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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Internet mais pobre sem Saramago - Carlos Pompe *

 

Colunas

Vermelho - 7 de Setembro de 2009 - 0h10

 Internet mais pobre sem Saramago

Carlos Pompe *

 No dia 1º, José Saramago se despediu dos leitores de seu Caderno — o blog que inaugurou no dia 15 de setembro de 2008. Nele opinou um pouco sobre tudo e reafirmou posições e compromissos. Inclusive, reafirmou suas convicções marxistas e seu compromisso leninista com o Partido Comunista Português.


Uma seleção do que ele postou no blog foi coletada em livro, O Caderno, que sua editora italiana, Einaudi, pertencente ao direitista primeiro-ministro Silvio Berlusconi, que se negou a publicar a versão italiana do livro em sua editora devido às críticas que Saramago fez em seus artigos ao governante da Itália.
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Além de dizer que seus livros proporcionavam lucro ao dono da editora, o escritor ainda o chamou de “coisa” e delinquente: “Os valores básicos da convivência humana são espezinhados todos os dias pelas patas viscosas da coisa Berlusconi que, entre os seus múltiplos talentos, tem uma habilidade funambulesca para abusar das palavras, pervertendo-lhes a intenção e o sentido, como é o caso do Pólo da Liberdade, que assim se chama o partido com que assaltou o poder. Chamei delinquente a esta coisa e não me arrependo”. (A coisa Berlusconi, 8/6/09)
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Saramago abordou, ao longo desses meses, temas os mais variados das artes – inclusive a literatura, seu ofício – e da sociedade. Expressou seu repúdio ao terrorismo do Estado de Israel contra os palestinos e também condenou ações terroristas contra civis, ocorressem onde fossem. Clamou pela paz e pelo fim das discriminações. Depôs sobre artistas, ativistas e políticos que admira ou conheceu – e também os que deplora.
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Seu estilo e sua visão e cultura amplas proporcionaram (e proporcionam, pois os textos continuam abertos à visitação) reflexões como esta, sobre a necessidade de os homens também se rebelarem contra a agressão às mulheres: “Talvez 100 mil homens, só homens, nada mais que homens, manifestando-se nas ruas, enquanto as mulheres, nos passeios, lhes lançariam flores, este poderia ser o sinal de que a sociedade necessita para combater, desde o seu próprio interior e sem demora, esta vergonha insuportável. E para que a violência de género, com resultado de morte ou não, passe a ser uma das primeiras dores e preocupações dos cidadãos. É um sonho, é um dever. Pode não ser uma utopia”. (Problema de homens, 28/7/09)
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Sua abordagem sobre seu papel como artista e cidadão é um caminho a seguir para os que zelam pela coerência: “Como escritor, creio não me ter separado jamais da minha consciência de cidadão. Considero que aonde vai um, deverá ir o outro. Não recordo ter escrito uma só palavra que estivesse em contradição com as convicções políticas que defendo, mas isso não significa que tenha posto alguma vez a literatura ao serviço directo da ideologia que é a minha. Quer dizer, isso sim, que ao escrever procuro, em cada palavra, exprimir a totalidade do homem que sou”. (Do sujeito sobre si mesmo, 7/7/09)
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Materialista confesso, pronunciou-se inúmeras vezes contra as duas principais seitas monoteístas do Ocidente: “Se Alá não toma conta da sua gente, isto vai acabar mal. Já tínhamos a Bíblia como manual do perfeito criminoso, agora é a vez do Corão, que o xeque Al Nayan reza todos os dias”. (Torturas, 11/5/09) Este outro seu argumento é atualíssimo neste nosso Brasil, quando governo e Vaticano se unem para perpetrar mais um atentado contra o Estado laico: “Seria de agradecer que a Igreja Católica Apostólica Romana deixasse de meter-se naquilo que não lhe diz respeito, isto é, a vida civil e a vida privada das pessoas. Não devemos, porém, surpreender-nos. À Igreja Católica importa pouco ou nada o destino das almas, o seu objetivo sempre foi controlar os corpos, e o laicismo é a primeira porta por onde começam a escapar-lhe esses corpos, e de caminho os espíritos, já que uns não vão sem os outros aonde quer que seja. A questão do laicismo não passa, portanto, de uma primeira escaramuça. A autêntica confrontação chegará quando finalmente se opuserem crença e descrença, indo esta à luta com o seu verdadeiro nome: ateísmo. O mais são jogos de palavras”. (Laicismo, 4/6/09)
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As convicções comunistas do autor também não ficam escondidas em jogos de palavras. Quando um político foi agredido, no 1º de Maio deste ano, Saramago pediu a expulsão dos agressores, se fossem militantes do partido (ele o é há mais de 40 anos), e provocou: “A Vital Moreira chamaram-lhe ‘traidor’, e isto, queira-se ou não se queira, é bastante claro para que o tomemos como o cordão umbilical que liga o desprezível episódio do desfile do 1º. de Maio à saída de Vital Moreira do Partido Comunista há vinte anos. Que espero que não seja por me considerarem a mim também traidor, pois embora militante disciplinado, nem sempre estive de acordo com decisões políticas do meu partido”. (Expulsão, 2/509)
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Saramago deixa em aberto a possibilidade de ainda postar textos eventuais no seu blog. Como ele próprio escreveu numa homenagem ao mais conhecido comunista português, Álvaro Cunhal (em 31/7/09)
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– “Envelhecer é não ser preciso. Ainda precisávamos de Cunhal quando ele se retirou”. 
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Ainda precisamos de Saramago, que não envelhece. Disse que se retira da internet para se dedicar mais e melhor aos seus livros. Pois que venham os livros!
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* Jornalista e curioso do mundo.
* Opiniões aqui expressas não refletem necessáriamente as opiniões do site.
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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Era tudo terra de índio



por Carlos Pompe*

Os nativos do Novo Continente chegaram a ser considerados “bons selvagens” mas, antes disso, foram endemoninhados para justificar as crueldades a que foram submetidos


Agora os índios só tem o dia 19 de abril, canta Jorge Benjor numa de suas canções. Mas, antes da chegada dos europeus no Novo Continente, todo dia era dia de índio. Calcula-se que aqui viviam aproximadamente 100 milhões de pessoas. Só no que é hoje território brasileiro, esse número é estimado entre 2 milhões a 5 milhões de nativos. Os habitantes desta região estavam divididos em tribos, de acordo com o tronco lingüístico: tupi-guaranis (litoral), macro-jê ou tapuias (Planalto Central), aruaques e caraíbas (Amazônia).

Nelson Werneck Sodré, no seu “Formação Histórica do Brasil”, apurou que viviam sob o regime de comunidade primitiva, sem mercadorias ou excedente de produção. “O indígena não conhecia a atividade agrícola como o colonizador encarava. A terra lhe servia para caçar ou para plantar e colher o suficiente ao consumo da comunidade. Não estava em condições de aceitar a escravidão, de encarar o trabalho como o colonizador desejava, e como teve de impor”.

Os nativos tinham suas crenças e rituais. Acreditavam nas forças da natureza. Algumas tribos chegavam a enterrar o corpo dos mortos, com alguns objetos pessoais, em grandes vasos de cerâmica. Mas os colonizadores não estavam preocupados com essas idiossincrasias. Em 1576, Pero de Magalhães Gândavo, no seu “Tratado da Terra do Brasil”, informa sobre a matança dos nativos: “Havia muitos destes índios pela Costa junto das Capitanias, tudo enfim estava cheio deles quando começaram os portugueses a povoar a terra; mas porque os mesmos índios se levantaram contra eles e faziam-lhes muitas traições, os governadores e capitães da terra destruíam-nos pouco a pouco e mataram muitos deles, outros fugiram para o sertão, e assim ficou a costa despovoada de gentio ao longo das Capitanias. Junto delas ficaram alguns índios destes nas aldeias que são de paz, e amigos dos portugueses”.

Para dar respaldo moral a essa matança, muitos textos da época satanizavam os nativos. O próprio Gândavo registra que “a língua deste gentio toda pela Costa é, uma: carece de três letras — não se acha nela F, nem L, nem R, cousa digna de espanto, porque assim não tem Fé, nem Lei, nem Rei; e desta maneira vivem sem Justiça e desordenadamente.” Gândavo não era nenhum obtuso, mas um humanista lusitano, autor da 1ª ortografia portuguesa, residiu por duas vezes no Brasil e escreveu a primeira história destas terras, a “História da Província de Santa Cruz”.

A literatura desse período acusa, também, a prática de canibalismo no território. O padre João de Aspicuelta Navarro, em carta de 28 de março de 1550, diz: “Uma vez, por esses dias, foram à guerra muitos das terras de que falo, e muitos foram mortos pelos inimigos, donde, para se vingarem, outra vez lá voltaram e mortos muitos dos contrários, trouxeram grande abundância de carne humana, e, indo eu visitar uma aldeia, vi que daquela carne cozinhavam em um grande caldeirão, ao tempo que cheguei atiraram fora uma porção de braços, pés e cabeça de gente que era coisa medonha de ver-se, e seis ou sete mulheres, que com trabalho se teriam de pé, dançavam ao redor, experimentando o fogo, que pareciam demônios do inferno”.

“Trata-se de uma ‘testemunha’ ocular da cena de antropofagia. Contudo, como é fantasioso!”, polemiza Aylton Quintiliano, no seu “A guerra dos tamoios”, de 1965. “Basta saber-se que em 1550 o índio brasileiro não sabia cozinhar e tem-se destruída a fantasia do jesuíta. Em verdade, os índios só preparavam a carne na base do moquém. Isto é, tostavam a carne em grelhas feitas de madeira especial. O próprio Jean de Lery” (autor de “História de uma viagem à terra do Brasil”, de 1578) “mostra que os tamoios não sabiam tratar a carne de outra maneira”.

Quintiliano afirma que outros relatos da antropofagia apresentam “flagrantes contradições. E há deles que, ao mesmo tempo em que presenciaram cenas de antropofagia, dizem ter visto animais monstruosos no Brasil que tinham narinas nas costas e botavam fogo por elas”.

Atualmente, calcula-se que apenas 400 mil índios ocupam o território brasileiro, principalmente em reservas indígenas demarcadas sob proteção (ou deveriam estar...) do governo. São cerca de 200 etnias indígenas e 170 línguas. Porém, muitas delas não vivem mais como antes da chegada dos portugueses. O contato com o homem branco fez com que muitas tribos perdessem sua identidade cultural.

O cristianismo se impôs ao Brasil não apenas através das armas e da pregação. Valeu-se também da lei, como veremos.




*Carlos Pompe, Jornalista e Curioso do mundo.


* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.
in Vermelho
17 DE ABRIL DE 2006 - 16h03
Gravura -
Antropofagia no Brasil em 1557, segundo Hans Staden

Mortos sem sepultura


por Carlos Pompe*

No dia 30 de janeiro de 1933, Adolf Hitler foi nomeado primeiro-ministro da Alemanha. Teve início um dos períodos mais sofridos da humanidade. O capitalismo aderia à ditadura terrorista aberta para impor seus interesses, através do fascismo e do nazismo. Operários, democratas, comunistas, socialistas, judeus... As vítimas contaram-se aos milhões. A União Soviética e seu projeto socialista foram agredidos. A Segunda Guerra Mundial foi a maior carnificina da história. Muitas de suas vítimas são célebres. Júlio Fuchik, García Lorca e tantos outros. A besta nazi-fascista causou também a fuga de várias inteligências européias para outros continentes.


Campo de concentração

O Brasil foi agraciado com a presença de Paulo Rónai, um húngaro que deu imensuráveis contribuições à nossa cultura inclusive a apresentação aos brasileiros do pequeno romance Meninos da Rua Paulo, de Ferenc Molnar, e a edição dos 17 volumes de A Comédia Humana, de Balzac. Abaixo reproduzo trechos de um texto de Paulo Rónai, escrito em dezembro de 1947, e que é um retrato da crueldade do terror aberto capitalista. Boa leitura!


O poeta de Bor


Nada tive e nunca terei coisa alguma.
Vem, pois, meditar um momento sobre esta vida rica

Nicolau Radnóti, Céu Espumante


Acaba de me chegar às mãos o primeiro livro da Hungria, depois da guerra. É um volume de versos intitulado Céu Espumante, da autoria de Nicolau Radnóti. Segundo os jornais húngaros, Nicolau, de quem me despedi em Budapeste há seis anos, agora é considerado um clássico da literatura de seu país, e, como todos os clássicos, está morto. Céu Espumante reza a orelha é a última mensagem de Nicolau Radnóti, do campo de Bor.


Embora já soubesse do desaparecimento de Nicolau, só agora que a vejo impressa, a notícia de sua morte se torna uma realidade para mim. Há dias estou carregando comigo o livro e a notícia que me doem como uma ferida, que me levam, apesar de tamanha distância no tempo e no espaço, a inquirir as causas e o sentido dessa gente.


É preciso dizer primeiro quem era Nicolau Radnóti. Era um poeta no velho e sagrado sentido da palavra, um dos raros que se identificam totalmente com a sua poesia em, além de escrevê-la, vivem-na. Com trinta e pouco anos, era uma grande e eterna criança, um homem da raça de São Francisco de Assis, para quem as únicas realidades são as flores e os bichos, o céu, o sol, as nuvens, um artista da raça dos pintores italianos da Renascença, para os quais o acontecimento era um encontro com a beleza. Nunca vi homem mais feliz. ...


É preciso dizer, agora, o que era o campo de Bor. Segundo algumas notícias de jornal e o testemunho de alguns deportados, era uma das variantes mais aperfeiçoadas do Inferno fascista, em nada inferior a Buchenwald ou a Bergen-Belsen. ...


Como pôde Nicolau Radnóti tornar-se o poeta de Bor? E ainda: por que levaram Nicolau Radnóti, para morrer, ao campo de Bor? ...


A riqueza dos ricos não lhe despertava inveja; não lhe doía senão a pobreza dos outros. Mas tinha de morrer. Nasceu judeu. ...


Sabia que ia morrer. Sabia-o desde 1937, quando sobre Garcia Lorca escreveu esses versos:


Porque a Espanha gostava de ti
E os amantes diziam teus versos
Eles, quando vieram, que haviam de fazer?
Eras poeta, mataram-te.


Dois anos depois, confirmava-os aplicando-os conscientemente ao seu próprio caso:


Acreditai, acreditai no que digo:
A suspeita prudente não me afaga em vão.
Sou poeta que serve só para a fogueira,
Porque é testemunha da verdade.
Porque sabe que a neve é branca,
que o sangue é vermelho e vermelha a papoula,
e o caule franzinho da papoula é verde.
Poeta, a quem acabam por matar,
Por isso que ele nunca matou.
...


Suas últimas palavras evocam os amigos mortos que, sem sepultura, dormem em matas longínquas e em pastagens estrangeiras; depois, foi juntar-se a eles.


Nicolau, consolar-te-ia saber que tua esposa e teus versos sobreviveram? que a tua voz se ouve ainda e se ouvirá? Que estás conosco bebendo no nosso copo, sentado à nossa mesa, escondido no sorriso das mulheres? que alguns dos antigos companheiros espalhados pelo mundo afora, roídos pela vergonha e pelo remorso dos sobreviventes, murmuram teus versos, e, desesperadamente, procuram crer que não morreste em vão?





*Carlos Pompe, Jornalista e Curioso do mundo.



* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.

in Vermelho
31 DE JANEIRO DE 2008 - 14h59