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sexta-feira, 31 de julho de 2026

Miguel Sousa Tavares - Sinais de fogo

*  Miguel Sousa Tavares

1.  Enquanto a França e a Espanha começavam a arder, no que viriam a ser os piores incêndios de ambos os países em décadas, Luís Montenegro estava em viagem oficial a Itália — que juntamente com Portugal e Grécia, completa o eixo de fogo que todos os Verões, em simultâneo ou à vez, devasta o sul da Europa. Mas em Roma, Montenegro e Meloni conversaram sobre outro tipo de fogo, que de tal forma aqueceu os seus corações que Montenegro declarou mesmo que ali se tinha atingido o ponto mais alto das relações Portugal-Itália, também em décadas. Porém, este novo êxito da nossa diplomacia e esta renovada amizade vêm com um custo: 3,9 mil milhões de euros, que é o preço que iremos pagar pelas três fragatas que encomendámos em Itália para a nossa Marinha de Guerra. O custo representa mais de metade do que Portugal prometeu gastar a armar-se para a anunciada guerra contra a Rússia e para cumprir as ordens de Trump, e é assumido ao abrigo da estratégia consagrada pelo programa de rearmamento europeu SAFE: encomende agora, pague depois. E o depois não será provavelmente apenas um problema financeiro, mas também operacional: quem nos diz que quando as fragatas forem entregues elas ainda farão algum sentido na guerra do mar, se já hoje os drones submarinos e os avanços militares com a IA estão a mudar tudo? (Veja-se como, sem nenhuma fragata, o Irão anda há cinco meses a humilhar a força naval e aérea, carregadas de testosterona, dos Estados Unidos…) Seria mais prudente, pensarão, começar por encomendar apenas uma fragata e esperar para ver, mas tal é impossível, pois que se dá com as fragatas o mesmo que com os submarinos: é preciso comprar três de uma vez, porque enquanto uma está no mar, outra está de prevenção acostada na base e a terceira está no estaleiro em reparação. São brinquedos muito caros. São tão caros e o negócio é de tal maneira rentável para os vendedores — mais ainda que o tráfico de droga — que desta vez anunciaram-nos que seria nomeada uma das tais “comissões independentes”, para tentar garantir “transparência” e seriedade nos negócios em que seremos sempre compradores. Porém, ainda nem a comissão está composta e Montenegro já gastou €3,9 mil milhões sem dar justificações do essencial: porquê fragatas, porquê italianas e porquê a pressa.

Valha a verdade que o nosso primeiro-ministro se limita a acompanhar e cumprir o que ficou acordado com a NATO, a UE e os EUA de Donald Trump (as três entidades confundem-se hoje em dia). Devagar e passo a passo, encomenda a encomenda, comprometemo-nos a caminhar em direcção aos 5% do PIB em gastos militares, ao mesmo tempo que se anunciam investimentos públicos de há muito não vistos: um novo aeroporto para Lisboa, o TGV Lisboa-Porto, uma nova ponte no Porto e outra e mais um túnel no Tejo, em Lisboa, mantendo intactos o sistema de pensões e os restantes apoios sociais, bem como a satisfação, sempre premente, das reivindicações das corporações do Estado. A perspectiva é de tal maneira insana que, aqui ao lado, Pedro Sánchez declarou logo que a Espanha governada por ele não cumpriria os 5%. Mas foi o único entre todos os dirigentes europeus, reduzidos voluntariamente à condição de capachos obedientes do ‘aliado’ americano, com quem não poupam gestos de apaziguamento, todavia inúteis, como se viu na recente Cimeira da NATO em Ancara. Muitas vezes, e até para justificar este desvario guerreiro, esta gente e os seus propagandistas têm defendido as suas decisões com a necessidade de não repetir o erro de Chamberlain em Munique, tentando fazer-nos acreditar que a inacção perante a ameaça que Putin representará é igual à que Hitler representava em 1938. Mas não só a Europa, no seu conjunto, dispõe de muito mais poderio militar convencional do que a Rússia (a qual, ao mesmo tempo, nos garantem estar exaurida por quatro anos de guerra na Ucrânia), como também as duas situações não são nem objectiva nem subjectivamente comparáveis. Aliás, não fosse esta uma geração lastimável de dirigentes europeus — de que o defunto Keir Starmer era o perfeito exemplo do líder plastificado, desde o cérebro até aos sapatos — e poderiam dar-se uma pausa para meditação sobre os verdadeiros grandes problemas e grandes inimigos que a Europa tem de enfrentar. Se o fizessem, se por um momento quisessem pensar pela própria cabeça, esquecendo as ordens de Trump ou do seu capacho Mark Rutte, talvez chegassem à conclusão de que os dois grandes inimigos da Europa chamam-se Donald Trump e alterações climáticas.


Sinais de fogo, por Hugo Pinto
 
1Sobre o primeiro inimigo da Europa, Donald Trump, já tudo foi dito e sabido e só não vê o perigo que ele representa quem não quer ver ou está interessado em não ver. Sobre a ameaça presente do descontrolo do clima (clear and present danger, chamar-lhe-iam os americanos, no tempo em que ainda eram uma democracia decente), tem-se visto como a UE tem recuado e abandonado todas as suas metas definidas e ajuramentadas para enfrentar as consequências das alterações climáticas. A Europa, o continente mais exposto ao aquecimento global, o território do fogo descontrolado, corta nas verbas destinadas a combatê-lo, em benefício das verbas destinadas a combater a Rússia, no dia em que nos juram que Putin virá por aí abaixo. Portugal é um bom exemplo disso mesmo: na necessidade que houve de realocar verbas do PRR, tirando de um lado para pôr no outro, os dois maiores cortes, ambos de 15%, foram nos investimentos previstos para a transição climática e a transição digital da economia — outro sector crítico, em que a Europa não se limita a ficar para trás relativamente à China e Estados Unidos, mas assim cava a sua dependência futura, como já a tem na energia, entusiasmada que anda, por exemplo, a sequestrar navios-fantasmas da frota petroleira russa — verdadeiros actos de pirataria, sem qualquer sustentação legal.

Em França, cujo Presidente passou de intermediário para tentar evitar a guerra na Ucrânia a defensor da continuação e agravamento da mesma, anunciando o reforço extraordinário das capacidades militares da França, Emmanuel Macron acabou esta semana a ter de recorrer aos militares para ajudarem a dominar o grande incêndio de Bordéus. Afinal, parece que, na hora da verdade, aquilo que os cidadãos esperam da sua República é que lhes garanta a segurança de pessoas e bens contra um perigo real e presente e não contra um hipotético perigo futuro. Daqui a uns anos os nossos filhos e netos hão-de perguntar-nos o que andámos nós a fazer, gastando fortunas em armamento e alimentando os lucros das multinacionais das armas e da energia, enquanto víamos, fingindo surpresa, as terras a arder, o gelo dos pólos a derreter e as temperaturas a subir sempre.

2.  2Sinal destes tempos de mentira organizada e desinformação planeada, o Governo de Israel, depois de matar todos os jornalistas árabes que conseguiram estar em Gaza (para cima de 150!) e proibir a entrada da imprensa ocidental independente, aposta agora em profissionais da aldrabice, dispostos a serem contratados para negar o que vimos e sabemos: Gaza reduzida a cinzas, 73 mil mortos, dos quais mais de 20 mil crianças, a Cisjordânia transformada num faroeste, onde os colonos israelitas, apoiados pela IDF, caçam palestinianos, ocupam as suas terras, destroem as suas casas e culturas. Vemos, ouvimos e lemos. Mas é possível fingir ignorar: entre os €500 milhões que o Governo de Netanyahu já destina anualmente para propaganda amiga, estão verbas para convidar uns mercenários da verdade a visitarem a “única democracia do Médio Oriente”. Oito tristes patetas portugueses, ditos influencers, responderam assim à chamada e lá foram eles, descobrindo, cito, que “o mais fixe em Israel é que eles não têm a intenção de se vingar de ninguém. O amor é a palavra que mais usam”. E lá foram recebidos por um anfitrião, dito jornalista, Henrique Cymerman, a quem chamaram um “anjo da paz” e o qual lhes fez uma prelecção sobre as mentiras que a imprensa ocidental veicula sobre Israel, sobrepondo-se ao silêncio cúmplice dos dirigentes europeus. Os 73 mil mortos vítimas do amor de Israel, de facto, é como se nunca tivessem existido.

2026 Julho 31

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Daniel Oliveira - Os Estados Unidos eram mesmo um modelo de democracia?

* Daniel Oliveira

"A shining city upon a hill." Era assim que os Estados Unidos se viam e queriam que o mundo os visse — um modelo, um farol, uma democracia exemplar. Durante décadas, o mundo acreditou. Trump não criou as fragilidades que esta narrativa escondia. Mas tornou impossível continuar a ignorá-las. Um exercício de memória e de factos sobre o maior mito político do século XX

"City upon a hill." A expressão vem de um sermão de 1630, antes ainda de existir nação. John Winthrop usou-a para descrever uma comunidade cristã exemplar. Ronald Reagan ressuscitou-a, acrescentou-lhe “shining” e transformou-a em marca geopolítica: os Estados Unidos como farol do mundo livre, modelo que os outros deviam imitar. Durante décadas, o mundo — e os próprios americanos — aceitou a narrativa com uma deferência que raramente se concede a outros países. Havia razões para isso.

sábado, 18 de julho de 2026

Raquel Varela - [Ensino, exames e pedagogia]

* Raquel Varela

Sabem o que ensinam os professores antes de um exame? Leiam atentamente as perguntas todas antes de começar a responder a cada uma delas, no fim revejam o exame todo, se há uma questão difícil passa para a próxima, e volta a esta mais tarde. Verifica os erros ortográficos. Dorme e come bem antes do exame. Quando sair a nota fazemos a correcção colectiva, na aula, e em cada exame está a correcção individual, se tens dúvidas vem falar comigo no final da aula e ficamos a ver juntos o exame e, ao teu lado, demonstro o que está mal, bem, o que podia ser melhor. 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Daniel Oliveira - Arrábida: a areia que sobra

* Daniel Oliveira

A polémica dos chapéus de sol em frente às concessões foi só um episódio de uma guerra que mal começou. A praia é um dos últimos redutos de propriedade pública disponível para todos. Num país que fez do litoral um resort para não residentes, em que a praia deve ser exclusiva, o domínio público marítimo é visto como um obstáculo económico. Na Arrábida, a família Mirpuri foi a tribunal reclamar cinco praias. Se não resistirmos, a areia que é nossa pode não sobrar por muito tempo

Durante anos, milhares de portugueses chegaram à praia, olharam para a frente das concessões privadas e pensaram: "Aqui não posso pôr o chapéu." A feliz surpresa veio quando o presidente da APA classificou como "abuso" a proibição de colocar chapéus de sol em frente às concessões. Este braço de ferro é o mesmo que se trava um pouco por toda a costa: entre a pressão privada para retirar à maioria o que é de todos e a resistência de uma instituição pública que os portugueses parecem valorizar mais do que qualquer outra.

sábado, 27 de junho de 2026

Susana Prizendt - Das terras raras às terras áridas

 


Estamos assistindo a um processo acelerado de degradação dos nossos solos. As terras férteis estão ficando cada vez mais raras

Por Redação

26/06/26 •  

Resumo da notícia ​

Das terras raras às terras áridas: o país no limiar entre a bênção e a maldição 

“Meu pai, quando encontrava um problema na roça, se deitava sobre a terra com o ouvido voltado para o seu interior, para decidir o que usar, o que fazer, onde avançar, onde recuar. Como um médico a procura do coração” 


Itamar Vieira Junior, Torto Arado

por Susana Prizendt

(artigo escrito inteiramente por uma pessoa humana)

Suspensa em um apartamento de um bairro cada vez mais verticalizado da capital paulista – assim como outras milhões de pessoas urbanizadas -, posso esquecer que, sob todas as camadas de concreto abaixo de mim, existe um elemento natural chamado solo. Mas, ao regar minhas plantinhas na janela, procuro me conscientizar de que, apesar do crescente sufocamento ao qual ele tem sido submetido, ele ainda está lá, resistindo a ser dado como morto.

Há mais de 4 décadas, a Dra Ana Primavesi, mestra inconteste de quem atua nos movimentos agroecológicos, já semeara, no meio acadêmico brasileiro, algo que nossos povos originários sempre souberam: o solo é um organismo vivo. Ele pulsa, gestando lentamente as condições para a existência do que chamamos de fertilidade.

Estima-se que um quarto das espécies de seres vivos já conhecidas por nós esteja no solo. É o dobro das que habitam os oceanos. Uma biodiversidade que envolve animais, vegetais, fungos e uma infinidade de microorganismos, em uma trama dinâmica e vibrante, responsável pela ciclagem da matéria. Este é o processo que permite o crescimento das plantas; são elas que vão alimentar a fauna local e, também, a população humana.


sábado, 13 de junho de 2026

Pedro Tadeu - A REVOLUÇÃO, AFINAL, COMEÇA NA PRAIA?

 * Pedro Tadeu 

Antes de o capitalismo se desenvolver plenamente, foi necessário separar os produtores diretos dos seus meios de produção. Camponeses que tinham acesso à terra, a baldios, a instrumentos de trabalho ou a formas comunitárias de sobrevivência foram desapossados. Sem terra, nem recursos próprios, passaram a depender do salário. Ao mesmo tempo, a propriedade fundiária, o dinheiro e os instrumentos produtivos concentraram-se nas mãos de proprietários e capitalistas.

domingo, 7 de junho de 2026

Daniel Oliveira - Pôr os de baixo na ordem

 


Foto Tiago Miranda


* Daniel Oliveira

Os debates sobre imigração, apoios sociais e produtividade foram capturados por uma elite rentista que naturaliza a desigualdade persistente, prometendo pôr na ordem os de baixo — imigrantes, pobres e trabalhadores —, enquanto os mobiliza contra os que estão no degrau inferior da escada classista

04 junho 2026  

Aburguesia nacional fez-se sobretudo pela captura de rendas e pela proximidade ao poder político. À sombra do ouro do Brasil, dos monopólios coloniais, do condicionalismo industrial, das privatizações que lhe ofereceram monopólios ou oligopólios, de fundos europeus desbaratados, de concessões de serviços públicos. Em cada momento histórico açambarcou valor em vez de o criar. Hoje, assistimos ao bloqueio a qualquer regulação da transferência massiva de capital de áreas produtivas para o imobiliário, que não arrisca ou compete. Mas o rentismo não produziu apenas uma estrutura económica viciada e avessa à inovação. Produziu uma cultura.

sábado, 6 de junho de 2026

José Pacheco Pereira - Comer em tempos difíceis

No Dia Internacional dos Arquivos, um padre, pescadores e conserveiras vão lembrar-nos daquilo que não é para ser esquecido.

* José Pacheco Pereira

6 de Junho de 2026

Ao dar-se o nome ao debate de que vou falar, oscilou-se entre “comer em tempos em crise” e eu, para o lado excessivo, preferia “comer em tempos de fome”. De que é que estou a falar? Dum debate que vai ocorrer no Barreiro, no Dia Internacional dos Arquivos, 9 de Junho, integrado num dia dominado por uma exposição com o título Gastronomia na Cidade dos Arquivos, de responsabilidade, e muito mérito, de Nuno Teixeira.

Tiago Franco - A RESIGNAÇÃO DE UM POVO |



* Tiago Franco
 ·
O Expresso noticiava, em Abril deste ano, que Portugal tem um salário médio 38% inferior à média europeia. Faço estas contas repetidas vezes porque, apesar de este país ser cada vez menos recomendável, ainda é o mais parecido que tenho com o conceito de casa e gostava de um dia aqui trabalhar. 

Saio genuinamente irritado de sítios, onde quem me atende não tem qualquer culpa, por causa do custo de vida galopante. Como é que se vive? É sempre esta a minha interrogação. Como é que se vive nestas condições?

A esmagadora maioria dos portugueses leva para casa 1000 euros, um pouco mais ou um pouco menos. Ouvimos esta semana uma nova subida da Euribor que afectará as prestações dos créditos à habitação. Um depósito de gasolina já custa, sem grande esforço, cerca de 100 euros. A electricidade e o gás custam mais do que nos países mais ricos. 

Os preços das casas continuam a subir, o cabaz da alimentação também e já é certo que, no máximo, lá para Setembro, o BCE aumentará as taxas de referência. Uma notícia de ontem anunciava que o endividamento na banca sobe pelo oitavo mês consecutivo. Entretanto nós continuamos com os 1000 euros na mão, a escolher no que cortar. Alguém me faz essa conta? Como é que se suporta uma família com 1000 euros, em 2026 em Portugal?

As bombas da imagem distam pouco mais de 30 km. Na espanhola o governo resolveu absorver os custos. Na portuguesa, o governo de Montenegro aproveita o conflito do Irão para mais um jackpot de impostos.

Como é que nós aguentamos isto? Como é que um povo, que invade academias de futebol ou faz esperas a jogadores, não se junta e começa, por exemplo, a partir coisas? Sei lá...bombas de gasolina, supermercados, escadarias da AR. Como é que no desespero e na aflição de vermos a vida de miséria a que nos estão a condenar, não reagimos? Como é que aquele instinto animal, de sobrevivência e pouco maturado, reconheço, não aparece nestas ocasiões?

É que reparem, o governo pode fazer qualquer coisa para ajudar. Pode desde logo reduzir os impostos sobre os combustíveis. Pode incentivar políticas de trabalho remoto para que se poupe em deslocações. Pode parar com a idiotice de dar benefícios a senhorios ou construtores. Pode impôr regras fiscais que obriguem a uma distribuição mais justa da riqueza. Podem, enfim, tentar fazer algo pela melhoria de vida em vez de, repetidamente, nos tentarem convencer que todos os infortúnios resultam de factores externos e que nada, do nosso destino, é internamente controlado. 

Acho piada quando os grandes temas, em vez do passarem pelo nosso crónico empobrecimento, são o regozijo pelos imigrantes que resolvem abandonar Portugal ou as lutas de galinheiro sobre bandeiras, nacionalidade e opções sexuais.

Quando um português, mesmo daqueles um bocadinho mais fachos, percebe que nem um paquistanês cá quer ficar, não entende o que isso diz do nosso país?

Tudo isto me irrita. Um governo que nos rouba sem pudor e um povo que aceita, empobrecer, sem luta, sem combate, sem a rua.

Porque é a vida. Temos que aguentar e esperar por dias melhores. Que pena termos apenas uma vida.

2026 06 06

https://www.facebook.com/tiago.franco.735? 

terça-feira, 2 de junho de 2026

Bruno Carvalho - A rapaziada de vermelho




*  Bruno Carvalho

Amanhã, quando ouvires falar mal da rapaziada de vermelho, lembra-te que estão na linha da frente para defender os teus direitos e os dos teus filhos. Lembra-te que és tu, todos nós, que fazemos o país funcionar. 

Apartir desta noite, milhares de mulheres e homens vestidos com coletes vermelhos da CGTP vão estar à porta dos seus locais de trabalho. Não vão apenas perder um dia de salário como todos os grevistas. Vão passar uma noite em branco para esclarecer ainda mais trabalhadores a aderir à greve geral e vão denunciar qualquer ilegalidade cometida pelos patrões. Provavelmente, sem cometerem qualquer crime, alguns serão arrastados, agredidos ou detidos pela polícia a mando daqueles que vivem à custa do suor do nosso trabalho. 

E eis aqui o facto ineludível: se as greves não servissem para nada, não se esforçariam tanto para que não acontecessem, se os sindicatos fossem inúteis, não tratariam de impedir a sua actividade. Através da chantagem e da ameaça, os patrões procuram amedrontar os trabalhadores. Quando não conseguem, chamam a polícia. Por muito que se tape o sol com a peneira, hoje como há um século, vivemos numa permanente guerra de classes. 

Se te portares bem, no fim do ano, eles dão-te uma palmada nas costas e tu dás-lhes uma casa de férias ou um novo Tesla. Luís Montenegro não governa para ti. Governa para eles. É um empregado dos grandes grupos económicos e financeiros. Por isso, amanhã, quando ouvires falar mal da rapaziada de vermelho, lembra-te que estão na linha da frente para defender os teus direitos e os dos teus filhos. Lembra-te que és tu, todos nós, que fazemos o país funcionar. 

Quando o fogo destrói as nossas aldeias, quando a tempestade derruba as nossas casas ou quando os rios arrastam tudo, eles nada fazem. Às vezes parece que nos esquecemos que estamos entregues a nós próprios. À nossa classe. E somos bem mais do que eles. 

«E por mais que nos custe, por mais dor que possa causar, fazer greve é um dever de todo o trabalhador. Outros morreram a fazê-la quando amavam a vida tanto ou mais do que tu, quando precisavam do salário tanto ou mais do que tu, num tempo de fome e miséria.»

A cada madrugada, enchemos autocarros, comboios e metros, apinhados como gado, para encher os bolsos do patrão por uma recompensa miserável. Aumenta a renda, aumenta a conta do gás, aumenta o preço das compras do supermercado, aumenta o combustível, aumenta tudo menos os nossos salários.

Se o Governo quer agora, através do pacote laboral, limitar o direito à greve e a intervenção dos sindicatos nos locais de trabalho, o nosso dever é estar na linha da frente. Com coragem. Por isso, a partir desta noite devemos apoiar os nossos, a rapaziada de vermelho. Ou vestir-nos também de vermelho e engrossar os piquetes como a mais bonita das muralhas humanas.

Quando algum dos nossos os insultar ou disser que não querem é trabalhar, lembra-o que quem não quer trabalhar é o patrão. E por mais que nos custe, por mais dor que possa causar, fazer greve é um dever de todo o trabalhador. Outros morreram a fazê-la quando amavam a vida tanto ou mais do que tu, quando precisavam do salário tanto ou mais do que tu, num tempo de fome e miséria.

Provavelmente, os teus pais ou os teus avós eram operários. Talvez elas fossem costureiras e eles sapateiros, talvez trabalhadores agrícolas, quem sabe operárias numa fábrica de conservas ou metalúrgicos. Muitos deles fizeram greve para conquistar alguns dos direitos que temos hoje e que nos querem tirar. A luta de classes é um continuum histórico de avanços e recuos. Porque eles foram, nós somos. E porque nós somos, outros serão.

Viva a greve geral!
Morte ao Pacote Laboral!

2026-06-02

https://abrilabril.pt/trabalho/rapaziada-de-vermelho?

domingo, 31 de maio de 2026

Margarida Davim - Os ricos também choram

 


 Opinião Tudo é política

* Margarida Davim

No lobby da festa apareceram pequenas garrafinhas, daquelas que costumam ser usadas para servir bebidas, cheias de urina, com a cabeça calva de Bezos no rótulo, numa alusão às regras da Amazon que tornam um inferno uma simples ida à casa de banho durante um turno. Junto à passadeira vermelha, os manifestantes gritaram uma frase que resume bem o momento em que as descidas de impostos aos mais ricos se traduzem diretamente na falta de cuidados a todos os outros. “We need healthcare, not a another billionaire.”

Os vestidos de caudas impossíveis, os corpetes ao estilo de armaduras, as maquilhagens exageradas e os cabelos meticulosamente penteados ficaram subitamente expostos ao seu ridículo vazio. Era possível vê-lo nas caras dos convidados, que tentavam fugir rapidamente ao protesto que se desenrolava à porta. “Devias ter vergonha, Jeff Bezos”, lançava, com uma dignidade atordoante, uma mulher negra de 72 anos, que continua a ter de trabalhar num armazém da Amazon para viver, apesar da idade avançada. “Nós merecemos essa festa, nós merecemos muito mais do que recebemos”, avisava Mary Hill, projetada no arranha-céus, sem medo de ameaçar um dos senhores do mundo. “Há força nos números e há muitos mais de nós do que de vocês, bilionários.” Na rua, as pessoas comuns passavam e olhavam com um sorriso de admiração para aquela mulher franzina que subitamente tinha alcançado o tamanho de um gigante e, com a sua força, reduzia o multimilionário à sua imensa fragilidade de homem sozinho, capaz de ser esmagado pelos mesmos que oprime e explora.

O protesto não mudou o mundo. Um protesto sozinho nunca muda nada. Mas alguma coisa tremeu. E a prova disso chegou, pouco depois, quando o milionário CEO da empresa americana Vornado, Steven Roth, mostrou o quão temida e poderosa é esta mensagem ao comparar o slogan “tax the rich” a – imagine-se – um “discurso de ódio”. Roth teve a infelicidade de denunciar este ódio de classe na mesma semana em que saiu nos Estados Unidos um estudo que mostra que cerca de metade dos americanos não ganha, trabalhando, o suficiente para viver. “Os ricos”, disse ele ao New York Times, “são o epíteto do sonho americano. Estão no topo da pirâmide económica americana por uma razão. Deviam ser louvados e alvo de gratidão”, defendeu o milionário, para quem a simples ideia de que a sua riqueza deve ser taxada é semelhante a uma “tirada racista”.

A desfaçatez com que se compara um pedido de justiça social a ataques racistas só é possível graças a uma construção ideológica que associa riqueza – mesmo a mais desmedida – a mérito, ao mesmo tempo que se cria a ilusão de que a fortuna é um estatuto acessível a quem se esforce. A última década foi a era da pornografia da riqueza. Os média e as redes sociais encheram-se de imagens a que chamaram “aspiracionais”, ao mesmo tempo que as marcas de luxo encontravam formas de vender produtos aos menos abonados para que de alguma maneira eles se sentissem parte de um clube no qual nunca iriam verdadeiramente entrar. Os restaurantes passaram a ser gourmet. Os hotéis transformaram-se em boutiques. E uma massa de gente da classe trabalhadora ganhou assim a ilusão de estar mais perto de ser rica.

Esse é o truque. Que penses que és rico porque compraste um Tesla ou um BMW, porque foste de férias para um resort qualquer, porque podes dar-te ao luxo de ir aos restaurantes da moda, porque tens um salário de diretor, seguro de saúde e regalias. Isso não é ser rico. Parece que é, sobretudo quando há tanta gente que mal chega ao final do mês, tanta gente a adiar consultas médicas porque não pode pagá-las, tanta gente sem ter como pagar uma casa. Mas este truque é tão bem feito que até esses, tantas vezes muito perto de serem pobres, se sentem quase ricos, porque esgotaram as poupanças num iPhone ou andaram a amealhar o ano inteiro para uma semana em regime de “tudo incluído”.

E esse truque é importante precisamente por aquilo que nos disse Mary Hill, a trabalhadora que arrasta a sua velhice num armazém da Amazon para viver. “Porque há força nos números.” Porque há milhões e milhões de trabalhadores e apenas 12 pessoas que concentram mais de metade da riqueza da Humanidade. Repitam comigo: 12 pessoas. E pensem sobre isso de cada vez que acharem que são ricos ou que um dia vão ser ricos. Porque essa ideia é o que vos tem empobrecido. É graças a essa ideia que todos os dias perdemos direitos no trabalho, na saúde, na educação, na habitação. É essa ideia que permite que mais de metade da riqueza do mundo esteja nas mãos de uma dúzia.

O algoritmo do Instagram começou a mostrar-me memes sobre como os níveis de desigualdade regressaram a um ponto só comparável com o período antes da Revolução Francesa. Lembram-se da Revolução Francesa da “igualdade, liberdade, fraternidade” e das guilhotinas? O tal CEO americano deve ter-se lembrado e, por isso, tremeu. E por isso acusou de racismo quem só pede um mundo um pouco mais justo, quem só pede que haja uma maior distribuição da riqueza que existe e é criada todos os dias por quem trabalha. Quando pela primeira vez em décadas alguém aparece e os desafia de frente, a primeira reação é gritar “crime de ódio”, sem se lembrarem das vezes que escarneceram os “wokes” que lutavam contra a discriminação de minorias. Afinal, não existe minoria mais minoritária do que a dos milionários.

Na TVI, passa agora uma telenovela com o título Os Ricos Também Choram. É uma versão de um drama mexicano que se estreou em 1979, precisamente quando começou no mundo a onda que há mais de 40 anos tenta desmantelar as políticas públicas de redistribuição da riqueza. O título é comovente. Mas talvez o “também” esteja a mais. Afinal, humanos são só aqueles que ascendem ao topo da pirâmide. Louvemos o seu mérito e estejamos gratos pela sua existência. 

22.05.2026  

https://visao.pt/opiniao/tudo-e-politica/2026-05-22-os-ricos-tambem-choram-cronica-de-margarida-davim/

sexta-feira, 29 de maio de 2026

António Rodrigues - A estupidez da inteligência artificial

O mundo que se conta a partir do que se diz.

 * António Rodrigues

8 de Dezembro de 2022

 “O problema não é só o de que a maioria de nós luta para conseguir viver com o salário médio, mas o facto de o trabalho incansável nos ser apresentado como uma virtude em si mesmo, independentemente dos rendimentos” Matthew Neale, jornalista inglês

A inteligência da desigualdade

É o furor da semana no domínio dos avanços tecnológicos, um programa de inteligência artificial (IA) que consegue escrever ensaios, notícias, criar histórias ou poesia a partir das sugestões dos utilizadores. Não é o primeiro programa do género, mas os avanços demonstrados pelo ChatGPT deixam antever que muitas tarefas básicas de escrita passarão a ser feitas por máquinas num futuro não muito distante.

O entusiasmo infantil com que olhamos para estes novos desenvolvimentos de IA não esconde que, depois do divertimento de experimentar, nos comece a amargar a boca pelas consequências do seu impacto no futuro. E não se trata apenas de questões éticas ou existenciais à Blade Runner, imaginando uma qualquer revolta de autómatos angustiados com a mortalidade.

Tem mais que ver com o impacto da máquina no mercado laboral. O parafuso que Charlie Chaplin apertava em Tempos Modernos ou a mercadoria que um trabalhador chinês embala em versão autómato em longas jornadas de fastidioso trabalho podem passar a ser feitas por máquinas, mas o que acontece a esses trabalhadores dispensados? São despedidos? Reciclados? Rejeitados?

Como lembra o professor Bernardo Guimarães na Folha de S. Paulo, as inovações tecnológicas provocam efeitos na sociedade como um todo. Permitem produzir mais ou trabalhar menos (ou um conjunto dos dois), mas também “afectam o valor de mercado das diferentes ocupações”, ao tornar “menos valiosos trabalhos com remuneração menor e mais valiosos os trabalhos mais especializados”. E esse tem sido sempre “um factor-chave” para o aumento da desigualdade nos países mais desenvolvidos.

O Peru aboliu a escravatura há 168 anos; porém, grande parte dos peruanos sobrevive como se o conceito ainda existisse. Segundo o director da organização não governamental Capital Humano y Social, Ricardo Valdés, a percentagem de trabalhadores sem contrato no Peru anda à volta de 75% e em certas zonas do país chega aos 90%.

Esta informalidade económica, em que os direitos dos trabalhadores são grandemente negados ou ignorados (mesmo pelos próprios: de acordo com o Instituto de Estudos Peruanos, citado pela Swiss Info, 54% da população não está familiarizada com o conceito de trabalho forçado), em que a precariedade laboral joga a favor de quem a multiplica e contra quem a divide, esvai-se a dignidade do ser humano com a cumplicidade do Estado.

Mais de 3,4 milhões de trabalhadores peruanos declararam que já foram obrigados a trabalhos forçados, mas o Ministério Público regista apenas 25 casos de 2017 a 2020 e ainda culpa as vítimas por não denunciarem os crimes.

Mesmo que o próprio ministro do Trabalho, Alejandro Salas, na segunda-feira, no discurso de abertura de um encontro sindical, a que a agência de notícias espanhola EFE assistiu e a Swiss Info reproduziu, mostre vontade em “lutar contra este flagelo de trabalho forçado”, os números da informalidade são tão avassaladores no Peru que retiram peso às palavras.

 “Aqui temos um assunto de dignidade do ser humano, um assunto em que as liberdades do ser humano estão expostas e temos de fazer alguma coisa como sociedade e envolvermo-nos todos”, disse o ministro, que, ao incluir toda a gente, “como sociedade”, se encarregou, ao mesmo tempo, de tornar o esforço épico e generalizado e menorizar a culpa do Estado na sua manutenção.

Em 2016, Salomé Lamas, no seu documentário El Dorado XXI, filmou os mineiros de ouro de La Rinconada que a 5100 metros de altitude na região andina peruana trabalham seis dias em troco de nada, nas condições climatéricas mais adversas para no sétimo poderem ficar com o ouro que eventualmente encontrarem.

Oito horas

Quase 140 anos passados desde que o sindicalista inglês Tom Mann reinventou a jornada de trabalho que isto não há maneira de melhorar. Prometeram-nos (e continuam a prometer) uma revolução tecnológica que tornaria a vida do ser humano mais prazenteira, permitindo mais horas de lazer e menos preocupações e chegámos a este século XXI com a maioria ainda a praticar jornadas laborais de oito horas ou mais.

As 35 horas semanais em França ainda são mal vistas, mesmo agora que já se começam a dar os primeiros passos para a semana das 32 horas em alguns países, com apenas quatro dias de trabalho.

Quando as oito horas laborais, oito horas de descanso e oito horas para fazer o que nos dá na real veneta, defendidas por Mann, se tornam hoje incomportáveis para muita gente, a braços com a diminuição do valor do trabalho e o aumento do custo de vida, sentimos que nos trocaram as voltas. O capitalismo, que nos vendeu o tal dito “sonho” americano do mata-te a trabalhar que terás a recompensa (escondido sob a capa da busca do eterno progresso), vem paulatinamente diminuindo o valor do trabalho e multiplicando fortunas dos que mandam trabalhar.

Como refere Matthew Neale, no Independent, “o aumento do número de pessoas com segundos e terceiros empregos, ou mesmo a tirar sabáticas anuais para conseguir trabalhar mais, parece sugerir que alguma coisa, em determinado momento, correu horrivelmente mal”.

E a pandemia, que acentuou o teletrabalho, não veio ajudar em nada, ao diluir as fronteiras entre a casa e o trabalho e o trabalho é como o eucalipto, seca tudo à sua volta e potencia a (auto)combustão – porque, mesmo com tanto trabalho, nunca nos livramos da sensação que ficou algo por fazer, que deveríamos ter feito mais, que aqui ou ali cedemos à procrastinação. E daí vem a culpa e o eterno mal-estar físico e mental.

Amanhã, tenho 15 minutos para ti

As aplicações para gerir a nossa vida tornaram-se tão omnipresentes que o sector deverá valer mais de 100 mil milhões de euros em 2027, escreve o Brussels Times. Com o tempo a acelerar à frente dos nossos olhos e a quantidade de ofertas que se nos apresentam, o ser humano do século XXI, incapaz de estar sem fazer nada, recorre à tecnologia para maximizar o seu horário e fugir à angústia de não conseguir fazer tudo. E mesmo assim queda curto.

 “A gestão do tempo não é a solução, na verdade é parte do problema”, escreve o psicólogo empresarial Tony Crabbe no seu livro Busy: How to Thrive in a World of Too Much, citado pelo diário belga em língua inglesa.

ocupação dos minutos, não visa ajudar-nos a respirar, beber descansado um café, caminhar descalço na relva, fechar os olhos e não pensar em nada. Na verdade, poupamos tempo numas tarefas para arranjar tempo para encaixar outras.

E o mais incrível é que, se calhar por influência dessas aplicações eficientes, tudo se horizontaliza e na mesma dimensionalidade da nossa agenda de tarefas diárias uma reunião de trabalho, a compra de nabos na mercearia, a aula de ioga, o encontro com amigos, o filme na Netflix e o beijo aos pais se equiparam no mesmo nível burocrático-existencial. Como num discurso mental próprio de auto-ajuda, são tudo fragmentos do nosso enriquecimento pessoal.

A auto-ajuda, o empreendedorismo, “o ser capaz de fazer tudo desde que uma pessoa se esforce”, quando transformados em filosofia de vida tornam-se obsessões que podem fazer mais mal do que bem. E não deixam de ser ferramentas na mão do mercado, um deus ex machina do ateísmo capitalista: nunca descanses, amanhã tenho 15 minutos para ti.


sábado, 23 de maio de 2026

António Santos - 10 factos chocantes sobre os EUA

* António Santos

1. Os Es­tados Unidos têm a maior po­pu­lação pri­si­onal do mundo, com­pondo menos de 5% da hu­ma­ni­dade e mais de 25% da hu­ma­ni­dade presa. Em cada 100 ame­ri­canos um está preso.A subir em flecha desde os anos 80, a sur­real taxa de en­car­ce­ra­mento dos EUA é um ne­gócio e um ins­tru­mento de con­trolo so­cial: à me­dida que o ne­gócio das pri­sões pri­vadas alastra, uma nova ca­te­goria de mi­li­o­ná­rios con­so­lida o seu poder po­lí­tico. Os donos destes cár­ceres são também donos dos es­cravos que tra­ba­lham em fá­bricas dentro da prisão por sa­lá­rios in­fe­ri­ores a 50 cên­timos por hora. Uma mão-de-obra tão com­pe­ti­tiva que muitos mu­ni­cí­pios hoje so­bre­vivem fi­nan­cei­ra­mente das suas pri­sões ca­ma­rá­rias e graças a leis que vul­ga­rizam sen­tenças até 15 anos de prisão por crimes como roubar pas­tilha elás­tica. Os alvos destas leis são in­va­ri­a­vel­mente os mais po­bres, mas so­bre­tudo os ne­gros, que re­pre­sen­tando apenas 13% da po­pu­lação ame­ri­cana, com­põem 40% da po­pu­lação pri­si­onal do país.

2. 22% das cri­anças ame­ri­canas vivem abaixo do li­miar da po­breza.Cal­cula-se que cerca de 16 mi­lhões de cri­anças ame­ri­canas vivam sem «se­gu­rança ali­mentar», ou seja, em fa­mí­lias sem ca­pa­ci­dade eco­nó­mica para sa­tis­fazer os re­qui­sitos nu­tri­ci­o­nais mí­nimos de uma dieta sau­dável. As es­ta­tís­ticas provam que estas cri­anças têm pi­ores re­sul­tados es­co­lares, aceitam pi­ores em­pregos, não fre­quentam a uni­ver­si­dade e têm uma maior pro­ba­bi­li­dade de, quando adultos, serem presos.

3. Entre 1890 e 2014 os EUA in­va­diram ou bom­bar­de­aram 151 países.
São mais os países do mundo em que os EUA já in­ter­vi­eram mi­li­tar­mente do que aqueles em que ainda não o fi­zeram. Nú­meros con­ser­va­dores apontam para mais de oito mi­lhões de mortes cau­sadas pelas guerras im­pe­riais dos EUA só no sé­culo XX. E por de­trás desta lista es­condem-se cen­tenas de ou­tras ope­ra­ções se­cretas, golpes de es­tado e pa­tro­cí­nios a di­ta­dores e grupos ter­ro­ristas. Se­gundo Obama, lau­reado do Nobel da Paz, os EUA têm neste mo­mento mais de 70 ope­ra­ções mi­li­tares se­cretas a de­correr em vá­rios países do mundo. O mesmo pre­si­dente criou o maior or­ça­mento mi­litar de qual­quer país do mundo desde a Se­gunda Guerra Mun­dial, ba­tendo de longe Ge­orge W. Bush.

4. Os EUA são o único país da OCDE sem di­reito a qual­quer tipo de sub­sídio de ma­ter­ni­dade.
Em­bora estes nú­meros va­riem de acordo com o Es­tado e de­pendam dos con­tratos re­di­gidos pela em­presa, é prá­tica cor­rente que as mu­lheres ame­ri­canas não te­nham di­reito a ne­nhum dia pago antes nem de­pois de dar à luz. Em muitos casos, não existe se­quer a pos­si­bi­li­dade de tirar baixa sem ven­ci­mento. Quase todos os países do mundo con­tem­plam entre 12 e 50 se­manas pagas em li­cença de ma­ter­ni­dade. Os Es­tados Unidos fazem com­pa­nhia à Papua Nova Guiné e à Su­a­zi­lândia com zero se­manas.

5. 125 ame­ri­canos morrem todos os dias por não po­derem pagar o acesso à saúde.
Quem não tiver se­guro de saúde (como 50 mi­lhões de ame­ri­canos não têm) tem boas ra­zões para re­cear mais a am­bu­lância do que o ino­cente ataque car­díaco. Com vi­a­gens de am­bu­lância a cus­tarem em média 500 euros, a es­tadia num hos­pital pú­blico mais de 200 euros por noite e a mai­oria das ope­ra­ções ci­rúr­gicas si­tu­adas nas de­zenas de mi­lhares, é bom que se possa pagar um se­guro de saúde pri­vado.

6. Os EUA foram fun­dados sobre o ge­no­cídio de 10 mi­lhões de na­tivos. Só entre 1940 e 1980, 40% de todas as mu­lheres em re­servas ín­dias foram es­te­ri­li­zadas contra sua von­tade pelo go­verno.
Es­queça a his­tória do Dia de Acção de Graças, com ín­dios e co­lonos a par­ti­lhar pa­ca­ta­mente um peru. A his­tória dos EUA co­meça no pro­grama de er­ra­di­cação dos ín­dios: du­rante dois sé­culos, os na­tivos foram per­se­guidos e as­sas­si­nados, des­po­jados de tudo e em­pur­rados para mi­nús­culas re­servas de terras in­fér­teis, em li­xeiras nu­cle­ares e sobre solos con­ta­mi­nados. Em pleno sé­culo XX, os EUA pu­seram em marcha um plano de es­te­ri­li­zação for­çada das mu­lheres na­tivas, pe­dindo-lhes para as­si­narem for­mu­lá­rios es­critos num língua que não com­pre­en­diam, ame­a­çando-as com o corte de sub­sí­dios ou, sim­ples­mente, cor­tando-lhes o acesso à saúde.

7. Todos os imi­grantes são obri­gados a jurar não serem co­mu­nistas para po­derem viver nos EUA.
Para além de ter que jurar que não é um agente se­creto nem um cri­mi­noso de guerra nazi, vão-lhe per­guntar se é ou al­guma vez foi membro do «Par­tido Co­mu­nista», ou se de­fende in­te­lec­tu­al­mente al­guma or­ga­ni­zação con­si­de­rada «ter­ro­rista». Se res­ponder que sim a qual­quer destas per­guntas, pode ser-lhe ne­gado o di­reito de viver e tra­ba­lhar nos EUA por «prova de fraco ca­rácter moral».

8. O preço médio de uma li­cen­ci­a­tura numa uni­ver­si­dade pú­blica é 80 000 dó­lares.
O En­sino Su­pe­rior é uma au­tên­tica mina de ouro para os ban­queiros. Vir­tu­al­mente todos os es­tu­dantes têm dí­vidas as­tro­nó­micas que, acres­cidas de juros, le­varão em média 15 anos a pagar. Du­rante esse pe­ríodo, os alunos tornam-se servos dos bancos e das suas dí­vidas, sendo amiúde for­çados a con­trair novos em­prés­timos para pagar os an­tigos. Entre 1999 e 2014, a dí­vida total dos es­tu­dantes es­tado-uni­denses as­cendeu a 1.5 tri­liões de dó­lares, su­bindo uns as­sus­ta­dores 500%.

9. Os EUA são o país do mundo com mais armas: para cada 10 ame­ri­canos, há nove armas de fogo.
Não é de es­pantar que os EUA levem o pri­meiro lugar na lista dos países com a maior co­lecção de armas. O que sur­pre­ende é a com­pa­ração com o resto do mundo: no resto do pla­neta há uma arma para cada 10 pes­soas. Nos Es­tados Unidos, nove para cada 10. Nos EUA po­demos en­con­trar 5% de toda a hu­ma­ni­dade e 30% de todas as armas, qual­quer coisa como 275 mi­lhões.

10. São mais os ame­ri­canos que acre­ditam no Diabo do que aqueles que acre­ditam em Darwin.
A mai­oria dos ame­ri­canos são cép­ticos, pelo menos no que toca à te­oria da evo­lução, em que apenas 40% da po­pu­lação acre­dita. Já a exis­tência de Sa­tanás e do in­ferno soa per­fei­ta­mente plau­sível a mais de 60% dos ame­ri­canos. Esta ra­di­ca­li­dade re­li­giosa ex­plica as «con­versas diá­rias» do ex-pre­si­dente Bush com Deus e mesmo as ines­go­tá­veis di­a­tribes sobre a na­tu­reza te­o­ló­gica da fé de Obama.

Avante n.º 2105 (3/04/2014)
https://www.avante.pt/pt/2105//129683

quarta-feira, 13 de maio de 2026

O anticomunismo serôdio e as exemplares mistificações dos ilusionistas liberais, até dizer ...chega



* WHISTLEBLOWER.Pt
 ·
O cartaz não mente. 

Está ali, preto no branco: a ausência dos comunistas na receção a um representante do parlamento ucraniano e a citação de Paula Santos a lamentar o fim da União Soviética. 

Para quem desfila no 25 de Abril sob as bandeiras da Liberdade e da Democracia, a contradição é tão estrondosa que só uma cegueira ideológica profunda a pode disfarçar. 

Mas essa cegueira não é uma falha acidental. É o requisito fundamental para manter de pé uma narrativa que a realidade já desmontou há muito.

O verdadeiro hino à hipocrisia não está apenas no gesto de se ausentarem. 

Está no sistema de pensamento que torna esse gesto possível. 

Está na resposta às três perguntas que nenhum comunista consegue responder sem recorrer a ginásticas mentais que insultam a inteligência de quem trabalha.

1. "Fascismo? Em Portugal??"
A pergunta é retórica porque a resposta é óbvia para qualquer pessoa que não tenha a vista queimada pela ideologia. 

Não, não vivemos numa ditadura fascista. Nem no tempo de Salazar. Era um Regime autoritário, nao fascista.

Mas a narrativa precisa do fantasma do "fascismo" para sobreviver. 

Precisam de chamar fascismo ao liberalismo, ao centro-direita, à troika, ao patrão da fábrica, ao senhorio. Porquê? 

Porque sem um inimigo absoluto e desumanizado, a lógica binária do "nós contra eles" desmorona-se. 
Se admitissem que Portugal é uma democracia imperfeita mas real, teriam de admitir que os seus métodos e os seus dogmas são uma resposta para um problema que já não existe nos termos que eles colocam. 

A inflação retórica do termo "fascismo" é o primeiro sintoma da cegueira: para verem o mundo a preto e branco, têm de chamar preto a todos os tons de cinzento.

2. A maioria dos comunistas trabalha para capitalistas.
Esta é a verdade que devia fazer tremer a cátedra de qualquer teórico de gabinete. 

O militante do PCP, a base que enche os comícios, acorda todos os dias e vende a sua força de trabalho a um capitalista. 

Recebe um salário, paga impostos, desconta para a Segurança Social num sistema que o partido quer derrubar. 

A resposta clássica – "é a condição de explorado" – é tecnicamente verdadeira, mas moral e existencialmente vazia. 

O que esta esquizofrenia quotidiana prova não é a exploração do trabalhador (essa é real e combatível), mas a impossibilidade prática do mundo que defendem. 

Vives no capitalismo, sobrevives graças a ele, e ainda assim passas a vida a desejá-lo morto, sem nunca apresentares uma alternativa funcional. 

Não é hipocrisia da pessoa; é a hipocrisia estrutural de uma ideologia que só sobrevive no mundo das ideias, nunca no mundo real do trabalho que diz defender.

3. A pergunta que nenhum congresso responde: os pés que fogem
E aqui chegamos ao ponto onde a cegueira se torna obscenidade moral. 

"Se o imperialismo é tão mau como dizem, porque foge o povo, quando pode, para países capitalistas?".
A pergunta não é só justa; é um tiro de misericórdia. 

Os fluxos migratórios do último século são o referendo silencioso e implacável sobre os dois sistemas. 

Milhões de pessoas arriscaram a vida em botes, arames farpados e desertos não para chegar a uma Cuba, a uma Coreia do Norte ou ao que resta da Venezuela herdeira do "socialismo do século XXI". Fogem para a "Europa imperialista", para os "Estados Unidos opressores", para o "capitalismo selvagem". 

Fogem porque, mesmo na sua exploração, o capitalismo democrático ofereceu historicamente mais pão, mais liberdade e mais futuro do que qualquer paraíso socialista real.

A resposta do PCP a este facto é o cúmulo da ginástica mental: a culpa é do colonialismo, do imperialismo, da NATO. 

Mas isso é responder a uma pergunta com um lamento, não com uma análise. 

Se o teu sistema é tão superior, porque é que ninguém foge para ele? 

Porque é que os cubanos não fogem em massa para a China e os chineses não arriscam a vida para entrar na Rússia? 

A verdade é dura: o socialismo real falhou tão redondamente em criar prosperidade e liberdade que os seus próprios povos, quando puderam, votaram com os pés... em direção ao "inimigo" fascista...

A anatomia da cegueira

A cegueira ideológica não é não ver a realidade. 

É olhar para ela e recusar-se a aceitar o que os factos gritam. 

É precisar de manter viva a chama de uma "União Soviética" que Paula Santos lamenta como um "avanço extraordinário para o povo", ignorando deliberadamente o Gulag, a fome, a repressão, o atraso económico. 

É olhar para um parlamento ucraniano eleito e ver um "bando de neonazis", mas olhar para Moscovo e não ver o poder vertical de Vladimir Putin. É clamar por Liberdade no 25 de Abril e ausentar-se da solidariedade a um povo invadido.

O hino à hipocrisia está completo quando, no mesmo fôlego, se celebra a Revolução dos Cravos – que derrubou uma ditadura e exigiu eleições livres – e se nega a um povo soberano o direito de escolher as suas alianças. 

A falta de vergonha está em instrumentalizar o nome da Liberdade para atacar os que resistem a tanques, enquanto se desce a avenida de braço dado com a memória do império que esmagou tanques na Hungria, em Praga, em Cabul.

Ser "Fascista" é ver isto sem filtros. É aceitar que, por trás da liturgia, do cartaz e da frase feita, há uma corrente de pensamento que trocou a análise da realidade pela repetição de mantras. 

E que insulta todos os que, cá dentro ou lá fora, lutam por uma democracia sem adjetivos.
2026 05 09
 

Verdade e factos
https://www.facebook.com/groups/944995956870607?

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Rodrigo Tavares - Ao ler este artigo está a violar os direitos humanos

* Rodrigo Tavares

Professor catedrático convidado na Nova SBE

A pergunta decisiva não é se algo é verde ou ético, mas que danos esconde

Não há nenhuma atividade económica, nenhum produto, nenhuma transação financeira que não gere impactos negativos para a sociedade ou para o meio ambiente. Nenhuma.

Ao ler este artigo o caro leitor está a usar um computador ou telemóvel que contem alumínio, antimónio, arsénico, bário, berílio, bismuto, boro, cálcio, cério, chumbo, cobalto, cobre, crómio, disprósio, estanho, estrôncio, európio, ferro, flúor, fósforo, gadolínio, gálio, germânio, grafite, índio, ítrio, lantânio, lítio, magnésio, manganês, molibdénio, neodímio, nióbio, níquel, ouro, paládio, platina, potássio, prata, praseodímio, selénio, silício, sódio, tântalo, telúrio, térbio, titânio, tungsténio, zinco e zircónio. São materiais provenientes de cadeias mineiras e industriais ligadas a países como Myanmar, Tajiquistão, China, Rússia, República Democrática do Congo, Gabão, Nigéria, Bielorrússia ou Zimbabué.

Agora seria chegado o momento em que eu citaria vários relatórios de ONGs que alertam para a violação dos direitos humanos na exploração de minérios nestes países. Bastava esticar o dedo para o Google ou um LLM. Prefiro destacar o livro Cobalt Red de Siddharth Kara, finalista do prémio Pulitzer, sobre as condições animalescas em que o cobalto é minerado na República Democrática do Congo. Se o comprar pela Amazon, aproveite e leia também The Everything War: Amazon’s Ruthless Quest to Own the World and Remake Corporate Power, escrito por Dana Mattioli, jornalista veterana do Wall Street Journal e também finalista do Pulitzer pelo seu trabalho sobre a Amazon.

Continuo? Na montagem de computadores e telemóveis, a violação de direitos humanos resulta da pressão contratual exercida pelas marcas sobre fornecedores, através de preço-alvo, prazos de lançamento e penalizações por atraso. Essa pressão converte-se em vínculos laborais precários, trabalho suplementar quase obrigatório, metas horárias extenuantes, controlo punitivo da produtividade e fraca liberdade sindical, afetando o direito ao trabalho digno, ao descanso e à associação coletiva. A exposição a soldaduras, solventes, resinas, retardadores de chama, poeiras metálicas e riscos de baterias de iões de lítio, quando não acompanhada por ventilação, proteção e vigilância médica eficazes, como acontece frequentemente, viola ainda o direito à saúde e à segurança no trabalho.

Não faltam precedentes. Nas fábricas da Foxconn e da Pegatron, auditorias e investigações identificaram violações de normas laborais e da lei chinesa. A Samsung viu tribunais sul-coreanos reconhecerem doenças profissionais associadas à produção de semicondutores. A Apple tem sido criticada pela distância entre os seus compromissos públicos de responsabilidade social e a precariedade laboral dos seus fornecedores. Não há escassez de denúncias. Recomendo o artigo do Financial Times, “Inside China’s mega iPhone factory: long hours, discrimination and delayed pay”, disponível aqui.

Há ainda as violações ambientais. A cadeia do computador consome água, energia e reagentes químicos, gera rejeitados, emite poluentes e produz lixo eletrónico. No fim de vida, placas, baterias, cabos e ecrãs podem entrar em circuitos informais de reciclagem, onde a recuperação de cobre, ouro ou alumínio envolve queima de cabos, banhos ácidos e desmontagem manual sem proteção. O resultado é contaminação do ar, do solo e da água por metais pesados e compostos tóxicos. A autora do livro High Tech Trash: Digital Devices, Hidden Toxics, and Human Health fez uma investigação notável sobre o problema.

Se quiser conhecer os impactos positivos e negativos de todas as empresas listadas em bolsa, recomendo esta plataforma finlandesa. Pode começar pela Apple (aqui).

Entre o impulso de corrigir o mundo e os meios disponíveis para o fazer há cadeias globais de extração, transporte, fabrico, e consumo que comprometem a santidade de qualquer gesto sustentável. Dito de outra forma, a transição de uma economia fóssil para uma economia verde não elimina a dependência de recursos finitos; apenas substitui o petróleo, o gás e o carvão pelo cobre, o lítio, o níquel, o cobalto, a grafite, as terras raras e outros metais indispensáveis à descarbonização.

E é exatamente quando chegamos a este ponto, emaranhados em incoerências e contradições, frustrados com os trade-offs e com a impossibilidade da coerência absoluta, conscientes de que cada solução conserva dentro de si uma forma de perda, que a sustentabilidade deixa de ser uma técnica de otimização e passa a ser uma prática de mitigação de custos sociais e ambientais. Quando ser sustentável se revela insustentável, a sustentabilidade é escolher o menos insustentável. No fundo, tudo se reduz a uma contabilidade honesta dos danos.

A UE seguiu o caminho contrário. Em 2020, criou a Taxonomia Europeia para classificar as atividades económicas ambientalmente sustentáveis. Mas o sistema tornou-se um labirinto técnico de critérios, atos delegados, salvaguardas, indicadores financeiros e obrigações de reporte. Equipas de sustentabilidade, finanças, auditoria e compliance precisam hoje de formação especializada para decifrar a máquina Enigma regulatória. Criada para reduzir o greenwashing, a taxonomia acabou também por oferecer às empresas uma linguagem técnica capaz de ocultar, relativizar ou diluir aquilo que permanece insustentável.

Não precisamos de atividades económicas, produtos ou transações financeiras “verdes”, “sustentáveis”, “eco”, “bio”, “orgânicas”, “naturais”, “amigas do ambiente”, “carbono neutro”, “sem plástico”, “recicláveis”, “reutilizáveis”, “conscientes”, “responsáveis”, “éticos”, “limpos”, “circulares”, “de impacto positivo” ou “alinhados com a transição” como se esses rótulos fossem bulas papais. Precisamos de saber, com precisão, que danos reduzem, que danos produzem, onde ocorrem, sobre quem recaem e quando se manifestam. A linguagem da sustentabilidade tornou-se demasiado adjectival e pouco contabilística.

Se a maioria dos produtos já tem a sua versão “verde”, há que reconhecer que os fabricantes de computadores e telemóveis parecem admitir, ainda que por omissão, que os seus produtos não podem ser verdadeiramente sustentáveis e éticos, nem sequer no plano da retórica. Pelo menos isso.

2026 04 30

https://expresso.pt/opiniao/2026-04-30-