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quinta-feira, 14 de maio de 2026

Marta Pinho Alves - “Estado Velho”




* Marta Pinho Alves

O filme re­alça a de­cre­pi­tude e a de­for­mi­dade do fas­cismo por­tu­guês

Fa­lamos neste texto do mais re­cente filme de João Bo­telho, in­ti­tu­lado O Velho Sa­lazar. O ci­ne­asta tem mos­trado nos úl­timos anos uma abun­dante pro­dução ci­ne­ma­to­grá­fica. Quase em si­mul­tâneo a esta obra es­treou outra ainda não su­fi­ci­en­te­mente co­nhe­cida e di­fun­dida, As Me­ninas Exem­plares, uma adap­tação muito livre do livro ho­mó­nimo de Con­dessa de Ségur, com uma ima­gé­tica for­te­mente ins­pi­rada no tra­balho da ar­tista plás­tica Paula Rego. No mo­mento ac­tual, entre as es­treias dos dois antes men­ci­o­nados, filmou já outro filme (em fase de pós-pro­dução), O Rei Lear, de Wil­liam Sha­kes­peare, ba­seado na tra­dução para por­tu­guês de Álvaro Cu­nhal, e en­contra-se a pre­parar o do­cu­men­tário Dan­cing Pe­ople Are Never Wrong.

Neste afã cri­ador, surge então um filme que se de­dica, mais do que à fi­gura do di­tador por­tu­guês, a pensar o que foi o Es­tado fas­cista que vi­gorou du­rante 48 anos e qual o seu le­gado. Longe de poder ser en­ten­dido como um bi­opic, ati­tude ci­ne­má­tica que o re­a­li­zador de­clara des­prezar, O Velho Sa­lazar é um exer­cício de ca­ri­ca­tura e des­cons­trução de um con­junto de nar­ra­tivas que não só per­duram e pa­recem re­cru­descer no mo­mento pre­sente face a dis­cursos nos­tál­gicos e de de­tur­pação do real. Bo­telho es­cla­rece que há uma pre­pa­ração do­cu­mental para as in­for­ma­ções que nos apre­senta no filme, todas estas fac­tuais e de­mons­tradas, mas que não obe­dece à mesma pre­o­cu­pação quando in­tervêm as falas de Sa­lazar. Essa per­so­nagem, que é apenas vista através de al­gumas fo­to­gra­fias co­nhe­cidas, não é cor­po­ri­zada em ne­nhum actor, ex­pressa-se oral­mente através de mo­nó­logos cri­ados por fer­ra­mentas de in­te­li­gência ar­ti­fi­cial, pre­ten­dendo assim in­va­lidar a sua ex­pressão, não fazer eco da mesma, mas antes evi­den­ciar os pa­ra­doxos entre o que afir­mava e a sua acção, assim como o seu alhe­a­mento face à re­a­li­dade e a sua na­tu­reza ca­duca e amoral (apesar da cons­tante evo­cação de uma mo­ra­li­dade vi­gente, en­ten­dida como ori­en­ta­dora da con­duta do­mi­nante).

Não obs­tante o nome do di­tador que compõe o tí­tulo e as per­so­na­gens que surgem no filme lhe es­tarem as­so­ci­adas quer na es­fera ín­tima (a go­ver­nanta?, a jovem amante fran­cesa, o ca­lista, o en­fer­meiro), quer na es­fera po­lí­tica (a go­ver­nanta?, o car­deal, o mi­nistro da pro­pa­ganda), não é sobre a pessoa que se quer falar, mas sobre um re­gime per­so­ni­fi­cado na­quela fi­gura. A forma como se ad­jec­tiva o su­posto pro­ta­go­nista – velho – as­si­nala fun­da­men­tal­mente a de­cre­pi­tude e a de­for­mi­dade de um sis­tema po­lí­tico mar­cado pelo mal, pela pro­funda vi­o­lência e re­ti­rada de dig­ni­dade ao povo tra­ba­lhador, e pelo apro­fun­da­mento das de­si­gual­dades entre classes, no que diz res­peito aos di­reitos mais ele­men­tares e à li­ber­dade, im­postos não apenas aos por­tu­gueses, mas também a todas as na­ções co­lo­ni­zadas, em nome de uma moral pe­dante e im­pi­e­dosa e de uma au­to­ri­dade pe­na­li­zante e pa­ra­li­sa­dora. De “Novo”, o Es­tado por­tu­guês de então tinha apenas a sua de­sig­nação, com pro­pó­sitos pro­pa­gan­dís­ticos. “Velho”, como aqui se de­signa o di­tador, é a me­lhor forma de com­pre­ender este re­gime e de o res­sig­ni­ficar.

Tratar um tema como este com re­curso ao humor, ao exa­gero, à am­pli­fi­cação e à ca­ri­ca­tura, é talvez es­tra­tégia que possa deixar al­guns des­con­for­tá­veis. Con­tudo, ne­nhuma das per­so­na­gens te­ne­brosas que des­filam no ecrã são hu­ma­ni­zadas ou re­a­bi­li­tadas, antes são ex­postas ao ri­dí­culo, ob­ser­vadas à lupa nos seus des­vios, ex­cen­tri­ci­dades e ali­e­nação.

A sá­tira tem sido um bom ins­tru­mento de aná­lise de si­tu­a­ções que dei­xaram marcas pro­fundas nas suas ví­timas e com as quais é di­fícil lidar. Du­rante o breve pe­ríodo do Ci­nema de Abril de que fa­lámos em texto an­te­rior, a Cé­lula de Ci­nema do Par­tido Co­mu­nista Por­tu­guês pro­duziu, em 1977, uma curta-me­tragem as­si­na­lável in­ti­tu­lada As Des­ven­turas do Drá­cula Von Bar­reto nas Terras da Re­forma Agrária, que tra­tava de forma jo­cosa, em­bora com um claro po­si­ci­o­na­mento po­lí­tico, o tema re­fe­rido no tí­tulo.

João Bo­telho cita o di­tador no início do filme quando este afirma «Hão-de dizer muito mal de mim». O ci­ne­asta con­firma a in­tenção do seu filme, afir­mando «Assim será».

https://www.avante.pt/pt/2737/argumentos/183651/%E2%80%9CEstado-Velho%E2%80%9D.htm

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Carlos Maria Bobone - Salazar, o prosador desconhecido



Salazar, o prosador desconhecido

arlos Maria Bobone

Texto

 Carlos Maria Bobone foi à procura do que há de literário nos "Discursos" recentemente reeditados. Encontrou referências que vão do Padre António Vieira a Alexandre Herculano.

11 mar. 2017, 15:526

Seria o único a resistir a tão encomiástico apodo da parte de António José Saraiva. “a mais perfeita e cativante prosa doutrinária que existe em língua portuguesa”, qualifica o Historiador. Salazar acima do estilo cuidado de Jerónimo Osório? Lido com maior prazer do que a sanha ideológica de José Agostinho de Macedo ou de Frei Fortunato de S. Boaventura? Estávamos em 1982, já Saraiva tinha deposto a casaca vermelha e adoptado a defesa do Salazarismo, pelo que o elogio poderia ser apenas o excesso de um entusiasmo político.

Só isso explica que, mesmo com a canonização do, já não sacerdote, mas autêntico Cardeal da crítica literária, a prosa de Salazar continue sem ser tida nem achada nos altares das letras. Estudos literários há poucos: um de Manuel Anselmo, outro de António Barahona e talvez mais um ou dois prefácios que tentem encabar uma leitura sistemática no ofício laudatório. E dado que, nos casos citados (não excluído António José Saraiva), junta-se à admiração literária um apreço pessoal e político, talvez o público tenha tomado as loas por juízos inquinados.

Das barricadas opostas, nem tugido nem mugido: nunca a obra de Salazar vem referida, seja para um louvor, seja para uma condenação, na sua perspectiva literária. É compreensível: para os Historiadores há tanto rincão fértil para estudar o Salazarismo que pegar nos seus aspectos literários pode parecer tão ridículo quanto, diante de um banquete, comer apenas o pão seco. Para os literatos, a tomada do monopólio literário pela poesia e pela ficção afasta a prosa doutrinária dos seus interesses. E para o resto dos nossos contemporâneos o hábito dos discursos políticos dessorados, tantas vezes lavrados por encomenda, sempre à procura do mais inofensivo lugar-comum, sempre apostados na formulação vaga que não ofenda eleitor nenhum, para quem está habituado a estes discursos quase burocráticos, a leitura de um discurso político é tão prazenteira quanto a leitura do diário da República.


A capa da reedição de “Discursos e Notas Políticas; 1928 a 1966; Oliveira Salazar” (Coimbra Editores)

Enquanto em França sempre foi ponto de honra um certo cuidado estilístico na forma de um governante se dirigir ao País, enquanto Léon Blum, De Gaulle ou Mitterrand engolfavam o papel dos discursos nas suas pretensões literárias, em Portugal o discurso saiu do âmbito da literatura para entrar no da publicidade. Daí que, se não quisermos aderir a teses conspiratórias contra o Estado Novo, possamos considerar normal que a obra de Salazar não tenha a atenção literária que merece.

Ora, a verdade é que houve, de facto, o cuidado literário nos Discursos, que justifica a atenção. Nem as suas são as palavras de um repentista que quadrasse melhor em anedotários do que em Histórias da Literatura, à Churchill, nem são as frases lacónicas de um burocrata em que por acaso se acharão certas feitiçarias involuntárias de bom estilo. É o próprio Salazar que lhes chama, no prefácio ao primeiro volume dos Discursos, “pedaços de prosa que foram ditos”, como que a mostrar que as suas intervenções são, antes de mais, para ser lidas – “pedaços de prosa”. Se a isto juntarmos o misterioso Ais, livro de poemas que terá publicado na sua mocidade, teremos confirmada, mesmo que exangue, uma veia literária em Salazar.

“Eram versos, mas não eram poesia”

Uma das mais cuidadas críticas literárias à sua obra parte, aliás, da sua curta vida de poeta. Na biografia de Salazar que escreveu, Franco Nogueira ressuscita por momentos o crítico literário que fora na mocidade e avalia os poemas que o jovem António, ainda seminarista, ia ensaiando. O veredicto é implacável: “candura literária, pobreza poética, monotonia de temas, indigência de imaginação, ingenuidade, romantismo imaturo”… Franco Nogueira assesta mesmo – “eram versos: mas não eram poesia”. Mesmo fora da poesia a sentença não é mais complacente: “estilo pessoal incaracterístico, que se procura sem se encontrar”, diz o Embaixador sobre uma palestra proferida num liceu. Ora, mesmo em tão larga gama de fraquezas é já possível encontrar certas características mais pertinazes que acompanharão (polidas, é claro) a vida do autor dos Discursos.

Tem, é certo, um gosto heroico e a mesma admiração dos Integralistas pela forma como os Românticos reanimaram os tesouros pré-modernos. Mas herda também a estrutura frásica de Herculano, as frases longas de complexos contornos gramaticais que já não eram e não mais voltaram a ser moda.

Do Romantismo não aproveita apenas os temas, o elogio da organicidade medieval, os episódios que Herculano fixou fundamentais da nossa História, os heróis e a exaltação de nobres sentimentos empenhados na construção da pátria. Tem, é certo, um gosto heroico e a mesma admiração dos Integralistas pela forma como os Românticos reanimaram os tesouros pré-modernos. Mas herda também a estrutura frásica de Herculano, as frases longas de complexos contornos gramaticais que já não eram e não mais voltaram a ser moda. “A desproporção das forças em presença – 7.000 portugueses para mais de 30.000 inimigos — , o fulminante da vitória, as pesadíssimas perdas infligidas aos Castelhanos, a fuga do rei de Castela, a maneira como foi conduzida a batalha sob o aspecto puramente militar por esse extraordinário generalíssimo, assombroso de misticismo religioso e de génio guerreiro, que se chamou D. Nun’Álvares Pereira, fazem de Aljubarrota o ponto central da longa guerra havida com Castela e a vitória mais representativa do esforço dos nossos avós pela independência de Portugal.”, diz no discurso “Aljubarrota festa da mocidade”.

Numa frase, longa, claro, descreve a dificuldade da batalha, explica que consequências exacerbaram o seu simbolismo, troca o sujeito para um Nun’Álvares rapidamente biografado e volta ao primeiro para explicar a importância da batalha. A oração verbal (“fazem de Aljubarrota…”) surge no fim para, mesmo com a quantidade de apostos ao sujeito, conseguir manter o suspense. Se já soubéssemos que o elo de ligação entre a ladainha bélica estava na importância que dão a Aljubarrota, podíamos dedicar-nos independentes a elencar tudo o que julgamos essencial para fazer desta a verdadeira batalha da independência.

É o estilo narrativo dos românticos, que Salazar mescla com asserções curtas mais habituais nos discursos: “Compenetrados do valor, da necessidade na vida de uma espiritualidade superior, sem agravo das convicções pessoais, da indiferença ou da incredulidade sinceras, temos respeitado a consciência dos crentes e consolidado a paz religiosa. Não discutimos Deus”. É o próprio Franco Nogueira que atesta a influência. Em Coimbra, “Continuava fiel aos clássicos portugueses, ao Padre Manuel Bernardes, a Alexandre Herculano”. E é nestas leituras, recolhidas por Franco Nogueira, que podemos encontrar mais uma pista para o seu estilo.

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Salazar a discursar em 1938

O biógrafo chamou “candura literária” àquilo que no Estado Novo se tornou uma espécie de vanguarda. Depois da moda do romance científico, das ilusões positivas em que Eça ou Teixeira de Queirós traduziram o romance de Zola, a literatura como que ressacou das suas ingénuas pretensões objectivas. Deixou de ser cozinhada em godés, descreu do futuro mirífico das Histórias Naturais e, farta das maravilhas da Civilização, agarrou-se aos restos de um mundo perdido. Não é preciso lembrar A Cidade e as Serras, o encanto de José Régio com a religiosidade popular ou Pessoa com o “Menino de sua Mãe”.

Estilo de época

A ruralidade, o povo e a infância, coisas exóticas num mundo cada vez mais urbano e aburguesado (e, demasiado óbvio mas para precaver de espertinhos, interpretado por adultos). Esta franja literária, porém, complexifica aquilo que eram já os temas base do romantismo. É que se o Romantismo também toma o povo como pretexto, não o toma como forma. A volúpia erudita de um Garrett ou de um Camilo contrastam com a forma de vida popular. Aquilo que Pessoa ou Régio já não têm e querem – a simplicidade do povo ou da infância – manifesta-se também na forma. Daí as Quadras ao gosto popular, daí, em parte, o “lirismo simples de António Correia de Oliveira” que Salazar admirava. O paternalismo brando dos discursos, o tom baixo, o elogio das virtudes quotidianas, tudo isto é já não “candura literária” mas um estilo de época.

Claro que Salazar também quer fugir à loquela tribunícia da Primeira República, adaptar o tom dos discursos à serenidade que quer ver no país, contrastar a sua com a prosa histriónica dos jornais da época; mas a forma ultrapassa a política e tem algumas das preocupações fundamentais da literatura.

A singeleza quadra com a personalidade, a estrutura dos discursos quadra com o próprio veículo, para obedecer à tese de Truman Capote de que a literatura é encontrar o tom adequado àquilo que se quer dizer. Salazar, nitidamente, encontrou-o: embora doutrinários, os discursos não têm um único conector lógico (logo, então, por conseguinte…) nem um raciocínio completo. É obviamente mais difícil seguir um raciocínio ouvido do que lido, pelo que a simplicidade – que melhor se diria clareza, já que a gramática é erudita e o vocabulário bastante rico – também se manifesta aqui. Manifesta-se nos temas, nas descrições e na estrutura, para se manifestarem também na personalidade. A “candura literária” já não é, nem inteiramente cândida, nem inteiramente falsa. A simplicidade, mais do que um engano, é um objectivo. Tanto em Salazar, como nos escritores considerados do seu tempo.

Mesmo nos tempos de maior euforia revolucionária, mesmo na crispação dos tempos de guerra, Salazar é bastante lacónico nos seus termos. Nunca faz comparações, não usa metáforas, tem um estilo absolutamente descritivo: empenha-se em caracterizar com precisão o estado das finanças, com as palavras mais certas e mais sóbrias, sem tomar de uns assuntos imagens que se pudessem aproveitar noutros.

Ora, os escritores do seu tempo, diz-nos Franco Nogueira, também eram lidos por Salazar na sua juventude. Não apenas ou já referido Correia de Oliveira ou Malheiro Dias – a literatura francesa, de Comte, Le Play ou Maurras (os primeiros mais antigos mas muito em voga na época) também terá corrigido a “indigência de imaginação” do Presidente do Conselho. Não que Salazar tenha alargado o seu campo de referências a misturas surrealizantes ou alegorias rebuscadas; mas aquilo que poderia de facto ser uma insuficiência literária – a falta de colorido – tornou-se um ex-libris da sua pena.

Mesmo nos tempos de maior euforia revolucionária, mesmo na crispação dos tempos de guerra, Salazar é bastante lacónico nos seus termos. Nunca faz comparações, não usa metáforas, tem um estilo absolutamente descritivo: empenha-se em caracterizar com precisão o estado das finanças, com as palavras mais certas e mais sóbrias, sem tomar de uns assuntos imagens que se pudessem aproveitar noutros. Esta “indigência”, porém, marca com o mesmo opróbrio o estilo de outros grandes prosadores. A falta de comparações é já uma reacção da Arcádia ao Barroco; mas o que José Agostinho e Bocage compensavam com a escolha de vocabulário erudito, grande elasticidade de temas e uma verve apaixonada está vedado a Salazar.

Por feitio não é apaixonado, por ofício trata de temas circunscritos e já estabelecidos. Salazar, tanto nas ideias como no estilo, aproxima-se assim de Maurras; esburgada a agressividade do Mestre da Action Française, tem a sua clareza e a sua aposta em fórmulas vigorosas e a dinâmica da prosa dada pela variedade verbal. É, de facto, nas palavras de acção que o vocabulário de Salazar mais foge do comum, na dinâmica verbal que há mais frescura. A riqueza verbal, aliás, característica do estilo clássico que Maurras tanto exalçava, traz à prosa a limpidez que não a torna imediatamente identificável como literária.

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Salazar com António Ferro

Como se fossem sermões

É por não abundarem as repetições consentidas, os jogos de palavras e as referências discretas a passagens anteriores que a prosa é limpa. Não tem aliterações, tem apenas uma variedade discreta que lhe dá grande parte da elegância. Não será fácil extrair exemplos de uma característica que é própria de conjunto, mas as frases “A fraqueza dos regimes liberais está essencialmente em que, por imposição da sua própria doutrina – porque também eles a têm – se vêem forçados em muitas circunstâncias a parecer que não a possuem. Sempre para se sustentar têm de se contradizer” são um eco daquilo que ensejávamos demonstrar. Para um só tema – a existência de doutrinas liberais – sete verbos diferentes em duas frases. A mostrar que Maurras não é mestre apenas nas ideias de Autoridade e Hierarquia e que só não o é na violência do humor.

Ora, a serenidade tão característica de Salazar poderia fazer desconfiar de uma tese apresentada por António José Saraiva no texto de que tirámos a primeira destas linhas. Diz Saraiva que Salazar, educado na escola do século de Pascal, na prosa seiscentista, era grande leitor e seguidor do Padre António Vieira. Pela sua formação eclesiástica, pelo tom brando tão ao género do Pão partido aos pequenitos, pelo uso constante do superlativo absoluto sintético de inspiração latina, seria normal associar Salazar a Manuel Bernardes, Frei Luís de Sousa e toda essa gama de frades prosadores – Manuel Anselmo fá-lo e Barahona também. Agora, ao Padre António Vieira? Ao grande exibicionista das possibilidades da língua, ao verdadeiro barroco estilístico, ajoujado de jogos de palavras e malabarismos gramaticais? É certo que Salazar não usa os atavios do Jesuíta, mas o olho arguto de António José Saraiva não se engana: o ditador deve-lhe alguma coisa na estrutura da prosa.

A coabitação de contrários – “Tão frágil que a brisa ameaçava tombá-lo, tão forte que uma revolução o não podia subverte” (a propósito de Carmona) – o manejar simultâneo de duas ideias diferentes, tantas vezes em confronto, é tão característico dos sermões de Vieira como dos Discursos de Salazar. Vieira terá, é certo, a imaginação e a fabulosa capacidade de, a partir de uma doutrina conhecida, encontrar formas originais e divertidas de a transmitir. Salazar não terá a mesma destreza, mas também não a procura. É tão sóbrio quanto o outro é alegre, tão contido quanto o outro é exuberante.

Não podemos, porém, dizer que à sua elegância modesta falta originalidade. Entre a abstracção labiríntica dos tratadistas morais e a chã narrativa dos Historiadores, entre o Leal Conselheiro e a História de Herculano, Salazar conseguiu ter um discurso que fala das virtudes com o exemplo do país e em que eleva o país à aspiração da virtude. E isso poucos, mesmo entre os grandes doutrinadores, poucos conseguiram, menos ainda com tamanho donaire. Se, como diz Saraiva, será “o melhor”, não sabemos. Mas é com certeza um grande prosador. Estranhamente, talvez entre todos, e nesta matéria, o mais ilustre desconhecido.

Carlos Maria Bobone é licenciado em Filosofia. Colabora no site Velho Critério.

https://observador.pt/especiais/salazar-o-prosador-desconhecido/


Maria Afonso Peixoto entrevista Carlos Ademar autor de ‘Autobiografia do Doutor Oliveira Salazar’


 


CARLOS ADEMAR, HISTORIADOR, ESCRITOR E ANTIGO INSPECTOR DA PJ

‘Nos últimos dois anos de vida, Salazar viveu num mundo de fantasia’

* Maria Afonso Peixoto // Janeiro 8, 2024

Como seria a autobiografia de Salazar, se existisse? Não sabemos, e apenas podemos imaginar. Foi o que fez Carlos Ademar, historiador, escritor e antigo inspector da Polícia Judiciária, que ‘encarnou’ o antigo chefe do Estado Novo e escreveu um livro de memórias na primeira pessoa. Mas com um twist. Nesta Autobiografia do doutor Oliveira Salazar, encontramos o ditador num estado vulnerável, perto do fim, a confrontar-se com o passado e com os seus fantasmas – que são muitos, e implacáveis. O PÁGINA UM falou com o autor sobre esta obra que alia factos com ficção, e que, apesar do título, tem um objectivo bem delineado, muito além do seu cariz biográfico: “destruir” o mito por trás do homem.


Sei que a ideia para este livro surgiu da Autobiografia do General Franco, de Manuel Vázquez Montalbán, lançada há uns bons anos. Durante este tempo, foi amadurecendo o “projecto”?

Sim; na verdade, o ‘clique’, digamos assim, foi-me dado pelo Montalbán, quando li essa obra, já para aí há uns 15 anos. Como é natural, eu não queria replicar totalmente a sua ideia. Aquilo que retirei foi confrontar o nosso “ditador-mor”, como eu lhe costumo chamar. E de facto tem razão, porque ao longo dos anos eu andei à procura de… também andei à procura de tempo, que não tinha [risos], porque é uma obra muito exigente em termos de pesquisa. E, portanto, não era coisa que se fizesse em três ou quatro meses. Precisava de muito tempo, e só agora há dois anos, quando mudei de estatuto profissional, é que passei à disponibilidade [risos].  Ainda não estou reformado, mas estou a caminho da reforma.

Como inspector da Polícia Judiciária?

Sim. Eu estava na Escola, no agora Instituto de Polícia Judiciária e Ciências Criminais. E dos vários projectos que tinha em mente, agarrei-me a este porque era o mais apaixonante. Foi aquele que me seduziu mais, não obstante o trabalho que teria pela frente. Ao longo dos anos, fui burilando a ideia, para arranjar uma forma de a trabalhar, e não replicar exactamente aquilo que o Montalbán fez. Ele pôs o general Franco a fazer o discurso oficial do regime, e eu também o fiz relativamente ao meu “Salazar A”. Depois, o Montalbán faz o contraditório do discurso. E eu encontrei aqui uma fórmula que acho que não me correu mal, modéstia à parte, porque me agarrei a um facto da vida real do Salazar, que tem a ver com aquele período de 1969/70. Ele fica doente em 1969, e está no hospital durante largos meses, e em Fevereiro regressa a São Bento, já não como Presidente do Conselho. Mas pensa que ainda é, e morre depois em Julho de 1970. Aquele é um período em que ele anda entre a lucidez e a perturbação. Tem momentos de lucidez, que lhe permitem dar entrevistas, designadamente a que deu ao jornalista do L’Aurore, em Agosto de 1969, e preparar com o seu próprio punho um pequeno discurso para dirigir aos portugueses por ocasião do seu 80º aniversário. E eu explorei esta fase da sua vida, colocando-o a fazer o discurso oficial quando está lúcido, e o contraditório quando está perturbado. Portanto, podemos dizer que temos uma autobiografia na verdadeira acepção da palavra, ainda que sempre com aspas, obviamente [risos]. Porque apesar de ser ficção, é sempre a personagem, Salazar, a escrever em ambos os discursos.

E preferiu fazer esta autobiografia ficcional, em vez de uma biografia, como já fez, por exemplo, com o ‘capitão de Abril’ Vítor Alves?

Sim. Biografias, já há várias de Salazar. Aliás, saiu agora uma recentemente, da qual soube já depois de publicar o meu livro. Mas há muitas, e há uma monumental que me serviu, de facto, de base de trabalho. Foi feita por alguém insuspeito, no sentido em que era um incondicional apoiante de Oliveira Salazar, e foi seu ministro dos Negócios Estrangeiros na década de 1960; estou a falar de Franco Nogueira. Franco Nogueira tem uma obra monumental de seis volumes grossos só sobre a vida de Salazar. E apesar de ser um seu admirador e da sua obra, não se coibiu de contar determinados episódios que não abonam muito a seu favor. Eu usei sobretudo os dois primeiros volumes da obra, que se reportam às primeiras décadas de vida, e particularmente o primeiro volume, que vai até ao momento em que ele chega a Ministro das Finanças, e não há assim tanta coisa escrita sobre esse período. Esse primeiro volume foi muito importante para encontrar determinadas histórias e episódios que me foram muito úteis para fazer o próprio contraditório; para contrariar o discurso social de Oliveira Salazar.

Nesse ‘contraditório’, Salazar é muito duro consigo próprio; como se se achasse uma fraude absoluta, desde a sua aparente modéstia às origens humildes. Para construir este monólogo interno, embora se trate de ficção, serviu-se de alguns factos? Há motivos para crer que ele se sentia assim?

Nós, obviamente, nunca saberemos, porque ele não deixou memórias. Deixou os seus discursos; mas relativamente a essa questão, nunca saberemos. Agora, do ponto de vista da pessoa interessada por este período e por esta personagem, pelo seu tempo e por aquilo que fez e não fez, penso que não é completamente descabido pensar que neste período, particularmente em 1969/70, em que ele estava muito abandonado…  Ele, de facto, nos últimos dois anos de vida, viveu num mundo de fantasia. Havia ministros antigos dele que iam a São Bento pedir autorização para fazer uma viagem a Londres, por exemplo. Esta é uma história contada pelo Joaquim Vieira, se não estou em erro, no livro sobre a governanta de Salazar, a dona Maria. Salazar não diz nada, está naqueles momentos em que está em baixo, e é a dona Maria que se aproxima dele, lhe segreda algo ao ouvido, e depois diz ao ministro que está autorizado a ir a Londres. E ele está sujeito a isto.  Digamos que não ‘enobrece’ muito uma pessoa chegar ao fim de vida e passar por estas situações.  

Mas relativamente ao que me perguntou, eu não tenho dúvidas de que ele próprio, neste isolamento e solidão, se tenha debatido com determinadas coisas que fez ou que não fez. Sobre o facto de ele ser dissimulado, isso não há dúvida absolutamente nenhuma, e basta dar-lhe o exemplo do assassinato de Humberto Delgado. O livro do Fernando Dacosta, Máscaras de Salazar, fala neste episódio, e depois há o Joaquim Vieira, no livro sobre a Micas, que era uma das raparigas que foi viver lá para casa e manteve uma relação de proximidade com Salazar, que conta a mesma história. Portanto, digamos que há várias fontes que dão a mesma informação.

Em que caso, por exemplo, isso se observa?

No caso do assassinato de Humberto Delgado, há um telefonema que Salazar recebe na madrugada, pelas 2 hora ou 3 horas. Ninguém telefonava para São Bento a essa hora. E é a dona Maria que vai atender, e quem estava do outro lado era o Jorge Silva Pais, o director da PIDE. E ele diz que precisa de falar urgentemente com o senhor Presidente do Conselho. Entretanto, a dona Maria chama o doutor Salazar, e uma hora depois estão os dois sentados no gabinete a conversar sobre o que se terá passado naquele dia; coisa tão grave que levou, primeiro ao telefonema, e depois à viagem do Silva Pais a São Bento, e fez levantar Salazar e vestir a sua farpela, porque o recebeu de fato e gravata àquelas horas da madrugada. O que é certo é que Salazar ordena silêncio total sobre o assunto; não se fala nisso, acabou, não sabemos de nada. Entretanto, cerca de um mês e meio depois, os corpos do General Humberto Delgado e da sua secretária aparecem em Espanha e são identificados. E Salazar faz um discurso na televisão dirigido à Nação, dizendo que não sabe nada, e que a ‘nós’ não nos interessava a morte dele; a outros, sim, poderia interessar, mas ‘nós’ não sabemos nada. Ou seja, sobre o ser dissimulado que ele era, não há absoluta dúvida. Sempre foi assim. Aliás, a alcunha que o ‘Salazar B’ lhe aplica, muitas vezes, no livro, é o ‘Manholas’, que era a alcunha do pai dele, António ‘Feitor’. Feitor, porque era feitor da família mais rica entre Coimbra e Viseu, os Perestrelo. Mas ele, além de feitor, também era comerciante, e vendia propriedades num bairro que estava a nascer à volta da estação de comboios da CP de Santa Comba. Comprava e vendia terrenos, e a alcunha de Manholas vem daí.  E depois, penso que é o Henrique Galvão que lhe adapta, e chama a Salazar o ‘Manholas filho’. E eu uso muito, porque de facto, se alguma coisa o caracteriza é isto. Era um ser muito dissimulado, calculista. Conhecia e sabia ler muito bem – enfim, mérito dele – os homens, e sabia muito bem o que fazer e o que não dizer. A gestão dos silêncios, tudo isto ele fazia muito bem, sempre com o objectivo de levar a água ao seu moinho.

Como foi o exercício de se colocar na ‘cabeça’ de Salazar?

A parte menos agradável foi fazer o discurso oficial. Mas até isso me deu algum gozo. O discurso oficial é baseado, naturalmente, nos seus discursos, ou de pessoas que estavam muito próximas; no fundo, eram as ideias defendidas e aplicadas pelo Estado Novo. Mas, sobretudo quando estava a rever texto, deu-me algum gozo porque quase que estava a ouvir a voz dele, aquela sibilante que ele tinha por ser de lá de cima da zona de Viseu. Mas muito mais gozo deu-me fazer o contraditório, como será bom de ver.

E porquê?

Porque eu sou um amante da liberdade e da democracia, e dá sempre algum prazer arranjar argumentos para destruir determinadas teses. E neste caso, não era muito difícil. Portanto, conseguir ‘destrunfá-lo’, desarmá-lo, e provar por A mais B que ele era mentiroso, aldrabão… Desde logo, tendo em conta o exemplo que lhe dei, e muitos outros episódios. Deu-me, de facto, muito prazer. Enfim, estamos a falar nisto e estão a aparecer-me algumas histórias e descobertas que eu fiz; quer dizer, quem tenha lido a biografia do Franco Nogueira sabia. Eu não sabia porque nunca a tinha lido e li-a de propósito para este trabalho. Mas descobrir que Salazar tinha sido um poeta, nos seus primeiros tempos de professor, e chegou até a publicar um livro de poesia. Eu dou alguns exemplos, que fui também buscar ao Franco Nogueira…

Essa é uma faceta pouco conhecida dele…

Pois é [risos]. E aquilo era tão mau [risos]. Ele era um escritor exímio, um grande prosador. Aliás, António José Saraiva tem um texto num extinto jornal, se não estou em erro, em que o elogia como um grande prosador da política portuguesa, talvez o maior, dizia ele. E isso é inquestionável. Mas depois vamos ver aquela poesia, e aquilo é uma coisa aflitiva, até. E desmascará-lo, colocar essa poesia aí, é interessante. Porque ele teve o cuidado, quando começou a perceber que podia vir a ter um futuro político – ele era um tipo inteligentíssimo, obviamente… Estava inserido no meio católico, e começa por fazer o seminário, como é sabido, e depois vai dar aulas para um colégio religioso em Viseu enquanto está à espera de ter idade para tomar as ordens maiores. Depois acaba por não as tomar, e vai para Coimbra para fazer o curso de Direito, e aí já está convencido de que o seu futuro não é ser padre. Ele achava que poderia ser muito mais útil à Igreja na vida política, do que propriamente na vida eclesiástica. E não quer dizer que tenha sido só ele a autoconvencer-se; o director do seminário e do colégio são pessoas com alguma influência na Igreja, e encaminham-no nesse sentido.

Quando ele chega a Coimbra, leva cartas de referência desta gente toda e é inserido no meio católico de Coimbra, que também era um meio muito forte, sobretudo a Universidade e a Faculdade de Direito, onde ele vai estudar. Rapidamente se destaca, e cá está a vertente “manholas” a vir ao de cima mais uma vez. E veja este exemplo. No primeiro ano em que chega a Coimbra, não tem praticamente contactos nenhuns em na política. Eu recordo que, quando ele chega a Coimbra, estávamos no início da Primeira República, instaurada a 5 de Outubro de 1910, e ele começa as aulas em meados desse mês. Como sabemos, a República caracteriza-se por um sentimento anticlericalista do mais feroz que possamos imaginar. E todo aquele núcleo católico une-se em torno de um inimigo comum, que é a República. No primeiro ano, ele não faz grandes contactos, é sobretudo estudar e aplicar-se para que, no fim do ano, quando as notas fossem conhecidas, ele entrar naquele meio já ‘por cima’; ou seja, não como um soldado raso, mas já um ‘oficial de topo’. Porque ao aperceberem-se das notas e do potencial daquela figura, havia que o catapultar. E ele quando adere, já é reconhecido como alguém que pode vir a ter um futuro na vida política, em defesa da Igreja, para tentar repor o domínio da Igreja, que a existia até à implantação da República, em praticamente toda a sociedade. O papel de Salazar vem a ser este. E à medida que se vai destacando, vai sempre subindo na hierarquia do grupo católico de Coimbra; ao ponto de, já enquanto professor, a Igreja o convidar para abrir e encerrar sessões. Davam-lhe sempre o papel principal, e ele era um ‘mero’ professor de Direito. Portanto, a Igreja tem um papel fundamental na sua ascensão.

Foi o calculismo de Salazar, como diz, aliado ao seu conhecimento do povo português, que lhe permitiu ser um ditador bem-sucedido?

Sim, não tenho dúvida absolutamente nenhuma. Eu já fiz essa referência relativamente ao conhecimento do Homem e do povo português, particularmente. Porque ele usa, e bem, o facto de termos vivido uma primeira República muito tumultuosa. Foram 16 anos de verdadeiro tumulto, com 40 e tal governos; não havia estabilidade, e isto foi péssimo para a democracia e para a liberdade. Os republicanos não souberam aproveitar a oportunidade que tiveram e desperdiçaram-na, e ele aproveitou isso. De facto, ele é quem acaba por encabeçar esse movimento. A astúcia dele passa por aí. Quando chama Estado Novo ao regime que criou em 1933, já é um bocadinho isso; ou seja, é acabar com o “estado velho” para começar uma coisa nova. É o mesmo exemplo do que o Sidónio Pais tinha feito, quando tomou o poder num golpe de Estado em 1917 e chamou ao seu regime ‘República Nova’. Esta ideia de começar de novo. E Salazar não escolheu a palavra “República”, porque não o deixava muito confortável. Porque grande parte dos apoiantes dele nem republicanos eram, eram monárquicos [risos]. De facto, quem faz o 28 de Maio, que depois acaba por levá-lo ao poder, é uma mescla, gente de variadíssimas tendências: monárquicos, fascistas, até republicanos moderados havia. Portanto, ele procura não beliscar as sensibilidades que lhe estão mais próximas, e de quem mais o apoia.

Por volta do 28 de Maio de 1926, ele vai escrevendo também para jornais católicos, vai fazendo crítica particularmente à política económica e financeira, e vai-se tornando também notado pelos escritos que vai produzindo. E há uma altura já em plena ditadura, em que Portugal precisa desesperadamente de um empréstimo. E esse empréstimo é negociado à exaustão, as exigências são muitas porque ninguém confia na ditadura, nem na política económica que estava a ser seguida pelos generais, e o empréstimo acaba por não chegar. Mas ao longo deste processo, Salazar vai sempre criticando duramente o empréstimo. Quando ele é convidado para ser Ministro das Finanças, a Igreja tem um papel importante a catapultá-lo. Mas ele depois vai ter um outro apoio muito importante, que é o Presidente da República, o general Óscar Carmona, que quando vê nele uma solução, afasta os militares das Finanças, e mete Salazar como ministro das Finanças. E quem disse que a pessoa ideal para ocupar o lugar era o Dr. Oliveira Salazar, foi nem mais nem menos do que o Cardeal de Lisboa de então – que ainda não era Manuel Gonçalves Cerejeira, que só vem mais tarde –, António Belo. Mas quando Salazar começa a trabalhar, rapidamente se apercebe que o empréstimo dava muito jeito. Ele tinha escrito vários artigos contra o empréstimo, e para não ficar mal na fotografia, fala com o seu mais antigo e fiel amigo, Mário Figueiredo; um verdadeiro nazi, como se veio a saber pela altura da Segunda Guerra Mundial. Salazar incumbe-o de fazer um périplo pelas principais capitais europeias, no sentido de conseguir o tal empréstimo. Mas tudo em segredo. A verdade é que as coisas não correm bem, e o empréstimo acaba por não vir na mesma. E era suposto que ninguém soubesse, mas alguém soube desse pedido de empréstimo, e fez sair um artigo em Espanha, ao nível das elites. E soube-se assim que Salazar tinha feito aquilo que tanto tinha condenado. E isto é mais uma demonstração da sua forma de ser. Era um tipo que não olhava a meios para atingir os fins, e que tudo fazia para salvaguardar a sua imagem – isso para ele é que era o fundamental. A imagem do pobre, honesto, era sagrada.

Quando é que acha que ele percebeu que podia mesmo ter um papel importante nos destinos do país?

É um processo progressivo, que demora algum tempo, mas ele à medida que se vai envolvendo nos meandros políticos de Coimbra, tem um grande amigo que é também um dos grandes responsáveis pela sua inteligência e por aparecer como um hipotético Salvador da Pátria: o então padre Cerejeira. Mal ele acaba o curso de Direito, Cerejeira convida-o para ir para o antigo Convento dos Grilos – que os saudosistas continuam a chamar uma “república”. Mas esse Convento não tem nada a ver como uma república; era uma casa muito grande, cada um tinha o seu espaço, salas de estudo, e ali recebiam amigos e convidados, faziam reuniões do Movimento Católico… Portanto, aquilo era muito mais, e tinha mais condições do que qualquer república coimbrana. Salazar vai para lá por volta de 1915/16 e só sai em 1928. E à medida que se vai percebendo que poderia vir a ser alguém, o padre Cerejeira terá convencido Salazar a procurar o livro de poesia que ele tinha publicado com tanto amor e carinho, e que se chamava “Ais”… E ele recupera os livros todos que consegue, e destrói aquilo. Ao ponto de, quando Franco Nogueira faz o primeiro volume da biografia dele em 1977, ter andado à procura de um livro para ter um poema ou outro para decorar a biografia, e já não encontrou. Falou com velhos camaradas de Coimbra; um ou outro lembrava-se do livro, mas disseram-lhe que tinha desaparecido. E então, os poemas com que Franco Nogueira nos dá uma amostra das “capacidades poéticas” de Salazar, vai buscá-los aos jornais para onde ele tinha escrito alguns poemas. Enfim, este aspecto ilustra bem a importância que a preservação da imagem tinha para Salazar. Ele convenceu-se de que aquele livro poderia prejudicá-lo.

Não se queria expor ao ridículo…

A última coisa que ele quereria era isso!

Recomendaria este livro a alguém que simpatize com Salazar?

Eu, francamente, recomendaria este livro a muita gente, particularmente a quem nós vamos chamando de ‘saudosistas’. Porque, de facto, de há uns anos a esta parte, está a crescer uma onda de saudosismo, como se o regresso ao passado e a emergência de uma figura do tipo de Salazar fosse a Salvadora da Pátria; como dizem que ele foi quando entrou em 1928. Obviamente, este livro nunca pretendeu ser um livro académico, é um livro de ficção. Embora eu não tenha gostado da palavra “ficção”, que está na capa, e que foi uma exigência do departamento comercial. Mas a verdade é que era preciso pôr ali qualquer coisa para que as pessoas nas lojas soubessem onde arrumar o livro. Romance não era, ficção histórica também não, e então ficou só ‘ficção’ debaixo do título. Mas nunca me agradou.

Mas se tem uma componente ficcional…

De ficção só tem a estrutura, tudo o resto é História. Não consultei arquivos, mas fui consultar o que está publicado, e tive o cuidado de ir buscar autores que foram amigos dele e pessoas que colaboraram com ele, assim como pessoas que não gostavam dele. E, portanto, além de serem muitas as fontes, são diversificadas também a este nível. Respondendo à sua pergunta, o livro é recomendado a todos porque de facto dá-nos uma imagem muito mais real do Salazar do que o mito que foi criado. Daí que eu goste de dizer que o livro desconstrói o mito do Salazar. De facto, é disso que se trata. E nos dias de hoje, este livro também nasceu para fazer frente à tal onda de saudosismo que está instalada e que tem vindo a crescer nos últimos tempos. Por isso, para quem quiser conhecer melhor o Dr. Oliveira Salazar – é a minha opinião e eu sou suspeito porque sou o autor –, é um livro altamente recomendado.

https://paginaum.pt/2024/01/08/nos-ultimos-dois-anos-de-vida-salazar-viveu-num-mundo-de-fantasia/


segunda-feira, 27 de julho de 2020

Diana Andringa e a morte de Oliveira Salazar

* Diana Andringa

«Segunda-feira, 27 de Julho de 1970. 

Um inusitado toque de clarim interrompe a rotina matinal na prisão de Caxias.

Um toque diferente, desconhecido, num tom lamentoso que não lhe conhecíamos.

Numa cadeia, ganham-se mil ouvidos: habituamo-nos aos sons ciciados da chegada de um novo preso, ao esforço de distinguir qual a cela onde o colocam (da parte da frente, com o rio ao longe? Da de trás, tendo como única visão o muro e as pernas do guarda republicano andando nele?), à frase «Prepare-se para ir à António Maria Cardoso», que pode significar, para aquele a quem é dita, uma sessão de tortura, seja a pancada, o sono ou a estátua, o seu regresso («Quantas horas passou em interrogatórios? Quantas noites?»), à tosse que anuncia esse regresso, ao assobio longínquo de um camarada, identificando-se com uma canção comum (no nosso caso, uma coladera), até às crises de asma de alguém que necessita socorro, numa cela próxima. Então, um toque de clarim, a uma hora inabitual, desperta de imediato a atenção e a ansiedade.

Lá em baixo, na guarita, o jovem guarda republicano olha, também ele, o lado de onde o som surgiu. «Que toque é este?», perguntamos-lhe, gritando. Olha-nos e encolhe os ombros. Não como quem não quer responder à pergunta gritada por aqueles que tem o dever de guardar, mas como quem não sabe. E ouvimo-lo repetir a pergunta para a guarita seguinte: «“Que toque é este?» Do outro lado chega uma resposta, para nós inaudível. Mas o jovem ouve-a e repete-a para nós: «“É o toque dos mortos!» Para que, numa cadeia, toque o clarim por alguém que morreu, é que esse alguém é pessoa de importância. E a ansiedade e a curiosidade crescem. Gritamos, de novo, para o guarda: «E quem é que morreu?»
Tal como da primeira vez, ele repete, para a guarita seguinte, a nossa pergunta. E tal como da primeira vez, a resposta escapa-nos. Mas – tal como da primeira vez – o jovem que nos guarda logo no-la repete: «Foi o velho! O velho foi à viola!»

Não houve necessidade de perguntar mais nada. O «velho» com direito a clarim só podia ser um: Salazar. E logo nos abraçámos a rir, enquanto ouvíamos, vindos de outras celas, gritos de regozijo. Que a morte, tantas vezes desejada, do ditador, nos fosse anunciada pelo jovem que devia guardar-nos aumentava a ironia da notícia.

A cadeia explodiu em gritos, risos, murros nas paredes, comunicando de cela em cela, na velha caligrafia prisional – «Um toque é “a”, dois são “b”, três “c” e por aí adiante…» – a morte do antigo Presidente do Conselho.

Os mais lúcidos lembraram que já havia outro, Marcelo Caetano. Mas, nesse dia, a alegria prevaleceu. Mesmo quando a visita foi cancelada, mesmo quando nos cortaram os minutos de música diária, porque «o país está de luto». «De luto?», respondemos nós. «O vosso talvez esteja, o nosso país está em festa!»

E, desafinadas ou não, ergueram-se as vozes dos presos e ouviram-se pela Cadeia, nesses minutos sem música, canções de resistência.»

sábado, 31 de agosto de 2019

Ricardo Araújo Pereira - Museu de Salazar : uma excelente ideia

* Ricardo Araújo Pereira

A autarquia socialista de Santa Comba Dão deseja criar um Museu de Salazar. A iniciativa revela grandeza, porque Salazar não desejaria criar uma autarquia socialista em Santa Comba Dão.

Os amores não correspondidos são sempre comoventes. No entanto, é possível que este raciocínio não esteja correcto: se soubesse que a autarquia socialista quereria criar o Museu de Salazar, talvez Salazar não tivesse nada contra autarquias socialistas. É como se costuma dizer: o ódio nasce da ignorância, e provavelmente Salazar não gostava de socialistas apenas por não os conhecer bem.

Pessoalmente, há muito que sou favorável à criação de um Museu de Salazar. Mais precisamente, desde 1928. Creio que já nessa altura Salazar merecia um museu, onde ele pudesse figurar, devidamente empalhado, para alegria de todos. E julgo, aliás, que a ideia do Museu de Salazar peca por defeito. Devia ser criada uma grande Disneylândia do fascismo, em que os visitantes pudessem encontrar diversões tais como viver duas horas nos calabouços da PIDE, frente a um inspector munido de um martelo, ou passar uma tarde na frigideira no campo de concentração do Tarrafal; onde fosse possível denunciar amigos e conhecidos (aproveitando a experiência obtida junto do botão “denunciar”, das redes sociais), vestir a farda da bufa e fazer piqueniques em que uma sardinha dá para três. Além disso, iniciativas deste tipo resolvem um problema antigo: como taxar a estupidez? Muitas vezes se lamenta: “Ah, se a estupidez pagasse imposto...” Pois bem, cobrar bilhetes para o Museu de Salazar pode ser finalmente um modo eficaz de sacar dinheiro a idiotas.

Por outro lado, a criação do Museu de Salazar gera confusão, e eu sou um velho apreciador de confusões. Por exemplo, todos os saudosistas do Estado Novo, até aqui estridentemente receosos de que o poder socialista criasse em Portugal uma Venezuela, afinal tinham razão: por causa de um socialista, Portugal passa a ser um país em que, tal como na Venezuela, se idolatram ditadores. Não deve ser fácil, para um salazarista, ver-se na posição de ter de agradecer a um socialista uma linda homenagem ao doutor Salazar.

Do lado socialista também haverá confusão, de certeza. O PS assinalou – e bem – que a escolha de André Ventura para a autarquia de Loures era significativa do posicionamento ideológico de Passos Coelho, pelo que agora irá – até aposto – assinalar que a manutenção da confiança política no autarca de Santa Comba é significativa do posicionamento ideológico de António Costa. Também deste ponto de vista, a criação de um Museu de Salazar é extremamente pedagógica.



Cartoon de @João Fazenda
in Visão de 22.08.2019.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Fernando Pessoa e Salazar

* Fernando Pessoa

António de Oliveira Salazar.
Três nomes em sequência regular...
António é António.
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está bem.
O que não faz sentido
É o sentido que tudo isto tem.
Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
O sal,
E sob o céu
Pica só azar, é natural.
Oh, c'os diabos!
Parece que já choveu...
Coitadinho
do tiraninho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho...
Bebe a verdade
E a liberdade.
E com tal agrado
Que já começam
A escassear no mercado.
Coitadinho
Do tiraninho!
O meu vizinho
Está na Guiné
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé.
Mas ninguém sabe porquê.
Mas enfim é
Certo e certeiro
Que isto consola
E nos dá fé.
Que o coitadinho
Do tiraninho
Não bebe vinho,
Nem até
Café.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Daniel Oliveira - O homem que queria ser como Salazar mas faltavam-lhe todas as qualidades



Antes pelo contrário

* Daniel Oliveira 

O homem que queria ser como Salazar mas faltavam-lhe todas as qualidades

08.03.2016 às 18h00


Cavaco conseguiu, sem precisar de recorrer a grandes talentos oratórios ou a qualquer instrumento de coação, convencer a maioria dos portugueses a entregar-lhe por cinco vezes o poder. As eleições deram-lhe absoluta e incontestada legitimidade democrática. Mas o instinto de Cavaco Silva é autoritário. Penso que na própria cabeça de Cavaco a imagem do professor de Finanças austero, que despreza o debate e encarna em si mesmo toda a Nação, o levou a ver-se como uma espécie Salazar da era democrática. Mas para se comparar à trágica grandeza do ditador falta-lhe tudo o resto: a cultura histórica que lhe permita representar a Nação, a cultura política que lhe permita ter um desígnio para o País e a cultura ética que lhe permita ser um modelo. Cavaco Silva é autoritário apenas porque é demasiado ignorante para compreender as razões profundas da superioridade da democracia e porque é demasiado egocêntrico para aceitar a transitoriedade do poder. É autoritário por feitio, não por convicção. Por ignorância, não por predestinação. Cavaco é afinal só Cavaco. O seu ego é o seu programa político

A frase que melhor define o “pensamento” político de Cavaco Silva é esta: “duas pessoas sérias com a mesma informação têm de concordar”. Esta afirmação, parecendo ser apenas pueril, esteve sempre presente na incapacidade de Cavaco compreender a função de quem lhe fazia oposição. Apesar de involuntário, é o melhor resumo do processo mental de um ditador que acredita na virtude da sua autoridade. Quem discorda do projeto que ele tem para o País ou é ignorante ou mal intencionado. Se é ignorante, deve ser ignorado. Se é mal intencionado, deve ser reprimido. Se a política se resume à construção de consensos entre pessoas bem formadas e informadas, contrariadas por ignorantes ou mal intencionados, a democracia é um absurdo. Sábios honestos dispensariam, com ganho para todos, o confronto de ideias, a oposição ou as eleições.

Quando Cavaco Silva se apresenta como um não político, apesar de ser o mais veterano dos profissionais da política, não o faz por mera tática populista. Ele acredita, sendo coerente com o “pensamento” expresso no parágrafo anterior, que políticos são aqueles que perdem tempo em confrontos inúteis. Que ignoram os problemas reais para se entreterem com divagações fúteis e se entregarem a interesses mesquinhos. Ele, pessoa séria e informada, defensor incontestável do que é bom para o País, não pertence a essa casta medíocre. Ele é um técnico, um académico, um economista, que não se deixando abalar por jogos políticos, persegue apenas os interesses da Nação.

Quando deixei entre aspas o “pensamento” de Cavaco não o fiz por despeito ou provocação. Estou convicto que este raciocínio de Cavaco não resulta de qualquer tipo de elaboração ideológica. Pouco dado a leituras e ao debate com os outros, onde se aprende o que não se leu, Cavaco não tem consciência das consequências e antecedentes do que ele próprio defende. O pensamento de Cavaco, transportando em si a vulgata de um qualquer líder autoritário, é instintivo e primário, manifestando-se mais por via de deslizes não preparados do que por afirmações estruturadas ou com alguma sofisticação ideológica.

Outros deslizes que teve, como a utilização do termo “dia da raça” para falar do 10 de junho ou as pensões que deu a ex-agentes da PIDE e recusou à viúva de Salgueiro Maia, também resultaram mais de ignorância do que de uma convicção firmada. Mas não deixam de resultar de automatismos políticos. Os mesmos que o levaram, enquanto primeiro-ministro e já longe dos momentos conturbados do PREC, a usar com enorme frequência a repressão policial contra manifestações de trabalhadores, estudantes ou camionistas. Ou a tratar o Tribunal Constitucional e restantes instituições que servem de contrapeso ao poder executivo e legislativo como “forças de bloqueio”.

De formas simbólicas ou mais diretas, Cavaco nunca compreendeu que as instituições que dirigiu o transcendiam. Ao contrário do que é costume dizer-se, Cavaco Silva é o oposto de um institucionalista. No dia 5 de outubro de 2012 decidiu que não falaria ao povo da varanda da praça do Município, em Lisboa. Para não ter que enfrentar previsíveis protestos depois das manifestações de 15 de setembro (usou o argumento da poupança), exigiu que a coisa se fizesse à porta fechada, o que sucedeu pela primeira vez desde 1910. No ano passado foi mais longe e faltou às cerimónias. Estaria a refletir na solução de governo. Centrado sempre tudo nas suas preocupações e humores pessoais, Cavaco não compreende que a nações têm as suas liturgias, que lhe dão estabilidade simbólica. Não compreende que é essa liturgia que determina o seu comportamento nestes momentos de afirmação da memória coletiva, e não o oposto. Que ele é objeto das instituições, não é o seu sujeito. Um conservador, mais do que eu, teria o dever de o entender. Mas acontece com o conservadorismo de Cavaco o mesmo que acontece com o seu autoritarismo: a sua ignorância histórica, a sua estreiteza política e a total incapacidade de abandonar o seu colossal ego impedem-no de ser mais do que ele mesmo.

Dirão: tudo isso não passa de simbolismos. Mas é esta incapacidade de se adaptar ao cargo que ocupa, sendo o cargo perene e ele transitório, sendo o cargo maior e ele mais pequeno, que o levou a fazer o discurso que fez sobre o PCP e o Bloco de Esquerda, não compreendendo que a um Presidente está interdito, no exercício das suas funções, o desrespeito institucional por forças políticas que representam um quinto dos eleitores. Ou que o levou a fazer um discurso de reeleição carregado de ódio pessoal e vingança. Ou que o levou, num dos mais sórdidos episódios da nossa democracia, a mandar um assessor seu espalhar na imprensa que estaria a ser escutado pelo governo sem nunca esclarecer verdadeiramente essa acusação. Ou a pôr os seus conflitos com José Saramago acima da homenagem que o Estado português devia ao Nobel da Literatura. E a condecorar o responsável por um ato de censura a este autor, como pequeno gesto de vingança pessoal. Tudo isto aconteceu pela mesma razão que Cavaco se cita quase exclusivamente a si mesmo: o seu ego é o seu programa político. E esse ego toma conta das instituições, das tradições, das liturgias, das relações com os outros. A sua opinião substitui as regras, as suas embirrações tornam-se embirrações de Estado.

A total incompreensão dos fundamentos da democracia, confundindo convicções pessoais com interesse nacional e separação de poderes com “forças de bloqueio”, e a incapacidade de separar o seu ego do cargo que ocupa, tornando-se ele na própria instituição que dirige, dão a Cavaco o perfil de um ditador em potência. Um ditador primário, instintivo, incapaz de compreender as motivações das suas próprias convicções autoritárias, mas ainda assim um ditador. Faltaria a Cavaco Silva, para além das condições políticas que felizmente o transcendem, quase tudo o que seria necessário.

O modelo de imagem pública de Cavaco sempre foi o modelo austero que a propaganda desenhou de Salazar. Sejamos justos e reconheçamos que não foi o primeiro, em democracia, a alimentar essa imagem. É, aliás, um elemento central nos políticos que mais respeito conquistaram dos portugueses. De Ramalho Eanes a Álvaro Cunhal. O problema é que a imagem austera que Cavaco sempre tentou passar de si é oposta à realidade, ao contrário do que acontecia com Salazar (e Cunhal e Eanes). Cavaco Silva sempre foi, nas despesas ligadas ao seu cargo, um perdulário. Cavaco optou pela sua reforma em vez do salário de Presidente da República que, sendo mais baixo, seria obviamente o indicado para dignificar o cargo. Já para não falar na sua relação promíscua com o BPN, não tendo o episódio das ações sido nunca cabalmente esclarecido. O mesmo homem que inventou Dias Loureiro, Oliveira e Costa ou Duarte Lima, só para pegar nos exemplos mais escabrosos, não pestanejou ao dizer que para ser mais sério do que ele seria preciso nascer duas vezes. Ainda assim, a imagem austera perdurou muito tempo no imaginário popular. Até Cavaco ter dito o que disse sobre o seu salário. Seria mais uma vez o autocentramento nos seus próprios problemas que o iria trair.

As contradições de Cavaco também são programáticas. O mais parecido com o retrato que o Presidente Cavaco Silva faz de um mau chefe de governo foi o primeiro-ministro Cavaco Silva. Se de 1986 a 1989, graças ao crescimento económico garantido pela entrada de rios de dinheiro no país e um enorme crescimento económico, se conseguiu passar de 7,4% para 2,9% de défice orçamental, ele voltou a aumentar para valores superiores a 6% de 1990 a 1995. Ou seja, no pico das facilidades europeias Cavaco conseguiu, quando Maastricht já impunha o limite de 3%, voltar a colocar o défice em valores semelhantes à pré-adesão à CEE. Só depois de Cavaco sair de São Bento se iniciou uma trajetória de redução.

O modelo de desenvolvimento do cavaquismo baseou-se na obra pública sem critério, em distribuir dinheiro sem rigor ou controlo (quem não se lembra dos célebres cursos profissionais?), numa gestão orçamental eleitoralista e na destruição de todas as atividades produtivas em troca de financiamento europeu. Cavaco representou, como primeiro-ministro, uma oportunidade histórica perdida. Não foi o único, mas marcou uma forma de governar. E, no entanto, não encontramos maior arauto da contenção orçamental e das boas contas que o Presidente Cavaco Silva. Ele é o homem que avisa para o futuro depois de o ter ignorado quando era ele que governava. Mais uma vez, estou convencido que Cavaco acredita no seu próprio discurso. Nos vários que foi tendo. Porque Cavaco nunca se engana e, coisa bem mais perigosa, raramente tem dúvidas.

Por fim, falta a Cavaco a mais importante qualidade que se exige a um político, seja um democrata ou um autoritário: a coragem. Não me refiro apenas à coragem política. Até fisicamente Cavaco é cobarde. Viveu sempre tomado pela paranoia da segurança, fazendo exigências insensatas e dispendiosas. Sempre evitou o contacto direto com os cidadãos. Nunca foi ao Parlamento debater com os seus adversários. Tirando nas presidenciais, em que a vitória era incerta e faltar teria sido fatal, são raros os debates com concorrentes eleitorais. E mesmo nos debates presidenciais exigiu que as mesas estivessem viradas para o moderador, evitando o contacto visual com os adversários. A cobardia política e física que sempre revelou é, do meu ponto de vista, o seu traço de personalidade mais desprezível.

Não é difícil, depois destas linhas, escritas por alguém que tinha 11 anos quando Cavaco Silva chegou pela primeira vez a um cargo executivo, perceber que este texto é escrito com tristeza. Tristeza por perceber que alguém com estas características conseguiu, sem precisar de recorrer a grandes talentos oratórios ou a qualquer instrumento de coação, convencer a maioria dos portugueses a entregar-lhe por cinco vezes o poder. Sempre respeitei, por convicção democrática, essa decisão da maioria. Ela deu-lhe absoluta e incontestada legitimidade democrática. Mas sempre me senti oprimido por ela.

O instinto de Cavaco Silva é autoritário. Ele acredita que é o portador do interesse nacional, moldando as instituições aos seus próprios caprichos. Que o debate é ocioso e a divergência perda de tempo. E embrulha tudo isto numa falsa capa austera. Mas faltam a este homem todas as qualidades que se exigem a um autoritário conservador, de recorte salazarista: a cultura histórica que lhe permita encarnar a Nação, a cultura política que lhe permita ter um desígnio para o país e a cultura ética que lhe permita ser um modelo. Cavaco Silva é autoritário apenas porque é demasiado ignorante para compreender as razões profundas da superioridade da democracia e porque é demasiado egocêntrico para compreender a transitoriedade do poder. É autoritário por feitio, não por convicção. Por ignorância, não por predestinação.

Penso que na própria cabeça de Cavaco a imagem do professor de Finanças austero, um autoritário que despreza o debate e encarna em si mesmo toda a Nação, o levou a ver-se como uma espécie Salazar da era democrática. Mas o perfil de Cavaco Silva apenas se assemelha ao de Salazar na medida em que foi, como muitos portugueses da sua geração, moldado nessa cultura. Não tendo outra, apenas juntou ao imaginário do Estado Novo as regras formais da democracia, sem nunca as compreender verdadeiramente. Mas para se comparar à trágica grandeza do ditador falta-lhe tudo o resto: a cultura de quem molda o pensamento dos outros, a disciplina ética de quem é modelo para os outros e a coragem de quem lidera os outros. Cavaco é afinal só Cavaco. A sua tragédia é ser demasiado pequeno para todo o poder que teve. Talvez tenha sido só um longuíssimo equívoco.

http://expresso.sapo.pt/blogues/opiniao_daniel_oliveira_antes_pelo_contrario/2016-03-08-O-homem-que-queria-ser-como-Salazar-mas-faltavam-lhe-todas-as-qualidades