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domingo, 1 de novembro de 2009

Estados de Alma ou sejam da Maria ou do Manel

http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras/images/ulisses_sereias.gif

Estado de Maria:  

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"Vós, cujos ouvidos estão atordoados pelo rude ruído,/ Ou enfastiados pela música melosa_/ Sentai-vos na boca de uma velha caverna, e meditai/ Até que escuteis, como se cantassem, as ninfas do mar!"
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John Keats, em ON THE SEA
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Mudo e quedo, à porta da Caverna escuto como se Ulisses fosse :-)
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Bjus flamengos (não confundir nem com flamingos nem com lamentos),
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do  Kant_O
 .
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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

La poesia - Octavio Paz

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“ Llegas, silenciosa, secreta,
y despiertas los furores, los goces,
y esta angustia
que enciende lo que toca
y engendra en cada cosa
una avidez sombria.
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El mundo cede y se desploma
como metal al fuego.
Entre mis ruinas me levanto,
solo, desnudo, despojado,
sobre la roca inmensa del silencio
como un solitario combatiente
contra invisibles huestes.
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Verdad abrasadora,
¿a qué me empujas?
No quiero tu verdad,
tu inmensa pergunta.
¿A qué esta lucha estéril?
No es el hombre criatura capaz de contenerte,
avidez que solo en la sed se sacia,
llama que todos los labios consume,
espíritu que no vive en ninguna forma
mas hace arder todas las formas.
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Subes desde el más hondo de mí,
desde el centro innombrable de mi ser,
ejército, marea.
Creces, tu sed me ahoga,
expulsando, tiránica,
aquello que no cede
a tu espada frenética.
Ya sólo tu me habitas,
tú, sin nombre, furiosa substancia,
avidez subterránea, delirante.
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Golpean mi pecho tus fantasmas,
despiertas a mi tacto,
hielas mi frente,
abres mis ojos.
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Percibo el mundo y te toco,
substancia intocable,
unidad de mi alma y de mi cuerpo,
y contemplo el combate que combato
y mis bodas de tierra.
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Nublan mis ojos imágenes opuestas,
y las mismas imágenes
otras, más profundas, las niegan,
ardiente balbuceo,
aguas que se anega un agua más oculta y densa.
En su húmeda tiniebla vida y muerte,
quietud y movimiento, son lo mismo.
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Insiste, vencedora,
porque tan sólo existo porque existes,
y mi boca y mi lengua se formaron
para decir tan sólo tu existencia
y tus secretas sílabas, palabra
impalpable y despótica,
substancia de mi alma.
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Eres tan sólo un sueño,
pero en ti sueña el mundo
y su mudez habla con tus palabras.
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Rozo, al tocar tu pecho
la eléctrica frontera de la vida,
la tiniebla de sangre
donde pacta la boca cruel y enamorada,
ávida aún de destruir lo que ama
y revivir lo que destruye,
con el mundo, impasible
y siempre idéntico a sí mismo,
porque no se detiene en ninguna forma
ni se demora sobre lo que engendra.
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Llévame, solitaria,
llévame entre los sueños,
llévame, madre mía,
despiértame del todo,
hazme soñar tu sueño,
unta mis ojos con aceite,
para que al conocerte me conozca.”
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Enviado por Maria (hi5)
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Destino de poeta - Octavio Paz

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Palavras? Sim. De ar
e perdidas no ar.
Deixa que eu me perca entre palavras,
deixa que eu seja o ar entre esses lábios,
um sopro erramundo sem contornos,
breve aroma que no ar se desvanece.
Também a luz em si mesma se perde.
.
Octavio Paz
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Enviado por Maria (hi5)
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Frente al mar - Octavio Paz




DESTINO DE POETA

Palavras? Sim. De ar
e perdidas no ar.
Deixa que eu me perca entre palavras,
deixa que eu seja o ar entre esses lábios,
um sopro erramundo sem contornos,
breve aroma que no ar se desvanece.
Também a luz em si mesma se perde.

Octavio Paz

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¿La ola no tiene forma?
En un instante se esculpe
y en otro se desmorona
en la que emerge, redonda.
Su movimiento es su forma.
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Las olas se retiran
?ancas, espaldas, nucas?
pero vuelven las olas
?pechos, bocas, espumas?.
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Muere de sed el mar.
Se retuerce, sin nadie,
en su lecho de rocas.
Muere de sed de aire.
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Octavio Paz
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Olá! Hoje deixo-te um abraço com Paz.
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Maria (hi5)
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quarta-feira, 19 de agosto de 2009

El Crimen fue en Granada - António Machado

Assunto: EL CRIMEN FUE EN GRANADA
Data: 19/Ago 22:04

Em memória de Federico García Lorca, assassinado pelos franquistas a 19 de Agosto de 1936:

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Distribuído por Maria (hi5)

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EL CRIMEN FUE EN GRANADA
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I
EL CRIMEN
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Se le vio, caminando entre fusiles,
por una calle larga,
salir al campo frío,
aún con estrellas, de la madrugada.
Mataron a Federico
cuando la luz asomaba.
El pelotón de verdugos
no osó mirarle la cara.
Todos cerraron los ojos;
rezaron: ¡ni Dios te salva!
Muerto cayó Federico.
_sangre en la frente y plomo en las entrañas_
...Que fue en Granada el crimen
sabed _¡pobre Granada!_, en su Granada...
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II
EL POETA Y LA MUERTE
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Se le vio caminar solo con Ella,
sin miedo a su guadaña.
_Ya el sol en torre y torre; los martillos
en yunque _ yunque y yunque de las fraguas.
Hablaba Federico,
requebrando a la muerte. Ella escuchaba.
"Porque ayer en mi verso, compañera,
sonaba el golpe de tus secas palmas,
y diste el hielo a mi cantar, y el filo
a mi tragedia de tu hoz de plata,
te cantaré la carne que no tienes,
los ojos que te faltan,
tus cabellos que el viento sacudía,
los rojos labios donde te besaban...
Hoy como ayer, gitana, muerte mía,
qué bien contigo a solas,
por estos aires de Granada, ¡mi Granada!"
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III
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Se le vio caminar..
Labrad, amigos,
de piedra y sueño, en el Alhambra,
un túmulo al poeta,
sobre una fuente donde llore el agua,
y eternamente diga:
el crimen fue en Granada, ¡en su Granada!
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Antonio Machado



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Frederico Garcia Lorca
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quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Homens do futuro - José Gomes Ferreira

Assunto: Homens do futuro
Data: 3/Set/2008 22:09

Daqui vos envio mais um poema que transcrevi (acho que o autor não se importaria). Foi publicado com outras versões, creio que esta corresponde à última revisão.

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Com um beijinho:

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Distribuído por Maria (hi5)

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«Homens do futuro:
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ouvi, ouvi este poeta ignorado
que cá de longe fechado numa gaveta
no suor do século vinte
rodeado de chamas e de trovões,
vai atirar para o mundo
versos duros e sonâmbulos como eu.
Versos afiados como dentes de serra em mãos de injúria.
Versos agrestes como azorragues de nojo.
Versos rudes como machados de decepar.
Versos de lâmina contra a Paisagem do mundo
_ essa prostituta que parece andar às ordens dos ricos
para adormecer os poetas.
.
Fora, fora do planeta,
tu, mulher lânguida
de braços verdes
e cantos de pássaros no coração!
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Fora, fora as árvores inúteis
_ ninfas paradas
para o cio dos faunos
escondidos no vento...
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Fora, fora o céu
com nuvens onde não há chuva
mas cores para quadros de exposição!
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Fora, fora os poentes
com sangue sem cadáveres
a iludir-nos de campos de batalha suspensos.
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Fora, fora com as rosas vermelhas,
flâmulas de revolta para enterros na primavera
dos revolucionários mortos na cama!
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Fora, fora as fontes
com água envenenada de solidão
para adormecer o desespero dos homens!
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Fora, fora as heras nos muros
a vestirem de luz verde as sombras dos nossos mortos sempre de pé!
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Fora, fora os rios
a esquecerem-nos as lágrimas dos pobres!
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Fora, fora as papoilas,
tão contentes de parecerem o rasto de sangue heróico dum fantasma ferido!
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Fora, fora tudo o que amoleça de afrodites
a teima das nossas garras
curvas de futuro!
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Fora! Fora! Fora! Fora!
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Deixem-nos o planeta descarnado e áspero
para vermos bem os esqueletos de tudo, até das nuvens.
Deixem-nos um planeta sem vales rumorosos de ecos húmidos
nem mulheres de flores nas planícies estendidas.
Um planeta feio de lágrimas e montes de sucata
com morcegos a trazerem nas asas a penumbra das tocas.
E estrelas que rompem do ferro fundente dos fornos!
E cavalos negros nas nuvrns de fumo das fábricas!
E flores de punhos cerrados das multidões em alma!
E barracões, e vielas, e vícios, e escravos
a suarem um simulacro de vida
entre bolor, fome, mãos de súplica e cadáveres,
montes de cadáveres, milhões de cadáveres, silêncios de cadáveres
e pedras!
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Deixem-nos um planeta sem árvores de estrelas
a nós os poetas que estrangulámos todos os pássaros
para ouvirmos mais alto o silêncio dos homens
_ terríveis, à espera,
na sombra do chão
sujo da nossa morte.»
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José Gomes Ferreira

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Enfin, ô bonheur ... - Jean-Arthur Rimbaud

Assunto:
Data:
Há 154 anos nasceu, não sei em que galáxia paira... continuará por longo tempo a ser um símbolo da cultura que incorporou.
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Desconheço se esta versão é a original. A que li nas obras completas em língua francesa apresenta consideráveis diferenças no texto.
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Transcrevi também a tradução de Mário Cesariny, a que mais me agrada.
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{Escolhi o poema que me pareceu mais fácil para os meus meninos (alunos). Façam o favor a vós mesmos de ganhar uns minutos a lê-lo.}
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Distribuído por Maria (hi5)
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«Enfin, ô bonheur, ô raison, j’écartais du ciel l’azur, qui est du noir, et je vécus, étincelle d’or de la lumiére nature. De joie, je prenais une expression bouffonne et égarée au possible:
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Elle est retrouvée!
Quoi? L' éternité.
C est la mar mêlée
Au soleil
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Mon âme éternelle,
Observe ton voeu
Malgré la nuit seule
Et le jour en feu.
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Donc tu te dégages
Des humains suffrages,
Des communs élans!
Tu voles selon...
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— Jamais l' ésperance.
Pas d' oríetur.
Science et patience,
Le suplice est sur.
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Plus de lendemain,
Braises de satin,
Votre ardeur
Est le devoir.
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Elle est retrouvée!
— Quoi? — L' éternité.
C' est la mer mêlée
Au soleil.»
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Traduzido:
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«Por fim, ó ventura, ó razão, tirei do céu o azul, que é negro, e fui centelha de oiro da luz natural. Eufórico, assumia um verbo impossivelmente burlesco e extraviado:
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Perdeu-se. Buscai.
Quem? A Idade de Ouro.
É o acre infuso,
Água, olhos, terra.
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Ó minh’alma, eterna
Manhã, tem teu voto,
Que só contra a noite
É jurado o fogo.
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Por isso te ergues
Da mesa do mundo.
Das madres, dos seres,
Tens o que és...
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Mas nunca, a esperança
De rumo nenhum.
Ciência e insciência.
O alto é o baixo.
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Sumiu-se o simpósio,
Das cinzas ao cabo;
A arte a relógio
É a parte do diabo.
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Perdeu-se. Buscai.
Quem? A Idade de Ouro.
É o acre infuso,
Água, olhos, terra.»
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Jean-Arthur Rimbaud
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quinta-feira, 25 de junho de 2009

Oração das mulheres resolvidas - anónimo

Assunto: ORAÇÃO DAS MULHERES RESOLVIDAS
Data: 20/Jun 19:07

(partilho convosco este primor que recebi da minha querida maya)
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Que o mar vire cerveja e os homens aperitivo,
que a fonte nunca seque,
e que a nossa sogra nunca se chame Esperança,
porque Esperança é a última que morre...
Que os nossos homens nunca morram viúvos,
e que nosso filhos tenham pais ricos e mães gostosas!
Que Deus abençoe os homens bonitos,
e os feios se tiver tempo...
Deus...
Eu vos peço sabedoria para entender um homem,
amor para perdoá-lo e paciência pelos seus actos,
porque Deus,
se eu pedir força,
eu bato nele até matá-lo.
Um brinde...
Aos que temos,
aos que tivemos e aos que teremos.
Um brinde também aos namorados que nos conquistaram,
aos trouxas que nos perderam
e os sortudos que ainda vão nos conhecer!
Que sempre sobre,
que nunca nos falte,
e que a gente dê conta de todos!
Amém.


P.S.: Homens são como um bom vinho. Todos começam como uvas, e é dever da mulher pisoteá-los e mantê-los no escuro até que amadureçam e se tornem uma boa companhia pro jantar.
Faço deste documento a minha homenagem às minhas Amigas, "mulheres resolvidas, queridas, fabulosas, sublimes, inefáveis, incomparáveis ...
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Distribuído por Guilhermina Abreu
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segunda-feira, 4 de maio de 2009

HÁ DOENÇAS PIORES QUE AS DOENÇAS - Fernando Pessoa

maria diz:
3/Mai/2009 22:59
(...)

HÁ DOENÇAS PIORES QUE AS DOENÇAS

"Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta cousa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.

Dá-me mais vinho, porque a vida é nada."

Fernando Pessoa
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segunda-feira, 13 de abril de 2009

Acordai - José Gomes Ferreira

5/Abr 3:44
maria diz:
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* José Gomes Ferreira
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ACORDAI

“Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!”
.
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Enviado por Guihermina Abreu (hi5)
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quarta-feira, 25 de março de 2009

POEMA POUCO ORIGINAL DO MEDO . Alexandre O'Neiil


maria diz:
25/Mar/2009 5:36
Então isto são horas dos cotas estarem levantados? (desculpa, não leves a mal)

POEMA POUCO ORIGINAL DO MEDO

«O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
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Enviado por Guilhermina Abteu (hi5)
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quarta-feira, 11 de março de 2009

RAINY DAY WOMAN - Bob Dylan

RAINY DAY WOMAN #12 & 35

“Well, they'll stone ya when you're trying to be so good.
They'll stone ya just a-like they said they would.
They'll stone ya when you're tryin' to go home
Then they'll stone ya when you're there all alone,
But I would not feel so all alone.
Everybody must get stoned.

Well, they'll stone ya when you're walkin' ‘long the street.
They'll stone ya when you're tryin' to keep your seat.
They'll stone ya when you're walkin' on the floor.
They'll stone ya when you're walkin' to the door,
But I would not feel so all alone.
Everybody must get stoned.

They'll stone ya when you're at the breakfast table.
They'll stone ya when you're young and able.
They'll stone ya when you're tryin' to make a buck.
They'll stone ya and then they'll say "good luck,"
Tell ya what, I would not feel so all alone.
Everybody must get stoned.

Well, they'll stone you and say that it's the end
Then they'll stone you and then they'll come back again.
They'll stone you when you're riding in your car.
They'll stone you when you're playing your guitar.
Yes, but I would not feel so all alone.
Everybody must get stoned.

Well, they'll stone you when you walk all alone.
They'll stone you when you are walking home.
They'll stone you and then say you are brave.
They'll stone you when you are set down in your grave,
But I would not feel so all alone.
Everybody must get stoned.”

Bob Dylan

Tradução de Angelina Barbosa e Pedro Serrano:

MULHERES DE TEMPOS DIFÍCEIS N.º 12 & 35

“Bem, vão apedrejar-te quando estiveres a tentar portar-te bem.
Vão apedrejar-te exactamente como disseram que o fariam.
Vão apedrejar-te quando estiveres a tentar ir para casa.
Depois vão apedrejar-te quando estiveres lá completamente só
Mas eu não me sentiria assim tão só
Toda a gente há-de apanhar uma pedrada.

Bem, vão apedrejar-te quando estiveres a andar pela rua.
Vão apedrejar-te quando estiveres a tentar guardar o teu lugar.
Vão apedrejar-te quando estiveres a andar dentro de casa
Vão apedrejar-te quando estiveres a dirigir-te para a porta,
Mas eu não me sentiria assim tão só
Toda a gente há-de apanhar uma pedrada.

Bem, vão apedrejar-te quando estiveres à mesa do pequeno-almoço.
Vão apedrejar-te quando fores jovem e capaz.
Vão apedrejar-te quando estiveres a tentar ganhar uns cobres.
Vão apedrejar-te e depois dirão "boa sorte".
Vou-te dizer, eu não me sentiria assim tão só
Toda a gente há-de apanhar uma pedrada.

Bem, vão apedrejar-te e dizer que é o fim
Então vão apedrejar-te e depois voltarão outra vez.
Vão apedrejar-te quando estiveres a passear no teu carro.
Vão apedrejar-te quando estiveres a tocar a tua guitarra
Sim, mas eu não me sentiria assim tão só
Toda a gente há-de apanhar uma pedrada.

Bem, vão apedrejar-te quando andares completamente só
Vão apedrejar-te quando estiveres a ir para casa.
Vão apedrejar-te e depois dirão que és corajoso.
Vão apedrejar-te quando estiveres pousado na tua sepultura
Mas eu não me sentiria assim tão só.
Toda a gente há-de apanhar uma pedrada.”
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Enviado por Guilhermina Abreu (hi5)
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domingo, 8 de março de 2009

CANTIGA - Béatrix de Viennois,

CANTIGA

Grã coita tenho sofrido
Por homem que desdenhei.
Que sempre seja sabido
Quanto o amo e amarei.
É-me agora fementido
Por amor que eu receava.
E doida eu ‘stava em vestido
Ou se nua me deitava.

Ai quero ao meu cavaleiro
Apertar às tetas brancas!
O corpo dou-lh’ eu inteiro,
Cavalgará minhas ancas!
Ca lh’ estou mais que rendida
Flora o foi de Brancaflor,
E todo seu meu amor,
Minh’alma, os olhos, e a vida.

Ai meu amigo velido!
S’ em meu poder vos tomar
E convosco me deitar
E d’amor eu vos beijar,
Não há nenhum mor prazer
Que vos ter com’ a marido,
Se de vós for prometido
Fazerdes quant’ eu quiser.

Béatrix de Viennois, Condessa de Die
(Provença, falecida em 1160)
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Enviado por Guilhermina Abreu (hi5)
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quinta-feira, 5 de março de 2009

VA, CHANSON, À TIRE-D'AILE... - Paul Verlaine -

VA, CHANSON, À TIRE-D'AILE...

“Va, chanson, à tire-d'aile
Au-devant d'Elle, et dis-lui
Bie que dans mon coeur fidèle
Un rayon joyeux a lui,

Dissipant, lumière sainte,
Ces ténèbres de l'amour:
Méfiance, doute, crainte,
Et que voici le grand jour!

Longtemps craintive et muette,
Entendez-vous? la gâité,
Comme une vive alouette,
Dans le ciel clair a chanté.

Va donc, chanson ingénue,
Et que, sans nul regret vain,
Elle soit la bienvenue
Celle qui revient enfin.”

Paul Verlaine
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VOGLIO UN AMORE DOLOROSO... - Gabriele D'Annunzio

Adoro a escrita de D'Annunzio, na arte as idéias políticas não me interessam pra nada.)

VOGLIO UN AMORE DOLOROSO...

"Voglio un amore doloroso, lento,
che lento sia come una lenta morte,
e senza fine (voglio che più forte
sie della morte) e senza mutamento.

Voglio che senza tregua in un tormento
occulto sien le nostre anime assorte;
e un mare sia presso a le nostre porte,
solo, che pianga in un silenzio intento.

Voglio che sia la torre alta granito,
ed alta sia così che nel sereno
sembri attingere il grande astro polare.

Voglio un letto di porpora, e trovare
in quell'ombra giacendo su quel seno,
come in fondo a un sepolcro, l'Infinito."

Gabriele D'Annunzio
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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

ESTE INFERNO DE AMAR ! - Almeida Garrett

Foram Garrett e Beethoven, e Domingos Sequeira e Camilo (a minha mãe punha à venda livros da Guimarães editores, mas ninguém comprava, desforrava-se a família) que me levaram até ao romantismo, era eu uma pobre púbere provinciana. (Já tinha visto aquela tua mensagem no blog) Beijo grande. E viva Garrett!

ESTE INFERNO DE AMAR !

“Este inferno de amar — como eu amo!
Quem mo pôs aqui n’alma… quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida — e que a vida destrói —
Como é que se veio a atear,
Quando — ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra; o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez… — foi um sonho —
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar…
Quem me veio, ai de mim! despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei… dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? Eu que fiz? — Não no sei
Mas nessa hora a viver comecei…”

Almeida Garrett, in Folhas Caídas
,
Enviado por Guilhermina Abreu (hi5)
,

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

DISCURSO NO MERCADO DO DESEMPREGO - Samih Al-Qassim

"Talvez eu perca — se desejares — a minha subsistência
Talvez venda as minhas roupas e o meu colchão
Talvez trabalhe na pedreira... como carregador... ou varredor
Talvez procure grãos no esterco
Talvez fique nu e faminto
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Talvez me despojes da última polegada da minha terra
Talvez aprisiones a minha juventude
Talvez me roubes a herança dos meus antepassados
Móveis... utensílios e jarras
Talvez queimes os meus poemas e os meus livros
Talvez atires o meu corpo aos cães
Talvez levantes espantos de terror sobre a nossa aldeia
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação das minhas veias
Resistirei
Talvez apagues todas as luzes da minha noite
Talvez me prives da ternura da minha mãe
Talvez falsifiques a minha história
Talvez ponhas máscaras para enganar os meus amigos
Talvez levantes muralhas e muralhas em meu redor
Talvez me crucifiques um dia diante de espetáculos indignos
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação das minhas veias
Resistirei
Ó inimigo do sol
O porto transborda de beleza... e de signos
Botes e alegrias
Clamores e manifestações
Os cantos patrióticos arrebentam as gargantas
E no horizonte... há velas
Que desafiam o vento... a tempestade e franqueiam os obstáculos
É o regresso de Ulisses
Do mar das privações
O regresso do sol... do meu povo exilado
E para os seus olhos
Ó inimigo do sol
Juro que não me venderei
E até a última pulsação das minhas veias
Resistirei
Resistirei
Resistirei "

Samih Al-Qassim
(poeta palestiniano proibido de exercer a profissão docente pelos israelitas)
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Enviado por Guilhermina Abteu (hi5)
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terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

LA CROIX POUR L’OMBRE - Louis Aragon

«Les gens heureux n’ont pas d’histoire
C’est du moins ce que l’on prétend
Le blé que l’on jette au blutoir
Les bœufs qu’on mène à l’abattoir
Ne peuvent pas en dire autant
Les gens heureux n’ont pas d’histoire

C’est le bonheur des meurtriers
Que les morts jamais ne dérangent
Il y a fort à parier
Qu’on ne les entend pas crier
Ils dorment en riant aux anges
C’est le bonheur des meurtriers

Amour et bonheur d’autre sorte
Il tremble l’hiver et l’été
Toujours la main dans une porte
Le cœur comme une feuille morte
Et les lèvres ensanglantées
Amour est bonheur d’autre sorte

Aimer à perdre la raison
Aimer à n’en savoir que dire
A n’avoir que toi d’horizon
Et ne connaître de saisons
Que par la couleur du partir
Aimer à perdre la raison

Ah c’est toujours toi que l’on blesse
C’est toujours ton miroir brisé
Mon pauvre bonheur, ma faiblesse
Toi qu’on insulte et qu’on délaisse
Dans toute ta chair martyrisée
Ah c’est toujours toi que l’on blesse

La faim, la fatigue et le froid
Toutes les misères du monde
C’est par mon amour que j’y crois
En elle je porte ma croix
Et de leurs nuits ma nuit se fonde
La faim, la fatigue et le froid»

Louis Aragon, "Le Fou d’Elsa" ("Chants du Medjnoûn")
.
Enviado por Guilhermina Abreu
.
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sábado, 14 de fevereiro de 2009

INTERIORIDADE - António Gancho

INTERIORIDADE

«Interioridade
és bem o estímulo tu
duma vida cumprida ao serviço do invisível
Em teu nome
já eu sofri todos os pecados do Mundo
todas as humilhações já eu suportei
e tudo em teu nome
para que em teu nome de tudo eu aproveitasse
uma reinvindicação
E é certo que sempre te reclamarei
nos instantes mais tenebrosos do homem
ainda quando toda uma cidade se virar
contra nós
e quando a paisagem já não nos distrair
Interioridade
que coisas eu não imaginei poder fazer de ti
construir contigo templos imaginários
onde todos os homens se poderiam redimir
de todas as culpas
e onde só tu fosses o único elemento
de aniquilação de pecados
E no entanto um leopardo há sempre
em cada árvore da alma
e sempre um homem pode ser vítima
da sua selva interior
E no entanto eu propunha a todos os homens
a escalpelização dos animais selvagens
a abertura de vias férreas de progresso
interior
clareiras e estepes para uma melhor
expectação de horizontes
Porém há sempre um leopardo no
cimo da árvore mais inocentemente descopada
e o homem muitas vezes sacrifica
ao perigo da guerra
a noção do convívio.»

António Gancho
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Enviado por Guilhermina Abreu
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domingo, 1 de fevereiro de 2009

Cesário Verde - “Arrojos

Se a minha amada um longo olhar me desse
Dos seus olhos que ferem como espadas,
Eu domaria o mar que se enfurece
E escalaria as nuvens rendilhadas.

Se ela deixasse, extático e suspenso
Tomar-lhe as mãos "mignonnes" e aquecê-las,
Eu com um sopro enorme, um sopro imenso
Apagaria o lume das estrelas.

Se aquela que amo mais que a luz do dia,
Me aniquilasse os males taciturnos,
O brilho dos meus olhos venceria
O clarão dos relâmpagos nocturnos.

Se ela quisesse amar, no azul do espaço,
Casando as suas penas com as minhas,
Eu desfaria o Sol como desfaço
As bolas de sabão das criancinhas.

Se a Laura dos meus loucos desvarios
Fosse menos soberba e menos fria,
Eu pararia o curso aos grandes rios
E a terra sob os pés abalaria.

Se aquela por quem já não tenho risos
Me concedesse apenas dois abraços,
Eu subiria aos róseos paraísos
E a Lua afogaria nos meus braços.

Se ela ouvisse os meus cantos moribundos
E os lamentos das cítaras estranhas,
Eu ergueria os vales mais profundos
E abateria as sólidas montanhas.

E se aquela visão da fantasia
Me estreitasse ao peito alvo como arminho,
Eu nunca, nunca mais me sentaria
Às mesas espelhentas do Martinho.”

Cesário Verde


Lisboa, Diário de Notícias, 22 de Março de 1874
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Enviado por Guilhermina Abreu
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