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sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Mitterrand em mais de mil cartas de amor




No dia 13 chega às livrarias francesas um volume com 1218 cartas que o antigo Presidente francês escreveu a Anne Pingeot, a mulher com quem viveu um amor clandestino durante mais de 30 anos.
Mazarine Pingeot-Mitterrand e a mãe, Anne Pingeot, no funeral de François Mitterrand, em 1996 PHILIPPE WOJAZER/REUTERS
Um dos grandes estadistas do século XX na intimidade, escrevendo, apaixonado, à mulher da sua vida: “Quando te encontrei percebi logo que ia partir numa longa viagem”, diz-lhe em Novembro de 1964. “Lá, para onde vou, sei ao menos que tu estarás sempre. Abençoo o teu rosto, minha luz. Jamais haverá uma noite absoluta para mim. A solidão da morte será menos solidão. Anne, meu amor.”
Durante mais de 30 anos, François Mitterrand (1916-1996), antigo Presidente francês (1981-1995), teve uma relação extra-conjugal com a historiadora de arte Anne Pingeot, com quem viria a ter uma filha, Mazarine. Uma relação que permaneceu secreta. Agora, Pingeot, 73 anos, conservadora honorária do Museu D’Orsay, resolveu que era tempo de publicar as mais de mil cartas que Mitterrand lhe escreveu.Lettres à Anne (1962-1995), o volume de 1280 páginas que a editora Gallimard faz chegar às livrarias a 13 de Outubro, está já a agitar os franceses. Excertos das cartas publicados na quarta-feira na revistaL’Obs, que inclui ainda fotografias inéditas, e no jornal Le Figaro (esta quinta-feira) tiveram eco em vários meios de comunicação e já lançaram o debate sobre o direito à privacidade dos políticos. Um debate em que a antiga amante do Presidente certamente não participará, pelo menos publicamente.
Anne Pingeot, que passou um ano a transcrever e a anotar as centenas de cartas e poemas agora editados, já anunciou que não participará em qualquer iniciativa de promoção do livro que já se antecipa um best-seller. Fiel à sua habitual discrição, a mesma que lhe permitiu viver um amor proibido longe dos holofotes durante mais de três décadas, a historiadora de arte justificou a amigos próximos o timing desta publicação dizendo, segundo a agência AFP e a edição francesa do jornal online Huffington Post, que ela já não pode magoar ninguém - François Mitterrand morreu há 20 anos e Danielle, a mulher com quem ele casou em 1944, há cinco.
“Era este o momento”, disse o jornalista Philip Short, autor de um livro sobre Mitterrand que saiu em 2015 (Portrait d’un Ambigu), citado pela AFP. “Durante anos, Anne tolerou mal as versões não autorizadas da sua vida que circulavam. Quis, sem dúvida, dar a sua versão da verdade.”
Diz quem as leu, como o escritor e jornalista Jérôme Garcin, da L’Obs, que as cartas revelam um homem apaixonado, um companheiro atento e um leitor voraz, que não deixa de lado as suas obrigações políticas nem as preocupações de Estado. A Pingeot, Mitterrand conta como lhe correm os dias longe dela, o que pode incluir reuniões com líderes mundiais e episódios dos bastidores do Eliseu, a Pingeot admite fraquezas e inseguranças. “Pus uma fotografia tua à minha frente no escritório”, escreve-lhe em Maio de 1964. “Acabo de te deixar. Acabo de acender o candeeiro da minha vigília (um cavalo veneziano em cobre  serve de suporte e o abat-jour, cor de mel, é de um tecido forte). Penso em ti com tal ternura que é impossível que, neste momento, o teu coração não o saiba. Tenho o coração e a consciência mais livres, mais tranquilos desde que te falei. De mim para ti tudo é dito. E não me arrependo, mesmo que isso te assuste. […] Se optares pelo caminho que te conduz a mim, só a morte me afastará. Se tomares outro caminho, o meu orgulho e a minha alegria, com a minha dor pelo meio, estarão no facto de ter preservado a integridade daquela que amo. Terei ganho ao menos o afecto da tua alma, Anne querida, que vale bem todas as renúncias.”
Anne Pingeot e François Mitterrand apaixonaram-se no começo dos anos 1960, quando o político francês tinha 46 anos e ela 19. Diz quem o conheceu, entre eles biógrafos e amigos próximos, que Pingeot não era apenas a sua amante, era a mulher da sua vida. Esta relação intensa, de grande cumplicidade, só se tornou pública em 1994, quando a revistaParis Match publicou fotografias do então Presidente da República a sair de um restaurante parisiense com a filha de ambos, Mazarine, nascida 20 anos antes. Um escândalo mediático.













É precisamente a Mazarine, hoje uma escritora de 41 anos, que se dirige uma das cartas que Anne quis ver publicadas: “Mazarine, querida, escrevo pela primeira vez este nome. Sinto-me intimidado perante esta nova personagem sobre a Terra que és tu. Tu dormes. Tu sonhas. […] Mais tarde vais conhecer-me. Cresce, mas não demasiado depressa. […] Anne é a mamã. Verás que não podíamos ter escolhido melhor, tu e eu.”

“Sou feliz por tua causa”

O volume da Gallimard reúne aquilo que o Figaro define como uma “correspondência prodigiosa” – na quantidade, na qualidade, na diversidade - em que o antigo Presidente revela o seu talento para a escrita em arroubos líricos de um entusiasmo que por vezes parece juvenil e considerações políticas. É Mitterrand quem diz que Pingeot despertou nele sentimentos que desconhecia, é Mitterrand quem admite sentir necessidade de lhe contar tudo, é Mitterrand quem confessa que, até a encontrar, construíra um muro à sua volta para se proteger, criando um espaço onde a alegria e a paz nunca o visitaram: “Sim, preciso muito de ti, minha Anne. Sim, sou feliz por tua causa. E não tenho se não um desejo: dar-te o equivalente ao que recebo. Estar ao serviço da tua vida.”
Uma das cartas, em Setembro de 1965, é escrita quando Mitterrand acaba de fazer saber que é candidato à presidência da república. Nela fala-lhe dos momentos “intensos”, por vezes “dramáticos”, das últimas horas. Para depois voltar a um registo que só a eles diz respeito: “Sabes que penso em ti e que é maravilhosamente útil que exista este amor Anne-François? Adoro-te Anne e anseio pelos teus braços, pelos teus lábios, pela tua ternura, pela tua paz. Anne, meu amor, até amanhã. Amo-te.”
Em 1995, três meses antes de morrer, diz na última carta que a sua felicidade continua a estar em poder pensar nela, em poder amá-la: “E eis que não sei mais o que fazer de mim, o meu tempo está a acabar. Uma verdadeira conspiração! Mas eu sairei deste estado bizarro, ridículo e pitoresco. É muito difícil saber que uso devemos dar à vida. O resto é mais fácil porque basta tomar decisões. […] Tu sempre me deste mais. Tu foste a minha possibilidade de vida. Como não te amar?”
No volume não há qualquer missiva de Anne Pingeot para Mitterrand. Esse arquivo não é seu. O que há são cartas e cartas em que se vê um homem entre a sua vida política e a intimidade, entre os seus deveres públicos e os seus desejos privados, procurando equilibrar uns e outros, mesmo quando isso parece impossível:  “É uma vaga de fundo, meu amor, ela arrasta-nos, separa-nos, e eu grito, grito, tu ouves-me  no meio do tumulto, tu amas-me, eu sou desesperadamente teu […]. Amar-te-ei até ao meu fim, e se tens razão ao acreditar em Deus, amar-te-ei até ao fim dos tempos.”
Para quem quiser uma leitura mais contextualizada de Lettres à Annetalvez não faça mal “ouvir” Anne Pingeot nas páginas da biografia de Mitterrand que o jornalista Philip Short, correspondente da BBC em Paris, lançou em 2015. Nela fala muitas vezes em como foram anos “duros”, com muitas promessas de vida em comum sempre por cumprir. Mitterrand, a quem atribuíram várias relações fora do casamento, nunca deixou Danielle. Pingeot acreditou muitas vezes que o faria.

    https://www.publico.pt/mundo/noticia/mitterrand-em-mais-de-mil-cartas-de-amor-1746418


sábado, 19 de janeiro de 2013

algumas cartas entre pessoa e ofélia






Uma delícia conhecer a ofélia !  Um encanto ... de pessoa e para mim !
Vale a pena ler até ao fim :-)

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CARTA XLI 

Ex.ma Senhora D. Ofélia Queirós: 

Um abjecto e miserável indivíduo chamado Fernando Pessoa, meu particular e querido amigo, encarregou-me de comunicar a V. Ex.a considerando que o estado mental dele o impede de comunicar qualquer coisa, mesmo a uma ervilha seca (exemplo da obediência e da disciplina) que V. Ex.a está proibida de: 
(1) pesar menos gramas, 
(2) comer pouco, 
(3) não dormir nada, 
(4) ter febre, 
(5) pensar no indivíduo em questão. 
Pela minha parte, e como íntimo e sincero amigo que sou do meliante de cuja comunicação (com sacrifício) me encarrego, aconselho V. Ex.a a pegar na imagem mental, que acaso tenha formada do indivíduo cuja citação está estragando este papel razoavelmente branco, e deitar essa imagem mental na pia, por ser materialmente impossível dar esse justo Destino à entidade fingidamente humana a quem ele competiria, se houvesse justiça no mundo. 
Cumprimenta V. Ex.a 

Álvaro de Campos 

eng. Naval 

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carta de Ofélia Queiroz a Álvaro de Barão CamposEx.mo Senhor Engenheiro Álvaro de Campos Permita-me que discorde por completo com a primeira parte da sua carta, porque, nem posso consentir que Vª Exª trate o Ex.mo Sr. Fernando Pessoa, pessoa que muito prezo, por abjecto e miserável indivíduo nem compreendo que, sendo seu particular e querido amigo o possa tratar tão desprimosamente. Como vê estamos sempre em completa desarmonia, nem podia deixar de ser, pedindo-lhe por especial fineza, que não volte a escrever-me. Quanto às observações que me faz, como foram ditadas pelo Sr. Fernando Pessoa, farei quanto em mim caiba por lhe ser agradável. Agradeço o conselho que me dá, mas já que me puxa pela língua, deixe-me dizer-lhe que quem eu de boa vontade há muito tempo teria, não deitado na pia, mas debaixo dum comboio, era Vª Exª. Esperando não o tornar a ler, subscreve-se com respeito a 26-09-1929 


Ofélia Queiroz

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 CARTA 59 

Meu querido amor 

Que triste ideia teve em encarregar o Sr Engenheiro Álvaro de Campos de escrever-me? Ele afinal não é seu amigo, trata-o tão mal! E não sendo seu amigo também o não é meu, e não sendo meu amigo eu também não sou amiga dele, portanto não gosto dele, detesto-o pronto. Peço-lhe meu querido Fernandinho que não volte a encarregá-lo de me escrever, e que por fineza lhe entregue a minha carta, que por não saber a sua direcção junto à sua. Ele afinal só pretende desacreditá-lo, mas eu não o poupo, e decerto não me escreverá mais. 

Agora outra coisa: Gosto tanto que me telefone à noite! Já que nos não podemos ver, ao menos sempre é mais agradável falar assim um pouco mais intimamente. Só me dá vontade de enfiar pelo telefone e ir ter com o meu queridinho, mas está vedado o trânsito de "vespas" pelas linhas telefónicas... Que grande me vai parecer a noite de hoje e parte do dia de amanhã. Quase que fazia oito dias sem o ver. O Fernandinho não lhe custa estar tantos dias sem ver a sua Ofelinha? Gosta muito dela, gosta[,] amor? Então seu maroto, eu na minha carta d'hoje mostrava um princípio de afeição? Só princípio? E acho-me eu exigente mas ainda bem que também o é, entender-nos-emos assim melhor, porque sentimos da mesma forma, não é Fernandinho? Mas não me disse se lhe agrado para sua mulherzinha. Se lhe agrado Fernandinho? Se lhe agrado, e agradando-me o meu querido amor tanto para maridinho (parecia-me um sonho eu um dia vir a tratá-lo assim) não retardemos uma felicidade tão grande e tão desejada, pelo menos da minha parte. Mas estou convencida que Fernandinho, também há-de gostar muito de ter um dia o seu lar, com uma mulherzinha muito ao seu gosto e que torne o lar alegre e o Fernandinho feliz. Diga-me, não são estes os seus desejos? A não ser que não seja eu a mulherzinha (porque eu não chego a ser mulher) muito a seu gosto... 

A mim encanta-me só a ideia de o vir a ser, de viver consigo uma vida inteira, sempre muito amigos e carinhosos! Mas não receberei de boa vontade na nossa casinha o tal Senhor Engenheiro, isso não. Sobre o assunto do meu encontro, escreveria muito, mas receio maçá-lo. Só lhe digo que tenho ânsia de ser sua esposa, e o Fernandinho, não tem, de ser meu esposo? Se gostar tanto de mim como eu de si, tem a mesma. 

É isto que me tira o sono! Fica agora sabendo? 

Adeus, meu amor, eu não lhe roubo mais tempo com as minhas cartas sempre tão mal redigidas, mas o Fernandinho já me conhece, em deixando escrito o que sinto é o principal, não é? Góta de mim? Góta munto? Góte chim? 
Manda-lhe muitos beijinhos a sempre muito sua 

Ofélia 

26-9-929 

http://www.astormentas.com/din/poema.asp?key=839&titulo=CARTA%20XLI


Cartas De Amor
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Caixa Postal 147
(Acróstico de Fernando Pessoa dedicado a OPHÉLIA)

Onde é que a maldade mora
Poucos sabem onde é
Há maneira de o saber
É em quem quando diz que chora
Leva a rir e a responder
Indo em crueldade até
A gente não a entender

Nota: Relato da Exma Senhora Dona Ophélia Queiroz, destinatária destas Cartas de Fernando Pessoa, recolhido e estruturado por sua sobrinha-neta Maria da Graça Queiroz.


    Um dia faltou a luz no escritório. O Freitas não estava e o Osório, o «grumete», tinha saído a fazer um recado. O Fernando foi buscar um candeeiro de petróleo, acendeu-o e pô-lo em cima da minha secretária.
    Um pouco antes da hora de saída, atirou-me um bilhetezinho para cima da secretária, que dizia: «Peço-lhe que fique». Eu fiquei, na expectativa. Nessa altura já eu me tinha apercebido do interesse do Fernando por mim, e eu confesso, também lhe achava uma certa graça…

    Lembro-me que estava em pé, a vestir o casaco, quando ele entrou no meu gabinete. Sentou-se na minha cadeira, pousou o candeeiro que trazia na mão e, virado para mim, começou de repente a declarar-se, como Hamlet se declarou a Ofélia: «Ó, querida Ofélia! Meço mal os meus versos; careço de arte para medir os meus suspiros; mas amo-te em extremo. Oh! até do último extremo, acredita!»

    Fiquei pertubadíssima, como é natural, e, sem saber o que havia de dizer, acabei de vestir o casaco e despedi-me precipitadamente. O Fernando levantou-se, com o candeeiro na mão, para me acompanhar até à porta. Mas, de repente, pousou-o sobre a divisória da parede; sem eu esperar, agarrou-me pela cintura, abraçou-me e, sem dizer uma palavra, beijou-me, beijou-me apaixonadamente, como louco.

    Surgem assim os primeiros versos que me dedicou; versos que infelizmente depois me desapareceram, mas que nunca esqueci:

Fiquei louco, fiquei tonto,
Meus beijos foram sem conto,
Apartei-a contra mim,
Enlacei-a nos meus braços,
Embriaguei-me de abraços,
Fiquei louco e foi assim.

Dá-me beijos, dá-me tantos
Que enleado em teus encantos,
Preso nos abraços teus,
Eu não sinta a própria alma, ave perdida
No azul-amor dos teus céus.

Boquinha dos meus amores,
Lindinha como as flores,
Minha boneca que tem
Bracinhos para enlaçar-me
E tantos beijos p’ra dar-me
Quantos eu lhes dou também.

Botão de rosa menina,
Carinhosa, pequenina,
Corpinho de tentação,
Vem morar na minha vida,
Dá em ti terna guarida
Ao meu pobre coração.

Não descanso, não projecto,
Nada certo e sempre inquieto
Quando te não vejo, amor,
Por te beijar e não beijo,
Por não me encher o desejo
Mesmo o meu beijo maior.

Ai que tortura, que fogo,
Se estou perto d’ela é logo
Uma névoa em meu olhar,
Uma núvem em minha alma,
Perdida de toda a calma,
E eu sem a poder achar.

    Fui para casa, comprometida e confusa. Passaram-se dias e como o Fernando parecia ignorar o que se havia passado entre nós, resolvi eu escrever uma carta, pedindo-lhe uma explicação. É o que dá origem à sua primeira carta-resposta, datada de 1 de Março de 1920.

    Assim começámos o «namoro».

Confira a primeira carta de Fernando Pessoa para Ophélia Queiroz, clique aqui.


http://www.pessoa.art.br/index.php?paged=301

Carta - 01/03/1920

Ophéliazinha:

   Para me mostrar o seu desprezo, ou pelo menos, a sua indiferença real, não era preciso o disfarce transparente de um discurso tão comprido, nem da serie de «razões» tão pouco sinceras como convincentes, que me escreveu. Bastava dizer-m’o. Assim, entendo da mesma maneira, mas doe-me mais.

   Se prefere a mim o rapaz que namora, e de quem naturalmente gosta muito, como lhe posso eu levar isso a mal? A Opheliazinha pode preferir quem quiser: não tem obrigação - creio eu - de amar-me, nem, realmente necessidade (a não ser que queira divertir-se) de fingir que me ama.

   Quem ama verdadeiramente não escreve cartas que parecem requerimentos de advogado. O amor não estuda tanto as cousas, nem trata os outros como réus que é preciso «entalar».

   Porque não é franca comigo? Que empenho tem em fazer sofrer quem não lhe fez mal - nem a si, nem a ninguém-, e quem tem por peso e dor bastante a própria vida isolada e triste, e não precisa de que lh’a venham acrescentar creando-lhe esperanças falsas, mostrando-lhe afeições fingidas e isto sem que se perceba com que interesse, mesmo de divertimento, ou com que proveito, mesmo de troça.

   Reconheço que tudo isto é cômico, e que a parte mais cômica d’isto tudo sou eu.

   Eu-proprio acharia graça, se não a amasse tanto, e se tivesse tempo para pensar em outra cousa que não fosse não fosse no sofrimento que tem prazer em causar-me sem que eu, a não ser por amá-la, o tenha merecido, e creio bem que amá-la não é razão bastante para o merecer. Enfim…

   Ahi fica o «documento escrito» que me pede. Reconhece a minha assinatura o tabelião Eugenio Silva.

01/03/1920

Fernando Pessoa 

Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz





logoAssirioAlvim

Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz
Última edição: 2012
ISBN: 978-972-0-79310-2


Sinopse
Pela primeira vez, as cartas de amor de Fernando Pessoa e de Ofélia Queiroz são apresentadas em edição conjunta.

Uma edição conjunta é a forma mais adequada para dar a ler uma correspondência, que pressupõe sempre um diálogo, uma interação, a existência concreta de dois interlocutores. Cada carta é, em si mesma, ou a resposta a outra carta ou pretexto para ela. Até quando o destinatário opta por não responder, de algum modo, o seu silêncio se inscreve na carta seguinte. Assim, uma relação amorosa, sustentada epistolarmente, como a de Pessoa e Ofélia, só é, na verdade, entendível quando os dois discursos se cruzam e mutuamente se refletem.



Neste livro a ideia comum de que estaríamos perante um namoro platónico, sem réstia de erotismo, desfaz-se por inteiro. Vemos, enfim, surgir um Pessoa diferente do outro lado do espelho. Um Pessoa não só sujeito e manipulador da escrita, mas um Pessoa indefeso, objeto do discurso (e do afecto) de outrem, personagem de uma história real.





Sobre os Autores




Ophélia Queiroz nasceu em Lisboa, na Rua das Trinas, no dia 14 de junho de 1900. Filha de pais algarvios, de Lagos, é a mais nova de oito irmãos. Concluiu o primeiro grau da instrução, embora desejasse ser professora de matemática, mas procurou estar sempre atualizada estudando Francês e Inglês. Gostava de ler, de ir ao teatro e de conviver. Passava muitas horas em casa do sobrinho, o poeta Carlos Queirós, a conviver com grandes artistas como Carlos Botelho, Vitorino Nemésio, Almada Negreiros, Olavo d'Eça Leal, Teixeira de Pascoaes, José Régio e outros. Ophélia foi a namorada de Fernando Pessoa durante duas fases: de 1 de maio a 29 de novembro de 1920 e de 11 de setembro de 1929 a 11 de janeiro de 1930, embora o contacto entre os dois se mantenha cordial, mas esporádico, até à morte do Poeta. A primeira fase, marcada por uma paixão sincera, termina com uma carta em que Pessoa afirma que o seu destino pertence a outra lei. O reencontro, motivado por uma fotografia do Poeta a beber no Abel Ferreira da Fonseca, oferecida a Carlos Queirós, inicia-se quando esta mostra vontade de possuir uma igual e ele lhe envia uma com a dedicatória: Fernando Pessoa em flagrante delitro. Nesta segunda fase, nota-se uma enorme confusão de sentimentos e perturbação psíquica.


A partir de 1936 até 1955 trabalhou no SNI (Secretariado Nacional da Informação). Nesse ano, na Tobis, conhece Augusto Soares, um homem de Teatro, com quem casa em 1938.


Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz de Ofélia Queiroz , Fernando Pessoa

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sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

cartas de fernando pessoa a ofélia


CARTAS A OFÉLIA

  
Ophélia foi a namorada de Fernando Pessoa durante duas fases: de 1 de Maio a 29 de Novembro de 1920 e de 11 de Setembro de 1929 a 11 de Janeiro de 1930, embora o contacto entre os dois se mantenha cordial, mas esporádico, até à morte do Poeta.  

folha de poesia

artes, ideias e o sentimento de si

 

CARTA A OFÉLIA QUEIRÓS - 27 DE ABRIL DE 1920
     
     
Meu Be«be»zinho lindo:
     
Não imaginas a graça que te achei hoje á janella da casa de tua irmã! Ainda bem que estavas alegre e que mostraste prazer em me ver (Álvaro de Campos).
     
Tenho estado muito triste, e além d'isso muito cansado - triste não só por te não poder ver, como também pelas complicações que outras pessoas teem interposto no nosso caminho. Chego a crer que a influência constante, insistente, hábil d'essas pessoas; não ralhando contigo, não se oppondo de modo evidente, mas trabalhando lentamente sobre o teu espírito, venha a levar-te finalmente a não gostar de mim. Sinto-me já differente; já não és a mesma que eras no escriptorio. Não digo que tu própria tenhas dado por isso; mas dei eu, ou, pelo menos, julguei dar por isso. Oxalá me tenha enganado...
     
Olha, filhinha: não vejo nada claro no futuro. Quero dizer: não vejo o que vãe haver, ou o que vãe ser de nós, dado, de mais a mais, o teu feitio de cederes a todas as influencias de familia, e de em tudo seres de uma opinião contraria á minha. No escriptorio eras mais dócil, mais meiga, mais amorável.
     
Enfim...
     
Amanhã passo  á mesma hora no Largo de Camões. Poderás tu apparecer à janella?
     
Sempre e muito teu
     
assinatura de Fernando Pessoa
     
     
     
     
CARTA A OFÉLIA QUEIRÓS - 31 DE MAIO DE 1920
     
     
Bebezinho do Nininho-ninho:
     
Oh!
     
Venho só quevê pâ dizê ó Bebezinho que gotei muito da catinha dela. Oh!
     
E também tive munta pena de não tá ó pé do Bebé pâ le dá jinhos.
     
Oh! O Nininho é pequenininho!
     
Hoje o Nininho não vai a Belém porque, como não sabia se havia carros, combinei tá aqui às seis ho'as.
     
Amanhã, a não sê qu'o Nininho não possa é que sai daqui pelas cinco e meia. [desenho de uma meia] (isto é a meia das cinco e meia).
     
Amanhã o Bebé espera pelo Nininho, sim? Em Belém, sim? Sim?
     
Jinhos, jinhos e mais jinhos.
     
assinatura de Fernando Pessoa
     
     
     
   
   
   
   
CARTA A OPHÉLIA QUEIROZ – 25 DE SETEMBRO DE 1929
   
   
Exma. Senhora D. Ophélia Queiroz:
    
Um abjecto e miserável indivíduo chamado Fernando Pessoa, meu particular e querido amigo, encarregou-me de comunicar a V. Ex.ª — considerando que o estado mental dele o impede de comunicar qualquer coisa, mesmo a uma ervilha seca (exemplo da obediência e da disciplina) — que V. Ex. ª está proibida de:
(1) pesar menos gramas,
(2) comer pouco,
(3) não dormir nada,
(4) ter febre,
(5) pensar no indivíduo em questão.
   
Pela minha parte, e como íntimo e sincero amigo que sou do meliante de cuja comunicação (com sacrifício) me encarrego, aconselho V. Ex.ª a pegar na imagem mental, que acaso tenha formado do indivíduo cuja citação está estragando este papel razoavelmente branco, e deitar essa imagem mental na pia, por ser materialmente impossível dar esse justo Destino à entidade fingidamente humana a quem ele competiria, se houvesse justiça no mundo.
   
Cumprimenta V. Ex. ª
   
Álvaro de Campos
eng. Naval
   
   
   
   
   
   
CARTA A OFÉLIA QUEIRÓS - 9 DE OUTUBRO DE 1929
   
   
     Terrivel Bébé
   
      Gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha também. E é bombom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo, e o bebé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é  sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também porque é que a havia de gostar, e isso mesmo, e torna tudo ao princípio, e parece-me que ainda lhe telephono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na bocca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a bocca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu hombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e porque é que a Ophelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um indivíduo com ventas de contador de gás e expressão geral de não estar ali mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bebé fôsse uma boneca minha, e eu fazia como uma criança, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece ser impossível ser escripto por um ente humano, mas é escripto por mim .
assinatura de Fernando Pessoa 


 
Cartas de Amor, Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa, Ática, 1978 (3ª ed. 1994)

http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2008/11/05/ofelia.aspx


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ler aqui o integgral das cartas
http://recursos.wook.pt/recurso?&id=3516367