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domingo, 28 de junho de 2026

(30) - Don Lorenzo Milan - "Carta aos Juízes" (Lettera ai giudici)

* Google Gemini

 Este mural em Orgosolo (visível na imagem image_ec8a08.jpg) traz de volta a famosa citação de Don Lorenzo Milani retirada da sua "Carta aos Juízes" de 1965. Curiosamente, esta é a mesma passagem que transcrevemos anteriormente, mas desta vez pintada num formato puramente textual e abstrato.

O que está escrito?

O texto foi pintado em letras maiúsculas pretas e rústicas, ocupando grande parte de um painel branco:

"Se voi avete il diritto di dividere il mondo in italiani e stranieri, allora io reclamo il direito di dividere il mondo in disperati e oppressi da un lato, privilegiati e oppressori dall'altro. Gli uni sono la mia patria, gli altri i miei stranieri. (DON MILANI)"

Tradução:

"Se vós tendes o direito de dividir o mundo em italianos e estrangeiros, então eu reclamo o direito de dividir o mundo em desesperados e oprimidos de um lado, privilegiados e opressores do outro. Os primeiros são a minha pátria, os outros os meus estrangeiros. (DON MILANI)"

(Nota: O pintor cometeu um pequeno erro ortográfico de grafia na palavra "direito", escrevendo-a em português/espanhol com "g" em vez do italiano "diritto", além de trocar a palavra original "diseredati" por "disperati", o que é muito comum em reproduções populares de cariz oral ou de memória).

O que representa este mural?

Esta obra representa o antifascismo, o internacionalismo e a primazia da justiça social sobre as fronteiras geográficas ou o nacionalismo estatal.

1. Elementos Visuais e Simbologia

  • Estilo Gráfico Abstrato: Ao contrário de outros murais figurativos de Orgosolo que mostram pastores ou cenas históricas, este foca-se na força crua da palavra escrita. O texto assenta sobre manchas de cores primárias vivas — vermelho, amarelo e azul — dispostas de forma fluida no fundo. Estas formas orgânicas e dinâmicas servem para dar destaque e urgência à leitura da mensagem.

  • A Sombra Projetada: A própria arquitetura do edifício cria uma sombra triangular cortante sobre a pintura, conferindo ao mural uma forte integração com a envolvência urbana da vila.

2. O Significado Político e Humanitário

Ao estampar esta frase de Don Milani no centro da Sardenha, os muralistas recusam a lógica de exclusão baseada na terra de nascimento. A obra afirma que a verdadeira divisão da humanidade não se faz por passaportes ou bandeiras (italianos vs. estrangeiros), mas sim por uma linha de classe e de justiça: os que sofrem (os oprimidos) contra os que abusam do poder (os opressores).

Para a comunidade de Orgosolo, historicamente marginalizada pelo Estado centralizado, esta frase serve como um lema de solidariedade universal com todos os povos que sofrem pressões semelhantes em qualquer canto do planeta.

VER   (28) - Don Lorenzo Milan - "Carta aos Juízes" (Lettera ai giudici)

terça-feira, 16 de junho de 2026

(28) - Don Lorenzo Milan - "Carta aos Juízes" (Lettera ai giudici)

 


2026 06 16 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - luta de classes e Don Lorenzo Milani

Este mural em Orgosolo foca-se numa profunda reflexão social, ética e humanitária, recorrendo a uma das citações mais célebres da história do ativismo e da pedagogia social italiana.

O que está escrito?

O texto está escrito em italiano com letras maiúsculas pretas e desalinhadas sobre um fundo branco rodeado por formas abstratas coloridas (amarelo, vermelho e azul). A inscrição diz o seguinte:

"Se voi avete il diritto di dividere il mondo in italiani e stranieri, allora io reclamo il diritto di dividere il mondo in disperati e oppressi da un lato, privilegiati e oppressori dall'altro. Gli uni sono la mia patria, gli altri i miei stranieri (DON MILANI)"

Tradução:

"Se vós tendes o direito de dividir o mundo em italianos e estrangeiros, então eu reclamo o direito de dividir o mundo em desesperados e oprimidos de um lado, privilegiados e opressores do outro. Os primeiros são a minha pátria, os outros os meus estrangeiros (DOM MILANI)."

O excerto pintado no mural faz parte da célebre "Carta aos Juízes" (Lettera ai giudici), escrita por Don Lorenzo Milani a 18 de outubro de 1965.

Dom Milani escreveu este texto como memória de defesa para o tribunal de Roma, uma vez que se encontrava gravemente doente com cancro e não podia deslocar-se pessoalmente ao seu julgamento. Ele tinha sido processado por "instigação à delinquência" após ter defendido publicamente o direito à objeção de consciência dos jovens que recusavam o serviço militar obrigatório.

Abaixo encontra-se a transcrição integral do parágrafo exato de onde o excerto foi retirado, tanto no original em italiano como traduzido para português:

Texto Original (Em Italiano)

"Non posso dire ai miei giovani che l'unico modo d'amare la legge sia d'obbedirla. Posso solo dir loro che essi dovranno tenere in tale onore le leggi degli uomini da osservarle quando sono giuste (cioè quando sono la forza del debole). Quando invece vedranno che non sono giuste (cioè quando sanzionano il sopruso del forte) essi dovranno battersi perché siano cambiate.

Ma l'obbedienza civile a una legge ingiusta, cioè alla legge che non sia ancora riusciti a cambiare, non è che una forma di pigrizia e di viltà. Bisogna che la cambino accettando la pena che la stessa legge prevede per chi la viola (questa è obbedienza alla legge, ma disobbedienza alla forza).

È questo il profondo significato della nonviolenza dei grandi santi e dei grandi laici della nostra epoca.

Se voi avete il diritto di dividere il mondo in italiani e stranieri allora vi dirò che, nel vostro senso, io non ho patria e reclamo il diritto di dividere il mondo in diseredati e oppressi da un lato, privilegiati e oppressori dall'altro. Gli uni son la mia patria, gli altri i miei stranieri. E se voi avete il diritto di insegnare che gli italiani e i loro alleati compiono sempre atti giusti e che gli altri sono sempre nel torto, allora io reclamo il diritto di dire che anche gli italiani hanno compiuto atti ingiusti e che anche gli altri hanno compiuto atti giusti."

Tradução em Português

"Não posso dizer aos meus jovens que a única maneira de amar a lei seja obedecer-lhe. Só lhes posso dizer que eles deverão ter em tal honra las leis dos homens que as devem observar quando são justas (isto é, quando são a força do fraco). Quando, pelo contrário, virem que não são justas (isto é, quando sancionam o abuso do forte), eles deverão lutar para que sejam mudadas.

Mas a obediência civil a uma lei injusta, isto é, a uma lei que ainda não se conseguiu mudar, não passa de uma forma de preguiça e de cobardia. É preciso que a mudem aceitando a pena que a própria lei prevê para quem a viola (isto é obediência à lei, mas desobediência à força).

Este é o significado profundo da não-violência dos grandes santos e dos grandes laicos da nossa época.

Se vós tendes o direito de dividir o mundo em italianos e estrangeiros, então dir-vos-ei que, no vosso sentido, eu não tenho pátria e reclamo o direito de dividir o mundo em deserdados e oprimidos de um lado, privilegiados e opressores do outro. Os primeiros são a minha pátria, os outros os meus estrangeiros. E se vós tendes o direito de ensinar que os italianos e os seus aliados praticam sempre atos justos e que os outros estão sempre errados, então eu reclamo o direito de dizer que também os italianos praticaram atos injustos e que também os outros praticaram atos justos." (Google Gemini)

domingo, 7 de junho de 2026

Jorge Wemans - As “coisas novas” da primeira encíclica de Leão XIV


O Papa Leão XIV assina a a sua primeira encíclica, a Magnifica Humanitas, a 15 de Maio, numa fotografia divulgada pelos serviços de comunicação do Vaticano VATICAN MEDIA - VIA REUTERS

As “coisas novas” da primeira encíclica de Leão XIV


Este Papa não esperou que amadurecesse o debate sobre o impacte da IA. Leão XIV arrisca a sua palavra quando muitos outros responsáveis ainda nada disseram sobre as “coisas novas” do nosso tempo.

Jorge Wemans

7 de Junho de 2026


É sobre “a sede de inovações que se apoderou das sociedades” esta encíclica. A frase escreveu-a Leão XIII em 1895 a abrir a encíclica Rerum Novarum, mas aplica-se por inteiro à Magnifica Humanitas de Leão XIV. Há 150 anos a Revolução Industrial, hoje a Inteligência Artificial (IA). Tempos e questões diferentes, uma mesma preocupação: que “temíveis conflitos” são criados e alimentados por estas inovações, que humanidade edificam? O olhar do actual Papa sobre os desafios do mundo de hoje leva-o a inovar em múltiplos aspectos, de tal forma que esta sua encíclica difere de todas as anteriores dedicadas à “questão social”.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Che Guevara - Carta aos filhos

 

«Este mural em Orgosolo destaca-se pelo seu caráter internacionalista, ligando uma das figuras mais icónicas das revoluções do século XX a um protesto pacifista contemporâneo contra a guerra.

O mural contém duas mensagens principais em italiano, além de pequenos slogans políticos:

1. A Citação de Che Guevara (Ao Centro)

O texto em letra cursiva preta que contorna a figura principal reproduz um dos pensamentos mais célebres do revolucionário:

"Soprattutto siate capaci di sentire nel più profondo del cuore qualunque ingiustizia commessa contro chiunque in qualunque parte del mondo. È la qualità più bella di un rivoluzionario."A célebre carta de despedida de Ernesto Che Guevara aos seus cinco filhos (Hildita, Aleidita, Camilo, Celia e Ernesto) foi escrita em 1965, quando ele deixou Cuba para seguir para novas frentes revolucionárias. É uma carta curta, íntima e carregada de conselhos éticos.

Aqui está a transcrição integral da carta traduzida para o português:

Aos meus filhos

Queridos Hildita, Aleidita, Camilo, Celia e Ernesto:

Se algum dia tiverem de ler esta carta, será porque já não estou entre vós.

Quase não se lembrarão de mim, e os mais pequenos não se lembrarão de nada.

O vosso pai tem sido um homem que age como pensa e, com certeza, tem sido fiel às suas convicções.

Cresçam como bons revolucionários. Estudem muito para poderem dominar a técnica, que permite dominar a natureza. Lembrem-se de que a revolução é o que é importante e que cada um de nós, sozinho, não vale nada.

Sobretudo, sejam sempre capazes de sentir, no mais profundo de vós, qualquer injustiça cometida contra quem quer que seja, em qualquer parte do mundo. É a qualidade mais bela de um revolucionário.

Adeus, meus filhos, ainda espero ver-vos. Um grande beijo e um grande abraço do vosso

Papa

O detalhe no mural

O trecho que destaquei em negrito é exatamente a secção que os artistas de Orgosolo escolheram para eternizar na parede de pedra, adaptando a mensagem paternal de Che a um apelo universal de empatia para quem visita a vila.» (Google Gemini)

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

Cartas de prisioneiros portugueses na I Grande Guerra

 

* Miguel Castelo Branco

2024 02 02
  
Entre Maio e Novembro de 1918, as cartas sucederam-se suplicantes, magoadas, desesperançadas. Pediam livros, mas também tabaco, marmelada, biscoitos e conservas que por cá já não havia. Eram aos milhares na longínqua Alemanha contra a qual havíamos sido empurrados para uma guerra que não era nossa e que dizimou a flor da juventude europeia, desfigurou centenas de milhares e deixou psicologicamente estropiados milhões. Encontro um basto dossier do Comité de Socorros aos prisioneiros de guerra portugueses e pressinto que a engrenagem da história, com o seu cortejo de desgraças, nos pode de novo atirar para um conflito que trará sofrimento, fome, doença e morte, como aconteceu entre 1916 e 1918. Há quem por ela anseie, se bem que não saiba que aquela não trouxe apenas a desgraça aos quase dez mil que tombaram na Flandres, em Angola e Moçambique, mas logo tocou a todos pela Carpa da Gripe Espanhola e pela miséria que se abateu sobre este povo. Há pedidos desesperados de famílias «sem pão e sem leite», sem roupas e sapatos, a correspondência vem invariavelmente debruada a negro e os atestados médicos confirmam que nesta casa chegou a haver 50% de baixas entre o corpo de funcionários.

https://www.facebook.com/photo/?fbid=10164107499101679&set=a.10152141975606679

terça-feira, 7 de novembro de 2023

Carta de demissão de Craig Mokhiber, Alto Comissariado dos Direitos Humanos da ONU

 

Craig Mokhiber      

Esta carte de demissão é provavelmente um dos mais significativos documentos recentes sobre a situação do povo palestiniano. Exprime com grande clareza os antecedentes que conduziram à trágica situação actual. Denuncia a longa cumplicidade das principais potências ocidentais (com os EUA e a Grã-Bretanha em maior destaque) com décadas de crimes do ocupante sionista. Denuncia a completa – e deliberada - impotência da ONU em agir de acordo com os princípios definidos na sua Carta fundadora, impotência que o genocídio em curso torna ainda mais dramática. Aponta dez pontos essenciais para que este massacre possa ser detido, para a necessária condenação dos crimes do sionismo, para uma solução política de futuro. Dificilmente se poderia admitir que a actual ONU está em condições de dirigir a sua concretização.

Senhor Alto Comissário,

Esta será a minha última comunicação oficial como Director do Escritório de Nova Iorque do Alto Comissariado para os Direitos Humanos (ACNUDH).

Escrevo-lhe num momento de grande angústia para o mundo, incluindo muitos dos nossos colegas. Mais uma vez, estamos a testemunhar o genocídio que se desenrola diante dos nossos olhos e a Organização que servimos parece impotente para o impedir. Como alguém que investigou os direitos humanos na Palestina desde a década de 1980, viveu em Gaza como conselheiro de direitos humanos da ONU na década de 1990, e realizou várias missões de direitos humanos no país antes e depois destes períodos, esta situação afecta-me pessoalmente.

Foi novamente nestas instalações da ONU que trabalhei durante os genocídios contra os tutsis, os muçulmanos bósnios, os yazidis e os rohingyas. Em cada caso, à medida que a poeira assentava sobre os horrores perpetrados contra populações civis indefesas, tornou-se dolorosamente óbvio que havíamos falhado no nosso dever de cumprir os imperativos de prevenir atrocidades em massa, proteger os vulneráveis e proteger os vulneráveis. O mesmo aconteceu com sucessivas ondas de assassinatos e perseguições contra os palestinos ao longo da existência das Nações Unidas.

Senhor Alto Comissário, estamos novamente a falhar.

Como advogado especializado em direitos humanos, com mais de trinta anos de experiência nesta área, sei bem que o conceito de genocídio tem sido frequentemente objecto de exploração política abusiva. Mas o actual massacre do povo palestiniano, ancorado numa ideologia colonial etno-nacionalista, uma continuação de décadas de perseguição e purificação sistemáticas, baseadas inteiramente no seu estatuto de árabes, e associado a declarações explícitas de intenções por parte dos líderes do governo israelita e exército, não deixa espaço para dúvidas ou debate. Em Gaza, casas, escolas, igrejas, mesquitas e instalações médicas estão a ser atacadas sem razão e milhares de civis estão a ser massacrados. Na Cisjordânia, incluindo Jerusalém ocupada, as casas são confiscadas e realocadas com base unicamente na raça. Além disso, os pogroms violentos perpetrados pelos colonos são acompanhados por unidades militares israelitas. O apartheid reina em todo o país.

Este é um caso clássico de genocídio. O projecto colonial europeu etno-nacionalista de colonização na Palestina entrou na sua fase final, rumo à destruição acelerada dos últimos vestígios da vida indígena palestina na Palestina. Além do mais, os governos dos Estados Unidos, do Reino Unido e de grande parte da Europa são completamente cúmplices deste ataque horrível. Estes governos não só se recusam a cumprir as suas obrigações decorrentes do tratado de “garantir o cumprimento” das Convenções de Genebra, como também estão activamente a armar a ofensiva, a fornecer apoio económico, informações e a encobrir política e diplomaticamente as atrocidades cometidas por Israel.

Em conjunto com tudo isto, os meios de comunicação social ocidentais, cada vez mais a mando dos governos, estão a romper completamente com o Artigo 20 do PIDCP, desumanizando constantemente os palestinianos para justificar o genocídio, e divulgando propaganda de guerra e apelos ao ódio nacional, racial ou religioso que constituem incitamento à discriminação, à hostilidade e à violência. As empresas de redes sociais sediadas nos EUA estão a suprimir as vozes dos defensores dos direitos humanos, ao mesmo tempo que amplificam a propaganda pró-Israel. A polícia do lobby online israelita e os GONGOS (NDT, organizações não governamentais apoiadas pelos governos) perseguem e difamam os defensores dos direitos humanos, as universidades ocidentais e os empregadores colaboram com eles para punir aqueles que ousam falar contra as atrocidades. Na sequência deste genocídio, estes intervenientes também terão de ser responsabilizados, como foi o caso da rádio des Milles Collines no Ruanda.

Em tais circunstâncias, a nossa organização é mais do que nunca chamada a agir de forma eficaz e baseada em princípios. Mas não enfrentamos esse desafio. O poder protector do Conselho de Segurança foi mais uma vez bloqueado pela intransigência dos EUA, o Secretário-Geral está sob ataque pelos seus débeis protestos e os nossos mecanismos de direitos humanos estão sob ataque calunioso, apoiados por uma rede online organizada que defende a impunidade.

Décadas de distração provocadas pelas promessas ilusórias e em grande parte decepcionantes de Oslo distraíram a Organização do seu dever essencial de proteger o direito internacional, os direitos humanos e a própria Carta. O mantra da “solução de dois Estados” tornou-se uma piada aberta nos corredores da ONU, tanto pela sua total impossibilidade de facto como pelo seu completo fracasso em ter em conta os direitos humanos inalienáveis do povo palestiniano. O chamado “Quarteto” nada mais é do que uma folha de parreira para a inação e submissão a um status quo brutal . A referência (escrita pelos Estados Unidos) a “acordos entre as próprias partes” (em vez do direito internacional) sempre foi um óbvio truque de prestidigitação, destinado a fortalecer o poder de Israel contra os direitos dos palestinianos ocupados e desapropriados das suas propriedades.

Senhor Alto Comissário, juntei-me a esta Organização na década de 1980 porque encontrei uma instituição baseada em princípios e normas que estavam decididamente do lado dos direitos humanos, inclusive nos casos em que os poderosos EUA, Reino Unido e Europa não estavam do nosso lado. Embora o meu próprio governo, as suas instituições subsidiárias e grande parte da comunicação social norte-americana ainda apoiassem ou justificassem o apartheid sul-africano, a opressão israelita e os esquadrões da morte centro-americanos, as Nações Unidas defenderam os povos oprimidos destes países. Tínhamos o direito internacional do nosso lado. Tínhamos os direitos humanos do nosso lado. Tínhamos os princípios do nosso lado. A nossa autoridade estava enraizada na nossa integridade. Mas esse não é mais o caso.

Nas últimas décadas, membros importantes das Nações Unidas cederam ao poder dos EUA e ao medo do lobby israelita, abandonando estes princípios e renunciando ao próprio direito internacional. Perdemos muito neste abandono, incluindo a nossa própria credibilidade global. Mas foi o povo palestiniano quem sofreu as maiores perdas devido aos nossos fracassos. Ironicamente, a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) foi adoptada no mesmo ano em que a Nakba foi perpetrada contra o povo palestiniano.

Ao comemorarmos o 75º aniversário da DUDH, faríamos bem em abandonar o mito banal de que a DUDH surgiu das atrocidades que a precederam e admitir que surgiu ao mesmo tempo que um dos genocídios mais atrozes do século XX, o da destruição da Palestina. Num certo sentido, os autores da Declaração prometeram direitos humanos a todos, excepto ao povo palestiniano. Não esqueçamos também que as Nações Unidas cometeram o pecado original de facilitar a expropriação do povo palestiniano ao ratificar o projecto colonial europeu que se apoderou da terra palestiniana e a entregou aos colonos. Temos muito o que compensar.

Mas o caminho da expiação é claro. Temos muito a aprender com a posição de princípio tomada nos últimos dias em cidades de todo o mundo, onde milhões de pessoas se manifestam contra o genocídio, mesmo correndo o risco de serem espancadas e presas. Os palestinianos e os seus aliados, os defensores dos direitos humanos de todos os matizes, as organizações cristãs e muçulmanas e as vozes judaicas progressistas que dizem “não em nosso nome”, estão todos a liderar o caminho. Tudo o que temos que fazer é segui-los.

Ontem, a poucos quarteirões daqui, a Estação Grand Central de Nova Iorque foi completamente invadida por milhares de defensores dos direitos humanos judeus, solidários com o povo palestiniano e exigindo o fim da tirania israelita (muitos deles arriscando ser presos). Ao fazê-lo, eliminaram num instante o argumento da propaganda hasbara israelita (e o velho cliché do anti-semitismo) de que Israel representa de alguma forma o povo judeu. Este não é o caso. E, como tal, Israel é o único responsável pelos seus crimes. Neste ponto, vale a pena repetir, apesar da calúnia do lobby israelita, que as críticas às violações dos direitos humanos cometidas por Israel não são anti-semitas, tal como as críticas às violações sauditas não são islamofóbicas, e as críticas às violações de Mianmar são anti-budistas, ou crítica às violações indianas é anti-hinduísta. Quando procuram silenciar-nos caluniando-nos, em vez de silenciar devemos levantar a voz. Espero que concorde, Senhor Alto Comissário, que esta é a própria essência de falar a verdade aos poderosos.

Mas também encontro esperança em todos os membros das Nações Unidas que, apesar da enorme pressão, se recusaram a comprometer os princípios da Organização em matéria de direitos humanos. Os nossos relatores especiais independentes, as comissões de inquérito e os peritos dos órgãos de tratados, bem como a maioria do nosso pessoal, continuaram a defender os direitos humanos do povo palestiniano, mesmo quando outros membros das Nações Unidas (mesmo ao mais alto nível) vergonhosamente inclinaram a cabeça diante dos poderosos. Como guardião das normas e padrões de direitos humanos, o ACNUDH tem o dever especial de defender esses padrões. A nossa tarefa, creio eu, é fazer ouvir a nossa voz, desde o Secretário-Geral até ao mais recente recruta da ONU e, horizontalmente, em todo o sistema da ONU, insistindo que os direitos humanos do povo palestiniano não são objecto de debate, nenhuma negociação, nem qualquer compromisso, em qualquer lugar sob a bandeira azul.

Então, como seria uma posição baseada nos padrões da ONU? Em que direção estaríamos trabalhando se fôssemos fiéis às nossas exortações retóricas sobre os direitos humanos e a igualdade para todos, a responsabilização dos criminosos, a reparação das vítimas, a proteção dos vulneráveis e o empoderamento dos titulares de direitos, tudo no âmbito do Estado de direito? A resposta, creio eu, é simples – se tivermos a clareza para ver para além das cortinas de fumo da propaganda que distorcem a visão de justiça que jurámos, se tivermos a coragem de abandonar o medo e a deferência pelos Estados poderosos, se nos movermos pelo desejo de elevar o padrão dos direitos humanos e da paz. É verdade que este é um projecto de longo prazo e um caminho íngreme. Mas temos de começar agora, a menos que nos rendamos a um horror indescritível. Vejo dez pontos essenciais:

1- Acção legítima: em primeiro lugar, devemos, no seio das Nações Unidas, abandonar o paradigma falhado (e em grande parte falacioso) de Oslo, a sua solução ilusória de dois Estados, o seu Quarteto impotente e cúmplice, e o desvio do direito internacional para os ditames dos seus supostos méritos políticos. As nossas posições devem basear-se inequivocamente nos direitos humanos e no direito internacional.

2- Uma visão clara: devemos parar de fingir que se trata simplesmente de um conflito territorial ou religioso entre duas partes em conflito e admitir a realidade da situação, nomeadamente que um Estado com um poder desproporcional coloniza, persegue e desapropria uma população indígena com base na sua etnia.

3- Um Estado único baseado nos direitos humanos: devemos apoiar o estabelecimento de um Estado único, democrático e secular em toda a Palestina histórica, com direitos iguais para cristãos, muçulmanos e judeus, e, portanto, o desmantelamento do projecto colonialista profundamente racista e o fim do apartheid em todo o território.

4- Luta contra o apartheid: devemos redireccionar todos os esforços e recursos das Nações Unidas para a luta contra o apartheid, como fizemos para a África do Sul nas décadas de 1970, 1980 e no início da década de 1990.

5- Regresso e compensação: devemos reafirmar e insistir no direito ao retorno e à compensação total de todos os palestinianos e das suas famílias que vivem actualmente nos territórios ocupados, no Líbano, na Jordânia, na Síria e na diáspora em todo o mundo.

6- Verdade e justiça: devemos apelar a um processo de justiça transicional, aproveitando ao máximo as décadas de investigações, pesquisas e relatórios acumulados pela ONU, a fim de documentar a verdade e garantir a responsabilização de todos os criminosos, a compensação para todas as vítimas e reparação de injustiças documentadas.

7- Protecção: Devemos insistir no envio de uma força de protecção da ONU com recursos suficientes e um mandato forte para proteger os civis do rio ao mar.

8- Desarmamento: devemos defender a remoção e destruição dos enormes arsenais de armas nucleares, químicas e biológicas de Israel, evitando assim que o conflito conduza à destruição total da região e, quem sabe, mais além.

9- Mediação: Devemos reconhecer que os Estados Unidos e outras potências ocidentais não são mediadores credíveis, mas sim partes no conflito, que são cúmplices de Israel na violação dos direitos palestinianos, e devemos confrontá-los como tal.

10- Solidariedade: devemos abrir amplamente as nossas portas (e as do Secretariado-Geral) às legiões de defensores dos direitos humanos palestinianos, israelitas, judeus, muçulmanos e cristãos que se solidarizam com o povo da Palestina e os seus direitos, e colocar um fim ao fluxo descontrolado de lobistas israelitas para os gabinetes dos líderes da ONU, onde defendem a continuação da guerra, da perseguição, do apartheid e da impunidade, ao mesmo tempo que denigrem os nossos defensores dos direitos humanos devido à sua posição de princípio em relação aos direitos palestinianos.

Levaremos anos para conseguir isso, e as potências ocidentais lutarão contra nós a cada passo do caminho, por isso devemos ser duros. Já temos de trabalhar por um cessar-fogo imediato e pelo fim do cerco a Gaza, opor-nos à limpeza étnica de Gaza, de Jerusalém, da Cisjordânia (e de outros lugares), documentar o ataque genocida em Gaza, contribuir para fornecer aos palestinianos apoio humanitário massivo ajuda e os meios para a reconstrução, cuidar dos nossos colegas traumatizados e das suas famílias e lutar arduamente para garantir que a abordagem dos gabinetes políticos da ONU se baseia em princípios.

O fracasso das Nações Unidas na Palestina até agora não é motivo para desistirmos. Pelo contrário, deveria encorajar-nos a abandonar o paradigma falhado do passado e a abraçar plenamente um curso de acção mais baseado em princípios.

Como ACDH, juntemo-nos com ousadia e orgulho ao crescente movimento anti-apartheid em todo o mundo, acrescentando o nosso logótipo à bandeira da igualdade e dos direitos humanos para o povo palestiniano. O mundo está nos observando. Todos teremos de prestar contas da nossa posição neste momento crucial da história. Fiquemos do lado da justiça.

Obrigado, Alto Comissário Volker, por ouvir este último apelo do meu gabinete. Dentro de alguns dias deixarei o Escritório pela última vez, depois de mais de três décadas de serviço. Mas sinta-se à vontade para entrar em contato comigo se eu puder ajudar no futuro.

Por favor, aceite, Senhor Presidente, a expressão das minhas saudações,

Craig Gerard Mokhiber

31 de outubro de 2023

https://www.odiario.info/carta-de-demissao-do-alto-comissariado/

quarta-feira, 25 de outubro de 2023

Rachel Corrie

24.10.23 | Manuel

Discurso escrito pela família de Rachel Corrie e lido no dia 12 de Abril, 2003, em numerosas realizações levadas a cabo em todo o mundo, em memória desta lutadora da paz.

Em 16 de Março, a nossa filha e irmã Rachel Corrie foi morta por um bulldozer militar israelita, quando tentava impedir a demolição de uma casa palestiniana na Faixa de Gaza. Rachel escolheu ir para Rafah, uma cidade a sul da Faixa de Gaza, porque acreditava que o mundo tinha abandonado este lugar. Durante a sua permanência, Rachel tornou-se nos nossos olhos e ouvidos, como nos disse sobre os tanques e bulldozers que passavam, sobre as casas com os seus buracos nas paredes, e da sua multiplicação rápida, sobre as torres do exército israelita com atiradores perscrutando ao longo do horizonte, sobre os helicópteros, e os seus zumbidos invisíveis sobrevoando a cidade durante horas e horas, sobre os poços, as estufas e os olivais destruídos, sobre o muro gigantesco de metal, em construção em torno de Gaza.

Ela disse-nos da ajuda que recebeu de um soldado israelita, que lhe enviou por e-mail frases em hebreu, para usar quando confrontada com soldados israelitas dos tanques e dos bulldozers. Ela falou-nos também de Ali, o rapaz palestiniano de dezoito anos, abatido dois dias antes da sua chegada, dos grandes grupos de homens palestinianos capturados e retidos durante todo o tempo, dos estudantes palestinianos e trabalhadores que não podem ir para a universidade ou para os seus empregos, porque os pontos de controlo se encontram fechados, dos trabalhadores municipais palestinianos da água, enfurecidos enquanto tentam fazer as reparações. Ela disse-nos, também, do dormir no chão e do compartilhar de um cobertor com uma família de cinco pessoas, de ajudar o jovem Nidal, que, com o seu inglês, a ajudou no seu árabe, das famílias palestinianas que lhe deram as suas limonadas para curar a gripe. Ela escreveu-nos: “Eu descobri um grau de força e de capacidade básicas de humanos permanecerem humanos em circunstâncias extremas. Penso que a palavra é dignidade.”

Rachel tinha sonhos. Ela acreditava que a sua cidade natal de Olympia, Washington, poderia irmanar-se com a cidade irmã de Rafah. Ela visionou trocas de e-mails entre crianças das duas cidades. Ela escreveu: “Muitos palestinianos querem que as suas vozes sejam ouvidas e penso que precisamos de usar alguns dos nossos privilégios, como internacionais, para fazer com que as suas vozes sejam ouvidas directamente nos Estados Unidos, em vez do filtro de internacionais bem-intencionados, como eu”. Rachel acreditava que poderia ver um estado palestiniano ou um estado israelo-palestiniano democrático durante a sua vida. Ela escreveu: “penso que a liberdade para a Palestina poderia ser uma fonte incrível de esperança para os povos em luta de todo o mundo”. Rachel alinhava com activistas pela paz palestinianos não-violentos, com activistas pela paz israelitas, também não-violentos, e com todos os activistas internacionais a trabalharem corajosamente para fazer com que todos os seus sonhos se tornem realidade.

Ela perdeu a sua vida naquele esforço pela paz, quando foi esmagada por um bulldozer israelita, há quatro semanas atrás. Isto agora leva-nos, a cada um de nós, a erguermo-nos com a mesma convicção e coragem e, dos nossos púlpitos, dos nossos pódios e das nossas ruas, através das nossas cartas para o Congresso, para a secretaria de Estado e Presidente, gritarmos juntamente com Rachel: “Isto é para parar! É uma boa ideia para nós todos, abandonar tudo e devotar todas as nossas vidas para fazer parar isto. Não penso em extremismos para fazer algo mais. Eu até quero na verdade dançar para Pat Benetar e ter namorados e ser cómica para os meus companheiros. Mas eu também quero que isto pare!

 www.palsolodarity.org

*

BIOGRAFIA

Rachel Corrie era uma jovem activista cuja vida, aos 23 anos, terminou abruptamente a 16 de Março de 2003, enquanto trabalhava como manifestante na Faixa de Gaza. Ela cresceu em Olympia, Washington, estudou na Capital High School e depois no Evergreen State College. Enquanto estava na faculdade, Corrie juntou-se ao Movimento Olympia pela Justiça e Paz e, mais tarde, ao Movimento de Solidariedade Internacional, ou ISM.

O ISM, fundado em 2001, procura pessoas em todo o mundo para ajudar nos seus protestos não violentos contra os militares israelitas na Cisjordânia. A organização procura pressionar Israel e a sua Força de Defesa Israelense (FDI) a acabar com a ocupação de terras palestinas, usando uma série de táticas de resistência não violentas, como violar o toque de recolher israelense imposto em áreas palestinas, remover bloqueios de estradas colocados pelas FDI para isolar uma aldeia de outro, e bloqueando tanques militares e escavadeiras.

Rachel Corrie foi para Rafah, na Faixa de Gaza, em Janeiro de 2003 e recebeu dois dias de treino de resistência não violenta para ajudar nas actividades do ISM. Ela ficou horrorizada com a destruição que encontrou lá. Casas foram destruídas e pessoas detidas e mortas diariamente. Rachel registrou o que observou e sentiu em cartas e e-mails para sua família. Num e-mail, ela escreveu: “Agora, o exército israelita escavou a estrada para Gaza e ambos os principais pontos de controlo estão fechados. Isto significa que os palestinianos que queiram inscrever-se para o próximo trimestre na universidade não podem. As pessoas não conseguem chegar aos seus empregos e aqueles que estão presos do outro lado não conseguem voltar para casa; e os internacionais, que têm uma reunião amanhã na Cisjordânia, não conseguirão.”

Em outro e-mail, Corrie escreveu: “Sinto muito mal do estômago por ser mimada o tempo todo, muito docemente, por pessoas que estão enfrentando a desgraça… Honestamente, muitas vezes a pura bondade das pessoas aqui, juntamente com a evidência esmagadora da destruição intencional de suas vidas, faz com que isso pareça irreal para mim.”

Os esforços de Rachel Corrie para ajudar o movimento de resistência custaram-lhe a vida em 16 de março de 2003. Ela se colocou entre uma escavadeira Caterpillar e uma casa local, tentando impedir que as FDI a demolissem. Ela foi atropelada duas vezes pelo veículo e morreu.

Após a sua morte, a Fundação Rachel Corrie para a Paz e Justiça foi fundada para “apoiar programas que promovam conexões entre as pessoas, que construam a compreensão, o respeito e a apreciação pelas diferenças, e que promovam a cooperação dentro e entre as comunidades locais e globais”. O ator Alan Rickman e a escritora Katherine Viner montaram uma peça baseada nas cartas, diários e e-mails de Corrie chamada “Meu nome é Rachel Corrie”. Foi exibido em Londres em 2005 e, após um adiamento inicial nos Estados Unidos, teve uma exibição limitada na Off-Broadway em Nova York.

americanswhotellthetruth

e

rachelcorriefoundation

*

CARTA DA PALESTINA

Uma das cartas de Rachel, “Carta da Palestina” (7 de fevereiro de 2003), é lida abaixo por sua mãe, Cindy Corrie.

Rachel Corrie: “Carta da Palestina” (2003)

zinnedproject

https://temposdecolera.blogs.sapo.pt/rachel-corrie-127969? 

domingo, 7 de maio de 2023

Uma proposta real Carta de Julian Assange ao rei Carlos III

Uma proposta real
Carta de Julian Assange ao rei Carlos III

Julian Assange [*]

À Sua Majestade Rei Carlos III,

No momento da coroação do meu soberano, achei por bem fazer-vos um convite sincero para comemorar este importante evento visitando o vosso próprio reino dentro de um reino:  a prisão de Belmarsh de Vossa Majestade.

Sem dúvida recordareis as sábias palavras de um famoso dramaturgo:   "A qualidade da misericórdia não é imposta. Ela cai como a suave chuva do céu sobre os lugares abaixo".

Ah, mas o que saberia aquele bardo de misericórdia diante do acerto de contas no alvorecer do vosso histórico reinado? Afinal, pode-se verdadeiramente conhecer a medida de uma sociedade pelo modo como trata os seus prisioneiros, e o vosso reino certamente esmerou-se a este respeito.

A Prisão de Belmarsh de Vossa Majestade situa-se na prestigiada morada de One Western Way, em Londres, apenas a uma curta distância do Old Royal Naval College, em Greenwich. Quão deleitoso deve ser ter um estabelecimento tão estimado a portar o vosso nome.

“Pode-se verdadeiramente conhecer uma sociedade pelo modo como trata os seus prisioneiros”.

É aqui que 687 dos vossos leais súbditos são mantidos, apoiando o registo do Reino Unido como a nação com a maior população encarcerada da Europa Ocidental. Como o vosso nobre governo declarou recentemente, o vosso reino está atualmente a passar pela "maior expansão de vagas prisionais em mais de um século", com as vossas ambiciosas projeções a mostrarem um aumento da população prisional de 82.000 para 106.000 nos próximos quatro anos. É, na verdade, um grande legado.

Como prisioneiro político, detido ao bel-prazer de Vossa Majestade em nome de um soberano estrangeiro envergonhado, sinto-me honrado por residir entre os muros desta instituição de classe mundial. Na verdade, o vosso reino não conhece limites.

Durante a vossa visita, tereis a oportunidade de banquetear-vos com as delícias culinárias preparadas para os seus fiéis súbditos com um generoso orçamento de duas libras por dia. Podereis saborear as cabeças de atum misturadas e as omnipresentes formas reconstituídas que supostamente são feitas de galinha. E não vos preocupeis, porque, ao contrário de instituições menores como Alcatraz ou San Quentin, não há refeições coletivas num refeitório. Em Belmarsh, os prisioneiros comem sozinhos nas suas celas, garantindo a máxima intimidade com a sua refeição.

Para além dos prazeres gustativos, posso assegurar-vos que Belmarsh oferece amplas oportunidades educativas aos vossos súbditos. Como diz Provérbio 22:6:   "Educai a criança no caminho em que deve andar, e até envelhecer dele não se desviará". Observai as filas baralhadas no guichet dos medicamentos, onde os reclusos recolhem as suas receitas, não para uso diário, mas para a experiência de expansão de horizonte num "grande dia fora" – tudo de uma vez.

Também tereis a oportunidade de prestar as vossas homenagens ao meu falecido amigo Manoel Santos, um homem gay que enfrentava deportação para o Brasil de Bolsonaro, o qual tomou a sua própria vida a apenas oito jardas da minha cela usando uma corda grosseira feita com lençóis. Sua refinada voz de tenor agora silenciou para sempre.

"Meu falecido amigo Manoel Santos... o qual tomou a sua própria vida a apenas oito jardas da minha cela".

Aventurai-vos nas profundezas de Belmarsh e encontrareis o local mais isolado dentro das suas muralhas:   Os cuidados de saúde (Healthcare), ou “Cuidados do inferno” ("Hellcare"), como o chamam carinhosamente os seus habitantes. Aqui, ficareis maravilhado com as regras sensatas concebidas para a segurança de todos, tais como a proibição do jogo de xadrez, se bem que permitindo o muito menos perigoso jogo de damas.

Nas profundezas do Hellcare encontra-se o lugar mais gloriosamente edificante de toda a Belmarsh, ou melhor, de todo o Reino Unido:   a sublimemente denominada Belmarsh End of Life Suite. Ouvi com atenção e podereis escutar os gritos dos prisioneiros:   "Irmão, estou a morrer aqui", um testemunho da qualidade de vida e de morte dentro da vossa prisão.

Mas não temais, pois há beleza a encontrar dentro destes muros. Deleitai os vossos olhos com os pitorescos corvos que fazem ninho no arame farpado e com as centenas de ratos famintos que chamam Belmarsh de casa sua. E se vierdes na Primavera, podeis mesmo ter um vislumbre dos patinhos postos pelos patos selvagens no terreno da prisão. Mas não vos demoreis, pois as ratazanas vorazes asseguram que as suas vidas são efémeras.

Imploro-vos, Rei Carlos, que visiteis a Prisão de Belmarsh de Vossa Majestade, pois é uma honra digna de um rei. Ao embarcardes no vosso reinado, lembrai-vos sempre das palavras da Bíblia na versão do Rei James:   "Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia" (Mateus 5:7). E que possa a misericórdia ser a luz orientadora do vosso reino, tanto dentro como fora das muralhas de Belmarsh.

O vosso mais devotado súbdito,

Julian Assange
A9379AY

05/Maio/2023

[*] Jornalista e preso político.

O original encontra-se em declassifieduk.org/a-kingly-proposal-letter-from-julian-assange-to-king-charles-iii/

Este artigo encontra-se em resistir.info

Julian Assange [*]
Carlos III, o novo rei.
À Sua Majestade Rei Carlos III,

No momento da coroação do meu soberano, achei por bem fazer-vos um convite sincero para comemorar este importante evento visitando o vosso próprio reino dentro de um reino:  a prisão de Belmarsh de Vossa Majestade.

Sem dúvida recordareis as sábias palavras de um famoso dramaturgo:   "A qualidade da misericórdia não é imposta. Ela cai como a suave chuva do céu sobre os lugares abaixo".

Ah, mas o que saberia aquele bardo de misericórdia diante do acerto de contas no alvorecer do vosso histórico reinado? Afinal, pode-se verdadeiramente conhecer a medida de uma sociedade pelo modo como trata os seus prisioneiros, e o vosso reino certamente esmerou-se a este respeito.

A Prisão de Belmarsh de Vossa Majestade situa-se na prestigiada morada de One Western Way, em Londres, apenas a uma curta distância do Old Royal Naval College, em Greenwich. Quão deleitoso deve ser ter um estabelecimento tão estimado a portar o vosso nome.

“Pode-se verdadeiramente conhecer uma sociedade pelo modo como trata os seus prisioneiros”.
É aqui que 687 dos vossos leais súbditos são mantidos, apoiando o registo do Reino Unido como a nação com a maior população encarcerada da Europa Ocidental. Como o vosso nobre governo declarou recentemente, o vosso reino está atualmente a passar pela "maior expansão de vagas prisionais em mais de um século", com as vossas ambiciosas projeções a mostrarem um aumento da população prisional de 82.000 para 106.000 nos próximos quatro anos. É, na verdade, um grande legado.

Como prisioneiro político, detido ao bel-prazer de Vossa Majestade em nome de um soberano estrangeiro envergonhado, sinto-me honrado por residir entre os muros desta instituição de classe mundial. Na verdade, o vosso reino não conhece limites.

Durante a vossa visita, tereis a oportunidade de banquetear-vos com as delícias culinárias preparadas para os seus fiéis súbditos com um generoso orçamento de duas libras por dia. Podereis saborear as cabeças de atum misturadas e as omnipresentes formas reconstituídas que supostamente são feitas de galinha. E não vos preocupeis, porque, ao contrário de instituições menores como Alcatraz ou San Quentin, não há refeições coletivas num refeitório. Em Belmarsh, os prisioneiros comem sozinhos nas suas celas, garantindo a máxima intimidade com a sua refeição.

Para além dos prazeres gustativos, posso assegurar-vos que Belmarsh oferece amplas oportunidades educativas aos vossos súbditos. Como diz Provérbio 22:6:   "Educai a criança no caminho em que deve andar, e até envelhecer dele não se desviará". Observai as filas baralhadas no guichet dos medicamentos, onde os reclusos recolhem as suas receitas, não para uso diário, mas para a experiência de expansão de horizonte num "grande dia fora" – tudo de uma vez.

Também tereis a oportunidade de prestar as vossas homenagens ao meu falecido amigo Manoel Santos, um homem gay que enfrentava deportação para o Brasil de Bolsonaro, o qual tomou a sua própria vida a apenas oito jardas da minha cela usando uma corda grosseira feita com lençóis. Sua refinada voz de tenor agora silenciou para sempre.

"Meu falecido amigo Manoel Santos... o qual tomou a sua própria vida a apenas oito jardas da minha cela".
Aventurai-vos nas profundezas de Belmarsh e encontrareis o local mais isolado dentro das suas muralhas:   Os cuidados de saúde (Healthcare), ou “Cuidados do inferno” ("Hellcare"), como o chamam carinhosamente os seus habitantes. Aqui, ficareis maravilhado com as regras sensatas concebidas para a segurança de todos, tais como a proibição do jogo de xadrez, se bem que permitindo o muito menos perigoso jogo de damas.

Nas profundezas do Hellcare encontra-se o lugar mais gloriosamente edificante de toda a Belmarsh, ou melhor, de todo o Reino Unido:   a sublimemente denominada Belmarsh End of Life Suite. Ouvi com atenção e podereis escutar os gritos dos prisioneiros:   "Irmão, estou a morrer aqui", um testemunho da qualidade de vida e de morte dentro da vossa prisão.

Mas não temais, pois há beleza a encontrar dentro destes muros. Deleitai os vossos olhos com os pitorescos corvos que fazem ninho no arame farpado e com as centenas de ratos famintos que chamam Belmarsh de casa sua. E se vierdes na Primavera, podeis mesmo ter um vislumbre dos patinhos postos pelos patos selvagens no terreno da prisão. Mas não vos demoreis, pois as ratazanas vorazes asseguram que as suas vidas são efémeras.

Imploro-vos, Rei Carlos, que visiteis a Prisão de Belmarsh de Vossa Majestade, pois é uma honra digna de um rei. Ao embarcardes no vosso reinado, lembrai-vos sempre das palavras da Bíblia na versão do Rei James:   "Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia" (Mateus 5:7). E que possa a misericórdia ser a luz orientadora do vosso reino, tanto dentro como fora das muralhas de Belmarsh.

O vosso mais devotado súbdito,

Julian Assange
A9379AY

05/Maio/2023
[*] Jornalista e preso político.
O original encontra-se em declassifieduk.org/a-kingly-proposal-letter-from-julian-assange-to-king-charles-iii/
Este artigo encontra-se em resistir.info

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

 


Manuela Vieira da Silva

O namoro de Fernando Pessoa e Ofélia. Belíssimo trabalho de Victor Barroso Nogueira!

«Só me dá vontade de enfiar pelo telefone e ir ter com o meu queridinho, mas está vedado o trânsito de "vespas" pelas linhas telefónicas...» Se fosse hoje com messenger e outras facilidades, como seria entre eles? Histórias de amor que não se repetem nem a poesia será a mesma. .
 
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Uma delícia conhecer a ofélia ! Um encanto ... de pessoa e para mim ! Vale a pena ler até ao fim
🙂
~~~~~~~~~~~~~~~
CARTA XLI
Ex.ma Senhora D. Ofélia Queirós:
Um abjecto e miserável indivíduo chamado Fernando Pessoa, meu particular e querido amigo, encarregou-me de comunicar a V. Ex.a considerando que o estado mental dele o impede de comunicar qualquer coisa, mesmo a uma ervilha seca (exemplo da obediência e da disciplina) que V. Ex.a está proibida de:

(1) pesar menos gramas,
(2) comer pouco,
(3) não dormir nada,
(4) ter febre,
(5) pensar no indivíduo em questão.
Pela minha parte, e como íntimo e sincero amigo que sou do meliante de cuja comunicação (com sacrifício) me encarrego, aconselho V. Ex.a a pegar na imagem mental, que acaso tenha formada do indivíduo cuja citação está estragando este papel razoavelmente branco, e deitar essa imagem mental na pia, por ser materialmente impossível dar esse justo Destino à entidade fingidamente humana a quem ele competiria, se houvesse justiça no mundo.
Cumprimenta V. Ex.a
Álvaro de Campos
eng. Naval
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carta de Ofélia Queiroz a Álvaro Campos
Ex.mo Senhor Engenheiro Álvaro de Campos
Permita-me que discorde por completo com a primeira parte da sua carta, porque, nem posso consentir que Vª Exª trate o Ex.mo Sr. Fernando Pessoa, pessoa que muito prezo, por abjecto e miserável indivíduo nem compreendo que, sendo seu particular e querido amigo o possa tratar tão desprimosamente. Como vê estamos sempre em completa desarmonia, nem podia deixar de ser, pedindo-lhe por especial fineza, que não volte a escrever-me. Quanto às observações que me faz, como foram ditadas pelo Sr. Fernando Pessoa, farei quanto em mim caiba por lhe ser agradável. Agradeço o conselho que me dá, mas já que me puxa pela língua, deixe-me dizer-lhe que quem eu de boa vontade há muito tempo teria, não deitado na pia, mas debaixo dum comboio, era Vª Exª. Esperando não o tornar a ler, subscreve-se com respeito a 26-09-1929
Ofélia Queiroz
~~~~~~~~~~~~~
CARTA 59
Meu querido amor
Que triste ideia teve em encarregar o Sr Engenheiro Álvaro de Campos de escrever-me? Ele afinal não é seu amigo, trata-o tão mal! E não sendo seu amigo também o não é meu, e não sendo meu amigo eu também não sou amiga dele, portanto não gosto dele, detesto-o pronto. Peço-lhe meu querido Fernandinho que não volte a encarregá-lo de me escrever, e que por fineza lhe entregue a minha carta, que por não saber a sua direcção junto à sua. Ele afinal só pretende desacreditá-lo, mas eu não o poupo, e decerto não me escreverá mais.
Agora outra coisa: Gosto tanto que me telefone à noite! Já que nos não podemos ver, ao menos sempre é mais agradável falar assim um pouco mais intimamente. Só me dá vontade de enfiar pelo telefone e ir ter com o meu queridinho, mas está vedado o trânsito de "vespas" pelas linhas telefónicas... Que grande me vai parecer a noite de hoje e parte do dia de amanhã. Quase que fazia oito dias sem o ver. O Fernandinho não lhe custa estar tantos dias sem ver a sua Ofelinha? Gosta muito dela, gosta[,] amor? Então seu maroto, eu na minha carta d'hoje mostrava um princípio de afeição? Só princípio? E acho-me eu exigente mas ainda bem que também o é, entender-nos-emos assim melhor, porque sentimos da mesma forma, não é Fernandinho? Mas não me disse se lhe agrado para sua mulherzinha. Se lhe agrado Fernandinho? Se lhe agrado, e agradando-me o meu querido amor tanto para maridinho (parecia-me um sonho eu um dia vir a tratá-lo assim) não retardemos uma felicidade tão grande e tão desejada, pelo menos da minha parte. Mas estou convencida que Fernandinho, também há-de gostar muito de ter um dia o seu lar, com uma mulherzinha muito ao seu gosto e que torne o lar alegre e o Fernandinho feliz. Diga-me, não são estes os seus desejos? A não ser que não seja eu a mulherzinha (porque eu não chego a ser mulher) muito a seu gosto...
A mim encanta-me só a ideia de o vir a ser, de viver consigo uma vida inteira, sempre muito amigos e carinhosos! Mas não receberei de boa vontade na nossa casinha o tal Senhor Engenheiro, isso não. Sobre o assunto do meu encontro, escreveria muito, mas receio maçá-lo. Só lhe digo que tenho ânsia de ser sua esposa, e o Fernandinho, não tem, de ser meu esposo? Se gostar tanto de mim como eu de si, tem a mesma.
É isto que me tira o sono! Fica agora sabendo?
Adeus, meu amor, eu não lhe roubo mais tempo com as minhas cartas sempre tão mal redigidas, mas o Fernandinho já me conhece, em deixando escrito o que sinto é o principal, não é? Góta de mim? Góta munto? Góte chim?
Manda-lhe muitos beijinhos a sempre muito sua
Ofélia
26-9-929
Cartas De Amor
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Caixa Postal 147
(Acróstico de Fernando Pessoa dedicado a OPHÉLIA)
Onde é que a maldade mora
Poucos sabem onde é
Há maneira de o saber
É em quem quando diz que chora
Leva a rir e a responder
Indo em crueldade até
A gente não a entender
Nota: Relato da Exma Senhora Dona Ophélia Queiroz, destinatária destas Cartas de Fernando Pessoa, recolhido e estruturado por sua sobrinha-neta Maria da Graça Queiroz.
Um dia faltou a luz no escritório. O Freitas não estava e o Osório, o «grumete», tinha saído a fazer um recado. O Fernando foi buscar um candeeiro de petróleo, acendeu-o e pô-lo em cima da minha secretária.
Um pouco antes da hora de saída, atirou-me um bilhetezinho para cima da secretária, que dizia: «Peço-lhe que fique». Eu fiquei, na expectativa. Nessa altura já eu me tinha apercebido do interesse do Fernando por mim, e eu confesso, também lhe achava uma certa graça…
Lembro-me que estava em pé, a vestir o casaco, quando ele entrou no meu gabinete. Sentou-se na minha cadeira, pousou o candeeiro que trazia na mão e, virado para mim, começou de repente a declarar-se, como Hamlet se declarou a Ofélia: «Ó, querida Ofélia! Meço mal os meus versos; careço de arte para medir os meus suspiros; mas amo-te em extremo. Oh! até do último extremo, acredita!»
Fiquei pertubadíssima, como é natural, e, sem saber o que havia de dizer, acabei de vestir o casaco e despedi-me precipitadamente. O Fernando levantou-se, com o candeeiro na mão, para me acompanhar até à porta. Mas, de repente, pousou-o sobre a divisória da parede; sem eu esperar, agarrou-me pela cintura, abraçou-me e, sem dizer uma palavra, beijou-me, beijou-me apaixonadamente, como louco.
Surgem assim os primeiros versos que me dedicou; versos que infelizmente depois me desapareceram, mas que nunca esqueci:
Fiquei louco, fiquei tonto,
Meus beijos foram sem conto,
Apartei-a contra mim,
Enlacei-a nos meus braços,
Embriaguei-me de abraços,
Fiquei louco e foi assim.
Dá-me beijos, dá-me tantos
Que enleado em teus encantos,
Preso nos abraços teus,
Eu não sinta a própria alma, ave perdida
No azul-amor dos teus céus.
Boquinha dos meus amores,
Lindinha como as flores,
Minha boneca que tem
Bracinhos para enlaçar-me
E tantos beijos p’ra dar-me
Quantos eu lhes dou também.
Botão de rosa menina,
Carinhosa, pequenina,
Corpinho de tentação,
Vem morar na minha vida,
Dá em ti terna guarida
Ao meu pobre coração.
Não descanso, não projecto,
Nada certo e sempre inquieto
Quando te não vejo, amor,
Por te beijar e não beijo,
Por não me encher o desejo
Mesmo o meu beijo maior.
Ai que tortura, que fogo,
Se estou perto d’ela é logo
Uma névoa em meu olhar,
Uma núvem em minha alma,
Perdida de toda a calma,
E eu sem a poder achar.
Fui para casa, comprometida e confusa. Passaram-se dias e como o Fernando parecia ignorar o que se havia passado entre nós, resolvi eu escrever uma carta, pedindo-lhe uma explicação. É o que dá origem à sua primeira carta-resposta, datada de 1 de Março de 1920.
Assim começámos o «namoro».
Confira a primeira carta de Fernando Pessoa para Ophélia Queiroz, clique aqui.
Carta - 01/03/1920
Ophéliazinha:
Para me mostrar o seu desprezo, ou pelo menos, a sua indiferença real, não era preciso o disfarce transparente de um discurso tão comprido, nem da serie de «razões» tão pouco sinceras como convincentes, que me escreveu. Bastava dizer-m’o. Assim, entendo da mesma maneira, mas doe-me mais.
Se prefere a mim o rapaz que namora, e de quem naturalmente gosta muito, como lhe posso eu levar isso a mal? A Opheliazinha pode preferir quem quiser: não tem obrigação - creio eu - de amar-me, nem, realmente necessidade (a não ser que queira divertir-se) de fingir que me ama.
Quem ama verdadeiramente não escreve cartas que parecem requerimentos de advogado. O amor não estuda tanto as cousas, nem trata os outros como réus que é preciso «entalar».
Porque não é franca comigo? Que empenho tem em fazer sofrer quem não lhe fez mal - nem a si, nem a ninguém-, e quem tem por peso e dor bastante a própria vida isolada e triste, e não precisa de que lh’a venham acrescentar creando-lhe esperanças falsas, mostrando-lhe afeições fingidas e isto sem que se perceba com que interesse, mesmo de divertimento, ou com que proveito, mesmo de troça.
Reconheço que tudo isto é cômico, e que a parte mais cômica d’isto tudo sou eu.
Eu-proprio acharia graça, se não a amasse tanto, e se tivesse tempo para pensar em outra cousa que não fosse não fosse no sofrimento que tem prazer em causar-me sem que eu, a não ser por amá-la, o tenha merecido, e creio bem que amá-la não é razão bastante para o merecer. Enfim…
Ahi fica o «documento escrito» que me pede. Reconhece a minha assinatura o tabelião Eugenio Silva.
01/03/1920
Fernando Pessoa