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quarta-feira, 17 de junho de 2026

(29) Quando i primi missionari arrivarono in Africa ...

 

2026 06 17 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - Contra o colonialismo

Este mural em Orgosolo   aborda uma perspetiva crítica sobre o colonialismo e a perda de soberania dos povos indígenas, utilizando uma citação histórica célebre.

O que está escrito?

O texto central está escrito em italiano com uma caligrafia cursiva avermelhada na parede de tom ocre:

"Quando i primi missionari arrivarono in Africa, noi avevamo la terra e loro la Bibbia. Allora chiudemmo gli occhi e pregammo. Quando li riaprimmo noi avevamo in mano la Bibbia e loro avevano la terra. (DESMOND TUTU Vescovo anglicano del Sud Africa)"

Tradução:

"Quando os primeiros missionários chegaram a África, nós tínhamos a terra e eles tinham a Bíblia. Então fechámos os olhos e rezámos. Quando os reabrimos, nós tínhamos a Bíblia na mão e eles tinham a terra. (DESMOND TUTU, Bispo anglicano da África do Sul)"

(Nota: Embora a frase seja frequentemente atribuída ao Arcebispo Desmond Tutu ou a Jomo Kenyatta, o primeiro presidente do Quénia, ela resume uma crítica partilhada sobre os métodos de subjugação colonial).

Esta frase em específico tem um percurso muito curioso: ela não pertence a um livro ou a um manifesto longo e estruturado, mas nasceu originalmente como uma parábola ou provérbio oral popular partilhado entre as comunidades africanas durante a descolonização.

Por se tratar de uma expressão da tradição oral, não existe um "texto integral" ou um documento de arquivo de onde tenha sido extraída. No entanto, ela foi popularizada mundialmente de duas formas principais:

1. A versão e o ensaio de Desmond Tutu

Embora o mural atribua a frase a Desmond Tutu, o próprio Arcebispo sul-africano explicou num ensaio biográfico posterior que esta já era uma "velha rábula" (an old saying) que os negros sul-africanos contavam quando debatiam a perda das suas terras sob o regime do Apartheid.

Tutu utilizava-a frequentemente nos seus discursos para quebrar o gelo, acrescentando-lhe um desfecho irónico e teológico:

"A storiella racconta un cattivo affare? Uno perde la propria terra in cambio di che cosa? Della Bibbia. [...] Ma io voglio affermare nella maniera più netta che non abbiamo fatto un cattivo affare: la Bibbia è un libro sovversivo. I colonizzatori ci hanno dato il libro che conteneva i semi della nostra stessa liberazione."

Tradução: "Será que a história conta um mau negócio? Perder a terra em troca de quê? Da Bíblia. [...] Mas eu quero afirmar da maneira mais clara que não fizemos um mau negócio: a Bíblia é um livro subversivo. Os colonizadores deram-nos o livro que continha as sementes da nossa própria libertação."

2. A atribuição a Jomo Kenyatta

Muitos historiadores associam originalmente a autoria desta metáfora a Jomo Kenyatta (o líder da independência do Quénia e seu primeiro presidente), que a utilizava nos seus comícios políticos na década de 1950 para ilustrar o processo de expropriação forçada sofrido pela etnia Kikuyu face aos colonos britânicos. Na sua versão, o foco era puramente a perda dos recursos:

"When the Missionaries arrived, the Africans had the land and the Missionaries had the Bible. They taught us how to pray with our eyes closed. When we opened them, they had the land and we had the Bible."

Resumo: O texto que vê no mural é, na verdade, o texto completo em si. Ele condensa em poucas linhas um aforismo anticolonial que se tornou universal e que os muralistas de Orgosolo adotaram para espelhar a sua própria desconfiança histórica em relação às forças externas que tentavam ocupar as terras da Sardenha.

O texto não faz parte de um discurso oficial longo ou de uma obra literária estruturada. É exatamente isso: a frase funciona por si só como um aforismo ou uma parábola de tradição oral.

A força dessa mensagem reside precisamente na sua capacidade de condensar uma realidade histórica complexa — o processo de colonização e a perda de soberania de um povo — numa metáfora curta, direta e de fácil memorização. Foi por ser uma tirada tão marcante e curta que se espalhou pelo mundo, sendo adotada por diferentes líderes políticos e, eventualmente, pintada nas paredes de Orgosolo como um lema universal de resistência (Google Gemini)

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Amilcar Cabral - Lénine e a luta de libertação nacional



Uma luz fecunda ilumina o caminho da luta

*  Amilcar Cabral

Abril de 1970

Observação: Retomamos, nesta pequena brochura, editada pela Comissão de Informações do Partido, parte dos temas abordados no nosso discurso improvisado no Symposium d'Alma-Ata - República Socialista Soviética do Cazaquistão, em Abril de 1970.

Fonte: http://www.didinho.org/Arquivo/umaluzfecundailuminaocaminh.html

Transcrição e HTML: Fernando Araújo.

 O valor e o carácter transcendente do pensamento e da obra humana, política, científica, cultural — histórica— de Vladimir llitch Lénine são há muito já um facto universalmente reconhecido. Mesmo os mais ferozes adversários das suas ideias tiveram de reconhecer em Lénine um revolucionário consequente, que soube dedicar-se totalmente à causa da revolução e fazê-la, um filósofo e um sábio cuja grandeza só é comparável à dos maiores pensadores da humanidade. 

Actualmente, não é raro ouvir políticos—mesmo os mais anti-socialistas — citar Lénine ou gabar-se de ter lido as suas obras. É evidente que não podemos acreditá-los à letra, mas isso dá bem a medida da importância (mesmo da necessidade) do pensamento de Lénine e da vastidão das consequências práticas da sua acção no contexto histórico actual. 

Para os movimentos de libertação nacional, cuja tarefa é fazer a revolução, modificando radicalmente, pelas vias mais adequadas, a situação económica, política, social e cultural dos seus povos, o pensamento e a acção de Lénine têm um interesse especial. 

Mas Lénine não deixou apenas a sua obra. Foi e continua a ser um exemplo vivo de combatente pela causa da humanidade, pela libertação económica e portanto nacional, social e cultural do homem. A sua vida e o seu comportamento como personalidade humana contêm lições e exemplos úteis para todos os combatentes da libertação nacional. Entre essas lições, as que nos parecem ser da maior acuidade para os movimentos de libertação referem-se ao comportamento moral, à acção política, à estratégia e à prática revolucionárias. 

No âmbito geral do movimento de libertação nacional, especialmente em condições como as nossas, o comportamento moral do combatente, em particular dos dirigentes, é um factor primordial que pode influenciar significativamente o êxito ou o fracasso do movimento. É evidente que a luta é essencialmente política, mas as circunstancias políticas, económicas e sociais —históricas—, em que se estrutura e desenvolve o movimento, conferem aos problemas de natureza moral uma particular importância, devido principalmente às fraquezas próprias do movimento nacional de libertação nas colónias, ao oportunismo ou às possibilidades de oportunismo que o caracterizam, às pressões e manhas utilizadas pelo inimigo imperialista, assim como à dificuldade, mesmo a impossibilidade de um controle do movimento e dos seus chefes pelas massas populares nacionalistas.

 No movimento de libertação, como em qualquer outro empreendimento humano — e sejam quais forem os factores materiais e sociais que condicionem a sua evolução —, o homem (a sua mentalidade, o seu comportamento) é o elemento essencial e determinante. 

Lénine foi um exemplo de coerência consigo mesmo e de coerência entre as palavras e os actos. Soube, através de toda a evolução característica da sua personalidade, permanecer igual a si mesmo na verticalidade das suas opções e dos seus actos. Estes sempre corresponderam às suas palavras, pois soube rejeitar o verbalismo fácil, a adulação e a demagogia. 

Lénine foi um exemplo de honestidade, de probidade, de sinceridade e de coragem. Sempre colocou acima de todas as suas conveniências a necessidade de observar rigorosamente os deveres da moral e da justiça, recusar a mentira e praticar a verdade, sejam quais forem as consequências ou os problemas que possa criar. 

Como um ser humano integral, soube amar e odiar. Amar a causa da libertação do homem de qualquer espécie de opressão, a aventura maravilhosa que é a vida humana, tudo o que há de belo e construtivo no planeta. Odiar os inimigos do progresso e da felicidade do homem, o inimigo de classe, os oportunistas, a cobardia, a mentira, todos os factores de aviltamento da consciência social e moral do homem. Sempre considerou o homem como o valor supremo do Universo. A sua dedicação às crianças tornou-se lendária pois, para ele, esses seres delicados e tantas vezes incompreendidos, vítimas inocentes da exploração do homem pelo homem, são as flores da humanidade, a esperança e a certeza do triunfo de uma vida de justiça.

A luta de libertação nacional é, como já dissemos, uma luta política que pode revestir diversas formas, de acordo com as circunstâncias específicas em que se desenvolve. No nosso caso concreto, esgotámos todos os meios pacíficos ao nosso alcance para levar os colonialistas portugueses a uma modificação radical da sua política no sentido da libertação e do progresso do nosso povo. Só encontrámos repressão e crimes. Decidimos então pegar em armas para nos batermos contra a tentativa de genocídio do nosso povo, decidido a ser livre e senhor do seu próprio destino. 

O facto de travarmos uma luta armada de libertação em nada modifica o carácter essencialmente político do nosso combate. Pelo contrário, acentua-o. Ora, não há, não pode haver acção política, seja qual for a sua forma, sem princípios bem definidos, quer sejam bons ou maus. 

No plano político, Lénine foi um exemplo de fidelidade aos princípios. Soube fazer concessões sobre a forma de reivindicações, de acções, mas nunca sobre os princípios, principalmente quando se tratava de defender os interesses da classe e da nação que representava, assim como na prática consequente de um internacionalismo desprovido de reservas, de timidez ou de condicionalismos.

É igualmente uma lição de realismo, de noção clara da possibilidade e da oportunidade política, que encontra a sua expressão máxima na decisão de desencadear a insurreição de Outubro de 1917, apesar das enormes dificuldades para vencer as hesitações e as oposições mais ou menos fundamentadas. 

Uma lição de firmeza na via determinada para conduzir a acção política, ilustrada pelo combate sem tréguas que moveu a todos os desvios «de direita» ou «de esquerda» e que tantos inimigos lhe criou.

 Ultrapassando a concepção vulgar, segundo a qual a política é a arte do possível, Lénine demonstrou que é antes a arte de transformar o que é aparentemente impossível em possível (tornar possível o impossível), rejeitando categoricamente o oportunismo. Assim definida, a acção política implica uma criatividade permanente. Para ela, como para a arte, criar não é inventar. 

A acção de Lénine é caracterizada por uma grande flexibilidade construtiva. Em cada problema, em cada facto da luta, mesmo no mais negativo, soube discernir o lado positivo para dele extrair todas as vantagens e fazer avançar a luta. Nesse âmbito, como noutros, demonstrou uma perseverança a toda a prova. 

Ele, que considerava que «os factos são teimosos», era teimoso como os factos. Confiando na opinião dos outros, apesar disso, certo de que todo o combatente tem necessidade dos outros, sempre soube mudar de opinião quando a razão — a verdade científica — não estava do seu lado.

Crítico rigoroso, mesmo violento, tanto dos seus adversários como dos seus companheiros de luta caídos em erro, Lénine soube praticar exemplarmente a autocrítica. Sabia reconhecer os seus erros e elogiar o valor dos outros, mesmo dos seus mais ferozes adversários; mas soube usar de uma severidade sem limites para atacar os que considerava como inimigos de classe e da revolução. 

Lénine sempre demonstrou uma confiança sem limites na capacidade das massas, mas soube no entanto demonstrar claramente que estas nunca deviam agir com anarquia, sem um plano bem concebido, correspondendo às possibilidades concretas de acção. Para ele, as massas nunca devem ser acéfalas. 

No âmbito geral do movimento de libertação nacional, tal como em qualquer confrontação, pacífica ou não, há a necessidade vital de descobrir as leis gerais da luta e agir com base num plano geral concebido e elaborado a partir da realidade concreta do meio e dos factores em presença. Isto quer dizer que qualquer movimento de libertação necessita de uma estratégia.

Na elaboração dessa estratégia é preciso ser capaz de distinguir o essencial do secundário, o permanente do temporário. Sem nunca confundir estratégia e táctica, a acção deve basear-se numa concepção científica da realidade, seja qual for a influência dos factores subjectivos que é necessário enfrentar. 

Também nesse plano Lénine deu uma lição muito útil aos movimentos de libertação, aos combatentes da liberdade. Tinha uma nítida consciência do valor da unidade como meio necessário para a luta, mas não como um fim em si. Para Lénine, não se trata de unir todos em torno da mesma causa, por mais justa que ela seja, de realizar a unidade absoluta, de unir-se não importa com quem. A unidade, como qualquer outra realidade, está sujeita às transformações quantitativas, positivas ou negativas. A questão é descobrir qual é o grau de unidade suficiente que pode permitir o desencadear e garantir o avanço vitorioso da luta. E, posteriormente, preservar essa unidade contra todos os factores de dissolução ou divisão, tanto internos como externos. 

Por outro lado, Lénine tinha uma consciência profunda da necessidade de conhecer o melhor possível, na luta, as forças e as fraquezas do inimigo, tal como as nossas próprias forças e fraquezas. A concepção leninista da estratégia implica que devemos agir no sentido de aumentar as fraquezas do inimigo e transformar as suas forças em fraquezas e, simultaneamente, preservar e reforçar as nossas forças e eliminar as nossas fraquezas ou transformá-las em forças. Isto é possível pela aliança permanente e dinâmica entre a teoria e a prática.

 A vida de Lénine é a aplicação consequente desta máxima dialéctica de Paul Langevin: o pensamento deriva da acção e, no homem consciente, deve regressar à acção. Isso implica que, como Lénine demonstrou através de toda a sua vida, a acção deve basear-se na análise concreta de cada situação concreta. De acordo com Lénine, tanto na luta como em qualquer outro fenómeno em movimento, as transformações qualitativas só se operam a partir de determinado nível de modificações quantitativas, o que significa que o processo da luta evolui por etapas, por fases bem definidas. Nessa base e nesta perspectiva devem ser estabelecidas as tácticas a seguir, que são incompatíveis mesmo com os recuos que, em determinados momentos, podem ser o único meio de fazer progredir a luta.

Qualquer luta é experiência nova, seja qual for a soma de conhecimentos teóricos ou de experiências práticas que lhe dizem respeito. Qualquer luta implica, portanto, um determinado grau de empirismo, mas não é necessário inventar o que já o foi: é sim preciso criar nas condições concretas em que a luta se trava. 

Ainda neste ponto a lição de Lénine é pertinente: ele detestava tanto o empirismo cego como os dogmas. A assimilação crítica (dos conhecimentos ou das experiências dos outros) é tão válida para a vida como para a luta. O pensamento dos outros, filosófico ou científico —por mais lúcido que seja—, é apenas uma base que permite pensar e agir, portanto, criar. Para criar na luta é necessário conduzi-la, desenvolver todos os esforços e aceitar os sacrifícios necessários. A luta não é feita de palavras mas de acção quotidiana, organizada e disciplinada, de todos os elementos válidos. A actividade múltipla desenvolvida por Lénine no decurso de uma longa luta é um exemplo de continuidade e consequência, de esforços e sacrifícios, assim como da capacidade para mobilizar as forças necessárias no tempo e no espaço necessários.

Demonstrando que, numa luta, as dificuldades subjectivas são as mais difíceis de ultrapassar, Lénine tinha consciência desta realidade: a luta é feita de êxitos e fracassos, de vitórias e derrotas, mas avança sempre e as suas fases, mesmo as mais idênticas, nunca se repetem, pois a luta é um processo e não um acidente, uma corrida de fundo e não de velocidade: as derrotas eventuais não podem justificar nem a desmoralização nem a desistência, porque mesmo os insucessos podem ser uma base de partida para novos êxitos. 

Essa ultrapassagem só é possível se extrairmos uma lição de cada erro, de cada experiência positiva ou negativa e partindo do princípio de que, se é certo que a teoria sem prática é uma perda de tempo, não há prática consequente sem teoria. 

Principal artífice da grande Revolução de Outubro, que modificou o destino não apenas do povo russo mas da humanidade; criador do primeiro Estado socialista; dirigente supremo da Revolução nas antigas colónias tsaristas; teórico e prático conhecedor na solução do delicado problema que representava a questão nacional no país dos sovietes; militante catalisador do movimento operário internacional — Lénine marcou o século e o futuro do homem com a sua personalidade de revolucionário, legando às gerações que lhe sucederam uma obra tão singular como cheia de lições. Para os movimentos de libertação, Lénine forneceu mais esta valiosa contribuição: demonstrou, definitivamente, que os povos oprimidos podem libertar-se e ultrapassar todos os obstáculos para a construção de uma vida de justiça, de dignidade e de progresso. 

É desejável que, independentemente das suas tendências ou opções políticas, os autênticos movimentos de libertação possam beber nas lições e no exemplo de Lénine a inspiração necessária para o seu pensamento, para a sua acção e para o comportamento moral e intelectual dos seus dirigentes. No interesse geral da luta contra o imperialismo e se tivermos em consideração algumas contradições que caracterizam as actuais relações entre as outras forças anti-imperialistas e mesmo alguns aspectos da sua acção, não seria justo nem, talvez, objectivo limitar esse desejo unicamente aos movimentos de libertação.

Acontece hoje com a doutrina de Lénine o que já se verificou mais de uma vez na história com as doutrinas dos pensadores revolucionários e dos chefes de classes ou nações oprimidas em luta pela sua libertação. Durante a vida dos grandes revolucionários, as classes opressoras recompensam-nos com incessantes perseguições: acolhem as suas doutrinas com um furor selvagem, com um ódio tenaz, com as mais intensas campanhas de mentiras e calúnias. Depois da sua morte, tentam fazer deles ícones inofensivos, canonizam-nos, por assim dizer, rodeando o seu nome com uma certa auréola a fim de «consolidar» as classes ou as nações oprimidas e de as mistificar; fazendo-o, esvaziam a doutrina revolucionária do seu conteúdo, depreciam-na e destroem-lhe a força revolucionária. 

É nessa forma de «arranjar» o leninismo que hoje coincidem a burguesia e os oportunistas, tanto do movimento operário como do movimento de libertação nacional. Esquecem, amordaçam, alteram o lado revolucionário da doutrina, a sua alma revolucionária. Colocam em primeiro plano e exaltam o que é ou parece ser aceitável, mesmo conveniente, para a burguesia e para o imperialismo.

O leitor deve já ter notado que o que acaba de ler é a paráfrase de parte de uma lapidar afirmação de Lénine referente a Marx. Modificámos os nomes e adaptámos o discurso à realidade essencial da história dos nossos dias: a luta de vida ou de morte contra o imperialismo. Temos de admitir que o discurso se adapta perfeitamente ao próprio Lénine, em especial quando consideramos o que ele escreveu sobre o imperialismo e a luta contra o domínio imperialista. 

Sem ter a pretensão ou a audácia de querer restabelecer a doutrina de Lénine acerca do movimento de libertação nacional, gostaríamos, no entanto, de evocar determinados aspectos que nos parecem importantes —, principalmente para os que lutam pela libertação e o progresso dos seus povos. 

Lénine demonstrou de forma muito clara que o movimento de libertação nacional, que adquiriu força desde o começo do século não é um facto novo na história. Em todos os continentes, em épocas mais ou menos recuadas, houve, não apenas luta de libertação tribal ou étnica mas também movimento de luta de libertação nacional. Os povos da antiga Indochina e de outras regiões da Ásia; do México, da Bolívia e de outros países do continente americano; da Grécia, dos Balcãs em geral, mesmo de Portugal, na Europa; do Egipto, da África Oriental e da África Ocidental — para só citar estes — tiveram, no passado, a sua experiência de luta de libertação nacional. 

Esses movimentos sofreram vitórias ou derrotas, mas existiram e deixaram vestígios indeléveis nos povos que afectaram, no âmbito das coordenadas históricas das sociedades em questão, numa determinada etapa da evolução económica e política da humanidade. 

Não há no entanto lugar para confusões. Lénine demonstrou que o império romano, por exemplo, não é a mesma realidade histórica que o império britânico, embora ambos tenham em comum o que parece ser, até agora, uma necessidade ou uma constante nas relações entre as sociedades humanas: a tentativa ou o êxito do domínio político e da exploração económica de certos povos ou nações por Estados estrangeiros ou, o que vem a dar no mesmo, por classes dirigentes estrangeiras.

É evidente que Carlos Magno não foi nem podia ser César ou Átila, mas é ainda mais evidente que qualquer chefe de Estado imperialista não é, nem poder ser, o Gana do império africano que tem o seu nome, nem um imperador da família dos Ming, nem um Cortez, conquistador das Américas, nem o tsar das Rússias. Da mesma maneira e pelas mesmas razões, os bancos e os monopólios imperialistas não são as antigas associações dos comerciantes de Veneza ou a Liga Hanseática. 

Lénine demonstrou que a luta de libertação contra o domínio de uma aristocracia militar (tribal ou étnica), contra o domínio feudal e mesmo contra o domínio capitalista estrangeiro do tempo do capitalismo de livre concorrência não é a mesma realidade histórica que a luta de libertação nacional contra o imperialismo, contra o domínio económico e político dos monopólios, do capitalismo financeiro, actuando sob a forma do colonialismo, do neocolonialismo. Tomou-se e deve ser evidente para todos hoje que o aparecimento do imperialismo operou uma transformação profunda e irreversível no movimento de libertação nacional, definindo-se este como a resistência natural e necessária ao domínio imperialista.

Definindo as características internas e externas do imperialismo — estado supremo do capitalismo, resultado da concentração do capital financeiro em algumas empresas de uma meia dúzia de países, domínio insaciável dos monopólios —, Lénine caracterizou simultaneamente as transformações irreversíveis operadas no conteúdo e na forma do movimento de libertação nacional, do qual previu, cientificamente, a linha geral de evolução. 

Cabe a Lénine o mérito de ter revelado, e mesmo previsto, as realidades essenciais da luta dos nossos dias, pois foi até ao fundo na análise do facto imperialista e da luta geral contra o imperialismo.

 Na sua crítica genial, Lénine esclareceu o carácter essencialmente económico do imperialismo, estudou as suas características internas e externas e as suas implicações económicas, políticas e sociais, tanto dentro como fora do mundo capitalista. Pôs em relevo as forças e as fraquezas dessa nova realidade que é o imperialismo (quase da sua idade), que abriu novas perspectivas à evolução da humanidade.

  Situando geograficamente o fenómeno imperialista no interior de uma parte bem definida do mundo; distinguindo o factor económico das suas implicações políticas ou político-sociais, sem esquecer as relações de dependência dinâmica entre esses dois aspectos de um mesmo fenómeno; e caracterizando as relações do imperialismo com o resto do mundo, Lénine situou objectivamente tanto o imperialismo como a luta de libertação nacional nas suas verdadeiras coordenadas históricas. Estabeleceu assim, de forma definitiva, a diferença e as ligações fundamentais entre o imperialismo e o domínio imperialista. 

A análise de Lénine revela-se desta forma como um encorajamento realista e uma arma poderosa para o desenvolvimento ulterior e multilateral do movimento nacional libertador. É necessário, no entanto, notar que esta análise vai ainda mais longe na contribuição que fornece à evolução desse mesmo movimento. 

Com efeito, se podemos dizer que Marx, principalmente na sua obra principal — O Capital —, procedeu à anatomia ou à anatomia patológica do capitalismo, a obra de Lénine referente ao imperialismo pode ser considerada como a pré-autópsia do capitalismo moribundo. Não é exagerado afirmar que, para ele, a partir do momento em que o domínio económico e político do capital financeiro (os monopólios) se consolidou em alguns países e se concretizou no exterior desses países pelo movimento de partilha do mundo, especialmente em África, com o monopólio das colónias—o capitalismo, tal como se definira anteriormente, transformou-se num corpo em putrefacção. 

Um estudo, mesmo superficial, da história económica contemporânea dos principais países capitalistas (talvez mesmo dos menos importantes), revela que a luta tenaz entre o capital financeiro (representado pelos monopólios e os bancos) e o capital de livre concorrência se salda geralmente pela vitória do primeiro, isto é, do imperialismo.

Temos pois de verificar que Lénine tinha razão: o capitalismo criou o imperialismo e criou simultaneamente os elementos propícios à sua destruição. O imperialismo matou e continua a matar o capitalismo. Com efeito, as transformações profundas realizadas nas relações de forças no âmbito da livre concorrência levaram aos monopólios, à acumulação gigantesca do capital financeiro privado no interior de certos países e, como consequência disso, ao domínio político destes pelos monopólios, o que os transformou em países imperialistas. Esta nova situação está na origem de uma confrontação permanente, aberta ou não, «pacífica» ou não, entre os países imperialistas que procuram novos equilíbrios na relação de forças, em função do grau relativo de desenvolvimento das forças produtivas e da necessidade crescente tanto de obter matérias-primas como de conquistar mercados, isto é, da realização insaciável de mais-valia ou de rendimento para o capital financeiro.

Com base numa análise tão lúcida e realista, era normal que Lénine extraísse conclusões importantes para o desenvolvimento ulterior da luta contra o imperialismo. 

Entre essas conclusões, estas parecem-nos extremamente ricas em consequências: 

A acumulação desenfreada do capital financeiro e a vitória dos monopólios como fase última da apropriação privada dos meios de produção—com o agravamento da contradição entre essa apropriação e o carácter social do trabalho produtivo—criaram as condições propícias à revolução, que progressivamente acabará com o regime capitalista, actualmente representado pelo imperialismo. 

É possível, necessário e urgente fazer a revolução, se não em vários países, pelo menos num, principalmente no momento em que a agressividade característica do imperialismo se manifesta numa guerra entre os países capitalistas para uma nova partilha do mundo (Primeira Guerra Mundial). 

A criação de um Estado socialista desferirá um golpe decisivo no imperialismo e abrirá novas perspectivas ao desenvolvimento do movimento operário internacional e do movimento de libertação nacional.

É possível uma nova confrontação armada entre os Estados imperialistas-capitalistas, pois a hipótese do ultra-imperialismo ou superimperialismo, que resolveria as contradições entre os Estados imperialistas «é tão utópica como a da ultra-agricultura». Essa confrontação enfraquecerá inevitavelmente o imperialismo (Segunda Guerra Mundial). Criar-se-ão assim condições mais favoráveis para o desenvolvimento das forças cujo destino histórico é destruir o imperialismo: instalação do poder socialista em novos países, reforço do movimento operário internacional e do movimento de libertação nacional. 

Os povos oprimidos da África, da Ásia e da América Latina são necessariamente chamados a desempenhar um papel decisivo na luta pela liquidação do sistema imperialista mundial, de que são as principais vítimas. 

Estas conclusões de Lénine, explícita ou implicitamente contidas na sua obra consagrada ao imperialismo e confirmadas pelos actos da história contemporânea, são mais uma notável contribuição para o pensamento e para a acção do movimento de libertação. 

Sendo marxista ou não, leninista ou não, é difícil a alguém não reconhecer a validade, mesmo o carácter genial da análise e das conclusões de Lénine, que se revelam de um alcance histórico imenso, iluminando com uma claridade fecunda o caminho

quantas vezes espinhoso e mesmo sombrio dos povos que se batem pela sua libertação total do domínio imperialista.

https://www.marxists.org/portugues/cabral/1970/04/40.htm

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

O “Diário de um retorno ao país natal” de Aimé Césaire, por Leo Gonçalves

CRÍTICAPOESIATRADUÇÃO

O “Diário de um retorno ao país natal” de Aimé Césaire, por Leo Gonçalves

Uma das publicações mais importantes feitas recentemente no Brasil, a meu ver, mas que passou em brancas nuvens, foi o revolucionário poema Diário de um retorno ao país natal [Cahier d’un retour au pays natal], de Aimé Césaire, editado pela Edusp em 2012 com tradução e estudos de Lilian Pestre de Almeida. Se contarmos a data de sua versão definitiva, a obra chega ao país com um atraso de pelo menos 56 anos.

Aimé Césaire (1913-2008) foi poeta e político martinicano. Estudou em Paris numa época em que se respirava a arte de vanguarda. Interessou-se pelo surrealismo na mesma época em que formou, junto com Léopold Sédar Senghor, Léon-Gontram Damas e outros, um grupo de discussões sobre identidades e valores culturais do homem negro. Fundaram, nesta época, o jornal L’Étudiant Noir, onde aparece escrita, pela primeira vez a palavra Negritude:

(…) queremos explorar os nossos próprios valores, conhecer os nossos próprios valores, conhecer as nossas forças por experiência pessoal, cavar a nossa própria profundeza, as fontes eruptivas do humano universal, romper a mecânica identificação das raças, rasgar os superficiais valores, abarcar em nós o negro imediato, plantar a nossa Negritude como uma bela árvore até que ela traga os frutos mais autênticos[1].

Considerado um dos maiores poetas da língua francesa no século XX, Césaire foi saudado por André Breton (“E é um Negro que maneja a língua francesa como não há hoje um Branco para manejá-la”) que considerava o Diário “o maior monumento lírico de seu tempo”. Jean-Paul Sartre, nos anos 1940, o via como o grande poeta vivo da língua francesa: “Em Césaire, a grande tradição surrealista se acaba, toma seu sentido definitivo e se destrói: o surrealismo, movimento poético europeu, é roubado dos europeus por um negro que o volta contra eles e lhe assinala uma função definida.”[2] Seu enterro em 2008, por fim, ganhou obséquias nacionais do governo francês, homenagem geralmente prestada a personalidades francesas, mas antes concedida somente a dois outros poetas: Paul Valéry e Victor Hugo.

Diário de um retorno ao país natal é o primeiro poema de Césaire que se tem notícia. Teve sua primeira aparição na revista Volontés, n. 20, de agosto de 1939. Foi revisto, reescrito e aumentado ao longo de pelo menos 17 anos, quando por fim foi publicado pela Présence Africaine, que o edita até hoje. Pode, dentre suas diversas leituras possíveis, ser considerado o poema fundador da identidade cultural martinicana. Espécie de epopeia espiritual, relata o mergulho interior em busca de sua camada mais profunda. Como nos programas estéticos do surrealismo, o poeta faz uma busca do inconsciente e um esforço de supressão das camadas sociais impostas. Ao retirar essas camadas, encontra aquilo que ele chama de “Negre essentiel” [Negro essencial], a África e seus valores presentes e sobreviventes no homem negro contemporâneo.

O retorno (retour) sugerido no título é também um desvio (detour). Inconformista inconformado, Césaire não gostava (nos primeiros anos de sua vida) da Martinica onde havia crescido. De maioria negra, a ilha era segregadora, mantendo seu povo de ex-escravos em condições subalternas e sub humanas, trabalhando em lavouras de cana para uns poucos fazendeiros békés (brancos que permanecem em race pure desde sua chegada no século XVII) ou levando uma difícil vida urbana. Além disto, a ilha, tal como a maioria do Caribe, era o paraíso, a promessa de descanso de americanos e franceses. Os negros que conquistavam uma melhor condição de vida, passavam a se vestir como e a adotar os costumes dos colonizadores. O próprio partido comunista martinicano defendia a doutrina do assimilacionismo, ou seja, que a ilha fosse “assimilada” pelo governo francês. Césaire porém, ao partir para a Europa, acaba por redescobrir sua própria terra. Especialmente quando, ao visitar seu amigo Petar Guberina, avista a ilha de Martiniska no Mediterrâneo, uma epifania que, segundo o autor, estaria na gênese do poema.

O país natal de Césaire é, ao mesmo tempo, a Martinica, sua ilha caribenha com a qual se reconcilia ao longo do poema, e também a África, que ele redescobre como da maior importância para a saúde de seu povo que, ao fazer esse poema (e isso não é um exagero) reinventa. “A saúde da literatura, como escrita, consiste em inventar um povo que falta” (Deleuze[3]).

porque não é verdade que a obra do homem está acabada
que não temos nada a fazer no mundo
que parasitamos o mundo
que basta que marquemos o nosso passo pelo passo do mundo
ao contrário a obra do homem apenas começou
e falta ao homem conquistar toda interdição imobilizada nos recantos do seu fervor
e nenhuma raça possui o monopólio da beleza, da inteligência, da força
e há lugar para todos no encontro marcado da conquista e sabemos agora que o sol gira em torno da terra iluminando a parcela fixada por nossa única vontade e que toda estrela cai do céu na terra pelo nosso comando sem limite.[4]

O “retorno” se faz “desvio” na própria estrutura do poema. Numa primeira seção, o personagem-poeta faz um mergulho nas sombras, busca das imagens interiores e de esparsas recordações da infância. Há um leitmotiv “No fim da madrugada” que ele repete incessantemente, mantendo o tom onírico, entre o sono e a insônia. Enumera cânticos, paisagens solares, espelhos, como numa descida aos infernos da memória.

…..E não são unicamente as bocas que cantam, mas as mãos, os pés, as nádegas, os sexos, e a criatura inteira que se liquefaz em sons, voz e ritmo.

…..Chegando ao ápice de sua ascensão, a alegria arrebenta como uma nuvem. Os cantos não param, mas rolam agora inquietos e pesados pelos vales do medo, os túneis da angústia e os fogos do inferno.

…..Cada um põe-se a comer o pão que o diabo mais próximo amassou até que o medo se desfaça invisivelmente nos finos areais do sonho, e vive-se verdadeiramente como num sonho, e bebe-se e grita-se e canta-se como num sonho, cochilando também como num sonho com pálpebras de pétalas de rosa, e o dia chega aveludado como um sapoti, e o aroma de chorume dos cacaueiros, e os perus que desfilam suas pústulas rubras ao sol, e a obsessão dos sinos, e a chuva

…..os sinos… a chuva..

…..que repicam, repicam, repicam…

No fim da madrugada, essa cidade achatada – exposta… [5]

Essa seção pode ser lida como um inventário inacabado de recordações como quem recolhe seu povo (si mesmo?) entre os destroços. Logo o tom do poema se transforma, oscilando entre a revolta e o murmúrio. São dois pulsos de uma mesma ideia.

Quem e o que somos? Admirável pergunta!
De tanto olhar as árvores tornei-me uma árvore e meus longos pés de árvores cavaram no solo largas bolsas de veneno altas cidades de ossadas
de tanto pensar no Congo
tornei-me um Congo farfalhante de florestas e rios
onde o chicote estala como um grande
estandarte
o estandarte do profeta
onde a água faz
licualá-licualá
onde o raio da cólera lança seu machado esverdeado e acua os javalis da putrefação na bela orla violenta das narinas[6]

Pouco a pouco ele encontra e fabrica os termos de sua própria negritude. Declara que “a velha Negritude se cadaveriza” para dar lugar ao homem novo, de pé, que olha para o seu futuro de frente.

E está de pé a negrada

a negrada arriada
inesperadamente de pé
de pé no porão
de pé nas cabines
de pé na ponte
de pé ao vento
de pé sob o sol
de pé no sangue
……….de pé
…………………e
………………………livre

Ao reconformar e ressignificar sua relação com seu “país” (a Martinica) e com sua “terra” (a África), Césaire prenuncia sua longa trajetória posterior de ativista pelos direitos do negro, sua luta anticolonial, sua postura de pedra no caminho do racismo e da injustiça, sua poesia e sua obra teatral subsequente, verdadeira lança em punho, sua, por fim, história como líder político de seu povo, sendo ao mesmo tempo grande exemplo para outros povos que lutavam por emancipação ao longo do século XX.

E eis no fim desta madrugada minha prece viril
Que eu não ouça nem risos nem gritos, os olhos fixos nessa cidade que profetizo, bela
dai-me a fé selvagem do feiticeiro
dai às minhas mãos poder de modelar
dai à minha alma a têmpera da espada
não me esquivo. Fazei da minha cabeça uma cabeça de proa
e de mim mesmo, meu coração, não façais nem um pai nem um irmão, nem um filho, mas o pai, mas o irmão, não um marido, mas o amante deste povo único.

Fazei-me rebelde a toda vaidade, mas dócil ao seu gênio
Como o punho no estender do braço!
fazei-me comissário do seu sangue
fazei-me depositário do seu ressentimento
fazei de mim um homem de conclusão
fazei de mim um homem de iniciação
fazei de mim um homem de recolhimento
mas fazei também de mim um homem de semeadura

fazei de mim o executor dessas obras altas
é chegado o tempo de cingir os rins como um cavaleiro ─

Mas fazendo-o, meu coração, preservai-me de todo ódio
Não façais de mim esse homem de ódio por quem só tenho …..[ódio
Pois embora me restrinja a essa raça única
sabeis no entanto meu amor tirânico
sabeis que não é por ódio das outras raças
que me exijo lavrador dessa raça única
o que quero é pela fome universal
pela sede universal

intimá-la livre enfim
a produzir de sua intimidade fechada
a suculência dos frutos [7].

O lugar de enunciação é uma Martinica negra com devir africano. Mas seu escopo aponta para o “universal”. Não o universal do um para todos. “A poesia não produz universal, não, ela dá à luz sacodimentos que nos transformam”, afirma Edouard Glissant[8] a respeito do Cahier. É uma escrita de fúria lautréamontiana, realizada sem pedidos de concessões, repleta de experimentação.

Por isso, a tarefa de traduzir este poema não é nenhum pouco simples. Sua forma serpenteante (às vezes em verso livre, às vezes em prosa reminiscente, às vezes em frases soltas) pode dar a falsa ideia de ausência de ritmo, mas este mesmo poema rendeu ao autor a acusação de “exagerar no ritmo do tam-tam”, acusação que levou à resposta de seu amigo Senghor: “como se não fosse próprio às zebras possuir zebruras”. Além da força rítmica, o vocabulário é dos mais herméticos, com palavras até hoje controversas. Césaire gostava de palavras estranhas, incluía vocábulos sérvios, árabes, ioruba, wolof, kréol, expressões trazidas do latim clássico, do grego e até de línguas orientais. A especificidade do vocabulário de Césaire foi o tema de um interessante trabalho, publicado por René Hénane, o Glossaire de termes rares dans l’oeuvre d’Aimé Césaire. Outro interessante trabalho, Le theme du retour dans le Cahier d’un retour au pays natal (Aimé Césaire), da indiana Gloria Saravaya, relaciona o poema às formas mais diversas da oralidade, incluindo aí seus aspectos gestuais. Tudo isso sem impedir que o poema tenha se tornado uma das obras mais populares da língua francesa em territórios tão diversos como as Antilhas, o Canadá, a França e grande parte da África. Como transplantar tudo isso para o falar brasileiro? Também traduzir um texto consiste na reinvenção de um povo. E é essa a operação realizada por Lilian Pestre de Almeida, acompanhada de um interessante estudo sobre a obra, cobrindo uma lacuna imperdoável para a cultura brasileira que tanto se gaba de sua “mestiçagem” sanguínea e, principalmente, cultural.

Notas

[1] Trecho do artigo “Nègreries: jeunesse noire et assimilation” [Negrarias: juventude negra e assimilação] de Césaire citado em Louis, Patrice. ABCésaire. Paris: Ibis Rouge, 2003 p. 42.
[2] Sartre, J-P. “Orphée noir” em Anthologie de la nouvelle poésie nègre et malgache de langue française. Paris: Puf/Quadrige, 2008. p. XXVIII
[3] Deleuze. Crítica e clínica. São Paulo: 34, 1997. p. 14.
[4] Diário de um retorno ao país natal, p. 81
[5] Idem, p. 21.
[6] Idem, p. 37.
[7] Idem. p. 69
[8] Glissant, Edouard. La cohée du lamentin. Paris: Gallimard, 2005. p. 108.

Leo Gonçalves

11/02/2014

~
https://escamandro.wordpress.com/2014/02/11/o-diario-de-um-retorno-ao-pais-natal-de-aime-cesaire-por-leo-goncalves/

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Martinho Júnior .- INCLINAÇÃO CONTRA NATURA

.segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

*  Martinho Júnior.

..

Martinho Júnior, Luanda 

“REMEMBER” HAITI!

Em África fica-se com a sensação que jamais se foi tão longe quanto o necessário para resgatar toda a humanidade não só dum passado genocida como de um presente de domínio hegemónico que se nutre dos modos e dos tempos desse genocídio, da escravatura sua contemporânea, do colonialismo, do “apartheid” e de todas as sequelas desse longo processo de degradação ética e moral de muito mais de 5 séculos!

Explicá-lo em termos dialéticos é um processo fecundo que está por muito averiguar e aprofundar, porque muitas convenções ditadas por longos processos de aculturação à “civilização ocidental” têm sido mantidas, garantindo a formatação mental dos africanos, limitando-os, confinando-os, enfim, subjugando-os!... 

Um dos marcos a considerar é incontornavelmente a questão do Haiti que África desconhece, em muitos casos recusando-se a abordá-la, de tão inibida que está pelas convenções “ocidentais”, conforme se pode verificar, por exemplo, por via da agenda dos países de África, Caraíbas e Pacífico. “ACP”…

África recusa-se basicamente a debruçar-se sobre a revolução dos escravos de há mais de 200 anos no Haiti, a revolução que marcou a ignição das lutas armadas de libertação desde logo na América… e recusa-se a debruçar-se também porque todo o processo libertário do Haiti foi propositadamente inquinado não só pelo poder das potências colonizadoras (e neocolonizadoras) desde então, mas porque dando sequência à IIª Guerra Mundial, a hegemonia unipolar sustentada pelo exercício anglo-saxónico cada vez mais a partir dos Estados Unidos, multiplicou as ingerências e as manipulações sobre as pequenas ilhas das Caraíbas desde a inércia da sua própria expansão, intoxicando premeditadamente todo o conhecimento e compreensão histórica e antropológica que pudesse haver sobre a revolução haitiana e sobre o que se foi abatendo sobre o Haiti! 

A luta armada de libertação em África desse modo confinou-se às convenções “ocidentais” não só temporalmente (historicamente), mas também antropológica, sociológica, psicológica e sobretudo ideologicamente!... 

Sobretudo ideologicamente por que a história da escravatura dos afrodescendentes na América e a ignição revolucionária que constituiu a revolução dos escravos do Haiti, ou foram amputadas da memória de África, ou sofreram manipulações de interpretação por parte dos interesses de domínio que culminaram no império da hegemonia unipolar!

Figuras como Franz Fanon, que estudou a psicologia do opressor e do oprimido (“Os condenados da Terra”) e o estado latente de ruptura do seu inter relacionamento, ou de Amílcar Cabral que se propunha ao “suicídio de classe” para fazer emergir a figura do combatente da luta armada de libertação em África, são nesse aspecto algumas das excepções que merecem a referência e a honra próprias dum patamar de cultura de que África se alheou!

As suas abordagens sendo excepção, não tiveram suficiente continuidade, nem mereceram a preocupação no sentido de se aprofundar o conhecimento histórico e antropológico que mergulha nos fenómenos do genocídio, da escravatura e do próprio colonialismo inerentes aos sucessivos expedientes de domínio sobre o Sul Global!

Assim o conceito de ruptura ficou mutilado, confinando-se às premissas marxistas-leninistas que só surgiram com a introdução da máquina ao invés da força braçal do trabalho escravo, com o advento da Revolução Industrial com expressão colonial na Conferência de Berlim!

Essa mutilação esteve também na base da sobrevalorização dos conceitos da “Guerra Fria” estimulados acima de tudo pelo processo de domínio que conduziu ao império da hegemonia unipolar, acompanhado no seu reverso pela subvalorização das capacidades de Não-Alinhamento, apesar da Conferência de Bandung e do seu dramático espectro no Sul Global (lembre-se o que aconteceu em relação à Indonésia e à Jugoslávia, a título de exemplo).

A carga energética e mental para se abordar o que ao imperialismo diz respeito, no Sul Global deve ser anterior à Revolução Industrial!

É a revolução cubana primeiro, quando o Comandante Fidel assumiu a necessidade de se pagar a dívida ética e moral para com África, ou a revolução bolivariana, quando desenterra do olvido a gesta do prócer da independência Lourenço Chirindo, antecessor de Simon Bolivar, que se aproximam da interpretação mais justa e mais saudável das profundas (e profícuas) raízes da luta armada de libertação no Sul Global, que remontam a épocas antes da revolução industrial!

Fazem-no enquanto nações, estados e povos caribenhos também afrodescendentes que revelam, além de José Marti e de Simon Bolivar, a gesta do Haiti e respeitam os imensos ensinamentos que há a colher dela!

A legitimidade sobre a ruptura portanto não se consumou no patamar saudável em benefício de toda a humanidade, nem no espaço, nem no tempo, pelo contrário: a necessidade de ruptura nestes tempos decisivos de mudança de paradigma, recrudesceu, dado o bárbaro carácter da hegemonia unipolar e o peso de seus tentáculos, vassalagens e “emparceiramentos” contra natura, por África adentro!

Ao contrário das nações e povos autóctones da América, os africanos perderam-se em convencionados labirintos que não tocaram suas próprias raízes desde os críticos aspectos transatlânticos de sua escravatura!

OS AFRICANOS ESTÃO LIMITADOS E CONFUNDIDOS NA VISÃO DE SI PRÓPRIOS E DOS OUTROS!

A base da percepção dos africanos sobre si próprios e sobre os outros, estando convencionada, limitada, confinada e confundida (fazendo-se deliberadamente uso dos chavões do interesse e conveniência dos processos de domínio), não só rejeita a perceção sobre o Haiti, mas inibe a percepção sobre a história contemporânea do Haiti, tal como o estado neocolonial em que os povos se encontram!

Em África quem ousa estudar o Haiti e as lições que se desprendem de sua história?

Esse estado de prostração por inibição, é já um estado mental propício ao neocolonialismo e evidencia-se à medida que se vão esclarecendo os processos de domínio hegemónico unipolar eminentemente anglo-saxónicos, processos que lançam mão de seu poder “hard power” como do seu poder “soft power”!

O poder instrumentalizado do Pentágono revela-nos precisamente isso e é assim que o Comando África contempla “hard power” e “soft power”, ou seja, um misto de exercício militar confundido com os parâmetros de inteligência “civis”…

São esses poderes que criaram e recriaram chavões generalistas impeditivos de apreciação consciente rebelde, capaz de levar por diante a legítima ruptura, como o termo “Guerra Fria”, ou ainda o conceito sobre “esquerda” e “direita”, quando o verdadeiro conceito que conta é a luta de libertação quando segue a lógica com sentido de vida… ou a sua inexistência!

O domínio da hegemonia unipolar condiciona ainda mais os conceitos e as interpretações dos africanos, como se a ruptura fosse um processo não mais vigente, ultrapassado no espaço e no tempo, subvertendo desse modo as ideologias que nutrem o poder em África, a ponto de procurar separar classes dirigentes de todos os outros substractos sociais e prejudicando qualquer veleidade de gerar, sob os escombros da Conferência de Berlim e onde quer que seja, desde logo “um só povo e uma só nação”!

As amarras mentais que prendem os africanos às convenções “ocidentais” foram-se institucionalizando e por isso África tem tantas dificuldades em sair do pântano duma economia ultraperiférica tal qual hoje se encontra!

Com a mudança de paradigma em curso, essa confusão lançada sobre os africanos que estão longe de consumar a ruptura porque ideologicamente confinados, limitados e pressionados, torna-se mais exposta, daí, por exemplo, estarem-se a condenar de forma tão convencionada, os golpes de estado contra os expedientes da “FrançAfrique”, quando eles se tornaram mais-que-legítimos nos termos da ruptura neocolonial que está por fazer! 

A confusão contudo vai mais longe e revela-se nas apreciações que se fazem em relação aos outros, por vezes nutridas de intestinos contraditórios!

O próprio fenómeno de luta armada de libertação está assim em cheque, como está em cheque até onde ele continua a ser legítimo!

As interpretações sobre a libertação da Europa demonstram esse dilema que repesca a “Guerra Fria” e os conceitos inculcados de “esquerda” e “direita” por via da confusão que não leva em conta subjacentes contraditórios, considerando por exemplo que o “apartheid” sul-africano está em pé de igualdade com as iniciativas em curso por parte da Federação Russa, integradas num amplo processo de mudança de paradigma!

Apagar a necessidade de ir mais longe na legitimidade da luta de libertação, é isso que nos traz o capitalismo neoliberal, porque é ele que hoje introduz neocolonialismo!

Há uma crise existencialista em África: “to be or not to be”?!...

ALINHAR COM AS REGRAS DA HEGEMONIA UNIPOLAR?

No seguimento da Cimeira Estados Unidos – África (retiramos propositadamente o termo América), o Presidente João Manuel Gonçalves Lourenço deu uma entrevista à “Voice of America”, uma entidade conhecida como um instrumento “soft power” da Central Intelligence Agency, CIA.

Na entrevista ao “senhor Angola” da “VOA”, o veterano João Santa Rita e no que diz respeito ao choque que se faz sentir no campo de batalha da Ucrânia, num momento em que os emergentes vão marcando a mudança de paradigma desmascarando as pretensões da “civilização ocidental” regida pelos anglo-saxónicos “straussianos”, o argumento para o voto favorável à Ucrânia “desalinha” Angola em relação à percepção histórica dum contencioso que já leva séculos!...

“Desalinha” também Angola da lógica com sentido de vida!

O “Grande Jogo” da tensão entre a Rússia e o Império Britânico, sintomaticamente ocorre desde o tempo da revolução dos escravos no Haiti, advindo ambos os fenómenos históricos do início do século XIX… 

… No imenso continente Asiático-Europeu (assim se deve considerar com os olhos do Sul Global ao invés do apelativo conceito que se expressa como “continente Euroasiático”), tem tido a “ilha” interior do Afeganistão a charneira do impasse, tal como o Haiti nas Caraíbas, se levarmos em conta Cuba versus Estados Unidos, ou Venezuela Bolivariana versus Estados Unidos…

De facto na Ásia-Europa o choque entre uma potência marítima como o foi o Reino Unido (agora o seu legado são os Estados Unidos) e uma potência transcontinental como a Federação Russa e com os olhos na China, não pode ficar sem profunda referência face aos contenciosos actuais que nas Caraíbas se distendem também sobre o impasse do Haiti!

A ruptura que há a fazer sendo contra o neocolonialismo, é pela libertação das nações, dos estados e dos povos do Sul Global, ou seja a libertação justa de toda a humanidade que só tem uma saída: lógica com sentido de vida!

As opções a favor da libertação de toda a humanidade do fardo que constitui a hegemonia unipolar, ganham hoje uma revigorada expressão e impulso, porque é a opção ética, moral e cívica que deve nutrir todo o Sul Global como antes a revolução dos escravos no Haiti, ou a luta armada de libertação em África!

Compreende-se desse modo a tensão em que se encontra a Europa e a pressão no sentido de sua libertação pois a Europa, além de ocupada militarmente, tem sido instrumentalizada enquanto vassala, a ponto de estar à beira de se tornar de novo “carne para canhão”!

O “desalinhamento contra natura” de Angola começou a ser feito alinhando-a de facto com a opção marítima dos piratas e corsários de sempre, a perversa versão dos acontecimentos segundo a trilha de Sua Majestade Britânica, contrariando a coerência de 47 anos de Não-Alinhamento que impôs imensos sacrifícios sim, mas manteve, a nível dos relacionamentos internacionais, o “alto facho levado aceso” do MPLA sobre todas as patrióticas cabeças dos que se têm identificado com o povo angolano e com todos os povos africanos, particularmente os da África Austral e Central, ainda que no alheamento das lições emanadas desde a saga histórica do Haiti.

A OPÇÃO PELA HEGEMONIA, ESTÁ À BEIRA DE SER UMA OPÇÃO PELA ESPADA DOS QUE ESTÃO DESTINADOS A “CARNE PARA CANHÃO”!

O “desalinhamento contra natura” da Angola, ao invés de seguir a cultura do Não-Alinhamento recomendável para África (que continua a ser uma ultraperiferia económica, pasto dos artifícios coloniais e neocoloniais advenientes de antes dos tempos da Conferência de Berlim conforme comprova o alheamento sobre a revolução dos escravos do Haiti enquanto ignição de outras libertárias revoluções), vai com cada vez mais evidências no sentido da barbárie, desde logo ao utilizar-se um falso pretexto, relativo às nações, aos estados, aos seus territórios e aos povos!

Nenhum outro continente teve uma arquitectura feita sob tão violenta opressão como África sujeita ao esquadrinhar da Conferência de Berlim pelas potências coloniais e neocoloniais e por isso a noção de território só pode ser distinta quando comparada à questão de estado, de nação, de território e de povo noutros continentes…

Nenhum outro continente esteve sujeito a algo similar à Conferência de Berlim, numa altura em que ficava comprovado desde o Haiti que a liberdade para os africanos, sendo legítima, afinal só podia ser conseguida com muito sangue, suor e lágrimas e um processo de ruptura que está longe de ter terminado!

Tanto pior quando se recorda o “bastião branco” da África Austral, alinhavado desde o Le Cercle pelo Exercício Alcora e o seu prolongado sucedâneo enquanto houve “apartheid”, tal como suas sequelas!

Impossível, quando se tem presente esses ingredientes que continuam a fazer parte dos expedientes dominantes, “baralhar as cartas e dar de novo” num jogo híper viciado!

A ética, a moral e a componente cívica do “apartheid” era barbárie, enquanto o exercício dos emergentes multilaterais, tanto na Ucrânia quanto em Taiwan, está de facto no mesmo pé de legitimidade dos que levaram a cabo a expressão armada da luta de libertação no Haiti, na América Latina, na Ásia e em África, neste caso de Argel ao Cabo, com uma vantagem: buscam a paz e a harmonia por via da cooperação, da solidariedade, do comércio e da integração económica e financeira em novos moldes, ao invés de recorrer às armas, ao genocídio, ao caos, ao terrorismo, à pirataria e à desagregação!

De facto o regime implantado em Kiev por via do golpe de estado de EuroMaidan, tem tudo a ver com neonazismo e suas práticas, repescando as redes “stay behind” de Stepan Bandera conformes, pela sua natureza, à essência do “apartheid” do bastião branco na África Austral, ou à essência da intervenção napoleónica no Haiti, que a revolução dos escravos derrotou!

Na Europa tanto pior quando se recorda a devassa da União Soviética, ou o estilhaçar da Jugoslávia, porque a hegemonia agarra-se ao caos étnico e religioso em pleno século XXI, para levar avante os seus propósitos de confundir, dividir, desagregar, a partir dos oceanos para dentro dos continentes, tal como o faz em suas práticas de conspiração o Pentágono e a instrumentalização da Organização do Tratado do Atlântico Norte que tenta juntar os cacos sem qualquer responsabilidade ou coerência democrática!

África deve-se antecipar em relação à Europa, no que diz respeito à ruptura com as convenções “ocidentais” que condicionam até à asfixia!

Estudar a história do Haiti, torna-se obrigatório para África saber sair do pântano que os da hegemonia unipolar a tentam colocar, apesar dos esforços dos que protagonizam a mudança de paradigma!

Círculo 4F, Martinho Júnior, 24 de Dezembro de 2022 

Imagem:

Recuperação de “Reconstrução”, quadro dum pintor haitiano que expõe na tela a continuada aspiração de liberdade dos descendentes dos escravos na Hispañiola – https://paginaglobal.blogspot.com/2019/03/estado-do-mundo.html; https://frenteantiimperialista.org/blog/2019/03/11/estado-do-mundo/. . 

Alguns textos de suporte:

. Grande entrevista: João Lourenço fala sobre a aproximação aos EUA e mandatos presidenciais – https://www.voaportugues.com/a/grande-entrevista-jo%C3%A3o-louren%C3%A7o-fala-sobre-aproxima%C3%A7%C3%A3o-com-os-eua-e-sobre-os-seus-mandatos-presidenciais/6884470.html

. Grande Jogo – https://en.wikipedia.org/wiki/Great_Game

. Do material secreto do 5º Departamento do GUGB do NKVD da URSS – sobre a participação de estadistas americanos e britânicos em operações financeitras… – https://www.prlib.ru/item/1295744

. África, Caraíbas e Pacífico –  https://www.jornaldeangola.ao/ao/noticias/africa-caraibas-e-pacifico/.   

Alguns textos de Martinho Júnior:

. A aposta pela vida – http://paginaglobal.blogspot.com/2014/02/haiti-aposta-pela-vida.html

. Um país invisível – http://paginaglobal.blogspot.com/2014/02/haiti-um-pais-invisivel.html

. As muitas lições do Haiti – http://paginaglobal.blogspot.com/2011/05/as-muitas-licoes-do-haiti.html

. Estado do mundo – https://paginaglobal.blogspot.com/2019/03/estado-do-mundo.html; https://frenteantiimperialista.org/blog/2019/03/11/estado-do-mundo/

à(s) dezembro 26, 2022  

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https://paginaglobal.blogspot.com/2022/12/inclinacao-contra-natura-martinho-junior.html


sábado, 30 de janeiro de 2021

Carta de Patrice Lumumba a sua esposa




Minha querida esposa,

Eu estou escrevendo estas palavras a você, não sabendo se elas um dia chegarão em suas mãos, ou se estarei vivo quando você as ler.
Ao longo da minha luta pela independência de nosso país nunca duvidei da vitória de nossa causa sagrada, da qual eu e os meus companheiros temos dedicado todas as nossas vidas.
Mas a única coisa que nós queremos para o nosso país é o direito a uma vida digna, a dignidade sem pretensões e a independência sem restrições.
Isso nunca foi o desejo dos colonialistas belgas e de seus aliados ocidentais, estes que receberam, direta ou indiretamente, aberta ou secretamente, apoio de alguns oficiais dos cargos superiores das Nações Unidas, o corpo sobre o qual nós colocamos toda a nossa esperança quando recorremos a ele para obter ajuda.
Eles seduziram alguns dos nossos compatriotas, compraram outros e fizeram de tudo para distorcer a verdade e manchar nossa independência.
O que eu posso dizer é o seguinte, que eu, – vivo ou morto, livre ou preso – não é o que importa.
O que importa é o Congo, nosso povo infeliz, cuja independência está sendo espezinhada.
É por isso que eles nos trancaram na prisão e por esta razão eles mantém-nos longe do povo. Contudo, minha fé continua indestrutível.
Eu sei e sinto profundamente em meu coração que mais cedo ou mais tarde meu povo irá se livrar de seus inimigos internos e externos, que eles levantar-se-ão como um só e dirão “Não!” ao colonialismo, a fim de conquistar sua dignidade em uma terra livre.
Nós não estamos sozinhos. A África, Ásia, os povos livres e os povos que lutam pela sua liberdade em todos os cantos do mundo estarão sempre lado a lado com os milhões de congoleses que não desistirão da luta enquanto houver um colonialista ou um de seus mercenários em nosso país.
Para meus filhos, que eu estou deixando e que, talvez, não os veja novamente, eu quero dizer que o futuro do Congo é esplêndido e que eu espero deles, assim como todo congolês, o cumprimento da tarefa sagrada de restaurar a nossa independência e nossa soberania.
Sem dignidade não há liberdade, sem justiça não há dignidade e sem independência não existem homens livres.
Crueldade, insultos e tortura jamais poderão forçar-me a implorar por misericórdia, porque eu prefiro morrer de cabeça erguida, com uma fé indestrutível e uma profunda crença no destino de nosso país, do que viver submisso e renunciar aos princípios que são sagrados para mim.
O dia virá quando a história falar. Mas não será a história que será ensinada em Bruxelas, Paris, Washington ou nas Nações Unidas.
Será a história que será ensinada nos países que terão se libertado dos colonialistas e de seus fantoches.
A África irá escrever sua própria história e tanto no Norte como no Sul será uma história de glória e dignidade.
Não chores por mim. Eu sei que meu atormentado país será capaz de defender sua liberdade e sua independência.

Vida longa ao Congo!
Vida longa à África!

Da Prisão Thysville,
Patrice Lumumba

Traduzido por Igor Dias

http://territorioafricano.blogspot.com/2017/09/carta-de-patrice-lumumba-sua-esposa.html

Lumumba: "Discurso da proclamação da independência do Congo"

* Patrice Lumumba


Homens e mulheres do Congo,

Guerreiros vitoriosos da independência,

Saúdo-o em nome do governo congolês.

Peço a todos vocês, meus amigos, que lutaram incansavelmente em nossas fileiras, que marquem este dia 30 de junho de 1960 como uma data sagrada que estará sempre gravada em seus corações, uma data cujo significado você orgulhosamente explicará a seus filhos, para que que eles, por sua vez, possam relacionar com seus netos e bisnetos a gloriosa história de nossa luta pela liberdade.

Embora esta independência do Congo esteja sendo proclamada hoje por um acordo com a Bélgica, um país amigável, com o qual estamos em igualdade de condições, nenhum congolês jamais esquecerá que a independência foi conquistada na luta, uma luta perseverante e inspirada, que se realiza diariamente, uma luta em que não fomos intimidados pela privação ou pelo sofrimento e não nos detemos pela força nem pelo sangue.

Estava cheio de lágrimas, fogo e sangue. Estamos profundamente orgulhosos de nossa luta, porque foi justa, nobre e indispensável para pôr um fim à escravidão humilhante que nos é imposta.

Essa foi a nossa sorte nos oitenta anos de domínio colonial e nossas feridas são muito frescas e dolorosas demais para serem esquecidas.

Experimentamos trabalho forçado em troca de salários que não nos permitiam satisfazer nossa fome, vestir-nos, ter moradias decentes ou educar nossos filhos como entes queridos.

Dias e noites, fomos submetidos a zombarias, insultos e golpes porque éramos “negroes”. Quem nunca esquecerá que o preto era chamado de “tu”, não porque ele era um amigo, mas porque o “vous” educado era reservado ao homem branco?

Vimos nossas terras confiscadas em nome de leis ostensivamente injustas, que reconheciam apenas o direito dos poderosos.

Não esquecemos que a lei nunca foi a mesma para o branco e o preto, que era branda com uns, e cruel e desumana para os outros.

Experimentamos sofrimentos atrozes, sendo perseguidos por convicções políticas e crenças religiosas e exilados de nossa terra natal: nossa sorte era pior que a própria morte.

Não esquecemos que nas cidades as mansões eram para os brancos e as cabanas destruídas para os pretos; que um preto não foi admitido nos cinemas, restaurantes e lojas reservados aos "europeus"; que um preto viajava nos porões, sob os pés dos brancos em suas cabines de luxo.

Quem esquecerá os tiroteios que mataram tantos de nossos irmãos, ou as celas nas quais foram lançados sem piedade aqueles que não desejavam mais se submeter ao regime de injustiça, opressão e exploração usada pelos colonialistas como ferramenta de seu domínio?

Tudo isso, meus irmãos, nos trouxe um sofrimento incalculável.

Mas nós, que fomos eleitos pelos votos de seus representantes, representantes do povo, para guiar nossa terra natal, nós, que sofremos de corpo e alma com a opressão colonial, dizemos a você que daqui em diante tudo está terminado.

A República do Congo foi proclamada e o futuro do nosso amado país está agora nas mãos de seu próprio povo.

Irmãos, vamos começar juntos uma nova luta, uma luta sublime que levará nosso país à paz, prosperidade e grandeza.

Juntos, estabeleceremos justiça social e garantiremos a cada homem uma remuneração justa por seu trabalho.

Mostraremos ao mundo o que o preto pode fazer ao trabalhar em liberdade e faremos do Congo o orgulho da África.

Vamos providenciar para que as terras de nosso país de origem beneficiem verdadeiramente seus filhos.

Revisaremos todas as leis antigas e as transformaremos em novas que serão justas e nobres.

Pararemos a perseguição ao pensamento livre. Faremos com que todos os cidadãos desfrutem ao máximo das liberdades básicas previstas na Declaração dos Direitos Humanos.

Erradicaremos toda discriminação, qualquer que seja sua origem, e garantiremos a todos uma posição na vida condizente com sua dignidade humana e digna de seu trabalho e lealdade ao país.

Instituiremos no país uma paz que não se apoia em armas e baionetas, mas em concórdia e boa vontade.

E em tudo isso, meus queridos compatriotas, podemos confiar não apenas em nossas próprias enormes forças e imensa riqueza, mas também na assistência de inúmeros estados estrangeiros, cuja cooperação aceitaremos quando não se impor a nós uma política de ingerência, mas é dada em espírito de amizade.

Até a Bélgica, que finalmente aprendeu a lição da história e não precisa mais se opor à nossa independência, está preparada para nos dar sua ajuda e amizade; para esse fim, acaba de ser assinado um acordo entre nossos dois países iguais e independentes. Estou certo de que esta cooperação beneficiará ambos os países. De nossa parte, enquanto permanecermos vigilantes, tentaremos observar os compromissos que assumimos livremente.

Assim, tanto na esfera interna quanto na externa, o novo Congo criado pelo meu governo será rico, livre e próspero. Mas para alcançar nosso objetivo sem demora, peço a todos vocês, legisladores e cidadãos do Congo, que nos ajudem a ajudar.

Peço a todos que abandonem suas disputas tribais: elas nos enfraquecem e podem fazer com que sejamos desprezados no exterior.

Peço a todos que não desistam de nenhum sacrifício para garantir o sucesso de nossa grande empreitada.

Por fim, peço a você que respeite incondicionalmente a vida e as propriedades de concidadãos e estrangeiros que se estabeleceram em nosso país; se a conduta desses estrangeiros deixa muito a desejar, nossa Justiça os expulsará prontamente do território da República; se, pelo contrário, sua conduta é boa, eles devem ser deixados em paz, pois também estão trabalhando pela prosperidade de nosso país.

A independência do Congo é um passo decisivo para a libertação de todo o continente africano.

Nosso governo, um governo de unidade nacional e popular, servirá seu país.

Apelo a todos os cidadãos congoleses, homens, mulheres e crianças, para que se dediquem resolutamente à tarefa de criar uma economia nacional e garantir nossa independência econômica.

Glória eterna aos lutadores pela libertação nacional!

Viva a independência e a unidade africana!

Viva o Congo independente e soberano!

30 de junho de 1960

 https://www.novacultura.info/post/2020/06/30/lumumba-discurso-da-proclamacao-da-independencia-do-congo