Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
sexta-feira, 31 de julho de 2026
Miguel Sousa Tavares - Sinais de fogo
quinta-feira, 23 de julho de 2026
Daniel Oliveira - Os Estados Unidos eram mesmo um modelo de democracia?
* Daniel Oliveira
"A shining city upon a
hill." Era assim que os Estados Unidos se viam e queriam que o mundo os
visse — um modelo, um farol, uma democracia exemplar. Durante décadas, o mundo
acreditou. Trump não criou as fragilidades que esta narrativa escondia. Mas
tornou impossível continuar a ignorá-las. Um exercício de memória e de factos
sobre o maior mito político do século XX
"City upon a hill." A
expressão vem de um sermão de 1630, antes ainda de existir nação. John Winthrop
usou-a para descrever uma comunidade cristã exemplar. Ronald Reagan
ressuscitou-a, acrescentou-lhe “shining” e transformou-a em marca geopolítica: os
Estados Unidos como farol do mundo livre, modelo que os outros deviam imitar.
Durante décadas, o mundo — e os próprios americanos — aceitou a narrativa com
uma deferência que raramente se concede a outros países. Havia razões para
isso.
sábado, 18 de julho de 2026
Raquel Varela - [Ensino, exames e pedagogia]
quinta-feira, 2 de julho de 2026
Daniel Oliveira - Arrábida: a areia que sobra
* Daniel Oliveira
A polémica dos
chapéus de sol em frente às concessões foi só um episódio de uma guerra que mal
começou. A praia é um dos últimos redutos de propriedade pública disponível
para todos. Num país que fez do litoral um resort para não residentes, em que a
praia deve ser exclusiva, o domínio público marítimo é visto como um obstáculo
económico. Na Arrábida, a família Mirpuri foi a tribunal reclamar cinco praias.
Se não resistirmos, a areia que é nossa pode não sobrar por muito tempo
Durante anos,
milhares de portugueses chegaram à praia, olharam para a frente das concessões
privadas e pensaram: "Aqui não posso pôr o chapéu." A feliz surpresa
veio quando o presidente da APA classificou como "abuso" a proibição
de colocar chapéus de sol em frente às concessões. Este braço de ferro é o
mesmo que se trava um pouco por toda a costa: entre a
pressão privada para retirar à maioria o que é de todos e a resistência de uma
instituição pública que os portugueses parecem valorizar mais do que qualquer
outra.
sábado, 27 de junho de 2026
Susana Prizendt - Das terras raras às terras áridas
Estamos assistindo a um processo acelerado de degradação dos nossos solos. As terras férteis estão ficando cada vez mais raras
Por Redação
26/06/26 •
Resumo da notícia
Das terras raras às terras áridas: o país no limiar entre a bênção e a maldição
“Meu pai, quando encontrava um problema na roça, se deitava sobre a terra com o ouvido voltado para o seu interior, para decidir o que usar, o que fazer, onde avançar, onde recuar. Como um médico a procura do coração”
por Susana Prizendt
(artigo escrito inteiramente
por uma pessoa humana)
Suspensa em um apartamento de um
bairro cada vez mais verticalizado da capital paulista – assim como outras
milhões de pessoas urbanizadas -, posso esquecer que, sob todas as camadas de
concreto abaixo de mim, existe um elemento natural chamado solo. Mas, ao regar
minhas plantinhas na janela, procuro me conscientizar de que, apesar do
crescente sufocamento ao qual ele tem sido submetido, ele ainda está lá,
resistindo a ser dado como morto.
Há mais de 4 décadas, a Dra Ana Primavesi, mestra
inconteste de quem atua nos movimentos agroecológicos, já semeara, no meio
acadêmico brasileiro, algo que nossos povos originários sempre souberam: o solo
é um organismo vivo. Ele pulsa, gestando lentamente as condições para a
existência do que chamamos de fertilidade.
Estima-se que um quarto das
espécies de seres vivos já conhecidas por nós esteja no solo. É o dobro das que
habitam os oceanos. Uma biodiversidade que envolve animais, vegetais, fungos e
uma infinidade de microorganismos, em uma trama dinâmica e vibrante,
responsável pela ciclagem da matéria. Este é o processo que permite o
crescimento das plantas; são elas que vão alimentar a fauna local e, também, a
população humana.
sábado, 13 de junho de 2026
Pedro Tadeu - A REVOLUÇÃO, AFINAL, COMEÇA NA PRAIA?
* Pedro Tadeu
Antes de o capitalismo se desenvolver plenamente, foi necessário separar os produtores diretos dos seus meios de produção. Camponeses que tinham acesso à terra, a baldios, a instrumentos de trabalho ou a formas comunitárias de sobrevivência foram desapossados. Sem terra, nem recursos próprios, passaram a depender do salário. Ao mesmo tempo, a propriedade fundiária, o dinheiro e os instrumentos produtivos concentraram-se nas mãos de proprietários e capitalistas.
domingo, 7 de junho de 2026
Daniel Oliveira - Pôr os de baixo na ordem
* Daniel Oliveira
Os debates
sobre imigração, apoios sociais e produtividade foram capturados por uma elite
rentista que naturaliza a desigualdade persistente, prometendo pôr na ordem os
de baixo — imigrantes, pobres e trabalhadores —, enquanto os mobiliza contra os
que estão no degrau inferior da escada classista
04 junho 2026
Aburguesia
nacional fez-se sobretudo pela captura de rendas e pela proximidade ao poder
político. À sombra do ouro do Brasil, dos monopólios coloniais, do
condicionalismo industrial, das privatizações que lhe ofereceram monopólios ou
oligopólios, de fundos europeus desbaratados, de concessões de serviços
públicos. Em cada momento histórico açambarcou valor em vez de o criar. Hoje,
assistimos ao bloqueio a qualquer regulação da transferência massiva de capital
de áreas produtivas para o imobiliário, que não arrisca ou compete. Mas o
rentismo não produziu apenas uma estrutura económica viciada e avessa à
inovação. Produziu uma cultura.
sábado, 6 de junho de 2026
José Pacheco Pereira - Comer em tempos difíceis
No Dia Internacional dos Arquivos, um padre, pescadores e conserveiras vão lembrar-nos daquilo que não é para ser esquecido.
* José Pacheco Pereira
6 de Junho de 2026
Ao dar-se o nome ao debate de que
vou falar, oscilou-se entre “comer em tempos em crise” e eu, para o lado
excessivo, preferia “comer em tempos de fome”. De que é que estou a falar? Dum
debate que vai ocorrer no Barreiro, no Dia Internacional dos Arquivos, 9 de
Junho, integrado num dia dominado por uma exposição com o título Gastronomia
na Cidade dos Arquivos, de responsabilidade, e muito mérito, de Nuno
Teixeira.
Tiago Franco - A RESIGNAÇÃO DE UM POVO |
terça-feira, 2 de junho de 2026
Bruno Carvalho - A rapaziada de vermelho
domingo, 31 de maio de 2026
Margarida Davim - Os ricos também choram
sexta-feira, 29 de maio de 2026
António Rodrigues - A estupidez da inteligência artificial
O mundo que se conta a partir do que se diz.
* António Rodrigues
8 de Dezembro de 2022
“O problema não é só o de que a maioria de nós
luta para conseguir viver com o salário médio, mas o facto de o trabalho
incansável nos ser apresentado como uma virtude em si mesmo, independentemente
dos rendimentos” Matthew Neale, jornalista inglês
A inteligência da desigualdade
É o furor da semana no domínio
dos avanços tecnológicos, um programa de inteligência artificial (IA) que
consegue escrever ensaios, notícias, criar histórias ou poesia a partir das
sugestões dos utilizadores. Não é o primeiro programa do género, mas os avanços
demonstrados pelo ChatGPT
deixam antever que muitas tarefas básicas de escrita passarão a ser feitas por
máquinas num futuro não muito distante.
O entusiasmo infantil com que
olhamos para estes novos desenvolvimentos de IA não esconde que, depois do
divertimento de experimentar, nos comece a amargar a boca pelas consequências
do seu impacto no futuro. E não se trata apenas de questões éticas ou existenciais
à Blade Runner, imaginando uma qualquer revolta de autómatos angustiados
com a mortalidade.
Tem mais que ver com o impacto da
máquina no mercado laboral. O parafuso que Charlie Chaplin apertava em Tempos
Modernos ou a mercadoria que um trabalhador chinês embala em versão
autómato em longas jornadas de fastidioso trabalho podem passar a ser feitas
por máquinas, mas o que acontece a esses trabalhadores dispensados? São
despedidos? Reciclados? Rejeitados?
Como lembra o professor Bernardo Guimarães na Folha de S.
Paulo, as inovações tecnológicas provocam efeitos na sociedade como um
todo. Permitem produzir mais ou trabalhar menos (ou um conjunto dos dois), mas
também “afectam o valor de mercado das diferentes ocupações”, ao tornar “menos
valiosos trabalhos com remuneração menor e mais valiosos os trabalhos mais
especializados”. E esse tem sido sempre “um factor-chave” para o aumento da
desigualdade nos países mais desenvolvidos.
O Peru aboliu a escravatura há
168 anos; porém, grande parte dos peruanos sobrevive como se o conceito ainda
existisse. Segundo o director da organização não governamental Capital Humano y
Social, Ricardo Valdés, a percentagem de trabalhadores sem contrato no Peru
anda à volta de 75% e em certas zonas do país chega aos 90%.
Esta informalidade económica, em
que os direitos dos trabalhadores são grandemente negados ou ignorados (mesmo
pelos próprios: de acordo com o Instituto de Estudos Peruanos, citado pela Swiss Info, 54% da população não está familiarizada com o
conceito de trabalho forçado), em que a precariedade laboral joga a favor de
quem a multiplica e contra quem a divide, esvai-se a dignidade do ser humano
com a cumplicidade do Estado.
Mais de 3,4 milhões de
trabalhadores peruanos declararam que já foram obrigados a trabalhos forçados,
mas o Ministério Público regista apenas 25 casos de 2017 a 2020 e ainda culpa
as vítimas por não denunciarem os crimes.
Mesmo que o próprio ministro do
Trabalho, Alejandro Salas, na segunda-feira, no discurso de abertura de um
encontro sindical, a que a agência de notícias espanhola EFE assistiu e a Swiss
Info reproduziu, mostre vontade em “lutar contra este flagelo de trabalho
forçado”, os números da informalidade são tão avassaladores no Peru que retiram
peso às palavras.
“Aqui temos um assunto de dignidade do ser
humano, um assunto em que as liberdades do ser humano estão expostas e temos de
fazer alguma coisa como sociedade e envolvermo-nos todos”, disse o ministro,
que, ao incluir toda a gente, “como sociedade”, se encarregou, ao mesmo tempo,
de tornar o esforço épico e generalizado e menorizar a culpa do Estado na sua
manutenção.
Em 2016, Salomé Lamas, no seu documentário
El Dorado XXI, filmou os mineiros de ouro de La Rinconada que a 5100
metros de altitude na região andina peruana trabalham seis dias em troco de
nada, nas condições climatéricas mais adversas para no sétimo poderem ficar com
o ouro que eventualmente encontrarem.
Oito horas
Quase 140 anos passados desde que
o sindicalista inglês Tom Mann reinventou a jornada de trabalho que isto não há
maneira de melhorar. Prometeram-nos (e continuam a prometer) uma revolução
tecnológica que tornaria a vida do ser humano mais prazenteira, permitindo mais
horas de lazer e menos preocupações e chegámos a este século XXI com a maioria
ainda a praticar jornadas laborais de oito horas ou mais.
As 35 horas semanais em França
ainda são mal vistas, mesmo agora que já se começam a dar os primeiros passos
para a semana das 32
horas em alguns países, com apenas quatro dias de trabalho.
Quando as oito horas laborais,
oito horas de descanso e oito horas para fazer o que nos dá na real veneta,
defendidas por Mann, se tornam hoje incomportáveis para muita gente, a braços
com a diminuição do valor do trabalho e o aumento do custo de vida, sentimos
que nos trocaram as voltas. O capitalismo, que nos vendeu o tal dito “sonho”
americano do mata-te a trabalhar que terás a recompensa (escondido sob a capa
da busca do eterno progresso), vem paulatinamente diminuindo o valor do
trabalho e multiplicando fortunas dos que mandam trabalhar.
Como refere
Matthew Neale, no Independent, “o aumento do número de pessoas com
segundos e terceiros empregos, ou mesmo a tirar sabáticas anuais para conseguir
trabalhar mais, parece sugerir que alguma coisa, em determinado momento, correu
horrivelmente mal”.
E a pandemia, que acentuou o
teletrabalho, não veio ajudar em nada, ao diluir as fronteiras entre a casa e o
trabalho e o trabalho é como o eucalipto, seca tudo à sua volta e potencia a
(auto)combustão – porque, mesmo com tanto trabalho, nunca nos livramos da
sensação que ficou algo por fazer, que deveríamos ter feito mais, que aqui ou
ali cedemos à procrastinação. E daí vem a culpa e o eterno mal-estar físico e
mental.
Amanhã, tenho 15 minutos para
ti
As aplicações para gerir a nossa
vida tornaram-se tão omnipresentes que o sector deverá valer mais de 100 mil
milhões de euros em 2027, escreve o Brussels Times. Com o tempo a acelerar à
frente dos nossos olhos e a quantidade de ofertas que se nos apresentam, o ser
humano do século XXI, incapaz de estar sem fazer nada, recorre à tecnologia
para maximizar o seu horário e fugir à angústia de não conseguir fazer tudo. E
mesmo assim queda curto.
“A gestão do tempo não é a solução, na verdade
é parte do problema”, escreve o psicólogo empresarial Tony Crabbe no seu livro Busy:
How to Thrive in a World of Too Much, citado pelo diário belga em língua
inglesa.
ocupação dos minutos, não visa
ajudar-nos a respirar, beber descansado um café, caminhar descalço na relva,
fechar os olhos e não pensar em nada. Na verdade, poupamos tempo numas tarefas
para arranjar tempo para encaixar outras.
E o mais incrível é que, se
calhar por influência dessas aplicações eficientes, tudo se horizontaliza e na
mesma dimensionalidade da nossa agenda de tarefas diárias uma reunião de
trabalho, a compra de nabos na mercearia, a aula de ioga, o encontro com amigos,
o filme na Netflix e o beijo aos pais se equiparam no mesmo nível
burocrático-existencial. Como num discurso mental próprio de auto-ajuda, são
tudo fragmentos do nosso enriquecimento pessoal.
A auto-ajuda, o empreendedorismo,
“o ser capaz de fazer tudo desde que uma pessoa se esforce”, quando
transformados em filosofia de vida tornam-se obsessões que podem fazer mais mal
do que bem. E não deixam de ser ferramentas na mão do mercado, um deus ex
machina do ateísmo capitalista: nunca descanses, amanhã tenho 15 minutos
para ti.
sábado, 23 de maio de 2026
António Santos - 10 factos chocantes sobre os EUA
quarta-feira, 13 de maio de 2026
O anticomunismo serôdio e as exemplares mistificações dos ilusionistas liberais, até dizer ...chega
quinta-feira, 30 de abril de 2026
Rodrigo Tavares - Ao ler este artigo está a violar os direitos humanos
* Rodrigo Tavares
Professor
catedrático convidado na Nova SBE
A pergunta
decisiva não é se algo é verde ou ético, mas que danos esconde
Não há nenhuma
atividade económica, nenhum produto, nenhuma transação financeira que não gere
impactos negativos para a sociedade ou para o meio ambiente. Nenhuma.
Ao ler este
artigo o caro leitor está a usar um computador ou telemóvel que contem
alumínio, antimónio, arsénico, bário, berílio, bismuto, boro, cálcio, cério,
chumbo, cobalto, cobre, crómio, disprósio, estanho, estrôncio, európio, ferro,
flúor, fósforo, gadolínio, gálio, germânio, grafite, índio, ítrio, lantânio,
lítio, magnésio, manganês, molibdénio, neodímio, nióbio, níquel, ouro, paládio,
platina, potássio, prata, praseodímio, selénio, silício, sódio, tântalo,
telúrio, térbio, titânio, tungsténio, zinco e zircónio. São materiais
provenientes de cadeias mineiras e industriais ligadas a países como Myanmar,
Tajiquistão, China, Rússia, República Democrática do Congo, Gabão, Nigéria,
Bielorrússia ou Zimbabué.
Agora seria
chegado o momento em que eu citaria vários relatórios de ONGs que alertam para
a violação dos direitos humanos na exploração de minérios nestes países.
Bastava esticar o dedo para o Google ou um LLM. Prefiro destacar o livro Cobalt Red de
Siddharth Kara, finalista do prémio Pulitzer, sobre as condições animalescas em
que o cobalto é minerado na República Democrática do Congo. Se o comprar pela
Amazon, aproveite e leia também The Everything War: Amazon’s Ruthless
Quest to Own the World and Remake Corporate Power, escrito por Dana
Mattioli, jornalista veterana do Wall Street Journal e também finalista do
Pulitzer pelo seu trabalho sobre a Amazon.
Continuo? Na
montagem de computadores e telemóveis, a violação de direitos humanos resulta
da pressão contratual exercida pelas marcas sobre fornecedores, através de
preço-alvo, prazos de lançamento e penalizações por atraso. Essa pressão
converte-se em vínculos laborais precários, trabalho suplementar quase
obrigatório, metas horárias extenuantes, controlo punitivo da produtividade e
fraca liberdade sindical, afetando o direito ao trabalho digno, ao descanso e à
associação coletiva. A exposição a soldaduras, solventes, resinas, retardadores
de chama, poeiras metálicas e riscos de baterias de iões de lítio, quando não
acompanhada por ventilação, proteção e vigilância médica eficazes, como
acontece frequentemente, viola ainda o direito à saúde e à segurança no
trabalho.
Não faltam
precedentes. Nas fábricas da Foxconn e da Pegatron, auditorias e investigações
identificaram violações de normas laborais e da lei chinesa. A Samsung viu
tribunais sul-coreanos reconhecerem doenças profissionais associadas à produção
de semicondutores. A Apple tem sido criticada pela distância entre os seus
compromissos públicos de responsabilidade social e a precariedade laboral dos
seus fornecedores. Não há escassez de denúncias. Recomendo o artigo do
Financial Times, “Inside China’s mega iPhone factory: long hours,
discrimination and delayed pay”, disponível aqui.
Há ainda as
violações ambientais. A cadeia do computador consome água, energia e reagentes
químicos, gera rejeitados, emite poluentes e produz lixo eletrónico. No fim de
vida, placas, baterias, cabos e ecrãs podem entrar em circuitos informais de
reciclagem, onde a recuperação de cobre, ouro ou alumínio envolve queima de
cabos, banhos ácidos e desmontagem manual sem proteção. O resultado é
contaminação do ar, do solo e da água por metais pesados e compostos tóxicos. A
autora do livro High Tech Trash: Digital Devices, Hidden Toxics, and
Human Health fez uma investigação notável sobre o problema.
Se quiser
conhecer os impactos positivos e negativos de todas as empresas listadas em
bolsa, recomendo esta plataforma finlandesa. Pode começar pela Apple (aqui).
Entre o impulso
de corrigir o mundo e os meios disponíveis para o fazer há cadeias globais de
extração, transporte, fabrico, e consumo que comprometem a santidade de
qualquer gesto sustentável. Dito de outra forma, a transição de uma economia
fóssil para uma economia verde não elimina a dependência de recursos finitos;
apenas substitui o petróleo, o gás e o carvão pelo cobre, o lítio, o níquel, o
cobalto, a grafite, as terras raras e outros metais indispensáveis à
descarbonização.
E é exatamente
quando chegamos a este ponto, emaranhados em incoerências e contradições,
frustrados com os trade-offs e com a impossibilidade da
coerência absoluta, conscientes de que cada solução conserva dentro de si uma
forma de perda, que a sustentabilidade deixa de ser uma técnica de otimização e
passa a ser uma prática de mitigação de custos sociais e ambientais. Quando ser
sustentável se revela insustentável, a sustentabilidade é escolher o menos
insustentável. No fundo, tudo se reduz a uma contabilidade honesta dos danos.
A UE seguiu o
caminho contrário. Em 2020, criou a Taxonomia Europeia para classificar as
atividades económicas ambientalmente sustentáveis. Mas o sistema tornou-se um
labirinto técnico de critérios, atos delegados, salvaguardas, indicadores
financeiros e obrigações de reporte. Equipas de sustentabilidade, finanças,
auditoria e compliance precisam hoje de formação especializada para decifrar a
máquina Enigma regulatória. Criada para reduzir o greenwashing, a
taxonomia acabou também por oferecer às empresas uma linguagem técnica capaz de
ocultar, relativizar ou diluir aquilo que permanece insustentável.
Não precisamos
de atividades económicas, produtos ou transações financeiras “verdes”,
“sustentáveis”, “eco”, “bio”, “orgânicas”, “naturais”, “amigas do ambiente”,
“carbono neutro”, “sem plástico”, “recicláveis”, “reutilizáveis”,
“conscientes”, “responsáveis”, “éticos”, “limpos”, “circulares”, “de impacto
positivo” ou “alinhados com a transição” como se esses rótulos fossem bulas
papais. Precisamos de saber, com precisão, que danos reduzem, que danos
produzem, onde ocorrem, sobre quem recaem e quando se manifestam. A linguagem
da sustentabilidade tornou-se demasiado adjectival e pouco contabilística.
Se a maioria dos produtos já tem a sua versão “verde”, há que reconhecer que os fabricantes de computadores e telemóveis parecem admitir, ainda que por omissão, que os seus produtos não podem ser verdadeiramente sustentáveis e éticos, nem sequer no plano da retórica. Pelo menos isso.
2026 04 30
https://expresso.pt/opiniao/2026-04-30-






