Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
domingo, 14 de junho de 2026
Caitlin Johnstone - Toda a espécie humana foi transformada numa máquina geradora de lucros
terça-feira, 26 de maio de 2026
Rui Zink - MANUAL DO BOM FASCISTA
O BOM FASCISTA NÃO GOSTA DE SER CHAMADO FASCISTA
Acha que o retrato não lhe faz justiça. E a justiça é muito
importante para o bom fascista. Ele não suporta injustiças. E, afinal de
contas, o que significa "ser fascista"? Nada. Salazar, por exemplo.
Passam a vida a chamar-lhe fascista, mas «não era fascista» [sic — estas coisas
não se inventam]. Já muitos e bons doutores explicaram que Salazar não era
fascista. Fascistas eram Hitler e Mussolini. E Salazar era muito diferente de
Hitler e de Mussolini. Para começar, Hitler falava alemão e Mussolini italiano.
Ora, Salazar não falava nem alemão nem italiano, falava português. Para
terminar, Mussolini era gordo e careca e Hitler tinha bigode a Charlot. Já
Salazar, embora tivesse cabelo, não usava bigode. Só não vê quem não quer ver!
Haverá provas mais científicas de que nunca houve ditadura em Portugal? Ora
bem.
Depois, há todo um ror de infinitas e subtis (mas
significativas) diferenças. Salazar nao comia tagliatelle nem sauerkraut,
ele era patrioticamente mais aderente a dieta lusitana: bacalhau a Gomes de Sá,
arroz de cabidela, iscas com elas, chocos sem tinta.
Pimba.
E há mais:
«(...) Enquanto Mussolini, Hitler ou Franco discursavam e
apareciam em púbico em trajes militares, Salazar nunca o fez.»
Inteira razão, doutor Campos e Cunha, só não vê quem não
quer ver. Salazar era apenas, admitamos (sendo contemporizadores após este
momento de retórico triunfo), talvez "um bocadinho autoritário".
Mas isso era para o bem do país. E não enriqueceu. A prova é
que não deixou nada aos filhos nem pôs a empresa em nome da mulher.
*
O BOM FASCISTA NÃO SE ARMA EM ESQUISITO
O bom fascista alimenta-se de mentiras e distorções, é essa
a sua dieta favorita, mas, se não houver mais nada para comer, também não
desdenha a um facto. O bom fascista gosta de tasquinhar, e até acha graça à
ocasional verdade, desde que esses exóticos produtos chamados factos cumpram o
requisito fundamental: confirmarem aquilo que pensa.
Quando vê o noticiário, um bom fascista não se deixa
dispersar nem enganar: só escuta aquilo que já sabe. Um telejornal pode mostrar
golfinhos no Tejo, um incêndio em Los Angeles, uma entrevista um ministro
estrangeiro, greves em França, o julgamento dos separatistas em Espanha, uma
declaração do Papa sobre recentes escândalos, uma cimeira entre a Ucrânia e a
Rússia. Tudo isso o bom fascista vê com o ar adormecido de um velho crocodilo a
jogar bingo. Só quando sai o número certo — digamos, “cigano/muçulmano atacou
alguém" — é que o crocodilo lá abre um olho, subitamente alerta. E
comenta, satisfeito com a sua visão periférica:
«Eu sabia. Esta gente...»
*
O BOM FASCISTA NÃO SE METE EM POLÍTICA
Até porque a sua política é o trabalho.
E muito gosta o bom fascista do trabalho. Ao contrário dos
outros, que «não querem é trabalhar», o bom fascista quer
trabalhar. E não tem medo do trabalho. A sério, não tem. Consegue aproximar-se
do trabalho sem medo — desde que tenha um chicote, uma cadeira e, bem
entendido, o trabalho esteja devidamente açaimado e/ou acorrentado à parede.
Se o bom fascista tem um chicote e uma cadeira, e o trabalho
estiver devidamente açaimado, o trabalho que se cuide. Com ele não faz farinha.
Quando interrompe o trânsito e os carros de trás começam a
buzinar, o bom fascista ruge:
«Estou a trabalhar!»
E quando não o deixam passar, aí é o bom fascista que
carrega na buzina, e grita:
«Tira daí essa merda que tenho de ir trabalhar!»
Todavia, por vezes, o bom fascista também gosta de dizer,
rindo com gosto, que «o trabalho é bom é para o preto». Isto
é, aliás, por definição, o que faz rir o bom fascista: imaginar alguém a ser
pisado, maltratado, espezinhado. E a levar porrada no lombo, se refilar, para
aprender a da próxima vez ficar quietinho.
O bom fascista, quando ri, ri de cima para baixo.
O que nem sempre é fácil, convenhamos. Sobretudo quando
estamos cheios de trabalho.
O bom fascista gosta tanto de trabalhar que, quando não está
a trabalhar, finge que está a trabalhar.
*
O BOM FASCISTA TOLERA PRETOS, DESDE QUE SAIBAM O SEU LUGAR
Esta não é a terra deles, diz o mesmo bom fascista que antes
achava que a terra deles era "nossa". Esta terra é a nossa terra e se
não gostam voltem para a terra deles. Quem não está bem, muda-se. E calem-se.
Parem com a chinfrineira sobre o "colonialismo" e o “tráfico de
escravos”. Quem não está bem emudece.
Eles são eles e nós somos nós e assim é que é bonito. O bom
fascista desconfia do até do turismo: pode ser imigração encapotada. E
tecnicamente até é, só que imigração por pouco tempo —
tal como a imigração pode ser também vista como turismo prolongado.
De igual modo, aquilo a que chamam "tráfico de
escravos" pode ter sido apenas a invenção, ainda titubeante, do turismo
moderno. Afinal, quando levaram pretos de África para o Brasil, não estariam os
nossos gloriosos antepassados apenas a criar a primeira Agência Abreu da
História? Certo, as condições no porão talvez não fossem as melhores, mas os
lugares na Ryanair e na EasyJet também são apertados. E desde quando quem viaja
quase à borla (ou mesmo à borla, no caso dos escravos) tem direito a queixar-se?
O bom fascista nada tem contra os pretos, atenção, só acha é
que não têm a nossa cultura, não partilham os nossos valores e está mal se
vêm para cá surrupiar os nossos empregos e, com os seus mastodônticos
marsápios, ficar com as nossas mulheres.
O BOM FASCISTA NÃO TEM SAUDADES DE SALAZAR
Nem precisa. Por que raio precisaria se Salazar continua
vivo em nossos corações, fígados, bocas e mentes?
Factos são factos. Mesmo passado meio século, o bom homem
continua a polonizar-nos o imaginário, qual abelhinha redentora.
Qual santa da ladeira, continua a escutar e a reciclar os
nossos pecados.
Qual el-rei D. Sebastião em modo de rancho-melhorado, não
precisa de voltar numa noite de nevoeiro — pois ele mesmo é nevoeiro.
O bom fascista sabe que Salazar «sempre quis o
melhor para o país». E concede que (está bem, melga) aqui e ali terá
sido um bocadinho autoritário e que a PIDE terá feito coisas, das quais ele até
nem não sabia, porque não lhe diziam tudo. Agora fascista, Salazar? Isso não.
Foi o quê. então? Foi, digamos, um bocadinho
autoritário.
A verdade é que, vendendo volfrâmio aos alemães e
emprestando a base das Lajes aos americanos, «Salazar salvou-nos da
guerra». E fê-lo com a mesma camponesa manha com que acomodava espiões
aliados no Hotel Vitória (hoje, ó ironia, sede do PCP) e espiões nazis
no Tivoli (hoje, oh ironia, ainda um belo hotel).
E Salazar foi sempre humilde e discreto. Certo, viveu
quarenta anos num palácio — mas acaso era seu? Ah, bom. Tava a ver. E, modesto
e humilde, nunca foi agarrado ao poder. O poder é que se lhe agarrou às mãos
como um irritante adesivo se cola aos dedos. Acaso uma pessoa é culpada por um
adesivo se lhe colar aos dedos?
Ná, o bom fascista não tem saudades de Salazar. Acha apenas
que Portugal precisa de um outro Salazar. Alguém que pusesse isto no eixo.
(“Manual do Bom Fascista”, Rui Zink. Ideias de Ler, 2019)
Caricaturas de João Abel Manta (1928-2026, Lisboa)
sexta-feira, 9 de maio de 2025
Marc Vandepitte - Memória Selectiva: O Papel Esquecido da União Soviética na Libertação da Europa
sexta-feira, 9 de maio de 2025
* Marc Vandepitte
Os dias 8 e 9 de maio marcam o 80º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial na Europa. No entanto, o papel central da União Soviética nesta vitória — e o terrível preço que pagou por ela — está a ser cada vez mais esquecido ou minimizado no Ocidente devido à memória selectiva e ao oportunismo geopolítico.
O Exército Vermelho: motor da libertação da Europa
Em maio de 1945, o Exército Vermelho marchou em direção à capital alemã. A 2 de maio, Berlim foi tomada. A bandeira vermelha, símbolo da destruição do III Reich de Hitler, foi hasteada no edifício do Reichstag.
Os combates que o antecederam foram de uma magnitude e brutalidade sem precedentes. Desde 1941 que a União Soviética trava uma guerra de aniquilamento contra a Alemanha nazi. Mais de 26 milhões de cidadãos soviéticos perderam a vida, tanto soldados como civis. Nenhum outro país pagou um preço tão elevado.
As batalhas decisivas da guerra foram travadas na Frente Leste: Moscovo, Leninegrado, Estalinegrado, Kursk, campos de extermínio que mudaram o rumo do conflito. Os historiadores concordam que sem os esforços e sacrifícios do Exército Vermelho e a resistência heróica do povo da União Soviética, a máquina de guerra nazi nunca teria sido travada.
O papel dos Estados Unidos
No entanto, este papel crucial é frequentemente subestimado nos países ocidentais. A razão? A história da guerra não se enquadra na imagem simplista da "boa guerra", na qual os EUA foram o farol moral e derrotaram o fascismo através do altruísmo.
O papel dos Estados Unidos era muito ambíguo. Como descreve o historiador Jacques Pauwels, as empresas americanas continuaram a negociar com o regime nazi até à década de 1930. Grandes corporações como a IBM, a Standard Oil e a Ford obtiveram enormes lucros com o rearmamento e a produção alemã. Até dezembro de 1941, as empresas americanas forneciam produtos petrolíferos à Alemanha nazi.
Dentro do establishment havia uma simpatia aberta pela Alemanha nazi e outros regimes fascistas. Henry Ford, por exemplo, era um grande admirador de Adolf Hitler. Um amplo movimento dentro dos EUA, denominado "America First", opôs-se fortemente à intervenção americana nos conflitos europeus.
Mesmo depois de a Alemanha ter invadido a Polónia em Setembro de 1939, não houve apoio financeiro imediato nem fornecimento de armas por parte dos EUA. Tudo mudou depois do ataque a Pearl Harbor, a 7 de dezembro de 1941. Ou seja, os EUA esperaram dois anos até se juntarem aos Aliados.
Nascido do grande capital
Muitas vezes esquecido ou escondido, o fascismo, tanto em Itália como na Alemanha, nasceu do capitalismo. Era uma ferramenta para reprimir o movimento operário e as forças de esquerda. Sem o apoio das grandes empresas, Hitler nunca teria sido capaz de desenvolver o seu partido fascista nem teria sido eleito. A mesma coisa acontece com Mussolini.
Foto: Fotomontagem de John Heartfield para a revista AIZ, Berlim, 16 de outubro de 1932, "O significado da saudação de Hitler. Há milhões atrás de mim."
Depois da guerra, estas relações foram cuidadosamente ocultadas. Os industriais com ligações nazis recebiam frequentemente penas leves ou eram completamente absolvidos nos julgamentos de Nuremberga. A elite alemã de banqueiros e donos de fábricas que ajudaram Hitler a chegar ao poder permaneceu em grande parte impune graças à protecção da força de ocupação americana.
As heroínas e os heróis silenciados
Não só o Exército Soviético, mas também milhões de civis, guerrilheiros e civis contribuíram para a derrota do fascismo. A resistência foi muito forte na Jugoslávia, França, Itália, Grécia e outros países europeus.
Comunistas, sindicalistas, trabalhadores e estudantes arriscaram a vida em actos de sabotagem, greves, redes clandestinas e resistência armada. Os combatentes da resistência contrabandeavam alimentos, escondiam fugitivos e resistiam numa época em que resistir significava tortura ou morte.
Esta resistência teve um amplo apoio popular. A célebre greve de Maio de 1941 na Bélgica (10 a 18 de Maio), na qual centenas de milhares de trabalhadores abandonaram o trabalho em protesto contra os nazis, foi um dos maiores actos de resistência na Europa ocupada.
No entanto, estes actos desapareceram muitas vezes da historiografia oficial, tal como o papel dos comunistas na resistência é sistematicamente silenciado ou negado.
Para homenagear estes heróis e heroínas da resistência e manter a sua memória viva, a Bélgica lançou a iniciativa Heróis da Resistência , fundada pelo historiador Dany Neudt e pelo escritor Tim Van Steendam. Desde agosto de 2022 que a organização publica diariamente pequenas biografias de combatentes da resistência no seu website e nas redes sociais para partilhar as suas histórias.
A importância da memória
As lições dessa época são mais relevantes do que nunca hoje. A ascensão da extrema-direita na Europa, a normalização do discurso de ódio e a ascensão de líderes autoritários representam uma ameaça às liberdades duramente conquistadas pelas quais tantos deram a vida.
Além disso, a guerra na Ucrânia levou a uma perigosa forma de reescrita histórica. Em nome da luta contra Putin, qualquer referência ao passado soviético torna-se suspeita, pelo que comemorar a vitória soviética sobre a Alemanha nazi é subitamente considerado uma "glorificação da Rússia".
Assim, a homenagem aos libertadores da Europa corre o risco de ser substituída por uma amnésia selectiva e por uma distorção que alimenta o extremismo em vez de o combater. A verdade histórica não deve ser vítima de inimizade geopolítica.
A Segunda Guerra Mundial não foi um choque de nações, mas um confronto direto entre ideologias. De um lado: fascismo, racismo, colonialismo e genocídio. Do outro: a resistência antifascista, a solidariedade internacional e a justiça social.
Por conseguinte, a comemoração não é um ritual facultativo, mas um ato político. Se nos esquecermos de quem realmente derrotou o fascismo, esqueceremos também quem está hoje ameaçado. E que mais uma vez beneficiam do ódio, da opressão e da divisão.
Por isso, em vários países europeus há um clamor crescente para voltar a declarar o dia 8 de maio (Dia da Vitória) como feriado legal e remunerado; não como um dia de folclore, mas como um dia de memória, reflexão e vigilância.
Celebra não só a queda de Hitler, mas também a força da resistência popular, a solidariedade entre os povos e as lições da experiência socialista que conseguiu derrotar o fascismo.
O que o dia 8 de maio nos ensina é que a liberdade não é algo óbvio, mas o resultado da luta. Foi a União Soviética que fez os maiores sacrifícios. Foram os comunistas e os trabalhadores que lideraram a resistência. Foi a solidariedade internacional que derrotou o fascismo.
Não podemos esquecer esta história. Não por nostalgia, mas por necessidade.
~~~~~~~~~~
Marc Vandepitte é membro da Rede de Intelectuais, Artistas e Movimentos Sociais em Defesa da Humanidade (REDH).
Fonte https://www-dewereldmorgen-be.translate.goog/artikel/2025/05/08/selectieve-herinnering-de-vergeten-rol-van-de-sovjet-unie-in-de-bevrijding-van-europa/?
Postado por O BÁRBARO às 03:39
https://cronicasdobarbaro.blogspot.com/2025/05/memoria-selectiva-o-papel-esquecido-da.html
segunda-feira, 11 de março de 2024
O desprezível governo PS ou as acrobacias do Costa
Banqueiros, governo psd/cds e fascismo
A Economia em estado comatoso, o fascismo brando e o PS em fim de linha
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024
Manda quem pode, obedece quem deve
quinta-feira,
25 de janeiro de 2024
Com a campanha eleitoral em estado particularmente avançado e atingindo um tom de certo modo encarniçado, saltou para a ribalta mais um caso de suspeita evidente de corrupção envolvendo o chefe do governo regional da Madeira e o presidente da câmara municipal do Funchal, duas figuras gradas do PSD que não sabe bem o que mais prometer a fim de conseguir enfiar a mão no pote após oito longos e impaciente anos de jejum. Fica-se com a sensação de que foi vingança do PS, já que é o governo que manda na polícia judiciária e, depois do farto subsídio, não haverá outro remédio senão responder prontamente.
De boas
promessas e de boas intenções está o Inferno cheio
A coisa promete
ser renhida até ao fim e ninguém estranhe, como já foi alertado por diversas
vezes, que a presente campanha para as legislativas do próximo dia de 10 de
Março venha a revelar-se um tanto ou quanto feia; vai valer tudo, arrancar
olhos caso seja necessário. Toda a gente espera que o principal homem de mão,
na Madeira, do dito “principal partido” da oposição, no Continente, coloque o
cargo à disposição, à semelhança de Costa que parece não ter hesitado e por
razões aparentemente mais difusas, porque a situação para o Montenegro será a
partir de agora cada vez mais preta, e lá se irão as promessas de tudo e mais
um par de botas.
Quanto a
promessas e de pretensas boas intenções está o Inferno cheio, e não deixa de
ser ridículos os leilões de promessas fáceis prometidas por todos os partidos,
uma verdadeira feira, desde do que ainda se encontra no governo, passando pelos
partidos ditos da “direita moderada” e aos intitulados de “extrema esquerda” e
“extrema-direita”, esquecendo-se de que as políticas seguidas nos países da
União Europeia são determinadas por Bruxelas. E temos de ser realistas, porque
é neste quadro que os partidos portugueses se movem, sendo tudo o resto mera
demagogia, e rasca. E o que diz Bruxelas?
Ora, no recente
encontro do Fórum Económico Mundial (54º), realizado em Davos, a presidente da
Comissão Europeia Ursula von der Leyen não se engasgou nem trincou a língua no
seu discurso onde explanou clara e detalhadamente as linhas mestres da política
a seguir: os sectores públicos (governos) e privados devem colaborar
intimamente; a principal preocupação para os próximos dois anos será o combate
à “desinformação e falsa informação” e não o clima; “os próximos anos exigirão
que pensemos da mesma forma”, acredita que o poder comum das democracias e dos
negócios estará no centro desta forma única de pensar; como a Rússia, no seu
entender, está a perder a guerra na Ucrânia e a falhar nos seus objetivos
económicos e diplomáticos, o belicismo europeu irá impor-se.
Em relação à
forma de cooperação entre governos e empresas serão estas a ditar as leis,
promessas de subidas do salário mínimo e médio, seja os mil euros do salário já
este ano ou para 2028, seja os 1750 euros do salário médio para o final da
legislatura, partindo do princípio que chegará ao fim, o que é pouco provável,
os partidos terão de perguntar primeiro se os patrões e as empresas estão
dispostos a fazê-lo, já que a cooperação tem que funcionar, e os patrões
portugueses já foram explícitos sobre o assunto: o salário mínimo de 1000 euros
é difícil sem aumento da produtividade – primeiro venha o porco, quanto ao
chouriço logo se vê!
O PSD deixa
transparecer que está com a consciência pesada quanto aos idosos, deve ainda
estar lembrado dos cortes que efectuou nas pensões e nas idades de reforma para
a “peste grisalha”, então desunha-se em promessa de aumentos, complementos e
outros apoios. No entanto, os restantes partidos não lhe ficam atrás, até houve
um que prometeu reforma mínima igual ao salário mínimo, outros apostam mais na
descida da idade para aposentação e o novel chefe socialista uma das primeiras
coisas que fez foi visitar centros de terceira idade, também se esquecendo –
esta gente come muito queijo! – do número de mortes de idosos abandonados
durante a pandemia e em lares ilegais. Para quando uma rede pública de lares ou
de cuidados continuados?
Em referência à
economia, cujo estado de saúde não está tão bem como o governo o pinta, as
promessas são descabeladas: a recauchutada AD jura a pés juntos que a descida
gradual do IRC irá garantir um bónus de 5 mil milhões de euros às empresas, o
que permitirá subir o PIB em 3,4% até 2028 e à custa predominantemente do
aumento da procura interna. Ora, se os salários são baixos, o poder de compra
dos portugueses encontra-se continuamente a degradar-se e os patrões não estão
abertos à ideia de subir substancial e antecipadamente os salários, como é que
isso poderá ser feito?
Aumentar a
produção, induzir o crescimento económico, e aqui fala-se do crescimento da
riqueza dos patrões, através de aumento das exportações, como se tem tentado
fazer até agora, como isso será efectuado se atendermos a duas
razões: primeiro, a União Europeia está a entrar em recessão económica, a
denominada “locomotiva da Europa”, a Alemanha, tem a economia estagnada há uma
série de trimestres e não se prevêem melhorias, bem pelo contrário; segundo, a
economia portuguesa tem-se transformado num prolongamento da economia espanhola
desde a entrada no euro, o que explica que nos últimos vinte anos, tempo do
euro, o PIB nacional tem crescido a uma taxa média anual de 1%, isto é, metade
do da economia do outro lado da fronteira, cada vez menos fronteira. Como é?
A crise da
democracia e a crise dos seus órgãos de propaganda
“Para a
comunidade empresarial global, a principal preocupação para os próximos 2 anos
não será o conflito ou o clima. É desinformação e falsa informação, seguidas de
perto pela polarização nas nossas sociedades” – Ursula von der Leyen
no 54º Fórum Económico Mundial, 16 Janeiro 2024
A economia
capitalista nacional não está lá muito bem, mas o resto não estará lá muito
melhor. Se pegarmos no assunto que mais preocupa a senhora von der Leyen, a
questão de toda a gente seguir o mesmo pensamento, sem lugar para dissidências
ou alternativas, com o objectivo de evitar ou abafar a contestação social,
então a situação é calamitosa. Os media mainstream nacionais,
propriedade de um pequeno punhado de grupos económicos, estão pela rua da
amargura e o caso Global Media Group, adquirido recentemente por um fundo de
investimento mafioso, diz bem da realidade, e será apenas a ponta do iceberg.
As posições dos diversos partidos do establishment quanto ao apoio a
esta imprensa falida e desacreditada diz bem da natureza política e de classe desses
partidos.
Antes de mais,
devemos lembrar os 15 milhões de euros que o governo do PS/Costa enterrou nos
media para, alegadamente, fazer publicidade institucional, mas na prática foi
comprar a adesão à política seguida e aplicada quanto ao combate da pandemia,
onde se esturricaram alguns milhares de milhões de euros na compra de vacinas,
material de protecção, máscaras e serviços aos lóbis da saúde privada e também,
com o mesmo pretexto, na recapitalização de empresas falidas ou à beira de tal.
E ainda não se falava da crise do Global Media Group e Marcelo defendia o apoio
estatal aos media privados, melhor dizendo, aos meios de propaganda do regime.
O ex-presidente do Parlamento também já alvitrou a alteração da Lei de
Imprensa. Provavelmente, os media mainstream serão benevolentes com o PS nesta
campanha eleitoral.
E a seguir, e
apontando as medidas defendidas pelos partidos do sistema quanto à forma de
salvação de órgãos de informação que o povo português pouco lê ou vê, tirando
as telenovelas, e onde pouco ou nenhum dinheiro gasta, porque também o não tem,
concluímos que o consenso reina entre todos. O PS e BE são unânimes em enfiar
directamente dinheiro nos órgãos de propaganda da burguesia, os restantes
também aprovam mas com algumas condições, que são mais de forma do que
substância, e o PCP até terá alvitrado a nacionalização do Diário de Notícias e
do Jornal de Notícias, dando a entender que são os “alicerces fundamentais da
democracia”, como disse uma ex-deputada socialista, chegando a defender um
“pacto de regime alargado” sobre os media. Mas pergunta-se, democracia e
liberdade de expressão para quem, para os trabalhadores ou para as elites e
seus negócios como aponta von der Leyen?
E quanto a
democracia, esta não está melhor que os seus órgãos de propaganda, vai-se
auto-descridibilizando, e aqui todos os partidos com assento na Assembleia da
República estão unidos, e fortemente, incluindo o que se autoproclama de
“anti-sistema”. O Parlamento, no seu último plenário, aprovou por unanimidade e
em tempo recorde o projecto de lei que alarga ajudas de custo para os próprios
deputados… e com retroactivos até agosto de 2023. É o fartar vilanagem! E vêm
agora os falsos moralistas do costume gritar aqui d’el rei! que o
ex-militante e ex-deputado pelo PSD, agora cabeça de lista do Chega, terá
recebido 75 mil euros de subsídios e ajudas de custa por ter dado como
residência Angola e não Coimbra ou Lisboa, onde passa a maior parte do tempo.
Afinal, são todos subsídio-dependentes, ou seja, mamam todos na mesma teta.
Os cada mais
frequentes casos de corrupção, na maior das vezes corrupção passiva de titular
de cargo político, quer dizer que os políticos governantes foram corrompidos
por alguém, no caso da Madeira os políticos terão sido por gente ligada aos
negócios da construção civil e do turismo, acusação geralmente associada a
suspeitas de “prevaricação, abuso de poder, participação económica em negócio
ou atentado contra o Estado de Direito”, contribuem para descredibilização do
regime. Quando esta democracia perfaz meio centenário de existência, vão
realizar-se eleições antecipadas para a Assembleia da República e para a
Assembleia Regional dos Açores e, muito provavelmente e em breve, também para a
Assembleia Regional da Madeira, caso o governo regional venha a cair, como
parece vir a acontecer. Não deixa de ser uma forma irónica de confirmar a
solidez do regime.
Fica evidente,
só não vê quem não quer ou não lhe interessa, que a classe política do regime
não passa de uma casta que, para além de parasitária, funciona como gestora dos
negócios do capitalismo. São todos uns meros funcionários que de imediato são
descartados se não cumprirem com a missão, e logo substituídos por outros.
Alguns são mais espertalhaços e não se deixam apanhar; outros, ou por inépcia
ou por arrogância e excesso de confiança, são apanhados com a mão na massa. A
fila para candidato ao pote parece não ter fim e as eleições servem somente
para refrescar as fileiras, e quando é. Nunca foi tão verdadeira como no tempo
presente a velha máxima salazarista do “Manda quem pode, obedece quem
deve”: manda o poder económico, esteja ele (grande capital financeiro) sedeado
em Bruxelas ou situado em Portugal, os políticos avençados obedecem.
Imagem:
"Os pica-paus" em henricartoon
Postado
por O BÁRBARO às 15:34
https://cronicasdobarbaro.blogspot.com/2024/01/manda-quem-pode-obedece-quem-deve.html









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