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terça-feira, 16 de junho de 2026

«A Emília» - Livro de Leitura da 1.ª Classe (oficial e único do Minho a Timor)

No livro da 1º CLASSE antes do 25 de abril havia um texto sobre a 'Emília' que queria ser uma dona de casa- É possível aceder a esse texto?

Sim, é possível recordar e aceder a esse texto! Esse é um dos exemplos mais citados quando se analisa o papel da mulher e a ideologia de género transmitida através do sistema educativo durante o Estado Novo (antes do 25 de Abril de 1974).

O texto em questão pertencia ao Livro de Leitura da 1.ª Classe (oficial e único na altura) e reflete perfeitamente o ideal da época de que o destino primordial da mulher era a vida doméstica, o casamento e a maternidade.

domingo, 10 de maio de 2026

Porfírio Silva - Podemos travar o revisionismo histórico da internacional reacionária


* Porfírio Silva 

Passou despercebida em Portugal, mas a fracassada visita de Ayuso ao México foi uma derrota de uma provocação colonialista, instrumentalizada para a direita radical espanhola dar uma ajuda à direita radical mexicana, num fundo de revisionismo histórico típico de certas guerras culturais. A coisa correu mal à senhora Ayuso, mas o episódio serve para mostrar que vale a pena desmontar as manobras dos revisionistas reacionários. 

Vamos fazer uma revisão dos acontecimentos em torno da viagem de Ayuso ao México.

No centro da controvérsia da viagem esteve a leitura histórica defendida por Isabel Díaz Ayuso, presidente da Comunidade de Madrid, dirigente do Partido Popular (PP) e uma das figuras mais destacadas da direita conservadora espanhola, sobre Hernán Cortés, a Conquista e a relação entre Espanha e México. Ayuso apresentou a história comum como uma trajetória de cinco séculos de mestiçagem, língua, laços familiares e continuidade cultural. Defendeu que essa história deveria ser lida mais como encontro civilizacional do que como genocídio, e descreveu a mestiçagem como uma mensagem de esperança e alegria. No ato “Celebração pela Evangelização e a Mestiçagem no México: Malinche e Cortés”, na Cidade do México, afirmou que a relação entre Espanha e México era uma história de “cinco séculos de amor, não de ódio”, e pediu que a liberdade nunca tivesse de pedir perdão por ser liberdade. A tese de Ayuso, portanto, era que Cortés, Isabel a Católica, Malinche e a evangelização faziam parte de uma herança hispânica comum que não devia ser julgada apenas pela linguagem da culpa, do saque ou da reparação histórica.

A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, contestou essa leitura. Para ela, reivindicar Cortés significava minimizar a violência da Conquista contra os povos indígenas. Em 5 de maio, durante a comemoração da Batalha de Puebla, Sheinbaum afirmou que aqueles que reavivam a Conquista como salvação estão destinados à derrota, e que aqueles que procuram reivindicar Hernán Cortés e as suas atrocidades também estão destinados à derrota. Dois dias depois, em 7 de maio, na sua conferência diária, disse que a homenagem a Cortés revelava ignorância da própria história espanhola, sustentando que a violência exercida por Cortés e pelo seu exército contra os povos indígenas tinha sido documentada em Espanha, e caracterizando o conquistador como um dos invasores mais cruéis. Sheinbaum contrapôs a essa visão a ideia de que a grandeza do México vem dos valores dos seus povos originários. 

A viagem de Ayuso ao México estava prevista para decorrer de 3 a 12 de maio de 2026. A Comunidade de Madrid apresentou-a como uma visita institucional destinada a reforçar laços económicos e culturais com o país. A agenda anunciada incluía atos na Cidade do México, Aguascalientes, Monterrey e Riviera Maya, além da presença prevista nos Prémios Platino Xcaret, marcados para 9 de maio, no Parque Xcaret, na Riviera Maya. 

Ayuso iniciou a deslocação em 3 de maio, na Basílica de Guadalupe, na Cidade do México, onde assistiu à missa dominical. O cardeal Carlos Aguiar Retes saudou a comitiva espanhola e disse que rezavam pela relação entre Espanha e México. 

No dia 4 de maio, na Cidade do México, estava previsto o ato sobre “Evangelização e Mestiçagem no México: Malinche e Cortés”, inicialmente associado à Catedral Metropolitana. O ato acabou por ser transferido para o Frontón México, espaço ligado ao musical Malinche. A Arquidiocese explicou que a produção não reunia a totalidade das autorizações necessárias. Nesse contexto, Ayuso defendeu a mestiçagem, rejeitou leituras baseadas, segundo ela, no ódio, e afirmou que a liberdade não devia pedir perdão por ser liberdade. Há sempre quem preze a liberdade de explorar e esmagar o outro...

Em 5 de maio, durante a comemoração da Batalha de Puebla, em Puebla, Sheinbaum respondeu politicamente ao discurso de Ayuso, sem a nomear diretamente. Disse que aqueles que reavivam a Conquista como salvação estão destinados à derrota, e que aqueles que procuram reivindicar Hernán Cortés e as suas atrocidades estão igualmente destinados à derrota. No mesmo dia, Ayuso participou num encontro na Universidad de la Libertad, na Cidade do México.

Em 6 de maio, quando Ayuso chegou ao aeroporto de Aguascalientes, foi abordada pela deputada mexicana Anayeli Muñoz, do Movimiento Ciudadano, que lhe pediu que reconhecesse os abusos da Conquista. Mais tarde, no Palácio do Congresso do Estado de Aguascalientes, na Plaza de la Patria 109, Ayuso recebeu a **Medalla de la Libertad** do Congresso estadual.

Ainda em Aguascalientes, houve protestos no exterior e uma interrupção durante um ato por Martha Márquez, regidora de Morena, que exibiu uma faixa com a frase “Não temos água”. A contestação juntava críticas locais, ligadas à gestão da água, com objeções ao discurso de Ayuso sobre a Conquista e o período colonial.

Em 7 de maio, na sua conferência diária no México, Sheinbaum voltou a criticar diretamente o ato em torno de Hernán Cortés. Disse que a homenagem revelava ignorância histórica, argumentou que Cortés se caracterizara por ordenar massacres e afirmou que a grandeza do México vinha dos povos originários. Ao mesmo tempo, sublinhou que Ayuso tinha podido falar livremente no país, dizendo que ela tinha ido dizer o que quis e que no México há liberdade e democracia. 

Entre 7 e 8 de maio, Ayuso deslocou-se para a Riviera Maya, onde estava prevista a sua presença nos Prémios Platino Xcaret. A imprensa espanhola noticiou que a agenda institucional pública ficara sem atos nesse trecho da viagem.

O episódio central ocorreu em 8 de maio. A Comunidade de Madrid publicou um comunicado acusando o Governo mexicano de ter boicotado a presença de Ayuso nos Prémios Platino. Segundo essa versão, o Governo mexicano teria ameaçado fechar o complexo onde se realizaria a gala caso Ayuso comparecesse. No mesmo comunicado, a Comunidade de Madrid anunciou que Ayuso não iria à gala e que suspendia a parte final da viagem, incluindo a deslocação prevista a Monterrey, regressando a Madrid. 

Também em 8 de maio, o Grupo Xcaret, anfitrião do evento, negou ter recebido ameaças ou instruções da presidente mexicana ou de qualquer funcionário do Governo do México. A empresa afirmou que pedira aos organizadores a retirada do convite a Ayuso para evitar que a gala fosse usada como plataforma política, depois das suas declarações públicas durante a viagem.

No mesmo dia, a Secretaría de Gobernación mexicana também negou qualquer tentativa de impedir atos de Ayuso. Afirmou que a visita decorrera num ambiente de total liberdade e que em nenhum momento se tentara evitar qualquer uma das suas apresentações públicas ou privadas. 

A gala dos XIII Premios Platino Xcaret realizou-se em 9 de maio, no Teatro Gran Tlachco, no Parque Xcaret, na Riviera Maya, sem a presença de Ayuso.

Podemos, portanto, concluir: há um agressivo revisionismo de direita, querendo rever a história para promover as guerras culturas; é possível fazer frente a esse revisionismo; a ferramenta do revisionismo histórico faz parte da estratégia da internacional reaccionária; isso exige que sejamos, nós também, atentos a essa dimensão internacional.

Porfírio Silva, 10 de Maio de 2026

https://maquinaespeculativa.blogspot.com/2026/05/podemos-travar-o-revisionismo-historico.html

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A Conquista de Tenochtitlán (representação da queda da capital do Império Asteca em 1521). Autor mexicano desconhecido da segunda metade do século XVII. Biblioteca do Congresso, Washington - DC

  • A Queda de Tenochtitlan: A obra representa o cerco final e a conquista da capital asteca, Tenochtitlan, pelas forças espanholas lideradas por Hernán Cortés em 1521.
  • Contexto Artístico: Esta pintura faz parte da série "Conquista do México", datada da segunda metade do século XVII.
  • Alianças Indígenas: A vitória espanhola não foi alcançada sozinha; ela dependeu crucialmente de aliados indígenas, notavelmente os Tlaxcaltecas, que buscavam se libertar do domínio asteca.
  • Fatores de Vitória: Além da superioridade tática e alianças, a conquista foi facilitada pela introdução de doenças europeias, como a varíola, que devastaram a população local  (AI Overview)

terça-feira, 11 de novembro de 2025

João Mendes - Os homens que odeiam as mulheres

*









As mulheres no geral não são muito racionais, nem sequer têm a capacidade de compreender o bem comum, o bem da nação.

Mas isso não é necessariamente mau, eu não estou a fazer um ataque às mulheres, é importante perceber isto. Isto é da natureza da mulher.

Não há problema em a mulher ser assim. Eu não quero dar a decisão do futuro do meu país às mulheres. Eu acho que elas não têm essa responsabilidade. Porque estão biologicamente desenhadas para ter um filho, para agarrar num filho, para cuidar de um filho, não é para tomar decisões importantes para o futuro de um país.

É bastante consensual que os homens são geralmente mais inteligentes que as mulheres, por isso é que eu acho que só os homens mais inteligentes é que devia votar, como acontecia na Grécia Antiga.

 

Já estiveste em alguma sala com 15 mulheres para ver se acabavam as guerras? Elas fazem guerras entre elas naturalmente. Se eu tiver aqui com 15 homens não há guerra nenhuma nem conflito nenhum. Se tiverem aqui 15 mulheres sozinhas, uma é porque tem o cabelo de uma cor, a outra pintou as unhas, a outra passou à frente na fila, a outra anda com um namorado qualquer. Elas criam conflitos por tudo, as mulheres. Para se entreterem.

 

O voto universal não faz sentido. Eu acho que só deviam votar homens portugueses com propriedades. E mulheres não. Eu acho que mulheres não faz sentido que votem. Desde que demos o voto às mulheres, foi a pior coisa que fizemos nos últimos 100 anos na civilização ocidental. Eu não tenho problema nenhum e dizer isto, julguem-me à vontade, eu sei que estou certo.

Transcrevi, a custo, estas palavras de um pirralho de 25 anos que lidera um grupo de extremistas com ideias deste calibre. Trata-se de Afonso Gonçalves, líder da Reconquista, uma organização fundamentalista de inspiração neofascista e neonazi.

Nunca trabalhou, nunca fez nada de útil pela sociedade, mas isso foi o suficiente para ser acarinhado por figuras de primeira linha do CH, pela sua jota e por pessoas como Miguel Milhão, dono da Prozis, que deu palco no seu podcast para estas e outras ideias igualmente repugnantes.

Parabéns ao MaiaSport por dar palco a esta gente no passado fim-de-semana.

E parabéns às mulheres que acham que é por aqui que as suas vidas vão melhorar.

E sim, as ligações entre esta gente o CH são mais que muitas. Estiveram lá eleitos do CH, assessores e oradores ligados ao partido.

Este congresso de extremistas-mirins foi de tal forma surreal, que conseguiu abafar um facto bizarro: também na Maia, no fim-de-semana passado, realizou-se um festival de música da organização neonazi Blood & Honour.

No salão paroquial de uma igreja católica.

Repito: no salão paroquial de uma igreja católica.

Batemos no fundo?

Ainda não.

Isto ainda vai piorar antes de melhorar.

***
Imagens  da responsabilidade de VN
https://aventar.eu/2025/11/11/os-homens-que-odeiam-as-mulheres/#more-1367999

sexta-feira, 26 de julho de 2024

Pedro Garcias - A criadagem segundo o fidalgo Rui Moreira

 

Crónica Elogio do Vinho

Dentro de duas semanas, começa mais uma vindima no Douro. Se Rui Moreira quiser matar saudades, ofereço-lhe casa e comida. E ainda lhe pago a jorna, se vier mesmo com vontade de trabalhar.

* Pedro Garcias

26 de Julho de 2024


Rui Moreira criticou as paragens do futuro metrobus do Porto desenhadas por Siza Vieira, comparando-as a menires de Obélix. A apreciação mereceu uma resposta de um investigador da Faculdade de Arquitectura do Porto, Pedro Levi Bismarck, que acusou o presidente da Câmara do Porto de ter pouca legitimidade para tal crítica, dado ser “um dos responsáveis políticos pela destruição em massa do património arquitectónico” da cidade. Em resposta, o liberal político soltou a sua sanha sobre o pobre do investigador Bismarck, dizendo que este “prefere idolatrar Álvaro Siza com aquela pequenez da criadagem quando experimenta, à sorrelfa, as jóias da patroa para se ver ao espelho”.

 

Esperei três semanas na esperança de que algum representante da “criadagem” atirasse um verdadeiro menir ao fidalguinho da Foz, não para o matar mas para lhe colocar o cérebro no sítio. O termo “criadagem” é todo um programa de desprezo e pequenez. O que incomoda na palavra são as quatro últimas letras. É o “agem”. Lembram “vassalagem”, “miudagem”, “malandragem”, “parolagem”, “vadiagem”, “ladroagem” e muitas outras coisas pouco simpáticas, como, mas aqui para o lado de certos patrões, “vilanagem”, “cabotinagem”, “cretinagem” e até “parvoagem”.


Nos anos 50 do século passado, cerca de 39% da população activa do sexo feminino em Portugal eram criadas de servir. Na segunda metade do século, segundo a investigadora Inês Brasão, autora do livro O tempo das criadas: a condição servil em Portugal (1940-1970), chegou a haver 200 mil mulheres nessa condição.


A tal “criadagem” era, sobretudo, composta por crianças que vinham do interior pobre e analfabeto, de aldeias onde não havia sequer electricidade e as famílias eram do tamanho de uma equipa de futebol. Os rapazes ajudavam na lavoura e, quando podiam, emigravam. As raparigas ajudavam na lavoura e na casa e, ainda antes de menstruarem, iam servir para uma família rica, impulsionadas muitas vezes, como lembra Inês Brasão, pela “morte prematura do pai ou da mãe, entrada na fase legalmente aceite para o início do trabalho (entre os dez e os 12 anos), necessidade de libertar o número de filhos a cargo, súbitos rompimentos familiares e também o 'engano'”.


As criadas faziam de tudo: limpavam a casa, cozinhavam, tratavam dos mais velhos, cuidavam dos meninos. Acordavam cedo e deitavam-se tarde, muitas vezes só a troco de comida e de um quarto escuro, apertado e recuado dentro da própria casa dos patrões ou numa dependência. Viviam para servir, numa relação de domínio-submissão que autorizava todo o tipo de abusos, até de cariz sexual, como o desvirginamento dos meninos. Não sei se aconteceu com Rui Moreira, mas era comum. Muitas engravidavam dos patrões. Depois de consultar as estatísticas dispensadas por maternidades e hospitais, Inês Brasão descobriu que a categoria profissional das criadas “ocupava o topo na prática da interrupção da gravidez”. “Para as criadas de servir, que esperavam filhos gerados pelos próprios patrões, a decisão de nascimento significava uma situação de vergonha pública difícil de suportar ao longo da vida. O filho seria considerado ilegítimo, filho de pai incógnito e provavelmente afastado da mãe.”

 

Há muito vinho nesta crónica, embora não pareça.


A sorte da “criadagem” dependia do grau de submissão que as próprias criadas estavam dispostas a suportar e da natureza mais ou menos dominadora e insensível dos patrões. Havia de tudo. Havia patrões decentes e patrões abusadores. E havia criadas que entravam numa casa como quem entra num convento, para a vida toda, dispostas a suportar tudo, e outras com sonhos mais amplos, criadas que ambicionavam um dia vestir os mesmos vestidos das patroas e usar as mesmas jóias. O principezinho Rui Moreira é tão alto que não vê que não existe pequenez nas criadas que colocavam as jóias da patroa à sorrelfa, só para se verem ao espelho e imaginarem-se elas próprias patroas. A pequenez estava nos patrões que sujeitavam as criadas a uma vida de servilismo, reclusão e humilhação, paga com manifestações de caridade e de suposta irmandade expressa na frase habitual: “É como se fosse da família!”. Estava também na pelintragem de muitos deles, falidos mas vivendo como se continuassem ricos, sempre com a campainha por perto para chamar a criada, e exímios em guardar uns croquetes no bolso quando em festas alheias.

Hoje sou Bismarck porque conheço bem essa “criadagem”. Vou contar o que me aconteceu. Ela, uma de dez irmãos, veio ainda criança de Francelos, uma aldeia dos altos de Alijó, para servir numa casa rica da vila. Teve a sorte de encontrar uma família decente e honrada. Ele, de Alijó, vivendo em frente, já era criado para as obras da mesma família, mas de um ramo que veio a ter como patrão um arquitecto local instalado no Porto. Não sei se Rui Moreira ia gostar dele, também fazia menires usando linhas rectas. O criado e a criada apaixonaram-se, casaram-se e tiveram sete filhos. Três raparigas foram servir ainda crianças, só os três filhos mais novos puderam estudar. E bastaram duas gerações para que vários netos da criada de servir, que não sabia ler nem escrever, e do criado de obras, que ainda conseguiu fazer a quarta classe, chegassem a médicos, engenheiros e outras funções socialmente reconhecidas.


Foi assim que eu, um dos sete filhos desse casal, cheguei até esta página, que deveria ser preenchida com assuntos sobre vinhos. Mas há muito vinho nesta crónica, embora não pareça. Inúmeras criadas do Porto eram oriundas do Douro e não havia família rica da Foz ou das Antas que não tivesse uma quintinha na região duriense. Na altura, o Douro era o fim do mundo e muitos patrões só lá iam em experiência antropológica, sobretudo na vindima, para lançar um foguete e entregar os sapatos cheios de pó ao lenço dos trabalhadores e ainda receber destes um ramo, como agradecimento pelo trabalho duro e mal remunerado. Em troca, se o patrão não fosse muito sovina, podiam ter direito a uns doces e a uma gorjeta. “Belos tempos!”, suspiram alguns.


Dentro de duas semanas, começa mais uma vindima no Douro. Se Rui Moreira quiser matar saudades, ofereço-lhe casa e comida. E ainda lhe pago a jorna, se vier mesmo com vontade de trabalhar. Para brincar aos ricos, já basto eu.



https://www.publico.pt/2024/07/26/fugas/cronica/criadagem-segundo-fidalgo-rui-moreira-2098443
 


quarta-feira, 12 de junho de 2024

Sobre as comemorações do V Centenário do nascimento de Luís de Camões

 


10 Junho 2024

1. Assinala-se em 2024 o V Centenário do nascimento de Luís de Camões, cuja obra, inseparável de um mundo em transformação, é símbolo de humanismo progressista. 

2. A figura e obra de Camões foram manipuladas pelo fascismo, que, procurando cobertura ideológica para esse regime iníquo, as utilizou para propagandear o nacionalismo fascista e a sua concepção colonialista.

Camões, «Os Lusíadas», 10 de Junho (a que, sintomática e abusivamente, chamavam «dia da raça»), foram criminosamente usados para promover o obscurantismo, a manipulação das consciências e a censura, que impunham ao povo português pelos mais diversos meios de controlo ideológico, repressão e terror.

3. Um entendimento bem diferente é devido, porém, a Camões e à sua obra. Camões tem uma significativa importância na nossa história cultural. A classe operária, os trabalhadores, o povo português e os seus artistas, têm o direito e o dever de promoverem e enriquecerem criadoramente o acesso à sua obra, ao sentido mais avançado que o seu conteúdo incorpora e à ampla avaliação do tempo e do mundo em que Camões viveu.

Como escreveu Óscar Lopes: «Só se pode ver Camões e todas as suas condignas dimensões humanas se colocarmos a sua obra na perspectiva de vários séculos de luta, quer do povo português, quer de muitos outros povos, contra a exploração feudal, capitalista e capitalista-imperialista, luta pela autodeterminação real, inclusivamente económica e cultural, do povo português e de todos os povos que com ele podem hoje livremente dar-se as mãos, num combate que continua, e agora inequivocamente em comum».

4. Camões a sua obra são, hoje, património comum da humanidade. Traduzido em várias línguas, representado, estudado e apropriado em diferentes partes do mundo, o poeta continua a ser, actualmente, um nome maior da história da literatura.

Artista de grande dimensão, não protegido pelo poder, marginalizado pelos poderosos e privilegiados do seu tempo, Camões é um poeta do povo e da pátria portuguesa – pelo modo como reflectiu um acontecimento histórico, os descobrimentos geográficos, e como desenvolveu e apurou as capacidades da língua portuguesa, tendo sido um criador de palavras e arranjos sintácticos.

Camões é um poeta do Renascimento, de uma época de exaltação das realizações humanas face ao divino e ao obscurantismo, de um mundo em transição, no qual se vai formando um novo pensamento filosófico e científico, ligado à observação da natureza e à experiência, que as forças reaccionárias dessa altura, nomeadamente através da Inquisição, procuraram reprimir e conter.

Ligado ao pensamento progressista português do seu tempo, Camões traduz na sua obra um pensamento de tipo dialéctico – de que é exemplo o soneto «Todo o mundo é composto de mudança / Tomando sempre novas qualidades» – a crítica da injustiça – «Vê que aqueles que devem à pobreza/Amor divino, e ao povo, caridade,/ Amam somente mandos e riqueza,/ Simulando justiça e integridade./ De feia tirania e de aspereza/Fazem direito e vã severidade;/ Leis em favor do Rei se estabelecem;/As em favor do povo só perecem.» (Lusíadas, Canto IX, estrofe 28) - a par da evidência do período de descoberta e do saber de experiência feito.

Os descobrimentos geográficos são do maior alcance histórico no desenvolvimento do espírito crítico, da experimentação e da procura do novo no conhecimento, nomeadamente no campo da Geografia, Astronomia, das Ciências Naturais, da Cartografia, das técnicas de navegação, ligando ciência e técnica. Um processo que foi, contudo, posteriormente aproveitado pelas classes dominantes para impôr a brutal exploração, durante séculos, de outros povos, a escravatura e o tráfico, com as guerras de submissão e de conquista, ao mesmo tempo que submetiam também o povo português ao seu domínio e exploração - «Mas já nas naus os bons trabalhadores/Volvem o cabrestante, e, repartidos/Pelo trabalho, uns puxam pela amarra,/ Outros quebram co peito duro a barra» (Lusíadas, Canto IX, estrofe 10)

5. A intervenção do Partido Comunista Português nas comemorações do V Centenário de Camões é um contributo insubstituível para a participação activa do nosso povo nessas comemorações e para um maior conhecimento, difusão, apropriação e fruição da obra do grande poeta.

De facto, o direito à cultura ocupa um lugar central nos objectivos do PCP que o considera uma das quatro vertentes fundamentais de uma democracia avançada inspirada nos valores de Abril. Uma democracia simultaneamente política, económica, social e cultural com uma política cultural orientada para a salvaguarda, o estudo e a divulgação do património cultural nacional, regional e local, erudito e popular, tradicional ou actual; que assuma a educação, a ciência e a cultura como vectores estratégicos para o desenvolvimento integrado do nosso País. Uma democracia que promova o intercâmbio com outros povos da Europa e do mundo, a abertura aos grandes valores da cultura da humanidade e a sua apropriação criadora; que estimule o combate à mercantilização e à colonização cultural; que fomente a promoção internacional da cultura e da língua portuguesas, em estreita cooperação com os outros países que a usam. 

6. Assim, com o objectivo de comemorar o V Centenário de Luís de Camões, o PCP promoverá um diversificado conjunto de iniciativas, a realizar ao longo dos anos de 2024 e 2025, que terão início numa sessão político-cultural, a realizar em Lisboa, no final de Agosto, e na Festa do Avante! de 2024.

7. O Partido Comunista Português apela ao envolvimento alargado de pessoas, estruturas e instituições, a que valorizem Camões e a sua obra – inseridos no seu tempo, no processo histórico de luta contra a opressão e a exploração, pelo progresso social – projectando-os na actualidade e afirmando o património cultural português, a língua portuguesa, a cultura e a arte, também nesse quadro; a que dêem o seu contributo insubstituível para levar a obra de Luís de Camões até ao povo.

Tal como sublinhava Álvaro Cunhal na Festa do Avante! de 1979, referindo-se às comemorações pelo PCP do IV Centenário da morte de Luís de Camões, «Camões não é a voz da reacção e do colonialismo. Camões é a voz do nosso povo, dos Lusíadas, a voz da insubmissão ante os privilégios, a voz do progresso social e científico, a voz da nação portuguesa, num elevado sentido humanista», importa, na actualidade, enfrentar e rejeitar todas as tentativas de associar Camões, ou aproveitar o V Centenário do seu nascimento, para promover ideias e concepções retrógradas e reaccionárias como o chauvinismo, o racismo, a xenofobia, o colonialismo e o neocolonialismo. 

O PCP apela a que, inserida num processo aberto, activo e de interacção com a cultura mundial, se defendam e afirmem os valores da soberania e da independência nacionais, da cooperação entre os povos, elementos indissociáveis da luta emancipadora dos trabalhadores e do povo contra a exploração capitalista, por uma sociedade nova, sem exploradores nem explorados, que é parte integrante da luta em defesa dos valores de Abril e pela sua projecção no futuro de Portugal.


https://www.pcp.pt/sobre-comemoracoes-do-v-centenario-do-nascimento-de-luis-de-camoes 

segunda-feira, 20 de maio de 2024

Carlos Coutinho - Genocídios, etnocídios, massacres



*  Carlos Coutinho
 

PELO menos para mim, genocídio é hoje a palavra mais indesejável no vocabulário corrente. Mas já cá está e não me parece que, nos tempos mais próximos, a possamos excluir do nosso linguajar quotidiano, porque os factos, hoje em dia, quase sempre se transformam em notícias e estas não distinguem entre ouvidos sensíveis, ouvidos hipersensíveis – meus! – e os ouvidos de mercador.

Idiossincraticamente, caibo nas três categorias, embora seja a segunda e a terceira sejam as que mais se me podem aplicar.

É verdade que nem sempre consigo discernir entre genocídio, morticínio, massacre, limpeza étnica, pogromes e outras devastações demográficas, porque estas são mais que muitas na História da Humanidade, variam de extensão e de metodologia, continuam em diversos pontos do planeta e não me parece que vão acabar tão depressa, mas genocídio, no meu entendimento, é outra coisa e, de momento, só tenho indícios de um, o que os israelitas estão a perpetrar em Gaza.

Claro que entre os sodomitas e gomorranos bíblicos – que tornaram o dilúvio em única solução aceitável por Jeová – e os governadores britânicos da Austrália – que davam um coelho ou uma galinha por cada cabeça de aborígene que lhe levassem –, as diferenças são abissais, porque o primeiro caso é lendário e o segundo é histórico, assim como entre os cruzados e os muçulmanos, ambos verdadeiros documentados, mas, como não sou historiador, nem antropólogo, nem filósofo, vejo com razoável justeza as definições triviais, tomando como categóricos casos já muito estudados, como, por exemplo, o genocídio armênio. Ou, muito antes, os pogromes russos e polacos.

Quanto ao conceito de etnocídio, a tipificação é mais discutível e apenas me aparece com nitidez naquilo que os alemães fizeram, entre 1904 e 1908, no que hoje é a Namíbia. Mataram sem qualquer engulho ou hesitação ética, por simples cumprimento do desígnio político germinado e maturado em Berlim, 65 mil hereros e 10 mil namaques.

E, “se mais houvera, mais matara”, como os colonos e os seus militares fizeram aos índios, visto eles não eram gente. Eram bichos parecidos com pessoas – como acontecia a qualquer etnia vista da varanda dos conquistadores britânicos, espanhóis, portugueses, holandeses, franceses, etc.

Uma perceção que me assalta de forma sufocante é a da evidência de que será tanto maior a crueldade, frieza e racionalidade mortífera quanto maior for o desenvolvimento espiritual, técnico, científico, artístico do povo em cena, como ressalta do que gerou Hitler, Goebbels, Goering, Menghele e outros monstros absolutos, depois de ter gerado génios como Goethe, Schiller, Irmãos Grimm, Tomas Mann, Brecht, Anne Zeller, Mozart, Beethoven, Hegel, Kant, Marks, Enghels, Gunther Grass, os grandes cientistas, os extraordinários construtores de catedrais como a de Colónia, a de Aachen ou a de Frankfurt.

Nunca fiz as contas, mas, para já, o que me parece é que o mundo que fala alemão é também o fala melhor e com mais vozes diferentes ao resto do mundo, seja com Einstein a relativizar a realidade seja com Freud a definir como realidade espessa a ficção narrativa do vómito psíquico.

Detenho-me, por exemplo, no termo genocídio, ao olhar para o mapa de Angola, com a sua Baixa do Cassange, ou subo para a Palestina e soletro os nomes das cidades mártires da Faixa de Gaza, lembro-me do arrasamento metódico da espanhola Guernica e dos dois dias de bombardeamento ininterrupto anglo-americano da alemã Dresden, que matou 22 mil civis, assim como da incineração de Hiroxima, com os seus 160 mil mortos a que se juntaram os 80 mil de Nagasaki, três dias depois.

Não me violenta a consideração de que genocídio é o “extermínio deliberado de um povo – normalmente definido por diferenças étnicas, nacionais, raciais, religiosas e, por vezes, sócio-políticas – a tal engenharia social –, no total ou em parte.

À nossa e escala e saltando por cima de todo sangue que fizemos correr pelas razões invocadas, há pelo menos três factos recentes que não devemos permitir que continuem obnubilados na nossa história. A saber:

3.8.1959 – Os marinheiros e os estivadores do porto de Bissau ao serviço da Casa Gouveia entram em greve, exigindo melhores salários e melhores condições de vida. “A PIDE, o cabo de mar e outras forças” encarregaram-se de resolver o problema, deixando no chão cerca de 100 cadáveres.

1953 – Em fevereiro, o mesmo tipo de assassinos com as mesmas obediências, mas acrescentando o envenenamento e o afogamento a sua sanha, procedem a uma limpeza que pode ter causado 132 mortos e ficou registado co mo o Massacre de Batapá.

1973 – Pelo menos 385 pessoas foram assassinadas na aldeia de Wiriyamu pela 6.ª Companhia de Comandos de Moçambique, além das que morreram na “limpeza” da zona, do local, que ocorreu nos três dias seguintes ou devido aos interrogatórios que seguiram o episódio. O massacre

As tropas portuguesas dizimaram um terço dos 1350 habitantes de cinco povoações (Wiriyamu, Djemusse, Riachu, Juawu e Chaworha) integradas numa área designada como “triângulo de Wiriyamu”, afetando um total 216 famílias em 40 povoações.

A chamada Operação Marosca foi instigada pela PIDE e “guiada” pelo agente Chico Kachavi, que foi assassinado mais tarde, enquanto o massacre era investigado. Os soldados foram instruídos por Kachavi de que “a ordem é para matar todos”, incluindo mulheres e crianças.

Mandava quem podia e obedecia quem devia.

Como Salazar gostava.

 2024 05 20

https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896

domingo, 12 de maio de 2024

Entrevista a Serguéi Karaganov

 11 DE MAIO DE 2024

https://karaganov.ru/en

 É claro que o complexo industrial-militar-media anglo-saxónico, com a ajuda dos seus vassalos, pretende preservar a todo o custo a sua hegemonia global e as suas conquistas colonialistas.

A hegemonia não pode aceitar a mudança de paradigma de um mundo multipolar emergente.

Qualquer discussão sobre paz, diplomacia ou negociações relativas às guerras que iniciou está fora de questão. As populações ocidentais, cujas mentes estão contaminadas pelo neoliberalismo e pela russofobia, estão actualmente aterrorizadas por uma “iminente invasão russa”… O delírio em massa está a impedir que a RAZÃO regresse ao Ocidente. Como o resto do mundo pode lidar com esta loucura? E o que o resto do mundo pode esperar?

Voltamo-nos para o Professor Sergei A. Karaganov* – Presidente Honorário do Conselho de Política Externa e de Defesa (a principal organização pública de política externa da Rússia) e Diretor Acadêmico da Faculdade de Economia Mundial e Política Mundial da 'Escola Superior de Economia da Universidade de Moscou Universidade Nacional de Investigação – uma vez que há muito que oferece opiniões perspicazes sobre temas como a utilização da dissuasão nuclear como um alerta ao Ocidente para restaurar o bom senso e a necessária articulação da Rússia do Ocidente para o Oriente.

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ALERTAR O OCIDENTE CONTRA A ESCALADA

Pergunta: Para alertar o Ocidente contra uma escalada da guerra na Ucrânia e contra a sua crescente agressão contra a Rússia, você argumentou a favor da dissuasão nuclear... Você acredita que os líderes ocidentais, a maioria dos quais estão dando um sentimento totalmente irracional, podem leva essas ameaças a sério?

Professor Karaganov: Muitas elites ocidentais já não têm noção de história e perderam o sentido de autopreservação. Chamo essa condição de “parasitismo estratégico”. O mesmo se aplica a boa parte da população ocidental, que se tornou complacente em relação à paz, em grande parte garantida pela dissuasão nuclear, que não compreende. Além disso, o nível intelectual da maioria das elites caiu drasticamente devido a mudanças nos padrões morais e à deterioração do seu sistema de ensino superior – especialmente na Europa. Portanto, há muito poucas pessoas que entendem essas questões.

A situação é um pouco melhor nos Estados Unidos, que parece ter retido pelo menos os restos de uma classe política com mentalidade estratégica, mas obviamente não está a comandar o espectáculo. No entanto, alguns permanecem próximos do poder e podem, por vezes, influenciar aqueles que estão no poder.

De qualquer forma, a situação ali é bastante preocupante. Apenas um exemplo: o Presidente Biden e o seu Secretário de Estado Blinken disseram recentemente que o aquecimento global é tão mau ou pior do que a guerra nuclear. Fiquei bastante chocado. É muito louco.

As populações ocidentais, habituadas durante décadas à democracia, à prosperidade e ao consumo de massa, parecem paralisadas e não resistirão a parar e privar o lobby da guerra do seu poder. A diplomacia também não funciona mais. O que você acha que está por trás dessa complacência ocidental? Falta de imaginação sobre como poderia ser a guerra em seu próprio solo? Um caso de deficiência cognitiva, delírios patológicos, orgulho, ignorância da história? Um disfarce para seu desespero e ansiedade em relação à sua própria existência? Ou poderia ser apenas uma fachada para uma estratégia friamente calculada da parte deles?

Todos os fatores que você mencionou desempenham um papel. Embora eu acredite que o fator mais importante seja a sua incapacidade e recusa em enfrentar a realidade. As pessoas estão tão acostumadas com essas imagens tremeluzentes em suas telas que as confundem com a realidade. Este é um problema para todas as nações, mas especialmente para aquelas mais afetadas pela tecnologia digital.

Há pessoas nos círculos dominantes do Ocidente – nos Estados Unidos, mas especialmente na Europa – que estão a perder a capacidade de governar o seu povo devido a problemas crescentes que não conseguem gerir ou mesmo enfrentar… como o aumento das desigualdades sociais, migração, até mesmo questões climáticas. Claro, eu poderia continuar e continuar…

O capitalismo moderno é um sistema totalmente inadequado. Baseia-se no crescimento sem fim do consumo, que acaba por matar a Terra. Em vez de tentar reduzir o consumo, as classes políticas ocidentais modernas estão a tentar transferir o fardo do combate à poluição e até a culpar as alterações climáticas nos fabricantes (a maioria dos quais estão no mundo “em desenvolvimento”), mas não nos consumidores – a maioria dos quais). estão nos países em desenvolvimento. no chamado mundo “desenvolvido”.

A lista de problemas e desafios não resolvidos é muito longa. Os círculos dirigentes tentam desviar a atenção dos seus cidadãos destes problemas criando um inimigo. Desta vez é a Rússia... Um alvo fácil devido à sua russofobia já generalizada e profundamente enraizada, mas também porque a Rússia é relativamente "pequena" em termos de economia, e perder a Rússia como parceiro económico custa mais barato do que perder a China. (Mas o sentimento anti-China também está a aumentar, especialmente nos Estados Unidos.)

Há uma camada crescente entre as elites ocidentais que começaram a preparar os seus cidadãos para a guerra. Entretanto, os líderes ocidentais cortaram completamente todos os laços entre os seus cidadãos, os russos e a própria Rússia. O comércio e até mesmo o discurso com os russos são mais ou menos proibidos, e quem visita a Rússia acaba sendo interrogado pela polícia ou pelos serviços de segurança. É sintomático de uma preparação para a guerra, deste aumento da hostilidade. Já conseguiram transformar a maioria dos ucranianos num rebanho de odiadores, todos os quais se dirigem obedientemente para o matadouro. Em seguida vêm algumas nações europeias.

Isto tudo é bastante sombrio. Estamos a observar isto com atenção e estamos conscientes de que algumas classes políticas ocidentais ou classes dominantes estão hoje tão desesperadas que instigam guerras para esconder a sua incompetência e/ou crimes.

OS ALVOS FÁCEIS DO OCIDENTE

Muitos notaram claramente a falta de interesse da Alemanha e da UE em investigar a destruição dos gasodutos Nord Stream… Depois vieram os “Taurus Leaks”, nos quais oficiais militares alemães puderam ser ouvidos  pela primeira vez discutindo ataques na Crimeia com o Forças Armadas dos Estados Unidos. oficiais  , quatro meses antes de Scholz e Pistorius tomarem conhecimento desses planos.

Recentemente, a Suécia e a Finlândia renunciaram à sua neutralidade estatal e acolhem agora bases da NATO no seu território, o que, segundo eles, lhes proporcionará mais segurança. O que você acha que está por trás desse comportamento? Por que se permitem tornar-se os primeiros alvos de uma guerra quente contra a Rússia? Porque é que estas pessoas estão a sacrificar os seus próprios países ao estado profundo americano? A quem eles realmente servem? A sua lealdade é a outra entidade e não ao seu próprio país?

Na verdade, o nível de inteligência e o sentido de responsabilidade da maioria das classes dominantes – particularmente na Europa – deterioraram-se seriamente. Os Estados Unidos – que neste caso quase tenho de aplaudir – criaram uma imensa classe compradora na Europa… uma classe que tem muito mais no coração os interesses dos Estados Unidos e as ordens que lhe dão do que os interesses dos seus próprios países. e povos.

O estado profundo americano não está apenas ancorado nos Estados Unidos… há também uma extensão na Europa. É constituída pelo que poderíamos chamar de “a classe imperialista liberal global” que visa servir “interesses comuns”. Mas os europeus são ainda piores do que os americanos, porque sacrificam abertamente os interesses das suas nações. Eles são claramente traidores da sua pátria... E é por isso que encobriram crimes como provocar a guerra na Ucrânia, a explosão do Nord Stream... é por isso que estão até dispostos a arriscar o fornecimento de armas de longo alcance à Ucrânia. . (Curiosamente, os Americanos não fornecem abertamente armas de longo alcance, porque entendem que isso poderia levar a uma escalada, mesmo nuclear.) Portanto, os Americanos estão simplesmente a sacrificar os Europeus. Eles já estão a usar a Ucrânia como bucha de canhão… e parece que estão a preparar-se para usar os seus aliados europeus também como bucha de canhão.

Observamos estes desenvolvimentos com grande preocupação e estamos conscientes de que, infelizmente, não temos praticamente parceiros razoáveis ​​na Europa. Estamos, portanto, nos preparando para o pior cenário possível. No entanto, esperamos que, ao intensificar a nossa prática de dissuasão nuclear, possamos acalmar algumas pessoas na Europa e nos Estados Unidos. Se isto não for bem sucedido, as numerosas crises que assolam o mundo acabarão por se transformar numa Terceira Guerra Mundial.

CRISES GLOBAIS EMERGENTES

Estas crises globais emergentes são o resultado de mudanças tectónicas na actual ordem mundial, baseadas principalmente na dominação de quinhentos anos do Ocidente, em grande parte baseada na sua superioridade militar. A pólvora e os canhões foram inventados na China. Mas os europeus, constantemente em guerra, aproveitaram-no melhor e tiveram um melhor sistema de organização do seu exército. Com base nisso, começaram a colonizar o resto do mundo, suprimindo e até destruindo certas civilizações (astecas, incas), primeiro extraindo renda colonial, depois neocolonial. Mas essa base começou a ser abalada pela antiga União Soviética, quando alcançou a paridade nuclear, e agora por uma Rússia ressuscitada. A convulsão de todo este sistema deu origem a inúmeras crises e conflitos. Mas, acima de tudo, ajudou a libertar “o resto”, “o Sul global” ou, melhor, “a maioria global”.

Agora a questão não é apenas como parar o Ocidente, mas também como parar as ondas crescentes de conflitos militares em todo o mundo. Ao abordarmos os nossos principais interesses de segurança, libertámos simultaneamente o resto do mundo do domínio ocidental e minámos a sua capacidade de desviar riqueza de outros países.

O Ocidente está agora num estado de desespero. Para incutir-lhes algum bom senso, precisamos de restaurar o “medo saudável”, isto é, restaurar a validade da dissuasão nuclear. Infelizmente, não vejo outra solução neste momento. Porque muitas pessoas, especialmente no Ocidente, parecem ter perdido a cabeça e o sentido de responsabilidade. 

O GENOCÍDIO EM CURSO...

Hoje, o genocídio bárbaro que “Israel” – como outra potência colonialista ocidental – está a levar a cabo contra os palestinianos continua inabalável. O sofrimento da população civil palestiniana é inconcebível e o resto do mundo continua a observá-lo. O que está a “comunidade internacional” a fazer – para acabar com os massacres perpetrados por “Israel” e a destruição da pátria palestiniana… e para fazer com que os Estados Unidos e a União Europeia parem de apoiar “Israel”? E… diria que o genocídio na Palestina (juntamente com os ataques militares em curso na Síria) e a guerra na Ucrânia são essencialmente parte de uma “Grande Guerra” contra as nações soberanas da maioria mundial que se recusam a tornar-se vassalos do Hegemon? ?

No actual “sistema global”, a “comunidade internacional” fará muito pouco para ajudar os palestinianos.

Vejo todo o conflito palestiniano como um elo numa cadeia de conflitos desencadeada por mudanças tectónicas de poder no sistema actual e pelas tentativas desesperadas do Ocidente para manter o seu domínio. É claro que os Estados Unidos – embora se retirem externamente dos muitos países e territórios em todo o mundo que ocuparam e dominaram – estão secretamente a causar instabilidade nesses territórios, a fim de criar problemas aos seus futuros líderes. E a maioria desses territórios fica na Eurásia.

Devo dizer que nunca teria imaginado como os israelitas poderiam ter lançado esta guerra [contra a Palestina] sem o apoio aberto dos Estados Unidos. Para todos os efeitos, parece que alguns setores nos Estados Unidos decidiram iniciar uma nova grande guerra no Médio Oriente para desestabilizar toda a região (de qualquer forma, os Estados Unidos já não dependem do petróleo e do gás do Médio Oriente). Leste, portanto, não tinham interesse em manter qualquer estabilidade ali).

O massacre em Gaza minou a legitimidade de Israel e não vejo como essa legitimidade poderia alguma vez ser restaurada. Parece que temos as sementes de uma nova grande guerra no Médio Oriente e de uma nova tragédia – também para o povo judeu, que também está a ser sacrificado pela estupidez e arrogância dos líderes israelitas. Não entendo os políticos israelenses. Obviamente perderam a cabeça… tal como a classe política europeia. E os palestinos continuam a ser massacrados por causa deste programa.

Para além da utilização da ameaça nuclear como meio de dissuasão... e considerando que as "instituições globais" como a ONU e o Tribunal Internacional de Justiça são ineficazes para impedir guerras e genocídios, e que são - poder-se-ia dizer - essencialmente nas mãos das elites ocidentais… não poderíamos conceber uma medida dissuasora adicional – como uma “Aliança de Resistência” global, actuando como uma “frente” activa contra o poder unipolar?

A maioria global é potencialmente muito mais poderosa do que o antigo Movimento Não-Alinhado e está, naturalmente, a tornar-se um factor muito mais importante na política internacional. Um novo sistema irá emergir nas próximas décadas – isto é, se sobrevivermos a este período de crises e guerras… e se pudermos evitar uma Terceira Guerra Mundial, que seria provavelmente a última guerra… e devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para evitar isto.

Não vejo qualquer possibilidade de criar o que poderia ser chamado de "Aliança de Resistência" num futuro próximo... no entanto, uma Comunidade de nações livres - "livres" no sentido de serem capazes de viver e trabalhar de acordo com os seus interesses nacionais - seria uma contribuição importante para a paz mundial. Mas para alcançar um futuro mundo de nações livres, para criar mais segurança e reduzir potenciais tensões, precisaremos de reintroduzir “bloqueios de segurança” no sistema internacional.

De momento, existe apenas um “bloqueio de segurança”: a dissuasão nuclear. Precisamos também de construir um novo sistema institucional paralelamente ao sistema existente que está em colapso. A ONU pode continuar a existir, mas obviamente não pode voltar a ser eficaz, porque o seu secretariado é dominado por funcionários orientados para o Ocidente. Deveríamos, portanto, construir um sistema institucional inteiramente novo baseado no BRICS+, SCO+ e outras instituições semelhantes.

Na verdade…precisamos de um novo conjunto de instituições que não sejam dominadas pelo Ocidente, cujo poder está em declínio e cuja autoridade moral desapareceu, porque falhou em todos os sentidos – política, económica e acima de tudo eticamente – depois de desencadear incontáveis ​​actos brutais. de violência. agressão quando teve a oportunidade de ditar o destino da comunidade mundial. Esta era do momento unipolar atingiu o seu auge na década de 1990 e no início de 2000.

As potências ocidentais mostraram o que valem. Eles agora devem ser deixados de lado. Temos de construir um sistema paralelo de governação global – um sistema que seja mais justo e mais eficaz. Precisamos de um novo Tribunal Internacional de Justiça, de instituições que ajudem a reduzir a fome no mundo e de instituições que trabalhem para melhorar a saúde global (durante a pandemia de Covid vimos como as nações ocidentais, que praticamente controlavam as instituições globais, não conseguiram lidar com a situação). enfrentar este desafio de forma adequada e adequada).

COLONIALISMO VERSUS INTERNACIONALISMO

A Rússia czarista era uma potência colonial e estava em competição feroz com os estados coloniais da Europa Ocidental, particularmente o Império Britânico. Como o colonialismo russo czarista diferia, digamos, do colonialismo britânico?

Sim, em muitos aspectos a Rússia czarista era uma potência colonial, mas era muito diferente das potências coloniais ocidentais. Quando os russos avançaram para leste e sul, conquistando e desenvolvendo a Sibéria, não recorreram a meios genocidas. Como os russos se misturaram com as elites locais, houve um grande número de casamentos interétnicos, de modo que os russos não eram colonialistas nos moldes ocidentais. Os czares até convidaram as elites locais para se juntarem à nobreza russa. Parece que quase duplicámos o número de príncipes que tínhamos quando incorporámos a Geórgia, cuja nobreza afirmava ser príncipe. Metade da nobreza russa era etnicamente não-russa. A Rússia absorveu as culturas dos povos colonizados em vez de suprimi-las. O racismo é quase completamente estranho aos russos.

Embora a Rússia tenha beneficiado naturalmente da riqueza dos países vizinhos, na maioria dos casos subsidiou-os... e este foi particularmente o caso durante a era soviética, quando a Rússia era o principal fornecedor de riqueza. Acredito que todas as repúblicas da antiga União Soviética, exceto uma, foram fortemente subsidiadas.

Somos, portanto, uma potência colonial apenas no nome. Em muitos aspectos, a Rússia metropolitana era uma colónia dos seus subúrbios. Depois, devido à sua necessidade de segurança, a Rússia expandiu-se, mas em muitos casos pagou um preço económico por esta expansão. Por exemplo, após a Segunda Guerra Mundial, a Ucrânia foi reconstruída antes de áreas da Rússia propriamente dita que tinham sofrido com a ocupação nazi. Podemos também constatar com certo orgulho que a maior parte das civilizações dos povos nórdicos da Sibéria persistiram até aos dias de hoje (ao contrário destes territórios usurpados nos Estados Unidos ou noutros lugares). Algumas das suas populações até aumentaram, por exemplo em Yakutia. Estudiosos russos e, especialmente, soviéticos criaram línguas escritas para esses povos e, claro, trouxeram a educação com eles. As línguas escritas das regiões bálticas, hoje estados, foram desenvolvidas em São Petersburgo no final do século XIX.

A Rússia não era, portanto, “colonialista” no sentido tradicional do termo. Em última análise, tratava-se da criação de um Estado comum em que as elites locais e as populações locais – que não eram de etnia russa – pudessem desempenhar um papel igual, e por vezes até mais importante e privilegiado, do que os próprios russos étnicos. É também uma consequência da nossa história... Fomos colonizados pelo império de Genghis Khan, mas os mongóis não nos impuseram a sua cultura, a sua língua ou as suas crenças. Nossa expansão imitou mais ou menos esse tipo de expansão. Portanto, não descreveria a nossa expansão como “colonialista”, mas sim “internacionalista”.

E, claro, a nossa expansão trouxe-nos recursos, especialmente da Sibéria. Primeiro foram as peles, o que chamamos de “ouro macio”, depois todos os tipos de pedras preciosas, prata, ouro, depois petróleo, gás. E agora a Sibéria é o celeiro da Rússia, a base do nosso futuro. A Sibéria fornecerá à Rússia e à Eurásia alimentos, água e recursos naturais durante décadas, senão séculos.

IMPÉRIOS VERSUS CIVILIZAÇÕES

Alguns defensores de um futuro mundo multipolar falam em reunir regiões geográficas do mundo em “impérios”… Qual seria então a posição da Rússia? A noção de “construir vários impérios” não representaria um problema num mundo multipolar?

É muito cedo para falar em impérios futuros, mas um império – além de ter sido por vezes um território de poder que reprimiu outros povos – foi também por vezes uma área que proporcionou segurança e bem-estar a muitos povos.

Não tenho certeza se veremos um mundo com vários impérios importantes. Acredito que já ultrapassamos esse período da história. Se falarmos da Rússia, será um dos centros culturais, políticos, económicos e militares do mundo. Será uma “civilização de civilizações” abrangendo muitos grupos étnicos… uma civilização eurasiana aberta a outros.

Pessoalmente, não gostaria que a Rússia se tornasse novamente um vasto império, porque a forma russa de construir um império foi, em última análise, à custa dos próprios russos. Os seus objectivos podem ter sido nobres, mas tiveram um custo demasiado elevado para o povo russo. Prefiro ver-nos como uma civilização de civilizações: respeitando os outros, aprendendo com as experiências de todas as nações... um guardião político-militar que garante a liberdade de outras nações escolherem o seu próprio caminho. Libertar o mundo da hegemonia é, em última análise, o nosso destino manifesto.

OLHANDO PARA O ORIENTE E PARA A MAIORIA MUNDIAL

A Rússia é a anfitriã do BRICS+ este ano… A Rússia também organizou e acolheu recentemente a Conferência Multipolaridade, o Festival Internacional da Juventude e muitos outros eventos para reunir a maioria mundial… O que poderia a Rússia aprender com a Ásia? África? América latina? E o que estas regiões poderiam aprender com a Rússia?

Aprendemos uns com os outros. Os russos têm a particularidade de ser uma nação culturalmente aberta. Esta abertura cultural é na verdade a própria essência de ser “russo”. Nascemos como uma “nação de nações”. Somos conhecidos como uma civilização estatal. Mas, mais uma vez, eu chamar-nos-ia “uma civilização de civilizações”. Ao longo dos séculos do nosso desenvolvimento, acolhemos muitas civilizações e somos, quase por definição, internacionalistas. É claro que temos racistas e chauvinistas na Rússia. Mas, no geral, os russos são excepcionalmente internacionalistas. Estamos, portanto, mais bem preparados do que a maioria para enfrentar o mundo multipolar, multicultural e multirracial de amanhã. Devemos aprender uns com os outros a viver em paz, respeitar e apoiar as culturas uns dos outros, desenvolver a nossa própria cultura e promovê-la em todo o mundo. Mas acima de tudo, devemos respeitar o carácter único de cada povo e promover um enriquecimento intercultural positivo.

Estou muito optimista em relação ao mundo que está por vir, se conseguirmos evitar uma Terceira Guerra Mundial. Mas esta é a nossa tarefa comum.

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*Sergey Aleksandrovich Karaganov

Biografia detalhada:  https://karaganov.ru/en/

Especialização: Políticas externas e de defesa soviética/russa, aspectos económicos e de segurança da interacção russo-europeia, pivô russo para o Oriente.

Autor e editor de 28 livros e panfletos, publicou cerca de 600 artigos sobre política externa econômica, controle de armas, estratégia de segurança nacional, política externa e de defesa da Rússia. Artigos e livros foram publicados em mais de 50 países.

Presidente do conselho editorial e editor da revista “Russia in Global Affairs”. As opiniões mencionadas neste artigo não refletem necessariamente a opinião de Al Mayadeen, mas expressam exclusivamente a opinião do seu autor.

Publicada por Pena Preta à(s) sábado, maio 11, 2024 

https://foicebook.blogspot.com/2024/05/entrevista-de-karaganov.html