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quinta-feira, 14 de maio de 2026
Marta Pinho Alves - “Estado Velho”
segunda-feira, 8 de janeiro de 2024
Carlos Maria Bobone - Salazar, o prosador desconhecido
Salazar, o
prosador desconhecido
11 mar. 2017,
15:526
Seria o único a
resistir a tão encomiástico apodo da parte de António José Saraiva. “a mais
perfeita e cativante prosa doutrinária que existe em língua portuguesa”,
qualifica o Historiador. Salazar acima do estilo cuidado de Jerónimo Osório?
Lido com maior prazer do que a sanha ideológica de José Agostinho de Macedo ou
de Frei Fortunato de S. Boaventura? Estávamos em 1982, já Saraiva tinha deposto
a casaca vermelha e adoptado a defesa do Salazarismo, pelo que o elogio poderia
ser apenas o excesso de um entusiasmo político.
Só isso explica
que, mesmo com a canonização do, já não sacerdote, mas autêntico Cardeal da
crítica literária, a prosa de Salazar continue sem ser tida nem achada nos
altares das letras. Estudos literários há poucos: um de Manuel Anselmo, outro
de António Barahona e talvez mais um ou dois prefácios
que tentem encabar uma leitura sistemática no ofício laudatório. E dado que,
nos casos citados (não excluído António José Saraiva), junta-se à admiração
literária um apreço pessoal e político, talvez o público tenha tomado as loas
por juízos inquinados.
Das barricadas
opostas, nem tugido nem mugido: nunca a obra de Salazar vem referida,
seja para um louvor, seja para uma condenação, na sua perspectiva literária. É
compreensível: para os Historiadores há tanto rincão fértil para estudar o
Salazarismo que pegar nos seus aspectos literários pode parecer tão ridículo
quanto, diante de um banquete, comer apenas o pão seco. Para os literatos, a
tomada do monopólio literário pela poesia e pela ficção afasta a prosa
doutrinária dos seus interesses. E para o resto dos nossos contemporâneos o
hábito dos discursos políticos dessorados, tantas vezes lavrados por encomenda,
sempre à procura do mais inofensivo lugar-comum, sempre apostados na formulação
vaga que não ofenda eleitor nenhum, para quem está habituado a estes discursos
quase burocráticos, a leitura de um discurso político é tão prazenteira quanto
a leitura do diário da República.
Enquanto em
França sempre foi ponto de honra um certo cuidado estilístico na forma de um
governante se dirigir ao País, enquanto Léon Blum, De Gaulle ou Mitterrand
engolfavam o papel dos discursos nas suas pretensões literárias, em Portugal o
discurso saiu do âmbito da literatura para entrar no da publicidade. Daí que,
se não quisermos aderir a teses conspiratórias contra o Estado Novo, possamos
considerar normal que a obra de Salazar não tenha a atenção literária que
merece.
Ora, a
verdade é que houve, de facto, o cuidado literário nos Discursos,
que justifica a atenção. Nem as suas são as palavras de um repentista que
quadrasse melhor em anedotários do que em Histórias da Literatura, à Churchill,
nem são as frases lacónicas de um burocrata em que por acaso se acharão certas
feitiçarias involuntárias de bom estilo. É o próprio Salazar que lhes
chama, no prefácio ao primeiro volume dos Discursos, “pedaços de
prosa que foram ditos”, como que a mostrar que as suas intervenções são, antes
de mais, para ser lidas – “pedaços de prosa”. Se a isto juntarmos o
misterioso Ais, livro de poemas que terá publicado na sua mocidade,
teremos confirmada, mesmo que exangue, uma veia literária em Salazar.
“Eram
versos, mas não eram poesia”
Uma das mais
cuidadas críticas literárias à sua obra parte, aliás, da sua curta vida de
poeta. Na biografia de Salazar que escreveu, Franco Nogueira ressuscita por
momentos o crítico literário que fora na mocidade e avalia os poemas que o
jovem António, ainda seminarista, ia ensaiando. O veredicto é implacável:
“candura literária, pobreza poética, monotonia de temas, indigência de
imaginação, ingenuidade, romantismo imaturo”… Franco Nogueira assesta mesmo –
“eram versos: mas não eram poesia”. Mesmo fora da poesia a sentença não é mais
complacente: “estilo pessoal incaracterístico, que se procura sem se
encontrar”, diz o Embaixador sobre uma palestra proferida num liceu. Ora, mesmo
em tão larga gama de fraquezas é já possível encontrar certas características
mais pertinazes que acompanharão (polidas, é claro) a vida do autor dos Discursos.
Tem, é
certo, um gosto heroico e a mesma admiração dos Integralistas pela forma como
os Românticos reanimaram os tesouros pré-modernos. Mas herda também a estrutura
frásica de Herculano, as frases longas de complexos contornos gramaticais que
já não eram e não mais voltaram a ser moda.
Do Romantismo
não aproveita apenas os temas, o elogio da organicidade medieval, os episódios
que Herculano fixou fundamentais da nossa História, os heróis e a exaltação de
nobres sentimentos empenhados na construção da pátria. Tem, é certo, um gosto
heroico e a mesma admiração dos Integralistas pela forma como os Românticos
reanimaram os tesouros pré-modernos. Mas herda também a estrutura frásica de
Herculano, as frases longas de complexos contornos gramaticais que já não eram
e não mais voltaram a ser moda. “A desproporção das forças em presença – 7.000
portugueses para mais de 30.000 inimigos — , o fulminante da vitória, as
pesadíssimas perdas infligidas aos Castelhanos, a fuga do rei de Castela, a
maneira como foi conduzida a batalha sob o aspecto puramente militar por esse
extraordinário generalíssimo, assombroso de misticismo religioso e de génio
guerreiro, que se chamou D. Nun’Álvares Pereira, fazem de Aljubarrota o ponto
central da longa guerra havida com Castela e a vitória mais representativa do esforço
dos nossos avós pela independência de Portugal.”, diz no discurso “Aljubarrota
festa da mocidade”.
Numa frase,
longa, claro, descreve a dificuldade da batalha, explica que consequências
exacerbaram o seu simbolismo, troca o sujeito para um Nun’Álvares rapidamente
biografado e volta ao primeiro para explicar a importância da batalha. A oração
verbal (“fazem de Aljubarrota…”) surge no fim para, mesmo com a quantidade de
apostos ao sujeito, conseguir manter o suspense. Se já soubéssemos que o elo de
ligação entre a ladainha bélica estava na importância que dão a Aljubarrota,
podíamos dedicar-nos independentes a elencar tudo o que julgamos essencial para
fazer desta a verdadeira batalha da independência.
É o estilo
narrativo dos românticos, que Salazar mescla com asserções curtas mais
habituais nos discursos: “Compenetrados do valor, da necessidade na
vida de uma espiritualidade superior, sem agravo das convicções pessoais, da
indiferença ou da incredulidade sinceras, temos respeitado a consciência dos
crentes e consolidado a paz religiosa. Não discutimos Deus”. É o próprio Franco
Nogueira que atesta a influência. Em Coimbra, “Continuava fiel aos clássicos
portugueses, ao Padre Manuel Bernardes, a Alexandre Herculano”. E é nestas
leituras, recolhidas por Franco Nogueira, que podemos encontrar mais uma pista
para o seu estilo.
O biógrafo
chamou “candura literária” àquilo que no Estado Novo se tornou uma espécie de
vanguarda. Depois da moda do romance científico, das ilusões positivas em que
Eça ou Teixeira de Queirós traduziram o romance de Zola, a literatura como que
ressacou das suas ingénuas pretensões objectivas. Deixou de ser cozinhada em
godés, descreu do futuro mirífico das Histórias Naturais e, farta das
maravilhas da Civilização, agarrou-se aos restos de um mundo perdido. Não é
preciso lembrar A Cidade e as Serras, o encanto de José Régio com a
religiosidade popular ou Pessoa com o “Menino de sua Mãe”.
Estilo de
época
A ruralidade, o
povo e a infância, coisas exóticas num mundo cada vez mais urbano e aburguesado
(e, demasiado óbvio mas para precaver de espertinhos, interpretado por
adultos). Esta franja literária, porém, complexifica aquilo que eram já os
temas base do romantismo. É que se o Romantismo também toma o povo como
pretexto, não o toma como forma. A volúpia erudita de um Garrett ou de um
Camilo contrastam com a forma de vida popular. Aquilo que Pessoa ou Régio já
não têm e querem – a simplicidade do povo ou da infância – manifesta-se também
na forma. Daí as Quadras ao gosto popular, daí, em parte, o “lirismo
simples de António Correia de Oliveira” que Salazar admirava. O paternalismo
brando dos discursos, o tom baixo, o elogio das virtudes quotidianas, tudo isto
é já não “candura literária” mas um estilo de época.
Claro que
Salazar também quer fugir à loquela tribunícia da Primeira República, adaptar o
tom dos discursos à serenidade que quer ver no país, contrastar a sua com a
prosa histriónica dos jornais da época; mas a forma ultrapassa a política e tem
algumas das preocupações fundamentais da literatura.
A singeleza
quadra com a personalidade, a estrutura dos discursos quadra com o próprio
veículo, para obedecer à tese de Truman Capote de que a literatura é encontrar
o tom adequado àquilo que se quer dizer. Salazar, nitidamente, encontrou-o:
embora doutrinários, os discursos não têm um único conector lógico (logo,
então, por conseguinte…) nem um raciocínio completo. É obviamente mais difícil
seguir um raciocínio ouvido do que lido, pelo que a simplicidade – que melhor
se diria clareza, já que a gramática é erudita e o vocabulário bastante rico –
também se manifesta aqui. Manifesta-se nos temas, nas descrições e na
estrutura, para se manifestarem também na personalidade. A “candura
literária” já não é, nem inteiramente cândida, nem inteiramente falsa. A
simplicidade, mais do que um engano, é um objectivo. Tanto em Salazar, como nos
escritores considerados do seu tempo.
Mesmo nos
tempos de maior euforia revolucionária, mesmo na crispação dos tempos de
guerra, Salazar é bastante lacónico nos seus termos. Nunca faz comparações, não
usa metáforas, tem um estilo absolutamente descritivo: empenha-se em
caracterizar com precisão o estado das finanças, com as palavras mais certas e
mais sóbrias, sem tomar de uns assuntos imagens que se pudessem
aproveitar noutros.
Ora, os
escritores do seu tempo, diz-nos Franco Nogueira, também eram lidos por Salazar
na sua juventude. Não apenas ou já referido Correia de Oliveira ou Malheiro
Dias – a literatura francesa, de Comte, Le Play ou Maurras (os primeiros mais
antigos mas muito em voga na época) também terá corrigido a “indigência de
imaginação” do Presidente do Conselho. Não que Salazar tenha alargado o seu
campo de referências a misturas surrealizantes ou alegorias rebuscadas; mas
aquilo que poderia de facto ser uma insuficiência literária – a falta de
colorido – tornou-se um ex-libris da sua pena.
Mesmo nos
tempos de maior euforia revolucionária, mesmo na crispação dos tempos de
guerra, Salazar é bastante lacónico nos seus termos. Nunca faz
comparações, não usa metáforas, tem um estilo absolutamente descritivo:
empenha-se em caracterizar com precisão o estado das finanças, com as palavras
mais certas e mais sóbrias, sem tomar de uns assuntos imagens que se pudessem
aproveitar noutros. Esta “indigência”, porém, marca com o mesmo
opróbrio o estilo de outros grandes prosadores. A falta de comparações é já uma
reacção da Arcádia ao Barroco; mas o que José Agostinho e Bocage compensavam
com a escolha de vocabulário erudito, grande elasticidade de temas e uma verve
apaixonada está vedado a Salazar.
Por feitio não é apaixonado, por ofício trata de temas circunscritos e já estabelecidos. Salazar, tanto nas ideias como no estilo, aproxima-se assim de Maurras; esburgada a agressividade do Mestre da Action Française, tem a sua clareza e a sua aposta em fórmulas vigorosas e a dinâmica da prosa dada pela variedade verbal. É, de facto, nas palavras de acção que o vocabulário de Salazar mais foge do comum, na dinâmica verbal que há mais frescura. A riqueza verbal, aliás, característica do estilo clássico que Maurras tanto exalçava, traz à prosa a limpidez que não a torna imediatamente identificável como literária.
n
Como se
fossem sermões
É por não
abundarem as repetições consentidas, os jogos de palavras e as referências
discretas a passagens anteriores que a prosa é limpa. Não tem aliterações, tem
apenas uma variedade discreta que lhe dá grande parte da elegância. Não será
fácil extrair exemplos de uma característica que é própria de conjunto, mas as
frases “A fraqueza dos regimes liberais está essencialmente em que, por
imposição da sua própria doutrina – porque também eles a têm – se vêem forçados
em muitas circunstâncias a parecer que não a possuem. Sempre para se sustentar
têm de se contradizer” são um eco daquilo que ensejávamos demonstrar. Para um
só tema – a existência de doutrinas liberais – sete verbos diferentes em duas
frases. A mostrar que Maurras não é mestre apenas nas ideias de Autoridade e
Hierarquia e que só não o é na violência do humor.
Ora, a
serenidade tão característica de Salazar poderia fazer desconfiar de uma tese
apresentada por António José Saraiva no texto de que tirámos a primeira destas
linhas. Diz Saraiva que Salazar, educado na escola do século de
Pascal, na prosa seiscentista, era grande leitor e seguidor do Padre António
Vieira. Pela sua formação eclesiástica, pelo tom brando tão ao género do Pão
partido aos pequenitos, pelo uso constante do superlativo absoluto sintético de
inspiração latina, seria normal associar Salazar a Manuel Bernardes, Frei Luís
de Sousa e toda essa gama de frades prosadores – Manuel Anselmo fá-lo e
Barahona também. Agora, ao Padre António Vieira? Ao grande exibicionista das
possibilidades da língua, ao verdadeiro barroco estilístico, ajoujado de jogos
de palavras e malabarismos gramaticais? É certo que Salazar não usa os atavios
do Jesuíta, mas o olho arguto de António José Saraiva não se engana: o ditador
deve-lhe alguma coisa na estrutura da prosa.
A coabitação de
contrários – “Tão frágil que a brisa ameaçava tombá-lo, tão forte que uma
revolução o não podia subverte” (a propósito de Carmona) – o manejar simultâneo
de duas ideias diferentes, tantas vezes em confronto, é tão característico dos
sermões de Vieira como dos Discursos de Salazar. Vieira terá,
é certo, a imaginação e a fabulosa capacidade de, a partir de uma doutrina
conhecida, encontrar formas originais e divertidas de a transmitir. Salazar não
terá a mesma destreza, mas também não a procura. É tão sóbrio quanto o outro é
alegre, tão contido quanto o outro é exuberante.
Não podemos,
porém, dizer que à sua elegância modesta falta originalidade. Entre a
abstracção labiríntica dos tratadistas morais e a chã narrativa dos
Historiadores, entre o Leal Conselheiro e a História de Herculano, Salazar
conseguiu ter um discurso que fala das virtudes com o exemplo do país e em que
eleva o país à aspiração da virtude. E isso poucos, mesmo entre os grandes
doutrinadores, poucos conseguiram, menos ainda com tamanho donaire.
Se, como diz Saraiva, será “o melhor”, não sabemos. Mas é com certeza um grande
prosador. Estranhamente, talvez entre todos, e nesta matéria, o mais ilustre
desconhecido.
Carlos Maria
Bobone é licenciado em Filosofia. Colabora no site Velho Critério.
https://observador.pt/especiais/salazar-o-prosador-desconhecido/
Maria Afonso Peixoto entrevista Carlos Ademar autor de ‘Autobiografia do Doutor Oliveira Salazar’
CARLOS ADEMAR, HISTORIADOR, ESCRITOR E ANTIGO INSPECTOR DA PJ
‘Nos últimos
dois anos de vida, Salazar viveu num mundo de fantasia’
* Maria Afonso Peixoto // Janeiro 8, 2024
Como seria a
autobiografia de Salazar, se existisse? Não sabemos, e apenas podemos imaginar.
Foi o que fez Carlos Ademar, historiador, escritor e antigo inspector da
Polícia Judiciária, que ‘encarnou’ o antigo chefe do Estado Novo e escreveu um
livro de memórias na primeira pessoa. Mas com um twist. Nesta Autobiografia
do doutor Oliveira Salazar, encontramos o ditador num estado vulnerável,
perto do fim, a confrontar-se com o passado e com os seus fantasmas – que são
muitos, e implacáveis. O PÁGINA UM falou com o autor sobre esta obra que alia
factos com ficção, e que, apesar do título, tem um objectivo bem delineado,
muito além do seu cariz biográfico: “destruir” o mito por trás do homem.
Sei que a
ideia para este livro surgiu da Autobiografia do General Franco, de
Manuel Vázquez Montalbán, lançada há uns bons anos. Durante este tempo, foi
amadurecendo o “projecto”?
Sim; na
verdade, o ‘clique’, digamos assim, foi-me dado pelo Montalbán, quando li essa
obra, já para aí há uns 15 anos. Como é natural, eu não queria replicar
totalmente a sua ideia. Aquilo que retirei foi confrontar o nosso
“ditador-mor”, como eu lhe costumo chamar. E de facto tem razão, porque ao
longo dos anos eu andei à procura de… também andei à procura de tempo, que não
tinha [risos], porque é uma obra muito exigente em termos de pesquisa. E,
portanto, não era coisa que se fizesse em três ou quatro meses. Precisava de
muito tempo, e só agora há dois anos, quando mudei de estatuto profissional, é
que passei à disponibilidade [risos]. Ainda não estou reformado, mas
estou a caminho da reforma.
Como
inspector da Polícia Judiciária?
Sim. Eu estava na Escola, no agora Instituto de Polícia Judiciária e Ciências Criminais. E dos vários projectos que tinha em mente, agarrei-me a este porque era o mais apaixonante. Foi aquele que me seduziu mais, não obstante o trabalho que teria pela frente. Ao longo dos anos, fui burilando a ideia, para arranjar uma forma de a trabalhar, e não replicar exactamente aquilo que o Montalbán fez. Ele pôs o general Franco a fazer o discurso oficial do regime, e eu também o fiz relativamente ao meu “Salazar A”. Depois, o Montalbán faz o contraditório do discurso. E eu encontrei aqui uma fórmula que acho que não me correu mal, modéstia à parte, porque me agarrei a um facto da vida real do Salazar, que tem a ver com aquele período de 1969/70. Ele fica doente em 1969, e está no hospital durante largos meses, e em Fevereiro regressa a São Bento, já não como Presidente do Conselho. Mas pensa que ainda é, e morre depois em Julho de 1970. Aquele é um período em que ele anda entre a lucidez e a perturbação. Tem momentos de lucidez, que lhe permitem dar entrevistas, designadamente a que deu ao jornalista do L’Aurore, em Agosto de 1969, e preparar com o seu próprio punho um pequeno discurso para dirigir aos portugueses por ocasião do seu 80º aniversário. E eu explorei esta fase da sua vida, colocando-o a fazer o discurso oficial quando está lúcido, e o contraditório quando está perturbado. Portanto, podemos dizer que temos uma autobiografia na verdadeira acepção da palavra, ainda que sempre com aspas, obviamente [risos]. Porque apesar de ser ficção, é sempre a personagem, Salazar, a escrever em ambos os discursos.
E preferiu
fazer esta autobiografia ficcional, em vez de uma biografia, como já fez, por
exemplo, com o ‘capitão de Abril’ Vítor Alves?
Sim.
Biografias, já há várias de Salazar. Aliás, saiu agora uma recentemente, da
qual soube já depois de publicar o meu livro. Mas há muitas, e há uma
monumental que me serviu, de facto, de base de trabalho. Foi feita por alguém
insuspeito, no sentido em que era um incondicional apoiante de Oliveira
Salazar, e foi seu ministro dos Negócios Estrangeiros na década de 1960; estou
a falar de Franco Nogueira. Franco Nogueira tem uma obra monumental de seis
volumes grossos só sobre a vida de Salazar. E apesar de ser um seu
admirador e da sua obra, não se coibiu de contar determinados episódios que não
abonam muito a seu favor. Eu usei sobretudo os dois primeiros volumes da obra,
que se reportam às primeiras décadas de vida, e particularmente o primeiro
volume, que vai até ao momento em que ele chega a Ministro das Finanças, e não
há assim tanta coisa escrita sobre esse período. Esse primeiro volume foi muito
importante para encontrar determinadas histórias e episódios que me foram muito
úteis para fazer o próprio contraditório; para contrariar o discurso social de
Oliveira Salazar.
Nesse
‘contraditório’, Salazar é muito duro consigo próprio; como se se achasse uma
fraude absoluta, desde a sua aparente modéstia às origens humildes. Para
construir este monólogo interno, embora se trate de ficção, serviu-se de alguns
factos? Há motivos para crer que ele se sentia assim?
Nós,
obviamente, nunca saberemos, porque ele não deixou memórias. Deixou os seus
discursos; mas relativamente a essa questão, nunca saberemos. Agora, do ponto
de vista da pessoa interessada por este período e por esta personagem, pelo seu
tempo e por aquilo que fez e não fez, penso que não é completamente descabido
pensar que neste período, particularmente em 1969/70, em que ele estava muito
abandonado… Ele, de facto, nos últimos dois anos de vida, viveu num mundo
de fantasia. Havia ministros antigos dele que iam a São Bento pedir autorização
para fazer uma viagem a Londres, por exemplo. Esta é uma história contada pelo
Joaquim Vieira, se não estou em erro, no livro sobre a governanta de Salazar, a
dona Maria. Salazar não diz nada, está naqueles momentos em que está em baixo,
e é a dona Maria que se aproxima dele, lhe segreda algo ao ouvido, e depois diz
ao ministro que está autorizado a ir a Londres. E ele está sujeito a isto.
Digamos que não ‘enobrece’ muito uma pessoa chegar ao fim de vida e passar
por estas situações.
Mas relativamente ao que me perguntou, eu não tenho dúvidas de que ele próprio, neste isolamento e solidão, se tenha debatido com determinadas coisas que fez ou que não fez. Sobre o facto de ele ser dissimulado, isso não há dúvida absolutamente nenhuma, e basta dar-lhe o exemplo do assassinato de Humberto Delgado. O livro do Fernando Dacosta, Máscaras de Salazar, fala neste episódio, e depois há o Joaquim Vieira, no livro sobre a Micas, que era uma das raparigas que foi viver lá para casa e manteve uma relação de proximidade com Salazar, que conta a mesma história. Portanto, digamos que há várias fontes que dão a mesma informação.
Em que caso,
por exemplo, isso se observa?
No caso do
assassinato de Humberto Delgado, há um telefonema que Salazar recebe na
madrugada, pelas 2 hora ou 3 horas. Ninguém telefonava para São Bento a essa
hora. E é a dona Maria que vai atender, e quem estava do outro lado era o Jorge
Silva Pais, o director da PIDE. E ele diz que precisa de falar urgentemente com
o senhor Presidente do Conselho. Entretanto, a dona Maria chama o doutor
Salazar, e uma hora depois estão os dois sentados no gabinete a conversar sobre
o que se terá passado naquele dia; coisa tão grave que levou, primeiro ao
telefonema, e depois à viagem do Silva Pais a São Bento, e fez levantar Salazar
e vestir a sua farpela, porque o recebeu de fato e gravata àquelas horas da
madrugada. O que é certo é que Salazar ordena silêncio total sobre o assunto;
não se fala nisso, acabou, não sabemos de nada. Entretanto, cerca de um mês e
meio depois, os corpos do General Humberto Delgado e da sua secretária aparecem
em Espanha e são identificados. E Salazar faz um discurso na televisão dirigido
à Nação, dizendo que não sabe nada, e que a ‘nós’ não nos interessava a morte
dele; a outros, sim, poderia interessar, mas ‘nós’ não sabemos nada. Ou seja,
sobre o ser dissimulado que ele era, não há absoluta dúvida. Sempre foi assim.
Aliás, a alcunha que o ‘Salazar B’ lhe aplica, muitas vezes, no livro, é o
‘Manholas’, que era a alcunha do pai dele, António ‘Feitor’. Feitor, porque era
feitor da família mais rica entre Coimbra e Viseu, os Perestrelo. Mas ele, além
de feitor, também era comerciante, e vendia propriedades num bairro que estava
a nascer à volta da estação de comboios da CP de Santa Comba. Comprava e vendia
terrenos, e a alcunha de Manholas vem daí. E depois, penso que é o
Henrique Galvão que lhe adapta, e chama a Salazar o ‘Manholas filho’. E eu uso
muito, porque de facto, se alguma coisa o caracteriza é isto. Era um ser muito
dissimulado, calculista. Conhecia e sabia ler muito bem – enfim, mérito dele –
os homens, e sabia muito bem o que fazer e o que não dizer. A gestão dos
silêncios, tudo isto ele fazia muito bem, sempre com o objectivo de levar a
água ao seu moinho.
Como foi o
exercício de se colocar na ‘cabeça’ de Salazar?
A parte menos agradável foi fazer o discurso oficial. Mas até isso me deu algum gozo. O discurso oficial é baseado, naturalmente, nos seus discursos, ou de pessoas que estavam muito próximas; no fundo, eram as ideias defendidas e aplicadas pelo Estado Novo. Mas, sobretudo quando estava a rever texto, deu-me algum gozo porque quase que estava a ouvir a voz dele, aquela sibilante que ele tinha por ser de lá de cima da zona de Viseu. Mas muito mais gozo deu-me fazer o contraditório, como será bom de ver.
E porquê?
Porque eu sou
um amante da liberdade e da democracia, e dá sempre algum prazer arranjar
argumentos para destruir determinadas teses. E neste caso, não era muito
difícil. Portanto, conseguir ‘destrunfá-lo’, desarmá-lo, e provar por A mais B
que ele era mentiroso, aldrabão… Desde logo, tendo em conta o exemplo que lhe
dei, e muitos outros episódios. Deu-me, de facto, muito prazer. Enfim, estamos
a falar nisto e estão a aparecer-me algumas histórias e descobertas que eu fiz;
quer dizer, quem tenha lido a biografia do Franco Nogueira sabia. Eu não sabia
porque nunca a tinha lido e li-a de propósito para este trabalho. Mas descobrir
que Salazar tinha sido um poeta, nos seus primeiros tempos de professor, e
chegou até a publicar um livro de poesia. Eu dou alguns exemplos, que fui
também buscar ao Franco Nogueira…
Essa é uma
faceta pouco conhecida dele…
Pois é [risos].
E aquilo era tão mau [risos]. Ele era um escritor exímio, um grande prosador.
Aliás, António José Saraiva tem um texto num extinto jornal, se não estou em
erro, em que o elogia como um grande prosador da política portuguesa, talvez o
maior, dizia ele. E isso é inquestionável. Mas depois vamos ver aquela poesia,
e aquilo é uma coisa aflitiva, até. E desmascará-lo, colocar essa poesia aí, é
interessante. Porque ele teve o cuidado, quando começou a perceber que podia
vir a ter um futuro político – ele era um tipo inteligentíssimo, obviamente…
Estava inserido no meio católico, e começa por fazer o seminário, como é
sabido, e depois vai dar aulas para um colégio religioso em Viseu enquanto está
à espera de ter idade para tomar as ordens maiores. Depois acaba por não as
tomar, e vai para Coimbra para fazer o curso de Direito, e aí já está
convencido de que o seu futuro não é ser padre. Ele achava que poderia ser
muito mais útil à Igreja na vida política, do que propriamente na vida
eclesiástica. E não quer dizer que tenha sido só ele a autoconvencer-se; o
director do seminário e do colégio são pessoas com alguma influência na Igreja,
e encaminham-no nesse sentido.
Quando ele chega a Coimbra, leva cartas de referência desta gente toda e é inserido no meio católico de Coimbra, que também era um meio muito forte, sobretudo a Universidade e a Faculdade de Direito, onde ele vai estudar. Rapidamente se destaca, e cá está a vertente “manholas” a vir ao de cima mais uma vez. E veja este exemplo. No primeiro ano em que chega a Coimbra, não tem praticamente contactos nenhuns em na política. Eu recordo que, quando ele chega a Coimbra, estávamos no início da Primeira República, instaurada a 5 de Outubro de 1910, e ele começa as aulas em meados desse mês. Como sabemos, a República caracteriza-se por um sentimento anticlericalista do mais feroz que possamos imaginar. E todo aquele núcleo católico une-se em torno de um inimigo comum, que é a República. No primeiro ano, ele não faz grandes contactos, é sobretudo estudar e aplicar-se para que, no fim do ano, quando as notas fossem conhecidas, ele entrar naquele meio já ‘por cima’; ou seja, não como um soldado raso, mas já um ‘oficial de topo’. Porque ao aperceberem-se das notas e do potencial daquela figura, havia que o catapultar. E ele quando adere, já é reconhecido como alguém que pode vir a ter um futuro na vida política, em defesa da Igreja, para tentar repor o domínio da Igreja, que a existia até à implantação da República, em praticamente toda a sociedade. O papel de Salazar vem a ser este. E à medida que se vai destacando, vai sempre subindo na hierarquia do grupo católico de Coimbra; ao ponto de, já enquanto professor, a Igreja o convidar para abrir e encerrar sessões. Davam-lhe sempre o papel principal, e ele era um ‘mero’ professor de Direito. Portanto, a Igreja tem um papel fundamental na sua ascensão.
Foi o
calculismo de Salazar, como diz, aliado ao seu conhecimento do povo português,
que lhe permitiu ser um ditador bem-sucedido?
Sim, não tenho
dúvida absolutamente nenhuma. Eu já fiz essa referência relativamente ao
conhecimento do Homem e do povo português, particularmente. Porque ele usa, e
bem, o facto de termos vivido uma primeira República muito tumultuosa. Foram 16
anos de verdadeiro tumulto, com 40 e tal governos; não havia estabilidade, e
isto foi péssimo para a democracia e para a liberdade. Os republicanos não
souberam aproveitar a oportunidade que tiveram e desperdiçaram-na, e ele
aproveitou isso. De facto, ele é quem acaba por encabeçar esse movimento. A
astúcia dele passa por aí. Quando chama Estado Novo ao regime que criou em
1933, já é um bocadinho isso; ou seja, é acabar com o “estado velho” para
começar uma coisa nova. É o mesmo exemplo do que o Sidónio Pais tinha feito,
quando tomou o poder num golpe de Estado em 1917 e chamou ao seu regime
‘República Nova’. Esta ideia de começar de novo. E Salazar não escolheu a
palavra “República”, porque não o deixava muito confortável. Porque grande
parte dos apoiantes dele nem republicanos eram, eram monárquicos [risos]. De
facto, quem faz o 28 de Maio, que depois acaba por levá-lo ao poder, é uma
mescla, gente de variadíssimas tendências: monárquicos, fascistas, até
republicanos moderados havia. Portanto, ele procura não beliscar as
sensibilidades que lhe estão mais próximas, e de quem mais o apoia.
Por volta do 28
de Maio de 1926, ele vai escrevendo também para jornais católicos, vai fazendo
crítica particularmente à política económica e financeira, e vai-se tornando
também notado pelos escritos que vai produzindo. E há uma altura já em plena
ditadura, em que Portugal precisa desesperadamente de um empréstimo. E esse
empréstimo é negociado à exaustão, as exigências são muitas porque ninguém
confia na ditadura, nem na política económica que estava a ser seguida pelos
generais, e o empréstimo acaba por não chegar. Mas ao longo deste processo,
Salazar vai sempre criticando duramente o empréstimo. Quando ele é convidado
para ser Ministro das Finanças, a Igreja tem um papel importante a
catapultá-lo. Mas ele depois vai ter um outro apoio muito importante, que é o
Presidente da República, o general Óscar Carmona, que quando vê nele uma
solução, afasta os militares das Finanças, e mete Salazar como ministro das
Finanças. E quem disse que a pessoa ideal para ocupar o lugar era o Dr.
Oliveira Salazar, foi nem mais nem menos do que o Cardeal de Lisboa de então –
que ainda não era Manuel Gonçalves Cerejeira, que só vem mais tarde –, António
Belo. Mas quando Salazar começa a trabalhar, rapidamente se apercebe que o
empréstimo dava muito jeito. Ele tinha escrito vários artigos contra o
empréstimo, e para não ficar mal na fotografia, fala com o seu mais antigo e
fiel amigo, Mário Figueiredo; um verdadeiro nazi, como se veio a saber pela
altura da Segunda Guerra Mundial. Salazar incumbe-o de fazer um périplo pelas principais
capitais europeias, no sentido de conseguir o tal empréstimo. Mas tudo em
segredo. A verdade é que as coisas não correm bem, e o empréstimo acaba por não
vir na mesma. E era suposto que ninguém soubesse, mas alguém soube desse pedido
de empréstimo, e fez sair um artigo em Espanha, ao nível das elites. E soube-se
assim que Salazar tinha feito aquilo que tanto tinha condenado. E isto é mais
uma demonstração da sua forma de ser. Era um tipo que não olhava a meios para
atingir os fins, e que tudo fazia para salvaguardar a sua imagem – isso para
ele é que era o fundamental. A imagem do pobre, honesto, era sagrada.
Quando é que
acha que ele percebeu que podia mesmo ter um papel importante nos destinos do
país?
É um processo progressivo, que demora algum tempo, mas ele à medida que se vai envolvendo nos meandros políticos de Coimbra, tem um grande amigo que é também um dos grandes responsáveis pela sua inteligência e por aparecer como um hipotético Salvador da Pátria: o então padre Cerejeira. Mal ele acaba o curso de Direito, Cerejeira convida-o para ir para o antigo Convento dos Grilos – que os saudosistas continuam a chamar uma “república”. Mas esse Convento não tem nada a ver como uma república; era uma casa muito grande, cada um tinha o seu espaço, salas de estudo, e ali recebiam amigos e convidados, faziam reuniões do Movimento Católico… Portanto, aquilo era muito mais, e tinha mais condições do que qualquer república coimbrana. Salazar vai para lá por volta de 1915/16 e só sai em 1928. E à medida que se vai percebendo que poderia vir a ser alguém, o padre Cerejeira terá convencido Salazar a procurar o livro de poesia que ele tinha publicado com tanto amor e carinho, e que se chamava “Ais”… E ele recupera os livros todos que consegue, e destrói aquilo. Ao ponto de, quando Franco Nogueira faz o primeiro volume da biografia dele em 1977, ter andado à procura de um livro para ter um poema ou outro para decorar a biografia, e já não encontrou. Falou com velhos camaradas de Coimbra; um ou outro lembrava-se do livro, mas disseram-lhe que tinha desaparecido. E então, os poemas com que Franco Nogueira nos dá uma amostra das “capacidades poéticas” de Salazar, vai buscá-los aos jornais para onde ele tinha escrito alguns poemas. Enfim, este aspecto ilustra bem a importância que a preservação da imagem tinha para Salazar. Ele convenceu-se de que aquele livro poderia prejudicá-lo.
Não se
queria expor ao ridículo…
A última coisa
que ele quereria era isso!
Recomendaria
este livro a alguém que simpatize com Salazar?
Eu,
francamente, recomendaria este livro a muita gente, particularmente a quem nós
vamos chamando de ‘saudosistas’. Porque, de facto, de há uns anos a esta parte,
está a crescer uma onda de saudosismo, como se o regresso ao passado e a
emergência de uma figura do tipo de Salazar fosse a Salvadora da Pátria; como
dizem que ele foi quando entrou em 1928. Obviamente, este livro nunca pretendeu
ser um livro académico, é um livro de ficção. Embora eu não tenha gostado da
palavra “ficção”, que está na capa, e que foi uma exigência do departamento
comercial. Mas a verdade é que era preciso pôr ali qualquer coisa para que as
pessoas nas lojas soubessem onde arrumar o livro. Romance não era, ficção
histórica também não, e então ficou só ‘ficção’ debaixo do título. Mas nunca me
agradou.
Mas se tem
uma componente ficcional…
De ficção só
tem a estrutura, tudo o resto é História. Não consultei arquivos, mas fui
consultar o que está publicado, e tive o cuidado de ir buscar autores que foram
amigos dele e pessoas que colaboraram com ele, assim como pessoas que não
gostavam dele. E, portanto, além de serem muitas as fontes, são diversificadas
também a este nível. Respondendo à sua pergunta, o livro é recomendado a todos
porque de facto dá-nos uma imagem muito mais real do Salazar do que o mito que
foi criado. Daí que eu goste de dizer que o livro desconstrói o mito do
Salazar. De facto, é disso que se trata. E nos dias de hoje, este livro também
nasceu para fazer frente à tal onda de saudosismo que está instalada e que tem
vindo a crescer nos últimos tempos. Por isso, para quem quiser conhecer melhor
o Dr. Oliveira Salazar – é a minha opinião e eu sou suspeito porque sou o autor
–, é um livro altamente recomendado.
https://paginaum.pt/2024/01/08/nos-ultimos-dois-anos-de-vida-salazar-viveu-num-mundo-de-fantasia/
segunda-feira, 27 de julho de 2020
Diana Andringa e a morte de Oliveira Salazar
sábado, 31 de agosto de 2019
Ricardo Araújo Pereira - Museu de Salazar : uma excelente ideia
A autarquia socialista de Santa Comba Dão deseja criar um Museu de Salazar. A iniciativa revela grandeza, porque Salazar não desejaria criar uma autarquia socialista em Santa Comba Dão.
quinta-feira, 27 de julho de 2017
Fernando Pessoa e Salazar
António de Oliveira Salazar.
Três nomes em sequência regular...
António é António.
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está bem.
O que não faz sentido
É o sentido que tudo isto tem.
Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
O sal,
E sob o céu
Pica só azar, é natural.
Oh, c'os diabos!
Parece que já choveu...
Coitadinho
do tiraninho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho...
Bebe a verdade
E a liberdade.
E com tal agrado
Que já começam
A escassear no mercado.
Coitadinho
Do tiraninho!
O meu vizinho
Está na Guiné
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé.
Mas ninguém sabe porquê.
Mas enfim é
Certo e certeiro
Que isto consola
E nos dá fé.
Que o coitadinho
Do tiraninho
Não bebe vinho,
Nem até
Café.


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