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sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Caetano Veloso - Um comunista


* Caetano Veloso

Um mulato baiano,
Muito alto e mulato
Filho de um italiano
E de uma preta hauçá

Foi aprendendo a ler
Olhando mundo à volta
E prestando atenção
No que não estava a vista
Assim nasce um comunista

Um mulato baiano
Que morreu em São Paulo
Baleado por homens do poder militar
Nas feições que ganhou em solo americano
A dita guerra fria
Roma, França e Bahia

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! Os comunistas!

O mulato baiano, mini e manual
Do guerrilheiro urbano que foi preso por Vargas
Depois por Magalhães
Por fim, pelos milicos
Sempre foi perseguido nas minúcias das pistas
Como são os comunistas?

Não que os seus inimigos
Estivessem lutando
Contra as nações terror
Que o comunismo urdia

Mas por vãos interesses
De poder e dinheiro
Quase sempre por menos
Quase nunca por mais

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! Os comunistas!

O baiano morreu
Eu estava no exílio
E mandei um recado:
"eu que tinha morrido"
E que ele estava vivo,

Mas ninguém entendia
Vida sem utopia
Não entendo que exista
Assim fala um comunista

Porém, a raça humana
Segue trágica, sempre
Indecodificável
Tédio, horror, maravilha

Ó, mulato baiano
Samba o reverencia
Muito embora não creia
Em violência e guerrilha
Tédio, horror e maravilha

Calçadões encardidos
Multidões apodrecem
Há um abismo entre homens
E homens, o horror

Quem e como fará
Com que a terra se acenda?
E desate seus nós
Discutindo-se Clara
Iemanjá, Maria, Iara
Iansã, Catijaçara

O mulato baiano já não obedecia
As ordens de interesse que vinham de Moscou
Era luta romântica
Ela luz e era treva
Venta de maravilha, de tédio e de horror

Os comunistas guardavam sonhos


domingo, 28 de outubro de 2018

Caetano Veloso - Alegria, Alegria


Rodrigo Cardozo
Publicado a 05/10/2011


* Caetano Veloso


Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou...

O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em cardinales bonitas
Eu vou...

Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot...

O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou...

Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou
Por que não, por que não...

Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço e sem documento,
Eu vou...

Eu tomo uma coca-cola
Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou...

Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome, sem telefone
No coração do Brasil...

Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou...

Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou...


domingo, 14 de fevereiro de 2016

Tom Jobim - Desafinado



Desafinado
Tom Jobim
  

Quando eu vou cantar, você não deixa
E sempre vêm a mesma queixa
Diz que eu desafino, que eu não sei cantar
Você é tão bonita
Mas tanta beleza também pode se acabar

Se você disser que eu desafino, amor
Saiba que isto em mim provoca imensa dor
Só privilegiados têm o ouvido igual ao seu
Eu possuo apenas o que Deus me deu

Se você insiste em classificar
Meu comportamento de anti-musical
Eu mesmo mentindo devo argumentar
Que isto é Bossa Nova, isto é muito natural

O que você não sabe nem sequer pressente
É que os desafinados também têm um coração
Fotografei você na minha Rolley-Flex
Revelou-se a sua enorme ingratidão

Só não poderá falar assim do meu amor
Este é o maior que você pode encontrar
Você com a sua música esqueceu o principal
Que no peito dos desafinados
No fundo do peito bate calado
Que no peito dos desafinados também bate um coração

segunda-feira, 3 de março de 2014

Deus e o Diabo – Caetano Veloso





Você tenha ou não tenha medo
nego, nega, o carnaval chegou
mais cedo ou mais tarde acabo
de cabo a rabo com essa transação de pavor
que deus abençoou
deus e o diabo no rio de janeiro
cidade de são salvador
não se grile
a rua chile sempre chega pra quem quer
qual é! Qual é! Qual é!
Qual é! Qual é!...
Quem pode, pode
quem não pode vira bode
foge pra praça da sé
cidades maravilhosas
cheias de encantos mil
cidades maravilhosas
dos pulmões do meu brasil

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Arte e Poesia em Modus Vivendi

29 de abril de 2010

Das Utopias

Se as coisas são inatingíveis... ora!
não é motivo para não querê-las.
Que tristes os caminhos, se não fora
a mágica presença das estrelas!
.
Mário Quintana
.

Sir Joshua Reynolds

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da graciosidade

Bruta flor do querer

Onde queres revólver sou coqueiro, onde queres dinheiro sou paixão
Onde queres descanso sou desejo, e onde sou só desejo queres não
E onde não queres nada, nada falta, e onde voas bem alta eu sou o chão
E onde pisas no chão minha alma salta, e ganha liberdade na amplidão
Onde queres família sou maluco, e onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon sou Pernambuco, e onde queres eunuco, garanhão
E onde queres o sim e o não, talvez, onde vês eu não vislumbro razão
Onde queres o lobo eu sou o irmão, e onde queres cowboy eu sou chinês
Ah, bruta flor do querer, ah, bruta flor, bruta flor
Onde queres o ato eu sou o espírito, e onde queres ternura eu sou tesão
Onde queres o livre decassílabo, e onde buscas o anjo eu sou mulher
Onde queres prazer sou o que dói, e onde queres tortura, mansidão
Onde queres o lar, revolução, e onde queres bandido eu sou o herói
Eu queria querer-te e amar o amor, construírmos dulcíssima prisão
E encontrar a mais justa adequação, tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés, e vê só que cilada o amor me armou
E te quero e não queres como sou, não te quero e não queres como és
Ah, bruta flor do querer, ah, bruta flor, bruta flor
Onde queres comício, flipper vídeo, e onde queres romance, rockn roll
Onde queres a lua eu sou o sol, onde a pura natura, o inceticídeo
E onde queres mistério eu sou a luz, onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro, e onde queres coqueiro eu sou obus
O quereres e o estares sempre afim do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal, bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal, e eu querendo querer-te sem ter fim
E querendo te aprender o total do querer que há e do que não há em mim
.
Caetano Veloso
.

28 de abril de 2010

Angelica Katharina Kauffmann

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Maria Anna Angelika ou Angelica Katharina Kauffmann,
pintora autoretratada em princípios do século XIX

Aqui Estou

Aqui estou, no encontro dos caminhos
no sítio onde os olhares se dobram de terror...
Quando a minha voz disse não e a vontade e o espelho
havia acordo e sonho e flores para abrir.
Quando as minhas mãos escorriam de ternura
havia liberdade e os meus pés descalços
recortavam em sombra a única lisura.
Que lindo o que eu sonhei, que paz e que mistério
que grande força sem lágrimas no mar. . .
Agora estou dorida, morreram-me os cabelos
nos dedos que pediam caiu uma agonia,
as cordas já cortadas tornaram a me ligar.
Na noite que me seque eu quisera sorver
toda a ausência direta do possuir e do ter,
fugida na floresta escondida na giesta
morder aquela terra fecunda em que me sei.
Sem luta, a navegar, um barco branco e meu
sem timoneiro nem rota marcando-me o destino
singrando sob a lua, bebendo o sol dos dias
tão só e o grande olhar de Deus,
deitado ao pé de mim.
Assim correr, ser livre, criar e ter prazer
aquele só prazer igual ao que já sou
uma lira, um canto, uma harmonia enfim
serena, bela, doce e sem violência louca.
Idade duma rosa colhida na manhã
vibrando no calor as pétalas a abrir
surpresa vegetal da vida que se inflama
com o caule cortado e sem poder sorrir.
Quem livre me deixasse dormir na minha planta
este acordo supremo dos membros do amor,
sem traição, sem corte, e só aquele manso
sorver da terra a seiva para poder florir.
Ai, mar em que me banho e que livre me deixas
miragem do meu ritmo, partida para além
meu doce só saber braços, pernas, seios, beijos,
e toda a maravilha de ser sem mais ninguém.
.
Salette Tavares
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27 de abril de 2010

Sir Joshua Reynolds

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Mrs Abington as Miss Prue in Love for Love

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Caetano Veloso: Um Sujeito Alfabetizado, Deselegante e Preconceituoso. - António Barreto

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Cordel contra preconceito e grosseria de um “pavão”


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Pra nunca esquecer que temos de lutar sempre, sempre, sempre, contra todos os tipos de preconceito: “Lula é analfabeto, cafona e grosseiro” – Caetano Veloso
.
Caetano Veloso: um sujeito alfabetizado, deselegante e preconceituoso.
Por Antonio Barreto*, de Santa Bárbara, Bahia

Eu já estava estressado
Temendo até por vingança.
Meus alunos na escola
Leitores da ‘cordelança’
E a galera em geral
Sempre a me fazer cobrança.
Todo mundo me acusando
De cordelista medroso
Omisso, conservador
Educador preguiçoso
Por não me pronunciar
Sobre Caetano Veloso.
Logo eu, trabalhador,
Um pouco alfabetizado
Baiano de Santa Bárbara
Sertanejo antenado
Acima de tudo um forte…
E por que ficar calado?
Resolvi tomar coragem
E entrei logo em ação.
Fui dialogar com o povo
E colher a opinião
Se Caetano está correto
Ou merece punição.
Lápis e papel na mão
Comecei a anotar
Tudo em versos de cordel
Da cultura popular
A respeito de Caetano
Conforme vou relatar.
- Artista santo-amarense
Amante da burguesia
Esse baiano arrogante
Cheio de filobostia
Discrimina o presidente
Esbanjando ironia.
- Caro artista prepotente
Tenha mais discernimento.
Seja um Chico Buarque
Seja Milton Nascimento
Seja a luz do Raul Seixas
Deixe de ser rabugento.
- O Caetano deveria
Ser modesto e mais gentil
Porém o seu narcisismo
Que não é nada sutil
Faz dele um homem frustrado
Por ser bem menor que Gil.
- Seu comportamento vil
É algo de outra vida
Ele insiste em muitos erros
Não cura sua ferida
Por isso sua falação
É de alma involuída.
- Caetano é um arrogante
Partidário da exclusão
O que ele fez com Lula
Faz com qualquer cidadão
Sobretudo gente humilde
Que não tem diplomação.
- Por que este cidadão
(o Caetano escleroso)
Não criticou Figueiredo
Presidente desastroso?
Além de aproveitador
O Caetano é medroso.
- Esse Cae que ora vejo
Não representa a Bahia.
Ser o chefe da Nação
Esse invejoso queria
Mas a sua paranóia
Pouco a pouco lhe atrofia.
- Já pensou se o Caetano
Fosse então educador?!
“Mataria” os seus alunos
Pela falta de pudor
Pela discriminação
Pelo brio de ditador.
- Ele não leu Marcos Bagno
Pois é leitor displicente.
Seu preconceito linguístico
Contra o nosso presidente
Discrimina Santo Amaro
Terra de Assis Valente.
- Ele ofende até os mortos:
Paulo Freire, Gonzagão
Patativa do Assaré
O Catulo da Paixão
Ivone Lara, Cartola
Pixinguinha, Jamelão…
- Caetano é um imbecil
Da ditadura um amante.
Um artista egocêntrico
Decadente ambulante
Se julga intelectual
Mas é mesmo arrogante.
- A Bahia está de luto
Diante da piração
Desse artista rabugento
Que adora a exclusão,
Vaca profana, ególatra
Que quer chamar a atenção.
- Vai de reto, Caetanaz
Pega o Menino do Rio
Garoto alfabetizado
Que te provoca arrepio.
Esse sim, não é grosseiro
Nem cafona pro teu cio.
- Um burguês reacionário
Que odeia a pobreza.
Ele não gosta de negro
E só vive na moleza.
Sempre foi um lambe-botas
Do Toninho Malvadeza.
- Vou atender meu cachorro
Pois é algo salutar
Muito mais que prazeroso
Que parar pra escutar
O Caetano elitista
Que começa a definhar.
- Certamente o Caetano
Esqueceu do Gardenal.
Bem na hora da entrevista
Lá se foi o bom astral
Desandou no Estadão
Dando um show de besteiral!
- Caetano ‘Cardoso’ segue
Sempre a favor do “vento”
Por entre fotos e nomes
Sem lenço nem argumento
Vivendo só do passado,
Cada vez mais ciumento.
- Eu respeito a sua arte
Mas preciso declarar
Que quando não tá na mídia
Cae começa a atacar
Sobre tudo as pessoas
De origem popular.
- O Caetano gosta mesmo
É de gente diplomada:
Serra, Aécio, Jereissati,
Toda tribo elitizada…
Bajulou FHC
Que fez muita trapalhada.
- O Caetano discrimina
Pois está enciumado.
Na verdade, o nosso Lula
É um homem educado.
Um nordestino sensível
Muito mais que antenado.
- Dona Canô, com 100 anos
Não perdeu a lucidez.
Mas seu filho Caetano
Ficou pirado de vez
Transformando-se num “cara”
De profunda insensatez.
- Ofendeu Marina Silva
Através do Silogismo
Mistura de Lula e Obama
Logo quer dizer racismo:
Mulher cafona, grosseira
Analfabeta – que abismo!
Adoro Mabel Veloso,
Betânia, dona Canô…
Para toda essa família
Meu carinho, meu alô.
Mas o mestre Caetanaz
Já está borocoxô!
É proibido proibir
O cordelista versar
Pois conforme disse Cae
“Gente é para brilhar”.
Então permita ao poeta
Liberdade de pensar.
Brasileiros, brasileiras
A Bahia está de luto.
Racistas em nossa terra
Radicalmente eu refuto.
Estamos envergonhados,
Todos fomos humilhados
Oh Caetano ‘involuto’.
FIM
Salvador, triste primavera de 2009
.
http://cachacaaraci.wordpress.com/2009/11/17/cordel-contra-preconceito-e-grosseria-de-um-pavao/
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* Mais sobre o professor, poeta e cordelista Antônio Barreto, aqui.


Veja também os seguintes assuntos relacionados:
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sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Caminho das Estrelas: Caetano Veloso - Já não me acho bonitinho como quando era jovem


* José Manuel Simões
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A minha tendência monogâmica é muito sincera. Sou de uma geração em que a ambiguidade sexual era vivida pelos artistas', afirma o cantor
.
Caetano Veloso assume a sua ambiguidade sexual, considera-se parte de uma geração em que os ídolos são andróginos, já não se acha bonito. Aos 65 anos perdeu o narcisismo próprio de quem se sente uma beldade na flor da idade, expressa-se com rara lucidez e sabedoria. Neste mês actua em Portugal.
.
- Correio Êxito – Quando tinha 23 anos aplicaram-lhe o Teste Rorschach (consiste em dar interpretações a dez pranchas com manchas de tinta simétricas; a partir das respostas pode obter- -se um quadro psicológico) e o resultado foi “homossexualismo latente; identificação feminina e identificação da figura da mulher”. Como vê estes resultados?

- Reconheci-me um pouco neles mas ao mesmo tempo a minha vida prática não corroborava nem confirmava esse diagnóstico.

- A sua vida é heterossexual e monogâmica?

- Disse isso há muitos anos à revista ‘Playboy’ quando estava a narrar a minha vida real. Era casado e a minha tendência monogâmica é muito sincera. Vivi 18 anos com a minha primeira mulher e já me separei dela em contacto com a segunda, com quem também vivi 18 anos. Acabei de me separar faz pouco tempo.

- Aproxima-se, enquanto figura pública, daquilo a que Andrew Sullivan chamou de “uma tendência ubíqua e vagamente homoerótica”?

- Justamente. Sou de uma geração em que a ambiguidade sexual, a ideia de pan-sexualidade e a presença do conteúdo homoerótico era vivida por inúmeros artistas. Veja-se o próprio Bob Dylan, que na época não parecia nada andrógino nem atraente desse ponto de vista e que, olhado hoje, era superandrógino, fazia charme de andrógino, era bonitinho, parecia uma menina.

- Gostou de, recentemente, ter posado para a revista ‘Rolling Stone’ de cílios postiços e olhar contestador?

- Não gosto mais de ver fotografias minhas de hoje em dia.

- Porque não?

- Porque gosto de me ver quando era jovem.

- Já não se acha bonito?

- É isso. Até que me achava bonitinho mas hoje já não. Posei de cílios postiços, bem grandes, num olho só, mas isso foi uma ideia do pessoal da revista.

- Quer dizer que deixou de ter aquele narcisismo próprio de quem se sente uma beldade na flor da idade?

- Há uns anos isso era um pouco mais verdade do que é hoje. Naquela época achava graça. Agora todo o mundo acha melhor que as pessoas não sejam narcisistas.

- É verdade que o Caetano se declarou assexuado?

- Não. Nunca. Deus me livre disso e dessa palavra. Jamais.

- Quando começou a namorar com a sua primeira esposa, Paula Lavigne, ela tinha 13 anos. Por causa disso, alguma vez associaram o seu nome a pedofilia?

- Muitos anos depois, quando eu já tinha dois filhos com a Paulinha, um jornalista de S. Paulo, inteligente e responsável, tendo lido uma entrevista que ela deu e em que lhe perguntavam como tinha perdido a virgindade e ela respondeu que tinha sido comigo no dia do meu 40.º aniversário, as pessoas fizeram as contas e constataram que naquela época ela tinha 13 anos. Como no Brasil só depois dos 14 é que uma pessoa pode ter relações sexuais sem ser considerado estupro presumido, antes dessa idade, mesmo que tenha sido ela a querer e tenha gostado, não tem jeito. Então esse sujeito propôs que eu devia ser punido.

- Como é que isso ficou resolvido?

- Perguntei a um advogado, que aliás é o pai da Paulinha, que disse que isso já tinha prescrito. Como nós éramos casados e tínhamos dois filhos, não havia maneira de me punirem.

- Você é uma pessoa muito doce. Vê-se como tal?

- Mais ou menos. Pode ser. A gente gosta da gente mesmo como a gente é. Dada a minha formação psicológica e o meu modo de viver e de ser, não acho isso ruim.

- Parece que você deixou de ser vaidoso.

- Pois é. Não sou mais vaidoso. Já não passo tempo a escolher roupa e acho graça quando dizem que está errado o que estou vestindo.

- É verdade que disse que “ninguém aguenta mais ouvir Caetano Veloso falando de tudo”?


- Não fui eu que disse isso. Eu conto é que um jornalista a quem dei uma entrevista que foi divulgada num blog disse isso de mim.

- Mas, de facto, no Brasil criou-se o estigma de ouvi-lo sobre todos os assuntos. Inclusive, alguém chamou a isso “caetanomania”. Como é que interpreta?

- Quem lhe chamou “caetanomania”?


- Um jornalista de S. Paulo.

- Tinha que ser de S. Paulo...

- Ai tinha?!...

- Isso é a cara de alguém de S. Paulo. Não é só uma mania em relação a mim mas mais geral. Há uma tendência para inquirir as pessoas conhecidas, sobretudo as do cinema e as da música popular, sobre assuntos gerais da vida como política, sexo ou religião. Mas não me parece que seja uma “caetanomania” nem algo de exclusivo do Brasil.

- Alguém escreveu que “Caetano é um incansável inventor de arte que a nossa imaginação jamais poderia perceber”. Busca o intangível e o inatingível?

- De jeito nenhum.

- Já leu que “Caetano Veloso é meu caminho, meu vinho, meu vício”.

- Adorei. Gosto muito dessa expressão. Acontece que ouvi-la fora de contexto pode soar ridículo e ficar vulnerável. Apesar de serem palavras elogiosas, deixam-me constrangido e embaraçado.

- Ainda se identifica com a frase “Esperança, morreste muito cedo; saudade, cedo chegaste”?

- Não propriamente, porque é grande a melancolia que ela encerra e eu tinha medo de ser tomado por essa melancolia. Num momento muito doloroso da minha vida, em que fui preso, essa canção impressionava-me muito.

- Que recordações ficaram desses tempos em que foi preso pela Polícia Federal brasileira?

- São memórias desagradáveis mas não penso muito nelas.

- Já lhe chamaram “Caretano”, mistura de Caetano com careta. Identifica-se?

- Eu gostei muito quando o Rogério Duarte me chamou isso. Porque ele se referia ao facto de eu não usar drogas e eu gosto muito de não usar drogas.

- Mas tomou o chá de ayahuasca. Como foi a experiência?

- Durante algumas horas foi deslumbrante mas no final, perto da volta, quando a alucinação começou a desagregar-se, fiquei mal, no maior estado de sofrimento que alguém pode imaginar.

- Alguma vez se sentiu como que afogado no seu próprio talento?

- Exerço uma actividade para a qual não tenho muito talento. A música foi uma solução sábia que o acaso me ofereceu e que terminei elegendo meio a contragosto por causa, justamente, da inadequação do talento. No fim de contas, acho que há uma certa sabedoria nisso. Quando você tem esta posição em relação à arte que exerce possui mais oportunidades de assumir atitudes críticas, produtivas, que tenham valor histórico. Há vantagens em não ser demasiado talentoso.

- Já escreveu que Gilberto Gil tem uma capacidade musical imensamente maior que a sua. Isso é verdade?

- É. E sem a menor sombra de dúvidas. Não só ele como muitos outros.

- Não o fazia humilde.

- Não sou humilde nem sou modesto. Isto é uma constatação objectiva e não arrogância da minha capacidade crítica.

- Esta sua digressão começou em Agosto no Peru, passa em Lisboa (12 e 13), Porto (15 e 16), Coimbra (dia 17) e só terminará em finais de Novembro nos Estados Unidos. Não é cansativo para um senhor de 65 anos dar 50 concertos quase seguidos em 19 países distintos?

- Dá um certo cansaço físico e, consequentemente, mental mas, em geral, dá para aguentar. Até aqui estou muito bem.

'GILBERTO GIL DEVERIA TER SIDO NEUTRO'

- No Brasil escreveram que afirmou que “Gilberto Gil, enquanto ministro da Cultura, não está a desempenhar devidamente o seu papel”. É verdade?

- Não me lembro de ter dito isso. Fiz afirmações a propósito de algumas expectativas de controlo da questão cultural mas nunca houve uma divergência geral. Aliás, o próprio ministério e o presidente da República acabaram acatando a posição que eu defendia. Acho é tonto de mais que o ministro da Cultura faça uma excursão a estimular a reprodução do que está sendo feito por ele.

- Refere-se à questão dos direitos de autor!?

- É. E isso está a deixar muita gente revoltada no Brasil.

- Revoltada?

- É que, por um lado, a reprodutibilidade digital e a difusão via internet deram margem a uma grande pirataria e, por outro, deram a possibilidade de se poder fazer downloads em canções sem pagar a ninguém. O Gil, como ministro, defende uma nova maneira de se pensar os direitos da propriedade intelectual, o que é muito útil, justo e interessante. Acho um orgulho que o Ministério da Cultura brasileiro seja tão moderno a ponto de tomar para si a discussão dessa questão. E, já que tomou para si, eu pessoalmente acho que o Gil, sendo artista e também ministro, não deveria fazer proselitismo para nenhum dos lados. Assim, a esse respeito, criou forças contraditórias dentro da própria comunidade dos criadores, artistas e intelectuais.

- Como é que acha que Gilberto Gil deveria ter agido?

- Porque é ministro, deveria ter sido neutro e mais cuidadoso.

'MINHA MÃE É UMA POP STAR'

- Sua mãe, dona Canô, é uma espécie de pop star na cidade baiana de Santo Amaro da Purificação, onde você nasceu?

- Por causa de eu e Bethânia sermos famosos nacionalmente e ela ser uma pessoa muito especial, virou uma espécie de pop star nacional.

- Ela tem 100 anos e continua poderosa, feliz, cheia de saúde, cantando. Tem o desejo de viver tanto quanto ela?

- Assim, sim. É que, além de tudo isso, ela é muito lúcida.

PERFIL

Caetano Emanuel Vianna Telles Veloso, quinto filho de Claudionor Vianna (dona Canô) e José Telles Veloso (‘seu Zezinho’), irmão de Maria Bethânia, nasceu a 7 de Agosto de 1942 na cidade baiana de Santo Amaro da Purificação. Com Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethânia e Tom Zé, fundou o movimento tropicalista, tendo em 1965 – quando se mudou para o Rio de Janeiro – sido perseguido pela ditadura militar e proibido de expressar-se.

Exilado em Londres em 1969, onde foi vizinho de Gil no bairro de Chelsea, regressou ao Brasil em 1972, onde fundou com os amigos tropicalistas o grupo Doces Bárbaros. Nas últimas décadas tornou-se um dos mais populares e influentes compositores e cantores brasileiros, figura fundamental na história da Música Popular Brasileira com mais de mil canções gravadas e quase 50 álbuns registados.
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in Correio da Manhã 2007.10.06