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quinta-feira, 14 de maio de 2026

Marta Pinho Alves - Cinema de Abril


Marta Pinho Alves

Quando chega Abril, o ci­nema e os seus cri­a­dores ex­plodem de emoção

Por­tugal. Abl. Ci­nema.

A Re­vo­lução de 1974 que ter­minou com os 48 anos de di­ta­dura fas­cista a que Por­tugal fora sub­me­tido abriu ca­minho à cri­ação cul­tural que tanto tempo havia es­tado amor­da­çada ou con­fi­nada a fron­teiras rí­gidas. No caso do ci­nema, a his­tória é bas­tante par­ti­cular e com­plexa, mas ten­ta­remos sin­te­tizar. Por­tugal co­meça o seu labor ci­ne­ma­to­grá­fico no final do sé­culo XIX, ali­nhado com o que acon­tece na Eu­ropa e nos EUA. Quando se inicia o ci­nema so­noro no nosso país, este surge já en­fi­lei­rado com o Es­tado fas­cista recém-criado e como ins­tru­mento de pro­pa­ganda. É o tempo das “co­mé­dias à por­tu­guesa” ou “co­mé­dias de Lisboa”, de que são exemplo filmes como Canção de Lisboa (José Cot­ti­nelli Telmo, 1933) ou Pátio das Can­tigas (Fran­cisco Ri­beiro, 1942), e dos filmes de­di­cados à his­tória e li­te­ra­tura na­ci­o­nais eleitas por An­tónio Ferro, tais como Amor de Per­dição (An­tónio Lopes Ri­beiro, 1943) ou Ca­mões (An­tónio Leitão de Barros, 1946). Es­go­tadas estas fór­mulas junto do pú­blico, facto que cul­minou em 1955, no cha­mado ano zero do ci­nema por­tu­guês, com a não pro­dução de ne­nhuma longa-me­tragem co­mer­cial, fruto de ini­ci­a­tivas es­ta­tais que pre­ten­diam re­a­bi­litar o in­te­resse do pú­blico pelo ci­nema feito em Por­tugal e formar pro­fis­si­o­nais, em par­ti­cular para a te­le­visão, cujo apa­re­ci­mento em Por­tugal, apesar de adiado, era cada vez mais ine­vi­tável, o ci­nema por­tu­guês é alvo de uma mu­dança sig­ni­fi­ca­tiva. Ex­pressar essas mu­danças e a re­cepção desse ci­nema numa só frase é im­pos­sível, mas talvez se possa tentar re­fe­rindo a cor­rente do Novo Ci­nema Por­tu­guês, que contém obras como Os Verdes Anos (Paulo Rocha, 1963) ou Be­lar­mino (Fer­nando Lopes, 1964), filmes que aban­donam o re­gisto épico dos filmes his­tó­rico-li­te­rá­rios ou fan­ta­siado da “co­média à por­tu­guesa”, para mos­trarem um país real, os seus ver­da­deiros ci­da­dãos e os seus de­sa­fios, an­gús­tias e im­posta imo­bi­li­dade.

Quando chega Abril, o ci­nema e os seus cri­a­dores ex­plodem de emoção como pra­ti­ca­mente todas as di­men­sões da so­ci­e­dade. É pre­ciso dizer agora aber­ta­mente o que antes não era pos­sível, é pre­ciso de­mons­trar o que antes era apenas su­ge­rido, é pre­ciso gritar a raiva do pas­sado e a pro­messa do fu­turo. “Ci­nema de Abril” é a de­sig­nação en­con­trada para o pe­ríodo, curto, em que o ci­nema se or­ga­nizou, saiu à rua, mo­bi­lizou todos com uma câ­mara na mão. Nesta época, or­ga­nizou-se um sin­di­cato de ci­nema, co­o­pe­ra­tivas, rei­vin­dicou-se mais di­nheiro para a pro­dução, o PCP criou no seio do seu Sector In­te­lec­tual uma Cé­lula de Ci­nema, de­di­cada a pro­duzir filmes sobre Abril, tudo isto tendo em vista o es­cla­re­ci­mento e a po­li­ti­zação das massas. Ler e es­crever ima­gens podia e devia ser di­reito de todos, não apenas dos já en­ten­didos e ini­ci­ados como au­tores1. Vale muito a pena re­gressar ao ci­nema pro­du­zido nesse pe­ríodo e per­ceber como foi re­latar, no mo­mento em que acon­tecia, aquele mo­mento his­tó­rico e a sua po­tência.

Para fi­na­lizar, uma nota de ac­tu­a­li­dade. O que per­ma­nece do ci­nema de Abril no ci­nema por­tu­guês? Quando evo­cámos os filmes da época é de pas­sado que fa­lamos ou também é do que somos hoje? Qual o le­gado para os filmes que fa­zemos no Por­tugal de 2026? Qual a marca dei­xada nos seus au­tores? É pos­sível não fa­larmos de Abril e con­ti­nu­armos a evocar as con­quistas de Abril? Há uma es­pe­ci­fi­ci­dade na­quilo que fre­quen­te­mente de­sig­namos como o ci­nema au­toral por­tu­guês – para o dis­tin­guir da cor­rente que afirma que o “ci­nema deve ir para o mer­cado”, estar ali­nhado com as in­dús­trias cul­tu­rais –, que o apro­xima da in­tenção da ci­ne­ma­to­grafia ini­ciada em Abril de 1974?

Ten­ta­remos, em pró­ximos textos, apro­xi­marmo-nos de uma res­posta quase im­pos­sível à per­gunta: o que é o ci­nema por­tu­guês (con­tem­po­râneo)?

1Sobre este tó­pico, ver o tra­balho vasto e di­verso dos in­ves­ti­ga­dores José Fi­lipe Costa e Paulo Cunha


https://www.avante.pt/pt/2733//183358

Marta Pinho Alves - “Estado Velho”




* Marta Pinho Alves

O filme re­alça a de­cre­pi­tude e a de­for­mi­dade do fas­cismo por­tu­guês

Fa­lamos neste texto do mais re­cente filme de João Bo­telho, in­ti­tu­lado O Velho Sa­lazar. O ci­ne­asta tem mos­trado nos úl­timos anos uma abun­dante pro­dução ci­ne­ma­to­grá­fica. Quase em si­mul­tâneo a esta obra es­treou outra ainda não su­fi­ci­en­te­mente co­nhe­cida e di­fun­dida, As Me­ninas Exem­plares, uma adap­tação muito livre do livro ho­mó­nimo de Con­dessa de Ségur, com uma ima­gé­tica for­te­mente ins­pi­rada no tra­balho da ar­tista plás­tica Paula Rego. No mo­mento ac­tual, entre as es­treias dos dois antes men­ci­o­nados, filmou já outro filme (em fase de pós-pro­dução), O Rei Lear, de Wil­liam Sha­kes­peare, ba­seado na tra­dução para por­tu­guês de Álvaro Cu­nhal, e en­contra-se a pre­parar o do­cu­men­tário Dan­cing Pe­ople Are Never Wrong.

Neste afã cri­ador, surge então um filme que se de­dica, mais do que à fi­gura do di­tador por­tu­guês, a pensar o que foi o Es­tado fas­cista que vi­gorou du­rante 48 anos e qual o seu le­gado. Longe de poder ser en­ten­dido como um bi­opic, ati­tude ci­ne­má­tica que o re­a­li­zador de­clara des­prezar, O Velho Sa­lazar é um exer­cício de ca­ri­ca­tura e des­cons­trução de um con­junto de nar­ra­tivas que não só per­duram e pa­recem re­cru­descer no mo­mento pre­sente face a dis­cursos nos­tál­gicos e de de­tur­pação do real. Bo­telho es­cla­rece que há uma pre­pa­ração do­cu­mental para as in­for­ma­ções que nos apre­senta no filme, todas estas fac­tuais e de­mons­tradas, mas que não obe­dece à mesma pre­o­cu­pação quando in­tervêm as falas de Sa­lazar. Essa per­so­nagem, que é apenas vista através de al­gumas fo­to­gra­fias co­nhe­cidas, não é cor­po­ri­zada em ne­nhum actor, ex­pressa-se oral­mente através de mo­nó­logos cri­ados por fer­ra­mentas de in­te­li­gência ar­ti­fi­cial, pre­ten­dendo assim in­va­lidar a sua ex­pressão, não fazer eco da mesma, mas antes evi­den­ciar os pa­ra­doxos entre o que afir­mava e a sua acção, assim como o seu alhe­a­mento face à re­a­li­dade e a sua na­tu­reza ca­duca e amoral (apesar da cons­tante evo­cação de uma mo­ra­li­dade vi­gente, en­ten­dida como ori­en­ta­dora da con­duta do­mi­nante).

Não obs­tante o nome do di­tador que compõe o tí­tulo e as per­so­na­gens que surgem no filme lhe es­tarem as­so­ci­adas quer na es­fera ín­tima (a go­ver­nanta?, a jovem amante fran­cesa, o ca­lista, o en­fer­meiro), quer na es­fera po­lí­tica (a go­ver­nanta?, o car­deal, o mi­nistro da pro­pa­ganda), não é sobre a pessoa que se quer falar, mas sobre um re­gime per­so­ni­fi­cado na­quela fi­gura. A forma como se ad­jec­tiva o su­posto pro­ta­go­nista – velho – as­si­nala fun­da­men­tal­mente a de­cre­pi­tude e a de­for­mi­dade de um sis­tema po­lí­tico mar­cado pelo mal, pela pro­funda vi­o­lência e re­ti­rada de dig­ni­dade ao povo tra­ba­lhador, e pelo apro­fun­da­mento das de­si­gual­dades entre classes, no que diz res­peito aos di­reitos mais ele­men­tares e à li­ber­dade, im­postos não apenas aos por­tu­gueses, mas também a todas as na­ções co­lo­ni­zadas, em nome de uma moral pe­dante e im­pi­e­dosa e de uma au­to­ri­dade pe­na­li­zante e pa­ra­li­sa­dora. De “Novo”, o Es­tado por­tu­guês de então tinha apenas a sua de­sig­nação, com pro­pó­sitos pro­pa­gan­dís­ticos. “Velho”, como aqui se de­signa o di­tador, é a me­lhor forma de com­pre­ender este re­gime e de o res­sig­ni­ficar.

Tratar um tema como este com re­curso ao humor, ao exa­gero, à am­pli­fi­cação e à ca­ri­ca­tura, é talvez es­tra­tégia que possa deixar al­guns des­con­for­tá­veis. Con­tudo, ne­nhuma das per­so­na­gens te­ne­brosas que des­filam no ecrã são hu­ma­ni­zadas ou re­a­bi­li­tadas, antes são ex­postas ao ri­dí­culo, ob­ser­vadas à lupa nos seus des­vios, ex­cen­tri­ci­dades e ali­e­nação.

A sá­tira tem sido um bom ins­tru­mento de aná­lise de si­tu­a­ções que dei­xaram marcas pro­fundas nas suas ví­timas e com as quais é di­fícil lidar. Du­rante o breve pe­ríodo do Ci­nema de Abril de que fa­lámos em texto an­te­rior, a Cé­lula de Ci­nema do Par­tido Co­mu­nista Por­tu­guês pro­duziu, em 1977, uma curta-me­tragem as­si­na­lável in­ti­tu­lada As Des­ven­turas do Drá­cula Von Bar­reto nas Terras da Re­forma Agrária, que tra­tava de forma jo­cosa, em­bora com um claro po­si­ci­o­na­mento po­lí­tico, o tema re­fe­rido no tí­tulo.

João Bo­telho cita o di­tador no início do filme quando este afirma «Hão-de dizer muito mal de mim». O ci­ne­asta con­firma a in­tenção do seu filme, afir­mando «Assim será».

https://www.avante.pt/pt/2737/argumentos/183651/%E2%80%9CEstado-Velho%E2%80%9D.htm

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Marta Pinho Alves - No cinema e na rua, a luta continua

 


*   Marta Pinho Alves

A ficção também pode ser en­ga­jada com causas

No momento em que a Netflix comprou a Warner Bros. Discovery, incluindo os seus estúdios de cinema e televisão, HBO Max e HBO, e deixou os clientes a tremer, a pensar que vão perder acesso às suas doses diárias de entretenimento e alienação, e a empresa de stre­a­ming esfrega as mãos a decidir como rentabilizar o negócio, ao mesmo tempo que apazigua o temor daqueles, importa lembrar que as imagens em movimento não servem apenas como mercadoria, mas também podem constituir mecanismos de esclarecimento e mobilização.

A pro­pó­sito da greve geral que se avi­zinha e da luta contra a perda dos di­reitos con­quis­tados pelos tra­ba­lha­dores, alude-se a al­guns filmes que de formas dis­tintas con­si­de­raram estas pre­o­cu­pa­ções. Ha­verá cer­ta­mente filmes mais ób­vios, ou­tros que fazem re­fe­rência di­recta a greves, al­guns mais im­por­tantes para a his­tória do ci­nema ou ainda uns que, pelo seu re­gisto do­cu­mental, terão uma forma tes­te­mu­nhal mais forte e mais le­gi­ti­ma­dora dos di­reitos e as­pi­ra­ções dos tra­ba­lha­dores. Pre­tendeu-se, con­tudo, aqui, como pri­meiro cri­tério, es­co­lher filmes de ficção, pois, como se disse, pre­tendia-se mos­trar que a ficção também pode ser en­ga­jada com causas, e, como opção mais pes­soal, filmes que ti­vessem as­su­mido par­ti­cular re­le­vância no mo­mento em que foram vistos pela au­tora. A ordem pela qual se as­si­nalam é a da data da sua pro­dução. Como se per­ce­berá são todos re­la­ti­va­mente re­centes, o que evi­dencia que con­ti­nuam a ma­ni­festar-se pre­o­cu­pa­ções dos nossos dias.

Co­meça-se com a re­fe­rência a Re­cursos Hu­manos, de 1999, (Res­sources Hu­maines, real: Lau­rent Cantet, co­pro­dução de Reino Unido e França). Neste, um jovem recém-li­cen­ciado é con­tra­tado para par­ti­cipar na re­es­tru­tu­ração da fá­brica onde tra­balha o seu pai, ope­rário há mais de trinta anos. O rapaz, ide­a­lista, con­vence-se de que po­derá ajudar a me­lhorar as con­di­ções la­bo­rais dos tra­ba­lha­dores, até que per­cebe que re­es­tru­turar sig­ni­fica des­pedir pes­soas, entre as quais o pro­ge­nitor.

Em Às Se­gundas ao Sol, de 2002, (Los Lunes al Sol, real: Fer­nando León de Aranoa, Es­panha), o ob­jec­tivo é pensar de que se ocupam os ho­mens que nunca co­nhe­ceram outra vida que não a do tra­balho e que agora estão de­sem­pre­gados e sem pers­pec­tivas de su­perar essa nova con­dição.

Em A Lei do Mer­cado, de 2015, (La Loi du Marché, real: Stéphane Brizé, França), um homem fica feliz após ar­ranjar um em­prego não qua­li­fi­cado, de­pois de vá­rios anos de­sem­pre­gado. O or­de­nado é parco e a ta­refa pouco sa­tis­fa­tória, mas per­mite cum­prir o que sente como as suas obri­ga­ções fa­mi­li­ares. Per­cebe, con­tudo, que há prin­cí­pios éticos e mo­rais dos quais terá de ab­dicar para per­ma­necer em­pre­gado: en­quanto se­gu­rança do su­per­mer­cado onde tra­balha, é-lhe pe­dido que re­porte o com­por­ta­mento dos seus co­legas para que as che­fias possam de­cidir se os mesmos mantêm o em­prego ou são des­pe­didos.

Eu, Da­niel Blake, de 2016 (I, Da­niel Blake, real: Ken Loach, Reino Unido), é sobre um tra­ba­lhador que, pe­rante um grave pro­blema de saúde que o im­pede de tra­ba­lhar, pro­cura o apoio do ser­viço na­ci­onal de saúde, mas vê-se en­re­dado numa teia de ab­surda bu­ro­cracia que não con­segue de­sen­lear antes da sua morte.

Fi­nal­mente, A Fá­brica de Nada, filme por­tu­guês de 2017 (real: Pedro Pinho), é uma es­tória ba­seada em acon­te­ci­mentos reais, mas po­deria tido como ponto de par­tida vá­rios ou­tros si­mi­lares. Tem por base a or­ga­ni­zação de um con­junto de ope­rá­rios de uma fá­brica, que re­solvem unir-se, quando per­cebem que a em­presa em que tra­ba­lham está a ser pau­la­tina e se­cre­ta­mente des­man­te­lada e que a con­sequência da re­ti­rada das má­quinas que per­mitem a sua la­bo­ração le­vará, ine­vi­ta­vel­mente, à ex­tinção dos seus postos de tra­balho. Entre a ocu­pação da fá­brica, a re­sis­tência à pressão feita pela ad­mi­nis­tração, a greve mar­cada pela pre­sença no local de tra­balho, apesar da im­pos­si­bi­li­dade de re­a­li­zação das ta­refas con­tra­tadas, chega fi­nal­mente a vi­tória pelo fun­ci­o­na­mento em au­to­gestão. Pelo meio, todas as dis­cus­sões tão re­le­vantes e que in­qui­etam todos os tra­ba­lha­dores sobre a ne­ces­si­dade de acei­tação das in­dem­ni­za­ções ofe­re­cidas para dar res­posta às ne­ces­si­dades fa­mi­li­ares e a even­tual re­cusa em nome da dig­ni­dade e da re­sis­tência.

Creio que a luta destes tra­ba­lha­dores em que nos sen­timos re­pre­sen­tados traduz a ne­ces­si­dade de par­ti­ci­parmos no grande e le­gí­timo pro­testo que terá lugar no pró­ximo dia 11 de De­zembro.

2025 12 10

https://www.avante.pt/pt/2715/argumentos/181952/No-cinema-e-na-rua-a-luta-continua.htm