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domingo, 31 de maio de 2026

Francisca Napolitano - [Palestina livre]

* Francisca Napolitano 

"Não se pode continuar na indiferença. O fascismo só tem um nome ,  fascismo .O capital sionista e os oligarcas do império não podem tudo. 

Amputar um braço ou uma perna de uma criança palestina não é um "dano colateral". Massacrar pessoas inocentes em Khan Younis ou Beit Jala não é uma "resposta ao Hamas". Um jornalista ou um médico não é um "militante disfarçado". Uma ocupação-anexação — e a expulsão de centenas de milhares de habitantes de Gaza, e agora de um milhão de libaneses, de suas casas — não é a criação de uma "zona tampão , mas sim um crime de guerra punível pelo direito internacional.

No Ocidente as palavras formais de condenação dos hipócritas objectivamente coniventes equivalem a um cheque em branco emitido para a injustiça, o sofrimento, a destruição e o indizível!

O ministro fascista que, há apenas algumas semanas, invadiu a cela de Marwan Barghouti para cuspir no seu rosto — e para mandar espancá-lo e atacá-lo com cães — não é meramente um provocador... Ele é uma engrenagem central na maquinaria colonialista e genocida israelita atualmente em ação na Palestina violentamente ocupada.

Juntamente com seus patronos trumpistas em Washington, eles são os agentes brutais de um projeto para subjugar os povos da região a um capitalismo predatório e extrativista — um projeto que visa construir um "Grande Oriente Médio" o grande Israel , no qual o poder israelita serviria como guardião para os senhores da Casa Branca.

Nestas circunstâncias, a honra não reside em governos que fecham os olhos ou em ministros que chamam diplomatas para a comunicação  social noticiar

.Pelo contrário, ela  encontra se nas ações dos ativistas das "Flotilhas ",  nas manifestações e marchas organizadas por associações que apoiam a causa palestina — nas inscrições  murais, lutas respaldadas por deputados e por forças democráticas e progressistas comprometidas com a defesa da lei, da democracia ,do direito internacional. Dos direitos humanos. Do direito à vida do povo palestiniano. Da luta pelos direitos pelos salários , que se deve expressar numa grande greve geral, pois o êxito da luta dos trabalhadores portugueses é também o êxito da luta dos povos oprimidos."

31 Maio 2026

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segunda-feira, 25 de maio de 2026

Boaventura Sousa Santos - Em Leninegrado, a pensar em Cuba e Gaza

* Boaventura Sousa Santos 

Ao longo da história, o cerco de populações foi muito utilizado como estratégia para obter a rendição das forças políticas e militares defensoras dos territórios cercados. A razão fundamental para crer na eficácia do cerco era a fome e a doença impostas à população civil. Alguns cercos duraram meses, outros duraram anos. Todos provocaram um sofrimento inaudito às populações, sobretudo às populações civis, as populações não diretamente envolvidas nos combates. Os militares e todos os funcionários de serviços de que dependiam, bem como os líderes políticos, sempre tiveram alguns privilégios.

A história sobre o êxito ou o fracasso dos cercos é fascinante. Se é verdade que muitas populações cercadas sucumbiram, em muitos outros casos resistiram e obrigaram os atacantes a retirar. Em tempos de autarcia das populações, o cerco era literal, à volta das muralhas, impedindo saídas e entradas e recorrendo muitas vezes à táctica da “terra arrasada”: queima de colheitas, abate de gado, envenenamento dos poços. Desde a era moderna, com a globalização do capitalismo e a liberalização do comércio internacional de mercadorias (e de pessoas), criaram-se tantas formas de interdependência entre os povos que novos instrumentos de encercamento foram postos à disposição dos atacantes (guetos, bloqueios, embargos, sanções, políticas anti-imigração, espaços aéreos fechados, criminalização internacional de líderes políticos, etc.). Reciprocamente, tais interdependências tornaram possíveis às populações cercadas novas táticas de resistência.

Não é objetivo deste texto analisar as virtualidades bélicas dos cercos. Centro-me exclusivamente no sofrimento humano que os cercos causam às populações civis cercadas. Para ilustrar esse sofrimento, escolho o cerco mais brutal da história contemporânea, o cerco de Leninegrado pelo exército Nazi entre Setembro de 1941 e Janeiro de 1944. Escolho-o pela sua brutalidade, mas também por ilustrar um caso de derrota do atacante, aliás, considerado ao tempo do cerco um inimigo todo poderoso. Faço-o a pensar em Cuba e na Palestina. Sobretudo tendo em mente que o mundo da comunicação social tem tido o papel nefasto de trivializar o sofrimento, mesmo quando aparentemente o dramatiza. Por esta razão, não se cria uma população mundial horrorizada e mobilizada contra o sofrimento humano injusto. Em vez disso, delega-se a má consciência a pequenos grupos de corajosos ativistas que, pela sua natureza, revelam tanto a possibilidade da resistência como a fatalidade da sua derrota.

Como me centro no sofrimento humano, socorro-me das descrições do cerco por parte daqueles que o viveram. A descrição deles e delas é mais poderosa do que qualquer análise abstrata. Entre muitas descrições, seleccionei a de Constantine Krypton (pseudónimo?) publicado em 1954 na revista Russian Review, vol 13:4, pp 255-265.[i] É uma longa citação:

O inimigo não conseguiu destruir os edifícios de pedra; conseguiu, sim, uma aniquilação terrível da vida dentro deles. A causa principal da destruição entre a população foi a fome. De acordo com o recenseamento oficial de 1939, a população de Leninegrado era de 3.191.304 habitantes. O processo de aniquilação da população começou no final do mês de Novembro de 1941. O seu sinal exterior na vida da cidade foi o aparecimento nas ruas de todo o tipo de trenós, principalmente trenós de crianças atrelados uns aos outros com cadáveres sobre eles. Mais tarde, transportavam frequentemente os mortos em trenós individuais, especialmente se fossem mais compridos. Envolviam os cadáveres em lençóis, cobertores, tapetes, sacos de todo o tipo e todo o tipo de trapos. Dia após dia, o número destes trenós aumentava, criando, num determinado período, no final de Dezembro e início de Janeiro, uma procissão interminável ao longo das ruas principais.

O processo de morte da população de Leninegrado recebeu, na linguagem médica, o nome de «distrofia». A distrofia tinha três fases. A distrofia da primeira fase caracterizava-se por um enfraquecimento geral do organismo e uma grande perda de peso. A distrofia do segundo estágio trazia ainda maior fraqueza e perda de peso, juntamente com uma série de doenças que apresentavam, em particular, os seguintes sintomas: gengivas escamosas, formigueiros na parte superior do abdómen, úlceras, inchaço, dormência, problemas de estômago e similares. Esses sintomas já estavam parcialmente presentes no primeiro estágio. Na segunda fase, as pessoas começaram, como se dizia naquela época, «a devorar os seus músculos». A distrofia da terceira fase, com duração média de duas semanas, caracterizava-se pelo colapso completo da pessoa, depois a morte. Diz-se que aqueles que passavam para a terceira fase da distrofia não podiam ser salvos. Tive a oportunidade de observar dois casos em que familiares de uma pessoa distrófica acamada obtiveram manteiga e outros alimentos nutritivos, mas era absolutamente impossível proporcionar qualquer alívio real.

As pessoas que tinham entrado no período crítico permaneciam indiferentes a tudo à sua volta, num estado de completa apatia. As pessoas caíam e morriam inesperadamente enquanto caminhavam na rua, estavam na fila, no trabalho ou em casa. Certa vez, ao chegar ao Instituto, onde nas salas frias e sem aquecimento ainda decorriam aulas com três ou quatro pessoas, fui literalmente atacado por um homem bastante baixo. A mim, na qualidade de reitor da faculdade, ele expressou com grande ênfase a sua indignação pelo facto de tão poucos estudantes comparecerem às aulas. Parece que este homem era um professor de desenho técnico, que eu ainda não tinha conhecido. No semestre seguinte, ele iria dar um curso. Quanto ao número de alunos, ele teria sete. Então eu disse-lhe: «O facto de ter sete alunos, em vez dos habituais quatro ou cinco, demonstra um progresso notável, que só pode ser explicado pelo grande interesse na sua disciplina.» Isso acalmou-o um pouco, mas, dirigindo-se ao grupo de alunos, gritou com toda a força: «Sim, mas eu quero ter 25 alunos. Quero lutar por cem por cento.» Trinta ou trinta e cinco minutos depois, uma jovem aluna veio a correr ter comigo para informar que o professor de desenho técnico estava morto.

A taxa de mortalidade era excecional entre aqueles que estavam a concluir os seus estudos. Aqui, a competição cobrou o seu preço. Essas pessoas, apesar de todos os obstáculos, queriam concluir o seu trabalho de graduação e concluí-lo bem. Sem comida, em dormitórios frios, trabalhavam teimosamente e escreviam os seus trabalhos. Não viviam muito tempo depois disso — cerca de dez a quinze dias. O esforço intelectual excessivo com o estômago vazio tinha esgotado qualquer reserva de força que eles tivessem.

Na opinião dos médicos, no início de Dezembro de 1941, uma grande percentagem da população de Leninegrado encontrava-se na segunda fase de distrofia. O mês de Dezembro foi o período de transição para a segunda fase para a grande maioria da população. As condições de vida contribuíram fortemente para isso. A distribuição de alimentos em Dezembro tornou-se totalmente insignificante. Os trabalhadores recebiam 200 gramas de pão por dia; os funcionários civis e seus dependentes, ainda menos. A ração de cereais permitia preparar sopa apenas três ou quatro vezes por semana. As batatas tinham sido distribuídas pela última vez em Setembro. O número de cartões de trabalhadores (primeira categoria), que garantiam mais pão e cereais, era estritamente limitado. Um titular de uma cátedra nas escolas superiores de um instituto recebeu esses cartões apenas em Janeiro de 1942; mas os docentes, estudantes de pós-graduação e outros tinham os cartões de funcionários civis (segunda categoria).

Os suprimentos privados pertencentes à população esgotaram-se em meados ou, no máximo, no final de Novembro. Durante esse mês, as pessoas comiam gatos na cidade. Enquanto esperava na fila pelos cartões de racionamento de Dezembro, ouvi involuntariamente a conversa de alguns estudantes. Eles tinham descoberto que a carne de gato era muito saborosa; era algo semelhante à de coelho e só havia uma coisa desagradável: matar o gato. Os gatos defendem-se desesperadamente. Mas logo deixei de ouvir tais conversas — já não havia mais gatos para matar. Em Dezembro, as pessoas começaram a comer ratazanas, ratos e pombos. A uma mulher idosa que estava a morrer, a sua jovem sobrinha trouxe meio rato que tinha conseguido apanhar e deu-lho. No entanto, a mulher moribunda e a sua sobrinha, juntamente com os seus familiares, morreram pouco tempo depois. Seguiram-se os cães.

Os músculos eram a fonte básica de vida. Os médicos recomendavam em particular que as pessoas caminhassem menos e gastassem este recurso de forma mais razoável, uma vez que não seriam capazes de o reconstruir. Em condições especiais, os trabalhadores do NKVD (Comissariado do Povo para Assuntos Internos), o pessoal do estado-maior de guerra, os principais quadros do partido e a maioria dos trabalhadores responsáveis recebiam provisões alimentares. Estas pessoas, claro, não conheciam a fome. Os membros do Partido tinham alguns privilégios. No entanto, para além de porções extra de sopa sem cartões de racionamento e de um ou dois cartões adicionais, esses privilégios não ultrapassavam a quota legal. Aqueles que tinham alguma ligação com o abastecimento, como um serviço de refeições em alguma instituição, saíam-se um pouco melhor. A alimentação de alguns membros muito necessários do pessoal técnico de engenharia era melhor. Eram obrigados a viver em instalações governamentais, onde eram alimentados em refeitórios especiais e recebiam alguma comida para levar consigo. No entanto, quando um dos engenheiros levou a mãe para partilhar a sua comida com ela, recebeu uma repreensão do director. A melhor alimentação destinava-se a garantir a sua máxima capacidade de trabalho. A mãe teve de ir directamente para casa, a fim de partilhar o destino comum da população.

No final de Novembro e início de Dezembro, os ataques aéreos alemães chegaram ao fim. Isso, ao que parecia, poderia facilitar a aplicação dos conselhos médicos sobre a economia de energia física. A população poderia dormir tranquilamente à noite; não seria necessário correr para os abrigos antiaéreos nem apagar incêndios. No entanto, em vez dos bombardeamentos que tinham esgotado as suas forças físicas, a vida assumiu algo de novo e mais árduo. Em primeiro lugar, os eléctricos tinham deixado completamente de circular na cidade. Enquanto pela calçada se movia uma sucessão de trenós com cadáveres, nas calçadas, e por vezes nas ruas, havia um grande número de pessoas a caminhar, uma vez que careciam de qualquer outro meio de transporte. Para onde quer que se fosse, era preciso ir a pé: para o trabalho, para fazer recados diversos, simplesmente para visitar as casas das pessoas vizinhas. Todos tinham de fazer um esforço colossal e gastar uma quantidade extraordinária de energia. Uma grande desgraça foi o início do frio, e mais tarde o frio extremo do Inverno, chegando a 50 graus negativos.

Todos os esforços para salvar o sistema de água foram em vão, e toda a população da cidade começou a dirigir-se às bombas próximas que ainda estavam em funcionamento. Durante muito tempo, um buraco aberto na rua por um projétil de artilharia, a oito ou dez minutos a pé da nossa casa, salvou-me. Havia sempre água ali, que as pessoas dos apartamentos próximos vinham buscar. Muitas pessoas, não tendo uma bomba na vizinhança, nem buracos na rua, tiveram de percorrer longas distâncias, por vezes até ao rio, para ir buscar água. O problema da casa de banho foi resolvido despejando tudo na neve nos quintais.

Era impossível aquecer esses quartos. Era preciso dormir vestido, vestindo todas as peças de roupa disponíveis para se manter aquecido. Devido ao frio e à falta de água, muitas pessoas deixaram completamente de se lavar. Cozinhas e quartos de hóspedes irremediavelmente gelados foram transformados em locais de armazenamento. Aqui, frequentemente, eram construídas casas de banho. Uma circunstância extremamente difícil era a completa falta de luz eléctrica. Pequenas lâmpadas fumegantes da época da guerra civil lançavam luz apenas suficiente para permitir que alguém se movimentasse pela sala.

Entretanto, em Leninegrado, no final de Dezembro e em Janeiro, a situação assumiu um carácter catastrófico. O número diário de mortos disparou para entre 25.000 e 30.000. Possivelmente, para a parte da população que estava a morrer, esta foi a transição natural para o período crítico, com as suas consequências inevitáveis. As autoridades administrativas, literalmente sobrecarregadas pelo aumento da taxa de mortalidade, deram ordens para abrir os necrotérios. Estes surgiram nos pátios das casas de Leninegrado. Era escolhido um pátio de grandes dimensões para cada sete a dez casas, dependendo do número de residentes. Era afixado um cartaz e, através do administrador do prédio, era feita uma notificação adequada. Todos podiam agora levar os seus mortos para o necrotério. Para remover os cadáveres das ruas, foram atribuídos camiões, mas estes encontravam-se frequentemente em condições insatisfatórias. Era um trabalho difícil para os carregadores de camiões. Frequentemente, no meio das suas tarefas, caíam mortos e era necessário procurar substitutos. Em média, dez ou doze camiões carregados de cadáveres passavam pela nossa rua todos os dias. Nas ruas principais, o seu número era muito maior.

Embora a maioria das pessoas, independentemente do seu sofrimento, permanecesse notavelmente controlada, ocasionalmente ouvia-se falar de algum comportamento particularmente agressivo [ii]. Em meados de Dezembro, uma conhecida minha, uma senhora idosa, cuja filha estava num campo de concentração, saiu à rua, segurando o seu amado cão pela trela. O cão estava com ela há muito tempo. Antes que a senhora se apercebesse, vários homens lançaram-se sobre ela. Alguns queriam agarrar o cão; outros tentavam arrancar-lhe a trela da mão. Todos disputavam entre si, gritando: «o cão é meu.» Nesse momento, outros transeuntes chegaram a tempo de deter os agressores e afastá-los. A velha senhora regressou, agradecida, a casa com o cão, mas, mesmo assim, três ou quatro semanas depois, acabou por comer o próprio animal.

Aconselhava-se as pessoas a andarem com cuidado nas escadas escuras de madrugada. Ocorreram casos em que, partindo do princípio de que uma pessoa ia buscar pão, alguém lhe batia na cabeça e lhe roubava os cartões de racionamento. Normalmente, era necessário ter cuidado nessas escadas escuras depois de o pão ter sido adquirido. O pão tinha de ser transportado embrulhado e escondido. Por vezes, nas filas nas instalações da loja, os rapazes aventuravam-se a roubar o pão aos donos. Esperavam pelo momento certo e, então, cravavam os dentes num pedaço de pão nas mãos de alguém, tentando morder um pedaço. Por acaso, eu próprio observei uma cena dessas. A dona do pão em que o menino tinha cravado os dentes agarrou-o com grande violência pelo pescoço e não o deixava engolir; depois, a chorar, disse que tinha um menino como ele que estava a morrer em casa. Todas estas coisas eram excessos individuais, resultando num certo aumento da ilegalidade.

É possível até falar de novos tipos de «crime». Um deles era chamado de «esconder cadáveres». Ao manter o cadáver em casa durante cerca de uma semana e ocultar a morte, algumas pessoas conseguiam acumular pão suficiente no cartão do falecido para pagar a escavação da sepultura. Outras faziam-no para ficar com o pão e outros cartões de racionamento do falecido para uso pessoal. Conservar um cadáver nos apartamentos gelados daquela época não era tarefa difícil.

Eu conhecia uma funcionária civil que conseguiu esconder a sua tia morta durante quase um mês inteiro. Mais tarde, ela lamentou não ter feito o mesmo com a sua mãe, que tinha morrido dois ou três dias antes da tia. Mais tarde ainda, ela própria morreu, e um vizinho conseguiu escondê-la também durante cinco dias. Na prática, era difícil usar os cartões de uma pessoa morta por mais de doze ou catorze dias. Além disso, apenas uma pequena percentagem da população se dedicava a esta prática. Durante a segunda quinzena de Janeiro, dizia-se que a taxa de mortalidade tinha descido para 9.000 ou 10.000 por dia. Isto pode ter-se devido ao facto de as pessoas mais fracas já terem morrido ou, possivelmente, a uma alteração na qualidade do pão racionado. Seja como for, a melhoria das condições foi de curta duração. Uma nova desgraça abateu-se sobre a cidade. As fortes geadas e o estado geral de degradação dos edifícios da cidade levaram à paralisação do trabalho nas padarias da cidade e a maior parte das lojas ficou sem pão. Em algumas lojas onde o pão chegou, formaram-se filas enormes que se mantiveram desde o início da manhã até ao fim da tarde. Multidões de pessoas, após esperarem dez ou doze horas sob temperaturas geladas, saíram de mãos vazias. A falta de pão, juntamente com a exaustão extrema causada pela espera no frio, fez com que a taxa de mortalidade disparasse de imediato para o valor anterior de 25.000 a 30.000. Algumas pessoas morreram na fila; muitas morreram nas ruas, depois de correrem desesperadamente de loja em loja para perguntar se havia alguma esperança de uma entrega de pão.

No início de 1942, ocorreram alguns acontecimentos que foram muito embaraçosos para as autoridades militares e civis da cidade. Multidões de pessoas que estavam na fila assaltaram várias padarias. Mais impactante do que a pilhagem de algumas mercearias, considerando as condições particulares da vida soviética, foi um acontecimento de significado político. Duas organizações de mulheres (Trabalhadoras da Engenharia Técnica) uniram-se e apresentaram uma petição na qual solicitavam, em nome das crianças moribundas, a rendição da cidade. Elas apontavam para a prática geral das relações internacionais e, especialmente, para o recente anúncio de que Paris seria declarada uma «cidade aberta». Se esta petição conseguiu chegar a algum representante de nível superior a Pyotr Popkov, o presidente do Soviete de Leninegrado, nunca vim a saber. Na cidade, a petição não causou grande impressão, embora muitas pessoas soubessem da sua existência. Algumas mulheres trabalhadoras do Partido chegaram mesmo a discutir o assunto comigo, apesar de eu não ser membro do Partido e, o que é mais surpreendente, não condenaram as mulheres que tinham redigido a petição.”

A brutalidade do sofrimento humano do cerco de Leninegrado – um milhão e meio de mortos – não é qualitativamente diferente dos muitos genocídios coloniais e imperiais entre o século XVI e o século XX: os vários genocídios de povos originários das Américas e de África pelos colonizadores europeus e seus descendentes, o genocídio do povo herero e nama da Namíbia pelo Império Alemão entre 1904 e1908, o genocídio do povo arménio entre 1915-1923 pelo Império Otomano, o genocídio do povo judeu pela Alemanha Nazi, o genocídio do povo tutsi pela elite hútu no Ruanda em 1994, genocídio dos bósnios muçulmanos pelas forças sérvias entre 1992 e 1995 e o genocídio do povo rohingya pelo exército e polícia de Mianmar ao longo das duas últimas décadas.

O que distingue Leninegrado é a forma-cerco levada ao extremo. A mesma forma-cerco está em curso, de modos diferentes, na Palestina e em Cuba. Apesar do seu extremismo, o cerco de Leninegrado foi repelido e estou confiante que mais tarde ou mais cedo será também repelido na Palestina e em Cuba. Para isso é fundamental a solidariedade internacional.

Se Cuba e Palestina não romperem o cerco, seremos todos nós os derrotados, acordando tarde demais para o facto de que o cerco à volta da Palestina e de Cuba está já germinando à nossa volta, multiplicando-se, qual Hidra de Lerna, graças à nossa passividade. Começa a ser tarde demais para a intervenção de Hércules!

Cuba vencerá! Palestina vencerá!

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NOTAS
[i] Trata-se da tradução reduzida de dois capítulos do livro do autor, Osada Leningrad, N. Y., Chekhov Publishing House, 1952. Esta descrição tem as suas limitações, sobretudo tendo em vista a documentação oficial e de arquivo diarista que veio a lume posteriormente. Torna a história do cerco ainda mais dramática. Consultar sobre esta bibliografia Sarah Gruszka, «L’historiographie du siège de Leningrad», Revue des études slaves, Vol. 83:1, 2012, pp. 269-281.

[ii] À luz do que escreve Gruszka, op. cit., houve muita criminalidade e alguma bem grave. É o caso de canibalismo e do comércio de carne humana. Estes crimes eram severamente punidos. A punição de crimes políticos foi igualmente severa.

24 de Maio de 2026

https://estatuadesal.com/2026/05/25/em-leninegrado-a-pensar-em-cuba-e-gaza/
https://aviagemdosargonautas.net/2026/05/24/em-leninegrado-a-pensar-em-cuba-e-gaza-por-boaventura-de-sousa-santos/
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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Alfredo Barroso - Crimes de guerra não foram só os da Alemanha, da Itália e do Japão

 


LIVROS SOBRE O IMPERIALISMO OCIDENTAL, EUROPEU E AMERICANO, E A ARROGÂNCIA E GANÂNCIA DO PODER DOS ESTADOS-UNIDOS

- livros sugeridos por Alfredo Barroso, porque, se fossem lidos pela esmagadora maioria dos comentadores epecialistas das TV's privadas, eles perceberiam melhor os disparates que proferem ao falarem do «imperialismo Russo»...

Alfredo Barroso

2026 02 26

HISTÓRIA E LITERATURA FIDEDIGNAS SOBRE CRIMES DE GUERRA COMETIDOS PELO OCIDENTE DESDE A II GUERRA MUNDIAL

Para não ser apenas eu a fruir dos livros da minha biblioteca, aqui vão cinco sugestões de leitura sobre história e literatura fidedignas acerca dos crimes de guerra cometidos pelo Ocidente, sobretudo pelo Reino Unido, durante a II Guerra Mundial. E pelos Estados-Unidos da América desde então até à actualidade. Ei-las:

«DER BRAND. DEUTSCHLAND IM BOMBERKRIEG, 1940-1945» («EL INCÊNDIO. ALEMANIA BAJO LOS BOMBARDEOS, 1940-1945), por JÖRG FRIEDERICH (2002) – Os bombardeamentos que assolaram as cidades, vilas e aldeias alemãs durante os cinco anos da II Guerra Mundial não têm paralelo na história. Foram bombardeadas mais de mil urbes e localidades. Trinta milhões de civis – na sua maioria velhos, mulheres e crianças – foram vítimas de cerca de um milhão de toneladas de bombas incendiárias e explosivas. Morreram mais de um milhão de civis e perdeu-se para sempre grande parte do património urbanístico, modelado desde a Idade Média.

Até à publicação deste livro, em 2002, nenhum relato histórico tinha oferecido uma narrativa sobre a verdadeira dimensão dos factos e o destino real das vítimas. O historiador berlinense JÖRG FRIEDERICH veio colmatar essa falta com esta obra sobre a campanha de destruição que os britânicos e os norte-americanos planearam e executaram, de forma sistemática, contra as cidades alemãs.

Com base em numerosas fontes, o autor mostra-nos a evolução e aperfeioçoamento das bombas, o seu efeito devastador no terreno, a experiência traumática da população refuguada em “bunkers” e caves, as mortes por calor e asfixia, a brutal pressão do ar e os gases tóxicos e o desmoronar de uma herança cultural de incomensurável riqueza.

JÖRG FRIEDERICH (nascido em 1944) investigou os delitos de Estado do nazismo e os seus crimes de guerra. Colaborou na ‘Enciclopédia do Holocausto’ e produziu inúmeras séries de televisão sobre Criminologia da Guerra, tanto terrestre como aérea. Foi galardoado com diversas distinções internacionais em virtude dos seus trabalhos.

«LUFTKRIEG UND LITERATUR» («HITÓRIA NATURAL DA DESTRUIÇÃO»), por W. G. SEBALD (1999) – Através deste texto magistral, o grande escritor W.G.Sebald (1944-2001) revela como os bombardeamentos massivos do solo alemão pelas tropas aliadas, nos últimos meses da II Guerra Mundial, se tornaram um tabu no seio da sociedade e da literatura alemãs. Rejeitando o sentimento de culpabilidade dos intelectuais alemães, que falseia o seu julgamento tanto quanto a sua inspiração estética, W. G. Sebald preencheu a lacuna por uma evocação à sua maneira desses “raids de aniquilação total” que custaram a vida a cerca de um milhão de civis alemães.

«Da destruição como elemento da história natural» é uma obra incisiva e poderosa, ilustrada por fotos e documentos, que torna palpável o sofrimento do seu país, escrita por um dos mais notáveis escritores contemporâneos, W. G. Sebald, autor de várias obras marcantes como: “Os Emigrantes” (1999); «Os Anéis de Saturno» (1999); «Vertigens” (2001); e «Austerlitz» (2002).

(Edição portuguesa da TEOREMA)

«HIROSHIMA», por JOHN HERSEY (1946 e 1986) – Este é o livro mundialmente mais conhecido do jornalista e escritor norte-americano John Hersey (1914-1993). Publicado pela primeira vez em quatro capítulos pela revista ‘New Yorker’, em 1946, John Hersey acrescentou um quinto capítulo em 1986. Este livro publica a versão integral.

Quando a bomba atómica alcunhada ‘Little Boy’ foi lançada pelos EUA sobre a cidade japonesa de Hiroshima, a 6 de Agosto de 1945, a menina TOSHIKO SASAKI, funcionária do departamento de pessoal da Fábrica de Estanho do Leste Asiático, estava a conversar com uma colega. O dr. MASAKAZU FUJII, proprietário e único médico de um hospital, acabara de instalar-se com todo o conforto no seu alpendre. A senhora HATSUIO NAKAMURA, viúva, estava à janela a observar uma cena estranha. O padre WILHELM KLEINSORGE, sacerdote alemão, lia uma revista jesuíta. O jovem cirurgião TERUFUMI SASAKI caminhava pelo corredor dum hospital com uma amostra de sangue destinada a um teste Wassermann. O reverendo KIIOSHI TANIMOTO, pastor da Igreja Metodista de Hiroshima, preparava-se para descarregar o conteúdo de um carro de mão numa casa dos subúrbios da cidade.

«A bomba atómica [de Hiroshima] matou cem mil pessoas, e estas seis contavam-se entre os sobreviventes. E ainda se interrogam como foi possível sobreviverem quando tantas outras pereceram».

Ao mesmo tempo que o holocausto produzido pelo nazismo está presente na memória social, ‘o outro holocausto’ seu contemporâneo parece ter-se diluído na existência irreal dos homens. E, no entanto, o emprego da arma atómica contra duas cidades japonesas [a bomba atómica ‘Fat Man’ foi lançada pelos EUA sobre a cidade japonesa de Nagasaki em 8 de Agosto de 1945] constitui uma denegação de sentido equivalente aos extermínio das «raças inferiores» pelos nazis. Auschwitz e Hiroshima são duas marcas do terror absolutamente contíguas, constituindo as figuras máximas da descivilização no século XX: os campos da morte e o emprego militar da energia atómica.

(Edição portuguesa da ANTÍGONA)

«CHAIN OF COMMAND» («DOMMAGES COLLATÉRAUX. LA FACE OBSCURE DE LA “GUERRE CONTRE LE TERRORISME”), por SEYMOUR HERSH (2004) – Nesta obra impressionante, o grande jornalista norte-americano Seymour Hersh deslinda para nós o complicado feixe de manipulações e de manobras que conduziram ao ataque contra o World Trade Center e ao escândalo das torturas na prisão do Exército dos EUA em Abu Ghraib, no Iraque. Alimentado por inúmeras confidências de «fontes» altamente colocadas, o relato de Seymor Hersh faz-nos mergulhar no próprio coração do poder americano. Quer se trate das manigâncias da ‘Cabala’, o pequeno grupo de neo-conservadores que ‘fabricaram’ a guerra no Iraque; quer se trate do relatório confidencial de 2002 denunciando as torturas em Guantanamo Bay, prefiguração directa do que iria acontecer em Abu Ghraib; quer se trate da operação ‘Anaconda’, durante a qual os ‘GI’, por incompetência do seu comando, deixaram escapar Ossama Bin Laden…

Vale a pena salientar que nem uma das informações reveladas neste livro por Seymor Hersh foi desmentida pela Administração, cuja única resposta foi: «Seymour Hersh é um mentiroso».

Este livro lê-se como um antídoto à desinformação.

SEYMOUR M. HERSH (nascido em 1937) é já uma lenda do jornalismo de investigação. Durante quatro décadas, foi uma ‘pedra no sapato’ de todos os Presidentes que se sucederam na Casa Branca, por causa das suas investigações exemplares. Foi ele que revelou o terrível massacre de My Lai, cometido em Novembro de 1969 por tropas dos EUA durante a Guerra do Vietnam. Jornalista independente, trabalhou muitos anos para o ‘New York Times’ e foi grande repórter da revista ‘New Yorker’. Publicou vários livros sobre as suas investigações e foi galardoado com o Prémio Pulitzer (de Jornalismo).

«DIRTY WARS, THE WORLD IS A BATTLEFIELD» («DIRTY WARS, LE NOUVEL ART DE LA GUERRE») por JEREMY SCAHILL (2013) – Um Exército secreto. Uma Missão sem fronteiras. Uma Guerra sem fim. A leitura desta obra-prima do jornalismo de investigação tem o efeito dum electrochoque. Jeremy Scahill leva-nos longe das frentes oficiais, lá onde bem poucos jornalistas conseguem chegar e onde o Estado toma o gosto por práticas inconfessáveis. E o Presidente dos EUA Barak Obama (2009-2017), com os seus ‘drones’ assassinos, foi um dos mais flagrantes exemplos.

Nesta impressionante investigação que assume a forma de um ‘thriller’, Jeremy Scahill foca o projector nas manobras clandestinas do Joint Special Operations Command (JSOC), esse corpo de exército colocado directamente sob as ordens da Casa Branca, munido de uma autorização para matar com toda a impunidade, e para o qual o mundo não passa dum campo de batalha. Do Afeganistão ao Yémen, passando pelo Paquistão, pela Somália e pelos Estados-Unidos, o jornalista dá a palavra às vítimas dessa guerra suja (‘dirty war’), às famílias destruídas, homens e mulheres que têm de escolher entre a dor resignada e a ‘djihad’ contra uma América deveras sanguinária.

JEREMY SCAHILL é jornalista de investigação e correspondente de guerra da revista americana ‘The Nation’. É também autor de “Blackwater: a ascensão do exército privado mais poderoso do mundo”. Depois de ter participado na revelação do escândalo ‘Prism’, com os jornalistas Glenn Greenwald e Laura Poitras, Jeremy Scahill fundou ‘The Intercept’, uma revista on-line que difunde nomeadamente as informações reveladas por Edward Snowden.

Este seu livro foi considerado um dos 10 melhores livros do ano de 2013 nos Estados-Unidos da América pela “Publishers Weekly”.

Campo d’Ourique, 26 de Fevereiro de 2026 (e 29 de Julho de 2022)

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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Nate Bear - MENTIRAS POR OMISSÃO




MENTIRAS POR OMISSÃO ENQUANTO NOVOS CRIMES DE GUERRA AMERICANOS SE APROXIMAM

* Nate Bear, 
Substack. Trad. O’Lima.

Os EUA reuniram a maior força militar no Médio Oriente desde a invasão do Iraque há quase 23 anos e estão novamente preparados para cometer assassinatos em massa e perpetrar alegremente uma quantidade impressionante de crimes de guerra.

Ontem, [18 de fevereiro] um grande número de aviões, desde caças a tanques de reabastecimento aéreo e aviões de comando e controlo, partiram dos EUA com destino ao Médio Oriente. Os aviões fizeram escalas em bases militares americanas na Inglaterra e na Alemanha, porque nenhum crime de guerra imperial está completo sem o envolvimento da Europa.


Captura de ecrã (às 11.27 de 18 de fevereiro de 2026)de aviões militares dos EUA a voar dos EUA para a

Um ataque dos EUA ao Irão, uma violação flagrante do direito internacional, se é que isso ainda vale a pena mencionar, parece iminente. Porquê? Por Israel, pelo petróleo, pela projeção de poder, pelo legado de Trump. Porque a lógica do complexo militar-industrial exige que 1 bilião de dólares por ano e uma impressionante variedade de máquinas de matar não fiquem paradas. Porque é isso que os impérios fazem. Porque os EUA são violência. E não há demonstração mais impressionante da violência americana do que uma grande guerra.

Os EUA estiveram em guerra durante 222 dos 239 anos desde 1776. O país dificilmente vai parar agora, especialmente com as estrelas a alinharem-se para um projeto que o eixo EUA-Israel-sionista tem procurado desesperadamente realizar há quase 50 anos.

E apesar do facto de uma nação em guerra quase constante ir atacar um país que iniciou a última guerra há quase 300 anos, os EUA e Israel vão-se apresentar como salvadores e pacificadores. Os líderes desses países vão autoproclamar-se como tal, enquanto os ocidentais submeterão os seus leitores e telespectadores a uma exibição vertiginosa de propaganda para permitir os assassinatos e encobrir os crimes.

O trabalho preparatório

Mas a propaganda não começará no dia do ataque. A verdade é que não estaríamos nesta situação sem o trabalho preparatório realizado pela mídia ao longo dos anos. Não estaríamos à beira de outra grande guerra dos EUA sem as mentiras por omissão, muitas vezes subtis, que há décadas caracterizam a cobertura ocidental sobre o Irão e que têm sido especialmente evidentes nos últimos meses. Vamos examinar algumas delas.

Mudança de narrativas

Em primeiro lugar, e mais importante, a premissa para um ataque. Em junho passado, Trump disse que os EUA tinham «destruído» as instalações nucleares do Irão. Mas agora, oito meses depois, os EUA aparentemente precisam de travar uma guerra muito maior para eliminar o programa nuclear do Irão. Ninguém fará a pergunta óbvia. A premissa de que o programa nuclear do Irão é uma ameaça permanecerá firme e inquestionável na mente do consumidor ocidental dos media propagandísticos, que há apenas oito meses foi informado de que tudo havia sido destruído.

Termos carregados

«Programa nuclear do Irão». As próprias palavras estão carregadas de uma intenção que raramente é examinada ou explicada. Nunca vêm acompanhadas de qualquer contexto e são propositadamente concebidas para silenciar qualquer pensamento crítico. Os media ocidentais nunca explicam que o Irão é um dos maiores produtores mundiais de radiofármacos utilizados no diagnóstico e tratamento do cancro. E para diagnosticar o cancro e fabricar medicamentos contra o cancro, são necessários isótopos médicos. E não é possível fabricar isótopos médicos sem enriquecer urânio. O Irão está entre os cinco maiores exportadores mundiais de medicamentos radioativos, fornecendo medicamentos nucleares a quinze países, incluindo países europeus. E as sanções contra o Irão proíbem a importação de radiofármacos. Portanto, sem o seu «programa nuclear» deliberadamente deturpado, o Irão teria dificuldade, se não impossibilidade, em diagnosticar e tratar pessoas com cancro e outras doenças.

O acordo nuclear

Os media nunca explicam isso e também nunca explicam os antecedentes das ameaças dos EUA ao Irão em relação a esse programa. No quadro da cobertura das negociações e possíveis acordos, os media ocidentais nunca mencionam o facto de que, em 2018, o próprio Trump rasgou um acordo, assinado em 2016, que estava funcionando muito bem. Esse acordo, ratificado pelo Conselho de Segurança da ONU, facilitava inspeções regulares ao local e permitia ao Irão fabricar material nuclear para medicina e energia. Os media nunca nos lembram disso, nem que a última inspeção da Agência Internacional de Energia Atómica relatou que o Irão estava em total conformidade com as suas obrigações.

Nunca nos dizem que Trump, sob pressão dos seus apoiantes sionistas para criar uma crise que pudesse levar os EUA e Israel à guerra, e ansioso por desfazer um raro sucesso de Obama, criou deliberadamente um problema para resolver. E, como estamos prestes a descobrir, nunca houve qualquer intenção de resolvê-lo pacificamente.

Mas os media continuarão fingindo que essas foram negociações de boa-fé que fracassaram por causa das exigências do Irão. E não nos dirão que essas exigências incluíam a capacidade de diagnosticar e tratar o cancro.

Unilateralismo

O facto de os EUA se terem retirado unilateralmente do acordo anterior também é uma omissão importante na cobertura. Porque lembrar aos leitores que a crise foi desencadeada pelos EUA pode fazer com que os EUA, e não o Irão, pareçam o Estado rebelde.

O facto do unilateralismo americano é frequentemente ocultado pelos media ocidentais. É por isso que ouvimos tão pouco sobre as 66 organizações e tratados internacionais dos quais os EUA anunciaram em janeiro que se retirariam. E caso você se sinta tentado a pensar que esse unilateralismo é culpa exclusiva de Trump, o governo Biden retirou-se do Tratado sobre Forças Nucleares de Alcance Intermédio e do Tratado de Céus Abertos, ambos elementos-chave de uma estrutura internacional para evitar a guerra nuclear.

Os EUA são um Estado pária que opera deliberadamente, e tenta-se a todo o custo para ocultar esse facto. Porque se as pessoas compreendessem os EUA como um Estado pária, poderiam questionar se a sua violência constante não é a violência de um pacificador ou de um combatente pela liberdade, mas sim a violência de um delinquente. Poderiam questionar quem, na verdade, são os vilões.

As armas nucleares de Israel

Ao falar de Estados rebeldes, os media nunca examinam a premissa fundamental subjacente a toda a questão da capacidade nuclear iraniana. Nunca questionarão por que Israel tem permissão para ter armas nucleares, mas o Irão não. Nunca levarão os leitores ou telespectadores a questionar por que o agressor proeminente da região, perpetrador de genocídio e violador constante de leis e normas, é aquele a quem se confia a arma mais destrutiva da história da humanidade. Porque então teriam de enquadrar Israel como o agressor. Então teriam de explicar o império. Então, teriam de examinar os evidentes padrões duplos e hipocrisias e introduzir as pessoas ao pensamento crítico, que não leva ao apoio reflexivo ao império.

E isso é um grande tabu. Afinal, é muito mais fácil fabricar consentimento para a guerra se uma grande parte da população pensa que vocês são os bons que defendem a liberdade e a paz.

Novos pretextos

Se tem acompanhado as notícias, deve estar ciente de que as últimas negociações vão além do programa nuclear e introduzem novos pretextos para a guerra, um dos quais é o programa de mísseis balísticos do Irão.

Israel, chocado com a capacidade do Irão de atacar o seu território em junho passado, quer que o novo acordo inclua a eliminação de todos os mísseis de longo alcance do Irão.

Quando os EUA e Israel atacarem, dir-nos-ão que a culpa é do Irão. Dir-nos-ão que querer manter a capacidade defensiva face a um inimigo expansionista e genocida, que se comprometeu abertamente a destruir-nos, é uma posição irracional. O Guardian, entre outros, já começou a defender esta linha.

Em contrapartida, não nos pedirão para refletirmos sobre por que razão Israel pode ter todas as armas que desejar. Não nos pedirão para refletirmos sobre por que razão os EUA entrariam em guerra para impedir um país de se defender de Israel. Isto será simplesmente apresentado como a ordem natural das coisas.

Violência americana

A guerra que se aproxima contra o Irão será uma guerra completamente ilegal de agressão não provocada cometida pelos EUA contra um país a 7200 km de distância que não representa nenhuma ameaça.

No entanto, duvido que um único americano a servir nas Forças Armadas dos EUA se oponha. Porque crimes de guerra em massa são uma tradição americana. Porque os EUA são violência. Será que os EUA algum dia vão prestar contas pela natureza fundamentalmente violenta e imperialista da sua sociedade? A julgar pelas alternativas políticas atualmente disponíveis, não.

Alexandria Ocasio Cortez, considerada por muitos como a principal figura de esquerda do Partido Democrata e uma viável candidata à presidência no futuro, acaba de participar na conferência de segurança de Munique para estabelecer as suas credenciais imperiais. Falando numa sessão patrocinada pela Palantir, ela recusou-se a condenar o reforço militar de Trump, enquanto espalhava propaganda anti-Irão a favor de uma mudança de regime. Ao mesmo tempo, tentou flanquear Trump pela direita em relação à Venezuela, dizendo que ele deveria ter-se comprometido com uma mudança de regime e derrubado todo o governo. Com amigos esquerdistas amantes da paz como AOC, quem precisa de inimigos belicistas como Trump, não é?

Liberdade

À medida que a guerra começa e as bombas caem, os políticos e os media vão regurgitar propaganda falsa sobre atrocidades relacionadas com o número de mortos nos recentes protestos para nos convencer de que a violência que vemos nos nossos ecrãs é a violência do libertador. Vamos ouvir falar dos «mullahs», dos aiatolás e do autoritarismo. O consumidor médio dos media ocidentais ficará convencido de que os iranianos vivem numa sociedade sem cor, liderada por fanáticos religiosos que rotineiramente apedrejam mulheres até a morte, quando uma simples pesquisa no YouTube mostra uma realidade muito diferente. Cenas das ruas e centros comerciais de Teerã que poderiam ter sido filmadas em qualquer cidade ocidental estão a um clique de distância, mas os consumidores dos media nunca serão direcionados a essas fontes.

Tudo o que ouviremos é sobre a necessidade da violência imperial. Ouviremos que o Irão não conseguiu chegar a um acordo em histórias fora do contexto. Ouviremos que os americanos estão a ajudar a libertar os iranianos da tirania e que isso será bom para o mundo, quando, na realidade, o único caminho para a paz é libertar os americanos da tirania do seu próprio império.

https://onda7.blogspot.com/2026/02/leituras-marginais_0361484924.html
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Posted by OLima at sexta-feira, fevereiro 20, 2026 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Helder Moura - (561) O desvelar das tendências militaristas atuais

 

 

O direito, de acordo com o que se passa no mundo, apenas se discute entre os que são igualmente poderosos, porquanto os mais fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que têm de sofrer, Tucídides.

 

Quando em 1945 os Estados Unidos ocuparam o Japão, não se preocuparam especialmente em desenraizar a cultura do militarismo.

            

Diversos altos funcionários presos por crimes de guerraretomaram discretamente os seus cargos no Estado japonês.

 

Na Alemanha, negar o Holocausto é crime. No Japão, é política de governo.

 

A revista Time escolheu Hitler para figurar na sua capa, como “homem do ano 1938”, entendendo que devia ser o candidato ao Prémio Nobel da Paz.

 

 

 

Quando apenas um mês depois de ter sido eleita como a 104ª primeira-ministra do Japão (21 de outubro de 2025), Sanae Takaichi, presidente do Partido Liberal Democrático (PLD), logo no seu primeiro discurso no parlamento ter afirmado que o Japão poderia envolver-se militarmente num conflito entre a China e Taiwan (“an attack on Taiwan could trigger the deployment of her country’s self-defence forces if the conflict posed an existential threat to Japan”), alterando radicalmente toda a política externa seguida até então pelo Japão, tal não fez mais que confirmar as tendências militaristas presentes não só no Japão mas que se têm vindo a apoderar das nossas sociedades.        

Uma das várias explicações para a emergência destas tendências, tem que ver com o que se passou na Segunda Guerra, particularmente com a forma como o pós-guerra que se lhe seguiu foi resolvido.

 

Quando em 1945 os Estados Unidos ocuparam o Japão, não se preocuparam especialmente em desenraizar a cultura do militarismo. Washington debateu se deveria destituir o imperador, figura central do projeto imperial, mas, seguindo o conselho da antropóloga Ruth Benedict, optou por manter o imperador e outros símbolos do militarismo. Isto incluía o Santuário Yasukuni, dedicado aos mortos de guerra, fundado em 1869 e que ainda hoje alberga os restos mortais de mais de mil criminosos de guerra condenados.

 

Diversos altos funcionários presos por crimes de guerra, mas nunca julgados, retomaram discretamente os seus cargos no Estado japonês. Entre eles estavam Yoshida Shigeru, diplomata de alto nível durante a guerra e primeiro-ministro do Japão durante a maior parte do período entre 1946 e 1954; Nobusuke Kishi, burocrata no nordeste da China durante a ocupação, ministro no gabinete de guerra e, mais tarde, primeiro-ministro de 1957 a 1960; Shigemitsu Mamoru, ministro dos Negócios Estrangeiros no gabinete de guerra, julgado como criminoso de guerra de Classe A pelo seu papel na Coreia e preso, e mais tarde ministro dos Negócios Estrangeiros na década de 1950; Okazaki Katsuo, diplomata durante os anos da guerra e mais tarde ministro dos Negócios Estrangeiros de 1952 a 1954; Ikeda Hayato, funcionário do Ministério das Finanças durante os anos da guerra e, mais tarde, primeiro-ministro de 1960 a 1964; e Sato Eisaku, funcionário do Ministério dos Transportes durante os anos da guerra e mais tarde primeiro-ministro de 1964 a 1972. Neste caso, todos eles fizeram parte da chamada "máfia manchu" que liderou a ocupação na China, manteve-se no poder.

 

Para que conste, Nobusuke Kishi foi o avô de Shinzo Abe, primeiro-ministro do Japão de 2006 a 2007 e novamente de 2012 a 2020. Muitas vezes é omitido o facto de Kishi ter sido o arquiteto da ocupação japonesa do nordeste da China e responsável pelo regime de trabalho forçado na China e na Coreia. Após a guerra, Kishi foi brevemente preso em Sugamo como suspeito de ser um criminoso de guerra de Classe A, sendo libertado sem julgamento em 1948. Esperou alguns anos antes de regressar à política com um objetivo fundamental: rever a Constituição de 1947 para remover o Artigo 9, que impunha restrições à militarização no Japão.

 

Em 1952, os EUA reabilitaram formalmente muitos oficiais japoneses que serviram durante a guerra, abrindo caminho para que homens como Kishi entrassem na política ativa e pavimentando o terreno para a formação do Partido Liberal Democrático (PLD) em 1955. Este partido é atualmente liderado por Sanae Takaichi, que nasceu em 1961 e que é a atual primeira-ministra do Japão.

 

Desde que entrou na política, Takaichi tem sido uma figura de destaque na direita chauvinista do Japão, tendo emergido por intermédio do seu mentor, Shinzo Abe. Tal como o avô de Abe, Kishi, Takaichi deseja rever a Constituição japonesa para que o Japão possa reconstruir as suas forças armadas. Em diversas ocasiões, demonstrou reverência pelo período anterior a 1945: visitou o Santuário Yasukuni, defende a conduta do Japão durante a guerra, questiona a natureza coerciva do sistema das "mulheres de conforto" e apoia a ideia de "restauração do orgulho" no passado imperialista. Afirmou que deseja que os manuais japoneses deixem de ser "autodepreciativos" e questionou a veracidade dos crimes de guerra cometidos em Nanquim. As opiniões de Takaichi, que nasceu após a guerra, ilustram que a ocupação americana não só falhou em erradicar a essência do fascismo da sociedade japonesa, como também lhe permitiu florescer.

 

 

Segundo o extenso artigo sobre “Os crimes de guerra do Japão”, antes e durante a Segunda Guerra Mundial, Império do Japão cometeu inúmeros crimes de guerra e crimes contra a humanidade em diversas nações da Ásia-Pacífico, nomeadamente durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa e a Guerra do Pacífico. Estes crimes ocorreram durante o reinado do Imperador Hirohito.

Exército Imperial Japonês (IJA) e a Marinha Imperial Japonesa (IJN) foram responsáveis ​​por crimes de guerra entre 1927 e 1945, que levaram a 19 milhões a 30 milhões de mortes, desde assassinatos em massa, terrorismo, limpeza étnica, genocídio, escravatura sexual, massacres, experimentação em humanos, tortura, fome e trabalho forçado.

 

A liderança política e militar japonesa tinha conhecimento dos crimes das suas forças armadas, mas continuou a permiti-los e até a apoiá-los, com a maioria das tropas japonesas estacionadas na Ásia a participar ou a apoiar os assassinatos.

Embora não seja claro se o Imperador Hirohito foi informado da extensão total desses crimes, o irmão mais novo do Imperador, o Príncipe Mikasa, serviu como oficial no Exército Imperial Japonês estacionado na China, escreveu nas suas memórias que os oficiais utilizavam prisioneiros de guerra chineses para o treino com baioneta, a fim de fortalecer a determinação dos soldados japoneses. Além disso, observou que os prisioneiros de guerra eram asfixiados e fuzilados em grande número.

Serviço Aéreo do Exército Imperial Japonês participou em ataques químicos e biológicos contra civis durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa e a Segunda Guerra Mundial, violando acordos internacionais que o Japão tinha assinado, incluindo as Convenções de Haia, que proibiam o uso de "veneno ou armas envenenadas" nas guerras.

 

Após a Guerra, foram emitidos inúmeros pedidos de desculpas pelos crimes de guerra por parte de altos funcionários do governo japonês. O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Japão reconheceu o papel do país em causar "tremendos danos e sofrimento" antes e durante a Segunda Guerra Mundial, particularmente o massacre e violação de civis em Nanquim pelo Exército Imperial Japonês.

No entanto, a questão continua a estar pronta a ser reaberta, com alguns membros do governo japonês, incluindo os ex-primeiros-ministros Junichiro Koizumi e Shinzō Abe, a terem prestado homenagem no Santuário Yasukuni, que honra todos os mortos de guerra japoneses, incluindo criminosos de guerra de Classe A condenados.

Segundo Shinzö Abe, o Japão aceitou o Tribunal de Tóquio e os seus julgamentos como condição para acabar a guerra, mas as suas sentenças não têm qualquer relação com as leis do Japão: assim, os condenados em crimes de guerra não são criminosos segundo a lei japonesa.

Além disso, alguns manuais de história japoneses fornecem apenas breves referências aos crimes de guerra, e certos membros do Partido Liberal Democrático negaram algumas das atrocidades, como o envolvimento do governo no rapto de mulheres para servirem como "mulheres de conforto", um eufemismo para escravas sexuais.

 

Quanto a assassinatos em massa, o historiador britânico Mark Felton afirma que foram mortas até 30 milhões de pessoas, a maioria civis:

 

Os japoneses assassinaram 30 milhões de civis enquanto "libertavam" do domínio colonial aquilo a que chamavam a Esfera de Coprosperidade da Grande Ásia Oriental. Cerca de 23 milhões destas pessoas eram de etnia chinesa. É um crime que, em números absolutos, é muito maior do que o Holocausto naziNa Alemanha, negar o Holocausto é crime. No Japão, é política de governo.”

 

Quanto a experimentação em humanos e guerra biológica, unidades militares especiais japonesas realizaram experiências em civis e prisioneiros de guerra na China. O objetivo da experimentação era desenvolver armas biológicas que pudessem ser utilizadas para a guerra. Agentes biológicos e gases desenvolvidos a partir destas experiências foram utilizados contra o Exército Chinês e a população civil. Isto incluiu a Unidade 731 sob o comando de Shirō Ishii. As vítimas foram submetidas a experiências que incluíram, entre outras, vivissecção, amputações sem anestesia, testes de armas biológicas, transfusões de sangue de cavalo e injeção de sangue animal nos seus cadáveres. A anestesia não era utilizada porque se acreditava que os anestésicos afetariam adversamente os resultados das experiências:

 

Para determinar o tratamento da hipotermia, os prisioneiros eram levados para o exterior com um tempo gelado e deixados com os braços expostos, sendo periodicamente encharcados com água até congelarem completamente. O braço era posteriormente amputado; o médico repetia o processo na parte superior do braço da vítima até ao ombro. Depois de ambos os braços serem amputados, os médicos passavam para as pernas até que restassem apenas a cabeça e o tronco. A vítima era então utilizada para experiências com peste e agentes patogénicos”.

 

Do artigo referido, consta uma listagem que pode ser consultada respeitante a definições dos crimes de guerra japoneses, a lei internacional e a japonesa, o militarismonacionalismo , imperialismo e racismo japonêsarmas de destruição massivatortura de prisioneiros de guerra, os julgamentos de Tóquio, lista dos maiores crimes e massacres, dos crimes de guerra, e outros.

 

 

É no blog de 27 de setembro de 2017, “Os ovos da serpente”, que podem ler:

“[…] Ainda antes do fim da II Guerra já centenas de milhar de prisioneiros dos exércitos nazis capturados e para os quais não havia campos de internamento em quantidade suficiente, foram colocados nos navios de carga que regressavam vazios aos EUA depois de terem descarregado todo o material na Europa. E por lá ficaram.

 É sempre bom recordar que em 1939 os nazis contavam com mais de duzentos mil seguidores e simpatizantes nos EUA, que a revista Time escolheu Hitler para figurar na sua capa, como “homem do ano 1938”, entendendo que devia ser o candidato ao Prémio Nobel da Paz, e que entre os seus admiradores se encontravam o magnate automobilístico Henry Ford e o aviador Charles Lindbergh.

E que na Grã-Bretanha, a abdicação em 1936 do rei Eduardo VIII, Duque de Windsor, ficou certamente mais a dever-se às suas simpatias para com Hitler e o regime nazi do que com o facto de se pretender casar com uma divorciada americana. Eram notórias as simpatias da classe alta e dos aristocratas britânicos para com o regime nazi, o que talvez tenha levado Hitler a cometer o erro estratégico de acreditar que a implantação do seu regime na Grã-Bretanha seria relativamente fácil, não se preocupando muito em dificultar a retirada do exército britânico de Dunquerque.

 Na destruição e na confusão que se seguiu após o fim da II Guerra, a necessidade de se manter a funcionar um mínimo de administração pública nos países derrotados, e até na dificuldade de separar nazis de não nazis fez com que, intencionalmente ou não, muitos deles passassem despercebidos. Vamos acreditar que foram essas as razões e que não foi intencional.

Na realidade, os aliados que ocuparam a República Federal da Alemanha (Estados Unidos, Reino Unido e França) condenaram apenas 6650 ex-nazis, o que só por si era uma pequena parte do total dos membros do partido. E, as elites alemãs da época fizeram o resto.

Um recente estudo denominado “Projeto Rosemburg” apresentado publicamente por Heiko Maas, atual ministro da Justiça alemão, vem confirmar que em 1957, 77% dos funcionários com cargos de responsabilidade no Ministério da Justiça alemão (ou seja, três em cada quatro) eram antigos membros do partido nazi. O que não deixa de ser até curioso, porquanto essa percentagem em 1957 era mais alta do que durante o Terceiro Reich (http://www.dn.pt/mundo/interior/sistema-de-justica-alemao-do-pos-guerra-estava-dominado-por-ex-nazis-5434041.html) […]”.

E por lá estão.

 

E no blog de 1 de fevereiro de 2023, “Crimes de guerra e guerra sem crimes”,  poderão ler sobre o Tribunal de Nuremberga e o Tribunal de Tóquio::

 

“[..]A primeira sessão, sob a presidência do representante soviético, Gen. I.T. Nikitchenko, realizou-se a 18 de outubro de 1945, em Berlim. Foram acusados 24 ex-líderes nazis ​​por perpetuarem crimes de guerra, e ainda vários grupos (como a Gestapo, a polícia secreta nazi) acusados ​​por terem carácter criminoso. A partir de 20 de novembro de 1945, todas as sessões do tribunal passaram a ser realizadas no Palácio da Justiça em Nuremberga.

Após 216 sessões, a 1 de outubro de 1946, foi proferido o veredicto de 22 dos 24 réus originais (Robert Ley cometeu suicídio enquanto estava na prisão, e as condições físicas e mentais de Gustav Krupp von Bohlen und Halbach impediram que ele fosse julgado). Três dos réus foram absolvidos: Hjalmar Schacht, Franz von Papen e Hans Fritzsche. Quatro foram condenados a penas de prisão que variaram de 10 a 20 anosKarl DönitzBaldur von SchirachAlbert Speer e Konstantin von Neurath. Três foram condenados à prisão perpétuaRudolf HessWalther Funk e Erich Raeder. Doze dos réus foram condenados à morte por enforcamento. Dez deles - Hans FrankWilhelm FrickJulius StreicherAlfred RosenbergErnst KaltenbrunnerJoachim von RibbentropFritz SauckelAlfred JodlWilhelm Keitel e Arthur Seyss-Inquart - foram enforcados a 16 de outubro de 1946. Martin Bormann foi julgado e condenado à morte à revelia, e Hermann Göring suicidou-se antes de poder ser executado.

 

Para além deste tribunal, foram ainda constituídos logo de seguida, entre dezembro de 1946 e abril de 1949, outros 12 subsequentes tribunais militares para julgar crimes de guerra cometidos por chefias do partido nazi, médicosindustriaisjuízesministros e outros elementos de organizações nazis. Dos 3.887 casos, 3.400 foram abandonados, tendo sido presentes a tribunal 489, com 1.672 acusados, dos quais 1.416 foram condenados (200 foram executados, 279 condenados a prisão perpétua – embora em 1950 quase todos acabassem por serem soltos ao abrigo de uma amnistia).

 

Particular interesse tem também o caso do tribunal para julgar os crimes dos nazis japoneses (Tribunal de Tóquio) instaurado pelo General Douglas MacArthur, onde, devido ao encobrimento feito pelo próprio governo americano, os principais responsáveis pelos crimes horrendos da Unidade 731 (experiências com armas biológicas e químicas em humanos) não foram presentes à justiça, e onde devido aos então recentes bombardeamentos atómicos de Hiroxima e Nagasáqui se invocou que os pilotos japoneses não podiam ser punidos por bombardearem cidades dado os pilotos americanos terem feito o mesmo […]”  

 

Na História da Guerra do Peloponeso, começada a escrever já lá vão 2.400 anos (431 a. C.), Tucídides pôs os poderosos Atenienses a explicar aos derrotados e impotentes melitanos, a razão para o genocídio que se lhe seguiu:

 

 “o direito, de acordo com o que se passa no mundo, apenas se discute entre os que são igualmente poderosos, porquanto os mais fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que têm de sofrer”, (capítulo XVII, Décimo sexto Ano da Guerra, A Conferência Melitana, O Destino de Melos).