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domingo, 18 de agosto de 2013

"Um Espião Perfeito", de John Le Carré


"Um Espião Perfeito", de John Le Carré,
na Colecção Mil Folhas
Numa obra tão abundante e tão boa como a do escritor britânico John Le Carré será difícil dizer que o livro "Um Espião Perfeito" é a sua mais brilhante pérola. A legião dos que acham que sim é imensa mas qualquer outra legião de adeptos de outros livros de Le Carré não será menor. No entanto, "Um Espião Perfeito" é, sem dúvida, a mais imortal obra do autor e a de maior densidade literária, que o fez conquistar um lugar na galeria dos grandes escritores do século XX.

Publicado em 1986, "Um Espião Perfeito" é o livro em que John Le Carré mais apostou enquanto escritor e em que mais se expôs enquanto pessoa no terrível ajuste de contas com a sua história familiar e a vida de espião que abraçou muito cedo, ainda estudante em Oxford, onde, tal como outros notáveis agentes secretos da sua geração, denunciou as simpatias comunistas de muitos dos seus amigos.

Atravessado por uma incursão autobiográfica do autor, o livro tem essa perturbadora marca da história pessoal de Le Carré, que transforma "Um Espião Perfeito" numa viagem pelos caminhos da traição. A traição dos amigos, da família, das causas. A dupla traição do Ocidente e do Leste remete para uma leitura política do livro, mas esta perde força face à magnitude da riqueza humana e psicológica das personagens construídas por Le Carré. Este é, afinal, mais um livro sobre a complexidade inextricável da raça humana do que um romance, porventura "o romance", da Guerra Fria.
David Cornwell, verdadeiro nome de John Le Carré, só em 1993 admitiu publicamente que quase toda a vida trabalhara para os serviços secretos britânicos. Começa aí a conhecer-se uma biografia profissional e pessoal do autor, que se cruza inteiramente em "Um Espião Perfeito" com a vida de Magnus Pym, o agente secreto sem causa que sobretudo tem uma paixão irresístivel pelo género humano, o que o leva invariavelmente a esbarrar na impossibilidade de juntar, em qualquer circunstância da vida, o melhor de dois mundos.

A sua infância foi muito difícil e atravessada por um conflito interior profundíssimo contra o seu pai, um adorável vigarista que conheceu prisões, hóteis de cinco estrelas, casinos e mulheres por esse mundo fora. Gastava hoje o que julgava vir a ganhar amanhã. Rick Pym é a personagem de "Um Espião Perfeito" que caminha sobre a vida de Ronnie Cornwell, o pai de John Le Carré, e nunca sai de uma interminável conversa com Magnus Pym, a principal personagem do livro que nos vai dando a chave de todas as evasões possíveis.


   “O escritor observa, escuta, regista. Depois, conta uma história, juntando a imaginação à experiência. E esta leva, inevitavelmente, as cicatrizes da alma.”http://static.publico.pt/docs/cmf3/escritores/85-JohnLeCarre/texto.htm
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Opinião
Berna, Londres, Viena, Berlim… um retrato poderoso da Guerra Fria. Espiões, agentes secretos, profissionais do disfarce e do embuste, homens sem identidade, perdida entre mil e uma imagens construídas para mentir à procura da verdade. 

Pym é o agente perfeito – vendido aos dois lados – que procura durante toda a vida encontrar-se consigo mesmo e redimir a traição à amizade por Axel – o amigo/inimigo. 

Por outro lado há o pai – memórias de um progenitor criminoso mas herói. Daqui resulta uma narrativa quase psicanalítica, marcada pelas recordações do passado e escrita, disfarçadamente, na primeira pessoa do singular.
 
O enredo revela toda a arte de Le Carré, capaz de manter aquele tom enigmático que prende o leitor ao longo de 575 enormes e recheadas páginas. Um livro longo, a espaços cansativo mas nunca maçador. 

No final, fica a ideia de um homem sem identidade, perdidos nos disfarces e numa eterna procura que, nos últimos tempos, tenta redimir todo o passado que o tortura. 

Na vida de Pym, fidelidade e traição são conceitos ambíguos que vivem lado a lado e se misturam permanentemente. De entre todos os sentimentos conflituosos, emerge em Pym um único que conquista a primazia: a amizade, o valor supremo. Uma amizade que nasce da traição – a única realidade capaz de gerar felicidade. 

“A traição é uma profissão repetitiva” (Pág. 564) 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Poesia de Miguel Torga

Aos PoetasSomos nós 
As humanas cigarras. 
Nós, 
Desde o tempo de Esopo conhecidos... 
Nós, 
Preguiçosos insectos perseguidos. 

Somos nós os ridículos comparsas 
Da fábula burguesa da formiga. 
Nós, a tribo faminta de ciganos 
Que se abriga 
Ao luar. 
Nós, que nunca passamos, 
A passar... 

Somos nós, e só nós podemos ter 
Asas sonoras. 
Asas que em certas horas 
Palpitam. 
Asas que morrem, mas que ressuscitam 
Da sepultura. 
E que da planura 
Da seara 
Erguem a um campo de maior altura 
A mão que só altura semeara. 

Por isso a vós, Poetas, eu levanto 
A taça fraternal deste meu canto, 
E bebo em vossa honra o doce vinho 
Da amizade e da paz. 
Vinho que não é meu, 
Mas sim do mosto que a beleza traz. 

E vos digo e conjuro que canteis. 
Que sejais menestréis 
Duma gesta de amor universal. 
Duma epopeia que não tenha reis, 
Mas homens de tamanho natural. 

Homens de toda a terra sem fronteiras. 
De todos os feitios e maneiras, 
Da cor que o sol lhes deu à flor da pele. 
Crias de Adão e Eva verdadeiras. 
Homens da torre de Babel. 

Homens do dia-a-dia 
Que levantem paredes de ilusão. 
Homens de pés no chão, 
Que se calcem de sonho e de poesia 
Pela graça infantil da vossa mão. 

Miguel Torga, in 'Odes'

À BelezaNão tens corpo, nem pátria, nem família, 
Não te curvas ao jugo dos tiranos. 
Não tens preço na terra dos humanos, 
Nem o tempo te rói. 
És a essência dos anos, 
O que vem e o que foi. 

És a carne dos deuses, 
O sorriso das pedras, 
E a candura do instinto. 
És aquele alimento 
De quem, farto de pão, anda faminto. 

És a graça da vida em toda a parte, 
Ou em arte, 
Ou em simples verdade. 
És o cravo vermelho, 
Ou a moça no espelho, 
Que depois de te ver se persuade. 

És um verso perfeito 
Que traz consigo a força do que diz. 
És o jeito 
Que tem, antes de mestre, o aprendiz. 

És a beleza, enfim. És o teu nome. 
Um milagre, uma luz, uma harmonia, 
Uma linha sem traço... 
Mas sem corpo, sem pátria e sem família, 
Tudo repousa em paz no teu regaço. 
Miguel Torga, in 'Odes'

Poema Melancólico a não sei que MulherDei-te os dias, as horas e os minutos 
Destes anos de vida que passaram; 
Nos meus versos ficaram 
Imagens que são máscaras anónimas 
Do teu rosto proibido; 
A fome insatisfeita que senti 
Era de ti, 
Fome do instinto que não foi ouvido. 

Agora retrocedo, leio os versos, 
Conto as desilusões no rol do coração, 
Recordo o pesadelo dos desejos, 
Olho o deserto humano desolado, 
E pergunto porquê, por que razão 
Nas dunas do teu peito o vento passa 
Sem tropeçar na graça 
Do mais leve sinal da minha mão... 

Miguel Torga, in 'Diário VII'
Da RealidadeQue renda fez a tarde no jardim, 
Que há cedros que parecem de enxoval? 
Como é difícil ver o natural 
Quando a hora não quer! 
Ah! não digas que não ao que os teus olhos 
Colham nos dias de irrealidade. 
Tudo então é verdade, 
Toda a rama parece 
Um tecido que tece 
A eternidade. 

Miguel Torga, in 'Nihil Sibi'
PrincípioNão tenho deuses. Vivo 
Desamparado. 
Sonhei deuses outrora, 
Mas acordei. 
Agora 
Os acúleos são versos, 
E tacteiam apenas 
A ilusão de um suporte. 
Mas a inércia da morte, 
O descanso da vide na ramada 
A contar primaveras uma a uma, 
Também me não diz nada. 
A paz possível é não ter nenhuma. 

Miguel Torga, in 'Penas do Purgatório'

http://www.citador.pt/poemas/a/miguel-torga

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Sonetos sobre a ausência



SONETO DA AUSENCIA MAIOR
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Agora me acostumarei com a ausencia ,triste!
Dos toques de teus dedos acariciando o meu corpo
Viverei com meu olhar longe na distancia , morto
Sentindo ,por certo, a angustia mais cruel que existe
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Acostumarei com a ausencia dos teus beijos
Que sempre se liberavam no ceu de minha boca
Sua lingua buscando a minha lingua ja quase louca
Que me queimava o corpo de tantos desejos
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Agora me acostumarei com as noites mal dormidas
Tendo minha propria sombra como companheira
Que ainda danca nas paredes em formas distorcidas
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Se perceber que meu coracao chora amargurado
Sentindo a ausencia de tua presenca verdadeira
Que me deixou completamente despedacado
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Vinícius de Moraes


Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces.
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada.
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

MORAES, Vinícius de. ANTOLOGIA POÉTICA.
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Vinicius de Moraes


Soneto da separação
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De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
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De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
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De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
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Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
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Soneto da Ausência
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A mão que disse adeus era um veleiro
no mar da solidão. O amor perdido
era um luar humilde e companheiro
do coração mais que do céu nascido.
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Dantes, a paz não fora o meu roteiro.
Sonhava, apenas. Nem jamais, ferido
pelo céu, pelo mar, vivera inteiro
o meu reino de luz, já proibido.
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Vi então que a alegria era um soluço
e o coração o mar e o céu cansados,
o coração há tanto adormecido.
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E hoje no adeus, lembrando, me debruço,
no adeus que é o grito dos desesperados
e o olhar febril de algum enlouquecido.
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Alphonsus de Guimaraens Filho
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[PDF]

POESIA (POUCO) DIAMANTINA — Doze sonetos inéditos alusivos

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Soneto XLV

Não estejas longe de mim um só dia,porque como,
porque, não sei dizê-lo, é comprido o dia,
e te estarei esperando como nas estações
quando em alguma parte dormitaram os trens.

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Não te vás por uma hora porque então
nessa hora se juntam as gotas do desvelo
e talvez toda a fumaça que anda buscando casa
venha matar ainda meu coração perdido.


Ai que não se quebrante tua silhueta na areia,
ai que não voem tuas pálpebras na ausência;
não te vás por um minuto, bem-amada,

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Porque nesse minuto terás ido tão longe
que eu cruzarei toda a terra perguntando
se voltarás ou se me deixarás morrendo


Pablo Neruda
~ por kavorka em 14/08/2007.


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Soneto de Mal Amar

Invento-te    recordo-te   distorço
a tua imagem mal e bem amada
sou apenas a forja em que me forço
a fazer das palavras tudo ou nada.
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A palavra desejo incendiada
lambendo a trave mestra do teu corpo
a palavra ciúme atormentada
a provar-me que ainda não estou morto.
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E as coisas que eu não disse? Que não digo:
Meu terraço de ausência    meu castigo
meu pântano de rosas afogadas.
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Por ti me reconheço e contradigo
chão das palavras mágoa joio e trigo
apenas por ternura levedadas.
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Ary dos Santos, in 'O Sangue das Palavras'

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Poemas de William Shakespeare
Soneto 57
Sendo-te escravo, que farei senão
cuidar-te a tempo e horas do desejo?
Não tenho ao tempo cara ocupação,
Nem, sem que o peças, de servir ensejo.
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E não censuro a hora sem ter fim
Em que as horas por ti, senhor, vigio,
Nem penso a atroz ausência, amargo-a sim,
Porque a teu servo deste um adeus frio.
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Nem ouso questionar em meu ciúme
Onde possas estar e o que é que fazes:
Um triste escravo nada mais presume
Salvo onde estás, que a sorte a outrem trazes.
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Tão louco é amor que quer no teu Will
(haja o que houver) nada pensar de vil.
 
(versão de Vasco Graça Moura)
 
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Teu escravo, que mais poderei fazer
Que sempre responder ao teu desejo?
Nada me custa o tempo despender,
Nem eu livre do teu querer me vejo.
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Nem maldigo o não-acabar dest' hora
Em que eu, a vós submisso, o tempo meço
Nem remoo na amarga demora
Por vosso adeus causada, em que me empeço.
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Nem pergunto, no meu ciúme imenso
Pelo que te ocupa nem onde estás.
Assim, quieto escravo, em nada penso
Mais que na alegria que a outros dás.
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Louco o amor, seja a tua vontade
Como for, nunca a terei por maldade.
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http://www.lovers-poems.com/poemas-de-amor-shakespeare-soneto57.html

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 Aos afetos e lágrimas derramadas na ausência
da Dama a quem queria bem

Ardor em firme coração nascido;
Pranto por belos olhos derramado;
Incêndio em mares de água disfarçado;
Rio de neve em fogo convertidos:
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Tu, que em um peito abrasas escondido;
Tu, que em um rosto corres desatado;
Quando fogo, em cristais aprisionado;
Quando. cristal, em chamas derretido:
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Se és fogo, como passas brandamente?
Se és neve, como queimas com porfia?
Mas ai, que andou Amor em ti prudente!
 .
Pois para temperar a tirania,
Como quis que aqui fosse a neve ardente,
Permitiu parecesse a chama fria.
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Gregório de Mattos
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http://www.antoniomiranda.com.br/Iberoamerica/brasil/gregorio_de_mattos.html
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