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quinta-feira, 25 de março de 2021

Joaquim Pessoa - Último soneto

* Joaquim Pessoa 

De tanta mágoa já se cansa o vento.
Em tanta teia já se enreda a fala.
O meu Abril é um país cinzento.
O cravo não é cravo. É uma bala.
.
Na minha rua a lua é dos soldados
e brilha como o aço dos punhais.
No meu abril que foi dos namorados
o vento sopra. E dói ainda mais.
.
Tão grande... meu amor... é a cidade
como é pequeno quem se morre nela
coberto com o linho da saudade.
.
Aqui    abri de vez esta janela:
que me importa morrer pela verdade
se nunca morre quem morrer por ela.


Joaquim Pessoa, in "Amor Combate". ed. Litexa, 1977

domingo, 14 de março de 2021

* Joaquim Pessoa · POEMA 32

* Joaquim Pessoa   · 

 
Tudo leva a crer que a luz deste ofício
chega da Suméria,
canto de argila que diz haver vento nos pássaros,
e da tabuínha onde o escriba apontou para si mesmo
precárias notas sobre os próprios pensamentos,
algo de cada um dos dias aprisionados no trigo.
A antiguidade da luz é uma eternidade evidente,
o que fica por desvendar é o enigma da luz,
se é também moeda, sílaba, tijolo,
sentimentos e recordação.
A mão cumpre os desígnios dessa luz.
A inquietação do escriba permanece na boca
que pronuncia a palavra mais alta,
a mais bela e simples,
aquela que em silêncio vai edificando casas
no coração daquele que pronuncia o seu nome.

in À MESA DO AMOR.
14 de março de 2013

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Joaquim Pessoa Poema de agradecimento à corja



* Joaquim Pessoa)

Obrigado, excelências.
Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade de vivermos felizes e em paz.
Obrigado pelo exemplo que se esforçam em nos dar de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada. Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade. E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade. Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço. E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer, o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são. Para que não sejamos também assim. E para que possamos reconhecer facilmente quem temos de rejeitar.


12 de maio de 2013 · 

quarta-feira, 8 de junho de 2016

o Natal dos Amigos


Quem faz o Natal para todos nós? São os amigos

Quem nos dá prazer e dá calor? São os amigos
A quem é que damos a ternura? É aos amigos
A quem é que damos o melhor? É aos amigos

Os amigos são o nosso bolo de Natal
Cada amigo nosso vale mais que um Pai Natal
É um irmão nosso que trabalha no Natal
E com suas mãos faz a diferença do Natal

O dinheiro pouco importa
O que importa é a verdade
E a prenda mais valiosa
É a prenda da amizade

Quem faz das tristezas forças
E das forças alegrias
Constrói à força de Amor
Um Natal todos os dias. 


"Os Operários do Natal" - textos de Ary dos Santos e Joaquim Pessoa

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Joaquim Pessoa - Amélia dos olhos doces

* Joaquim Pessoa

Amélia dos Olhos Doces
quem é que te trouxe
grávida de esperança?
Um gosto de flor na boca.
Na pele e na roupa
perfumes de França.

Cabelos cor de viúva.
Cabelos de chuva.
Sapatos de tiras
e pões, quantas vezes
não queres e não amas
os homens que dormem
contigo na cama.

Amélia dos Olhos Doces
quem dera que fosses
apenas mulher.
Amélia dos Olhos Doces
se ao menos tivesses
direito a viver!

Amélia gaivota
amante ou poeta.
Rosa de café.
Amélia gaiata
do Bairro da Lata.
Do Cais do Sodré.

Tens um nome de navio.
Teu corpo é um rio
onde a sede corre.
Olhos Doces. Quem diria
que o amor nascia
onde Amélia morre?

Cabelos cor de viúva.
Cabelos de chuva.
Sapatos de tiras
e pões, quantas vezes
não queres e não amas
os homens que dormem
contigo na cama.

 

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Joaquim Pessoa - Dia 283. (excertos)

***


Boa noite gente! Fiquem bem! 


Joaquim Pessoa
Dia 283. (excertos)

Sou um fantasma em busca de uma pátria. O sítio onde estou é
um quintal cheio de melancolia e de solidão, onde cada um foge 
de si próprio e os que se afirmam felizes são aqueles que ainda
não têm consciência disso.

Sinto que me empurram para a morte como se me oferecessem
um refúgio onde me querem de costas para a vida, para tudo o
que nela sempre procurei desesperadamente transformar, como
se quisesse mudar o sangue em água pura.

Procuro amar-me a mim e amar os outros com uma obstinação
ágil e silenciosa, procuro uma intimidade com um mundo cuja
herança tenho dificuldade em reconhecer e aceitar.

Não tenho pátria e busco uma. Um país onde as estrelas não es-
tejam tão distantes, onde o silêncio faça sentido, onde o sentido
das coisas não seja o do fogo que as consome. Persigo uma pá-
tria que venha de dentro de mim, mas que seja de todos aqueles
que os meus lábios possam pronunciar o nome.

in ANO COMUM, 

Editora Edições Esgotadas, 2013.
 

sábado, 30 de novembro de 2013

Joaquim Pessoa - POEMA TEMPERAMENTAL

Para fim de noite mas quiçá começo de conversa... porque temperamento precisa-se!

POEMA TEMPERAMENTAL

Ó caralho! Ó caralho!
Quem abateu estas aves?
Quem é que sabe? quem é
que inventou a pasmaceira?
Que puta de bebedeira
é esta que em nós se vem
já desde o ventre da mãe
e que tem a nossa idade?
Ó caralho! Ó caralho!
Isto de a gente sorrir
com os dentes cariados
esta coisa de gritar
sem ter nada na goela
faz-nos abrir a janela.
Faz doer a solidão.
Faz das tripas coração.
Ó caralho! Ó caralho!
Porque não vem o diabo
dizer que somos um povo
de heróicos analfabetos?
Na cama fazemos netos
porque os filhos não são nossos
são produtos do acaso
desde o sangue até aos ossos.
Ó caralho! Ó caralho!
Um homem mede-se aos palmos
se não há outra medida
e põe-se o dedo na ferida
se o dedo lá for preciso.
Não temos que ter juízo
o que é urgente é ser louco
quer se seja muito ou pouco.
Ó caralho! Ó caralho!
Porque é que os poemas dizem
o que os poetas não querem?
Porque é que as palavras ferem
como facas aguçadas
cravadas por toda a parte?
Porque é que se diz que a arte
é para certas camadas?
Ó caralho! Ó caralho!
Estes fatos por medida
que vestimos ao domingo
tiram-nos dias de vida
fazem guardar-nos segredos
e tornam-nos tão cruéis
que para comprar anéis
vendemos os próprios dedos.
Ó caralho! Ó caralho!
Falta mudar tanta coisa.
Falta mudar isto tudo!
Ser-se cego surdo e mudo
entre gente sem cabeça
não é desgraça completa.
É como ser-se poeta
sem que a poesia aconteça.
Ó caralho! Ó caralho!
Nunca ninguém diz o nome
do silêncio que nos mata
e andamos mortos de fome
(mesmo os que trazem gravata)
com um nó junto à garganta.
O mal é que a gente canta
quando nos põem a pata.
Ó caralho! Ó caralho!
O melhor era fingir
que não é nada connosco.
O melhor era dizer
que nunca mais há remédio
para a sífilis. Para o tédio.
Para o ócio e a pobreza.
Era melhor. Com certeza.
Ó caralho! Ó caralho!
Tudo são contas antigas.
Tudo são palavras velhas.
Faz-se um telhado sem telhas
para que chova lá dentro
e afogam-se os moribundos
dentro do guarda-vestidos
entre vaias e gemidos.
Ó caralho! Ó caralho!
Há gente que não faz nada
nem sequer coçar as pernas.
Há gente que não se importa
de viver feita aos bocados
com uma alma tão morta
que os mortos berram à porta
dos vivos que estão calados.
Ó caralho! Ó caralho!
Já é tempo de aprender
quanto custa a vida inteira
a comer e a beber
e a viver dessa maneira.
Já é tempo de dizer
que a fome tem outro nome.
Que viver já é ter fome.
Ó caralho! Ó caralho!

Ó caralho!

(Joaquim Pessoa)

sábado, 21 de abril de 2012

Um texto de Joaquim Pessoa


Espero que tenham tido um bom sábado e tal como diz o poeta " Contem comigo sempre".Boa noite a todos.



Conta comigo sempre. Desde a sílaba inicial até à última gota de sangue. Venho do silêncio incerto do poema e sou, umas vezes constelação e outras vezes árvore, tantas vezes equilíbrio, outras tantas tempestade. A nossa memória é um mistério, recordo-me de uma música maravilhosa que nunca ouvi, na qual consigo distinguir com clareza as flautas, os violinos, o oboé.

O sonho é, e será sempre e apenas, dos vivos, dos que mastigam o pão amadurecido da dúvida e a carne deslumbrada das pupilas. Estou entre vazios e plenitudes, encho as mãos com uma fragilidade que é um pássaro sábio e distraído que se aninha no coração e se alimenta de amor, esse amor acima do desejo, bem acima do sofrimento.
Conta comigo sempre. Piso as mesmas pedras que tu pisas, ergo-me da face da mesma moeda em que te reconheço, contigo quero festejar dias antigos e os dias que hão-de vir, contigo repartirei também a minha fome mas, e sobretudo, repartirei até o que é indivisível. Tu sabes onde estou.

Sabes como me chamo. Estarei presente quando já mais ninguém estiver contigo, quando chegar a hora decisiva e não encontrares mais esperança, quando a tua antiga coragem vacilar. Caminharei a teu lado. Haverá, decerto, algumas flores derrubadas, mas haverá igualmente um sol limpo que interrogará as tuas mãos e que te ajudará a encontrar, entre as respostas possíveis, as mais humildes, quero eu dizer, as mais sábias e as mais livres.
Conta comigo. Sempre.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'
 — com Augusto Santos e 49 outras pessoas.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Joaquim Pessoa ~ O nome

O Nome

Por uma manhã além do nunca
passaram as corças rente ao mar
para ouvir a voz de Deus. Sabiam
não mais que a dor de não saber
a origem da luz, a origem do pó, a origem do fogo.
Depois das corças, depois da vertigem,
vieram as pombas, os chacais e o vento do deserto
e com eles a queixa solar dos laranjais.
E chegou o sul. E chegou o sempre.
E sempre que chegava alguma coisa, alguma luz,
acontecia um tempo e outro tempo
no tempo que houve a haver. E houve vento.
E o vento empurrou o que há-de vir
cobrindo-o de espera e de esperança.
E foi-se o vento. E ficou o sempre
para sempre. E o sopro. E a semente.
E o som que vem sem fúria. Docemente.
O nome incandescente da ternura.
O nome. Simplesmente.

in NOMES, Litexa, 2002

quarta-feira, 18 de abril de 2012

JOAQUIM PESSOA, in À MESA DO AMOR (Litexa, ed. especial, 1994)




Construí uma casa no mar.
Com portal para o vento e um terraço onde escuto o grito do albatroz
ou recolho o pólen das estrelas.

Plantei nas ondas uma árvore. São peixes
as pequeníssimas folhas desta árvore
que sinto crescer como um amigo.
Todos os móveis da casa são de água. Densa,
vermelha, filha de um vulcão,
ou leve, clara, irmã do linho.
Os tapetes têm a cor de antigos versos que elogiam o mar.
Canções, odes, barcarolas. De um tempo
em que o sol emprenhava as corças numa cama de folhas
e onde agora é deserto.
Nesta casa de água, escrevo. E, para o teu poema,
lanço a minha rede. Nela vêm, doirados, ofegantes, vivos,
os cardumes de sílabas.

*

Fotografia: Straw Hat and Seashells in the Sand, de Sandra Cunningham

*

(CC)

terça-feira, 17 de abril de 2012

Joaquim Pessoa - Construí uma casa no mar



Victor Nogueira partilhou a foto de Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen.
17/4
JOAQUIM PESSOA, in À MESA DO AMOR (Litexa, ed. especial, 1994)

Construí uma casa no mar.
Com portal para o vento e um terraço onde escuto o grito do albatroz
ou recolho o pólen das estrelas.
Plantei nas ondas uma árvore. São peixes
as pequeníssimas folhas desta árvore
que sinto crescer como um amigo.
Todos os móveis da casa são de água. Densa,
vermelha, filha de um vulcão,
ou leve, clara, irmã do linho.
Os tapetes têm a cor de antigos versos que elogiam o mar.
Canções, odes, barcarolas. De um tempo
em que o sol emprenhava as corças numa cama de folhas
e onde agora é deserto.
Nesta casa de água, escrevo. E, para o teu poema,
lanço a minha rede. Nela vêm, doirados, ofegantes, vivos,
os cardumes de sílabas.

*

Fotografia: Straw Hat and Seashells in the Sand, de Sandra Cunningham

*

(CC)

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Joaquim Pessoa. - POEMA SEXAGÉSIMO QUINTO

 

Terei de escolher entre mim e eu
para gostar de ti? Saber se é o homem,
se o poeta, que te ama? Quem toca a cítara,
toca o teu corpo, arde à temperatura
da poesia, da música, da carne.

Caminho com as palavras do poeta,
como pombas, arrulhando os meus ombros.
O poeta observa-me e abana a cabeça,
pois a literatura não é mais que uma verdade
tão crua e tão dúbia que parece mentira.

in GUARDAR O FOGO, a publicar.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Poema de agradecimento à corja - Joaquim Pessoa

Terça-feira, 12 de Outubro de 2010


images




Obrigado, excelências.
Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade
de vivermos felizes e em paz.
Obrigado
pelo exemplo que se esforçam em nos dar
de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem
dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada.
Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar
as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade.
E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias
um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade.
Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade
e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço.
E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer,
o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são.
Para que não sejamos também assim.
E para que possamos reconhecer facilmente
quem temos de rejeitar.
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Joaquim Pessoa
Publicada por anamarta em Terça-feira, Outubro 12, 2010
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sábado, 6 de fevereiro de 2010

Bastava-nos amar. E não bastava - Joaquim Pessoa

Assunto: MEU BARCO...
Data: 6/Fev 21:51
POR CIMA DA MARÉ ALTA MEU BARCO DEIXA-SE IR. NÃO PERGUNTA AO VENTO O RUMO. NÃO SE INTERESSA COM CORRENTES.VAI POR ONDE AS ONDAS O LEVAM...LEVAM LONGE, SABE BEM...VÃO DAR A PORTO SEGURO, MESMO NO FINAL DA ESTRADA...QUE TAMBÉM ESTRADA HÁ NO MAR...PEDI-LHE QUE ENCONTRASSE A MINHA ILHA,...E ELE SENTIU URGÊNCIA, MESMO SEM VELA IÇAR...SOMOS VELHOS CONHECIDOS...NÃO É PRECISO FALAR...ELE SABE QUE É MEU POUSO E DURMO NO SEU EMBALAR....EU CONHEÇO SUAS HISTÓRIAS, SEU PASSADO, SEUS CANSAÇOS, SUA VIDA A NAVEGAR.VAMOS PARA O PONTO DE ENCONTRO ONDE UM DIA CHEGOU.ENCONTROU-ME NA AREIA... DESENHANDO O MEU FUTURO.... E A ONDA SEMPRE A APAGAR.VINHA DE TERRAS LONGÍNQUAS,E CONHECIA AS HISTÓRIAS VIVIDAS PELOS MARINHEIROS DE ROSTOS ONDE SE LIA, EM SULCOS DE ÁGUA E SAL,ANOS DE VIDA VIVIDA.EU ESCUTAVA ENCANTADA, E EM TODAS AS PALAVRAS VIA AMOR...DE TODAS AS FORMAS CONTADO...TINHAM SOFRIDO? TALVEZ...MAS OS SEUS OLHARES BRILHAVAM COMO NOITES DE LUAR...E EU NA ILHA SEM NADA QUE NÃO FOSSE SOL E MAR...E O BARCO QUE AÍ PARARA COMO SE ESTIVESSE A ESCUTAR...MURMUROU-ME QUE SABIA DO QUE ESTAVAM A FALAR...MUITOS OUTROS O CONTAVAM. ERA UMA VIDA VIVIDA SEM O MAR A APAGAR, QUE NOS ACOMPANHAVA OS PASSOS, QUE NOS FAZIA SER PÁSSAROS,QUE NOS CANTAVA CANÇÕES... CORAÇÃO SEMPRE A VIBRAR.ERA TUDO O QUE EU ESCREVIA NA AREIA SEM O SABER. ERA A MINHA VIDA Á ESPERA E EU PARADA, SEM VIVER.FUI COM ELE LEVANDO APENAS COMIGO A ESPERANÇA E A SEDE DE VIVER. NO FUTURO APORTÁMOS.DILUÍ-ME NESSA VIDA...TUDO PROVEI E SENTI. AMEI, SONHEI E SOFRI. SABIA AGORA NA PELE O QUE OS MARINHEIROS FALAVAM...MAS NÃO VALIA A SAUDADE QUE TINHA DA MINHA PRAIA. LÁ, ONDE A VIDA ERA SIMPLES...MAR E SOL...SOL E MAR... E SE A ÁGUA APAGAVA TUDO AQUILO QUE EU SONHAVA, PODIA RECOMEÇAR, SEMPRE, SEMPRE TUDO NOVO, E O SONHO NÃO TINHA FIM. ERA LÁ QUE PERTENCIA...E O MEU BARCO, COMPANHEIRO, DE NOVO SE FEZ AO MAR...NÃO PRECISO ESTAR AO LEME...TAMBÉM ELE QUER VOLTAR...EM ANEXO UM BEIJO!
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Distribuído por Moranguinho Pereira (hi5)


BASTAVA-NOS AMAR. E NÃO BASTAVA.




Bastava-nos amar. E não bastava


o mar. E o corpo? O corpo que se enleia?


O vento como um barco: a navegar.


Pelo mar. Por um rio ou uma veia.


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Bastava-nos ficar. E não bastava


o mar a querer doer em cada ideia.


Já não bastava olhar. Urgente: amar.


E ficar. E fazermos uma teia.



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Respirar. Respirar. Até que o mar

pudesse ser amor em maré cheia.


E bastava. Bastava respirar


.


a tua pele molhada de sereia.


Bastava, sim, encher o peito de ar.


Fazer amor contigo sobre a areia.

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JOAQUIM PESSOA 
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quarta-feira, 29 de abril de 2009

A todos e a cada um dos meus amigos - Joaquim Pessoa

06 Novembro, 2006

Arestas de Vento Bom

Ao Ricardo Cardoso,
À Céu Campos, com um imenso obrigado, pela partilha, pela amizade.


A todos e a cada um dos meus amigos

Por um por todos por nenhum
faço o meu canto canto a minha mágoa
num desencanto aberto pelo gume
deste pranto tão limpo como a água.

Por nenhum por todos ou por um
eu dou o meu poema o meu tecido
de palavras gravadas com o lume
do medo que na voz trago vencido.

Por nenhum por um mesmo por todos
sou a bala e o vinho sou o mesmo
que pisa as uvas os versos e o lodo
num chão onde a coragem nasce a esmo.


Joaquim Pessoa
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