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terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Alfredo Barroso - O BRAVO SOLDADO CHVEIK



* Alfredo Barroso

 «O BRAVO SOLDADO CHVEIK», UM CRETINO GENIAL, EVOCADO PELO ALFREDO BARROSO EM TEMPOS QUE JÁ LÁ VÃO...

Foi em Janeiro de 1972 que li pela primeira vez «O bravo soldado Chveik», a obra-prima do escritor checo Jaroslav Hasek (1883-1923). Devorei-a em três dias, quando já só me faltavam três meses para começar a cumprir o serviço militar obrigatório. É fácil de imaginar o efeito que tão perniciosa leitura produziu no meu bestunto. Apresentei-me em Mafra, no quartel dentro do convento, tentando arvorar «uma expressão tão estúpida como a do arquiduque Carlos, herdeiro do trono austríaco». Mas, ao contrário do bravo soldado Chveik, não logrei iludir ninguém. Duramente treinado para defender a pátria e o império, fui rapidamente promovido a oficial miliciano, ao cabo de seis meses. E só a revolução do 25 de Abril, que ocorreu precisamente dois anos depois de eu ter entrado em Mafra, me impediu de conhecer a África, tal como o bravo soldado Chveik desejaria ter conhecido a Rússia durante a Grande Guerra: arriscando a pele, mas de borla.

Não admira que Josef Chveik, o genial personagem criado em 1911 por Jaroslav Hasek, seja considerado uma espécie de herói nacional checo. Rechonchudo e de baixa estatura, o rosto é rubicundo e afável, o sorriso é bem-aventurado e honesto, o olhar é fervoroso e ardente, tão radiante como o de uma criança. O aprumo francamente militar, a imbecilidade aparente e a ingenuidade desarmante aliam-se a um zelo inexcedível e a uma verborreia inesgotável. O valente soldado Chveik é uma autêntica picareta falante que exaspera os seus superiores até à exaustão e assim vai demolindo, pouco a pouco, o edifício da autoridade e da burocracia, com um optimismo irresistível e hilariante. 

«Este tipo é um cretino?» - pergunta, às tantas, um coronel ao sargento-ajudante. «Às Vossas ordens, meu coronel, sou um cretino!» - responde o bravo soldado Chveik, antecipando-se ao sargento-ajudante com uma inefável candura. Mas um cretino genial, que sai ileso de todas as catástrofes - tanto as que ele provoca como as que lhe caem em cima - e assim consegue sobreviver à Grande Guerra e à derrocada do Império Austro-Húngaro. Jaroslav Hasek exprime, através de Chveik, o carácter do povo checo e o seu impressionante poder de desagregação. Quem leu as suas aventuras e conhece os checos diz que foi assim que eles deram cabo dos austríacos: «com a força da tenacidade, gota a gota, até ao esgotamento final», transformando a águia imperial num galináceo.  
     
Nada resiste ao humor e ao sarcasmo de Jaroslav Hasek: nem os militares; nem o clero; nem os políticos, sejam eles conformistas ou revolucionários; nem as monarquias; nem as repúblicas; nem os impérios. Fundou o «Partido do Progresso Moderado Dentro dos Limites da Lei», mas foi peremptório: «É totalmente falso que eu tenha sido preso duas vezes. A verdade é que fui preso três vezes!». Quando colaborou na Rússia com os bolcheviques, sobrepôs sempre a ironia à militância e ao discurso oficial da Revolução. Era anarquista e boémio. Não espanta que tenha morrido na mais absoluta miséria.

(Publicado no «Diário de Notícias» em 17 de Novembro de 2006)

segunda-feira, 25 de julho de 2016

O Bom Soldado Švejk





CRÍTICA

Político até dizer chega


***“Tu és tão parvo como Švejk” quase soa a elogio: o anti-herói criado por Jaroslav Hašek para ridicularizar a máquina do poder é brilhante a desmontar o absurdo da guerra. E finalmente conhece a justa edição em português.

Diz-se “xeveique”. A nota é do tradutor. É a pronúncia correcta de um nome que designa uma personalidade insólita, subversiva, com longa carreira na literatura, viral e contagiosa - até fora das letras. Diz-se “xeveique”, mas escreve-se Švejk e nasceu para ser dado em fascículos no ano de 1923, o mesmo em que o seu criador, Jaroslav Hašek, morreria vítima de uma paragem cardíaca sem tempo de pôr um ponto final naquela que seria uma das obras mais hilariantes e nostálgicas, subversivas e pacifistas que a literatura foi capaz de conceber.
O Bom Soldado Švejk, de Jaroslav Hašek, conhece por fim a justa edição em português, tão completa quanto possível, dado tratar-se de uma obra inacabada. A versão anterior, publicada pela Europa-América, não ia além da primeira parte, pouco mais de 200 páginas de um volume que agora ultrapassa as 800 e foi traduzido do checo por Lumir Nahodil para a colecção de humor da Tinta-da-China, dirigida por Ricardo Araújo Pereira. Mesmo a tempo de entrar para a lista dos acontecimentos literários de 2012.
Contemporâneo de Franz Kafka (o autor de O Castelo e de A Metamorfose morreu em 1924), Hašek desmonta de forma tão ou mais corrosiva a máquina do poder e a sua mesquinhez, só que pelo lado do riso, expondo-a a um ridículo desarmante e criando para o efeito a figura de um soldado, Švejk, “que tendo há anos abandonado o serviço militar, depois de definitivamente ser declarado idiota pela junta médica militar, ganhava o seu sustento com a venda de cães, feios monstros de sangue impuro, aos quais ele falsificava as árvores genealógicas”. Vamos encontrar Švejk em Praga, no momento em que é informado pela sua mulher-a-dias da morte do arquiduque Francisco Fernando, em Sarajevo - uma e outra cidade faziam então parte do imenso império austro-húngaro. Perante o facto, e depois do inevitável espanto, Švejk atreve-se a avançar com a hipótese de uma guerra. “A guerra é inevitável”, dirá depois de um “trago de dimensões épicas” numa cervejaria, em converseta com o cervejeiro Palivec e o polícia Bretschneider, protótipo do bufo ao serviço de uma bandeira e de um hino que Švejk, mais uma vez, admite recriar ofensivamente à força do álcool. Perante os factos, o polícia prende Švejk e Palivec, este por ter retirado da parede a imagem do Imperador. A justificação - “cagavam nele as moscas” - não só não convenceu Bretschneider como o provocou.
O que se segue é um festival em que o pícaro e o absurdo andam a par da crítica mais feroz à guerra e às artimanhas do poder. Hašek, anarquista, filho de um matemático que nunca se deu bem na vida e o deixou órfão aos 13 anos, fez da sua curta existência uma luta contra as instituições, sobretudo as que representavam o império austro-húngaro, colocando-se do lado dos defensores da independência checa. Meio vagabundo, foi jornalista e escritor que apostou numa obra única - apesar das centenas de pequenas obras -, pensada para ser publicada em seis volumes. Morreu aos 40 anos, fisicamente debilitado, incapaz ele próprio de escrever e ditando as últimas páginas deste O Bom Soldado Švejk, que não seriam as que ele imaginou como derradeiras.
Escrito sempre num tom jocoso, com a linguagem tratada sem os pudores associados à literatura de então - “gente que se incomoda com uma expressão forte é gente covarde, visto que a vida real surpreende”, escreverá no posfácio à primeira parte -, o livro assenta na suposta idiotice de Švejk, homem que se confessa “político até dizer chega”, numa estupidez que nunca se sabe se é inata ou um finíssimo artifício de inteligência do soldado que decide ir servir na Primeira Guerra Mundial de cadeira de rodas, devido ao reumatismo de que supostamente sofre. É homem que começa qualquer dialogo com a autoridade com a expressão “declaro obedientemente”, e que se sente agradecido por passar pelo um manicómio onde há liberdade para se ser tudo o que se quer. Essa passagem é uma das mais delirantes deste livro, traduzido a partir da 12.ª edição (no original, dois volumes de 480 páginas cada), editada em 1946. Um ano depois de o nazismo abandonar o território checo, antes da ocupação comunista.
O problema de falar ou de escrever sobre Švejk é que há a tentação de citar cada frase, de contar cada uma das histórias e aventuras que saem da boca do soldado de forma desenfreada - como se também a tagarelice fosse contágio -, numa tentativa, sempre defraudada, de revelar a perícia com que Hašek dominava a língua e os dialectos daquele imenso império onde imperava o alemão. Uma dor de cabeça para o tradutor, que assume aqui que construiu um léxico próprio para poder passar todas essas nuances.
Domínio exímio é também o da arte do humor. No caso, no que o humor tem de mais colado à alma. A gargalhada sai com a inquietude de quem, ao rir, percebe que ela é forma de reagir e de suportar a guerra e uma autoridade que não pode ser contestada. Nada então como banalizá-la, desmontando-a e às suas tragédias. Eis a humanidade e o seu grande absurdo. E quem melhor para denunciar do que um idiota, um anti-herói que inspirou por exemplo Joseph Heller a escrever outro clássico da guerra, já na década de 40: Catch 22.
Hašek conseguiu mais do que aquilo a que se propôs. Não apenas que a palavra “Švejk” se tornasse “um novo insulto na florida grinalda dos impropérios” e com isso enriquecesse a língua checa, mas que o insulto “Tu és tão parvo como o Švejk” soe a algo próximo do elogio.
https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/politico-ate-dizer-chega-1658116