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sábado, 6 de junho de 2026

Brecht e Gino Strada: guerra e paz

 

2026 06 06 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - citações de Brecht e Gino Strada

«Este mural em Orgosolo combina as reflexões de duas grandes figuras intelectuais e ativistas para construir uma forte mensagem antimilitarista e de valorização da vida quotidiana das pessoas comuns.

O mural apresenta duas frases distintas escritas em italiano com caligrafia cursiva:

1. A frase no topo (Citação de Bertolt Brecht):

"felice il popolo che non ha bisogno di eroi"

  • Tradução: "Feliz o povo que não precisa de heróis."

  • Origem: Esta é uma das frases mais célebres da peça de teatro A Vida de Galileu (1939), do dramaturgo alemão Bertolt Brecht.

A frase que aparece no topo do mural é uma adaptação de um dos diálogos mais famosos e dramáticos da peça de teatro "A Vida de Galileo" (Leben des Galilei, 1939), escrita por Bertolt Brecht.

O contexto em que esta frase é dita ocorre na Cena 13, logo após o astrónomo Galileu Galilei ceder à pressão da Inquisição e assinar a abjuração, negando publicamente a teoria heliocêntrica (de que a Terra gira em torno do Sol) para salvar a sua própria vida.

Ao regressar do tribunal, os seus discípulos, liderados por Andrea, sentem-se profundamente traídos e desiludidos porque esperavam que o mestre se tornasse um mártir em nome da verdade científica.

Aqui está a transcrição desse momento exato da peça (traduzido para o português):

ANDREA: (Em voz alta) Infeliz da terra que não tem heróis!

(Galileu entra. O processo transformou-o radicalmente, quase a ponto de o tornar irreconhecível. Ele ouviu as palavras de Andrea. Durante alguns instantes, detém-se na soleira da porta, esperando uma saudação. Mas, como ninguém o saúda, e os discípulos até se afastam dele, avança lentamente, com o passo incerto de quem vê mal, até ao proscénio; ali encontra um banco e senta-se. Ninguém demonstra notar a sua presença.)

ANDREA: Não consigo olhar para ele. Façam-no ir embora.

FEDERZONI: Tem calma.

ANDREA: (Grita para Galileu) Odre de vinho! Comedor de caracóis! Salvou a pele, não foi? (Senta-se) Sinto-me mal.

GALILEO: (Calmo) Deem-lhe um copo de água.

(Frate Fulgenzio sai e regressa trazendo um copo de água a Andrea. Ninguém fala. Andrea levanta-se, apoiado pelos outros, para sair.)

ANDREA: Agora já consigo caminhar, se me ajudarem um pouco.

(Os outros dois amparam-no até à saída. Nesse momento, Galileu começa a falar.)

GALILEO: Não. Infeliz da terra que precisa de heróis.

O detalhe da adaptação no mural

No texto original de Brecht, a frase exata de Galileu é "Sventurata la terra che ha bisogno di eroi" (Infeliz/Desgraçada da terra que precisa de heróis).

O artista que pintou o mural em Orgosolo fez uma pequena e bela inversão poética, transformando-a numa afirmação positiva: "Feliz o povo que não precisa de heróis" (felice il popolo che non ha bisogno di eroi), mantendo exatamente a mesma essência filosófica de Brecht.

2. A frase no bloco amarelo (Citação de Gino Strada):

"La guerra significa massacrare migliaia di civili e mettere al governo chi garantisce il potere economico"

  • Tradução: "A guerra significa massacrar milhares de civis e colocar no governo quem garante o poder económico."

  • Assinatura: Logo abaixo do texto lê-se Gino Strada (médico-cirurgião de guerra italiano e fundador da ONG humanitária Emergency).

Analisando o histórico das declarações e escritos do médico e ativista Gino Strada (1948–2021), a frase pintada no bloco amarelo deste mural funciona de forma semelhante ao caso de Emilio Lussu: ela não foi extraída de um livro específico ou de um ensaio literário contínuo, mas condensa o núcleo do seu pensamento público e das suas inúmeras palestras, entrevistas e artigos de opinião sobre a geopolítica dos conflitos modernos.

Gino Strada passou décadas em cenários de guerra (como o Afeganistão, o Iraque e Ruanda) através da sua organização Emergency, operando civis mutilados. Em intervenções públicas, ele costumava desconstruir a propaganda oficial que justifica as guerras através de conceitos abstratos como "democracia" ou "missões humanitárias".

A essência do pensamento de onde essa frase deriva baseia-se em dois pilares que ele repetia frequentemente em conferências:

  1. A Realidade das Vítimas: Ele afirmava que, na guerra moderna, mais de 90% das vítimas são civis — pessoas comuns, mulheres e crianças que não têm qualquer voto na matéria. A guerra, portanto, resume-se ao massacre de inocentes.

  2. Os Interesses Reais: Ele denunciava que por trás da retórica patriótica ou geopolítica escondem-se sempre interesses corporativos, indústrias de armamento e o controlo de recursos naturais. O objetivo final das guerras, segundo a sua visão, é estabilizar ou colocar no poder lideranças políticas que protejam e deem continuidade ao "poder económico" dominante.

Por ser uma síntese tão precisa e contundente do seu legado pacifista, o muralista Francesco Del Casino integrou esta declaração na parede para servir como uma explicação crua, quase científica, do motivo pelo qual o idoso e os soldados representados no desenho tiveram as suas vidas despedaçadas pela guerra. (Google Gemini)

sábado, 23 de maio de 2026

Brecht e A Resistível Ascensão de Arturo Ui



«Este mural, pintado na fachada do histórico "Bar Ziu Mesina" em Orgosolo, é uma das obras mais complexas e politicamente carregadas da vila. Ele aborda os trágicos acontecimentos do "Outono Alemão" de 1977, ligando o terrorismo de Estado, a luta armada e o perigo latente do fascismo através das palavras do dramaturgo Bertolt Brecht.

Abaixo do monumento, encontram-se os nomes dos principais membros do grupo guerrilheiro de extrema-esquerda alemão RAF (Fração do Exército Vermelho), encontrados mortos na prisão de alta segurança de Stammheim precisamente em meados de outubro de 1977: "Andreas Baader" (escrito junto à árvore seca, à esquerda) /  "Gudrun Ensslin" (no centro-esquerda) / "Ulrike Meinhof" (no centro-direita, cuja morte ocorreu antes, em 1976, mas que iniciou o ciclo de mistério)

Os versos finais da peça A Resistível Ascensão de Arturo Ui (1941), de Bertolt Brecht, alertam sobre o perigo constante do fascismo, que pode ressurgir mesmo após ser derrotado . Escrita durante o exílio, a obra utiliza uma sátira sobre a máfia de Chicago para traçar um paralelo direto com a ascensão de Hitler e do nazismo, defendendo a vigilância democrática

A tradução para português dos famosos versos de Bertolt Brecht que encerram a peça A Resistível Ascensão de Arturo Ui (escrita em 1941 como uma parábola sobre a subida de Adolf Hitler ao poder) costuma ser traduzida da seguinte forma:

"E vós, aprendei a ver, em vez de olhar sem ver!
Agi, em vez de falar!
Este monstro esteve quase a governar o mundo!
Os povos conseguiram abatê-lo, mas ninguém cante vitória antes do tempo:
O ventre de onde ele nasceu ainda é fecundo."

Análise dos Termos-Chave na Tradução
"Aprendei a ver, em vez de olhar sem ver" (no original alemão: “Lernat sehn, statt glotzen” / no italiano do mural: “imparate che occorre vedere, non guardare in aria”): É um apelo à lucidez e à análise crítica. Brecht pede ao público que não seja mero espectador passivo dos acontecimentos políticos, mas que compreenda os mecanismos sociais que geram o autoritarismo.

"O ventre de onde ele nasceu ainda é fecundo": Esta é a metáfora central. O "monstro" (o fascismo/nazismo) não é um acidente histórico isolado ou a loucura de um único homem (Ui/Hitler), mas sim o produto de condições socioeconómicas específicas, de crises profundas e da cumplicidade de certas elites. Enquanto essas condições estruturais existirem na sociedade, o perigo do regresso de regimes totalitários continuará vivo.  (Google Gemini)

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Bertold Brecht - Sobre a Violência (Über die Gewalt).

 


2022 02 05 Foto victor nogueira - Grafito de Frank - ACAF na Estrada da Graça, em Setúbal, com versos de Bertolt Brecht 'Do rio que tudo arrasta se diz que é violento' (2021 05 26 Canon 192_05)

Na Estrada da Graça, em Setúbal, nas cercanias das instalações portuárias, existem uma série de edifícios, hoje abandonados, mas onde outrora funcionavam "boites" destinadas principalmente á marinhagem. Num deles, grafitado, encontra-se um verso dum dos poemas de Brecht.

«Do rio que tudo arrasta se diz que é violento
Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem»

esse texto faz parte de um poema curto de Bertolt Brecht intitulado "Sobre a Violência" (originalmente em alemão, Über die Gewalt).

Brecht, um dos dramaturgos e poetas mais influentes do século XX, utilizava frequentemente metáforas da natureza para criticar as estruturas sociais e políticas.

O Poema Completo

Embora existam variações na tradução, a versão mais comum em português é:

Sobre a Violência

Do rio que tudo arrasta diz-se que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.

A tempestade que fustiga as bétulas é tida como violenta. E a tempestade que faz dobrar os dorsos dos operários na rua?


O Significado

A intenção de Brecht com estes versos é provocar uma reflexão sobre a causa e o efeito:

  1. A Reação vs. O Sistema: O "rio" representa a revolta ou a reação de quem é oprimido. Essa reação é frequentemente rotulada como "violenta" pela sociedade.

  2. A Violência Invisível: As "margens" representam o sistema, as leis, a economia ou a repressão que limita a liberdade do indivíduo. Essa força constante e compressora muitas vezes não é chamada de violência, mas é ela que causa o transbordo do rio.

É uma crítica poderosa à forma como o status quo define o que é ou não aceitável, ignorando a violência estrutural que gera o conflito. (Google Gemini(

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

Jorge Feliciano - Mãe Coragem?

 


* Jorge Feliciano 

A en­gre­nagem da guerra todos con­some, nin­guém con­segue agir sem ser em con­so­nância com ela
📷
«É tempo de per­ceber que não ha­verá man­teiga nas nossas mesas sem ca­nhões que a ga­rantam», disse o Chefe do Es­tado Maior da Ar­mada, Gou­veia e Melo, em Abril deste ano. Esta chan­tagem bem po­deria ser feita pelo En­ga­jador ou pelo Sar­gento, per­so­na­gens da peça de te­atro Mãe Co­ragem e os seus fi­lhos, de Ber­tolt Brecht, que andam de terra em terra a an­ga­riar ho­mens para com­bater na guerra.
Tal como Gou­veia e Melo, que pediu uma re­acção da so­ci­e­dade por­tu­guesa para que esta saísse «do es­tado de co­mo­dismo e in­di­fe­rença», também o En­ga­jador da peça de Brecht se mostra in­dig­nado com a di­fi­cul­dade em en­con­trar ho­mens para a guerra: «Não sabem o que é pa­lavra de homem, não têm sen­tido de honra, não têm le­al­dade nem fé.»
As frases ditas por estes per­so­na­gens são in­tem­po­rais da pro­pa­ganda de guerra, que a apre­sentam como um fa­ta­lismo, ideia que atinge o seu cul­minar em pro­cla­ma­ções como esta outra de Gou­veia e Melo: «Se a Eu­ropa for ata­cada e a NATO assim exigir temos de morrer onde ti­vermos de morrer para a de­fender.»
Se queres man­teiga na mesa, dá em troca os teus fi­lhos
Ber­tolt Brecht es­creve a pri­meira versão de Mãe Co­ragem e os seus fi­lhos em 1939, em pouco mais de um mês. A peça ha­veria de es­trear em 1941, já em plena guerra, em Zu­rique, com He­lene Weigel no papel de Mãe Co­ragem. Em Por­tugal, a peça foi re­cen­te­mente le­vada a cena pelo Te­atro do Bairro, com a ac­triz Maria João Luís no papel de Mãe Co­ragem, numa re­pre­sen­tação por­ten­tosa das con­tra­di­ções da per­so­nagem, jun­tando-se assim a Eu­nice Muñoz e Te­resa Ga­feira, as Mães Co­ragem, res­pec­ti­va­mente, do Novo Grupo de Te­atro (1986) e da Com­pa­nhia de Te­atro de Al­mada (2000).
Mãe Co­ragem e seus fi­lhos é uma peça que expõe a en­gre­nagem so­cial que per­mite a guerra acon­tecer e con­ti­nuar. Mas uma en­gre­nagem que Brecht mostra como pos­sível de ser trans­for­mada. Trata-se de um de­safio ao pú­blico. Como foi pos­sível isto acon­tecer? O que seria pos­sível fazer para que as coisas fossem de outra ma­neira?
Os acon­te­ci­mentos a que a peça re­porta de­correm em 1624, du­rante a Guerra dos Trinta anos. Mas o que Brecht mostra são os me­ca­nismos da as­censão do nazi-fas­cismo que le­varam à Se­gunda Guerra Mun­dial. Uma ne­go­ci­ante vai de terra em terra com a sua car­roça ven­dendo mer­ca­do­rias di­versas. Para ela a guerra traz-lhe ga­nhos su­fi­ci­entes para so­bre­viver e a paz é algo que não quer porque, con­si­dera, a pode levar à mi­séria. Como não ver aqui uma das prin­ci­pais li­nhas da ma­ni­pu­lação feita pelos nazi-fas­cistas de que a guerra e a con­quista re­pre­sen­tavam a saída do povo alemão da po­breza e da mi­séria?
Da sua al­cunha, a pró­pria diz: «Chamo-me Co­ragem, sar­gento, porque tinha medo de ficar ar­rui­nada e atra­vessei o fogo de ar­ti­lharia de Riga, com cin­quenta pães na car­roça. Já es­tavam cheios de bolor, e por isso não havia tempo a perder.» Será isto co­ragem ou de­ses­pero?
No en­tanto, a guerra, que é «o seu pa­trão», con­tradiz a mãe que também é. Ela não quer que os seus fi­lhos morram a com­bater. Tem amor por eles. Mas como lhe faz ver o Sar­gento, «queres en­gordar as tuas crias com a guerra e não dar nada em troca?» Ela bate-se pelo não alis­ta­mento na guerra dos seus fi­lhos, mas é dis­traída pelos mi­li­tares com a chance de um bom ne­gócio e já está, os fi­lhos são le­vados.
A muda que faz do tambor a voz da co­ragem
Nesta peça a en­gre­nagem da guerra todos con­some, nin­guém con­segue agir sem ser em con­so­nância com ela. A ex­cepção é a muda, a filha que resta. Um dos exér­citos pre­tende atacar du­rante a noite uma al­deia que dorme. Os cam­po­neses dos ar­ra­baldes são ame­a­çados pelos mi­li­tares de forma a fi­carem qui­etos e nada fa­zerem. En­quanto as tropas avançam e os cam­po­neses rezam, é a muda que sobe a um te­lhado, de tambor na mão, e bate nele com todas as forças que tem. É aba­tida, mas o povo da al­deia acorda

https://www.avante.pt/pt/2648/argumentos/176763/M%C3%A3e-Coragem.htm

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Bertold Brecht - Se os Tubarões fossem Homens



* Bertold Brecht0

Se os tubarões fossem homens, perguntou a filha de sua senhoria ao senhor K., seriam eles mais amáveis para com os peixinhos?

Certamente, respondeu o Sr. K. Se os tubarões fossem homens, construiriam no mar grandes gaiolas para os peixes pequenos, com todo tipo de alimento, tanto animal quanto vegetal. Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca e adoptariam todas as medidas sanitárias adequadas. Se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana, ser-lhe-ia imediatamente aplicado um curativo para que não morresse antes do tempo.

Para que os peixinhos não ficassem melancólicos haveria grandes festas aquáticas de vez em quando, pois os peixinhos alegres têm melhor sabor do que os tristes. Naturalmente haveria também escolas nas gaiolas. Nessas escolas os peixinhos aprenderiam como nadar alegremente em direcção à goela dos tubarões. Precisariam saber geografia, por exemplo, para localizar os grandes tubarões que vagueiam descansadamente pelo mar.

O mais importante seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. Eles seriam informados de que nada existe de mais belo e mais sublime do que um peixinho que se sacrifica contente, e que todos deveriam crer nos tubarões, sobretudo quando dissessem que cuidam de sua felicidade futura. Os peixinhos saberiam que este futuro só estaria assegurado se estudassem docilmente. Acima de tudo, os peixinhos deveriam rejeitar toda tendência baixa, materialista, egoísta e marxista, e denunciar imediatamente aos tubarões aqueles que apresentassem tais tendências.

Se os tubarões fossem homens, naturalmente fariam guerras entre si, para conquistar gaiolas e peixinhos estrangeiros. Nessas guerras eles fariam lutar os seus peixinhos, e lhes ensinariam que há uma enorme diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões. Os peixinhos, proclamariam, são notoriamente mudos, mas silenciam em línguas diferentes, e por isso não se podem entender entre si. Cada peixinho que matasse alguns outros na guerra, os inimigos que silenciam em outra língua, seria condecorado com uma pequena medalha de sargaço e receberia uma comenda de herói.

Se os tubarões fossem homens também haveria arte entre eles, naturalmente. Haveria belos quadros, representando os dentes dos tubarões em cores magníficas, e as suas goelas como jardins onde se brinca deliciosamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam valorosos peixinhos a nadarem com entusiasmo rumo às gargantas dos tubarões. E a música seria tão bela que, sob os seus acordes, todos os peixinhos, como orquestra afinada, a sonhar, embalados nos pensamentos mais sublimes, precipitar-se-iam nas goelas dos tubarões.

Também não faltaria uma religião, se os tubarões fossem homens. Ela ensinaria que a verdadeira vida dos peixinhos começa no paraíso, ou seja, na barriga dos tubarões.

Se os tubarões fossem homens também acabaria a ideia de que todos os peixinhos são iguais entre si. Alguns deles se tornariam funcionários e seriam colocados acima dos outros. Aqueles ligeiramente maiores até poderiam comer os menores. Isso seria agradável para os tubarões, pois eles, mais frequentemente, teriam bocados maiores para comer. E os peixinhos maiores detentores de cargos, cuidariam da ordem interna entre os peixinhos, tornando-se professores, oficiais, polícias, construtores de gaiolas, etc.

Em suma, se os tubarões fossem homens haveria uma civilização no mar.

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Brecht- Ouvimos dizer que estás cansado

* BertoldBrecht
.
Ouvimos dizer que estás arrasado.
Que já não podes andar de cá para lá.
Que estás muito cansado.
Que já não és capaz de aprender.
Que estás liquidado.
Não se pode exigir de ti que faças mais.
.
Pois fica sabendo: nós exigimo-lo.
Se estiveres cansado e adormeceres
ninguém te acordará,
nem dirá:
levanta-te, está aqui a comida.
Porque é que a comida havia de estar ali?
.
Se não podes andar de cá para lá, ficarás estendido.
Ninguém te irá buscar e dizer:
houve uma Revolução. As fábricas esperam por ti.
Porque é que havia de haver uma revolução?
Quando estiveres morto virão
enterrar-te, quer tu sejas ou não culpado
da tua morte.
.
Tu dizes: que já lutaste muito tempo
que já não podes lutar mais.
Se já não podes lutar mais, serás
destruído.

Dizes tu: que esperaste muito tempo.
Que já não podes ter esperanças.
Que esperavas tu? Que a luta fosse fácil?
Não é esse o caso: a nossa situação é pior que tu julgavas.
.
É assim: se não levarmos a cabo o sobre-humano,
estamos perdidos.
Se não podermos fazer o que ninguém de nós pode
exigir, afundar-nos-emos.
Os nossos inimigos só esperam que nós nos cansemos.
Quando a luta é mais encarniçada é que os lutadores
estão mais cansados.
Os lutadores que estão cansados de mais,
perdem a batalha.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Ferreira Fernandes - Omelete Michelin

 * Ferreira Fernandes

28 Dezembro 2017 — 00:00

 

O francês Paul Éluard, o maior dos poetas surrealistas, fez esta omolete de caranguejo: "É preciso tirar a César tudo o que não lhe pertence". Queria ele dizer ser essa uma das funções da sua cozinha, a poesia. Escreveu-a em 1936, o ano do Front Populaire a inventar as férias pagas. Uma dúzia de anos depois, outro poeta de esquerda, Bertold Brecht, disse o mesmo que Éluard, em Perguntas de Um Operário Letrado, o mais citado dos seus poemas. Aquele que lembra Babilónia destruída, para perguntar: quem a reconstruiu? E de Alexandre que conquistou as Índias: sozinho? E de César que venceu os gauleses: nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?... Reparem na beleza das perguntas de Brecht pondo em prática a proposta de Éluard, ambos certeiros sobre a necessidade de desnudar a injusta acumulação de fama e de proveito dos poderosos. Mas reparem também que tanto o francês como o alemão conservam nos Césares (Alexandres ou imperadores vários...) o papel pessoal de sujeito da História. Os poetas lembram também as massas, um passo em frente, mas só para as igualar aos grandes... Aquele cozinheiro citado por Brecht entra no Olimpo porque serviu Júlio César na Gália. E, de facto, sem os petiscos dele o patrício romano talvez tivesse definhado e perdido batalhas... Ora, há gente pequena que é grande sem estar em função do poderoso. A tia que fazia bolinhos de bolina, por exemplo. Notícia destes dias, Jay Fai, 72 anos, cozinheira de rua em Banguecoque (dois tachos, lume aceso e arte) ganhou uma estrela Michelin - vão dizer-me: é dela de que estou a falar? Não. Isso são os césares do guia Michelin a dizerem que leram Éluard e Brecht. Do que estou a falar é de Jay Fai que faz omeletes de caranguejo. E se não estão para ir até Banguecoque, falem com a vossa tia da aletria. Gente grande.

https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/ferreira-fernandes/omelete-michelin-9011791.html


domingo, 26 de abril de 2020

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Bertolt Brecht - COMO OS TECELÕES DE TAPETES DE KUJAN-BULAK HONRARAM A MEMÓRIA DE LÉNINE

Bertolt Brecht

1

Muitas vezes e à farta foi honrado
o Camarada Lénine. Há bustos dele e estátuas.
Puseram o nome dele a cidades e crianças.
Fazem-se discursos em muitas línguas
há assembleias e demonstrações
desde Xangai a Chicago em honra de Lénine.
Mas foi assim que o honraram os tecelões de tapetes
de Kujan-Bulak, pequena povoação no Sul do Turquestão:
Vinte tecelões de tapetes levantam-se ali ao anoitecer
do miserável tear, sacudidos pela febre.
Anda febre por lá: a estação de caminho-de-ferro
está cheia do zumbir dos mosquitos, nuvem espessa
que se ergue do pântano por detrás do velho cemitério dos camelos.
Mas o comboio
que de quinze em quinze dias traz água e fumo, traz
também um belo dia a notícia
que vem aí o dia da homenagem ao Camarada Lénine.
E as gentes de Kujan-Bulak, gente
pobre, tecelões de tapetes, decidem
que também na sua povoação
se erga o busto de gesso ao Camarada Lénine.
Mas quando se vai juntar o dinheiro para o busto
ei-los todos sacudidos de febre a pagar
os copeques penosamente ganhos com mãos a adejar.
E Stepa Gamalev, do Exército Vermelho, que vai contando
e vendo com cuidado e precisão.
vê a prontidão deles em honrar Lénine, e fica contente,
mas vê também as mãos vacilantes,
e faz de repente a proposta
de comprar, com o dinheiro para o busto, petróleo
para derramar no pântano atrás do cemitério dos camelos
donde vêm os mosquitos
que causam febres.
Para assim combater as febres em Kujan-Bulak, e em verdade
em honra do falecido, mas
não esquecido
Camarada Lénine.
Assim o resolveram. No dia da homenagem levaram
os seus baldes amolgados cheios de petróleo negro
um após outro, para lá,
e regaram o pântano com ele.
Assim tiraram proveito para si mesmos ao honrarem Lénine e
honraram-no, com proveito para si mesmos, e assim
o tinham entendido.

2

Ouvimos pois como as gentes de Kujan-Bulak
honraram Lénine. Mas à noitinha,
comprado e espalhado o petróleo sobre o pântano,
eis se levantou um homem na assembleia e exigiu
que se colocasse uma placa na estação do comboio
com o relato do acontecido, contendo
também exatamente a alteração do plano e a troca
do busto de Lénine pela tonelada de petróleo que acabou com as febres.
E tudo isto em honra de Lénine.
E assim fizeram também isto
e puseram a placa.


segunda-feira, 30 de março de 2020

Bertold Brecht - Coro dos tribunais



* Bertold Brecht


Foram-se os bandos de chacais
Chegou a vez dos tribunais
Vão reunir o bom e o mau ladrão
Para votar sobre um caixão
Quando o inocente se abateu
Inda o morto não morreu
Quando o inocente se abateu
Inda o morto não morreu

A decisão do tribunal
É como a sombra do punhal
Vamos matar o justo que ali jaz
Para quem julga tanto faz
Já que o punhal não mata bem
A lei matemos também
Já que o punhal não mata bem
A lei matemos também

Soa o clarim soa o tambor
O morto já não sente a dor
Quando o deserto nada tem a dar
Vem as águias almoçar
O tribunal dá de comer
Venham assassinos ver
O tribunal dá de comer
Venham assassinos ver

Se o criminoso se escondeu
Nada de novo aconteceu
A recompensa ao punho que matou
Uma fortuna a quem roubou
Guarda o teu roubo guarda-o bem
Dentro de um papel a lei
Guarda o teu roubo guarda-o bem
Dentro de um papel a lei

Canção original de Bertolt Brecht na peça “A Exceção e a Regra”
Versão Luís Francisco Rebelo
Música José Afonso
LP Coro dos Tribunais (1975)

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Bertold Brecht - Ouvimos dizer que estás cansado

* Bertold Brecht

Ouvimos dizer que estás arrasado.
Que já não podes andar de cá para lá.
Que estás muito cansado.
Que já não és capaz de aprender.
Que estás liquidado.
Não se pode exigir de ti que faças mais.

Pois fica sabendo: nós exigimo-lo.
Se estiveres cansado e adormeceres
ninguém te acordará,
nem dirá:
levanta-te, está aqui a comida.
Porque é que a comida havia de estar ali?

Se não podes andar de cá para lá, ficarás estendido.
Ninguém te irá buscar e dizer:
houve uma Revolução. As fábricas esperam por ti.
Porque é que havia de haver uma revolução?
Quando estiveres morto virão
enterrar-te, quer tu sejas ou não culpado
da tua morte.

Tu dizes: que já lutaste muito tempo
que já não podes lutar mais.
Se já não podes lutar mais, serás
destruído.

Dizes tu: que esperaste muito tempo.
Que já não podes ter esperanças.
Que esperavas tu? Que a luta fosse fácil?
Não é esse o caso: a nossa situação é pior que tu julgavas.

É assim: se não levarmos a cabo o sobre-humano,
estamos perdidos.
Se não podermos fazer o que ninguém de nós pode
exigir, afundar-nos-emos.
Os nossos inimigos só esperam que nós nos cansemos.
Quando a luta é mais encarniçada é que os lutadores
estão mais cansados.
Os lutadores que estão cansados de mais,
perdem a batalha.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Paul Celan - Uma folha, sem árvore, para Bertold Brecht

Que tempos são estes, em que
uma conversa sobre árvores chega a ser uma falta
Pois implica em silenciar sobre tantos crimes?
(B. BRECHT. Poemas e canções, p. 91.) (versão integral em

Bertolt Brecht - Aos que vierem depois de nós


* Paul Celan

Uma folha, sem árvores,
para Bertolt Brecht: (1)

Que tempos são estes, em que
uma conversa sobre árvores é quase
 um crime
Porque contém o silêncio sobre
 tantas atrocidades!

~~~~~~~~~~~~

Que tempos são estes
em que uma conversa
por um triz é um crime,
porque contém
tanta coisa dita?


(1) - http://e-revista.unioeste.br/index.php/trama/article/viewFile/17699/12414

Bertolt Brecht - Aos que vierem depois de nós

* Bertolt Brecht
(Tradução de Manuel Bandeira)


Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.


Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.

http://www.releituras.com/bbrecht_aosquevierem.asp

Bertold Brecht - SOBRE O POBRE B. B.

* Bertold Brecht


Marcel Petrus
Publicado a 10/02/2012


Sobre o pobre B.B.

Eu, Bertolt Brecht, sou das florestas negras.
Minha mãe me trouxe para as cidades
Dentro do ventre. E o frio das florestas
Estará comigo ao me cobrir a laje.

Na cidade de asfalto estou em casa e a caráter,
Com todos os últimos sacramentos
Ministrados: jornais, tabaco, conhaque:
Desconfiado, indolente e enfim satisfeito.

Sou amável com os outros. E visto
Meu chapéu-coco, como todo o mundo.
Digo: são bichos de cheiro esquisito
E digo: e daí? Também sou, no fundo.

Às vezes, nas cadeiras de balanço,
Coloco algumas moças, de manhã,
E digo: em mim vocês têm, eu garanto,
Alguém em quem não podem confiar.

À tarde me reúno com colegas.
Tratamo-nos de “gentleman”, então.
Eles dizem, com os pés à minha mesa:
As coisas vão melhorar. E não pergunto: quando.

Na madrugada cinza, abetos mijam
E piam os pássaros, que são seus vermes.
Na cidade, meu copo se esvazia,
Largo o charuto e durmo um sono leve.

Assentamo-nos, uma geração leviana,
Em prédios que quiséramos indestrutíveis
(assim construímos os arranha-céus da ilha de Manhattan
E as finas antenas sobre o Atlântico a nos divertirem).

Destas cidades ficará quem as atravessou, o vento!
A casa faz feliz quem nela come: quem a esvazia.
Sabemos sermos efêmeros
E que depois de nós o que virá será sem valia.

Nos terremotos vindouros, que não seja meu fado
Deixar por amargura o meu Virginia se apagar,
Eu, Bertolt Brecht, largado nas cidades de asfalto,
Oriundo das florestas negras, no ventre da mãe, tempos atrás.

Tradução de António Cícero
http://antoniocicero.blogspot.pt/2007/03/poema-de-brecht.html

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Bertold Brecht - Sobre o significado da décima do número 888 da Fackel (outubro de 1933)

* Bertold Brecht

Sobre o significado da décima
do número 888 da Fackel
(outubro de 1933)


Depois de fundado o Terceiro Reich,
Só uma breve mensagem chegou do eloquente.
Num poema com dez versos
A voz dele ergueu‑se, para lastimar sem mais
Não ter força bastante.
Quando os horrores atingem certa dimensão,
Os exemplos esgotam‑se.
As malfeitorias multiplicam‑se
E os gritos de dor calam‑se.
Saem insolentes os crimes para a rua
E escarnecem alto da descrição.
Ao que está a ser estrangulado
Ficam as palavras presas na garganta.
Espalha‑se o silêncio e, visto de longe,
Semelha assentimento.
O triunfo da força
Parece consumado.
Já só os corpos mutilados
Dão notícia de que ali campearam criminosos.
Sobre as casas arrasadas já só o silêncio
Denuncia o crime.
Terminou pois o combate?
Pode o crime ser esquecido?
Pode enterrar‑se os assassinados e amordaçar‑se as testemunhas?
Pode a injustiça ganhar, mesmo sendo a injustiça?
O crime pode ser esquecido.
Os assassinados podem ser enterrados e as testemunhas, amordaçadas.
A injustiça pode ganhar, mesmo sendo a injustiça.
A opressão senta‑se à mesa e começa a servir‑se
Com as mãos ensanguentadas.
Mas os que carregam com a comida
Não esquecem o peso dos pães; e a fome atormenta‑os
Ainda quando a palavra fome está proibida.
Quem disse fome foi abatido.
Quem gritou opressão foi amordaçado.
Mas os que pagam os juros não esquecem a usura.
Mas os oprimidos não esquecem o pé que lhes pisa o pescoço.
A violência não atingiu ainda o ponto máximo
E já começa de novo a resistência.
Quando o eloquente pediu desculpa
Por a voz lhe falhar,
O silêncio apresentou‑se ante o juiz,
Tirou o lenço do rosto
E deu‑se a conhecer como testemunha.


BERTOLT BRECHT
Trad. António Sousa Ribeiro
.http://www.tnsj.pt/home/media/pdf/Manual%20de%20Leitura%20%C3%9Altimos%20Dias%20final.pdf

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Brecht - De que serve a bondade

* Bertold Brecht

De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?
De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?
De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?
Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua! Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!
Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!

(Bertold Brecht, in ‘Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas’; trad. Paulo Quintela)

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Brecht - O Vosso tanque General, é um carro forte

 * Bertold Brecht


O Vosso tanque General, é um carro forte

Derruba uma floresta esmaga cem
Homens,
Mas tem um defeito
- Precisa de um motorista 

O vosso bombardeiro, general
É poderoso:
Voa mais depressa que a tempestade
E transporta mais carga que um elefante
Mas tem um defeito
- Precisa de um piloto. 

O homem, meu general, é muito útil:
Sabe voar, e sabe matar
Mas tem um defeito
- Sabe pensar

http://pensador.uol.com.br/frase/MTQ5MDgz/

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Bertold Brecht - A caminho com Maiakovski

* Bertolt Brecht


Na primeira noite, eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim: não dizemos nada.
Na segunda, já não se escondem. Pisam as flores, matam o nosso cão e não dizemos nada.
Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.


http://www.umacoisaeoutra.com.br/literatura/falsos.htm