Mostrar mensagens com a etiqueta Mário Soares. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mário Soares. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

António José Rodrigues - Os revanchistas de Novembro de 1975

*  António José Rodrigues

A decisão do governo da AD de constituir uma comissão para comemorar os 50 anos do 25 de Novembro configura mais um capítulo da operação de falsificação e de deturpação da história, por parte daqueles que nunca se conformaram com a Revolução de Abril. Na verdade, 50 anos depois aí temos muitos dos herdeiros do regime de Salazar e Caetano, agora de forma aberta, a animarem as comemorações do 25 de Novembro, os mesmo que foram objecto das benesses do fascismo, e que são hoje, no Governo e fora dele, os protagonistas da defesa dos interesses do grande capital.

A tentativa de apagar da memória do povo o 25 de Abril e substituí-lo pelo 25 de Novembro está bem patente nas afirmações do ministro da Defesa Nuno Melo, o homem forte das comemorações, as quais foi decidido alongar o período das comemorações por mais cinco meses, até Maio de 2026, para assegurar «que outras datas e acontecimentos só possíveis porque houve o 25 de Novembro venham a ser consideradas, como sejam a aprovação da Constituição da República e as eleições legislativas que deram lugar à primeira legislatura em 25 de Abril de 1976». Afirmações confirmadas na Resolução do próprio Governo.

Uma subtil mas pura mentira, considerando que as primeiras eleições legislativas decorrem da Assembleia Constituinte, realizadas em Abril de 1975, em pleno período revolucionário, e foram fruto da Revolução de Abril. Eleições que a contra-revolução quis adiar para impor uma solução referendária anti-democrática, à laia da Constituição de 1933, elaborada a partir de cima e sem a participação dos eleitos pelo povo. O objectivo em prolongar até Abril as reaccionárias comemorações para assinalar as eleições de 1976 anunciadas como as primeiras, é claro: identificar o processo revolucionário como um período ditatorial. Exemplo de que o 25 de Novembro não pôs fim ao processo iniciado em 25 de Abril, como pretendiam as forças reaccionárias, foi a aprovação e a entrada em vigor da Constituição da República, traduzindo, não apenas, o resultado dos trabalhos da Assembleia Constituinte, mas o resultado da luta do povo português e das forças revolucionárias.

Daí que a Constituição da República ainda hoje, apesar de amputada por sucessivas revisões constitucionais promovidas pelo PS e PSD, continue a manter conteúdos profundamente progressistas, e por isso a ser o alvo preferencial da direita de todos os matizes. Os partidos de direita perseguem o objectivo de rever a Constituição da República, procurando retirar princípios e valores que esta encerra e atentar contra os direitos nela inscritos, com o supremo objectivo de consumar a reconfiguração do Estado ao serviço dos interesses do grande capital nacional e estrangeiro.

O «verão quente» de 1975, que antecedeu o 25 de Novembro, foi um período caracterizado por uma profunda crise político-militar, com graves repercussões no plano económico e social e que, no essencial, resultou da ruptura no campo democrático, com os dirigentes socialistas a assumirem uma posição de reserva e oposição à evolução do processo revolucionário e a liderarem um processo de divisão, quer do movimento democrático quer do movimento popular e sindical em que a acção provocatória do 1.º de Maio de 1975 é momento marcante. Mas também pela cisão no MFA, entre o Grupo dos Nove e a Esquerda militar, que conduziria à desagregação e paralisação das estruturas superiores do Movimento das Forças Armadas (MFA). Um objectivo há muito perseguido pelas forças de direita e da social-democracia, do Grupo dos Nove, mas também de sectores esquerdistas agrupados em torno de Otelo Saraiva de Carvalho, ao mesmo tempo que a Esquerda militar perdia posições importantes nos centros de decisão político-militar.

Uma situação que permitiu que se desenvolvesse um conjunto de acções contra-revolucionárias na tentativa de inverter o curso da Revolução de Abril, nomeadamente recorrendo ao terrorismo, de forma organizada, procurando semear a intranquilidade e o pânico, isolar as forças de esquerda, desestabilizar a situação política e pôr em causa a própria democracia. Uma acção terrorista que atingiu sobretudo o PCP e os sindicatos, e de que é impossível desligar, como pretendem alguns, as acções e iniciativas políticas que caracterizaram o chamado «verão quente» de 1975.

O balanço destas acções é público e conhecido. Em Julho tiveram lugar 86 actos terroristas, dos quais 33 assaltos, pilhagens e incêndios de Centros de Trabalho do PCP e outras 23 tentativas repelidas. Acções acompanhadas do lançamento de bombas, fogos postos e agressões. Em Agosto, mais de 153 acções, das quais 82 assaltos e destruições de Centros de Trabalho (55 do PCP e 25 do MDP/CDE), 39 incêndios, 15 bombas, 23 agressões.

Neste quadro, o 25 de Novembro de 1975 foi o corolário de um longo período de instabilidade, em que o agravamento da crise político-militar e a ofensiva contra-revolucionária decorrem em paralelo, nomeadamente com a queda do V Governo Provisório e o afastamento do general Vasco Gonçalves, também das estruturas superiores das Forças Armadas e do MFA. O afastamento de Vasco Gonçalves era um objectivo há muito perseguido, como nos retrata António Avelãs Nunes no seu livro O Novembro que Abril não merecia: «A pedido do grupo de Melo Antunes, Carlucci pressionava Costa Gomes no sentido de demitir o V Governo Provisório, substituindo o Primeiro-Ministro e afastando os comunistas do novo Governo, e instava os embaixadores da França, RU, e RFA para que também eles pressionassem Costa Gomes (“temos agora de nos interrogar de que lado está Costa Gomes ou, em qualquer caso, se ainda vale a pena preservá-lo”)».

Este longo processo que antecedeu o 25 de Novembro foi também marcado por várias tentativas e acções contra-revolucionárias, em que se destacam o golpe Palma Carlos, o 28 de Setembro e o 11 de Março, através das quais os seus autores e cúmplices as procuraram sempre justificar como sendo respostas a tentativas ou golpes do PCP. O 25 de Novembro não foi excepção.

Das várias provocações montadas neste período com o objectivo de responsabilizar os comunistas e o movimento operário e contra eles atear a ira popular, o assalto à Embaixada de Espanha é profundamente ilustrativo, enquanto o terrorismo bombista ganhava também um lugar de destaque, com a activa participação de militares e políticos, bem como de organizações como o MDLP-Movimento Democrático de Libertação de Portugal, inspirado e chefiado por Spínola, e o ELP-Exército de Libertação de Portugal, entre outras organizações terroristas e contra-revolucionárias que actuavam a partir do estrangeiro, nomeadamente do Brasil e de Espanha.

O 25 de Novembro foi sustentado numa grande aliança contra-revolucionária, internamente muito fragmentada e que contou com o importante contributo de Mário Soares, principal promotor de uma vergonhosa campanha anti-comunista, realizada na base da mentira e de processos de intenções irreais, do PS e do Grupo dos Nove, onde participavam fascistas declarados e outros reaccionários radicais, cujo objectivo era a instauração de uma nova ditadura, que tomasse violentas medidas de repressão, nomeadamente, a ilegalização e destruição do PCP.

A verdade é que, após o golpe do 25 de Novembro, a rápida tomada de consciência dos militares democratas dos riscos que a democracia corria, nomeadamente aqueles que tendo combatido a Esquerda militar não se identificavam com a direita reaccionária, conduziu à criação de uma nova linha de defesa da democracia, designadamente no seio das Forças Armadas, e impediu que o 25 de Novembro liquidasse a revolução portuguesa e as suas conquistas. Importa, a propósito, relembrar o papel do esquerdismo e de forças como o MRPP, a AOC ou o PCP(m-l) que se aliaram ao PSD e ao CDS, e acabaram por se revelar agentes da direita e da extrema-direita, sem esquecer que destes partidos emergiu um número infindável de figuras, de que Durão Barroso será o expoente máximo pelos elevados cargos que exerceu no plano nacional e internacional, mas que se estende por um número infinito de políticos, jornalistas, «comentadores» e «analistas», que hoje se albergam no bloco central de interesses e continuam, «coerentemente», anticomunistas e ferozes defensores do grande capital, que havia sido derrotado no 25 de Abril e no 11 de Março.

O 25 de Novembro, ao contrário do que muitos dos seus protagonistas disseram e escreveram e alguns continuam a insinuar, não foi um golpe promovido pelo PCP, pela Esquerda militar ou pela «ala gonçalvista» do MFA, mas sim um golpe militar contra-revolucionário, fruto de uma cuidada e longa preparação, no quadro de um tumultuoso processo de rearrumação de forças no plano político e militar.

Álvaro Cunhal, no livro A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril (A contra-revolução confessa-se), explica que, «como a orientação e acção do PCP e os acontecimentos provassem que não tinha havido nem golpe nem tentativa de golpe do PCP, inventou-se a tese do "recuo" – a história de que o PCP, vendo que o seu golpe militar, já desencadeado, iria falhar, recuou e desistiu do golpe. Essa tese do "recuo do PCP" é condimentada com uma insultuosa afirmação de Mário Soares: que o PCP teria lançado o golpe, mas, vendo que ia ser derrotado, deixou no terreno os esquerdistas "abandonados pelo PC" à sua sorte e à repressão (Maria João Avillez, Soares. Ditadura e Revolução). Falsidade e calúnia retomada por Freitas do Amaral (O Antigo Regime e a Revolução).

Explique-se. Esta invencionice, como argumento, deturpa dois factos reais: Um, as orientações dadas pela Direcção do PCP na noite de 24 para 25 a algumas das suas organizações para não se deixarem arrastar em atitudes ou na participação em aventuras esquerdistas de confronto militar (casos do Forte de Almada e do RAL1). Outro, uma conversa telefónica na mesma noite de 24 para 25 entre o Presidente da República Costa Gomes e o secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, em que este, tendo tomado a iniciativa do contacto, nos termos habituais da ligação institucional com a Presidência da República, comunicou ao Presidente, desmentindo especulações em curso, que o PCP não estava envolvido em qualquer iniciativa de confronto militar e insistia em apontar a necessidade de uma solução política».

O PCP teve uma acção incansável no sentido de evitar o confronto, expressa em intervenções do seu secretário-geral, comunicados da sua Comissão Política e em variados documentos incluindo no próprio jornal Avante!, apontando uma saída política para a crise, propondo e concretizando encontros com todos os sectores, do PS (que recusou) aos agrupamentos esquerdistas, da Esquerda militar ao Grupo dos Nove e a militares esquerdistas ligados ao COPCON, embora sem resultados práticos.

Uma proposta que não obteve respostas, até porque o PS e os seus aliados tinham prosseguido as encenações e provocações com o objectivo de atingir e responsabilizar o PCP: primeiro, o caso do jornal República com os trabalhadores a tomarem posição contra a direcção do jornal e a orientação política por este seguida, tendo os dirigentes socialistas e os responsáveis do República, como então afirmou o PCP, «elementos mais do que suficientes para saberem que é uma calúnia tão torpe como absurda o atribuírem a responsabilidade da posição dos trabalhadores do jornal ao PCP»; depois, as manifestações no Patriarcado, resultado de algumas justas reivindicações profissionais do trabalhadores da Rádio Renascença não terem encontrado, por parte da hierarquia da Igreja, qualquer perspectiva de solução, com os comunistas a condenarem «todos os actos e atitudes que representam uma ofensa aos sentimentos religiosos do nosso povo». Na altura, o PCP sublinhou ainda «que sempre tem defendido e continua a defender a liberdade religiosa» sem, contudo, deixar de registar com preocupação uma nota pastoral dos Bispos, considerando-a uma «clara intromissão negativa na actual situação política, o que só poderá agudizar as dificuldades existentes».

Os acontecimentos do 25 de Novembro, porventura, nunca teriam acontecido se os golpistas liderados por Spínola não tivessem sido derrotados em 11 de Março, uma derrota que originou a imediata tomada de decisões históricas como a institucionalização do Movimento das Forças Armadas (MFA), a extinção da Junta de Salvação Nacional e do Conselho de Estado, a criação do Conselho da Revolução, a nacionalização da banca, dos seguros e de empresas como a TAP, a CP, a CIDLA, a SACOR, e ainda o aumento do Salário Mínimo Nacional para quatro mil escudos. A democracia portuguesa escolhe o rumo do socialismo.

Após a derrota do golpe de 11 de Março, em «meados de Julho» de 1975, como nos relata o insuspeito historiador José Freire Antunes (antigo deputado e dirigente do PPD/PSD) no livro O segredo do 25 de Novembro, o então major Ramalho Eanes, usando o nome de «João Silva», faz um contacto telefónico com o tenente-coronel Tomé Pinto, que se encontrava na 2.ª repartição do Estado-Maior do Exército. Era o pontapé de saída para a constituição do «Grupo Militar» que haveria de promover o golpe do 25 de Novembro.

Curiosamente, o mesmo Tomé Pinto, agora tenente-general na reforma, foi escolhido por Nuno Melo para presidir à comissão das comemorações dos 50 anos do 25 de Novembro.

O golpe do 25 de Novembro significou a criação de uma nova situação política, uma viragem à direita na vida nacional, mas os mais ambiciosos objectivos contra-revolucionários foram derrotados. A força e a dinâmica do movimento operário e popular e a intervenção esclarecida do PCP foram factores determinantes para a contenção do golpe. Em lugar de reprimido e ilegalizado, o PCP continuou no Governo e a reforçar a sua influência social e política. A aprovação da Constituição e a sua entrada em vigor constituiu um factor de primeiro plano para travar os planos golpistas. Será com a formação do primeiro governo constitucional do PS sozinho, mas de facto aliado à direita, que se virá a institucionalizar o processo contra-revolucionário.


Revolução de AbrilEdição Nº 399 - Nov/Dez 2025

https://omilitante.pcp.pt/pt/399/447/2218/Os-revanchistas-de-Novembro-de-1975.htm? 


Jorge Seabra - Carlucci e Companhia

 * Jorge Seabra  

Se a preparada resposta à engendrada «intentona da esquerda» de 25 de Novembro tivesse «dado para o torto» com a derrota da direita, haveria uma solução à chilena, com aviões vindos do Norte a bombardearem Lisboa, «a vermelha».


Créditos/ Jornal de Negócios  

Voltar ao passado pode parecer fútil num tempo em que se desenrolam importantes lutas pela reposição de direitos do trabalho e já cheio de temas «fracturantes», que um amigo, com humor, diz serem uma questão ortopédica.

Contudo, as memórias podem ajudar a perceber como algumas forças políticas se alinharam em tempos idos, escondendo, debaixo de um manto diáfano de belas frases, objectivos estratégicos ligados aos piores interesses.

Vem isto a propósito do recente falecimento de Frank Carlucci, antigo embaixador americano em Portugal entre 1975 e 78, indo depois ocupar o cargo de Director-adjunto da CIA (78-81).

«Durante o longo tempo em que esteve em Portugal, criou, com o futuro Presidente Mário Soares, uma cumplicidade estratégica essencial», – declarou o Presidente Marcelo, também ele um amigo de Frank Carlucci.

Na realidade, Carlucci esteve só três anos como embaixador em Portugal mas foi, de longe, o mais famoso de todos. E a forma como se fala dele é, agora, muito diferente. 

«Cumplicidade estratégica» entre Carlucci e Mário  Soares?...

Nos anos 70, se alguém o dissesse, corria o sério risco de ser apelidado de mentiroso, radical, sectário comunista! Mesmo o jovem Marcelo, ainda a adaptar-se à mudança por ter vivido sempre «encostado» à ditadura, talvez dissesse que nem conhecia o ianque…

A ligação aos USA e à CIA, então implicados no sangrento golpe de Pinochet, no Chile (1973), queimava. O presidente eleito, Salvador Allende, e a via pacífica para uma sociedade mais justa de matriz socialista, sucumbiam à violência da CIA que supervisionou a imposição de uma brutal ditadura. 

Um ano depois, em Portugal, a Revolução do Cravos, punha de novo o povo a berrar «o povo unido jamais será vencido» e outras coisas acabadas de silenciar à bala no Chile.

Para os USA, era mais uma intolerável chatice. Agora na Europa. Lá teria a CIA de fazer as malas e vir tratar do assunto. E foi o que fez. Demitiu o embaixador «normal» e enviou para cá um dos seus mais qualificados agentes em assuntos «especiais».

Carlucci era o homem. Tinha estado no Congo onde desempenhara um papel principal no assassinato de Lumumba, o mítico dirigente nacionalista africano, admirado em todo o mundo.

Obedecendo a Eisenhower (Robert Johnson, membro do National Security Council, confirmou depois ter ouvido o presidente dos USA dar a ordem para matar o primeiro-ministro congolês), Carlucci foi enviado para o Congo para tratar do assunto.

A CIA chegou a pensar usar armas químicas (método que agora se diz ser uma marca dos russos), mas o crime resolveu-se com a ajuda de belgas e catangueses.

«Do calor sanguinário do Congo, Frank Carlucci voou para o Brasil "ainda a tempo de ajudar a derrubar o governo de João Goulard" (The strange career of Frank Carlucci – Francis Schoor), que ameaçava aumentar os salários e nacionalizar as principais indústrias.»

O desaparecimento de Lumumba serviu para os americanos imporem Mobutu, um exemplo de democrata que matou todos os que vagamente se lhe opuseram na delapidação das riquezas do país. Anos depois, como detalhou a revista Afrique-Asie, a sua fortuna pessoal (incluindo um palacete isolado, frente ao mar, no Algarve), correspondia a toda a dívida externa do país.

Do calor sanguinário do Congo, Frank Carlucci voou para o Brasil «ainda a tempo de ajudar a derrubar o governo de João Goulard» (The strange career of Frank Carlucci – Francis Schoor), que ameaçava aumentar os salários e nacionalizar as principais indústrias.

A CIA apoiou e financiou os generais golpistas de extrema-direita (Ranieri Mazilli , Castelo Branco, Costa e Silva, Medici, Geisel e João Figueiredo), que instalaram um longo período de ditadura. E Carlucci lá estava a ajudar o Brasil a libertar-se de «comunas», intelectuais e cantores, manifestando mais uma vez o seu amor pela democracia, com prisões, torturas e assassinatos da «Operação Condor», aproveitando para aprender o português.

Chegado em Janeiro de 75, Frank Carlucci iniciou as suas funções de embaixador em Portugal, passando as primeiras semanas em… Madrid.
A estadia na capital espanhola aparece justificada, pelo Presidente Marcelo, por «razões de segurança».

Mas talvez essa questão fosse secundária, até porque Carlucci era um homem habituado a riscos que, de resto, em Portugal e em Janeiro de 75, nem eram demasiados.

A explicação será mais pragmática. Madrid era o ponto de encontro dos opositores à Revolução dos Cravos, onde se urdiam as conspirações do ELP («Exército  de Libertação de Portugal»), do pide Barbieri Cardoso, e do MDLP («Movimento Democrático de Libertação de Portugal»), de Spínola, que queriam «libertar» a terra-pátria, supostamente dominada pelos «comunas». Era com eles que Carlucci precisava de começar a trabalhar. Em breve o ar em Portugal, principalmente a Norte, iria aquecer.

Como sumariza Jorge Sarabando, no seu livro O 25 de Novembro a Norte (que, com o de Miguel Carvalho, Quando Portugal Ardeu, constituem leituras obrigatórias para perceber o que se passou), «a estratégia delineada, sem nada de inteiramente novo que já não tivesse sido experimentado em outros teatros de operações, foi adaptada às circunstâncias, às forças em presença e ao perfil dos actores no terreno. Captar apoios militares, dividir o MFA e o movimento popular, impedir a coordenação dos centros de decisão, promover a sabotagem económica e a fuga de capitais, utilizar a chantagem económica e militar internacional, financiar organizações patronais e sindicais divisionistas, controlar a comunicação social, incentivar a instabilidade e o descrédito das instituições no quadro de uma escalada de insegurança e de tensão. Em pano de fundo, a defesa da liberdade supostamente ameaçada.»

Logo a 11 de Março de 75 deu-se o golpe falhado de Spínola, fugindo aos hábitos mais organizados de Carlucci. Mas o «Verão Quente» estava a chegar já com o trabalho adiantado, com os padres a pregarem contra os vermelhos e o terrorismo das bombas do ELP e do MDLP a incendiarem e matarem à esquerda, tudo enquadrado na «cumplicidade  estratégica essencial» de Carlucci com Soares, forjada «numa pequena cúpula do telhado da embaixada», longe dos olhares dos portugueses.

«Madrid era o ponto de encontro dos opositores à Revolução dos Cravos, onde se urdiam as conspirações do ELP ("Exército de Libertação de Portugal"), do pide Barbieri Cardoso, e do MDLP ("Movimento Democrático de Libertação de Portugal"), de Spínola, que queriam "libertar" a terra-pátria, supostamente dominada pelos "comunas". Era com eles que Carlucci precisava de começar a trabalhar.»

«O doutor Soares e eu passávamos muitas horas aqui a conversar sobre os problemas políticos portugueses», disse o ex-embaixador dos USA, numa entrevista ao Público, em 23-9-2006.

E, entre Maio de 75 e Abril de 77, houve 566 acções terroristas, contabilizando 310 atentados à bomba, 194 assaltos e incêndios a sedes e centros de trabalho do PCP e de organizações de esquerda, 16 atentados a tiro.

«Uma onda de fundo do povo português», dirá Soares, englobando toda a agitação da época. Para além do apoio às bombas e bombistas que aterrorizaram o país no «Verão Quente» de 75 e a sua coordenação «estratégica» com manifestações do PS contra a imaginária ameaça da «ditadura comunista», Carlucci não se esquece de visitar a hierarquia da igreja que pregava o medo dos «comunas» que matavam os velhos com injecções atrás da orelha (ao contrário do que agora votaram).

Entre 3 e 6 de Novembro, nas vésperas do golpe, reúne com os bispos de Viseu, Vila-Real e Braga. Homem experiente, Carlucci, «pequeno e vivo… um típico mafioso italiano», na descrição de Soares, apoia também, à socapa, os super-revolucionários «de esquerda» que combatem os «revisas» do PCP com a mesma raiva da direita, como o MRPP, a quem encheu de dinheiro.

«São como um saco para onde o dinheiro é atirado, não se sabe por quem, e retirado à medida das necessidades», como refere, num ensaio, Saldanha Sanches, então ex-dirigente dissidente da organização.

Em entrevista à «Association for Diplomatic Studies and Training», Carlucci, rememorando os seus tempos em Portugal afirmou, divertido: «O MRPP – Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses (sic) –,tomou a estação de rádio católica, mas foi o Partido Comunista que foi considerado culpado. Então temos o líder do Partido Comunista Português na televisão a dizer que não são anti-católicos. Claro que ninguém acreditou!...».

Relatórios americanos desclassificados esclarecem o papel de Carlucci em Portugal, pela sua própria voz: «Tudo o que a CIA fez foi sob o meu comando».

E se as coisas tivessem corrido mal no 25 de Novembro? – a pergunta surge no contexto da entrevista de Carlucci e Soares ao Público. «Honestamente, não tínhamos nenhum plano de contingência. Soares vai para o Porto, no dia 25. Por estradas secundárias. O general Lemos Ferreira tinha levado os aviões para o Norte. O general Pires Veloso comandava as forças militares no Norte e o grupo dos nove conspirava activamente».

Mas Carlucci admite ao jornal que «havia alguns apoios preparados». «Sobretudo dos ingleses», diz. Um «simpático» agente do M16, enviado por Callaghan, estivera em Portugal a ver o que era preciso. «Combustível para os aviões do Lemos Ferreira. E isso eles podiam garantir.»

Assim se conclui que se a preparada resposta à engendrada «intentona da esquerda» de 25 de Novembro, tivesse «dado para o torto» com a derrota da direita, haveria uma solução à chilena, com aviões vindos do Norte a bombardearem Lisboa, «a vermelha».

Por essa descarada ingerência da CIA em Portugal, então escondida mas depois elogiada sem pudor por PS,PSD e CDS, Carlucci foi condecorado, em 2004, por Jorge Sampaio e Santana Lopes, com a grã-cruz da Ordem do Infante Dom Henrique, e Portas atribuiu-lhe a medalha de Defesa Nacional. «Por relevantes serviços prestados».

À bomba e a tiro, quase sempre. No Congo, no Brasil ou em Portugal. Sem a piedade de um anjo ou a vida de um político «normal», como agora o querem descrever. Deixando um rasto de pobreza, corrupção e morte.
Também, na altura, o PS, com um discurso de esquerda e agitando de vez em quando um retrato de Marx, optou pela defesa dos grandes interesses…

_____________

PS – Apesar do que ainda agora se diz sobre o descalabro financeiro causado pelo «gonçalvismo», uma missão da OCDE que visitou Portugal em finais de 1975 considerou «a economia portuguesa surpreendentemente saudável», com um «desempenho extremamente robusto», atendendo à crise internacional e às mudanças acontecidas. Os Mello, os Champalimaud e os Espírito Santo é que ficaram mais pobres.  

 13 de Junho de 2018

https://www.abrilabril.pt/nacional/carlucci-e-companhia


terça-feira, 15 de agosto de 2023

DN - Entrevista a João Soares, por Pedro Cruz

 

João Soares: "Sócrates fez uma asneira porque quem foi líder de um partido, não se demite dele"

Artigo originalmente publicado a 14 de abril de 2023. O DN, durante o mês de agosto, republica algumas entrevistas marcantes e mais lidas desde o verão de 2022..

João Pedro Henriques e Pedro Cruz

15 Agosto 2023 

Filho do principal fundador do PS, João Soares, ex-deputado, ex-presidente da Câmara de Lisboa e ex-ministro de Costa, diz que todos os ex-líderes devem ser convidados para a festa dos 50 anos, inclusivamente Sócrates, apesar da "asneira" de ter deixado o partido.

Onde é que estava no dia 19 de abril de 1973? Mário Soares e a mulher Maria Barroso estavam na Alemanha, na reunião da fundação do Partido Socialista. Maria Barroso é, aliás, a única mulher presente na fotografia que se tornou icónica e que marca o nascimento do partido. E os filhos, Isabel e João? João Soares tinha 23 anos. Hoje, com 73 anos, afastado da política depois de ter sido deputado, presidente da câmara de Lisboa e (muito esporadicamente) ministro (da Cultura), João Soares dá nesta entrevista DN/TSF a sua visão do que foi a fundação do PS.

Onde é que estava no dia 19 de abril de 1973?

Eu e a minha irmã estávamos em Paris, curiosamente, mas estávamos evidentemente a par do que se ia passar na Alemanha. E até recebemos indicações para, no final dos trabalhos, mandar um telegrama para o Porto, para os irmãos Cal Brandão ou para o António Macedo, com um texto perfeitamente anódino e pré combinado que sinalizaria que as coisas tinham corrido bem e que o desfecho tinha sido aquele que todos eles esperávamos.

sábado, 14 de novembro de 2020

António Louçã - A Alemanha e a Revolução dos Cravos. Uma investigação sobre a Fundação Ebert

 * António Louçã     14.Nov.20     Outros autores

A ajuda e o incentivo internacional à contra-revolução em Portugal desempenhou um papel decisivo: as forças internas não teriam sido capazes de a levar a cabo. A RFA (seja com a democracia-cristã como com a social-democracia no poder) não deve ser ignorada, tanto pelo apoio que manteve ao Portugal fascista, como pela activa intervenção após o 25 de Abril. Intervenção que vai do ataque ao MFA à promoção do divisionismo sindical, do incentivo à ingerência estrangeira ao vultuoso financiamento de toda a acção contra-revolucionária. E que teve como interlocutores (e títeres) privilegiados o PS de Soares e o PSD de Sá Carneiro.

A República Federal da Alemanha (RFA) foi o país europeu que mais activamente apoiou a ditadura salazarista. E foi também o país europeu de onde a oposição anti-salazarista recebeu um apoio mais substancial. Compreender o paradoxo é meio caminho andado para compreender o papel decisivo da RFA no processo de controlar e dominar a Revolução dos Cravos.

O livro de Peter Birle e Antonio Muñoz Sánchez, publicado em julho deste ano (Partnerschaft für die Demokratie. Die Arbeit der Friedrich-Ebert Stiftung in Brasilien und Portugal. Bonn: Verlag Dietz, 2020), tem como tema o trabalho da Friedrich Ebert Stiftung (FES) - fundação ligada ao SPD - no Brasil e em Portugal durante os últimos anos das respectivas ditaduras, durante a transição e durante os primeiros anos dos regimes democráticos que depois se estabeleceram.

A parte referente a Portugal ficou a cargo de António Muñoz Sánchez e apresenta para o público português a inestimável vantagem de se basear não só em arquivos já relativamente explorados por investigações portuguesas (como o arquivo político do Auswärtiges Amt, equivalente alemão do MNE, ou o Bundesarchiv, em Koblenz), como noutros menos explorados (o da Fundação, em Bona), ou mesmo em arquivos pessoais de actores importantes da História de então.

Os amigos alemães da ditadura

Sánchez recorda por um lado o contexto internacional em que se deram os primeiros confrontos da guerra colonial, sustentando que Salazar, na ausência de um apoio britânico ou norte-americano à sua obstinação colonialista, só pôde decidir-se pela guerra devido aos apoios francês e alemão - nenhum deles assumido publicamente, num ambiente internacional favorável às independências africanas.

O apoio alemão em especial foi concedido com requintes do mais elaborado secretismo, mas beneficiando também do empenhamento de personalidades destinadas a altos voos na política alemã, como Richard Jäger, ministro da Justiça de Adenauer e mais tarde presidente do Bundestag.

Em termos práticos, foi decisivo o líder bávaro Franz-Joseph Strauss que, como ministro federal da Defesa, urdiu toda a teia para o acordo secreto luso-alemão de 1960. Aí se incluíam a base aérea de Beja, a base militar de Alcochete, armazéns da Bundeswehr em Setúbal e, reciprocamente, a venda de armamento alemão a Portugal.

Por outro lado, não deixa de ser significativo que inicialmente Strauss tenha considerado prudente ocultar os detalhes do acordo aos próprios colegas ministros. A RFA movia-se num contexto internacional altamente volátil e em Junho de 1966, quando Amílcar Cabral denunciou bombardeamentos feitos na guerra colonial com aviões alemães, o Governo de “Grande Coligação” que sucedera a Adenauer ponderou mesmo encerrar o aeroporto de Beja e limitar drasticamente a cooperação militar com Portugal.

Sánchez sublinha acertadamente o papel do embaixador em Lisboa, Müller-Roschach, em conseguir salvar o periclitante acordo. E, logo em seguida, não deixa de lembrar-nos que esse diplomata tão entusiástico pela colaboração germano-portuguesa havia de ser destituído dois anos depois, ao vir a público na Alemanha o papel que desempenhara no extermínio dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial (mas o escândalo não ia servir de emenda ao AA, que depois nomeou para o posto de embaixador em Lisboa o ex-SS Schmidt-Horix e, depois do suicídio deste em 1970, o antigo jurista nazi Ehrenfried von Holleben).

“Evolução na continuidade” como política do SPD

Para além do papel desempenhado por Müller-Roschach na preservação do acordo, há sobretudo a ter em conta a viragem política que o SPD efectuara, desde o Congresso de Bad Godesberg, em 1959, aproximando-se da política externa de Adenauer. Com essa viragem, o trio composto por Willy Brandt, Herbert Wehner e Fritz Erler fazia tirocínio como parceiro credível para soluções governamentais de coligação ao centro. No que diz respeito às relações com Portugal, a viragem traduz-se numa renúncia do SPD a pôr em causa os fornecimentos militares alemães.

E, quando finalmente o SPD passa da oposição para o governo, Willy Brandt ascende a ministro federal dos Negócios Estrangeiros e ainda mais acentua essa viragem. O SPD continua a ignorar o grupo mais ou menos informal conhecido como Acção Socialista Portuguesa (ASP), onde pontifica acima de todas as outras a dinâmica personalidade de Mário Soares. A muito custo, e só sob pressão da Internacional Socialista, o SPD se decide em 1968 a protestar contra a deportação de Soares para S.Tomé.

A política externa alemã aposta entretanto numa evolução interna da ditadura e não numa reviravolta política que catapulte a oposição para o poder. A Embaixada da RFA, mais do que qualquer outra em Lisboa, tem o cuidado de se manter longe da oposição portuguesa e ganha com isso uma fama de pró-salazarista.

A chamada “primavera marcelista” vem ainda reforçar o argumentário justificativo da aposta numa evolução interna, em colagem ao slogan de “evolução na continuidade” popularizado pelo novo chefe da ditadura. Ao visitar Portugal, o mesmo Brandt que continua no verão de 1969 a recusar os pedidos de audiência de Soares comete mesmo a gaffe de confraternizar com o seu homólogo Franco Nogueira, um dos “ultras” do fascismo.

Muñoz Sánchez não tem, portanto, contemplações com a política de Brandt, entretanto ascendido ao lugar de chanceler. Também como chanceler, Brandt toma partido pela política pró-marcelista do MNE Walter Scheel, contra o ministro da Cooperação Económica, Erhard Eppler, que era favorável a um distanciamento perante a ditadura.

Fundação Ebert, ou os ovos também no outro cesto

Mas, precisamente quando o SPD acentuava a sua viragem à direita, a FES estabelecia, através do seu colaborador Robert F. Lamberg, os primeiros contactos com a ASP. O trabalho de Muñoz Sánchez consegue manter um rumo lógico e racional na interpretação deste paradoxo. E permite-nos entender como, apesar da relativa indiferença dos correligionários europeus, Mário Soares pôde realizar em 1970 uma tournée pelo Velho Continente, radicalizando o seu timorato discurso anticolonial e classificando como fascista o regime de Marcelo Caetano.

Com efeito, a ASP não estava tão abandonada como parecia e, graças a um financiamento da FES, poderia em breve dispor, como órgão oficioso, do diário “República”. Muñoz Sánchez não hesita em classificar a criação do “República” como uma das iniciativas mais custosas e mais bem sucedidas da FES na fase final das três grandes ditaduras da Europa meridional - Espanha, Portugal e Grécia.

As políticas internacionais da social-democracia e da Fundação iriam, nos anos seguintes, continuar a evoluir em direções diferentes. Por um lado, a FES intensificava o seu apoio à ASP, colocava-a em contacto com a poderosa central sindical alemã, DGB, e tomava a seu cargo a organização do congresso fundador do Partido Socialista (PS), em Bad Münstereifel, em abril de 1973.

Já o SPD, obrigado pela pressão da opinião pública a carregar nos tons críticos do seu discurso contra o colonialismo português, continuava no entanto a ignorar o PS. Os congressos, praticamente simultâneos, do PS e do SPD realizaram-se portanto de costas voltadas um para o outro, sem que qualquer dos dois partidos estivesse representado no congresso do outro por alguma delegação digna de nota.

A própria Internacional Socialista, embora tivesse aceitado a integração da ASP em junho de 1972, vinha desenvolvendo um consenso no sentido de favorecer a tal evolução interna da ditadura portuguesa, e não o seu derrubamento. A Internacional aproximava-se assim da política do SPD e deixava de constituir uma instância de recurso dos socialistas portugueses contra a Realpolitik de Brandt.

Soares, desde o início apostado em combater o PCP

Só em 1974 Mário Soares ia conseguir que Brandt finalmente lhe concedesse uma audiência. Viajou portanto para Bona e foi pernoitar no hotel de onde devia sair ao encontro do chanceler. Mas o calendário marcava 25 de abril e, de madrugada, Soares foi avisado da revolução que estava a eclodir em Portugal. Desta vez foi ele a cancelar o encontro e a deixar plantado o líder da principal potência europeia. A revolução invertia por um breve instante a ordem de importância dos dois putativos interlocutores.

Para além de relatar episódios saborosos como este, o trabalho de Muñoz Sánchez retoma a perspectiva mais ampla do processo revolucionário e, ao referir a tournée europeia que Soares faz logo no início de maio, permite-nos reavaliar criticamente a ideia de que o PS chegara a Portugal com um espírito unitário, de colaboração com o PCP, e que só depois, devido ao sectarismo comunista, foi tomando distâncias.

Apesar de discursos como o de Soares no 1º maio de 1974 parecerem confirmar a imagem tradicional de uma inclinação unitária do PS, os contactos do líder socialista com os seus confrades europeus, logo em maio, mostram que desde o primeiro instante ele reclamou por trás dos bastidores um apoio político, logístico e financeiro da social-democracia internacional, com o objectivo assumido de disputar a hegemonia do PCP no início do processo revolucionário.

A pose unitária assumida em público por Soares era, nessa fase, uma mera concessão ao ambiente político do país, e não o reflexo de uma genuína convergência com o PCP. Na social-democracia internacional, o seu parceiro natural não era o líder socialista François Mitterrand, que, na luta pelo poder em França, adoptara uma táctica frente-populista. O parceiro de Soares devia ser, pelo seu anticomunismo apimentado com as sofisticações tácticas da Ostpolitik, aquele mesmo Willy Brandt que até pouco tempo antes lhe fechava todas as portas.

A obstinada desconfiança de Brandt face ao PS

Ao eclodir a revolução, os social-democratas alemães tinham portanto, apesar de si próprios e muito graças à FES, condições ideais para se ingerirem eficazmente no processo político português.

Por um lado, as democracias-cristãs europeias tinham ignorado arrogantemente os católicos oposicionistas portugueses e foram surpreendidas pelo 25 de Abril sem quaisquer interlocutores em Portugal. As fundações democratas-cristãs estavam completamente a leste e a FES era a única solidamente implantada no terreno.

Por outro lado, Soares tinha uma afinidade espontânea com a política anticomunista de Willy Brandt e não deixaria que as subjectividades suscitadas pela anterior indiferença deste interferissem com a aproximação desejada.

Mesmo assim, a FES continuou durante algum tempo a ser o veículo privilegiado para uma influência social-democrata que Willy Brandt relutava em assumir. Assim, ficamos a saber pelo trabalho de Muñoz Sánchez que foi o responsável da FES Günter Wehrmeyer quem emitiu um primeiro diagnóstico sobre o aparelho partidário do PS ao visitar Portugal logo em julho de 1974.

Wehrmeyer ficou chocado com a debilidade desse aparelho, apenas com uma dezena de funcionários, segundo nos diz, face ao milhar de funcionários que se estimava existirem no PCP. E ficou principalmente chocado por ver os dirigentes socialistas tão ofuscados pelo glamour da alta política que permaneciam inteiramente alheados desta fragilidade do PS.

Em consequência, a FES empenhava-se em encontrar soluções para as debilidades organizativas do partido, dando por suposto que sem essas soluções o PS não se atreveria a uma demarcação mais frontal face ao PCP. Por seu lado, o SPD, aparentemente sem ter captado o nexo causal entre debilidade organizativa e timidez política, continuava a suspeitar que o perfil baixo do PS perante o poderoso PCP traduzisse, não um calculismo táctico, mas uma atitude politicamente conciliadora e porventura frente-populista.

Tal foi a preocupação manifestada por dois altos quadros do SPD, Jürgen Wishnewski e Bruno Friedrich, ao serem enviados a Portugal no verão de 1974. A visita seguinte foi de ainda mais alto nível: o próprio Willy Brandt veio a Portugal em outubro de 1974, com a prioridade, bem no topo da sua agenda, de contrabalançar o efeito da visita de Mitterrand em julho.

Essa anunciada prioridade era tão visível logo desde os preparativos que Brandt foi recebido festivamente no aeroporto de Lisboa por um número apreciável de militantes do PPD, eclipsando estes a discreta presença do PS. Durante a visita, Brandt acedeu também a abrir um diálogo com o PPD, alimentando ainda as expectativas deste em ser admitido na Internacional Socialista, com natural desagrado de Soares.

Não surpreende que depois, na RFA, tenha sido principalmente um jornal de direita, Die Welt, a dar largas ao seu entusiasmo, considerando “verdadeiramente modelar” o desempenho de Brandt em Lisboa.

As eleições promovem o PS a principal interlocutor

Escapava ainda à superficial observação do SPD o desconforto que já então Mário Soares sentia perante o reforço da esquerda, de cada vez que a direita dava algum tiro no pé, com uma das suas intentonas abortadas. Já assim fora perante o golpe abortado de 28 de setembro de 1974, em que o líder socialista teve dificuldade em esconder a sua apreensão por Spínola se ter demitido. E assim voltou a ser com o 11 de março de 1975.

Olhando a revolução a partir da Alemanha, o SPD alarmou-se com a radicalização do processo revolucionário e realizou em 21 de março, sob a direção de Helmut Schmidt, uma reunião de emergência para discutir um pedido de socorro enviado por Mário Soares. Nessa mesma noite Schmidt telefonou para o presidente norte-americano Gerald Ford e para o primeiro-ministro britânico Harold Wilson, a pedir-lhes que se tomassem medidas contra o perigo de um “golpe de Praga” em Portugal.

Cinco dias depois, sem ter alcançado os resultados que pretendia, o mesmo Schmidt lamentava-se sobre a atitude passiva da comunidade internacional. O Governo da RFA decidiu então, em reunião de 8 de abril, aprovar um plano para intervir por sua conta em Portugal, sem esperar que os aliados saíssem da inércia em que continuavam mergulhados. E o SPD decidiu injectar na campanha eleitoral portuguesa vultosas quantias - em dinheiro vivo, do partido ou mesmo do orçamento do Estado, trazido em malas como nos filmes de espionagem, devido à suspensão das transferências bancárias.

Com tudo isto, o SPD ainda se encontrava longe de ter a clareza política da FES e faltava-lhe decidir quem seria o seu principal interlocutor do lado português: o apoio financeiro destinado à campanha para as eleições constituintes foi repartido salomonicamente entre PS e PPD. E só quando o PS emergiu do escrutínio de 25 de abril de 1975 como o partido mais votado passou a notar-se uma clarificação das preferências do SPD.

O que era até então uma divisão de tarefas entre SPD e FES assume daí em diante contornos de colaboração cada vez mais homogénea e consistente. Na Embaixada de Lisboa é criado um cargo de “adido social”, para acompanhar a actividade de sindicatos, partidos e fundações, e logo preenchido com um quadro da FES, Hans-Ulrich Bünger.

Schmidt, que no início de maio substituíra Brandt como chanceler, cauciona nessa fase uma diplomacia paralela a partir dos relatórios de Bünger, que são entregues a Carlucci. E tudo se faz nas costas do parceiro liberal na coligação, Hans-Dietrich Genscher, que no entanto, como máximo responsável da política externa alemã, era suposto ser o primeiro a saber.

Já neste novo contexto eclode a crise do “República”, que o PS utiliza como arma de arremesso contra o PCP, embora saiba que não foram militantes deste partido a desencadear a ocupação do jornal. E aqui tem lugar um episódio sintomático que Muñoz Sánchez nos revela: depois de anunciar, por volta da meia-noite de 11 de julho, que o PS vai retirar-se do IV Governo Provisório, Soares apressa-se a telefonar, minutos depois, para a Embaixada alemã, e marca um encontro que terá lugar logo na manhã seguinte, com Bünger e com Karl-Heinz Sohn. Em perfeita coordenação, o Governo da RFA sai da sua reserva sobre o MFA e pela primeira vez o critica publicamente.

Da clarificação política à viragem militar

Aqui valerá a pena recuar um pouco e lembrar os dilemas que se colocavam à política das grandes potências ocidentais em janeiro de 1975, quando Kissinger substituiu o embaixador Nash Scott no seu posto de Lisboa por Frank Carlucci. Não custa crer que a decisão de Kissinger fosse ditada pela expectativa de poder bisar em Portugal o êxito obtido no Chile com a receita putschista.

Mas, se alguém sabia apalpar o terreno e avaliar as condições para um putsch, esse alguém era certamente o experiente Carlucci. Depois de Spínola por duas vezes ter tentado golpes de Estado, de forma prematura e diletante, as condições para um terceiro do mesmo tipo pareciam definitivamente comprometidas. Não por escrúpulos democráticos, mas por realismo político, Carlucci entendeu o que se passava e não chegou, seriamente, a conspirar para uma espécie de pinochetazo português. Por isso mesmo Kissinger, como sublinha Muñoz Sánchez, se lamentava de alguém lhe ter vendido a imagem de Carlucci “como um tipo duro”.

Na impossibilidade de fazer de Portugal o Chile da Europa, Kissinger rapidamente passou a preconizar que se tratasse o país como a Cuba da Europa. E também a essa avaliação e às ilações práticas correspondentes se opôs Carlucci, mas neste caso em estreita colaboração com o embaixador alemão em Lisboa, Fritz Caspari, e com o respaldo do Governo de Bona.

Com efeito, contra a “teoria da vacina” defendida por Kissinger, Schmidt opunha-se a que Portugal fosse expulso da NATO. Neste contexto, forçou mesmo em maio de 1975 um encontro entre o secretário de Estado norte-americano e o seu homólogo português, Melo Antunes. E, à margem deste contacto infrutífero, o Governo de Bona ia-se comprometendo com um auxílio a Portugal no valor de 70 milhões de marcos.

Um dos méritos, e não o menor, do trabalho de Muñoz Sánchez consiste em introduzir uma nuance significativa na visão corrente até agora, que dava o “falcão” Kissinger a perder um braço de ferro contra o seu embaixador em Lisboa, Frank Carlucci. Por muito hábil que tenha sido Carlucci, e foi, ficava sempre por explicar como ele se teria imposto ao seu chefe, que nunca teve tendência para se contentar com um papel decorativo.

Na verdade, a conhecida colaboração que mantiveram no terreno os embaixadores norte-americano e alemão não foi mero produto de uma afinidade pessoal ou de uma visão comum sobre o processo revolucionário que ambos estavam empenhados em travar. Essa colaboração contou também, do lado alemão, com o apoio do Governo Federal.

Se Carlucci conseguiu fazer da vitória eleitoral do PS a principal alavanca para suscitar um movimento militar de restauração da disciplina castrense, como primeiro passo para controlar a dualidade de poderes no país, isso deveu-se em grande parte ao facto de ele poder colocar no seu prato da balança o peso da principal potência europeia, que partilhava dessa aposta estratégica.

Parece, assim, credível a versão de Schmidt, apresentada em público meses depois do 25 de novembro e citada por Muñoz Sánchez, reclamando para si o crédito por ter convencido os renitentes Henry Kissinger e Harold Wilson de que a revolução portuguesa devia ser domada pelo PS e pelos seus aliados militares - não por um putsch de tipo chileno ou por uma quarentena de anos ou décadas como no caso de Cuba.

Esplendor e queda da Fundação Ebert em Portugal

A parte da investigação do livro que ficou a cargo de Muñoz Sánchez estende-se depois aos temas da transição democrática e da integração europeia num arco de tempo mais largo, que não nos propomos tratar nesta recensão. Mas lança também um olhar sobre o período imediatamente pós-revolucionário, que aqui especialmente nos interessa por fazer também alguma luz sobre o sentido último da estratégia da FES durante o PREC.

Para além do papel da FES, primeiro como sucedâneo, depois como intermediária, da intervenção do SPD e do Governo de Bona na revolução portuguesa, há o balanço de duas outras intervenções muito concretas da Fundação na sociedade portuguesa: uma, ao nível sindical; outra, ao nível da reforma agrária.

No processo que conduziu à criação da Carta Aberta e, depois, da UGT, Muñoz Sánchez classifica, muito assertivamente, como decisivo o papel da FES em criar uma central que veio quebrar o monopólio sindical dos comunistas. E a este juízo de facto logo acrescenta um outro, mais valorativo, mas igualmente razoável: é duvidoso que os trabalhadores tenham ganho alguma coisa com isso, pelo menos nos moldes em que sucedeu.

No que diz respeito à reforma agrária, o nosso autor aponta o protagonismo da FES na criação da Servcoop, entidade que se dizia apostada em contribuir para a “democratização” das cerca de 500 unidades colectivas ou cooperativas agrícolas predominantemente influenciadas pelo PCP. Mas a dita Servcoop estava condenada ao fracasso porque, em vez de “democratização”, o que veio a seguir foi um processo de restituição das terras aos latifundiários, sob a batuta do então ministro socialista António Barreto. E, com as terras devolvidas aos agrários, não havia ficção democratizadora que pudesse sobreviver.

Contrastando com Espanha, onde os meios investidos pela FES deixaram até hoje um rasto visível, em Portugal as fundações próximas do PS desmoronaram-se assim que lhes foi faltando o empenhamento da FES. E isso que Munõz Sánchez designa como discrepância entre os vultosos investimentos e a magreza dos resultados é sem dúvida um balanço expectável quando se lida com um partido, o PS, que é sobretudo uma máquina de combate eleitoral.

Fonte: https://www.rtp.pt/noticias/politica/a-alemanha-e-a-revolucao-dos-cravos-uma-investigacao-sobre-a-fundacao-ebert_n1270524

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Este é o maior fracasso da democracia portuguesa: Mário Soares

Mario Soares como Mr. Magoo mais caricaturas caricaturas.blogspot.com/

.

Ouvir com webReader

por Clara Ferreira Alves

.

Eis parte do enigma. Mário Soares, num dos momentos de lucidez que ainda vai tendo, veio chamar a atenção do Governo, na última semana, para a voz da rua.

A lucidez, uma das suas maiores qualidades durante a sua longa carreira politica.

A lucidez que lhe permitiu escapar à PIDE e passar um bom par de anos, num exílio dourado, em hotéis de luxo em Paris.

A lucidez que lhe permitiu conduzir da forma "brilhante" que se viu, o processo de descolonização.

A lucidez que lhe permitiu conseguir que os Estados Unidos financiassem o PS durante os primeiros anos da Democracia.

A lucidez que o fez meter o socialismo na gaveta durante a sua experiência governativa.

A lucidez que lhe permitiu tratar da forma despudorada amigos como Jaime Serra, Salgado Zenha, Manuel Alegre e tantos outros.

A lucidez que lhe permitiu governar sem ler os "dossiers".

A lucidez que lhe permitiu não voltar a ser primeiro-ministro depois de tão fantástico desempenho no cargo.

A lucidez que lhe permitiu pôr-se a jeito para ser agredido na Marinha Grande e, dessa forma, vitimizar-se aos olhos da opinião pública e vencer as eleições presidenciais.

A lucidez que lhe permitiu, após a vitória nessas eleições, fundar um grupo empresarial, a Emaudio, com "testas de ferro" no comando e um conjunto de negócios obscuros que envolveram grandes magnatas internacionais.

A lucidez que lhe permitiu utilizar a Emaudio para financiar a sua segunda campanha presidencial.

A lucidez que lhe permitiu nomear para Governador de Macau Carlos Melancia, um dos homens da Emaudio.

A lucidez que lhe permitiu passar incólume no caso Emaudio e no caso Aeroporto de Macau e, ao mesmo tempo, dar os primeiros passos para uma Fundação na sua fase pós-presidencial.

A lucidez que lhe permitiu ler o livro de Rui Mateus, "Contos Proibidos", que contava tudo sobre a Emaudio, e ter a sorte de esse mesmo livro, depois de esgotado, jamais voltar a ser publicado.

A lucidez que lhe permitiu passar incólume às "ligações perigosas" com Angola, ligações essas que quase lhe roubaram o filho no célebre acidente de avião na Jamba (avião esse carregado de diamantes, no dizer do Ministro da Comunicação Social de Angola).

A lucidez que lhe permitiu, durante a sua passagem por Belém, visitar 57 países ("record" absoluto para a Espanha - 24 vezes - e França - 21), num total equivalente a 22 voltas ao mundo (mais de 992 mil quilómetros).

A lucidez que lhe permitiu visitar as Seychelles, esse território de grande importância estratégica para Portugal.

A lucidez que lhe permitiu, no final destas viagens, levar para a Casa-Museu João Soares uma grande parte dos valiosos presentes oferecidos oficialmente ao Presidente da Republica Portuguesa.

A lucidez que lhe permitiu guardar esses presentes numa caixa-forte blindada daquela Casa, em vez de os guardar no Museu da Presidência da Republica.

A lucidez que lhe permite, ainda hoje, ter 24 horas por dia de vigilância paga pelo Estado nas suas casas de Nafarros, Vau e Campo Grande.

A lucidez que lhe permitiu, abandonada a Presidência da Republica, constituir a Fundação Mário Soares. Uma fundação de Direito privado, que, vivendo à custa de subsídios do Estado, tem apenas como única função visível ser depósito de documentos valiosos de Mário Soares. Os mesmos que, se são valiosos, deviam estar na Torre do Tombo.

A lucidez que lhe permitiu construir o edifício-sede da Fundação violando o PDM de Lisboa, segundo um relatório do IGAT, que decretou a nulidade da licença de obras.

A lucidez que lhe permitiu conseguir que o processo das velhas construções que ali existiam e que se encontrava no Arquivo Municipal fosse requisitado pelo filho e que acabasse por desaparecer convenientemente no incêndio dos Paços do Concelho.

A lucidez que lhe permitiu receber do Estado, ao longo dos últimos anos, donativos e subsídios superiores a cinco milhões de Euros.

A lucidez que lhe permitiu receber, entre os vários subsídios, um de dois milhões e meio de Euros, do Governo Guterres, para a criação de um auditório, uma biblioteca e um arquivo num edifico cedido pela Câmara de Lisboa.

A lucidez que lhe permitiu receber, entre 1995 e 2005, uma subvenção anual da Câmara Municipal de Lisboa, na qual o seu filho era Vereador e Presidente.

A lucidez que lhe permitiu que o Estado lhe arrendasse e lhe pagasse um gabinete, a que tinha direito como ex-presidente da República, na... Fundação Mário Soares.

A lucidez que lhe permite que, ainda hoje, a Fundação Mário Soares receba quase 4 mil euros mensais da Câmara Municipal de Leiria.

A lucidez que lhe permitiu fazer obras no Colégio Moderno, propriedade da família, sem licença municipal, numa altura em que o Presidente era claro está... João Soares.

A lucidez que lhe permitiu silenciar, através de pressões sobre o director do "Público", José Manuel Fernandes, a investigação jornalística que José António Cerejo começara a publicar sobre o tema.

A lucidez que lhe permitiu candidatar-se a Presidente do Parlamento Europeu e chamar dona de casa, durante a campanha, à vencedora Nicole Fontaine.

A lucidez que lhe permitiu considerar José Sócrates "o pior do guterrismo" e ignorar hoje em dia tal frase como se nada fosse.

A lucidez que lhe permitiu passar por cima de um amigo, Manuel Alegre, para concorrer às eleições presidenciais uma última vez.

A lucidez que lhe permitiu, então, fazer mais um frete ao Partido Socialista.

A lucidez que lhe permitiu ler os artigos "O Polvo" de Joaquim Vieira na "Grande Reportagem", baseados no livro de Rui Mateus, e assistir, logo a seguir, ao despedimento do jornalista e ao fim da revista.

A lucidez que lhe permitiu passar incólume depois de apelar ao voto no filho, em pleno dia de eleições, nas últimas Autárquicas.

No final de uma vida de lucidez, o que resta a Mário Soares? Resta um punhado de momentos em que a lucidez vem e vai. Vem e vai. Vem e vai. Vai... e não volta mais.

.

Clara Ferreira Alves

.

Expresso (Lisboa)
.
in macua.blogs.com/moçambique_para_todos
.
.