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quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Luís Pedro Nunes - A tragédia incompreendida do homem engripado

Opinião

*  Luís Pedro Nunes

A “gripe masculina”, enquanto momento horrível e quase fatal da existência 
de um homem, tem sido alvo de chacota. Sim, há diferenças entre sexos. Só que...

Uma das “descobertas” do ano passado foi de que os rapazes estavam a ser vítimas de uma crise identitária e radicalizados online. A série britânica “Adolescence” serviu para criar uma narrativa que finalmente convenceu uma parte da população que estava cética quanto a uma modificação comportamental dos miúdos, mesmo quando os dados mostravam que os jovens do sexo masculino estavam a votar cada vez mais na extrema-direita, ao contrário das raparigas. Seguiram-se uns bons dois ou três meses de pânico social, com textos e peças televisivas de tom alarmista, e a coisa ficou por aí. A verdade é que pouco foi feito. Mas há dados que são impossíveis de ignorar. Há uma radicalização digital que leva a uma polarização online e que por vezes tem como consequência a violência real. E isto é verdade nos EUA, mas também na Europa e em Portugal.

Terminado o primeiro quarto do século XXI, corre livre, por entre os jovens rapazes, o ideal do homem misógino, que deve “sustentar a mulher”, que deve casar com uma mulher “com pouca rodagem”. Quanto a mim, que sou GenX, que me formei como ser humano nos anos 80/90 do século passado, este já nem era o discurso do meu pai. Era eventualmente dos meus avós, e vê-lo ressuscitado tecnologicamente não deixa de ser chocante, porque soa pura e simplesmente a absurdo, tanto mais que tentam sustentá-lo em terminologia de pseudociência da biologia evolutiva. Já os bilionários de Silicon Valley investiram milhões em antiaging e estão todos com um caparro descomunal. Mas sim: tendo um Trump como figura dominante do discurso político, tivemos um ano da “masculinidade alfa mal resolvida”.

A “gripe masculina” só começou a ser notada no Reino Unido há uns 30 anos, mas expandiu-se rapidamente

A meio do ano, uma notícia provocou um pequeno abalo nas fundações disto tudo — se apreciarmos ironia. E a notícia foi de que a “man flu”, a tão gozada “gripe masculina”, afinal talvez tivesse algumas bases científicas: talvez os homens sofressem de forma diferente; talvez houvesse de facto diferenças entre os sistemas imunitários de homens e mulheres a provocar reações diversas relativamente à gripe.

2026 01 07

Aqui, há que introduzir um pouco de contexto. A “gripe masculina” — enquanto momento atroz de sofrimento dos homens — só começou a ser notada no Reino Unido há uns 30 anos, mas expandiu-se rapidamente por todo o mundo ocidental: a ideia de que os homens dramatizam e as mulheres aguentam, e que eles até usam essa fraqueza como troféu no palco doméstico, em que se apresentam como mártires do vírus enquanto obrigam as mulheres a continuar nas lides e a servir-lhes o chazinho. Uma misandria recreativa. Durante anos, foi alimento de sketches humorísticos e memes: uma encenação, ou uma estratégia de o homem conseguir ser atendido e servido em casa pela mulher apenas por causa de uma mera gripe. Há memes clássicos: a mulher grávida de 9 meses a cuidar dos outros filhos e do marido com gripe; o “kit de sobrevivência da gripe masculina”, que é mesmo vendido online, constituído por um termómetro, lenços, vitamina C e um sino para chamar a mulher; e uma panóplia de textos em que cronistas descrevem os estados de quase morte dos maridos durante uma gripe. A “man flu”, a gripe masculina, é um objeto cultural com inúmeras referências em séries e filmes. É algo que existe na cultura ocidental e é relativamente recente. Não há relatos de gripes “mais fortes” nos homens na Ásia ou em África, pelo que se concluiu que era uma “construção cultural”. Treta. Manha.

A tragédia incompreendida do homem engripado
Hiraman/Getty Images
Mas há pouco tempo, estudos apontaram exatamente para dar razão à existência da “gripe masculina”: as mulheres libertam mais corticosterona e suprimem melhor os sintomas de infeção; mulheres com menstruação têm melhor resposta imunitária; há uma diferença entre “dor e sofrimento”; os homens esperam mais tempo para ir buscar ajuda médica e desenvolvem mais infeções secundárias. Diferentes estudos têm vindo a dizer que há de facto diferenças entre os sistemas imunitários de homens e mulheres e que tal interfere na reação à gripe. Os homens têm uma imunidade mais fraca; as mulheres tendem a detetar mais rápido os invasores e a produzir anticorpos. A hipótese evolutiva sugerida é que haveria aqui um trade-off em que as mulheres “ganhavam” para favorecer a proteção e o cuidado da descendência.

Mas calma: isto não prova a existência da “man flu”. Pelo contrário: ao ter um sistema imunitário mais forte, tal pode gerar uma resposta também mais forte em infeção respiratória ligeira e as mulheres podem sentir-se pior. Ou seja: o facto de os homens terem sistemas imunitários mais fracos até pode fazer com que tenham sintomas menos fortes do que as mulheres. Tudo aponta afinal para que a horrível, pavorosa, mortífera “gripe masculina” seja mesmo treta. Uma narrativa de sofrimento que exige sopinha na cama, uma coreografia doméstica em volta de um supervírus imaginário que escolhe por sexo. Uma doença que quer validação por serviço de quartos. Ou de sofá.

No ano em que os homens, alguns homens, decidiram que era a altura de dar um murro na mesa e exigir de volta a sua masculinidade expurgada — via comunicados drásticos online e ameaças no TikTok —, quase que ficou a saber-se que tinham razão e que a gripe, quando os atacava, era muito mais perniciosa. Mas não. Afinal, é o mesmo, apenas o de sempre. Por detrás de um machão bad boy, está um menino que quer uma mãezinha para lhe levar a sopinha quando tem dói-dói na garganta. O triste é ser tudo tão antigo. A “man flu”. A misoginia. Querer as mulheres de volta para casa. E cá estamos em 2026. Para onde retrocederemos?

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Uma cónica de Carlos Coutinho

* Carlos Coutinho
 ·
Também é público e notório que a Esmeralda nunca perdoou a quem a quis batizar com o nome de Eleutéria, nome quase imposto pelo padre Adérito que era caçador, poeta e dono de um falcão adestrado na captura de perdizes e codornizes. Quando não encontrava alguma destas aves cozinháveis, o passarão predador regressava à varanda do passal com um coelho nas garras ou até com uma pomba, o que dava alento ao guloso e incontível abade para mais um soneto.  

   Ainda conheci este insigne clérigo, já um pouco marreco, que era de Pitões das Julianas, onde lhe ergueram uma estátua de granito, com um avejão indefinível cravado no ombro esquerdo, caneta na mão e a escrever num calhau aplanado em cima dos joelhos. Até morrer, não parou de mergulhar no oceano da terminologia, tendo deixado uma caixa de pinho cheia de dicionários e sebentas universitárias, enciclopédias, desenhos medíocres e um ror de folhas de papel amarelecido com o produto das suas escavações idiomáticas.

   Numa ainda se pode ler que qualquer palavra é um depósito de factos, atos, conceitos e crenças, inteiros uns, esgarçados outros, mas todos caldeados sem acasos nem incúrias, fazendo um étimo que hoje pode ter o significado oposto ao que teve há mil anos ou a menos de um século.

   Exemplos: aro, birra, clister, derrancado, etc.

   De facto, aro tanto pode ser uma palavra infeliz que perdeu a última sílaba por ação conspirativa dos alérgicos a perfumes, como nomear um pequeno arco, um anel, um círculo e até uma argola de certos jogos de bola, ou parte da armação dos óculos que circunda a lente. Em mecânica designa o guarnecimento anelar de uma roda. 

Já a birra, a que alguns também chamam chilique, é uma explosão emocional por vezes caraterizada por teimosia, choro, gritos, violência, desafio, reclamação furiosa, resistência a tentativas de pacificação e, em alguns casos, golpes ou outros comportamentos fisicamente violentos. O controlo físico pode ser perdido; a pessoa pode não conseguir ficar parada; e, mesmo que o objetivo seja alcançado, os birrentos nem sempre podem ser acalmados. 

   Quanto a clister, eu sabia que se trata de é um procedimento em que se utiliza água ou alguma outra substância com o objetivo eminentemente entérico de lavar o intestino, mas estava longe de imaginar há quem o designe por enema e mesmo por chuca, embora para todos seja uma injeção de líquido na parte inferior do intestino, com total desprezo pela douta sensibilidade do reto. 

   Na medicina tradicional, que nem sempre está errada, fiquei agora a saber, os usos mais frequentes de enemas são para aliviar a obstipação e para limpar o intestino, como meio de reduzir a termorregulação, como tratamento para encorpese e como forma de terapia de reidratação (protólise) em pacientes em que a terapia intravenosa não é aplicável.        

    Claro que isto não é coisa que se faça às grávidas, nem que se trate de gatas ou de cadelas, porque, além de merecerem o nosso maior respeito, já têm toda aquela região monopolizada pelas humidades deslizantes dos respetivos fetos.

De derrancado também há muito que pôr em questão, porque, embora seja um adjetivo pacífico, pode eventualmente ser um particípio verbal muito discutível. Comecei por conhecer o termo como sinónimo de raivoso, furioso incontrolavelmente bruto, mas agora vêm os dicionários dizer-me que é o “que ganhou ranço” ou está “apodrecido”, ou, pior ainda, “arruinado”.

   Dizem-me também que, em sentido figurado, é “o que se degradou moralmente”, além de que existe uma expressão regionalista que trata assim os hidrófobos, como, por exemplo, os gatos escaldados que, como é sabido, até da água têm medo.

É bom ter conhecido, mesmo na infância, um padre caçador e poeta que fazia o que queria com o seu falcão adestrado e clericalista. 

   P.S. – Pior ainda: em Urtigais do Vale, ora como adjetivo, ora como substantivo, tanateiro é quem fala de mais e este termo é, sobretudo, aplicado a rapariguitas que se pronunciam infatigavelmente sobre tudo e mais alguma coisa, apesar de Tanatos (Θάνατος), na mitologia grega, ser a personificação da morte, reinando Hades sobre os mortos no mundo inferior. Este nome foi transliterado em latim como Thanatus e o seu equivalente na mitologia romana é Mors ou Letum (Morte ou Leto).

2026 01 06

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segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Carlos Coutinho - [Crónica natalícia]

* Carlos Coutinho

Sendo hoje o dia mais pequenino do ano, não sei como entender a tão grande distância que vai de Deus ao Diabo, já que que são biblicamente coevos e, por isso, ambos anteriores à criação do Universo que um deles tem a fama de haver criado, farto de estar sem fazer nada desde a sempiternidade que, de resto, nunca começou, por, em caso contrário, em vez se sempiternidade seria uma enjoativa eternidade. 

   A não ser que Deus também tenha criado o Diabo e, então, há mais que óbvia explicação para a malignidade da obra feita, incluindo a criação do Diabo que tem as costas largas e pode arcar com todas a culpas da tristeza, da imoralidade, da loucura sem remédio, da crueldade sem limites, da necessidade de haver guerras indispensáveis ao progresso da Humanidade, da própria aceitação da existência de Deus. Uno, trino ou múltiplo.

   Como acatar, então, a legitimidade do Solstício do Inverno que denuncia a ilegitimidade do Solstício de Verão, visto não ter Natal algum para celebrar, nem Consoada alarve para as bebedeiras toleradas por Deus e infundidas pelo Diabo, nem passagens de ano que tantas vezes são passagens para o desastre?

   Claro que tudo isto carece de explicação fácil, como a passagem a santos cristãos daqueles dois judeus de Nazaré, S. Joaquim e Santa Ana, progenitores de José, este um carpinteiro.  Maria, a sua legítima esposa, claro que tinha de passar a ser virgem  mesmo depois de ter dado à luz um bebé de futuro divino, sem que se houvesse rasgado o hímen – a tal película húmida, expectante e cavernosa, regada por artérias infracapilares e enxaguada por fios venosos redentores – constituindo o famoso portão sem fechadura anteuterino que que o aríete de José, um descendente providencial do rei David, nunca sequer tentou arrombar.

   A minha sorte é que eu adoro uma capitosa bacalhauzada, um baqueano trago de touriga nacionaL esguichado de algum tonel duriense, uma boa rabanada e uma tépida noite à lareira. E não tenho o mínimo apreço por certos tipos de virgindade.

2025 12 22
https://www.facebook.com/carlos.coutinho 

sábado, 29 de novembro de 2025

António Guerreiro - Dos debates aos comentários

* António Guerreiro~

Os debates na televisão entre os vários candidatos à Presidência da República seguem um modelo que se aproxima do stand-up. Mesmo que os candidatos nada façam para cumprirem os protocolos e as exigências desta forma de espectáculo, eles são coercivamente enquadrados nele e avaliados pelo grau de competência demonstrado na performance por um júri que representa o papel da opinião pública e encena uma versão abreviada daquilo que desde o Iluminismo se chama “espaço público”. O júri é composto por um conjunto de pessoas designadas como “comentadores” cuja tarefa é encerrar o espectáculo com os seus juízos críticos e apreciações quantificadas.

Neste modelo de debate procura-se um ganhador e um perdedor. E ganha sempre quem revela mais destreza na eloquência, quem consegue ter alguma habilidade para argumentar e um certo sentido da dialéctica (qualidades, aliás, cada vez mais escassas) naquele ambiente muito pouco favorável a tais realizações. Ali, muito embora pareça que se trata de política, a despolitização é a regra.

O júri cumpre um papel essencial: é ele que, em última instância, dá sentido às performances. Sem ele, o espectáculo da contenda ficaria incompleto e seria muito mais desinteressante. É preciso sublinhar o clash, promovê-lo, encontrar no discurso político um sentido agónico. As polarizações que caracterizam o ambiente político em que vivemos, os tropismos que fazem emergir os extremos, têm os seus utensílios retóricos reconhecidos e valorizados. São eles os mais valorizados e a eles recorrem com frequência os participantes nestes debates porque têm uma eficácia táctica. Esses instrumentos tácticos dominam os debates e asseguram a vitória a quem melhor se servir deles. E a táctica é o que os comentadores observam com mais facilidade, logo, o que garante nota alta.

Na época em que a crítica literária e da arte tinha adquirido uma enorme pujança, impôs-se a ideia de que os juízos sobre a poesia têm mais valor do que a própria poesia (e poesia vale aqui pela arte em geral). Hegel, nas suas lições de Estética, explica porquê: porque a obra de arte deixou de satisfazer as necessidades “espirituais” que nela tinham encontrado as épocas precedentes; e, por isso, na sua “suprema destinação”, a arte chegou ao seu fim. Assim é hoje com a política e o debate político: manifestações de um final de festa.

Em tempos de despolitização, o que tem algum valor e suscita o interesse da audiência são os juízos sobre os debates e as performances dos seus protagonistas. Os comentadores mostram, mesmo se não têm consciência disso, o estado de exasperação do discurso político. São convocados por um vazio que lhes coube em jeito de missão preencher. E são afectados pelo demónio da reversibilidade: eles comentam o discurso dos candidatos ou estes calculam o seu discurso para resultar num comentário? Quando a noção de época correspondia a um tempo histórico muito mais longo e a um “espírito” que a autonomizava e lhe conferia sedimentação, instituiu-se a ideia de que há períodos de decadência; e a proliferação do comentário seria a marca mais conspícua desses períodos (refiro-me, evidentemente, a um género de comentários cuja manifestação é uma literatura e uma filosofia secundárias). O barroco trans-histórico e os finais de século serviram com alguma verosimilhança essa ideia de decadência.

A desvalorização da linguagem política é o sintoma de uma doença, um mal-estar da democracia.

O conceito de pós-democracia, como sabemos, fez o seu caminho com alguma indefinição, mas, ainda assim, de maneira útil. Já estamos habituados a que, sempre que o prefixo “pós” se impõe como declinação de algo novo, mas que resulta de uma profunda inflexão do antigo, a certa altura se comece a pensar em modo “des”. É o que já está a acontecer com a democracia: a pós-democracia já começa a ser um conceito pouco útil e já há quem coloque a hipótese da “des-democracia” (devemo-la às análises da autoria da norte-americana Wendy Brown, professora de Ciência Política na Universidade da Califórnia).

A desdemocracia já se manifesta de outra maneira que não é a de um mal-estar da democracia: não é um mal infligido por causas exteriores, mas uma doença interna que decorre do seu desenvolvimento interior. A ascensão de sentimentos fascistas e o desejo autoritário, isto é, de uma ordem governada por uma personalidade autoritária (fazendo coincidir a política com uma psicologia), configuram uma desdemocracia em curso, uma democracia que se está a desfazer a partir do seu interior, num processo de degenerescência que faz nascer o desejo autoritário.

in Público, 28/11/2025

https://www.publico.pt/2025/11/28/culturaipsilon/cronica/debates-comentarios-2155997

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Gerardo Tecé - Morreu um leão

Talvez continuar a sentir empatia quando tipos como Charlie Kirk pedem que deixemos de o fazer seja uma arma muito melhor do que uma espingarda para combater esta gente.

* Gerardo Tecé


Charlie Kirk na uniersidade do Ohio em 2019, na sua tournée "Guerra Cultural" pelas universidades dos EUA. Foto Gage Skidmore

Um crime injustificável. Um ato terrível e desumano. A dor que sentimos hoje é imensa. Toda a nossa solidariedade para com os seus entes queridos. É monstruoso acabar com a vida de um jovem desta forma. Depois de ter sido baleado na garganta por um atirador furtivo durante um ato público numa universidade do Utah, a extrema-direita global chora a morte de Charlie Kirk, aos 31 anos. É um choro sincero. Uma demonstração de dor que surge de uma forma que pensávamos ter sido banida deste espectro ideológico. Quase proibida. Humanidade, solidariedade, empatia... São conceitos amplamente ridicularizados nos últimos tempos pela extrema-direita norte-americana, da qual Kirk, amigo e conselheiro de Donald Trump, era uma das grandes referências juvenis. Enquanto muitos começam a falar de mártir, ninguém se atreve, em pleno luto, a lembrar que a dor e a empatia que hoje surgem entre os admiradores deste jovem são, na verdade, lixo, pura ideologia esquerdista, como explicava o próprio Kirk num dos seus discursos mais bem sucedidos e aplaudidos. A empatia, a dor pelo outro, é uma armadilha, dizia ele. Uma invenção suja da esquerda para construir sociedades fracas. «É preciso fugir de tudo isso porque sentir-se mal pelos outros não nos faz avançar, não leva a nada».

Opiniões como esta tornaram Kirk um tipo livre, de acordo com a nova direita planetária que define liberdade como o exercício de procurar os seus objetivos políticos e ideológicos sem ter em conta as consequências que pode causar em outros, mais fracos. Firme defensor da venda de armas nos Estados Unidos, pouco depois do enésimo massacre, Kirk pediu num discurso público para não cair na armadilha de que a empatia pelas últimas vítimas e seus familiares fosse o que guiasse esse debate, porque isso não leva a nada. Em vez disso, o que devemos fazer, dizia Kirk, é aceitar que a liberdade de portar armas pode, ocasionalmente, causar algumas mortes. É um preço que vale a pena pagar, explicava ele, e a plateia, cheia de pessoas tão livres quanto ele, aplaudia freneticamente.

O preço a pagar de que Kirk falava sempre vale a pena para aqueles que hoje fazem uma pausa para chorar o seu assassinato com empatia. Em Israel, é claro, valeu a pena pagar o preço de dezenas de milhares de vítimas civis, porque mais importante do que tudo isso é defender a liberdade, afirmava o jovem e milionário comunicador. Em Israel, é claro, choram a morte de Charlie Kirk. Um amigo inabalável, diz hoje a imprensa conservadora do país judeu nos seus obituários. Benjamin Netanyahu, amigo pessoal do jovem assassinado, declarou estar horrorizado com tanta violência e revelou que recentemente tinham falado ao telefone. “Eu convidei-o para visitar Israel, ele era um amigo corajoso como um leão”. A precisão da comparação não é por acaso. Não há melhor animal para definir Kirk e a nova direita sem complexos do que o leão, rei da selva. Milei, presidente argentino e, como tantos outros líderes de extrema direita, amigo do falecido, escolheu o leão quando, pouco depois de assumir o cargo, subiu ao palco do Luna Park deixando claro o que estava por vir: “Eu sou o leão, rugiu a besta no meio da avenida e todos correram”, cantava ele, eufórico diante do terror dos fracos prestes a sofrer com a sua motosserra. Se o objetivo político é estabelecer uma selva sem outra regra além da lei do mais forte, é impossível que eles não se sintam leões.

O jovem comunicador não poderá ver realizado o seu sonho de ser um leão na selva que ele e tantos outros ideólogos da nova extrema-direita projetam como aposta para o futuro. No entanto, ele deixa boas bases ideológicas para que o projeto continue a crescer. Como militante ativo contra a empatia, na sua curta vida Kirk defendeu o genocídio em Gaza, os cortes sociais para os mais pobres na Argentina ou as prisões que violam os direitos humanos em El Salvador. A nível interno, Kirk defendeu aqueles que atacaram violentamente os seus rivais políticos durante o assalto ao Capitólio, opôs-se ao casamento homossexual, ao movimento feminista ou à luta da comunidade negra, de quem disse que cometiam mais crimes desde que deixaram de ser escravos. A bandeira norte-americana ondulará a meia haste na Casa Branca e no Capitólio durante os próximos dias porque morreu um tipo livre. Morreu um leão e a manada chora sem se questionar se a pontaria e o tiro que acabaram com a vida de Kirk não serão também consequência da lei do mais forte.

Nós, que temos como animal favorito a osga e tentamos contaminar a sociedade com armadilhas sujas como a empatia, não podemos deixar de pensar que, por mais que detestemos as opiniões de tipos como Kirk, o assassinato do jovem ultradireitista deixa para trás uma família destruída e duas crianças pequenas que sofrerão. Talvez continuar a sentir empatia quando tipos como Kirk pedem que deixemos de o fazer seja uma arma muito melhor do que uma espingarda para combater esta gente. Ao contrário de Kirk, muitos de nós continuamos a não aceitar que haja certos preços que valham a pena pagar.

12 de setembro 2025 - 12:04

Gerardo Tecé é cronista no CTXT. Artigo publicado no CTXT 

 https://www.esquerda.net/artigo/morreu-um-leao/95968

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Alfredo Barroso -[Como encontrei Camilo na Adraga ... ]


OMO REENCONTREI ALMEIDA FARIA NA ADRAGA E COMO SE NOS APRESENTOU UM DESCENDENTE DE CAMILO EM CARNE E OSSO

- Alfredo Barroso narra este inesperado encontro

Sempre fui imensas vezes à praia e nadava bastante bem (modéstia à parte) até há poucos anos, mas agora, quando vou (fui hoje pela primeira vez em 2020) apercebo-me, quando olho para as ondas do mar, que estou quase como as gravuras de Foz Côa (que não sabem nadar). Mas ao chegar à belíssima Praia da Adraga, tive o prazer de reencontrar um velho amigo que já não via há alguns anos: o magnífico escritor Almeida Faria. Ele é queirosiano e eu camiliano, mas sempre muito bem nos entendemos. E o inesperado aconteceu quando Almeida Faria me incitava a continuar a escrever sobre Camilo. Um sujeito que ouvia a nossa conversa a pequena distância social (como agora se diz) pediu-nos licença para se intrometer e explicar que, apesar de não ser homem de leituras grandes ou pequenas, era descendente directo de Camilo por via da mãe e de seus inúmeros ascendentes. Mostrou-nos o seu CC, disse-nos que só lera, de Camilo, "A queda dum anjo", e que viera de Famalicão, mais concretamente, de São Miguel de Ceide, para ver Lisboa e as praias para onde os políticos descritos por Camilo vinham com 'mulheres da vida' (ou seriam as 'espanholas'?) e que ficou muito espantado ao ouvir dois sujeitos citadinos a falarem do Camilo à boca da Praia da Adraga... O inesperado acontece, e quando é divertido e insólito não faz nenhum mal à saúde... Pois é, não acreditam, mas garanto-vos que foi mesmo verdade, juro!

Praia da Adraga, 3 de Setembro de 2020

https://www.facebook.com/somera.simoes

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Tiago Franco - ANDRÉ, AMIGO, O TEU POVO ESTÁ CONTIGO |

* Tiago Franco   


Quando escrevi o último post, há dois dias, pensei: "vou fazer uma paródia com o Chega e este rolo de casos bem catitas de beberolas, pedófilos e malas".

Entretanto a minha mulher chamou-me para arranjar qualquer coisa e nunca mais vi o sol. Dois dias em 2025 correspondem a 30 em 1994. Anda tudo muito depressa e as notícias de 6f já parecem a RTP Memória.

Poucos minutos depois de ter escrito a piadinha do último post vejo, no meio do meu zapping higiénico, o pastor Ventura a saltar entre a TVI e a CNN, numa tentativa arriscada de acalmar as hostes cheganas. 

Devo dizer que, depois de ouvir o ensaio, perdi a vontade de o arrasar (ou ao Chega, já que são a mesma entidade). Aliás, até me vou levantar e bater uma saraivada de palmas ao André. Imaginem-me no Parlamento, ao lado do antigo repórter tauromáquico, a gritar "muto bâim". Porque Ventura foi absolutamente brilhante.

Passou o dia a debitar aos ouvidos de cada jornalista em que tropecou na AR um sonoro "não me escondo", "seja meu pai, meu filho ou meu irmão...se papa meninos, é para castrar!". Mete uns posts no FB, no X, pede ajuda à Rita Matias e ao Frazão para repetirem a mesma história nas suas redes (os outros 45 não sabem escrever e por isso foram dispensados da tarefa) e arranca para os estúdios de Queluz. A TVI ainda é em Queluz? Adiante...

Na televisão bate no peito em frente à Sandra Felgueiras e depois, na CNN, meio esbafurido, repete tudo sem perder a calma. É diferente dos outros políticos. Tem mais merda em casa, é verdade, mas agarra o touro pelos cornos e corta o mal pela raíz. Com ele não há paninhos quentes nem se abafam histórias.

Ao contrário dos outros partidos. E aqui comeca a disparar para todo o lado.

Fala na Mortágua e no Robles. Nenhum deles cometeu qualquer crime. Fala no Ferro Rodrigues que nem indiciado foi. Fala no Paulo Pedroso que foi preso, libertado, sem julgamento e, mais tarde, indeminizado pelo estado português. Ou seja, não cometeu qualquer crime. Fala no Sócrates que está em julgamento eterno e de quem o PS já se afastou há muito. Fala do Medina que não foi acusado no Tutti-Futti.

Num estilo clássico de Ventura, misturou inocentes com indiciados, investigados com ilibados. Mexeu tudo muito bem, juntou um dedo no ar e salpicou com indignacão. Voilá, está servido o político diferente, o Sebastião da limpeza, o mártir que não teve culpa dos bronhos que lhe recomendaram para a bancada parlamentar. 

Com essa conversa, desvia as atencões dos 20% de deputados com acusacões formadas e problemas com a justica que passam por irregularidades financeiras, roubo, assédio de menores, imigracão ilegal, difamacão, agressões, declaracões falsas e violência doméstica. Os quadros do Chega estão a uma namorada nepalesa de fazerem bingo nas causas do partido.

Nem um hora tinha passado desta última intervencão (CNN) e, munido de luvas e galochas, fui nadar em caixas de comentários. Por aqui, no X (tenho mesmo que deixar de ir aquele esgoto) e nos jornais, a mesmíssima narrativa do pastor era reproduzida na perfeicão pelos fiéis. Até os nomes usados de pessoas dos outros partidos eram os mesmos. 

Não importa o que dizem os tribunais, não importa o estado de direito, nem sequer importa que maior parte dos iscos usados nem tenham cometido qualquer crime. Interessa, apenas, que o Ventura ensaia uma narrativa cheia de mentiras e omissões e os eleitores do Chega papam aquilo como se fosse Nestum em dia de preguica.

Julgo que foi o Daniel Oliveira (ou o Pedro Marques Lopes, não tenho a certeza) que disse que o BE seria mais castigado pelo despedimento das mães do que o Chega pela sucessão de casos com crimes (já provados). Não por causa da gravidade da accão do BE (não há comparacão com o furto de malas ou sexo pago com menores) mas por os eleitores do Bloco serem bem mais exigentes do que os do Chega (eu não diria apenas mais exigentes mas não me apetece falar do ensino obrigatório).

 A mensagem passou com sucesso. Já não se discute a absoluta miséria que são os quadros do partido de um homem só. Não se fala dos crimes. Não se massacra o Chega como o Chega massacrou, desde o seu primeiro dia, cada deslize dos outros partidos. Lembram-se da "vergonha" que foi repetida, aos berros, em cada sessão parlamentar desde que Ventura era deputado único?  

Tudo isso ficou para trás. O eleitorado do Chega fecha os olhos ao bando de criminosos e exalta com a bravura do líder que arruma a casa antes de continuar a limpar Portugal. Dou por mim sempre a pensar como é que há tanta gente com estas limitacões no raciocínio e na compreensão básica daquilo que acontece, aqui mesmo, em frente aos nossos olhos? Depois recordo-me que conseguimos ter taxas de abstencão em algumas eleicões de 60% e que, ainda há 4 ou 5 anos, metade da populacão nem o ensino obrigatório tinha.

Acabo este texto exactamente como disse que o iria terminar. Com pedófilos, ladrões, ilegais, corruptos e gajos que batem nas mulheres, o Chega ainda é capaz de subir nas intencões de voto.

Eles de facto são diferentes, o André é especial e vocês, que votam em gente desta, deviam ter direito a um cão-guia, para atravessarem a estrada.

Vou adiantando já servico, entre obras e arranjos. Deixo as notas dos próximos para não me esquecer:

1 - Venda de minérios raros na Ucrânia a troco de defesa 

2 - Gaza, riviera do Médio Oriente

3 - Palestinianos, vão para a terra deles! (jordanos/egípcios/sauditas)


ps - pizza napolitana devia ser património da Unesco (isto não podem ser só desgracas) 

2025 02 09

https://www.facebook.com/tiago.franco.735

domingo, 5 de janeiro de 2025

Miguel Esteves Cardoso - A Festa do «Avante!» chateia…

* Miguel Esteves Cardoso


 A Festa do «Avante!» é a maior iniciativa político-cultural do país. Ela é, como se sabe, o resultado do trabalho voluntário de milhares e milhares de militantes e simpatizantes comunistas. A forma como é tratada pela comunicação social dominante é um exemplo, dos mais evidentes, do silenciamento a é submetida nos jornais, revistas, rádios e televisões, toda a actividade do PCP. Uma actividade que, sublinhe-se, é maior do que a soma das actividades de todos os restantes partidos.

Quando não é o silêncio é a inverdade. Dizem-se muitas mentiras acerca da Festa do «Avante!»: que é irrelevante; que é um anacronismo; que é decadente; que é um grande negócio disfarçado de festa; que já perdeu o conteúdo político; que hoje é só comes e bebes.

As festas do «Avante!», por muito que custe aos anticomunistas reconhecê-lo, são magníficas. É espantoso ver o que se alcança com um bocadinho de colaboração. Não só no sentido verdadeiro, de trabalhar com os outros, como no nobre, que é trabalhar de graça. Mas não basta trabalhar: também é preciso querer mudar o mundo. E querer só por si, não chega. É preciso ter a certeza que se vai mudá-lo. Por isso o conceito do PCP de «colectivo partidário» parece provocar indisposições a muito comentador de serviço.

Porque os comunistas não se limitam a acreditar que a história lhes dará razão: acreditam que são a razão da própria história. É por isso que não podem parar; que aguentam todas as derrotas e todos os revezes; que são dotados de uma avassaladora e paradoxalmente energética paciência; porque acreditam que são a última barreira entre a civilização e a selvajaria.

Por isso sobre a construção da Festa cai um silêncio ensurdecedor.

Não há psicologias de multidões para ninguém: são mais que muitos, mas cada um está na sua. Isto é muito importante. Ninguém ali está a ser levado ou foi trazido ou está só por estar. Nada é forçado. Não há chamarizes nem compulsões. Vale tudo até o aborrecimento. Ou seja: é o contrário do que se pensa quando se pensa num comício ou numa festa obrigatória. Muito menos comunista. Todos os portugueses haviam de ir de cinco em cinco anos a uma Festa do «Avante!», só para enxotar estereótipos e baralhar ideias. Por isso, a Festa é um «perigo» que há que exterminar.

Assim se chega a outro preconceito conveniente. Dava jeito que a festa do PCP fosse partidária, sectária e ideologicamente estrangeirada. Na verdade, não podia ser mais portuguesa e saudavelmente nacionalista. Sem a orientação e o financiamento de Moscovo, o PCP deveria ter também fenecido e finado. Mas não: ei-lo. Grande chatice.

A teimosia comunista é culturalmente valiosa porque é a nossa própria cultura que é teimosa. A diferença às modas e às tendências dos comunistas não é uma atitude: é um dos resultados daquela persistência dos nossos hábitos. Não é uma defesa ideológica: é uma prática que reforça e eterniza só por ser praticada.

Enquanto os outros partidos puxam dos bolsos para oferecer concertos de borla, a que assistem apenas familiares e transeuntes, a Festa do «Avante!» enche-se de entusiásticos pagadores de bilhetes.

E porquê? Porque é a festa de todos eles. Eles não só querem lá estar como gostam de lá estar. Não há a distinção entre «nós» dirigentes e «eles» militantes, que impera nos outros partidos. Há um tu-cá-tu-lá quase de festa de finalistas. Por isso, ao Programa da Festa, anunciado em conferências de imprensa, são concedidas meia dúzia de linhas ou de segundos.

Ser-se comunista é uma coisa inteira e não se pode estar a partir aos bocados. A força dos comunistas não é o sonho nem a saudade: é o dia-a- dia; é o trabalho; é o ir fazendo; e resistindo, nas festas como nas lutas. Por isso a dimensão e o êxito da Festa chateiam. Põem em causa as desculpas correntes da apatia.

2006.09.03

In jornal "Público" - Edição de 3 de Setembro de 2010

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Luís Osório - A história de amor de Carlos Paredes com a jovem guitarrista por quem se apaixonou


* Luís Osório 

Na última semana antes do 25 de Abril, a história de uma amor improvável entre o génio Carlos Paredes e a jovem guitarrista por quem se apaixonou

1.

Conheci Carlos Paredes quando ele já só podia sorrir.

Em criança tinha estado com ele várias vezes, mas aí não conta, aí os adultos passam pelos filhos dos amigos como vinha vindimada, dão beijinhos e abraços, mas os beijinhos e abraços não são, na maior parte das vezes, vínculos de futuro.

O grande mestre da guitarra portuguesa era amigo do meu pai.

E foi nessa condição, de filho do meu pai, que a Luísa Amaro, sua companheira me desafiou para o ir ver ao Lar Nossa Senhora da Saúde, em Lisboa.

Corria o ano de 1994 ou 1995, por aí.

Fez trinta anos que entrei no seu quarto e ele me sorriu.

Já não falava, mas ouvia música.

E ainda via televisão.

2.

Infelizmente não voltaria a tocar.

A doença neurológica deixou-o dependente de cuidados durante nove anos.

Entrou no lar em 1993 e partiu no verão de 2004.

Quando a notícia chegou aos ouvidos dos portugueses alguns julgavam que já tinha morrido.

Acontece-nos muito, não é?

Deixamos de aparecer e morremos antes de morrer.

Carlos Paredes, o génio mais humilde que este país já conheceu, a partir de certa altura foi para dentro. Tinha os olhos abertos, mas já não via, deixara de sorrir.

Mas Luísa Amaro esteve sempre à beira da sua cama.

Caminhou para o lar todos os dias durante nove anos.

3.

Carlos convidara-a para tocar com ele.

Luísa acabara de fazer 25 anos e era uma enorme esperança da guitarra portuguesa. Católica e empenhada na carreira apaixona-se por Paredes depois do primeiro espetáculo que fizeram juntos.

Viveram dez anos dedicados um ao outro.

E depois Luísa viveu mais dez anos totalmente dedicada a Carlos Paredes.

Luísa Amaro, é justo que se diga, sofreu na pele o preconceito de uma sociedade que condenava as mulheres a serem párias.

Ouviu de tudo e ouviu até de alguns músicos – que estava com Carlos por interesse, que desejava aproveitar-se do seu nome e projeção, que não tinha direito a nada se ele morresse.

4.

Só que Carlos Paredes caiu numa cama e deixou de ser falado.

E ouvido.

Mas Luísa Amaro caminhou todos os dias para aquela cama onde se sentava, onde punha música, onde tocava para ele as partituras que compunha, onde lhe contava de temas domésticos, onde esperou até ao último minuto que voltasse a sorrir.

Nesta última semana antes do 25 de Abril quis recordar Paredes.

E homenagear essa extraordinária compositora, guitarrista e mulher de Carlos Paredes a quem voltarei a aplaudir no meu monólogo na Figueira da Foz.

2024 04 16

https://antena1.rtp.pt/programas-antena-1/a-historia-de-amor-de-carlos-paredes-com-a-jovem-guitarrista-por-quem-se-apaixonou

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Ricardo Araújo Pereira - Considerações sobre arte e bananas

Estranho Ofício
 
* Ricardo Araújo Pereira  

Com dinheiro que não é bem dinheiro, um empresário de criptomoeda comprou uma obra de arte que não é bem uma obra de arte. Parece-me apropriado

Durante a II Guerra Mundial, em resultado das restrições impostas pelo racionamento, os merceeiros do Reino Unido punham na janela um cartaz dizendo “Yes! We have no bananas” (“Sim! Não temos bananas”). Era uma referência a uma música muito conhecida, composta uns 20 anos antes, e pretendia contrariar, com alguma alegria, o infortúnio de não haver bananas. No entanto, por muita falta que as bananas fizessem, ninguém se lembraria de dar 6,2 milhões de dólares por uma, como acabou de fazer um empresário de criptomoedas. (Empresário é o nome que os jornais lhe dão. Eu chamo feiticeiro, porque não percebo o produto que ele transacciona nem o feitiço através do qual ele passa a ter valor. Os especialistas explicam que se trata de uma moeda digital com tecnologia blockchain criada através do processo de mining, o que significa que os especialistas também não sabem o que é.) Foi esse empresário que comprou a obra de arte que consiste numa banana colada à parede com uma fita adesiva cinzenta. Na verdade, ele não comprou exactamente a obra de arte. Ele comprou, digamos, a ideia da obra de arte. A troco de 6,2 milhões de dólares, ficou com um conjunto de instruções sobre o modo de expor a obra e um certificado de autenticidade que assegura que, sempre que ele colar uma banana à parede com aquela fita adesiva, essa será a obra verdadeira, diferente de qualquer outra banana que um de nós possa colar à parede com a mesma fita — que será apenas um objecto estúpido, a caminho de apodrecer e ir parar ao lixo. Ou seja, com dinheiro que não é bem dinheiro, ele comprou uma obra de arte que não é bem uma obra de arte. Parece-me apropriado.


JOÃO FAZENDA

Podemos considerar uma idiotice dar 6,2 milhões de dólares por uma banana, mas isso é ser insensível às qualidades da banana. 
Não contem comigo para ser insensível às qualidades da banana. A banana não é um fruto qualquer. A sua versatilidade, muito superior à das outras frutas, permite-lhe ser convocada para o universo humorístico, por causa da casca, para o universo sexual, por causa da forma, para o universo musical, por causa das suas três divertidas sílabas. Além disso, a banana é o único fruto que é também um insulto. Perante uma pessoa particularmente passiva ou cobarde, ninguém diz, pretendendo ofender: tu és mesmo umas uvas. Só a banana tem a potência necessária para ultrajar. A grande lição deste caso é esta: um banana comprou uma banana — o que acrescenta nova camada artística a uma obra já tão rica em significados.

Ricardo Araújo Pereira escreve de acordo com a antiga ortografia 

https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2718/html/revista-e/estranho-oficio/opiniao/consideracoes-sobre-arte-e-bananas

terça-feira, 12 de novembro de 2024

José Eduardo Agualusa - Magníficos perdedores

José Eduardo Agualusa


15/08/2016 4:00

Não se trata de triunfar sobre o outro, trata-se de fazer triunfar a humanidade

Gosto de seguir a Olimpíada não tanto para me surpreender ou maravilhar com os resultados desportivos, muito menos para torcer por esta ou aquela bandeira, e sim devido às histórias de vidas que se dão a conhecer naquele imenso palco. Não me interessam apenas as histórias de superação e de vitória. Como crônico perdedor — no plano desportivo, e não só — sinto enorme empatia pelos derrotados. Não os que perdem por uma fração de segundo, os quase-vencedores, mas os que se deixam ultrapassar magnificamente — os que caem como quem se ergue; os que ficam para trás e transformam a derrota no maior dos triunfos.

O meu herói, o campeão dos perdedores, é, desde a Olimpíada de Sidney, em 2000, o grande Eric Moussambani. Moussambani, natural da Guiné-Equatorial, tinha então 22 anos. Aprendeu a nadar, com a ajuda de um pescador, apenas quatro meses antes da tarde histórica em que, pela primeira vez, saltou para uma piscina de 50 metros (até então nadara num rio e numa piscina de hotel, de 12 metros), completando os cem metros com o pior tempo jamais registrado: um minuto e 52 segundos.

O meu pai foi professor e treinador de natação, em Angola. Devo ter sido o seu pior aluno. Fui o pior nadador da história oficial da natação angolana. Ainda assim, nunca consegui um tempo tão ruim quanto o de Moussambani. Nunca gostei de linhas retas (sou da escola de Niemeyer), de forma que avançava às curvas, batendo de encontro às raias. A minha casa estava cheia de taças e medalhas, do meu pai, da minha mãe e da minha irmã. Finalmente, também eu ganhei uma medalha de segundo classificado em nado de peito. Detalhe: éramos apenas dois concorrentes.

A história de Eric: o rapaz varria a casa, naquele já distante início de milênio, quando escutou na rádio um convite do Comitê Olímpico da Guiné-Equatorial. Procuravam-se nadadores, num país no qual raros sabem nadar. Eric foi o único homem a voluntariar-se. Quatro meses mais tarde desembarcou em Sidney com umas bermudas floridas. O treinador da seleção sul-africana emprestou-lhe uma sunga, uns óculos de natação e ensinou-o a fazer a virada. Após a gloriosa derrota, que o tornou popular no mundo inteiro, Eric Moussambani poderia ter-se aposentado. Não o fez. Aproveitou um convite de Espanha e decidiu aprender a nadar. E aprendeu.

Quatro anos depois, Moussambani obteve os mínimos regulamentares para competir em Atenas (nadou os cem metros em 54 segundos), mas acabou não comparecendo devido a um erro administrativo. Hoje é o treinador da seleção de natação da Guiné-Equatorial.

Outros perdedores olímpicos famosos, tão famosos que a sua magnífica derrota inspirou um filme, foram os jamaicanos da equipe de bobsleigh — aquela corrida de trenó, com quatro pessoas dentro de cada um — dos Jogos Olímpicos de Inverno, em Calgary, no Canadá, em 1988. O caso deles é ainda mais extraordinário do que o de Moussambani, já que pelo menos existe água na Guiné-Equatorial. Na época até já havia uma piscina de 12 metros, num hotel, embora Moussambani só a pudesse utilizar de madrugada, durante uma hora, antes que os hóspedes acordassem. Na Jamaica não existe neve. Nunca. Os quatro bravos jamaicanos despistaram-se na prova inicial, mas conseguiram sobreviver ao desastre — e ao frio.

Neste ano, no Rio, duas perdedoras também fizeram História. As atletas egípcias de vôlei de praia, Doaa Elghobashy e Nada Meawad. Uma imagem de Doaa ao lado de uma atleta alemã correu o mundo — Doaa usando o tradicional hijab , calças legging e camiseta de manga comprida; a atleta alemã, Kira Walkenhorst, vestindo biquíni. Foi a primeira vez que o Egito disputou uma Olimpíada na modalidade. A fotografia serviu de pretexto para uma intensa discussão sobre diferenças de cultura, fanatismo religioso e liberdade da mulher. Curiosamente, poucos fotógrafos se interessaram em retratar Nada, a qual optou por se apresentar sem o véu islâmico. As duas mostraram grande coragem, mas provavelmente Nada mostrou mais. Assediada pela imprensa Doaa assegurou que o hijab não a incomoda enquanto joga. Não disse — mas suspeito — que a incomoda mais a curiosidade do público e dos jornalistas. 

Com véu ou sem véu, a alegria das duas mulheres por estarem ali, num evento tão importante, competindo com as melhores (ainda que elas mesmas não tivessem sequer noção de quem eram as melhores) representa o lado mais luminoso daquilo que se costuma chamar espírito olímpico — e do qual, quase sempre, nos esquecemos: não se trata de triunfar sobre o outro, trata-se de fazer triunfar a humanidade.

https://oglobo.globo.com/cultura/magnificos-perdedores-19921976

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

Carlos Coutinho - [As clarissas em Portugal]



* Carlos Coutinho

2024 10 16

JULGO que poucos serão os conhecedores de que as clarissas são as autoencurraladas monjas da Ordem de Santa Clara., organização católica romana que dispôs de um enorme poder económico e político-militar, instalada que foi num imponente convento edificado às suas ordens na foz de um rio desprovido de asas, o Ave, em Vila do Conde, terra do poeta presencista que ao vai “por aí”, José Régio e que era colecionador de crucifixos, além de irmão de um notável pintor, Júlio, que também escrevia versos.

   Muito menos ainda serão os que sabem ter a Ordem de Santa Clara, meio século após ter chegado a Portugal, abriu em Lamego, Alto Douro, em 1254, o seu primeiro convento, sob a jurisdição dos franciscanos, que gostavam de “escadas a subir para o céu”, tendo alegadamente surgido de um sonho que Teresa Martins e Afonso Sanches, filho bastardo de D. Dinis, em que um “fumo odorífero” brotava do interior da terra. Aliás, segundo o cronista franciscano Manuel da Esperança, na sua “Corte da Glória”, tal foi um fenómeno recorrente em Portugal, em diferentes séculos e lugares, tendo o também franciscano e cronista frei Fernando da Soledade deixado escrito que uma mulher de “aprovada virtude” sonhou igualmente, no século XVI, com os mesmos odores no mesmo lugar, o que levou  mais tarde a rainha D. Leonor, a das misericórdias, a  ter a mesma “visão” aromática e a mandar construir em Lisboa o Convento da Madre de Deus que agora, para desgosto de muitos turistas, tem as portas sempre encerradas, não vá o Diabo tecê-las.

      De acordo com a sua carta de fundação, o ascetário de Vila do Conde destinava-se a jovens fidalgas descendentes de famílias nobres caídas em ruina. O regime era de clausura absoluta e, em contraste com o riquíssimo património do mosteiro, “tudo era muito pobre”, garante frei Fernando da Soledade: as freiras andavam descalças e vestiam apenas uma túnica de sarja ou um silício  de tecido grosseiro; nas celas tinham como cama alguns ramos de carqueja e cobertas pobres; consumiam dietas frugais de peixe e vinho, água e pão.

   Francamente, para mim, andar sem cuecas ainda vá lá - já tenho visto gente assim -, mas dormir em cima de uns agrestes ramos de carqueja, só as brasas com que se cozia o pão e o arroz do forno na minha casa da infância.

   Havia, no entanto, fartura por ali. Pescava-se no rio Ave trutas, sáveis e lampreias e no porto de mar as embarcações dos pescadores locais prodigalizavam peixe todo o ano. As searas tinham abundância de trigo, milho e centeio, árvores de fruto e boas hortaliças. Duas vezes por mês, havia feira franca no largo principal e a pacatez estabelecida era apenas quebrada uma vez por ano, durante a grande Feira de Santo Amar, que durava três dias e era montada no terreiro da capela homónima. 

   A vila, segundo a investigadora Maria José Oliveira, era pequena, mas bem dotada de autoridades locais – tinha alcaide e três vereadores, juízes de fora, dos órfãos da alfândega, escrivães e tabeliães, procurador do concelho e almoxarife, instituições públicas – (câmara, tribunal, casa da misericórdia, hospital e cadeia). Nenhuma notabilidade, porém, conseguia competir com o poder das freiras de Santa Clara, proprietárias de um vasto conjunto de herdades, coutos, lugares e vilas que mantiveram ferreamente os seus bens, rendas, padroados e aforações durante mais de cinco séculos. Em alguns momentos, esse poder foi disputado e guerreado com corregedorias, provisores e cúpulas eclesiásticas. 

   Em 1511, por exemplo, o bispo de Ceuta excomungou-as, depois de elas se terem barricado no convento, trancando portas e encerrando as igrejas, como protesto contra reformas decretadas pela Igreja Curiosamente, diz a investigadora, o mesmo método foi replicado no ano passado num convento de Burgos, Espanha, por freiras também da Ordem de Santa Clara). 

   Por vezes, irrompiam motins e rebeliões internas, com as clarissas a exigirem mudanças na cúpula conventual, alegando inquietações e injustiças, como regista abundante documentação do século XVI, quando o mosteiro deixou de ter o senhorio de Vila do Conde, mas a sua influência a diminuiu: a abadessa continuava com o privilégio de nomear diretamente as autoridades administrativas da terra: mantinha, terras, rendas, direitos reais, dízimos, tributos sobre o peixe, o pão e o sal; e eram donatárias da barca de passagem do rio Ave que lhes garantia opulentas receitas. 

   Quem diria…

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quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Carlos Coutinho - artigo de opinião

 * Carlos Coutinho

2024 10 03

ASSIM se vê a força da TV, isto é, a força das imagens que ontem fez um milagre na página 8 do “Público”, escarrapachando a opinião de dois historiadores, personalidades muito informadas, mas simétricas, que sentiram necessidade de convergir publicamente, já que as guerras nos estão a sair a todos muito caras e ninguém sabe como elas vão acabar. Ao fim da tarde, já noite em Beirute, vimos os clarões róseos e brancos do fogo no centro de Beirute, em direto, instantes depois de mais um bombardeamento ao centro da capital libanesa.

   Eis o que escreve o académico e ex-ministro da Administração Interna, num governo do PS, Nuno Severiano Teixeira”:

   “O Médio Oriente está a ferro e fogo. Gaza está arrasada e o Líbano em convulsão. Israel ébrio de vitórias táticas e o Irão condicionado por um dilema estratégico- Os Estados Unidos apelam à paz e Netaniahu faz a guerra. Sob a vertigem do dos acontecimentos e a ameaça de um conflito em larga escala, é difícil ver claro. Mas há duas perguntas fundamentais: como é que tudo começou? E como é que vai acabar?

   “Começou há mais de um século. É um conflito que atravessou várias fases e diferentes configurações. Entre as duas guerras, ainda sob o mandato britânico da Sociedade das Nações, assumiu a forma de uma guerra civil. Nos anos 30, os palestinianos revoltaram-se contra a instalação de judeus em Israel e contra os britânicos que a facilitaram.

   “Depois da fundação do Estado de Israel, entre 1948 e 1973, o conflito assume a forma de um conflito clássico interestatal. Os palestinianos desapareceram da equação e as grandes resoluções do Conselho de Segurança da ONU nem sequer os mencionam. O conflito é entre exércitos regulares de Israel e dos estados árabes. É tempo da chamada ‘guerra israelo-árabe’. E das grandes vitórias israelitas: 1948, 1956 e, sobretudo, a Guerra dos Seis Dias, em 1967, e do Yom Kippur, em 1973. A partir de então, o conflito muda uma vez mais de configuração e aproxima-se de uma guerra assimétrica entre as forças palestinianas e o Estado de Israel. Este processo é acompanhado por uma ampla dinâmica: de desarabização do conflito e apropriação palestiniana da sua causa. Desde os acordos de paz de Camp David, em1978, que, primeiro o Egito, depois os outros estados árabes se vão afastando do conflito. Em 1993, nos acordos de Oslo, são os próprios palestinianos, através da OLP, que assinam, a paz com Israel.
 
  “Em casa, enquanto Israel vai consolidando o seu poderio militar, os palestinianos vão alimentando a sua revolta nas sucessivas intifadas 1987-1993, e 2000-2005. Uma coisa é certa: a desarabização do conflito e reapropriação palestiniana é acompanhada pelo desenvolvimento da guerra assimétrica. E é a retirada dos estados árabes que permite a entrada do Irão. Em 1988, depois da guerra Irão-Iraque, o Irão decide substituir os estados árabes no apoio à causa palestiniana e construir uma rede de influência regional de atores não esttais, explorando, precisamente, a guerra assimétrica: o Hamas, ;o Hezbollah; a Jihad Islâmica e os houtis. 

   “Agora, como é que tudo isto voa acabar?”

   O professor da Nova não sabe e eu também não. Sei que, capciosamente o Nuno Severiano finge desconhecer que Israel financiou o Hamas, porque era a forma de atacar por dento a OLP. Arafat acabou por morrer envenenado E Telavive até já tem ogivas nucleares… Adiante.

   Eis agora o que escreve o académico o ex-deputado do PCP Manuel Loff:

   “Até ontem, os países da NATO, um após outro, exortavam Israel a não invadir o Líbano e enviavam a este país aviões… para recolher o seu pessoal diplomático eos cidadãos que queiram e, num país onde um milhão de pessoas (uma em cada cinco) tiveram de fugir de casa, se conseguiam sair. Mas não enviaram aviões de combate para reforçar as Forças Armadas libanesas contra o invasor israelita, como fizeram com a Ucrânia. O que vale para a Ucrânia não vale. Num ano inteiro não valeu para Gaza, a Cisjordânia, territórios invadidos não há dois mas há 67 anos. Num ano morreram incomparavelmente mais civis em Gaza do que em mais de dois anos e meio na Ucrânia – e Biden e Von der Leyen pedem aos países árabes a mesma desescalada e diplomacia cujo oposto praticam intensamente há anos na Ucrânia. 

   “É insólito este medo de uma guerra generalizada na boca de quem governa deste lado do mundo. Ontem mesmo, Biden deu as ordens necessárias para comprometer (mais inda) os EUA nas guerras de agressão israelitas. Depois de terem justificado a chuva de mísseis sobre Beirute como uma merecida punição do Hezbollah, os EUA substituíram-se aos israelitas na interceção dos mísseis iranianos para proteger Netanyahu e os genocidas que o acompanham. E disponibilizam para a guerra os c43 mil soldados que, por vezes contra a vontade dos respetivos governos, têm na região. E assim se procura ‘evitar a guerra’.

   “A discussão da dualidade de critérios não é apenas moral. Ela tem implicações diretas nas vidas de milhões de pessoas. A dualidade mata. Em Gaza, na Cisjordânia, Israel comporta-se como um dos ocupantes mais sinistros da história, perpetrando represálias sobre população a população civil em termos que reproduzem as represálias nazis sobre as populações dos países ocupados na II Guerra Mundial, ou as dos norte-americanos no Vietname, dos franceses na Argélia. Neste momento, com o fluxo imparável de material bélico ocidental, Israel dispara (e mata) em todas as direções: Irão, Síria, I énen e agora, sobretudo o Líbano. Por enquanto ordena deslocações de populações; depois passará diretamente às deportações, seguindo o exemplo de Gaza. Bombardeia cidades ed campos de refugiados - dois milhões de palestinianos que na Nakba de 1948 expulsaram das suas casas, dos sírios que procuraram fugir da guerra que o Estado Islâmico e as guerrilhas que a Turquia (membro da NATO) e os EUA armaram em 2011.
   “Os EUA e Israel são há muito aquilo que no glossário imperial se tem chamado ‘Estados párias’: sequestros em prisões ilegais, tortura sistemática, assassinatos contrariando qualquer forma de direito nacional ou internacional. Israel é o Estado do planeta que mais resoluções da ONU incumpre, o seu chefe de governo tem um mandado de captura internacional, ataca estruturas e instalações das agências da ONU e assassina os seus funcionários (e médicos e jornalistas. E crianças…). E, contudo, aí estão os governos da EU a proibir por ‘antissemitas’ manifestações de solidariedade com as vítimas palestinianas e exigindo boicote e sanções a Israel. (…) As guerras israelitas, a sua necropolítica genocida, as décadas de ocupação impune, aplaudida, justificada, dizem tudo o que é hoje o Ocidente. A nossa posição perante elas diz tudo de cada um de nós.”

https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896

Carlos Coutinho - [o Povo eleito por Deus]




* Carlos Coutinho

2024 10 03 
 
BARACK Obama é um providencial norte-americano cedo sentiu a necessidade de o demonstrar isso mesmo, a todo o momento, já que não é branco e, ainda por cima, nasceu em Honolulu, no Havai. 

   Caso contrário, nem candidato poderia ser e, se o fosse, estava sujeito a um fim semelhante ao de Luther King. E, se por qualquer confusão dentro do eleitorado, fosse para a Casa Branca, o que o podia esperar era um fim semelhante ao dos irmãos Kennedy.  Daí que uma das suas mais significativas cautelas enquanto presidente fosse uma arenga hipernacionalista na Academia de West Point, em 2014, enaltecendo o ”excecionalismo  americano” segundo o qual “os EUA têm direito de governar o mundo”, direito adquirido com a Guerra Fria.  

   Na sua versão, explicitada aos futuros oficiais das forças armadas do Tio Sam, “os EUA são e continuarão a ser a única nação indispensável”, que levou, anos depois, um coronel português notável enquanto escritor e historiador, Carlos Matos Gomes, a considerar (in Medium.com) que, na Palestina ocupada, essa política é uma continuada guerra de extermínio”, um “lento genocídio” que alimenta o projeto de Israel num estado judaico , um estado racialmente puro, só para os judeus, os arianos da região. 

   Como eu não podia estar mais de acordo, também não vejo diferenças na política norte-americana praticada no Médio Oriente e noutras partes de mundo, com ou sem a NATO servi-la.

A verdade, porém, é que o moreninho Barack, cristão protestante como tantos caçadores de índios de origem europeia, nem sempre se comportou como o mais nacionalista dos norte-americanos e até se dotou de um vice-presidente católico romano, Joe Biden, bem conhecido pela teia de interesses em que se meteu, sobretudo na Ucrânia, tal como Hunter, seu filho, encarregando-os de coordenar a política da Casa Branca para essas partes do planeta mergulhadas em guerras longas. 

   Confortado com esta realidade, o primeiro ministro Netanyahu, com a justiça à perna por vigarices várias e exibindo o seu desprezo pela ONU, a pontos de agora até declarar o seu secretário-geral, António Guterres, “persona non grata”, proibindo-o de entrar em Israel, e marimbando-se para o Direito Internacional, afirmou na cerimónia de posse do seu novo governo que “o povo de Israel tem o direito exclusivo e incondicional a todas partes das terras de Israel”  - incluindo os Montes Golã (da Síria), bem como a Judeia e a Samaria (territórios da Cisjordânia palestiniana) – e garantiu que continuaria a instalar colonatos e terra palestiniana.

   Também ao apresentar publicamente o último relatório submetido ao Conselho dos Direitos Humanos da ONU, reunido em Genebra, a relatora especial da ONU Francesca Albanese acusou Israel de haver “transformado os territórios palestinianos ocupados numa prisão a céu aberto, na qual os seus habitantes são permanentemente confinados, vigiados e punidos (…), considerados culpados de crimes não provados”, num processo de “encarceramento em massa”, além de submetidos a “bloqueios, muros, infraestruturas segregadas, postos de controlo e colonatos que cercam as suas cidades e vilas, centenas de autorizações burocráticas e uma teia de vigilância digital que empurram cada vez mais os palestinianos para uma continuidade carcerária, através de enclaves controlados”.

   O que eles aprenderam com Hitler…  E como gosram de o imitar!

   Talvez seja de recordar que os EUA de Obama estão na Europa, na América Latina, no Médio Oriente e na Ásia com bases militares que servem para impor as suas “regras”, sendo que os dois partidos alternantes no poder dependem dos fundos provenientes da indústria bélica para financiarem as suas campanas eleitorais. 

   E são pressionados pelos fabricantes de armamento, sabendo Obama, tal como os seus antecessores e sucessores, que desafiar o a economia de gurra permanente significa ser-se rotulado de antipatriota.
   Manda o tal “complexo militar industrial” e o resto são cantigas. 

Contou o monstruoso e insigne Brzezinski, um governante americano ex-polaco, que os EUA investiram cinco a seis milhões de dólares a empurrar a URSS para o Afeganistão, revelando que o grande democrata James Carter assinou a primeira diretiva para ajuda secreta aos oponentes do governo de esquerda do Afeganistão, organizando, armando, doutrinando e financiado os talibãs e outros grupos terroristas formados em diversos países. 

   O resultado foi mais de um milhão de mortos e o hediondo retrocesso civilizacional a que estamos a assistir. Neste momento as mulheres já são proibidas de aprender a ler e escrever.

   O prof. Daniel Bessener (Universidade da Washington) estudou os feitos mais marcantes do “século americano” e apurou que os EUA, durante a Guerra Fria, os EUA impuseram “modificações de regime no Irão, Guatemala, República Democrática do Congo, Guiana Britânica, Vietname do Sul, Bolívia, Brasil, Panamá, Indonésia, Síria e Chile, matando Lumumba e Allende.  

   Gabriel  Rockhill, por sua vez, afirma que os EUA são o único país que, nos tempos recentes, “se esforçou para derrubar mais de 50 governos estrangeiros; estabeleceu uma agência de inteligência que matou pelo menos 6 milhões de pessoas nos primeiros 40 anos a sua existência; desenvolveu uma draconiana rede policial-vigilante para destruir quaisquer movimentos políticos domésticos que desafiassem o deu domínio; construiu um sistema de encarceramento em massa que tem detida uma percentagem da população maior do que qualquer outro país do mundo e que está inserido numa rede global de prisões secretas e regime de tortura.”

   O historiador Paul Thomas Chamberlain calcula que pelo menos 20 milhões de indivíduos morreram em conflitos da Guerra Fria, o equivalente a 1 200 de mortes por dia, durante 45 anos”, cita o prof. António Avelãs Nunes em “Este É o Tempo dos Monstros”

Acho que cega de estatísticas v e notícias de necrotério. 

   Fiquemos por aqui.

“O Massacre dos Inocentes”, segundo Rubens. Ordenado por quem? Por Herodes, um rei judeu ao serviço do Império Romano. Hoje, o que era mais certo era que ele se chamasse Netanyahu, visto que é o Sacro Império Romano-Americano que o atual mostrengo judeu está a servir. Embora nem sempre pareça…

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quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Crónica de Carlos Coutinho: PODE o ponto de vista explicar tudo, evidentemente

* Carlos Coutinho

PODE o ponto de vista explicar tudo, evidentemente. Homero, que não escreveu nem um único verso da “Odisseia”, embora o culpem disso há três milénios, é citado como havendo deixado para a posteridade os versos que a contemplação do mar lhe inspirava, neles pondo a sua ideia de humanidade: “Os homens são como as ondas /Quando uma geração floresce, a outra declina.”

   Virgílio, logo a seguir, no seu latim puríssimo, também cedeu à inspiração produzida pelas imagens: “Enquanto os rios correrem para o mar, os montes fizerem sombra aos vales e as estrelas fulgirem no firmamento, deve durar a recordação do benefício recebido na mente do homem reconhecido."

   Petrarca, o italiano inventor do soneto como poema de 14 versos, definia-o como “a forma perfeita” da poesia. E escreveu:   “Amor, comigo noutro tempo estavas / Entre estas margens do pensar amigas / E p'ra saldar nossas razões antigas / Comigo e o rio arrazoando andavas: / Floras, frondes, sombras, ondas, antros, cavas.” 

   Também Gil Vicente pôs por escrito: "Vi venir serrana, gentil, graciosa, cheguei-me per'ela com grã cortesia.”

   Já o Zé Gomes Ferreira confessava: “Do que sou /ao que penso /paira um voo / suspenso… // Mas tão subtil /que nem ata / o pântano vil / à nuvem de prata. // (Homem: não tenhas vergonha / de ser pântano como eu. / o pântano é que sonha / a nuvem do céu).”   

   Ora, o velho Casc, numa das suas crónicas mais citadas, confessa que se ajoelhou maravilhado e frisa: “Nem um único exemplar da curial pilosidade púbica se contorcia nas proximidades da grande ranhura erótica, embora o suave cômoro venusino iniciasse curialmente, com absoluto langor imaginário, a maciíssima planura abdominal que uma cratera apagada vesuvianamente definia lá longe.” 

  Nas artes plásticas a coisa também não difere muito. Botticelli, por exemplo, quase enlouqueceu enquanto pintava “O Nascimento de Vénus”, porque o corpo da deusa ia ficando excessivamente perfeito, e Picasso, para esquartejar um cavalo e um toiro na “Guernica”, teve de os acompanhar de outros fragmentos vivos. Até de humanos gritantes.

2024 09 09

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DOS múltiplos e interessantíssimos efeitos nunca bem explicados que são produzidos pelas imagens, como aleguei no meu apontamento de anteontem, recordo um fragmento de “A Epopeia de Gilgamesh” na versão de um grande poeta português já falecido, Pedro Tamen, que se serviu da tradução de António Ramos para nos lembrar que, muito antes de Homero e Virgílio, alguém grafou em tabuinhas de barro, 1 500 anos antes da “Ilíada” – ou “Odisseia”, como queiram –  que em Uruk vivia Gilgamesh e que “ninguém prevaleceu contra ele, pois ele é forte como uma estrela do céu". 

   E sentenciou:
   "Vai a Uruk ter com Gilgamesh e exalta a força desse selvagem. Pede-lhe que te dê uma cortesã, uma prostituta do templo do amor; regressa com ela, e o seu poder de mulher dominará esse homem. Quando ele descer para beber nos poços, ela estará nua; e quando ela vier fazer-lhe mal, há-de abraçá-la; e então os animais bravios haverão de rejeitá-lo”. 

   As tabuinhas foram encontradas e traduzidas seguidamente para aramaico, tendo o escriba depositado o seu trabalho no palácio de Assurbanípal, “o Rei do Mundo” que, de facto, só era rei da Assíria, o que dá para pensar que, “quando os deuses criaram Gilgamesh”, o que fizeram foi, afinal, “o último grande rei do império assírio, um temível guerreiro que devastou o Egito e Suso” e que também “juntava livros numa biblioteca fabulosa” com “narrativas históricas sobre o seu tempo, poemas, textos religiosos científicos”, como e os considerava, após ter esquadrinhado “os arquivos das cidades onde essa cultura florescera, como Babilónia, Uruk ou Nippur”, filas e filas de “tabuinhas esbranquiçadas, em forma de pequenas almofadas cobertas de minúsculas incisões, de desenho tão apertado que evocam um formigueiro emaranhado e fervilhante”.

   Ou seja, “quando os deuses criaram Gilgamesh, deram-lhe um corpo perfeito. Shamash, o glorioso Sol, dotou-o de beleza; Adad, o deus da tempestade, dotou-o de coragem; os grandes deuses fizeram perfeita a sua beleza, que ultrapassava todas as outras e que aterrava como um grande touro selvagem. Dois terços o fizeram deus e um terço, humano. Em Uruk ele construiu muralhas, uma grande fortaleza e o bendito templo Eanna, para Anu, o deus do firmamento, e para também para Ishtar, a deusa do amor.”

   Todavia, também diz o supra-referido escriba que “Gilgamesh andou por terras estrangeiras, através do mundo, mas até regressar a Uruk ninguém encontrou que pudesse resistir aos seus braços. Porém, os homens de Uruk murmuravam em suas casas”, que “Gilgamesh toca o sino para se divertir, a sua arrogância não tem limites, nem de dia nem de noite. Nenhum filho é deixado com seu pai, porque Gilgamesh os tira a todos, mesmo às crianças. E, contudo, o rei deveria ser um pastor para o seu povo. O seu desejo não deixa uma só virgem para aquele que ama – nem a filha de um guerreiro, nem a mulher do nobre; contudo, ele é o pastor da cidade, sábio, gracioso e resoluto.”

   Daí que também eu tenha alguns segredos a preservar até não sei quando – por exemplo, não voltarei a certos lugares que foram muito importantes para mim nos últimos anos. 

      Momentos do pastor "dois terços divino e um terço humano"

2024 09 10 

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domingo, 8 de setembro de 2024

Crónica de Carlos Coutinho: ALGUMA vez alguém havia de ter sorte na sua encomenda

?  Carlos Coutinho 

ALGUMA vez alguém havia de ter sorte na sua encomenda. Ontem foi o meu furão de alimentos citáveis que cheirou e abocanhou delícias como esta que Jorge Luís Borges guardou na sua coletânea de contos que intitulou como “Livro de Areia” e que tem uma particularidade tão antiborgesiana quanto misteriosa, “porque nem o livro nem a areia têm princípio ou fim”. Foi, de resto, o que facultou a Albano Martins a grande oportunidade dar vazão ao seu voraz apetite de sempre pôr os pontos no is, escrevendo:
  
        “Há, na praia, um livro aberto onde se contam as histórias que ali tiveram seu fim e seu princípio. Cada grão de areia é uma letra dessa história. Levo para casa um punhado dessa areia.”

        Já Sophia de Mello Breyner Andresen sonetava na mesma altura de modo bem diverso. Assim: 

           Em todos os jardins hei-de florir,
           Em todos beberei a lua cheia,
           Quando enfim no meu fim eu possuir
           Todas as praias onde o mar ondeia.

          Um dia serei eu o mar e a areia,
          A tudo quanto existe me hei-de unir,
          E o meu sangue arrasta em cada veia
          Esse abraço que um dia se há-de abrir.

          Então receberei no meu desejo
          Todo o fogo que habita na floresta
          Conhecido por mim como num beijo.

          Então serei o ritmo das paisagens,
          A secreta abundância dessa festa
          Que eu via prometida nas imagens.

Nada disso obstou, no entanto, a que Lisboa fosse afogada por turistas, como antes acontecera a Veneza, bem como à sua herdeira Barcelona, e se prepara para o litoral algarvio. É o sobreturismo (overtourism, para os anglofalantes) de que ontem falava António Guerreiro numa assustada e assustante crónica jornalística, informando que na cidade dos doges “o ratio atual, segundo dados oficiais, é de 73,8 turistas por cada habitante”.    

          Na página o lado, também no “Público”, numa saborosíssima prosa com que não estou de acordo em menos de 10% das asserções, Ana Cristina Leonardo discorre sobre o uso do gerúndio no Brasil e no Alentejo, onde os respetivos falantes locais se arrogam no direito de mexerem no nosso idioma como lhes dá mais jeito. 

          Só que mexem também noutras coisas, mas disso evita a cronista falar. E sempre vai dizendo com algum excesso que “temos uma língua abastardada, desrespeitada” e que os brasileiros ultrapassam os 220 milhões, bem como “aqui no monte os avós queixam-se”, desabafando da seguinte forma: “Os meus netos no infantário já falam brasileiro.”

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quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Carlos Coutinho - Fátima (em árabe فَاطِمَة ٱبْنَت مُحَمَّد)

Carlos Coutinho

2024 09 04
 
MAL sabia a filha mais nova de Maomé, uma muçulmana dos quatro costados, Fátima (em árabe فَاطِمَة ٱبْنَت مُحَمَّد, mas em termos romanizados Fāṭimah bint Muhammad) que o seu nome haveria de identificar um catolicíssimo e imponente santuário no luso distrito da Leiria que até papas e bispos aos molhos já teve em exercício litúrgico, nas peregrinações anuais e nas mensais, somando todas muitos milhões de devotos, uns calçados e outros descalços, uns em pé e outros a rastejar ou mesmo de joelhos.

   A Senhora que veio cá chama-se Maria e teve pelo menos um filho que morreu crucificado no Gólgota, mas revirginou-se para se exceder em pureza e poder vir dez vezes à Cova da Iria, dentro de um manto branco absolutamente virginal e etéreo, como tudo que sai do céu. 

   Mergulhou em voo vertical de olhos abismados pelo azul celeste e poisou no ramo cimeiro de uma azinheira, porque não trazia sapatos que pudessem pisar o chão pedregoso da charneca insada de sardaniscas, lacraus e formigas abusadoras.

   Escolheu sempre os dias 13, por serem os do azar e, talvez, por pensar que com o azar dos outros podia ela bem, mas na quarta partida, por se ter distraído a folhear a agenda, só cá apareceu no dia 9, coisa de que papas e bispos guardaram para si e impuseram como segredo teológico, por que se estava em 1917 e havia guerras por todo o lado. Até em certos conventos.

   Como sempre, a S.ª D. Maria não resistiu a falar de profecias inverosímeis aos três pastorinhos analfabetos que passaram a ir ao seu encontro em traje domingueiro e penteadinhos a rigor. Diz quem viu que, numa das “aparições” o Sol tremeu, como se tivesse entrado em pânico ou o acometesse um orgasmo cósmico. Com o tempo, o santuário de Fátima legitimou os fabulosos negócios da água benta vendida ao garrafão e em frasquinhos popularuchos, aliviado de impostos e sempre enriquecendo mais os cofres do banco do Vaticano.

   Enfim, a S.ª D. Maria pode ainda gabar-se de glórias e milagres às dúzias, mas a verdade é que estará sempre muito longe de possuir uma biografia palaciana, mundana e celestial como a da verdadeira Fátima, a que nasceu em Meca e foi morrer a Medina, tendo vivido menos de 30 anos e dado à luz dois filhos que foram califas. A sua mãe chamava-se Cadija e fora a primeira esposa do primeiro escolhido de Alá, Maomé. Quanto a ela, apenas se casou com Ali, que foi o quarto califa para os sunitas e o primeiro para os xiitas.

   Antes, no entanto, passou por grande pobreza, azar que só despareceu quando a comunidade a que pertencia pôde comprar terras e propriedades, em resultado das primeiras conquistas sob comando de Maomé. Presenteou Ali, o marido, com três filhos. A saber, Haçane, o segundo imã xiita depois de seu pai e, por um curto período, também o califa dos muçulmanos; e Huceine, o terceiro imã xiita, cujo martírio em Carbala deixaria uma impressão indelével tanto na psique xiita quanto na história islâmica como um todo; e Moḥassen (ou Moḥsen, morto muito jovem). Fátima também deu à luz duas filhas, Umm Cultum e Zainabe.

   Os relatos conhecidos dizem que em seus últimos dias, Maomé juntou Ali, Fátima e seus dois filhos sob seu manto e disse-lhes: “Deus deseja remover a impureza de vocês, ó povo da casa [AHL AL-BAYT], e purificar-vos completamente você” (Q 33:33). Isso confirmou o estatuto sagrado de todos os cinco membros da casa de Maomé e, como resultado disso, eles são muitas vezes designados como o Povo da Capa (ahl al-kisāʾ, também conhecido em árabe como al khamsa e em persa como panj tan, sendo que ambos significam simplesmente “os Cinco”).

   Quando Maomé estava no seu leito final, em 632, Fátima e Ali cuidaram dele, enquanto a liderança da comunidade estava sendo decidida noutro lugar pelos associados de Muhammad Abu Bakr (falecido em 634), Umar Ibn AL-Khattab (falecido em 644) e seus aliados. Assim, foi implicada nos eventos que levaram à divisão entre os ramos sunita e xiita. Morreu jovem, um ano depois do pai. Diferem as opiniões quanto ao local onde ela foi enterrada.

    Para alguns Fátima foi enterrada no cemitério de Baqi, perto da casa de Muhammad; outros dizem que ela foi enterrada no terreno de sua mesquita continuando muito reverenciada pelos muçulmanos, especialmente pelos xiitas. Entre os outros nomes pelos quais ela é conhecida estão al-Zahra, “a Radiante”, al-Mubaraka, “a Abençoada” e al-Tahira, “a Pura”. 

   De acordo com as hagiografias xiitas medievais, seu casamento com Ali foi celebrado no céu e na Terra, descendendo todos os imãs xiitas desse casal. Também houve sempre quem dissesse que, por causa de sua pureza, Fátima não menstruava, como acontece s outras mulheres. Além disso, ela será a primeira a entrar no paraíso após a ressurreição e, como à Sr.ª D. Maria no Cristianismo católico, intercederá por aqueles que a honram e a seus filhos e descendentes, os imãs. 

   Embora o nome de Fátima não seja mencionado no Alcorão, os comentários xiitas apontam passagens que acreditam conter referências ocultas a ela, como Q 55:19, onde os dois oceanos de água que fluem juntos são interpretados como o reencontro de Ali e Fátima após uma disputa.

   Fátima deriva da raiz f–t–m, que significa “separar” ou “desmamar uma criança”. De acordo com uma tradição – da qual existem  algumas variantes –, a sabedoria de nomeá-la Fátima lucidez suprema está no facto de seus “descendentes” (dhurriyya), os xiitas e os devotos (muḥibb) de Fátima, serem separados de (fuṭima) o Fogo. Há também a crença de que uma das qualidades de Fátima é ser separada de todo o mal. O Profeta teria dito em várias ocasiões que Fátima mantém seus filhos e seus amigos e seguidores fora do alcance do Diabo. 

   De acordo com um hadith registado pelo imã al-Ṣādiq, Fátima tem nove nomes diante de Deus: Fátima, al-Ṣiddīqa, al-Mubāraka, al-Ṭāhira, al-Zakiyya, al-Rāḍiya, al-Marḍiyya, al-Muḥaddatha e al- Zahrāʾ. O facto de tais nomeações haverem sido fornecidas por Deus e consideradas atributos de Fátima afirma a sublime nobreza desses nomes. 

   Nas tradições esotéricas, a virgindade das deusas e as manifestações terrenas do sagrado feminino não se restringem à virgindade física. Possuem também conotações transcendentes e metafísicas, como ser inatingível, impecável, prenhe de possibilidades ocultas; ou, noutro nível, indeterminação e impenetrabilidade. Nesse mesmo sentido, a virgindade é vista como condição básica para a realização da plena recetividade feminina (qābiliyya), no sentido de estar pronta para suportar o peso do Verbo Divino e do Espírito Santo. A recetividade da Virgem Maria (Maryam) para levar a Palavra Divina, tanto na tradição cristã quanto de acordo com o Alcorão pertence a esta categoria. 

   A sunna e a literatura hadith enfatizam a virgindade de Fátima ao lado da de Maria. É por esta razão que ela recebe o título de batūl (comparável a virgem, embora também signifique uma mulher que não menstrua

   O nome Fátima é muito comum entre as mulheres muçulmanas. Na África negra utilizam-se as variantes Fatimata, Fatoumata e Fatou.

   A hamsá, ou Mão de Fátima, é um talismã usado por alguns muçulmanos que acreditam que ele pode afastar o mau-olhado. Também é usado como talismã no Judaísmo, por vezes adornado com estrelas da David, já que a mãe de Jesus era uma judia de Nazaré, tal como o Filho. Segundo a tradição judaica, esta é a mão de Miriam, irmã de Moisés e Arão, profetas que conduziram o Povo Escolhido, o povo judeu, do Egito até à Terra Prometida.

   De notar que Medina, a cidade que Fátima escolheu para ir morrer, tornou-se especialmente ilustre ao fornecer a um abutre português que viria a ser ministro das Finanças o nome com que subscreveu a cativação de várias verbas estabelecidas no Orçamento do Estado, gerando penúrias de que ainda estamos a sofrer.

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