“Correio” e “carteiro” confundem-se nas definições. Nos incêndios de Pedrógão, os carteiros foram fundamentais na procura de vítimas. Transformaram-se em “GPS” da protecção civil por conhecerem os caminhos, as casas e as pessoas. Mas os CTT têm é de se preocupar em "ter mais 45 milhões de euros nos resultados operacionais" a partir de 2020.
24 de Dezembro de 2017, 7:08 “correio” significava “pessoa que, antigamente, corria o território, para entregar mensagens, notícias, ordens e despachos”. O mesmo que “mensageiro” ou “estafeta”.
No plural, “correios”, traduz-se por “serviço público, no sector das comunicações, que se ocupa da recepção, transporte e distribuição de correspondência e encomendas postais, bem como da emissão e venda de selos e outros valores”.
O dicionário de onde se retirou a definição é de 2006, pelo que não poderia adivinhar a participação privada nos correios portugueses nem antecipar as recentes actividades bancárias (o Banco CTT começou a transaccionar em 2016). Menos ainda antever a notícia “CTT cortam 800 postos de trabalho e fecham balcões”.
Mais informação: “A partir de 2020, a empresa liderada por Francisco Lacerda quer ter mais 45 milhões de euros nos resultados operacionais.”
Dicionário: “Em 1520, começou a funcionar em Portugal o correio por terra, em 1881 o correio marítimo e em 1934 o correio aéreo.”
Visitando o presente, sabe-se que “correio electrónico” significa “sistema de transmissão de mensagens escritas de um computador para outro computador, via Internet ou através de outras redes de computadores, email”.
Entre passado e presente, há uma palavra maior, “carteiro”. Um “funcionário que tem a seu cargo a distribuição ao domicílio da correspondência”. Em qualquer geografia.
E foram fundamentais na procura de pessoas nos incêndios deste Verão. “Os carteiros têm sido o nosso GPS, pelo conhecimento profundo que têm daquela zona e de quem lá vive em cada habitação”, escreveu-se no PÚBLICO sobre Pedrógão Grande.
Existe o verbo “correar”, que significa “prender com correia”, “cingir”. Ao que parece, alguém quer “correar” os “correios”.
Por aqui, vamos continuar a prática de enviar cartas e postais em papel. Mais ainda no Natal. A greve pode atrasá-los, mas nunca chegarão tarde para o que queremos demonstrar e desejar. Boas Festas!
A rubrica Palavras, expressões e algumas irritações encontra-se publicada no P2, caderno de domingo do PÚBLICO
Encontro de Literatura Infanto-Juvenil da Lusofonia da Fundação “O Século” termina este sábado em Lisboa. Professores bibliotecários desmultiplicam-se em actividades de promoção da leitura. Fazem-no junto dos alunos, mas também dos outros professores, que lêem pouco.
A Rede de Bibliotecas Escolares já tem 20 anos
Definem um tema para o ano lectivo que se enquadre no projecto educativo da escola, seleccionam um conjunto de livros segundo critérios literários e estéticos de qualidade, planificam leitura orientada, articulam as actividades com a família e no final tentam que um escritor visite a escola.
Um breve resumo da experiência de dez anos da professora bibliotecária Lúcia Barros, do agrupamento de escolas António Feijó, em Ponte de Lima, partilhada no 2.º Encontro de Literatura Infanto-Juvenil da Lusofonia da Fundação “O Século”, que terminou neste sábado e levou escritores, ilustradores e narradores a 20 escolas da Grande Lisboa, abrangendo cerca de 2200 alunos.
“A promoção não vive do improviso”, disse a também investigadora na Escola Superior de Educação de Viana do Castelo (em promoção da leitura em família), lembrando que a Rede de Bibliotecas Escolares já tem 20 anos e afirmando que o trabalho junto dos professores continua fundamental, para que também eles leiam mais.
“Quando dou formação aos meus colegas, a primeira reacção que obtenho é a surpresa que mostram por haver tantos livros e de boa qualidade para crianças”, conta ao PÚBLICO, depois de apresentar a sua comunicação no painel “Os escritores, a promoção da leitura e as bibliotecas escolares”, que partilhou com os autores António Mota, Clovis Levi e José António Gomes.
Durante o encontro houve vários escritores que manifestaram o seu descontentamento por se aperceberem de que nalgumas escolas os professores estão impreparados para os receber, não conhecendo os livros nem os autores. Uma situação caricata contada por António Mota. “Numa escola, estava eu a autografar os livros aos miúdos e a professora, que não tinha livro, pediu-me para pôr o autógrafo numa folha de papel…”
Cinco minutos por dia
Lúcia Barros sabe que os professores são solicitados para inúmeras tarefas burocráticas que os esgotam e por isso compreende que, quando o professor bibliotecário se lhes dirige com um projecto de leitura, a reacção seja: “Mais trabalho?” Mas não é disso que se trata, “a ideia é optimizar o trabalho do professor, é isso que nós fazemos”, diz.
No caso do agrupamento em que trabalha (com 2200 alunos, oito estabelecimentos de ensino, sete bibliotecas escolares e duas professoras bibliotecárias), essa recusa inicial está praticamente ultrapassada, “os meus colegas quando estão a preparar o ano lectivo seguinte já vêm perguntar qual o tema escolhido para as actividades de leitura”.
Sublinha que veio ao encontro da lusofonia partilhar a sua experiência e não “dar uma receita”. Uma das práticas que deu a conhecer foi a da “leitura gratuita”, para o pré-escolar e 1.º ciclo. A saber: na sala de professores há uma caixa com livros, cada professor escolhe um e leva para a sala de aula. Nos cinco minutos iniciais, lêem um texto, um poema ou um capítulo. Não perguntam nada.
“No fim de um ano lectivo, os meninos ouviram 150 textos ‘à borla’, ninguém lhes pediu uma ficha de trabalho no fim. Ao fim dos quatro anos do 1.º ciclo, foram 600 textos que entraram na enciclopédia literária dos alunos”, conclui satisfeita. “Ao criarmos leitores de literatura, estamos a contribuir para a formação completa do indivíduo e do cidadão. Não é essa a missão da escola?"
Lúcia Barros alerta as escolas para o “bombardeamento editorial e autoral”. Conta que no início “rara era a semana em que não fosse à biblioteca um autor que precisava de divulgação ou uma editora que queria levar alguém à força”. Ao PÚBLICO disse que por vezes aparecem editoras com “três livros a dez euros e já com os papelinhos prontos para os alunos mostrarem aos pais”.
Pagar ao escritor
A professora de Português e de Francês recebe os escritores na escola depois de os alunos já estarem familiarizados com a sua obra e, usando as palavras de José António Gomes, diz que “os encontros com escritores devem culminar projectos de leitura”, mas admite que haja outras formas de trabalhar. O que não admite é “as escolas acharem que os escritores têm a obrigação de lá ir de borla”, no pressuposto de que “é uma oportunidade de divulgarem os livros”, diz. E acrescenta: “Ele nesse dia não produz e a escrita é a vida dele. É quase uma falta de respeito considerar-se que o escritor não deve ser pago.”
O escritor António Torrado, também convidado pela Fundação “O Século”, diz ao PÚBLICO: “Não recebo cachet. As escolas não têm meios e as câmaras reservam as verbas para os músicos, para as cantorias...”
Considera as idas a escolas “uma extensão do trabalho do escritor, sabemos que os nossos livros são lidos”. E gosta. “Mas fazer sessões com meninos e não encontrar um livro nosso é um desconsolo. Os escritores precisam de ser estimulados, é essa calda de ternura que nos mobiliza, dá força de vida e capacidade de trabalho para continuarmos.”
António Torrado admite que alguns autores não gostem: “Um escritor é um bicho do mato e pode ter receio de ser confrontado com as perguntas das crianças.” Como esta, que conta divertido: “Quantas vezes recebeu o Prémio Nobel?” Depois de responder “nenhuma”, o autor diz ter-se sentido “imediatamente descredibilizado”.
Para o escritor, só no convívio com as crianças é que lhe poderiam ter surgido brincadeiras com as palavras como a que uma menina motivou: “A almofada tem ‘fada’ dentro”, disse-lhe numa sessão. A seguir descobriram que “camaleão” tem um “leão” e uma “cama”. E foram surgindo mais palavras dentro de outras.
Deve haver sempre uma estante fechada, mas de fácil acesso. Pode até escrever-se "livros proibidos" na prateleira mais alta da estante e deixar ficar uma escada por perto. Ideias e memórias de António Torrado: "Eu sacava da biblioteca do meu pai os livros proibidos. Tinha uma chave. Abrir abria-se bem, para fechar é que tinha mais dificuldade. Li muita coisa sem perceber o que estava a ler."
(Maria João Fragateiro)
Mas também leu livros que entendia e de que gostava: "História de Dona Redonda e de Sua Gente, de Virgínia de Castro e Almeida; as obras de Erich Kästner; A Biblioteca dos Rapazes; Jack London; Júlio Verne." O seu fascínio por romances de capa e espada fê-lo querer praticar esgrima. Mas foi traído pela vista e pelos óculos. "Sou um desportista falhado", diz, entre o resignado e o divertido.
Não estava previsto tornar-se escritor, mas aconteceu. Depois de uma tentativa de estudar Ciências Económicas para dar seguimento à empresa comercial do pai, percebeu que "não tinha jeito nenhum para aquilo". Foi então para Direito. Mas adormecia nas aulas: "Dava-me muito sono." Um dia, um professor disse-lhe: "Quando estiver com sono, não venha à aula. É que me desmotiva muito"." Compreendeu, mas envergonhou-se tanto que foi para a Faculdade de Letras. E estudou Filosofia.
Acabou por se tornar escritor e, segundo Leonor Riscado, professora de Literatura para a Infância e Juventude na Escola Superior de Educação de Coimbra, "um criador de primeiríssima água. Sherazade dos tempos modernos, alia à sólida cultura do filósofo a prodigiosa imaginação de um Andersen. A capacidade única de criar enredos surpreendentes - de preferência para as crianças, mas também para os adultos - é sustentada por palavras enxutas, envoltas em marcas de oralidade. Na sua escrita, gerida com mão hábil de um dramaturgo residente, as contas do colar vão-se juntando no fio com que constrói contos, poemas e textos dramáticos. O olhar de António Torrado sobre as pequenas e grandes coisas, as pessoas, o mundo, afinado pelo registo da ironia, do humor ou da ternura abre o apetite dos leitores, que saboreiam o delicioso mil-folhas que é a sua obra".
Pelo primeiro texto que escreveu para o Diário Popular, recebeu "cem paus" (100$, €0,50). "Dava para almoçar com a namorada, lanchar com a namorada e levá-la ao cinema."
Alguém que diga mal
O conto curto é a sua forma ideal de expressão. "É o meu modelo de escrita: insinuar mais do que dizer; sugerir mais do que declarar." António Torrado, 71 anos, já escreveu "perto de mil histórias". Mas também criou peças de teatro, letras de fados, argumentos para filmes e séries de televisão, escreveu textos para a rádio e poesia. "Já escrevi sobre tudo e mais alguma coisa."
Os seus 40 anos de vida literária foram o pretexto para uma homenagem na abertura da XI Edição das Palavras Andarilhas em Beja, na quinta-feira.
Quando falou com a Pública, o escritor ainda não sabia das surpresas que lhe estavam reservadas no encontro, mas já dizia, bem-disposto: "Vai ser uma chumbada, todos a dizerem bem. Se houvesse alguém que tivesse a coragem de dizer mal. Acho que vou fazer esse apelo."
Leitores fiéis
António Torrado sabe que "se escreve para o efémero, para o transitório. Os leitores estão em trânsito para outros livros". No entanto, reconhece que a faixa de público com que mais trabalha, as crianças, "é muito generosa. Quando gostam, são sistemáticas. Querem ler tudo do mesmo autor e têm o gosto da colecção."
E dá o exemplo do filho mais velho, que prometeu que não leria outros livros sem antes ter lido todos os de Jack London. O próprio Torrado manteve-se fiel a Erich Kästner enquanto pôde. E já adulto ainda descobriu um livro (A Ala Volante) deste primeiro autor a receber o prémio Hans Christian Andersen.
É isso que espera dos seus leitores? "Já tenho tido provas de fidelidade que me comovem. Ditas pelos pais ou pelos miúdos. Também há aqueles que querem ouvir sempre a mesma história." António Torrado não gosta de queixumes e sente-se acarinhado pelos seus leitores: "Não me queixo de ser mal amado, como quase todos os autores portugueses: ursos mal lambidos. E acho que os meus colegas desta área também não se queixam, porque o público roda muito depressa. Chega aos 11, 12 anos, já passou. Mas até lá, quando são aplicados à leitura, gostam de ler e de reler. E depois temos sempre novas camadas. Os meus livros já foram lidos por várias gerações."E até já fez uma dedicatória para uma criança que ainda vai nascer, "neta de alguém que leu livros meus". Foi "uma situação embaraçante, a criança ainda nem tinha nome, fazer uma dedicatória a um ser fantasmático, virtual". E agora?
Pouco ligado a formalidades de homenagens, diz que até tem "medo de datas redondas". E lembra a história de Aquilino Ribeiro, que tinha publicado Quando os Lobos Uivam e ia ser julgado "por ter dito coisas que soariam aos ouvidos do poder como aleivosias". Aos 79 anos, "como era considerado uma figura perseguida, andaram a homenageá-lo por todo o país. Passados uns meses, "puff", morreu".
Mas não é esse o seu medo. E vai pensando em voz alta o que lhe suscitou este assinalar dos 40 anos de escrita: "Achei que o ter passado de jovem escritor inseguro para velho escritor inseguro aconteceu muito depressa. Foi a morte da Matilde [Rosa Araújo] que marcou essa diferença. A Matilde era a patrona e paraninfou gerações e gerações. Era a nossa figura tutelar. Deixou-nos uma responsabilidade maior, já não temos fada-madrinha, estamos por nós. Logo aconteceu esta coisa dos 40 anos. Agora, parece que o patriarca sou eu, ou outro que tal. Embora haja pessoas mais velhas, como a Luísa Dacosta, por exemplo."
Fizeram-no pensar "no peso da responsabilidade". E continua: "Já fiz tudo, já encantei gente. Tenho razões para me sentir feliz e realizado, mas, por outro lado, penso: e agora? O que é que me resta? Se isto é o resumo do que fiz, parece que é quase uma notícia necrológica, e eu não quero que seja. Não é por causa do medo da morte. Se ela viesse de um dia para o outro, não me custava nada. Ficar incapaz é que é chato, morrer não."
No entanto, diz, não ter "aquele sentimento de alegria de "40 anos já cá cantam"", nem a "sensação de tempo perdido". E compara a quantidade de livros que escreveu, 130 a 140, com o espaço que ocupam. "Os meus livros todos, os que tenho nas prateleiras que me são dedicadas, por conjunto, dá o meu tamanho deitado. Ou a minha altura." Ou seja, 1,76m de literatura? "De uma forma leviana, pode dizer-se que sim. Alguns são livrinhos, outros têm 100 histórias. Como um que vai sair, 100 Histórias à Janela. São calhamaços. Mas, sim, tudo literatura."
Gostava agora de dedicar-se mais "a uma faixa que tem ficado oculta, a da literatura para adultos". Também sente necessidade de alimentar áreas "como o teatro e o argumentismo". Porque já escreveu muita coisa para crianças. "Pensei até em fechar a loja, mas continuo a ter encomendas. E não sei fazer mais nada. Sou péssimo em tudo. Nem guio sequer, por causa da vista. Não meço as distâncias." Nem as físicas nem as outras, agrada-lhe pensar.
"É velho, mas é assim como nós", disse um miúdo sobre o autor. E ele gostou.
"Só gosto da minha vida a partir dos 20 e tal anos"
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Público - 16.12.2009 - 16:22 Por Rita Pimenta
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Começou no jornalismo e entrou pela literatura. Primeiro para crianças e jovens, depois para os outros. Poesia incluída. Diz-se "amigodependente", recebe e faz chamadas às três da manhã. Já foi menos católica, pensa por frases e fala sozinha na rua. Não entra em cemitérios e tem poucas memórias de infância. Hoje vai a uma festa temática: 30 Anos de Livros
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Enric Vives-Rubio
Alice Vieira
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Há 30 anos que escreve livros. Mas foi há mais tempo que Alice Vieira enviou o primeiro texto para um jornal. Não o publicaram. Tinha 14 anos e recebeu uma carta do "Diário de Lisboa" a pedir que não desistisse. Assinatura: Mário Castrim. Tentou uma e outra vez e viu muitos textos serem impressos. Casou com ele, o remetente.
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Uma paixão de 40 anos. "Mas paixão mesmo", diz Alice quando fala do jornalista e escritor. Tinham 23 anos de diferença de idades e só se conheceram "ao vivo" depois de muitos telefonemas e cartas, quando a escritora foi trabalhar, como jornalista, para o "Diário de Lisboa". Pouco depois, iria para o Diário Popular. "As pessoas, quando têm um relacionamento, não devem trabalhar no mesmo sítio. Seja marido e mulher, pai e filho. Por isso, atravessei a rua e fui para o Diário Popular." Seguiu-se o Record e o Diário de Notícias.
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Castrim foi a pessoa mais importante da sua vida. Toda a gente a desaconselhou a viver com ele, pela diferença de idades e pelos problemas de saúde que lhe adivinhavam. "Vais ser a enfermeira toda a vida", diziam-lhe. "Afinal", conta, "quando tive o "cancro da praxe" e fui operada, ele é que foi o meu enfermeiro. A quimioterapia custou-me muito. Há 20 anos, os produtos eram mais agressivos e eu vomitava bastante. Ele obrigava-me a ir imediatamente para o jornal trabalhar. Acho que nem estive um mês de baixa. E ainda bem que me obrigou. Se não fosse isso, eu podia ter ido abaixo. Assim, tinha mais que fazer do que estar infeliz."
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E recorda como sempre a estimulou a escrever, nunca deixando de ser muito crítico. "Não tenho dúvida de que aquilo que sou, aquilo que faço, aquilo que escrevo, foi muito obra dele. Sinto, no entanto, algum remorso por ele se ter afastado da escrita por minha causa. Para eu poder fazer a vida que fiz, ele não publicou tanto como devia. Escrever escrevia (tenho muitos inéditos), mas não publicava."
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E repete várias vezes: "Tive sorte, tive sorte". E ele? "Acho que sim. Ele também teve."
"Não me lembro de mim"
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Alice Vieira, de 66 anos, passou a infância com tias velhas e não gostou. A memória decidiu poupá-la a recordações e não a deixa lembrar-se de quando era criança. "Recordo-me de muito pouca coisa da minha infância. Lembro-me assim de momentos do género: eu estou aqui sentada ao pé de alguém. Mas não me lembro de mim. Acho que é uma defesa."
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No entanto, quando se pergunta se era maltratada, responde: "Não. Eu era super bem tratada. Mas maltratar não é só andar ao estalo às crianças. Eu vivi sempre com pessoas que me diziam (e era verdade) que não eram nem o meu pai nem a minha mãe. E portanto eu não era filha deles e não tinham nada de fazer aquilo que estavam a fazer. Foi sempre um relacionamento um bocado frio, uma coisa entre velhos. Eu só encontrei miúdos da minha idade quando entrei para o liceu. Até aí, nunca tinha tido gente da minha idade ao pé de mim. Roubarem-me essa parte, foi complicado. Isso pode dar cabo de uma pessoa". Não deu.
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Depois de conseguir ter amigos, tornou-se, como diz, numa verdadeira "amigodependente". E alguns até a fizeram ser de novo mais católica. Porque são padres, poetas ou missionários. "É impossível não se ficar tocado por estas pessoas." Pode telefonar a um amigo "às três da manhã". Mas também os atende a todos e a qualquer hora. Eles sabem que os acompanha até ao fim. Só não entra no cemitério. "Eu tinha uma tia muito mórbida. Todas as quartas-feiras, íamos para o Alto de São João limpar as campas. E logo ela, que era má para as pessoas e lhes fazia a vida negra. Depois de mortos é que eram bons." Esta é das suas poucas memórias claras de infância. "Isso [o passado] serviu-me para ser a pessoa que sou hoje, para ser profundamente optimista, acreditar que as coisas se resolvem desde que queiramos. Não podemos estar à espera que as soluções caiam do céu, do céu só cai a chuva. Mas só gosto da minha vida a partir dos vinte e tal anos."
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Depois do curso tirado, Germânicas, como se designava na altura a actual licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Inglês e Alemão, a escolha de ser jornalista não foi lá muito bem vista pela família. "Quando acabei o curso, já era maior e vacinada. Jurei e cumpri que fazia a faculdade. Tinham de aceitar a minha escolha, mas nunca foi profissão de que gostassem muito. Nós ainda hoje rimos porque, quando se falava das sobrinhas, as tias diziam: a fulana é médica, a outra é advogada e a Alice, essa, lá anda na vida que ela escolheu... Parecia que eu era uma perdida", diz, no meio de uma gargalhada.
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Mas o jornalismo era, desde cedo, uma paixão, não o escolheu para contrariar as tias. "Ver as coisas publicadas, com o nome cá em baixo. Eu assinava Alice Vassalo Pereira. E, depois, o cheiro do chumbo conquistou-me definitivamente." Até hoje. Continua a escrever crónicas para o Jornal de Notícias e para as revistas Activa, Audácia e Tempo Livre. "E ainda adoro fazer entrevistas."
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Os livros vieram mais tarde, em resultado do prémio da Gulbenkian, em 1979, de Literatura Infantil Ano Internacional da Criança pela obra Rosa, Minha Irmã Rosa. Na altura, ganhou 75 contos (375 euros) e levou os filhos a Atenas: Catarina, hoje com 40 anos, e André, com 39.
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"Às vezes, penso: eu comecei a escrever tarde, podia ter começado mais cedo. Mas depois penso que não. Se eu tivesse começado antes... mas eu não sou nada a favor de quem começa muito cedo. As pessoas têm de viver um bocadinho, têm de crescer. Quando digo que podia ter começado uns anos antes, se calhar não podia. Ou tinha começado pior, não sei."
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Em 30 anos, já publicou mais de 70 livros, vendeu perto de 2 milhões de exemplares e ganhou dez dos mais significativos prémios literários da literatura infantil e juvenil. Foi nomeada este ano para o Astrid Lindgren Memorial Award, um dos mais importantes prémios nesta área, com o valor de 500 mil euros.
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Não escreve por dinheiro, mas gosta de ser paga pelo seu trabalho. Irrita-se que lhe digam que a escrita é um hobby. "Vou a escolas quase todos os dias e durante as horas em que estou lá não estou a desenvolver o meu trabalho de escrita. Estou a trabalhar no horário de outras pessoas. Vou porque gosto, porque vejo satisfação nos olhos dos miúdos e isso é bom. Mas não tenho obrigação de fazer com que os meninos gostem de ler. Noventa por cento das escolas nem sequer compram os meus livros. E pagam as minhas visitas a contragosto. Quando eu quiser dar o meu trabalho, dou, mas sou eu que escolho."
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No entanto, tem muita dificuldade em dizer "não" quando a convidam, mesmo se o pagamento não está previsto. "Agora, felizmente, a Leya trata disso. Gere a minha agenda e eu já não tenho de andar a negociar com as escolas. O ano de 2010 já está completo. A Leya foi o melhor que me aconteceu." Mas não só por isto.
. Romance em Porto Santo
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A escritora divide-se entre quatro editoras (Caminho, Texto, Casa das Letras, Oficina do Livro e Dom Quixote) e o facto de pertencerem todas ao mesmo grupo facilita-lhe a vida. "No outro dia, o patrão da Leya dizia-me: quer trabalhar em mais alguma editora? Diga, que a gente compra. Eu dou-me bem com eles porque sou muito profissional e cumpridora. Eu preciso de prazos. Se não me põem prazos, não faço nada. E trabalho muito mais e até melhor se tiver muitas coisas para fazer ao mesmo tempo. Isso vem do jornalismo. Há uma sobrecarga de trabalho e a gente despacha tudo (jornalismo diário, claro).
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Há autores que me dizem: "Como é que tu podes saber que daqui a uns dias tens um livro pronto? E se não consegues?" Tenho de conseguir. Essa relação de trabalho para mim é boa. Por exemplo, agora sei, mas sei rigorosamente que até dia 16 [hoje], mesmo dia 16, tenho de entregar um romance." Chama-se Meia Hora para Mudar a Minha Vida, "como a cantiga da Adriana Calcanhotto".
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Será mais um romance juvenil com uma rapariga de 16 anos como protagonista. Uma actriz de teatro amador. Passa-se em Lisboa, sempre Lisboa. "Sou muito lisboeta e não gosto de escrever sobre coisas que não conheço. Não dá para chegar a um sítio, estar lá dois dias e escrever uma história. Ou é um romance histórico ou então não consigo. Só tenho um romance juvenil que é metade em Lisboa, metade na zona das Gafanhas, Aveiro, que é donde eu sou: Viagem à Roda do Meu Nome."
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Hoje, depois da festa (e de entregar o livro), ficará mais liberta para pensar num romance de base histórica que lhe anda a passear na cabeça há uns tempos. "Passa-se na ilha de Porto Santo, no séc. XVI. Fui à Madeira e aproveitei para recolher umas informações que faltavam. Em 1533, houve uma heresia, a heresia dos profetas, que pôs a ilha a ferro e fogo. Só no Porto Santo, nem chegou à Madeira. Quando estava a escrever sobre os Açores, sobre uma heroína de Angra do Heroísmo, descobri esta história. Por isso, a palavra "profeta" é um bocado pejorativa na ilha. E não digo mais nada." Não é preciso.
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Alice Vieira tem quatro netos (Adriana, de 14 anos; Diogo, 10; Pedro, nove; Isabel, cinco), muitos amigos, muitos leitores e um namorado. Às 17h, têm encontro marcado no Jardim de Inverno do Teatro de São Luiz, em Lisboa. Porque está de parabéns
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Alice Vieira
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
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Alice Vieira (Lisboa, 1942) é uma escritora e jornalista portuguesa. Licenciou-se em Filologia Germânicas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, mas dedicou-se desde cedo ao jornalismo, dirigindo os suplementos Juvenil e Catraio no Diário de Notícias. Também trabalhou em vários programas de televisão para crianças e é considerada uma das mais importantes autoras portuguesas de literatura infanto-juvenil.
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As suas obras foram traduzidas para várias línguas, como o alemão, o búlgaro, o basco, o castelhano, o galego, o francês, o húngaro, o holandês, o russo e o servo-croata. Foi casada com o também jornalista e escritor Mário Castrim.