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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

(89) Representações de Álvaro Cunhal 03 - A Imprensa Clandestina e a Fuga de Peniche

 

Setúbal  - Memorial comemorativo do centenário do nascimento de Álvaro Cunhal (2013), (Foto victor nogueira  IMG_1522)

Poetas da Imprensa Clandestina (Avante! e O Militante)

  • Contexto: Nos anos 50 e 60, circulavam no boletim A Voz das Camaradas e no jornal Avante! dezenas de poemas assinados sob pseudónimo ou anonimato por militantes e operários.

  • Temática: Muitos destes versos eram dedicados a "Duarte" ou "Arnaldo" (os nomes clandestinos de Cunhal) e focavam-se na sua libertação da prisão de Peniche, comparando a sua fuga a uma "brecha na noite" do fascismo.


Euma poética de resistência militante, escrita por anónimos, operários e comunistas na clandestinidade (ou durante a prisão), dedicada a Álvaro Cunhal  e à lendária fuga do Forte de Peniche a 3 de janeiro de 1960.

1. A Imprensa Clandestina e a Fuga de Peniche (Janeiro de 1960)

Nos dias imediatamente a seguir à evasão do Forte de Peniche, versos escritos à pressa por militantes anónimos circularam em edições clandestinas do Avante! e em panfletos distribuídos nas fábricas da Margem Sul e do Porto. Neles, o nome «Duarte» (com o qual Cunhal era conhecido na organização clandestina) surgia como metáfora da própria resistência:

  • Excerto de poema anónimo militante (circa 1960):

«Caiu a grade, quebrou-se o muro,

rasgou-se o vento na noite fria.

O Duarte volta ao nosso lado, 

traz a promessa de um novo dia.

 

Peniche ruiu na sua vaidade, 

a maré alta não guardou a prisão: 

quem tem o povo na sua voz 

nunca esteve preso na amplidão.»

2. O Boletim «A Voz das Camaradas» (Anos 50)

O boletim interno A Voz das Camaradas era redigido e distribuído clandestinamente por e para as mulheres da organização comunista (muitas delas companheiras de militantes presos ou operárias na clandestinidade). Durante os mais de dez anos em que Cunhal esteve preso (1949–1960), era frequente a publicação de poemas de solidariedade dirigidos aos dirigentes encarcerados:

  • Versos de uma militante operária (assinado como «Uma Camarada», anos 50):

«Na cela fria onde o tempo para, 

não vergam a fibra do teu pensar.

Escreves no escuro, Duarte irmão, 

aquilo que o povo há de cantar.

 

A tua ausência é presença viva 

na nossa jornada contra a dor, 

por cada grade que te prende a carne, 

cresce no peito o nosso amor.»

3. José Dias Coelho e os Artistas na Clandestinidade

José Dias Coelho (esculptor e militante clandestino assassinado pela PIDE em 1961) e a sua companheira Margarida Tengarrinha produziam ilustrações e textos para a imprensa clandestina. Na sequência da fuga de Peniche, multiplicaram-se as estrofes populares escritas para serem cantadas ou declamadas em reuniões clandestinas, celebrando o feito:

  • Quadras populares clandestinas (1960):

«Peniche já não é fortaleza,

uma porta que se abriu, o camarada 

 Duarte passou e a noite do fascismo tremeu.

 

Guardavam-no torres e marés,  

guardavam-no armas e sentinelas, 

mas a vontade de um povo livre 

consegue saltar todas as janelas.»

(Gemini) 

domingo, 9 de agosto de 2026

(68) 'A Morte de Bocage' (fado) (Na noite escura, no quarto calado)

 

Setúbal - estátua e Praça de Bocage (foto victor nogueira)

. Letra do Fado "A Morte de Bocage"


Na noite escura, no quarto calado,

Apaga-se a vela, fecha-se o olhar,

Morre o Poeta que viveu em fado,

Que fez do verso a forma de amar.


Já não há rimas de riso e sátira,

Cumpriu-se a hora do seu destino,

Chora Setúbal, chora a sua pátria,

A partida triste de Elmano Sadino.


A pena caindo da mão cansada,

O livro aberto no último verso,

A alma livre, da dor libertada,

Vai procurar o seu universo.


Passam os anos, passa a memória,

Mas na calçada de noites sem fim,

Fica Bocage gravado na história,


Cantado em fado e em tom menor assim.

~~~~~~ooo0ooo~~~~~~

Relativamente à letra do fado "A Morte de Bocage"  pertence à tradição oral do fado vadio e de fado de coimbra/lisboa.

No fado e na música popular portuguesa, a figura de Bocage surge frequentemente humanizada, boémia e trágica. O fado "A Morte de Bocage" (revisitado por vários fadistas e gravado em registos históricos do fado de Coimbra e de Lisboa) canta os seus últimos momentos e o contraste entre a sátira e a morte.

Na história do fado, muitas destas composições de tom descritivo e memorialista sobre figuras históricas não têm um autor individual registado nas plataformas modernas. São tidas como domínio público / fado tradicional (frequentemente cantadas na estrutura do Fado Menor ou Fado Cravo). (Gemini)

sexta-feira, 17 de julho de 2026

(31) - José Régio - Romance de Vila do Conde



* José Régio

Não se trata dum mural, mas resolvi incluí-lo nesta série. a partir duma inscrição na escadaria de acesso à Capela do Socorro, em Vila do Conde.


O excerto presente na lápide faz parte do poema "Romance de Vila do Conde", escrito por José Régio, uma composição lírica de tom nostálgico, onde o autor recorda com saudade as paisagens da sua infância e juventude na sua terra natal. 

O texto completo do poema é o seguinte:

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Manuel Bandeira - A estrela

* Manuel Bandeira

Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

andorinhas na poesia


foto victor nogueira - ninhos de andorinhas

Quem se lembra destes ninhos, construídos em muitos edifícios em Portugal de lés a lés, ninhos de andorinhas que com o seu chilreio anunciavam o regresso cíclico  da Primavera?  

Quem se lembra dos galos que cocoricavam de madrugada, ao despontar do sol, anunciando um novo alvorecer?

Quem se lembra dos burros, machos e mulas, que durante milénios foram as bestas de carga para transportarem mercadorias e pessoas, puxarem o arado ou a carroça ou fazerem girar as noras e outros aparelhos para extraírem água dos poços?

Poesia sobre as andorinhas

* Fernando Pessoa

Andorinha que vais alta,
Porque não me vens trazer
Qualquer coisa que me falta
E que te não sei dizer?

s.d.
Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa
~~~~~~~~

* Manuel Bandeira

Andorinha lá fora está dizendo:
— "Passei o dia à toa, à toa!"

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa...
~~~~~~~

* Casssiano  Ribeiro   

As Andorinhas de António Nobre 

—Nos
—fios
—ten
sos

—da
—pauta
—de me-
tal

—as
— an/
do/
ri/
nhas
—gri-
tam

—por
—fal/
ta/
—de u-
ma
—cl’a-
ve
—de
—sol
~~~~~~~~

* Natália Correia  

O Espírito 

Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;

E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.

Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:

Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.

Natália Correia, in “Poesia Completa
~~~~~~~~

* Florbela Espanca 

Filtro

Meu Amor, nao é nada: - Sons marinhos
Numa concha vazia, choro errante...
Ah, olhos que nao choram! Pobrezinhos...
Nao há luz neste mundo que os levante!

Eu andarei por ti os maus caminhos
E as minhas maos, abertas a diamante,
Hao de crucificar-se nos espinhos
Quando o meu peito for o teu mirante!

Para que corpos vis te nao desejem,
Hei de dar-te o meu corpo, e a boca minha
Pra que bocas impuras te nao beijem!

Como quem roça um lago que sonhou,
Minhas cansadas asas de andorinha
Hao-de prender-te todo num só vóo...
~~~~~~~~

* Maria João Brito de Sousa

Acenar a Primavera nas asas duma andorinha

Aonde as andorinhas que as não vejo?
Atrasos? Nunca os houve neste céu!
Talvez seja, afinal, engano meu
Ou talvez seja céu quanto eu desejo...

Aonde os negros fatos que eu invejo?
Aonde os aventais que Deus teceu?
Aonde as asas negras como breu
Criando aéreas pontes sobre o Tejo?

Aonde as andorinhas que chegavam,
Em louca revoada, ao Portugal
Que havia nos meus tempos de menina?

Até onde os meus olhos alcançavam
As negras asas davam-me o sinal
Para acender, num sonho, a luz divina.

 
Maria João Brito de Sousa - 18.03.2008
~~~~~~~

(Popular)

Ó meu amor de tão longe,
Escreve-me uma cartinha;
Se não tiveres papel,
Nas asas duma andorinha

(Cancioneiro da Serra de Agra)

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Antônio Queiroz de França - O Manifesro Comunista em Cordel

O MANIFESTO COMUNISTA EM CORDEL



O economista, filósofo e socialista alemão Karl Marx tem, pela primeira vez, suas idéias lançadas em poemas de cordel pelo poeta popular cearense Antônio Queiroz de França.

Literatura de cordel é um tipo de poesia popular, originalmente oral, e depois impressa em folhetos rústicos ou outra qualidade de papel, expostos para venda pendurados em cordas ou cordéis, o que deu origem ao nome que vem lá de Portugal, que tinha a tradição de pendurar folhetos em barbantes. É um gênero literário especialmente encontrado no Nordeste brasileiro


Trechos de “O Manifesto Comunista em Cordel”:


Pensadores, sociólogos,
Cientistas sociaisi
Preocupem-se com o Homem
Este “rei dos animais”
Que cultiva o egoísmo,
Da ética não lembra mais.


Devido à desigualdade
Estudam a economia
E chegaram à conclusão
Que a poucos privilegia
Sem o mínimo pra ter vida
Sofre a grande maioria.


Fizeram a divisão
Após “estudos profundos”:
“Primeiro mundo” dos ricos,
“Terceiro” dos moribundos.
Os pobres escravizados
Por burgueses dos dois mundos.


Um grande gênio alemão
E um outro camarada
Prepararam uma tese
Da humanidade estudada
E descobriram a causa
Da fome verificada.


Foi de Karl Marx e Engels
A grande ação humanista
Quando lançaram ao mundo
O Manifesto Comunista,
Dizendo que nosso grito
Necessita ser conquista.


Em mil e oitocentos e
Quarenta e sete emitiram
Na liga dos comunistas
Em congresso decidiram,
O Manifesto dos pobres
Marx e Engels redigiram.


Feito de forma eclética
Une anticapitalistas
Da grande Liga Operária
Os quais eram comunistas
Que faziam um consenso
Com os irmãos anarquistas.


Quando a vida virou luxo
Neste tal Planeta Terra
Onde poucos vivem bem.
Pra se manter fazem guerra
Sobre muitos que produzem
Nova escravidão se encerra.


Gera insensibilidade
Em todos desde a infância:
Nos ricos por vaidade,
É causada por ganância;
Nos pobres pela miséria,
A causa é ignorância.


Sobre os nossos ombros pesa
A responsabilidade
Entre o nosso segmento
Com solidariedade.


O Partido Comunista
Já começa a progredir
E os vários movimentos
Resolveram se unir,
Para vil exploração,
Neste planeta, abolir.


Várias correntes de idéias,
Movimentos Sociais,
Havia, entre operários
E entre intelectuais.
Depois deste Manifesto
Tornaram-se consensuais.


O movimento operário
Chamava-se comunista,
Dos intelectuais
Era o socialista.
Afora outro que havia
Chamado de anarquista.


Dizem no Manifesto
Que existia um fantasma
Rondando toda a Europa
(De medo o Estado pasma),
Que prometia dá fim,
Entre nós, num cataplasma.


Karl Marx conclama a todos
Para entrarem em ação
Unindo os trabalhadores
Sem destinção de nação
Para o fantasma passar
Á materialização.


http://ceget.blogspot.com/2010/01/o-manifesto-comunista-em-cordel.html 


quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

José Afonso - Viva o Poder Popular

   edição LUAR - 1975

* José Afonso

Não há velório nem morto
Nem círios para queimar
Quando isto der prò torto
Não te ponhas a cavar

Quando isto der prò torto
Lembra-te cá do colega
Não tenhas medo da morte
Que daqui ninguém arreda

Se a CAP é filha do facho
E o facho é filho da mãe
O MAP é filho do Portas
Do Barreto e mais alguém

Às aranhas anda o rico
Transformado em democrata
Às aranhas anda o pobre
Sem saber quem o maltrata

Às aranhas te vi hoje
Soldado, na casamata
Militares colonialistas
Entram já na tua casa

Vinho velho vinho novo
Tudo a terra pode dar
Dêm as pipas ao povo
Só ele as sabe guardar

Vem cá abaixo ó Aleixo
Vem partir o fundo ao tacho
Quanto mais lhe vejo o fundo
Mais pluralista o acho

Os barões da vida boa
Vão de manobra em manobra
Visitar as capelinhas
Vender pomada da cobra

A palavra socialismo
Como está hoje mudada
De colarinho a Texas
Sempre muito aperaltada

Sempre muito aperaltada
Fazendo o V da vitória
Para enganar o proleta
Hás-de vir comigo a glória

O Willy Brandt é macaco
O Giscard é macacão
O capital parte o coco
Só não ri a emigração

De caciques e de bufos
Mandei fazer um sacrário
Para por no travesseiro
Dum cura reaccionário

Não sei quem seja de acordo
Como vamos terminar
Vinho velho vinho novo
Viva o Poder Popular


http://alfarrabio.di.uminho.pt/zeca/cancoes/141.html

domingo, 4 de março de 2018

DISCURSO DO CATEDRÁTICO A HAVER

(em quadrinhas de mal dizer, para cantar à esquina)



* José Gabriel


        I
Com todo este saber
(Isto é axiomático)
Quando for grande vou ser
Um professor catedrático.

Não sou de grande ciência
Mas sou muito carismático
Vou ser, tenham paciência,
Um professor catedrático

Graças a vistosa finta
Com um drible burocrático
Vou ser, e com grande pinta,
Um professor catedrático.

Não tenho modos de mestre
Sou mais para o autocrático
Mas vou, ao jeito rupestre,
Ser professor catedrático.

A gestão da Tecnoforma
De um modo automático
Só por si, já me transforma
Em professor catedrático.

                    II
E esta minha voz sonora?
E este meu jeito enfático?
E a minha arte canora?
Sou ou não sou catedrático?

E o meu pendor dogmático?
E o meu pin emblemático?
E o meu talento empático?
E o meu dom democrático?

E o meu quadro idiossincrático?
E o fôlego psicossomático?
E o olhar electrostático?
E o sorriso simpático?

III
Não serei um bom gramático
– Sou até muito assintático –
Resolvo de modo prático
Metendo um ano sabático

Queixo-me de reumático
E de um problema hepático
P’ra não falar no ciático
E no síndroma prostático

As escolas são como selvas
Para quem tem dotes escassos
Bem me vai dizendo o Relvas:
“Vai mas é estudar, ó Passos!”

Não gostaram do meu esquema?
(Eu sou um tipo esquemático)
É vosso, esse problema.
Por mim, vou ser catedrático


03/03/2018
https://estatuadesal.com/2018/03/03/discurso-do-catedratico-a-haver-em-quadrinhas-de-mal-dizer-para-cantar-a-esquina/

sábado, 19 de março de 2016

Clara Ribeiro Pacheco - “Dedicado a meu pai”

XIII Antologia de Poesia do C. N. A. P. – Poema: “Dedicado a meu pai”

por Francisco Carita Mata, em 02.02.16
Círculo Nacional D’Arte e Poesia


Neste Post Nº 301, divulgamos o Poema “Dedicado a meu pai”, de Clara Ribeiro Pacheco, de Esperança (Arronches).

“Dedicado a meu pai”

“Se eu contar não acreditam
Aquilo que fiz na vida
Alguns ainda criticam
Andei sempre em dura vida

Querendo ser o primeiro
Em qualquer ocasião
Nas searas vi molheiro
E nos montes fui ganhão

Limpei chaparros bem altos
Por vezes vertigens tinha
As sopas iam sem caldo
Pouca sorte foi a minha

Varejei muita bolota
Para os porcos engordar
Pensando na paparoca
Para nada nos faltar

Tirei a casca aos sobreiros
Era às na profissão
Ensinei aos cavalheiros
Filhos dessa geração

A foice, de a manobrar
Os meus dedos aleijou
A enxada, de cavar
Muitos calos me deixou

Também fui guarda florestal
Trabalho bastante astuto
Havia cada “pardal”
Que me fazia de tudo

Eu fui mestre de lagar
Trabalho muito exigente
Anos a fio sem parar
Fazendo azeite “prá” gente

Do trabalho tenho a vida cheia
Deu-me Deus este condão
Não deixo por mão alheia
A minha vida de escrivão

Sou poeta, grande vida
Poeta por vocação
Deixo a minha obra escrita
Escrita pela minha mão”


Clara Ribeiro Pacheco, Esperança (Arronches)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

João Mendes - Neste Natal

Neste Natal injectamos milhares de milhões de euros no Banif. Quem diria que uma saída limpa poderia ser tão cara?
Neste Natal morreu o David. A austeridade também mata e o David foi mais uma das suas vítimas. Que nunca se deixe cair um banco mas haja responsabilidade que o acesso à saúde é um privilégio e não devemos ser piegas.
Neste Natal existem refugiados enregelados por essa Europa fora. A Europa da liberdade e da tolerância. A Europa que vende as armas que se usam na guerra que obrigou a maioria destas pessoas a fugir. A Europa que agora desconfia que sejam todos terroristas. A Europa que bombardeou as suas escolas, hospitais e locais de culto. A Europa que recebeu e recebe, com honras de Estado, todos os ditadores, os que deixaram de ser bem-vindos e os que ainda o são.
Neste Natal quero desejar a todos os leitores e aventadores um Feliz Natal. Abracem os vossos, sejam felizes mas não se esqueçam que o tempo corre contra nós. E nada disto tem que ser assim. Existe pão de sobra para todos.
http://aventar.eu/2015/12/24/neste-natal/

sábado, 3 de outubro de 2015

Sinto-me baralhado de um todo


Sinto-me baralhado de um todo

Se me permitem vou fazer uma reflexão em voz alta, eu sei que a lei proíbe campanhas e sondagens neste dia, mas como eu não sou nem um partido, nem os jornais que fazem sondagens, nem sequer vou fazer palpites ou falar em nome de fonte da presidência posso mandar uns bitaites e contar o que me vai na alma.
  
Como diz o título do post estou baralhadinho de um todo, sinto-me tripolar, ja não sei se sou de esquerda ou de direita, não faço ideia de onde querem que eu vote e muito menos em quem a Eurosondagens, a Intercampus, a Aximage, a sacristia eleitoral da Católica ou a Markteste me puseram a votar e muito menos se votei sempre no mesmo partido, ou quantas vezes mudei de intenção de voto nestas duas semanas.
  
Antes deste circo começar eu diria que era de esquerda e não sentia motivos para marcar uma consulta a um ou a uma psicóloga para me ajudar a saber o que era. Agora ando com uma grave crise de personalidade, segundo o PS sou de esquerda, para o BE sou da direita porque sou um pecador que não aceita o "não pagamos" e para o PCP há muito que estou excomungado, devo andar entre o fascista e o anti-comunista primário. Por aquilo que vou sentindo a direita parece querer que eu seja do BE ou do PCP, digamos que entre o inferno e o Purgatório a direita sugere-me o segundo. Acho que vou a uma consulta de psicologia e pelo sim, pelo não, vou já marcar uma no consultório da Joana Amaral Dias pois imagino que por ali os doentes já devem ser mais do que as mães, podem não sair curados, mas certamente saem mais arrebitados, o que nos tempos que correm já não é mau, somos pobres, lavadinhos e arrebitadinhos como poucos.
  
Quanto à orientação do meu voto pressinto que nas sondagens da Intercampus terei sido um de entre quase um milhão que votam em branco ou que anulam o voto, o que me faz sentir um idiota, ir de propósito a uma mesa de voto para não votar é a mesma coisa que ir a um comício do PAF e não ver a criança da Cristas. Na sondagem da Católica, talvez porque o pessoal da sacristia ainda não me deu por perdido devo ter votado na direita. Na da Markteste comecei no PS, passei pelo PAF e agora devo andar indeciso entre o Jerónimo de Sousa e a Catarina Martins, mais um dia e ainda ia ter com o Marinho.
  
No meio de toda esta confusão eleitoral em que me meteram quase pedi ao Cavaco que já que se está borrifando para o 5 de Outubro podia muito bem adiar as eleições para essa data, talvez o Passos Coelho pedisse autorização ao FMI e desse um feriadinho aos portugueses em substituição da terça-feira de Entrudo, porque em matéria de mascaradas a diferença entre as sondagens e o Carnaval não são muito grandes.
  
Resta-me agora esperar que no momento do voto tenham a lucidez suficiente para votar onde acho que devo votar e não onde um qualquer estatístico feito à pressa enfiado numa sacristia quer que eu vote.

sábado, outubro 03, 2015

Estamos no período do defeso, mas uns podem, outros não

Estamos no período do defeso
uns podem outros não
o PR com todo o seu folego
logo irá fazer uma comunicação

Como sempre nos habituou
no uso de todos os seus poderes
em que na alocução evidenciou
os seus manifestos prazeres

 A isenção que o cargo impõe
nunca sequer foi respeitada
pois ele se calhar supõe
que a si não o impede nada
   
Falta pouco para nos livrarmos
de quem não teremos boas recordações
basta para isso nos lembrarmos
de todas as suas intervenções-

https://jodoas.wordpress.com/2015/10/03/estamos-no-periodo-do-defeso-mas-uns-podem-outros-nao/

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Poesia de Natal (Portugal)

PRELÚDIO DE NATAL

Tudo principiava
...pela cúmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas

Só depois se rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas

a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas

A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas

David Mourão-Ferreira
.
*****
.
A NOITE DE NATAL
.
.
Em a noite de Natal
Alegram-se os pequenitos;
Pois sabem que o bom Jesus
Costuma dar-lhes bonitos.
.
Vão se deitar os lindinhos
Mas nem dormem de contentes
E somente às dez horas
Adormecem inocentes.
.
Perguntam logo à criada
Quando acorde de manhã
Se Jesus lhes não deu nada.
.
– Deu-lhes sim, muitos bonitos.
– Queremo-nos já levantar
Respondem os pequenitos.
.
Mário de Sá-Carneiro
 .
*****
.
História Antiga
Miguel Torga
  Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da nação.

Mas, por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

(Miguel Torga)
*****
.
 Poema de Natal
.
.
Não digo do Natal – digo da nata
do tempo que se coalha com o frio
e nos fica branquíssima e exacta
nas mãos que não sabem de que cio
.
nasceu esta semente; mas que invade
esses tempos relíquidos e pardos
e faz assim que o coração se agrade
de terrenos de pedras e de cardos
.
por dezembros cobertos. Só então
é que descobre dias de brancura
esta nova pupila, outra visão,
.
e as cores da terra são feroz loucura
moídas numa só, e feitas pão
com que a vida resiste, e anda, e dura.
.
Pedro Tamen
 .
*****
.
NATAL
.
.
Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela música acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.
.
Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
.
Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.
.
Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).
Todo o tempo num só tempo: andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva
na cidade agitada pelo vento.
.
Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia.
.
Manuel Alegre
 .
*****
.
Se considero o triste abatimento
Em que me faz jazer minha desgraça,
A desesperação me despedaça,
No mesmo instante, o frágil sofrimento.
.
Mas súbito me diz o pensamento,
Para aplacar-me a dor que me traspassa,
Que Este que trouxe ao mundo a Lei da Graça,
Teve num vil presepe o nascimento.
.
Vejo na palha o Redentor chorando,
Ao lado a Mãe, prostrados os pastores,
A milagrosa estrela os reis guiando.
.
Vejo-O morrer depois, ó pecadores,
Por nós, e fecho os olhos, adorando
Os castigos do Céu como favores.
.
Manuel Maria Barbosa du Bocage
 .
*****
.
ROSAS DE INVERNO
.
.
Corolas, que floristes
Ao sol do inverno, avaro,
Tão glácido e tão claro
Por estas manhãs tristes.
.
Gloriosa floração,
Surdida, por engano,
No agonizar do ano,
Tão fora da estação!
.
Sorrindo-vos amigas,
Nos ásperos caminhos,
Aos olhos dos velhinhos,
Às almas das mendigas!
.
Desse Natal de inválidos
Transmito-vos a bênção,
Com que vos recompensam
Os seus sorrisos pálidos.
.
Camilo Pessanha
 .
*****
.
OS PASTORES
.
. Guardavam certos pastores
seus rebanhos, ao relento,
sobre os céus consoladores
pondo a vista e o pensamento.

.
Quando viram que descia,
cheio de glória fulgente,
um anjo do céu do Oriente,
que era mais claro que o dia.

.
Jamais os cegara assim
luz do meio-dia ou manhã.
Dir-se-ia o audaz Serafim,
que um dia venceu Satã.

.
Cheios de assombro e terror,
rolaram na erva rasteira.
– Mas ele, com voz fagueira,
lhes diz, com suave amor:

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«Erguei-vos, simples, daí,
humildes peitos da aldeia!
Nasceu o vosso Rabi,
que é Cristo – na Galileia!

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Num berço, o filho real,
não o vereis reclinado.
Vê-lo-eis pobre e enfaixado,
sobre as palhas de um curral!

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Segui dos astros a esteira.
Levai pombas, ramos, palmas,
ao que traz uma joeira
das estrelas e das almas!»

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Foi-se o anjo: e nas neblinas,
então celestes legiões
soltam místicas canções,
sobre violas divinas.

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Erguem-se, enfim, os pastores
e vão caminhos dalém,
com palmas, rolas, e flores,
cordeiros, até Belém.

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E exclamavam indo a andar:
– «Vamos ver o vinhateiro!
Ver o que sabe lavrar
nas nuvens, ver o Ceifeiro!

.
Vamos beijar os pés nus
do que semeia nos céus.
Ver esse pastor que é Deus
– e traz cajado de luz!»

.
Chegando ao presépio, enfim,
caem, de rojo, os pastores,
vendo o herdeiro d’Eloim
que veste os lírios e as flores.

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Dão-lhe pombas gloriosas,
meigos, tenros animais.
– Mas, vendo coisas radiosas,
casos vindouros, fatais…

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Abria o deus das crianças
uns olhos profundos, graves,
no meio das pombas mansas
– nas palpitações das aves.

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Gomes Leal
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*****
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Natal Divino
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Natal divino ao rés-do-chão humano,
Sem um anjo a cantar a cada ouvido.
Encolhido
À lareira,
Ao que pergunto
Respondo
Com as achas que vou pondo

.
Na fogueira.
O mito apenas velado
Como um cadáver
Familiar…
E neve, neve, a caiar
De triste melancolia
Os caminhos onde um dia
Vi os Magos galopar…
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Miguel Torga
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NATAL CHIQUE
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. Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.

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Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.

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Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado…
Só esse pobre me pareceu Cristo.

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Vitorino Nemésio
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http://www.culturalivre.net/2009/11/10/poemas-de-natal-de-autores-brasileiros-e-portugueses/
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segunda-feira, 26 de outubro de 2009

D'Ali e D'Aqui

Que importa perder a vida
na luta contra a traição
se a razão mesmo vencida
não deixa de ser razão

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(António Aleixo)
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E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?” Uma pergunta que nunca teve resposta. (Almeida Garrett)
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sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Nas águas vosso amor ponde - Cecília Meireles

Assunto: SUPERCOMMENTS
Data: 4/Set 13:23

COM TODO O CARINHO!

PERGUNTO BAIXINHO AO MAR QUAL O NOME DO MEU AMOR....EI-LO QUE SE REVOLTA, LEVANTA BRUSCAS ONDAS, DE CLAMOR SE ENDOIDECE, EM REMOINHOS SE ESPRAIA E DE ESPUMA SE COROA.... DE REPENTE SE AQUIETA E NUMA LÍNGUA SE ESPRAIA E VEM ATÉ AOS MEUS PÉS....E LENTAMENTE NA AREIA ESCREVE AS LETRAS DO TEU NOME....SORRIO.....JÁ O SABIA...EM EM ANEXO UM BEIJO!

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From Moranguinho Pereira (hi5)

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NAS ÁGUAS VOSSO AMOR PONDE
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A palavra que te disse,
talvez por ser tão pequena,
em tais desprezos perdeu-se
que não deixou nem pena.
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Murmurei-a a uma cisterna
de turvas águas antigas
e foi-se de cova em cova
em múltiplas cantigas.
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Amadores deste mundo,
nas águas vosso amor ponde;
que elas vos darão resposta,
quando ninguém responde.
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CECÍLIA MEIRELES

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