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segunda-feira, 13 de outubro de 2025

"Que Presidente da República para Portugal? - Contra a tentação presidencialista"

Presidenciais 2026

Costa ajusta contas com Marcelo em prefácio de novo livro: “Legitimidade reforçada do PR em nada tem contribuído para a estabilidade”

Rita Dinis, Jornalista

 “Éramos felizes e não sabíamos”, chegou a dizer Marcelo sobre a coabitação com Costa. No prefácio do livro “Que Presidente da República para Portugal?”, de Vital Moreira, o ex-primeiro-ministro defende como o PR deve ser um mediador e promotor de consensos – coisa que, escreve Costa, Marcelo não foi, a não ser na pandemia

Num sistema de governo parlamentar (e não semipresidencialista) como é o português, o Presidente da República deve ter uma função "essencialmente moderadora", como "garante do regular funcionamento das instituições", deve ser promotor de "acordos de regime", deve ter um "sábio uso da gravitas da palavra" e deve usar a sua "autoridade política para prevenir crises e mobilizar consensos políticos e sociais". Mas não é isso que tem acontecido, conclui o ex-primeiro-ministro e atual presidente do Conselho Europeu, António Costa, no prefácio do novo livro , com o título "Que Presidente da República para Portugal? - Contra a tentação presidencialista", do constitucionalista Vital Moreira.

Prova disso, escreve, são as dez dissoluções da Assembleia da República que aconteceram nos últimos 25 governos do regime democrático, incluindo em contextos de maioria absoluta, como foi o caso do seu último governo. "Vinte e cinco governos e dez dissoluções da Assembleia da República em 50 anos confirmam que a legitimidade eleitoral reforçada do PR em nada contribuiu para a estabilidade, antes pelo contrário", considera António Costa, lembrando que "todos os presidentes utilizaram no segundo mandato" essa legitimidade reforçada para "confrontar a solução de governo existente, mesmo que dispondo de maioria na AR".

António Costa, recorde-se, viu a Assembleia da República ser dissolvida por duas vezes às mãos de Marcelo Rebelo de Sousa, provocando a queda de dois dos seus governos e a consequente ida a eleições. A primeira aconteceu em outubro de 2021, aquando do chumbo do Orçamento do Estado para 2022, e resultou na maioria absoluta do PS; a segunda aconteceu em novembro de 2023, depois de António Costa ter apresentado a sua demissão como primeiro-ministro na sequência do comunicado da PGR que o visava na investigação judicial da Operação Influencer. Nessa altura, Costa alegou que o PS dispunha de maioria absoluta no Parlamento, pelo que deveria nomear um novo primeiro-ministro, mas Marcelo entendeu que a maioria absoluta do PS estava personalizada na figura de António Costa e, caindo um, caía o outro também. É essa espinha que está entalada: logo na altura, o então líder do PS considerou que tinha faltado "bom senso" ao Presidente .

Depois disso, Marcelo, que foi eleito em 2016 com 52% dos votos, e reeleito em 2021 com uns esmagadores 60%, ainda usaria mais uma vez o poder de dissolução, depois de Luís Montenegro ter visto uma moção de confiança rejeitada pelo Parlamento, na sequência da investigação à empresa familiar de Luís Montenegro, que levou ao reforço da votação do PSD nas urnas.

No prefácio do livro sobre os poderes do Presidente da República da autoria do constitucionalista e ex-deputado do PS Vital Moreira, Costa começa por sublinhar que não está em causa qualquer recuo no modo de eleição direta do Presidente da República, consagrado na Constituição, mas não deixa de realçar que essa forma de eleição direta - que reforça a legitimidade eleitoral do Presidente, na medida em que é eleito com a maioria dos votos dos portugueses - não tem sido sinónimo de estabilidade, nem sequer de acordos de regime ou de prevenção de crises.

Costa até pega no exemplo italiano e alemão, onde o PR é eleito de forma indireta, para dizer que não só não é por isso que aqueles Presidentes têm a autoridade beliscada, como até se verifica que há, naqueles casos, um "reforço do seu papel verdadeiramente moderador".

Segundo o ex-primeiro-ministro, raros foram os Presidentes que conseguiram promover verdadeiros acordos de regime, devendo esse mérito ser concedido aos partidos do regime, PS e PSD. "Os verdadeiros acordos de regime, na política externa, na defesa nacional ou na integração europeia, foram mais fruto da coincidência de posições políticas do PS e PSD, consolidada pela força centrípeta da NATO e da UE, do que da ação de qualquer presidente", escreve, enumerando aquilo que diz terem sido "exceções" a este entendimento.

"A legitimidade conferida pela eleição direta do PR não se traduziu, nos sucessivos mandatos presidenciais, na autoridade política para prevenir crises e mobilizar consensos políticos e sociais. As exceções que confirmam a regra são raras", escreve, dando como "poucos exemplos que a memória regista" os casos de Mário Soares e a sua "magistratura de influência" na mobilização do programa de erradicação das barracas nas áreas metropolitanas; o caso de Jorge Sampaio na defesa da causa de Timor ou até o caso de Cavaco Silva na mediação da crise do "irrevogável" que salvou a coligação de Passos Coelho. Sobre Marcelo Rebelo de Sousa - o Presidente com o qual coabitoudurante a quase totalidade do seu tempo como primeiro-ministro - Costa identifica a sua "valiosa ação pedagógica durante a pandemia da Covid-19". Ou seja, em tudo o resto, Marcelo não soube mediar consensos nem prevenir crises, e o carimbo das três dissoluções ajudam a ilustrá-lo.

Dissolução só com maioria alternativa

No livro, Vital Moreira, também autor do blogue Causa Nossa, que tem sido muito crítico dos mandatos de Marcelo Rebelo de Sousa, defende duas propostas de alteração constitucional que vão no sentido de conferir maior centralidade ao Parlamento num sistema de governo que é parlamentar: uma delas é a necessidade de o programa de Governo ser votado e aprovado na Assembleia da República (atualmente só tem de ser discutide e a votação só ocorre se algum partido o propuser); a outra é a consagração da figura da moção de censura construtiva, há muito defendida por António Costa.

A combinação destas duas alterações, no entender de Costa, "reforçaria de modo inequívoco o parlamento como fonte da legitimidade do governo, que perante si responde politicamente". Por outras palavras, o ex-primeiro-ministro lembra que o Governo responde perante o Parlamento e não perante o Presidente da República.

Segundo Costa, estas alterações são sobretudo necessárias num contexto em que a crescente fragmentação parlamentar faz com que seja cada vez mais difícil haver maiorias absolutas de um só partido (o governo que encabeçou em 2022/2023 era uma raridade ao nível europeu), e num contexto em que facilmente se formam aquilo a que Costa chama de "maiorias artificiais".

"A criação de maiorias artificiais por via de mudanças no sistema eleitoral é altamente penalizador da representatividade democrática. É, por isso, necessário incentivar o diálogo parlamentar, uma cultura de compromisso que assegure o necessário apoio parlamentar para a execução de um programa de governo", escreve, defendendo que o programa de governo ganhe aqui uma nova centralidade no momento de o PR decidir a dissolução da Assembleia da República "por proposta do primeiro-ministro".

Paralelamente, com a figura da moção de censura construtiva, defendida por Vital Moreira e secundada por António Costa, o derrube do governo via Parlamento só passaria a ser possível "mediante a designação por maioria de um novo primeiro-ministro acompanhado do respetivo programa de governo". Ou seja, o derrube do governo por parte dos partidos com representação parlamentar só passaria a ser possível se esses mesmos partidos tivessem uma solução alternativa. Isto evitaria "os riscos de um parlamentarismo disfuncional" e evitaria as situações de impasse em que o Governo cai por falta de apoio parlamentar, mas, não havendo alternativa naquele quadro parlamentar, é preciso convocar novas eleições.

Neste sentido, Vital Moreira defende também que a Assembleia da República deve ser dissolvida quando é incapaz de fazer aprovar um programa de governo e quando não é capaz de aprovar um Orçamento do Estado - coisa que, na prática, aconteceu sob a batuta de Marcelo, mas que, a menos de três meses das eleições presidenciais, não é o entendimento partilhado por todos os candidatos. Sobre o Orçamento do Estado e o seu papel, Costa sugere uma "dessacralização" do Orçamento tal como a que Luís Montenegro fez com a proposta para 2026: em vez de ser visto como uma espécie de moção anual de confiança ou censura ao Governo, deve ser um "mero instrumento de execução obrigatória dos atos legislativos vigentes", derivado da lei de enquadramento orçamental.

Ainda sobre Marcelo Rebelo de Sousa e o entendimento que fez - e faz - do seu mandato presidencial, António Costa deixa a dúvida: terá Marcelo abdicado do "sábio uso da gravitas da palavra", como sucessivamente lhe apontou Vital Moreira, por ser esse o seu entendimento da função presidencial, ou terá sido por causa das circunstâncias do "novo ecossistema comunicacional" dominado pelo peso das redes sociais? "Poderá um PR diretamente eleito pelos cidadãos regressar ao sábio uso da gravitas da palavra, ou o novo ecossistema comunicacional desenhou um novo espaço público onde tal não é possível?", questiona.

E deixa ainda outra pergunta no ar, à atenção dos candidatos presidenciais que concorrem para a sucessão de Marcelo: Como é possível compatibilizar a "omnipresença" do PR com um sistema em que é ao governo que cabe a direção política do país, e onde o governo responde "perante a AR e não perante o PR"? É a pergunta para um milhão de euros que Costa e Marcelo parecem não ter sabido responder nos últimos oito anos e que António Costa deixa agora ao próximo Presidente da República - para refletir.

https://expresso.pt/politica/eleicoes/presidenciais/

sábado, 9 de setembro de 2023

José Manuel Ribeiro - Constituição: o que se faz quando o Presidente mete o pé na argola?


Admitindo que não compete a um primeiro-ministro avaliar a constitucionalidade dos pronunciamentos do Presidente, pergunta-se: a quem cabe então avaliar tal coisa?

A atuação de Marcelo Rebelo de Sousa como Presidente da República está, nestes dias, no centro da discussão política. Desde logo, pelo facto de os seus atos recentes serem discutidos como intervenções de “um Presidente de fação”. Mas também por as suas intervenções não se enquadrarem no que a Constituição da República Portuguesa estabelece quanto aos poderes e competências do Presidente da República.

Na terça-feira, interrogado pelos jornalistas antes do Conselho de Estado, o primeiro-ministro António Costa recusou-se a comentar se o Presidente da República tem ultrapassado as competências que lhe estão cometidas. Advertiu, contudo, que “as coisas correm sempre mal quando há confusão de papéis”. E concluiu: “Esse é um comentário que não me compete a mim fazer”.

Admitindo que não compete a um primeiro-ministro avaliar a constitucionalidade dos pronunciamentos do Presidente, pergunta-se: a quem cabe então avaliar tal coisa? A questão inversa tem uma resposta clara dada pela Constituição e, de resto, regularmente praticada desde 1983: sempre que o Presidente tem dúvidas sobre a constitucionalidade das intervenções do Governo dirige-se ao Tribunal Constitucional.

O problema surge quando o Presidente da República age de tal forma que os seus atos ou palavras saem dos domínios e competências que a Constituição lhe atribui. O que é que se faz? A quem é que se dirige o pedido para a análise sucessiva da constitucionalidade da intervenção presidencial? Que órgão tem competência constitucional para essa avaliação? E que consequências se poderão extrair da constatação jurídica que o Presidente violou a Constituição que jurou cumprir e fazer cumprir?

Esta não é uma questão meramente teórica, como se depreende das perguntas dos jornalistas ao primeiro-ministro no Montijo. Esta é uma questão que palavras e atos recentes de Marcelo Rebelo de Sousa levantam e, por consequência, confrontam a organização do sistema político inscrita na Constituição da República Portuguesa com uma lacuna.

As declarações de Marcelo Rebelo de Sousa em Kiev sobre a entrada da Ucrânia na União Europeia, ou as suas declarações em São Tomé e Príncipe sobre decisões da CPLP antes de estas terem tido lugar, e antes de o Governo se ter pronunciado sobre elas, são dois exemplos dessa lacuna. Nada da “Competência nas relações internacionais” do Presidente da República inscrita da Constituição (Artigo 135.º) parece autorizar Marcelo Rebelo de Sousa a falar como falou.

Do mesmo modo, a ameaça feita na Festa do Livro em Belém quanto ao pacote Mais Habitação (não deixar passar a regulamentação que tem de ir às suas mãos) configura um posicionamento “a priori” de contra-governo que parece extravasar, e ofender, o espírito e a letra da Constituição.

Voltamos ao problema da lacuna na Constituição: quem e a que instância se poderá pedir, ou exigir, que avalie a constitucionalidade dos atos do Presidente da República? Se a Constituição não o prevê, os comportamentos de Marcelo Rebelo de Sousa exigem que passe a prevê-lo em futura revisão. Não só para que o Tribunal Constitucional passe a ter a competência explícita de o fazer, mas, também, para que, para além do “Sim” ou do “Não” sobre a conformidade do Presidente com a lei suprema, se estabeleçam consequências para as respostas negativas. Acórdãos que funcionem como repreensões escritas – por exemplo – ou, em casos limite, a perda de mandato.

A lacuna constitucional que hoje verificamos é tanto mais flagrante quanto o comedimento de presidentes anteriores a manteve indetetável ao longo de décadas. O facto é que, mesmo sem juízos de valor sobre a ação política de Marcelo Rebelo de Sousa, este Presidente tem sido um agente subversivo do equilíbrio semipresidencialista com que o sistema funcionou ao longo de quatro décadas.

Esta subversão exige, para reequilibrar no sistema os mecanismos de “checks and balances”, uma revisão constitucional. Até que tal suceda, o país terá de viver com um Presidente que mina sistematicamente a autoridade democrática do órgão de soberania executivo. Uma forma clássica de populismo, como sabemos.

domingo, 11 de outubro de 2015

O verniz a estalar (por Estátua de Sal*)

 bdacção Noticias Online /  

O espaço do comentário político em Portugal, se até aqui já era enviesado à direita, agora passou a ser um passeio de esquizofrénicos, uma procissão de fobias e um teatro de exorcismos.

TAKE I

Num espaço de comentário, frente a frente com Pedro Adão e Silva, o inefável José Gomes Ferreira veio mais uma vez introduzir no debate a ameaça do Apocalipse caso o PS faça um governo apoiado à esquerda. Ele são os mercados, ele são as taxas de juro, ele é Bruxelas, ele são 50 000 milhões para em 2016 se poder reciclar a dívida pública. Eu estranho este argumento: então a sumidade não passou a campanha eleitoral a subscrever a tese da PAF de que “o pior já passou”, o desemprego está a baixar, o crescimento está ao virar da esquina e que a austeridade já acabou? Parece que, afinal, só esteve tudo bem até às eleições, agora já está tudo periclitante e a piorar. Mas, o mais espantoso é José Gomes Ferreira concluir que não acredita, ainda assim, na hipótese desse governo do PS chegar a ver a luz do dia pois Cavaco – que ele diz que conhece muito bem -, nunca lhe dará posse! Extraordinário. Então se tal governo for apoiado pela maioria do Parlamento, Cavaco não dará posse ao governo?! Com que argumentos? A Direita propõe um golpe de estado contra a Constituição?! Estalou o verniz: para esta gente a democracia só vale enquanto consegue enganar e manipular o povo com as suas manobras. Quando tal não sucede torna-se golpista e totalitária. Nada que a História já não nos tivesse ensinado.


TAKE II

Mas o melhor foi a prestação de Clara Ferreira Alves no “Eixo do Mal”. Aí, a figura, falou de um acordo à esquerda como se estivéssemos em pleno “verão quente”. Ele são os mercados, ele são as taxas de juro – até aqui, seguindo a cartilha de Gomes Ferreira -, e concluiu com a ameaça de tanques na rua para colocar na ordem um governo “radical” como o que seria um governo chefiado por António Costa com o apoio do PCP e BE.

Eu, até tinha alguma consideração pela senhora. Mas depois desta declaração, não posso deixar de dizer que ela só se deve considerar de “esquerda” por mero snobismo e que critica Passos porque o considera um inculto suburbano de Massamá, que não leu o “Grande Gatsby”  e que julga que Cézanne foi poeta e Cesariny foi pintor. Clara sente o seu perfume de burguesa elitista e pseudoculta ameaçado pelos odores a óleo queimado dos proletários a tomar o palácio de S. Bento e o couraçado de Potemkim, ancorado no Tejo, pronto a disparar. Todos os seus terrores, tiques e toques de classe, durante décadas ocultos sob a capa de um criticismo sempre promovido pelos grandes da comunicação social, vieram ao de cima e deve ter reforçado a dose de Xanax. E para coroar a cereja no topo do bolo, declarou-se votante do PS mas que irá apoiar Marcelo para as Presidenciais. Parece que foi este o recado que Balsemão lhe mandou dar a António Costa.


CONCLUSÃO

Estes dois episódios revelam e impõem-nos algumas reflexões e legitimam-nos algumas conclusões óbvias:



1) Não sei qual vai ser a decisão do PS sobre o apoio que dará, ou não dará, a um anunciado governo da PAF.
2) Mas sei que, qualquer que seja a decisão que tome, do ponto de vista democrático e constitucional, é tão legítimo um governo da PAF apoiado pelo PS, mesmo que seja pela abstenção, como um governo do PS apoiado pelo PCP e BE.
3) A direita quer fazer valer a tese de que há portugueses de primeira e portugueses de segunda, votos de primeira e votos de segunda, sendo estes últimos os que foram para o PCP e para o  BE.
4) Durante anos, os partidos à esquerda foram sempre acusados de se recusarem a fazer parte das soluções governativas, limitando-se a ser partidos de protesto e de institucionalização da conflitualidade social. Pois bem, quando eles se propõem sair do “ghetto” e a pulverizar em definitivo o famigerado “arco da governabilidade”, a direita agita fantasmas, semeia terrores e o verniz estala por todos os lados: de democratas só tem a epiderme e a sudação cutânea.
5) Depois, alguns dos argumentos que estes arautos, Claras, Ferreiras, e companhia usam é, no mínimo ridículo: que o PCP nunca fez parte de nenhum governo; que o BE é instável; que o partido mais votado sempre governou em Portugal com o apoio colaborante do maior partido da oposição. Ou seja, PS versus PSD, ou vice-versa, sempre dançaram o tango do poder.
6) A minha pergunta é a seguinte: mas há verdades históricas imutáveis? Mas há realidades cristalizadas a nível da dinâmica social?
7) Para esta gente, cristalizada no tempo, que aceita todos os opróbrios que tem sido impostos ao país pelos mercados da finança e pelos poderes de Bruxelas, desde que o financiamento para os seus privilégios e mordomias continue a fluir, o terror é a esquerda, mesmo a que é “bem-comportada” e não coloca em causa esses ditames. O perigo é o PCP, mesmo mais este que o BE. Como se tivessem parado no tempo.
8) Como se o Muro de Berlim não tivesse caído em 1989, como se a URSS não seguisse também hoje, e com mestria, as regras da economia capitalista, como se a China não tivesse entrado no mesmo jogo, até de forma impiedosa para as suas populações, permitindo que o Ocidente se abasteça de produtos chineses a baixo preço, e colmatando assim a baixa dos salários reais que tem vindo a ocorrer de forma significativa na Europa e nos EUA.
Como se Cuba, não tivesse já em funcionamento no seu território uma embaixada dos EUA.
9) Esta gente, à falta de melhores argumentos, recua décadas e com espalhafato e desfaçatez, invoca argumentos da Guerra Fria, da qual parece que tem saudades.
10) Assim sendo, e para que não abusem dos antidepressivos, eu recomendo à D. Clara e ao Sr. Ferreira que abasteçam a mesa de cabeceira com livros variados do John le Carré, para lerem nas noites de insónia que devem estar a ter. Se não for mais barato é pelo menos mais saudável, e eu, como sou um democrata – coisa que eu começo a duvidar que eles sejam -, não quero que lhes falte nada.
(*) Estátua de Sal é pseudónimo dum professor universitário devidamente reconhecido pelo Noticias Online

http://www.noticiasonline.eu/o-verniz-a-estalar-por-estatua-de-sal/

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Lançamento de livro abre debate de ideias revolucionárias

Mundo

Vermelho, 15 de Fevereiro de 2011 - 4h54
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A Assembleia Nacional Francesa (parlamento) palco de marcantes acontecimentos políticos históricos, abriu suas portas na noite desta segunda-feira (14) a um importante evento, que reuniu intelectuais, dirigentes políticos e diplomatas: o lançamento do livro “Grupons-nous, et demain?”. (Agrupemo-nos, e amanhã?).
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O título é uma alusão a um dos versos do hino Internacional para o livro, publicado pela Editora Les Temps de Cèrises, sobre a crise internacional e as alternativas de esquerda, fruto do seminário realizado em São Paulo, Brasil, em 20 e 21 de junho, sob os auspícios do PT, o PCdoB e suas respectivas fundações de estudos, a Perseu Abramo e a Maurício Grabois, e da Rede Corresponências Internacionais.

Promovido pela bancada parlamentar do bloco Esquerda Democrata e Republicana, do qual fazem parte os comunistas e pela Fundação Gabriel Peri, o ato foi coordenado por Patrick Theuret, de Correspondências Internacionais e contou com as presenças do renomado economista francês de esquerda, Paul Boccara, do jornalista e escritor Henri Alleg, do embaixador de Cuba na França, Orlando Gual, dos dirigentes políticos Robert Griffiths, secretário-geral do PC da Grã Bretanha, Chris Mathlako,do Birô Político do PC da África do Sul, Sérgio Ribeiro, do Comitê Central do PCP, Lô Gourmot, da União das Forças pelo Progresso, da Mauritânia, Gyula Thurmer, do Partido dos Trabalhadores da Hungria, Valter Pomar, do Partido dos Trabalhadores e José Reinaldo Carvalho, editor do Vermelho e membro da Comissão Política e do Secretariado do Partido Comunista do Brasil. Presentes entre o público a embaixadora da Bolívia na França e representações diplomáticas do Brasil, Venezuela e Sri Lanka.

Brasileiros abrem o debate

As intervenções de abertura foram feitas pelos brasileiros José Reinaldo e Valter Pomar, organizadores do seminário de 2009. Para Reinaldo, “As análises interpretativas sobre a crise reproduzidas no livro Grupons-nous et demain?” refutam certas teses que de maneira insidiosa e oportunista penetraram de uma ou outra maneira, no pensamento da esquerda, em particular a ideia que marcou todo o período da década de 1990, segundo a qual o capitalismo, com a transnacionalização e a globalização financeira, teria atingido um nível de expansão irreversível e reunido as condições para a inauguração de uma nova ‘idade de ouro’”. A esta visão, segundo Reinaldo, correspondeu também o “diagnóstico errôneo de que o imperialismo estadunidense tinha superado a etapa regressiva, decadente e senil observada desde os anos 1970”.

O dirigente do PCdoB disse em sua alocução que a crise atual tem dimensões sistêmicas e estruturais, manifesta-se nas esferas financeira e produtiva e é determinada pela natureza intrínseca do capitalismo ; atinge duramente os direitos dos trabalhadores e os interesses nacionais dos povos e nações que lutam por sua independência e está ligada à erosão das posições da economia norte-americana e à deterioração do dólar como padrão monetário internacional.

José Reinaldo criticou também as medidas supostamente anti-crise” dos governos dos países capitalistas: “São políticas que correspondem aos interesses da burguesia monopolista e financeira, dilapidam ainda mais as finanças públicas, e se destinam a salvar o sistema da falência”. Contundente e agudo na crítica, Reinaldo considera que a crise “longe de acabar, está em pleno desenvolvimento, reflete a bancarrota do neoliberalismo e constitui a manifestação do fracasso do próprio capitalismo”.

Reinaldo fez ainda uma análise do quadro político internacional, chamou a atenção para a instabilidade da situação mundial, criticou a política externa atual da Casa Branca, supostamente “doce e independente”, denunciou a militarização, com o novo conceito estratégico da Otan, a Quarta Frota e o Africom, assim como a continuação das ocupações militares dos EUA no Oriente Médio e na Ásia central. Tomando como exemplo as rebeliões populares no norte da África, sobretudo na Tunísia e no Egito, o dirigente do PCdoB considera que “o anti-imperialismo é o espírito da época”. Reinaldo informou que está em curso a edição do livro em Português, prevista para 2011.

A intervenção do dirigente do PT,Valter Pomar despertou grande interesse. Em estilo didático, claro e conciso, fez uma exposição teórica sobre a luta pelo socialismo, um balanço das experiências revolucionárias do século 20. Com sólidas referências marxistas e leninistas, Pomar dissertou sobre a transição do capitalismo ao comunismo, a luta pelo socialismo no século 21 e os esforços para “superar o déficit teórico”. Advertiu que a crise atual pode ter uma saída conservadora ou uma saída progressista, socialista. Para ele, é dever da esquerda “lutar pela saída socialista”.

Crise da civilização ocidental

Paul Boccara disse que a crise é sistêmica e provoca “viragens radicais”. Para ele no ambiente de crise do capitalismo, crescem as oportunidades de transformação, pois “estamos vivendo não só uma crise do capitalismo, mas de toda a civilização ocidental”. O célebre economista francês considera que a “crise econômica fez saltar em pedaços as ilusões sobre o mundo dominado pelo neoliberalismo”. Boccara defendeu a necessidade de lutar por novas relações políticas, demográficas e culturais, de ultrapassar as atuais relações de mercados, as formas de delegação de poder e defendeu o compartilhamento de toda a humanidade para favorecer as atividades sociais livres de cada ser humano.

O dirigente comunista sul-africano Chris Mathlako referiu-se em sua intervenção à necessidade de encontrar alternativas de esquerda no mundo, à luta pela democracia e a soberania nacional. Disse que na África do Sul os comunistas promovem a união das forças progressistas e que vê grande potencial de avanço das lutas no quadro da crise atual. Mathlako elogiou a publicação do livro, que contém “a trajetória das forças progressistas e uma correta interpretação da crise” e fez um chamamento pela consolidação da rede Correspondências Internacionais”.

A revolução bate à porta

Outro africano que cativou o público foi Lô Gourmo, da Mauritânia, país simultaneamente árabe e da África negra. Para Lô, “o livro faz parte da luta para reconstruir a teoria num contexto de crise aguda, em que entra na ordem do dia a luta pela alternativa revolucionária”. Gourmo analisou os acontecimentos na Tunísia e no Egito e deplorou que toda a propaganda dos meios de comunicação burgueses procura reduzir a rebelião popular a uma luta pela democracia liberal e institucional. Ele opina, porém que “há outras questões de fundo, de natureza social, presentes nessas rebeliões”. Arrematou afirmando que “a revolução bate à porta, mas não são ainda os revolucionários que a abrem”.

Edição em Inglês

Robert Griffith, secretário-geral do Partido Comunista britânico anunciou a publicação do livro em inglês, no próximo mês. Em sua opinião, o livro vai jogar um importante papel “contra a ofensiva brutal do capitalismo e aprofundar a compreensão sobre a crise desse sistema”. O dirigente britânico fez referências à intensificação da luta dos trabalhadores na Europa.
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Sérgio Ribeiro, do PCP, disse que “a crise não passou e prossegue a linha dura neoliberal”. Segundo ele, “muitas coisas ocorreram desde a realização do seminário”. Ele destacou entre esses acontecimentos a intensificação da luta dos trabalhadores, de que Portugal foi um dos destacados exemplos. Ribeiro aproveitou a ocasião para informar sobre o lançamento em Portugal do Livro 2 de O Capital, de Karl Marx, uma tradução aos cuidados do intelectual comunista português Barata Moura.
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O húngaro Gyula Thurmer chamou a atenção para o fato de que “o elo débil da crise não é a Europa Ocidental, mas o Leste Europeu” e destacou entre os problemas econômicos e sociais aqueles vividos pela Rússia.

Renovação em Cuba

O ato foi encerrado com a intervenção do embaixador de Cuba na França, Orlando Gual. Ele opinou que há uma crise do modelo, mas que a alternativa não é criar novos modelos. Na luta pelas alternativas, cada país deve criar sua própria experiência e não copiar modelos, assegurou o embaixador, que fez também uma dura crítica à ordem internacional, “que não tem nada a ver com os interesses dos povos”. Gual considera que a tarefa revolucionária “está apenas começando, ao referir-se às atuais rebeliões populares. Ele elogiou a publicação do livro, afirmando ser necessário estudar, intercambiar experiências e ligar a teoria à prática. O embaixador cubano também informou sobre o desenvolvimento dos debates na Ilha sobre a renovação do modelo econômico. “Um grande debate popular, que já envolveu mais de 6 milhões de pessoas na discussão dos documentos preparatórios do congresso do PC Cubano, que terá lugar em 16 de abril deste ano.

Depois do ato houve um jantar de confraternização oferecido por Marc Everbecq, prefeito de Bagnolet, nos arredores de Paris, onde se realiza nesta terça-feira (15) o seminário da Rede Correspondências Internacionais

Da redação

sábado, 18 de dezembro de 2010

Poesia de Brecht

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O Analfabeto Político

"O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão,
do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia
a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta,
o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista,
pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo."
Nada é impossível de Mudar
"Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de
hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem
sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar."
Privatizado
"Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário. E agora não contente querem
privatizar o conhecimento, a sabedoria,
o pensamento, que só à humanidade pertence.
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Assim
Eles criaram um traidor, ensinaram-lhe
Suas artes, e ele
Denuncia-os ao inimigo.
Sim, eu conto seus segredos. Fico
Entre o povo e explico
Como eles trapaceiam, e digo o que virá, pois
Estou instruído em seus planos.
O latim de seus clérigos corruptos
Traduzo palavra por palavra em linguagem comum,
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##
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Elogio do Revolucionário

Quando aumenta a repressão, muitos desanimam.
Mas a coragem dele aumenta.
Organiza sua luta pelo salário, pelo pão
e pela conquista do poder.
Interroga a propriedade:
De onde vens?
Pergunta a cada idéia:
Serves a quem?
Ali onde todos calam, ele fala
E onde reina a opressão e se acusa o destino,
ele cita os nomes.
À mesa onde ele se senta
se senta a insatisfação.
À comida sabe mal e a sala se torna estreita.
Aonde o vai a revolta
e de onde o expulsam
persiste a agitação.
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Elogio da Dialética

A injustiça passeia pelas ruas com passos seguros.
Os dominadores se estabelecem por dez mil anos.
Só a força os garante.
Tudo ficará como está.
Nenhuma voz se levanta além da voz dos dominadores.
No mercado da exploração se diz em voz alta:
Agora acaba de começar:
E entre os oprimidos muitos dizem:
Não se realizará jamais o que queremos!
O que ainda vive não diga: jamais!
O seguro não é seguro. Como está não ficará.
Quando os dominadores falarem
falarão também os dominados.
Quem se atreve a dizer: jamais?
De quem depende a continuação desse domínio?
De quem depende a sua destruição?
Igualmente de nós.
Os caídos que se levantem!
Os que estão perdidos que lutem!
Quem reconhece a situação como pode calar-se?
Os vencidos de agora serão os vencedores de amanhã.
E o "hoje" nascerá do "jamais".
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.Os que lutam

"Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
...Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis."
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http://www.culturabrasil.pro.br/brechtantologia.htm#O%20Analfabeto%20Pol%C3%ADtico
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sábado, 13 de novembro de 2010

O May be Man ... - Um texto de Mia Couto

por Ana Albuquerque a Sábado, 13 de Novembro de 2010 às 14:04
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O May Be Man...




Existe o “Yes man”. Todos sabem quem é e o mal que causa. Mas existe o May be man. E poucos sabem quem é. Menos ainda sabem o impacto desta espécie na vida nacional. Apresento aqui essa criatura que todos, no final, reconhecerão como familiar.
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O May be man vive do “talvez”. Em português, dever-se-ia chamar de “talvezeiro”. Devia tomar decisões. Não toma. Sim­plesmente, toma indecisões. A decisão é um risco. E obriga a agir. Um “talvez” não tem implicação nenhuma, é um híbrido entre o nada e o vazio.
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A diferença entre o Yes man e o May be man não está apenas no “yes”. É que o “may be” é, ao mesmo tempo, um “may be not”. Enquanto o Yes man aposta na bajulação de um chefe, o May be man não aposta em nada nem em ninguém. Enquanto o primeiro suja a língua numa bota, o outro engraxa tudo que seja bota superior.
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Sem chegar a ser chave para nada, o May be man ocupa lugares chave no Estado. Foi-lhe dito para ser do partido. Ele aceitou por conveniên­cia. Mas o May be man não é exactamente do partido no Poder. O seu partido é o Poder. Assim, ele veste e despe cores políticas conforme as marés. Porque o que ele é não vem da alma. Vem da aparência. A mesma mão que hoje levanta uma bandeira, levantará outra amanhã. E venderá as duas bandeiras, depois de amanhã. Afinal, a sua ideolo­gia tem um só nome: o negócio. Como não tem muito para negociar, como já se vendeu terra e ar, ele vende-se a si mesmo. E vende-se em parcelas. Cada parcela chama-se “comissão”. Há quem lhe chame de “luvas”. Os mais pequenos chamam-lhe de “gasosa”. Vivemos uma na­ção muito gaseificada.
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Governar não é, como muitos pensam, tomar conta dos interesses de uma nação. Governar é, para o May be Man, uma oportunidade de negócios. De “business”, como convém hoje, dizer. Curiosamente, o “talvezeiro” é um veemente crítico da corrupção. Mas apenas, quando beneficia outros. A que lhe cai no colo é legítima, patriótica e enqua­dra-se no combate contra a pobreza.
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Mas a corrupção, em Moçambique, tem uma dificuldade: o corrup­tor não sabe exactamente a quem subornar. Devia haver um manual, com organograma orientador. Ou como se diz em workshopês: os guidelines. Para evitar que o suborno seja improdutivo. Afinal, o May be man é mais cauteloso que o andar do camaleão: aguarda pela opi­nião do chefe, mais ainda pela opinião do chefe do chefe. Sem luz verde vinda dos céus, não há luz nem verde para ninguém.
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O May be man entendeu mal a máxima cristã de “amar o próximo”. Porque ele ama o seguinte. Isto é, ama o governo e o governante que vêm a seguir. Na senda de comércio de oportunidades, ele já vendeu a mesma oportunidade ao sul-africano. Depois, vendeu-a ao portu­guês, ao indiano. E está agora a vender ao chinês, que ele imagina ser o “próximo”. É por isso que, para a lógica do “talvezeiro” é trágico que surjam decisões. Porque elas matam o terreno do eterno adiamento onde prospera o nosso indecidido personagem.
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O May be man descobriu uma área mais rentável que a especulação financeira: a área do não deixar fazer. Ou numa parábola mais recen­te: o não deixar. Há investimento à vista? Ele complica até deixar de haver. Há projecto no fundo do túnel? Ele escurece o final do túnel. Um pedido de uso de terra, ele argumenta que se perdeu a papelada. Numa palavra, o May be man actua como polícia de trânsito corrup­to: em nome da lei, assalta o cidadão.
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Eis a sua filosofia: a melhor maneira de fazer política é estar fora da política. Melhor ainda: é ser político sem política nenhuma. Nessa fluidez se afirma a sua competência: ele e sai dos princípios, esquece o que disse ontem, rasga o juramento do passado. E a lei e o plano servem, quando confirmam os seus interesses. E os do chefe. E, à cau­tela, os do chefe do chefe.
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O May be man aprendeu a prudência de não dizer nada, não pensar nada e, sobretudo, não contrariar os poderosos. Agradar ao dirigen­te: esse é o principal currículo. Afinal, o May be man não tem ideia sobre nada: ele pensa com a cabeça do chefe, fala por via do discurso do chefe. E assim o nosso amigo se acha apto para tudo. Podem no­meá-lo para qualquer área: agricultura, pescas, exército, saúde. Ele está à vontade em tudo, com esse conforto que apenas a ignorância absoluta pode conferir.
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Apresentei, sem necessidade o May be man. Porque todos já sabíamos quem era. O nosso Estado está cheio deles, do topo à base. Podíamos falar de uma elevada densidade humana. Na realidade, porém, essa densidade não existe. Porque dentro do May be man não há ninguém. O que significa que estamos pagando salários a fantasmas. Uma for­tuna bem real paga mensalmente a fantasmas. Nenhum país, mesmo rico, deitaria assim tanto dinheiro para o vazio.
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O May be Man é utilíssimo no país do talvez e na economia do faz-de- conta. Para um país a sério não serve.
(Mia Couto)

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Tu e 2 outras pessoas pessoas gostam disto.
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Ana Albuquerque Isto faz-me lembrar qualquer coisa. Qualquer coisa de muito próximo...
há 11 horas
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Victor Nogueira
Grato, Ana. É sempre saboroso ler Mia Couto. O Maybe Man. que em português é talvez e também o NIM, uma espécie que prolifera há séculos de braço dado com yes men/women, cuja única cenoura é "o dinheiro, esse maganão", no poema de Lopes Ribeiro dito por João Villaret, e cuja bússola é o vento que "orienta" o galo no alto da torre do campanário nas diversas "paróquias". Mas existe pk tem artimanha que consegue esconder a nudez com que vai vestido, enganando a maioria desde a imensidão do passado, dia após dia. Bjo do Kant_O
há 4 horas

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

A reconfiguração do Estados ao serviço do grande capital - Filipe Diniz


 
Filipe Diniz
24.Fev.10 :: Colaboradores

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“Se o Estado que a política de direita gera se coloca em confronto insanável com os interesses, direitos, aspirações e liberdades dos trabalhadores e do povo, a luta dos trabalhadores e do povo fará com que, cedo ou tarde, chegue a momento em que essa contradição será superada, numa radical ruptura que retome o caminho de Abril.”

Para abordar o tema que me foi proposto – o da reconfiguração do Estado ao serviço dos grandes interesses económicos – será talvez necessário recuar mais longe do que a década que temos em análise, incluindo até o período da resistência antifascista. É útil relembrar, no contexto actual, o que Álvaro Cunhal escreveu acerca das posições da burguesia liberal sobre as necessidades de modificação ou substituição do Estado fascista pela revolução democrática: [existe uma] «íntima relação entre os objectivos políticos que cada sector atribui à revolução antifascista e as suas posições em relação ao problema do Estado: quanto menores são as transformações de ordem social e política encaradas, tanto menores são as exigências de modificação ou substituição do Estado fascista».
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Um dos traços mais originais da nossa Revolução consistiu no facto de se terem operado no País, num muito curto período de tempo, transformações sociais e económicas profundas sem que, em algum momento, se tivesse constituído um poder coerentemente revolucionário e sem que se tivesse criado um aparelho de Estado correspondente às transformações alcançadas. Mais ainda, essas transformações prosseguiram ainda quando já se instalara nos órgãos de poder uma correlação de forças profundamente desfavorável.
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Muito do que fora alcançado foi destruído. Mas que tenha sido possível, primeiro, realizar tão profundas transformações nas condições existentes e, depois, defendê-las de forma tão prolongada num quadro de relações de poder profundamente desfavoráveis continua a constituir um dos traços mais notáveis do processo de Abril. 
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No decurso do período mais criador da Revolução e apesar das contradições internas nos órgãos de poder existentes foi possível a tomada de muitas decisões e medidas progressistas. E mesmo quando o ímpeto transformador de Abril foi detido ter-se-á prolongado durante um certo período uma situação com características muito semelhantes àquelas que Lenine prevê no seu texto clássico sobre o Estado, ou seja, a possibilidade de ocorrerem «excepcionalmente períodos em que as classes em luta se mantêm uma à outra tão perto do equilíbrio que o poder de Estado [….] alcança momentaneamente uma certa autonomia face a ambos». 
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Quando Marx e Engels reflectiram sobre a questão do Estado, a única experiência real de um poder exercido pela classe operária e pelo povo eram os breves e heróicos dias da Comuna de Paris. Quando Lenine escreveu «O Estado e a Revolução» os sovietes eram já uma nova e importante realidade, mas não fora ainda criado o primeiro Estado proletário da história nem existia ainda verdadeiro poder soviético. A teorização marxista identificou justamente, desde as primeiras formulações, o Estado como instrumento de dominação e opressão de classe e como factor de reprodução dessa dominação. Mas ao longo de todo o século XX e até aos dias de hoje surgiram diferentes formas de organização do Estado, desde os estados fascistas às democracias burguesas que, pressionadas pela luta dos trabalhadores – animada pela ampla consagração de direitos aos trabalhadores e aos povos nos países socialistas – integraram no sistema do Estado um conjunto de importantes funções sociais. Desde o final do século passado e até hoje um processo complexo de hegemonização do campo capitalista pelo imperialismo levou à derrota do campo socialista e a um feroz ataque, sob a bandeira do neoliberalismo, aos direitos conquistados pelos trabalhadores. A constituição de instituições supranacionais – decorrente da tendência para a uma ordem internacional hegemonizada por uma só potência – com o imperialismo assumir no plano internacional tarefas de repressão anteriormente reservadas aos estados nacionais (como sucede ao abrigo do chamado «direito de ingerência humanitária»); a abdicação de parcelas – cada vez mais importantes – da sua soberania por parte dos estados dependentes. 
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Mas a avaliação do papel do Estado permanece necessariamente centrada na identificação dos interesses de classe ao serviço dos quais é organizado. No decurso da década cujo balanço fazemos a prevalência desses interesses tornou-se ainda mais evidente do que em qualquer período anterior desde 1976. Tornou-se mais evidente nomeadamente no plano das funções sociais do Estado, no que diz respeito aos direitos dos trabalhadores, no que diz respeito ao papel e às missões das forças armadas e de segurança, no que diz respeito à justiça, no que diz respeito ao papel do Estado na economia e no ordenamento do território, no que diz respeito às liberdades e garantias dos cidadãos e ao regime democrático, no que diz respeito à mutilação da soberania nacional. Os fenómenos de desresponsabilização do Estado manifestam-se tanto no plano das leis com no das estruturas do aparelho de Estado.

Ofensiva em todas as frentes
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Quando a direita afirma que há funcionários públicos a mais isso significa fundamentalmente que do que se trata é de reduzir as funções sociais e culturais do Estado. A colocação de milhares de trabalhadores do Ministério da Agricultura na situação de disponíveis acompanhou o processo de destruição da agricultura portuguesa; o emagrecimento do orçamento para a cultura artística e a abdicação do projecto da sua democratização traduziu-se no esvaziamento técnico-financeiro e humano da Direcção Geral da Cultura. O Estado externaliza aspectos das suas funções técnicas e as estruturas, descentralizadas ou meramente desconcentradas, dos ministérios deixam de ser órgãos de apoio aos trabalhadores para se tornarem tentáculos do aparelho de Estado, exercendo funções de controlo e propaganda. 
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Depende determinantemente do papel assumido pelo Estado a concretização do direito dos cidadãos à educação, à cultura, à saúde, à justiça. E é assim porque incumbe ao Estado proporcionar condições de igualdade na concretização desses direitos a cidadãos que, por força não apenas da sua situação social e económica mas também da sua localização no território nacional estão à partida em posições de profunda discriminação e desigualdade. Mas o que se acentuou ao longo desta década foram processos de redução do papel do Estado no sentido de assegurar esses direitos, de alienação de responsabilidades pela privatização directa ou indirecta e a mercantilização de serviços públicos, de reorganização das redes de equipamentos e serviços em termos que agravam ainda mais as desigualdades regionais. A escola pública, o posto de saúde, a maternidade, o tribunal ficam mais longe e mais caro. O interior do País fica mais discriminado e desertificado, a faixa litoral mais congestionada e subequipada, o País mais assimétrico. 
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A reconfiguração da Escola Pública torna mais desiguais as crianças e os jovens no que diz respeito à rede e aos custos, mas torna-as ainda mais desiguais perante a organização curricular, os programas de ensino, os conteúdos, as condições de funcionamento que encaminham para o insucesso as crianças e os jovens oriundos de meios social, económica e culturalmente mais marginalizados. 
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O desmantelamento dos direitos sociais, nomeadamente o direito à saúde e o direito à segurança social, avançou sob a capa da «sustentabilidade». Mas aquilo que é dito insustentável enquanto universal e público, torna-se um bom negócio quando passa a privado e acessível apenas aos que o podem pagar, porque o Estado assegura aos privados que se houver lucros são seus, mas se houver prejuízos o Estado pagará por eles. 
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A reconfiguração do Estado ao serviço do capital monopolista constitui uma longa narrativa, que passa por todo o processo de privatizações, nesta década sobretudo marcada pelas obscuras negociatas em torno do sector energético. Privatizações no interesse do grande capital mas também, no final da década, nacionalizações com o mesmo sentido, enterrando milhões provenientes do sector público da banca em socorro dos bancos afundados em resultado de operações que, em alguns casos, são simplesmente do foro criminal.
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O Estado não só vem transferindo para o sector privado o que é rentável, tanto no sector empresarial como nos serviços públicos. O Estado age também no sentido de que esses sectores se tornem ainda mais lucrativos e rentáveis, nomeadamente através das comissões ditas «reguladoras» para a fixação das tarifas e dos preços, dos benefícios fiscais, da tolerância face ao funcionamento em cartel, ao desinvestimento, à fraude e à evasão fiscal, de uma política laboral que incentiva o constante agravamento da exploração dos trabalhadores. Acompanhando e apoiando a financeirização da economia o Estado tornou-se peça fundamental no empolamento da especulação fundiária e imobiliária (à qual os grandes grupos financeiros estão intimamente associados), nomeadamente através dos processos de alienação do património imobiliário público sob a tutela de diferentes ministérios, do favorecimento de amplas operações ditas de reabilitação urbana nas quais a componente especulativa é central, como sucedeu em Lisboa com a Expo 98 e como sucede com várias das operações POLIS, ou com a escandalosa excepcionalidade atribuída aos processos PIN e PIN+.
O Estado não é neutro
As Forças Armadas que desempenharam um tão decisivo papel na Revolução de Abril existem hoje num quadro profundamente diferente, com efectivos profissionais e contratados, subordinadas a um conceito estratégico desprovido de efectivo compromisso patriótico e ligado ao povo, participando, contra a Constituição, em operações de agressão e ocupação imperialista no Kosovo, no Iraque, no Afeganistão. O papel do Estado não pode ser o mesmo numa democracia antimonopolista ou num regime em que o grande capital controla de forma cada vez mais determinante o poder político. O Estado não é neutro, e a sua intervenção ou é democrática, como instrumento de defesa e concretização dos direitos, aspirações e liberdades populares e dos trabalhadores, esmagadoramente maioritários, ou assume a defesa e concretização dos interesses do grande capital, dos exploradores, dos interesses infinitamente minoritários de todos aqueles cuja prosperidade reside na perpetuação das desigualdades, das injustiças, da hipoteca dos interesses nacionais, e, nesse caso, configura-se tendencialmente como um Estado antidemocrático.
Quando vemos hoje construir-se passo a passo um processo de governamentalização do aparelho da justiça, de centralização dos serviços de informações e das forças de segurança, de pressão e controle de toda a comunicação social, já de si tão controlada e desprovida de pluralismo, quando vemos uma política que justifica toda a sua iniciativa pela defesa dos grandes interesses económicos, ao mesmo tempo que conduz uma brutal ofensiva contra os direitos dos trabalhadores, quando vemos aprovar-se legislação que tem como único objectivo estrangular financeiramente o PCP e negar ao PCP o direito de se organizar de acordo com os seus estatutos e a vontade dos seus militantes, quando se sucedem os propósitos de alterar a legislação eleitoral em termos que visam distorcer radicalmente a expressão da vontade popular, este quadro já nada tem a ver com o Portugal de Abril, mas tem muito a ver com tudo contra o qual Abril se realizou.
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Dizem os nossos clássicos que o Estado surge, não em consequência das contradições internas numa dada sociedade, mas a partir do momento em que essas contradições se tornam irremediavelmente insanáveis.
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Se o Estado que a política de direita gera se coloca em confronto insanável com os interesses, direitos, aspirações e liberdades dos trabalhadores e do povo, a luta dos trabalhadores e do povo fará com que, cedo ou tarde, chegue a momento em que essa contradição será superada, numa radical ruptura que retome o caminho de Abril.
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Texto da intervenção de Filipe Diniz, em 6 de Fevereiro, no seminário organizado pelo PCP, «Dez anos de Política de Direita».
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http://odiario.info/?p=1493
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