na assistência a grupos.

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Não foi assim


Julho 10, 2007 por Nuno Ramos de Almeida

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Estou a ler o livro de Zita Seabra. Apesar de ainda me faltarem algumas páginas, queria deixar umas notas soltas. Por método, vou do menos importante para o mais importante e no fim gostaria de deixar um comentário sobre um assunto mais pessoal.

1.A Zita Seabra fez um livro descuidado e mal editado. Nas páginas do “Foi Assim” descobrimos, por exemplo, que Amílcar Cabral era guineense (pág. 163), que Honecker morreu secretário-geral do partido do governo da Alemanha de Leste (pág. 175) e que Che Guevara saiu de Cuba para fazer a revolução na Colômbia (pág. 204).

2. Ao longo de páginas, a autora faz um ajuste de contas que tem uma tortuosa relação com a verdade. Página sim, página não, Zita Seabra vai difamando dirigentes do PCP que se opuseram a ela, recorrendo, nesse processo, de um velho arsenal estalinista do assassinato de carácter. Vejamos um exemplo: na página 128/129 insinua que Carlos Costa é cobarde porque não participou numa fuga com Carlos Brito, esquecendo-se de relembrar que o “cobarde” Carlos Costa foi o mesmo que esteve na fuga de Peniche e desceu com outros presos uma frágil corda feita de lençóis. Ao longo de todo o livro, os únicos dirigentes comunistas honestos ou viveram com Zita Seabra, ou morreram, ou saíram do PCP.

3. Várias vezes a autora recorre à mentira fácil para conseguir um efeito, um instrumental típico do estalinismo, conhecido por verdade instrumental. Faz este tipo de truques nas coisas mais pequenas e ridículas, às vezes sem ter em conta a própria coerência da obra. Na página 168, Zita Seabra garante que os militantes do PCP nunca gostaram de Zeca Afonso porque ele nunca foi do partido ou “compagnon de route”. Eis uma declaração que só a deve incluir a ela, pois não conheci nenhum militante do PCP que expressasse uma posição tão estúpida. A própria Zita Seabra, 30 páginas depois, está a descrever o agrado com que os militantes do PCP escutavam Zeca Afonso. Mais grave é a pseudo-descrição da chegada de Cunhal a Lisboa que fez na entrevista à RTP 1. Aí é garantido que Cunhal encenou a subida ao cimo do tanque para representar uma repetição da chegada de Lenine a Petrogrado. Todos os testemunhos históricos negam essa vontade de orquestrar. Cunhal subiu de facto a um Chaimite a convite de Jaime Neves, por não haver outro sítio onde pudesse falar à multidão.

4. O livro está cheio do ego de Zita Seabra. Nessas páginas descobrimos a mágoa que sentiu por não ter sido convidada para a formação da UEC. Ficamos a saber, outra inverdade histórica, que ela dirigiu a UEC até ao fim (saiu, bastante contestada pelo seu autoritarismo, quando na UEC Jorge Araújo substituiu Carlos Brito no controlo da organização). Para já não falar de afirmações, a tocar ao espantoso, quando nos quer convencer que Cunhal deixou de lhe falar porque ela foi mais aplaudida do que ele num comício em Aveiro. Como se Cunhal necessitasse, para ser reconhecido o seu valor e influência, de ter mais palmas do que ela…. Zita Seabra tem-se numa alta conta que atinge as raias do doentio. E tende, provavelmente, a ver os outros como ela é.

5. A esse respeito, é fantástico a assumpção por parte dela de que todos foram “comunistas” como ela. Que todo o aderente do partido ambicionava tomar o poder pela força, liquidar os contra-revolucionários e pelo caminho torturar gente nas caves de uma sede qualquer. É preciso esclarecer que nem todos tinham uma leitura tão simplista e criminosa do marxismo-leninismo e que a grande maioria dos comunistas estava convencido que se batia por uma maior liberdade e justiça social e não para instaurar uma ditadura de um qualquer secretário-geral.

6. Agora uma questão pessoal. Zita Seabra passa metade do livro a gabar a sua imensa coragem e a dizer da falta de valor daqueles que estavam no exílio, chegando quase a insinuar esse comodismo no próprio Cunhal. Como se Cunhal não tivesse sido preso, torturado, estado em isolamento, fugido de Peniche, e o PCP, dadas as sucessivas prisões de dirigentes e os problemas que isso acarretava, não tivesse, correctamente, decidido manter parte da direcção no estrangeiro.

A certa altura, Zita Seabra, para afirmar a sua superioridade moral sobre os “ortodoxos”, refere o caso de Pedro Ramos de Almeida, afirmando o seguinte: “o regime negociou e permitiu o regresso do exílio de um importante funcionário do PCP, na altura em Argel, responsável pela organização naquele país. Regressou com uma ampla publicidade e sem que nada lhe acontecesse, nem que a PIDE o molestasse. Tratou-se de Pedro Ramos de Almeida, antigo estudante de Direito. Dizia-se, admito que seja verdade, que tal regresso tinha sido negociado directamente pelo Dr. Abranches Ferrão, conhecido e prestigiado advogado de Lisboa e creio que seu padrinho, e pelo próprio Marcelo Caetano. (…) Pedro Ramos de Almeida foi prontamente expulso do PCP, vindo a ser reintegrado no PCP só bastante depois do 25 de Abril, por decisão ratificada do Comité Central, quando foram também readmitidos outros casos ainda mais complexos de militantes que não tinham tido um porte exemplar na cadeia. Ramos de Almeida, curiosamente, quando voltou a ser militante veio imbuído da mais dura ortodoxia”.

Essa história, que eu conheço bem - afinal Pedro Ramos de Almeida é meu pai -, é exemplar do ponto de vista das pequenas manipulações e inverdades.

Comecemos pelo início, quando Pedro Ramos de Almeida não estava em Argel, mas na clandestinidade em Portugal. Aliás, ao contrário do que felizmente sucedeu com Zita, o meu pai foi preso várias vezes e torturado, a primeira aos 17 anos, sem nunca falar à polícia, e preso mais de quatro anos, grande parte dos quais em Peniche. O meu pai era não apenas um importante funcionário, mas um dos principais organizadores dos sectores estudantil e intelectual do PCP e membro do Comité Central. O que aconteceu foi que, depois de vários anos na clandestinidade, ele sentiu-se cansado e com vontade de viver “normalmente”. Pediu, com honestidade, ao PCP para sair da clandestinidade, alegando um conjunto de questões pessoais, nomeadamente o facto do seus filhos estarem na legalidade (por exemplo, a minha mãe e eu tínhamos saído da clandestinidade um ano antes). O PCP foi contra e o meu pai optou por sair, desobedecendo ao partido, sendo por isso expulso. O regresso à legalidade do meu pai, foi tratado pelo seu padrasto Fernando de Abranches Ferrão (o meu avô morreu quando o meu pai era adolescente), e não padrinho como erradamente escreve Zita. Fernando de Abranches Ferrão - que não era um simples “grande advogado”, como o descreve a autora, escamoteando outros factos que não jogavam com a tese de manobra do regime, mas um reconhecido oposicionista, que defendia presos políticos, tinha estado ele mesmo preso e foi fundador do Partido Socialista - conhecia pessoalmente Marcelo Caetano. O meu pai regressou a Portugal com a obrigação de se apresentar regularmente na PIDE, estatuto que interrompeu quando, depois da sua última prisão, fugiu para o exterior. De regresso a Portugal o meu Pai passou a militar, antes e depois do 25 de Abril, na CDE, organização da qual foi membro da direcção durante anos. Ao contrário do que Zita Seabra insinuou, ele não renegou as suas ideias, voltando depois como “ortodoxo”. Para renegar ideias basta-nos a autora.


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