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quarta-feira, 2 de março de 2016

Thiago de Melo - Arte de Amar

* Thiago de Melo

Não faço poemas como quem chora, 
nem faço versos como quem morre. 
Quem teve esse gosto foi o bardo Bandeira 
quando muito moço; achava que tinha 
os dias contados pela tísica 
e até se acanhava de namorar. 
Faço poemas como quem faz amor. 
É a mesma luta suave e desvairada 
enquanto a rosa orvalhada 
se vai entreabrindo devagar. 
A gente nem se dá conta, até acha bom, 
o imenso trabalho que amor dá para fazer. 

Perdão, amor não se faz. 
Quando muito, se desfaz. 
Fazer amor é um dizer 
(a metáfora é falaz) 
de quem pretende vestir 
com roupa austera a beleza 
do corpo da primavera. 
O verbo exato é foder. 
A palavra fica nua 
para todo mundo ver 
o corpo amante cantando 
a glória do seu poder.

http://www.jornaldepoesia.jor.br/tmello.html

terça-feira, 1 de março de 2016

Thiago de Mello comemora 90 anos de poesia e luta política

1 de março de 2016 - 10h52 

No próximo dia 15 de março, Thiago de Mello comemora seus 90 anos de vida. Cidadão do Brasil e do mundo, o poeta vai compartilhar este momento com leitores e amantes da poesia e da literatura em uma solenidade realizada na Biblioteca Mário de Andrade, no centro da capital paulista. 

Thiago de Mello comemora seu aniversário no próximo dia 15 de março em São Paulo Artista identificado com a cultura do Amazonas, morou em vários países — Argentina, Chile, Portugal, França, Alemanha — mas, terminada a ditadura no Brasil, optou por voltar à pequena Barreirinhas, cidade amazônica onde nasceu e vive até hoje.

Preso e torturado durante a ditadura, exilou-se no Chile. Lá conheceu Pablo Neruda, de quem se tornaria amigo e tradutor, tendo também sua obra traduzida pelo chileno. Thiago de Mello é reconhecido como um dos maiores nomes vivos da poesia de caráter social.

Sua obra sofreu influência da revolta, provocada em um momento histórico no qual a repressão se generalizou na América do Sul. Marca desse período, o livro Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida, rendeu-lhe, em 1975, o Prêmio de Poesia concedido pela Associação Paulista dos Críticos de Arte e que o apresentou internacionalmente como um intelectual engajado na luta pelos Direitos Humanos.

Muitos de seus poemas mais populares tomam o partido dos pobres e dos oprimidos do mundo, tais como Faz Escuro Mas Eu Canto (1968), Os Estatutos do Homem (1973) e Canto do Amor Armado (1975). Já Campo de Milagres (1998) trouxe com força a preocupação ecológica em sua poética.

Em visita à Fundação Maurício Grabois, em 2014, o poeta falou de seu profundo desejo de ver a construção de uma sociedade mais humana e solidária no Brasil. Abordou a realidade da Amazônia, alertando para a exuberância da floresta na qual existe, injustificadamente, uma população empobrecida.

Naquela ocasião, Thiago de Mello discorreu ainda sobre a realidade da América Latina e sobre a mobilização popular “que derrubou a ditadura” no Brasil como uma evidência da força do povo. “Quando uma parcela de um povo se conscientiza, sabe as razões porque este povo está sendo oprimido, a primeira coisa que ele faz é querer se organizar para lutar. Esse povo conscientizado vai crescer e vai ser invencível”, afirmou.


Do Portal Vermelho, com Fundação Maurício Grabois

sexta-feira, 30 de julho de 2010

A Poesia de Thiago de Mello




O animal da floresta


De madeira lilás (ninguém me crê)
se fez meu coração. Espécie escassa
de cedro, pela cor e porque abriga
em seu âmago a morte que o ameaça.
Madeira dói?, pergunta quem me vê
os braços verdes, os olhos cheios de asas.
Por mim responde a luz do amanhecer
que recobre de escamas esmaltadas
as águas densas que me deram raça
e cantam nas raízes do meu ser.
No crepúsculo estou da ribanceira
entre as estrelas e o chão que me abençoa
as nervuras.
Já não faz mal que doa
meu bravo coração de água e madeira. 
.
.
Filho da floresta, água e madeira


Filho da floresta,
água e madeira
vão na luz dos meus olhos,
e explicam este jeito meu de amar as estrelas
e de carregar nos ombros a esperança.

Um lanho injusto, lama na madeira,
a água forte de infância chega e lava.

Me fiz gente no meio de madeira,
as achas encharcadas, lenha verde,
minha mãe reclamava da fumaça.

Na verdade abri os olhos vendo madeira,
o belo madeirame de itaúba
da casa do meu avô no Bom Socorro,
onde meu pai nasceu
e onde eu também nasci.

Fui o último a ver a casa erguida ainda,
íntegros os esteios se inclinavam,
morada de morcegos e cupins.

Até que desabada pelas águas de muitas cheias,
a casa se afogou
num silêncio de limo, folhas, telhas.

Mas a casa só morreu definitivamente
quando ruíram os esteios da memória
de meu pai,
neste verão dos seus noventa anos.

Durante mais de meio século,
sem voltar ao lugar onde nasceu,
a casa permaneceu erguida em sua lembrança,
as janelas abertas para as manhãs
do Paraná do Ramos,
a escada de pau-d’arco
que ele continuava a descer
para pisar o capim orvalhado
e caminhar correndo
pelo campo geral coberto de mungubeiras
até a beira florida do Lago Grande
onde as mãos adolescentes aprendiam
os segredos dos úberes das vacas.

Para onde ia, meu pai levava a casa
e levava a rede armada entre acariquaras,
onde, embalados pela surdina dos carapanãs,
ele e minha mãe se abraçavam,
cobertos por um céu insuportavelmente
estrelado.

Uma noite, nós dois sozinhos,
num silêncio hoje quase impossível
nos modernos frangalhos de Manaus,
meu pai me perguntou se eu me lembrava
de um barulho no mato que ele ouviu
de manhãzinha clara ele chegando
no Bom Socorro aceso na memória,
depois de muito remo e tantas águas.

Nada lhe respondi. Fiquei ouvindo
meu pai avançar entre as mangueiras
na direção daquele baque, aquele
baque seco de ferro, aquele canto
de ferro na madeira — era a tua mãe,
os cabelos no sol, era a Maria,
o machado brandindo e abrindo em achas
um pau mulato azul, duro de bronze,
batida pelo vento, ela sozinha
no meio da floresta.

Todas essas coisas ressurgiam
e de repente lhe sumiam na memória,
enquanto a casa ruína se fazia
no abandono voraz, capim-agulha,
e o antigo cacaual desenganado
dava seu fruto ao grito dos macacos
e aos papagaios pândegas de sol.

Enquanto minha avó Safira, solitária,
última habitante real da casa,
acordava de madrugada para esperar
uma canoa que não chegaria nunca mais.

Safira pedra das águas,
que me dava a bênção como
quem joga o anzol pra puxar
um jaraqui na poronga,
sempre vestida de escuro
a voz rouca disfarçando
uma ternura de estrelas
no amanhecer do Andirá.

Filho da floresta, água e madeira,
voltei para ajudar na construção
do morada futura. Raça de âmagos,
um dia chegarão as proas claras
para os verdes livrar da servidão.
  .
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Poema perto do fim


A morte é indolor.
O que dói nela é o nada
que a vida faz do amor.
Sopro a flauta encantada
e não dá nenhum som.
Levo uma pena leve
de não ter sido bom.
E no coração, neve.
.
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Ninguém me habita


Ninguém me habita. A não ser
o milagre da matéria
que me faz capaz de amor,
e o mistério da memória
que urde o tempo em meus neurônios,
para que eu, vivendo agora,
possa me rever no outrora.
Ninguém me habita. Sozinho
resvalo pelos declives
onde me esperam, me chamam
(meu ser me diz se as atendo)
feiúras que me fascinam,
belezas que me endoidecem.


Remetente: Aníbal Beça
,.
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Canto do meu canto


Escrevi no chão do outrora
e agora me reconheço:
pelas minhas cercanias
passeio, mal me freqüento.
Mas pelo pouco que sei
de mim, de tudo que fiz,
posso me ter por contente,
cheguei a servir à vida,
me valendo das palavras.
Mas dito seja, de uma vez por todas,
que nada faço por literatura,
que nada tenho a ver com a história,
mesmo concisa, das letras brasileiras.
Meu compromisso é com a vida do homem,
a quem trato de servir
com a arte do poema. Sei que a poesia
é um dom, nasceu comigo.
Assim trabalho o meu verso,
com buril, plaina, sintaxe.
Não basta ser bom de ofício.
Sem amor não se faz arte.

Trabalho que nem um mouro,
estou sempre começando.
Tudo dou, de ombros e braços,
e muito de coração,
na sombra da antemanhã,
empurrando o batelão
para o destino das águas.
(O barco vai no banzeiro,
meu destino no porão.)

Nada criei de novo.
Nada acrescentei às forma
tradicionais do verso.
Quem sou eu para criar coisas novas,
pôr no meu verso, Deus me livre, uma
                 invenção.


Remetente: Aníbal Beça
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Arte de amar


Não faço poemas como quem chora,
nem faço versos como quem morre.
Quem teve esse gosto foi o bardo Bandeira
quando muito moço; achava que tinha
os dias contados pela tísica
e até se acanhava de namorar.
Faço poemas como quem faz amor.
É a mesma luta suave e desvairada
enquanto a rosa orvalhada
se vai entreabrindo devagar.
A gente nem se dá conta, até acha bom,
o imenso trabalho que amor dá para fazer.

Perdão, amor não se faz.
Quando muito, se desfaz.
Fazer amor é um dizer
(a metáfora é falaz)
de quem pretende vestir
com roupa austera a beleza
do corpo da primavera.
O verbo exato é foder.
A palavra fica nua
para todo mundo ver
o corpo amante cantando
a glória do seu poder.


Remetente: Aníbal Beça

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Flor de açucena


Quando acariciei o teu dorso,
campo de trigo dourado,
minha mão ficou pequena
como uma flor de açucena
que delicada desmaia
sob o peso do orvalho.
Mas meu coração cresceu
e cantou como um menino
deslumbrado pelo brilho
estrelado dos teus olhos.


92, Porantim

Remetente: Aníbal Beça
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Para o livro do Aníbal Beça


Não faço prefácio. Faço
um canto de louvação.
A multidão de habitantes
da tua noite cintilante
crava estrelada alegria
nas profundezas das águas
que guardam a nossa infância.
Teu verso, vida ao reverso,
já é prefácio, anteface,
da clara felicidade
que só da poesia nasce,
é flor de nunca fechar.
Tem o vôo vagaroso,
mas de repente veloz,
de um pássaro cheio de asas
que inaugura um coração
no peito da inteligência
e planta, chuva de fogo,
a alvorada da razão
na fronte do sentimento.
Não faço prefácio. Faço
esta serena invenção:
como de açucena o brilho
contente perante a luz
da manhã que se levanta
e impregnando vai a vida
de sonora claridão.

Feliz dança, banda-de-asa,
papagaio de famão,
assim te louvo cantando
Anibal, meu claro irmão.


Remetente: Aníbal Beça

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Os astros íntimos


Consulto a luz dos meus astros,
cada qual de cada vez.
Primeiro olho o do meu peito:
um sol turvo é o meu defeito.
A minha amada adormece
desgostosa do que sou:
a estrela da minha fronte
de descuidos se apagou.

Ela sonha mal do rumo
que minha galáxia tomou.
Não sabe que uma esmeralda
se esconde na dor que dou.

A cara consigo ver,
sem tremor e sem temor,
da treva engolindo a flor.
Percorre a mata um espanto.

A constelação que outrora
ardente cruzava o campo
da vida, hoje mal demora
no fulgor de um pirilampo.

Mas vale ver que perdura
serena em seu resplendor,
mesmo de luz esgarçada,
a nebulosa do amor.


Barreirinha, Ponta da Gaivota, 97


Remetente: Aníbal Beça
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Aprendiz do espanto


Não deflorei ninguém.
A primeira mulher que eu vi desnuda
(ela era adulta de alma e de cabelos)
foi a primeira a me mostrar os astros,
mas não fui o primeiro a quem mostrou.
Eu vi o resplendor de suas nádegas
de costas para mim, era morena,
mas quando se virou ficou dourada.
Sorriu porque os seus peitos me assombraram
o olhar de adolescente desafeito
à glória da beleza corporal.
Era manhã na mata, mas estrelas
nasciam dos seus braços e subiam
pelo pescoço, eu lembro, era o pescoço
que me ensinava a soletrar segredos
guardados na clavícula.

Pedia
já estirada de bruços me chamando,
que eu passeasse meus lábios pelas pétalas
orvalhadas da nuca, eram lilazes,
com as gemas de leve eu alisasse
as espáduas de espumas e esmeraldas,
queria a minha mão lhe percorrendo,
mas indo e vindo, o vale da coluna,
cuidadosa de mim, trés doucement.
Ela me inaugurou o contentamento
inefável de dar felicidade.
Tanto conhecimento só podia
ser de nascença, hoje eu calculo.

Não
era um saber de experiências feito,
mas quanta ciência para transmiti-lo.
Ela era de outras águas, a fontana
de trinta anos, que veio lá do Sena
com a sina de me dar a beber
na aurora dos seus olhos, nos seus peitos,
na boca musical, no mar do ventre,
no riso de açucena, na voz densa,
nas sobrancelhas e no vão das pernas -
o mel antigo da sabedoria
de que a libido cresce quando atende,
de que a tesão se acende na ternura,
que as ante-salas se prolonguem vastas
até estar pronto para entrar no céu.


Freguesia do Andirá, fim de 97


Remetente: Aníbal Beça
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Sugestão


Antes que venham ventos e te levem
do peito o amor — este tão belo amor,
que deu grandeza e graça à tua vida —,
faze dele, agora, enquanto é tempo,
uma cidade eterna — e nela habita.

Uma cidade, sim. Edificada
nas nuvens, não — no chão por onde vais,
e alicerçada, fundo, nos teus dias,
de jeito assim que dentro dela caiba
o mundo inteiro: as árvores, as crianças,
o mar e o sol, a noite e os passarinhos,
e sobretudo caibas tu, inteiro:
o que te suja, o que te transfigura,
teus pecados mortais, tuas bravuras,
tudo afinal o que te faz viver
e mais o tudo que, vivendo, fazes.

Ventos do mundo sopram; quando sopram,
ai, vão varrendo, vão, vão carregando
e desfazendo tudo o que de humano
existe erguido e porventura grande,
mas frágil, mas finito como as dores,
porque ainda não ficando — qual bandeira
feita de sangue, sonho, barro e cântico —
no próprio coração da eternidade.
Pois de cântico e barro, sonho e sangue,
faze de teu amor uma cidade,
agora, enquanto é tempo.

Uma cidade
onde possas cantar quando o teu peito
parecer, a ti mesmo, ermo de cânticos;
onde posssas brincar sempre que as praças
que percorrias, dono de inocências,
já se mostrarem murchas, de gangorras
recobertas de musgo, ou quando as relvas
da vida, outrora suaves a teus pés,
brandas e verdes já não se vergarem
à brisa das manhãs.

Uma cidade
onde possas achar, rútila e doce,
a aurora que na treva dissipaste;
onde possas andar como uma criança
indiferente a rumos: os caminhos,
gêmeos todos ali, te levarão
a uma aventura só — macia, mansa —
e hás de ser sempre um homem caminhando
ao encontro da amada, a já bem-vinda
mas, porque amada, segue a cada instante
chegando — como noiva para as bodas.

Dono do amor, és servo. Pois é dele
que o teu destino flui, doce de mando:
A menos que este amor, conquanto grande,
seja incompleto. Falte-lhe talvez
um espaço, em teu chão, para cravar
os fundos alicerces da cidade.

Ai de um amor assim, vergado ao vínculo
de tão amargo fado: o de albatroz
nascido para inaugurar caminhos
no campo azul do céu e que, entretanto,
no momento de alçar-se para a viagem,
descobre, com terror, que não tem asas.

Ai de um pássaro assim, tão malfadado
a dissipar no campo exíguo e escuro
onde residem répteis: o que trouxe
no bico e na alma — para dar ao céu.

É tempo. Faze
tua cidade eterna, e nela habita:
antes que venham ventos, e te levem
do peito o amor — este tão belo amor
que dá grandeza e graça à tua vida.

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http://www.revista.agulha.nom.br/tmello.html
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Biblioteca-museu preservará acervo de Thiago de Mello

 

 

Cultura

Vermelho - 29 de Julho de 2010 - 16h01

O Ministério da Cultura publicou nesta terça-feira (27), edital de licitação para o projeto de restauração, conservação e readequação do antigo Prédio do Tesouro, em Manaus (AM), para a criação da Casa de Leitura Thiago de Mello. A entrega das propostas para obra será dia 27 de agosto.

O espaço, uma biblioteca-museu, será a primeira biblioteca temática do Brasil. O espaço reunirá 8 mil itens, dentre eles estão acervo literário, documentos, correspondências, recortes icnográficos, obras de artes e acervo de multimídia (CDs e DVDs).

A Casa de Leitura Thiago de Mello terá como ponto de partida os acervos pessoais, iconográfico e bibliográfico do poeta, estruturando-se em torno de três grandes temas centrais de sua obra: O homem (a condição humana); A floresta (meio ambiente) e a América Latina (política, cultura e integração).

A previsão de custos do projeto é de R$ 5,99 milhões, com entrega da obra em 150 dias após a assinatura do contrato com a empresa escolhida. No julgamento das propostas, a Comissão levará em conta o menor preço global, desde que atendidas todas as especificações constantes do edital e seus anexos.

O antigo Prédio do Tesouro, Armazém 15, Trapiche do Armazém 15 e Áreas Externas fazem parte do Conjunto Arquitetônico e Paisagístico do Porto de Manaus, tombado pela União em 1987. Os imóveis estão intimamente identificados com a história do surgimento da cidade, na área de ocupação mais antiga do Centro Histórico e também são representativos do Ciclo Áureo da Borracha.

Thiago de Mello

Natural do Estado do Amazonas, Thiago de Mello é um dos poetas mais influentes e respeitados no pais, reconhecido como um ícone da literatura regional. Tem obras traduzidas para mais de trinta idiomas.

Preso durante a ditadura (1964-1985), exilou-se no Chile, encontrando em Pablo Neruda um amigo e colaborador. Um traduziu a obra do outro, e Neruda escreveu ensaios sobre o amigo. No exílio, morou na Argentina, Chile, Portugal, França, Alemanha. Com o fim do regime militar, voltou a sua grande cidade natal, Barreirinha, onde vive até hoje.

Seu poema mais conhecido é Os Estatutos do Homem, onde o poeta chama a atenção do leitor para os valores simples da natureza humana. Seu livro Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida rendeu-lhe, em 1975, ainda durante o regime militar, prêmio concedido pela Associação Paulista dos Críticos de Arte e tornou-o conhecido internacionalmente como um intelectual engajado na luta pelos Direitos Humanos.

Com agências
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Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony


Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.


Santiago do Chile, abril de 1964 
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http://www.revista.agulha.nom.br/tmello.html#estat.
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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

As ensinanças da dúvida - Thiago de Mello

Assunto: REVIRAVOLTA
Data: 9/Dez 15:40
PARA MIM É BEM NORMAL HOJE PENSAR ASSIM...AMANHÃ DE OUTRA MANEIRA.NÃO, NÃO SOU UM CATAVENTO, NEM SEQUER INFLUENCIÁVEL. TALVEZ ESTIVESSE ERRADA, E COMO OLHO A VIDA DE FRENTE, AVANÇO, ASSUMO O ERRO SEM A SOMBRA DO FRACASSO...NÃO ERA ASSIM, E MAIS NADA. MAS PODE ACONTECER A HISTÓRIA DOUTRA MANEIRA...OLHEI DE ÂNGULO DIFERENTE UMA MESMA REALIDADE E DESCOBRI QUE, DESTA FORMA, ESTÁ MAIS PRÓXIMA DA VERDADE...EM ANEXO UM BEIJO!
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Distribuído por Moranguinho Pereira (hi5)
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AS ENSINANÇAS DA DÚVIDA
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Tive um chão (mas já faz tempo)

todo feito de certezas

tão duras como lajedos.
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Agora (o tempo é que fez)

tenho um caminho de barro

umedecido de dúvidas.
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Mas nele (devagar vou)

me cresce funda a certeza

de que vale a pena o amor
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THIAGO DE MELLO