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quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Operação Condor: A América do Sul sob botas



por Augusto Buonicore*

“Nos Estados Unidos, como sabe, simpatizamos com o que você esta tentando fazer no seu país (...) Desejemos sucesso ao seu governo” .
(Kissinger ao general Pinochet)

“Nós o seguimos. Você é o líder!”
(Pinochet à Kissinger)



Fotos:
Kissinger e Pinochet;
Pinochet no dia do golpe
e Cenas do golpe no Chile

***

Quando a justiça italiana começou a pedir extradição dos acusados de terem conspirado para assassinar opositores políticos das ditaduras militares latino-americanas, abriu-se novamente a Caixa de Pandora. A famigerada Operação Condor voltou às manchetes dos principais jornais. São 149 pedidos de extradição e envolvem militares argentinos, uruguaios, brasileiros, paraguaios e bolivianos. Do Brasil são onze os envolvidos no processo. Mas, o problema vai além de extraditar ou não essas pessoas. Trata-se de algo mais sério. Trata-se de se estabelecer a justiça e a verdade histórica. Nenhuma lei de anistia pode suplantar tais princípios.

O Brasil nas origens do Condor

O Brasil, desde o golpe militar de 1964, passou a ser uma espécie de gendarme dos interesses norte-americanos na América Latina. A ditadura brasileira procurava ser uma barreira à implantação de regimes democráticos, populares e antiimperialistas em nossa região. Em 1970, o general-presidente Garrastazu Médici ajudou na desestabilização do governo progressista de Juan José Torres e na implantação da ditadura sanguinária de Hugo Banzer na vizinha Bolívia.


Sobre esse triste acontecimento escreveu Moniz Bandeira: “A Casa Militar do presidente Garrastazu Médici, chefiada pelo general João Batista Figueiredo, ofereceu aos adversários do governo do general Juan José Torres, através do ex-coronel Juan Ayoroa, dinheiro, armas, aviões e até mercenários, bem como permissão para instalar áreas de treinamento perto de Campo Grande e em outros locais próximos da fronteira. E o golpe de estado, deflagrado, finalmente, pelo general Hugo Banzer, contou com aberto apoio logístico do Brasil, cujos aviões militares, sem ocultar as insígnias nacionais, descarregaram fuzis, metralhadoras e munições em Santa Cruz de la Sierra, enquanto tropas do 2º Exército, comandado pelo general Humberto Melo, estacionavam em Mato Grosso, prontas para intervir na Bolívia (onde alguns destacamentos penetraram), se necessário fosse”.


Um ano depois o Brasil preparava, secretamente, – com apoio estadunidense – uma ocupação militar do Uruguai, prevendo uma vitória da Frente Ampla (de centro-esquerda), encabeçada pelo general Líber Seregni. O plano foi denominado Operação Trinta Horas. Este era o tempo previsto para ocupação do território uruguaio. O ato extremado não foi necessário, pois a esquerda acabou sendo derrotada por uma coalizão de direita. Após a vitória do arqui-conservador Juan Maria Bordaberry, o delegado-torturador brasileiro Sérgio Paranhos Fleury se deslocou para Montevidéu para ajudar montar o esquema repressivo – leia-se esquadrões da morte – contra a guerrilha organizada pelos Tupamaros. O Uruguai começava a preparar o terreno para a implantação de uma ditadura.


O Brasil também se envolveu diretamente nos planos do imperialismo e dos conservadores chilenos para derrubar o governo socialista de Salvador Allende. “Sem dúvida alguma, afirmou Moniz Bandeira, a cumplicidade do Brasil foi, na verdade, muito maior do que transpareceu. Além de recursos financeiros, fornecidos por empresários de São Paulo, vários carregamentos de armas e munições, entre 1972 e 1973, saíram do porto de Santos, com destino a Valparaiso, em caixas de maquinaria agrícola e de outros produtos, importados pela firma do Senador Pedro Ibáñez Ojeda, a fim de abastecer a organização direitista Patria y Libertad”.


Continuou ele, “o Brasil reconheceu imediatamente a Junta Militar, chefiada pelo general Augusto Pinochet. Vários aviões da Força Aérea Brasileira voaram para Santiago, transportando não só mantimentos e remédios como também assessores da Polícia Federal e oficiais das Forças Armadas, que participaram de interrogatórios e treinaram seus colegas chilenos na arte da tortura”. Arte que, por sua vez, foi nos ensinada por técnicos da CIA e de potências ocidentais que já a havia empregado amplamente na Argélia e no Vietnã.


O Chile sob o governo socialista de Allende havia sido um porto seguro para aqueles que fugiam das ditaduras em nosso hemisfério. Centenas de brasileiros, de diversas organizações políticas oposicionistas, ali viviam e trabalhavam. O golpe de Pinochet significaria uma reversão dessa situação. A maior parte conseguiu fugir para Argentina – a única democracia restante na América do Sul. Uma ditadura militar havia sido implantada no Uruguai poucos meses antes do golpe no Chile.


Com os golpes no Uruguai e Chile as coisas mudaram de qualidade e a ditadura militar brasileira passou a contar com importantes aliados no Cone Sul. Os órgãos de repressão agora podiam estender suas garras sobre os exilados políticos que viviam naqueles países.


A partir de 1974, com a morte do presidente Perón e a posse de Isabelita, a situação também se desestabilizou na Argentina. O país foi atingido por uma crescente radicalização política. De um lado, havia os grupos guerrilheiros que aumentavam o nível de suas ações; de outro, os grupos para-militares de direita, como a Aliança Anticomunista Argentina, enraizados nos órgãos de repressão, que promoviam assassinatos sistemáticos de lideranças de esquerda.


Pressionado pelos conservadores, o governo de Isabel Perón decretou Estado de Sítio e concedeu amplos poderes para as forças armadas agir contra os grupos clandestinos de esquerda. O general Videla, comandante militar, afirmou “Se for preciso, na Argentina, vão morrer tantas pessoas quanto forem necessárias para que se alcance a paz no país”. Começava, assim, sob um regime formalmente democrático, um dos maiores massacres já visto nesta parte do planeta.
Em março de 1976, o próprio governo constitucional viria abaixo. A partir de então não haveria mais nenhum país democrático ao sul do continente americano. Neste momento o Condor, que era o símbolo da liberdade nos Andes, se transformou numa ave sombria a atormentar a vida dos exilados políticos em todas as partes do mundo.

Preparando o vôo do Condor

Mesmo antes de ser criada oficialmente a Operação Condor, já existia um intercâmbio ativo de informações e de ação entre os órgãos de repressão dos países da América do Sul. No período que vai de 1973 e 1975, por exemplo, haviam sido mortos três brasileiros exilados em território argentino e seis em território chileno.


O major Joaquim Cerveira, da Frente de Libertação Nacional, e João Batista Rita, do grupo Marx, Mao, Marighella (M3G), foram seqüestrados e torturados na Argentina numa operação conjunta de policiais brasileiros e argentinos. Depois foram transladados para o Brasil onde desapareceram. Em julho de 1974 um grupo de seis militantes – cinco brasileiros e um argentino – ligados à Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) foram assassinados – e seus corpos desapareceram – no Paraná. Eles haviam ingressado no país através de Foz do Iguaçu. Sua ação estava sendo acompanhada pelos órgãos de repressão do Chile e da Argentina. Edmur Péricles Carvalho, também do M3G, foi preso em junho de 1975 no aeroporto de Buenos Aires por um grupo de policiais brasileiros e argentinos. Foi levado ao Brasil e assassinado.


A Argentina foi palco privilegiado da ação conjunta dos órgãos de segurança. Sendo a última democracia – ainda que frágil - dessa parte do continente, ela se tornou o abrigo de milhares de refugiados do Brasil, Chile, Uruguai, Paraguai e Bolívia. Existiam ali 15 mil exilados políticos. Ela se tornou uma “reserva de caça” para os órgãos de repressão da região.


Em março de 1974 o coronel chileno Manuel Contreras foi aos Estados Unidos pedir auxílio para montar seu aparato de “segurança interna”, a DINA. Uma equipe de oito agentes da CIA foi enviada para organizar cursos e seminários num tema que eram especialistas: repressão política. Não foi por coincidência que, justamente, no período que esses agentes estavam no Chile, entre junho e agosto, tenha ocorrido a primeira grande ofensiva da repressão contra a oposição clandestina, dobrando o número de desaparecidos políticos.


A primeira grande ação dos órgãos de repressão chilenos fora do país ocorreu em setembro de 1974. Neste mês o general Carlos Prats, que servira ao governo de Salvador Allende, foi morto num atentado à bomba na cidade de Buenos Aires. O explosivo foi colocado pelo agente da DINA, Michael Townley. Ele havia nascido nos Estados Unidos e tivera contato com a CIA. A conspiração para matar Prats foi realizada junto com grupos para-militares argentinos – como a Aliança Anticomunista.


Segundo John Dinges, a primeira experiência de ação conjunta entre vários órgãos de repressão do Cone Sul ocorreu em maio de 1975. Neste período foram presos, no Paraguai, o argentino Amílcar Santucho, líder montonero, e o chileno Jorge Fontes, dirigente do MIR. Ambos eram membros da Junta de Coordenação Revolucionária (JCR) – articulação de diversos movimentos revolucionários da região. Do interrogatório participaram policiais do Chile, Argentina e Paraguai, além de um agente do FBI. Os dois foram torturados e depois enviados para seus países onde foram assassinados.


Em agosto de 1975, o coronel Contreras voltou aos Estados Unidos, encontrou-se com Kissinger e recebeu, na sede da CIA, uma “recepção efusiva”. O chefe da Dina saiu animado da reunião e passou, imediatamente, a articular um encontro de representantes dos órgãos de segurança do Cone Sul. Três meses depois do encontro na sede da CIA, uma reunião “absolutamente secreta” daria origem à famigerada Operação Condor. Hoje é claro que a idéia de criar uma coordenação dos órgãos de repressão do Cone Sul nasceu nos Estados Unidos. Vários documentos comprovam isso.


A CIA tomou conhecimento da Operação Condor antes mesmo que ela fosse criada e tendeu a incentivá-la por considerá-la um esforço positivo no combate ao “terrorismo”. Desde o golpe militar no Chile ela vinha conclamando a coordenação do trabalho dos órgãos de repressão.

A Operação Condor entra em cena

Da primeira reunião oficial, ocorrida na cidade de Santiago em novembro de 1975, participaram representantes do Chile, Brasil, Argentina, Uruguai, Bolívia e Paraguai. O encontro foi aberto pelo próprio ditador Pinochet, que assumiu a paternidade do projeto, e presidido por Contreras. Os sócios da Operação ficaram surpresos quando souberam que o “grande irmão do norte” havia fornecido modernos sistemas computadores e assessoria técnica à DINA para que ela montasse um banco de dados que ajudasse na repressão aos grupos de esquerda.


O então chefe do SNI brasileiro, João Batista Figueiredo, recebeu um convite pessoal do Contreras, mas o nome do representante brasileiro na reunião até hoje continua sob segredo de Estado. No entanto, o país não assinaria o documento final aprovado na primeira reunião, embora participasse do grupo. Ele se juntaria oficialmente ao Condor na segunda reunião ocorrida em junho de 1976.


Numa carta de Contrera à Figueiredo, datada de agosto de 1975, podia se ler: “Também temos conhecimento das posições de Kubitschek e Letelier, o que no futuro poderá influenciar seriamente a estabilidade do Cone Sul de nosso hemisfério. O plano proposto por você para coordenar a ação contra certas autoridades eclesiástica e políticos da América Latina conta com o nosso decisivo apoio”. Em agosto do ano seguinte JK morreria num estranho acidente de carro e logo em seguida, em setembro, Letelier seria brutalmente assassinato. Antes que ano acabasse morreria outro ex-presidente do Brasil, João Goulart. Hoje são cada vez maiores os indícios que Jango tenha sido morto por agentes uruguaios a mando do governo brasileiro.


A Operação Condor foi planejada para ter três fases. A primeira seria basicamente a obtenção e troca de informações sobre a atuação de grupos oposicionistas no interior dos países envolvidos: Chile, Argentina, Uruguai, Brasil, Paraguai e Bolívia. A segunda fase era a operacional, ou seja, envolvia ação conjunta no seqüestro, tortura e execuções de militantes dentro da América do Sul. As fronteiras nacionais – e o direito ao exílio – agora caiam por terra quando se dizia respeito à repressão político-militar. A terceira fase – e a que mais chamou a atenção do mundo – envolvia assassinato de oposicionista fora da América Latina. Grupos de espiões e assassinos profissionais foram enviados para a Europa e Estados Unidos.


O governo do Brasil deu o seu aval e participou ativamente da 2ª e 3ª fase da Operação, mas resistiu quanto à última. Ele temia os efeitos negativos na opinião pública mundial. Naquele momento o general-presidente Geisel procurava “vender” a sua política de abertura lenta, gradual e segura. No entanto surgiram provas que existiu uma tentativa de articulação entre a DINA e o SNI para espionar opositores refugiados na Península Ibérica. Inclusive, cogitou-se assassinar o Almirante Aragão em Portugal.


Apesar da retórica da caça aos terroristas – entenda-se esquerda armada -, a ação dos órgãos de repressão se voltava cada vez mais para os políticos oposicionistas que não haviam ingressado na luta revolucionária e defendiam uma transição democrática e pacífica para seus países. Em cinco de outubro de 1975, Bernardo Leighton, ex-vice-presidente do Chile e líder democrata-cristão, sofreu um atentado enquanto se encontrava exilado na Itália. Dessa vez a DINA contou com apoio de um grupo fascista local chamado Vanguarda Nacional.


Em maio de 1976 seriam seqüestrados e friamente assassinados na cidade de Buenos Aires o ex-senador uruguaio Zelman Michelini e o ex-deputado Héctor Guttiérez Ruiz. Mais tarde, em 1º de junho, na mesma cidade, seria morto o ex-presidente da Bolívia, general Juan José Torres. Esses assassinatos faziam parte da segunda fase da Operação Condor.


O caso mais famoso – ocorrido na terceira fase – foi o assassinato do ex-ministro chileno Orlando Letelier em 21 de setembro de 1976. Seu carro explodiu nas ruas da capital dos Estados Unidos, Washington. Neste atentado morreu também uma jovem norte-americana, Michael Moffitt. O método foi o mesmo utilizado contra o general Prats. Novamente por trás do assassinato estava a figura sinistra de Townley.


A morte de Letelier foi um escândalo internacional que colocou o próprio governo dos Estados Unidos na parede. Afinal, tratava-se de um atentado terrorista organizado por um de seus principais aliados. O escândalo foi ainda maior quando se descobriu que a CIA e o Departamento de Estado poderiam ter evitado o ataque terrorista, pois sabiam que um grupo de agentes chilenos, com passaportes falsos, tinha planos de entrar no país. Portanto, a CIA foi omissa ou cúmplice do mais notório dos crimes da Operação Condor.


Num primeiro momento tentou-se jogar uma nuvem de fumaça sobre as possíveis origens do crime. Afirmou um jornal: “Os funcionários da Inteligência disseram que uma investigação paralela estava apurando a possibilidade de o sr. Letelier ter sido assassinado por extremistas esquerdistas chilenos como meio de romper as relações dos Estados Unidos com a Junta militar”. A mesma versão dada pela ditadura chilena. Era um verdadeiro escárnio à consciência do mundo. A imagem do governo Republicano se viu bastante abalada.


Mais tarde – já na prisão – Contreras afirmou que a ordem de execução veio diretamente de Pinochet e que a CIA teria ajudado a executá-la. Nada de estranho. A CIA esteve envolvida em tentativas de homicídios políticos em várias partes do mundo, como o do líder congolês Lumumba e do comandante-em-chefe das Forças Armadas do Chile, general René Schneider. O crime deste militar honrado teria sido “apoiar com firmeza a constituição chilena”.


No auge da repressão, o ministro das relações exteriores da Argentina, o almirante Guzzetti, visitou Kissinger e voltou animado com a acolhida recebida. Segundo ele, o secretário americano havia afirmado que “se o problema do terrorismo estivesse eliminado em dezembro ou janeiro (de 1977), ele acreditava que sérios problemas poderiam ser evitados nos Estados Unidos”. Isso enfureceu o embaixador norte-americano na Argentina que sugerira que o governo do seu país criticasse mais duramente a sistemática violação dos direitos humanos.


Os generais argentinos sempre afirmaram que a sugestão de uma guerra rápida contra o terrorismo havia sido feita pelo próprio Kissinger. Eles, como Pinochet e Contreras, apenas cumpriram ordem de seu líder. Em 1978, já fora do poder, Kissinger visitou o ditador Videla e elogiou “o trabalho extraordinário ao eliminar as forças terroristas”, mas advertiu que os métodos usados “não deviam ser perpetuados”. Esse era um endosso aos crimes nefandos cometidos pela ditadura Argentina até então.


Planos assassinos do Condor na Europa também foram descobertos e foi preciso desmontá-los rapidamente. A lista de possíveis assassinados era longa. Quando se descobriu que havia intenção de assassinar até mesmo um deputado democrata nos Estados Unidos as coisas se complicaram para o lado de Pinochet. Em dezembro de 1976 estavam suspensas as atividades do Condor fora do Cone Sul.


Jimmy Carter, candidato Democrata e que tinha como uma das bandeiras os direitos humanos, ganhou a eleição para a presidência dos Estados Unidos no final de 1976. As investigações do caso Letelier levaram à Pinochet e Contreras. Em agosto de 1977 a DINA foi fechada e Contreras saiu do Exército. Levaria ainda alguns anos para que ele fosse preso, julgado e condenado. Recentemente descobriu-se que ele estava na lista de pagamento da CIA.


O Condor, no entanto, continuou fazendo suas vítimas neste hemisfério, inclusive no Brasil da abertura. Em novembro de 1978 os uruguaios Lílian Celiberti e Universindo Diaz foram seqüestrados por policiais uruguaios e brasileiros na cidade de Porto Alegre. Depois de presos foram torturados e enviados de volta para o seu país. A pressão da imprensa nacional e internacional – que descobriu o seqüestro – impediu que os dois passassem a compor a lista de uruguaios desaparecidos, embora tivessem que passar cinco anos numa prisão.


O argentino Lorenzo Ismael Viña, desapareceu em junho de 1980 na cidade de Uruguaiana (RS). Horácio Campiglia, também argentino, foi preso no aeroporto do Galeão (RJ) em março de 1980. Os dois não tiveram a sorte de ter o seu seqüestro descoberto a tempo. Eles foram extraditados secretamente e desapareceram.


Baseado nestes dois casos – nos quais os assassinados tinham dupla nacionalidade: argentina e italiana – é que a justiça da Itália pediu a extradição de policiais e militares brasileiros. O pedido esbarrou com a nossa constituição que impede a extradição de brasileiros para julgamento em outros países. Esta garantia seria justa – e defensável - se as nossas autoridades – a partir de informação contidas no processo que corre na Itália – abrissem um processo contra os acusados. Eles não estão protegidos nem mesmo pela Lei da Anistia que abrange apenas os crimes realizados até o ano de 1979.


A Operação Condor foi responsável pela morte e desaparecimento de 135 uruguaios, 113 chilenos, 51 paraguaios e 11 brasileiros que estavam exilados em algum dos países envolvidos. Esta foi apenas uma pequena parte de um massacre ainda maior. Nestes anos sombrios de ditaduras militares morreram nas mãos da repressão política trinta mil argentinos, três mil chilenos, dois mil paraguaios, trezentos e cinqüenta brasileiros, duzentos uruguaios e cento e sessenta dois bolivianos. Os números do morticínio ainda são incompletos.


Em 1998 Pinochet foi preso por curto tempo em Londres a pedido do juiz espanhol Baltasar Garzón. Este foi um ato simbólico de grande importância. Na Argentina, Uruguai e Paraguai, vários comandantes militares e policiais também foram condenados e passaram algum tempo na cadeia por seus crimes odiosos. O Brasil ainda engatinha neste terreno. Nenhuma autoridade foi punida pelos crimes que cometeu.


É bom lembrarmos, também, que não foram punidos àqueles que mais se envolveram na desestabilização das democracias latino-americanas, apoiaram as ditaduras assassinas, ensinaram-lhe as técnicas modernas de tortura, deram-lhes suporte para impor o terrorismo de Estado, incentivaram e financiaram os órgãos de repressão (como a Operação Condor). Refiro-me às autoridades estadunidenses, aos Kissingers e Rockefellers. Contra esses não foi pedida nenhuma extradição nem se abriu nenhum processo. Esperamos que não apenas os seus fantoches, de casaca ou de farda, respondam perante os tribunais e a história.

Bibliografia:

Bandeira, Luiz Alberto Moniz – “Brasil e os golpes na Bolívia, Uruguai e Chile”; In: Espaço Acadêmico, nº28, setembro de 2003
Dinges, John – Os anos do Condor, Ed. Companhia das Letras, 2005
Krischke, Jair - Brasil e a Operação Condor,




*Augusto Buonicore, Historiador, mestre em ciência política pela Unicamp


* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.
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in VERMELHO - 12 DE MARÇO DE 2008 - 19h11
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domingo, 6 de janeiro de 2008

As seqüelas da Operação Condor


por Tony Solo [*]

Os irmãos Carlos (esq.) e Alejandre (dir.) Bulgheroni. Quando Shimon Peres comemorou seu 80º aniversário em 22 de setembro, no topo da lista de convidados — à frente até de Bill Clinton, Mikhail Gorbachev, F. W. De Klerk da África do Sul e Bob Hawke da Austrália — estava Carlos Bulgheroni. Bulgheroni é o chefe da companhia energética argentina Bridas [1] . Se o terrorismo fosse o tema da conversa entre ambos, tanto Bulgheroni como Peres teriam muito o que lembrar. Israel e Argentina serviram como prepostos para o treinamento de terroristas na América Central durante os anos 70 e 80.

Instrutores argentinos de esquadrões da morte com base na Guatemala disfarçavam-se de funcionários da Bridas. Durante aquele período Peres foi ministro da Defesa de Israel, primeiro-ministro, vice-primeiro-ministro e ministro do Exterior – consciente dos compromissos militares de Israel nas Américas. A análise dos antecedentes do terrorismo argentino e israelense revela como a fictícia “guerra contra o terror” é apenas mais um pretexto para a pilhagem da América Latina pelo governo dos EUA e pelas multinacionais por ele favorecidas.

ARGENTINA – 30 MIL RAZÕES PARA CHORAR

Três anos depois de destruir a democracia no Chile, instigando o golpe militar de 1973 contra Salvador Allende, Henry Kissinger esteve em Santiago para uma reunião da Organização de Estados Americanos. Lá contactou o ministro do Exterior da junta militar argentina. De acordo com Robert Hill, então embaixador dos EUA na Argentina, “Kissinger perguntou quanto tempo levaria... para liquidar o problema (terrorista)... Kissinger deu aos argentinos o sinal verde... o secretário queria que a Argentina encerrasse seu plano terrorista antes do fim do ano” [2] . Hill devia saber. Foi ele quem serviu de intermediário entre os organizadores dos esquadrões da morte guatemaltecos e as lideranças do governo argentino [3] .

Entre 1976 e 1983, sob a ditadura militar, as forças armadas argentinas mataram mais de 30 mil civis membros da oposição política do país. Aproximadamente 500 bebês de mulheres que deram à luz enquanto detidas foram distribuídos entre os assassinos dos seus pais. Em mais de 300 campos e centros de detenção as vítimas eram torturadas até à morte e a seguir empilhadas em covas coletivas ou lançadas no Atlântico de aviões militares de transporte. Suas propriedades e bens foram repartidos entre seus torturadores e assassinos – no valor de mais de 70 milhões de dólares.

HISTÓRICO DA OPERAÇÃO CONDOR

A determinação dos EUA em destruir a oposição ao seu domínio da América Latina tem raízes na sua derrota no Vietnã. A equipe de 1972 que ajudou Kissinger a negociar com os vietnamitas em Paris incluía o atual embaixador para as Nações Unidas, John Negroponte, e Vernon Walters, mais tarde conselheiro de Ronald Reagan, então adido militar na embaixada dos EUA em Paris. Naqueles dias, George Bush pai era embaixador nas Nações Unidas.

Em 1975 Bush pai era o chefe da CIA e trabalhava juntamente com Kissinger e Vernon Walters para desenvolver a Operação Condor – uma operação coordenada contra movimentos de oposição por toda América Latina [4] . A Operação Condor incluía o uso de fachadas ilícitas como a equipe de assassinato coordenada entre o serviço de segurança chileno DINA e terroristas cubanos de Miami como Orlando Bosch, Guillermo Novo e Luis Posada Carriles [5] . Também incluía o apoio a políticas brutais de repressão em massa em países de toda América do Sul. A Operação Condor foi uma tentativa ambiciosa e bem-sucedida de coordenar aquela repressão.

A OPERAÇÃO CONDOR DESLOCA-SE PARA O ISTMO

Por volta de 1980, as prioridades para a equipe latino-americana do presidente Reagan eram derrotar os sandinistas na Nicarágua, travar os movimentos revolucionários na Guatemala e em El Salvador e varrer o movimento popular em Honduras. No final de 1981 já se falava em muitas pessoas que hoje são familiares. Elliot Abrams (hoje diretor de segurança para o Conselho Nacional de Segurança para Assuntos do Oriente Médio e Norte da África) era secretário de Estado assistente, para, por incrível que pareça, direitos humanos e assuntos humanitários. John Negroponte era embaixador em Honduras e John Maisto embaixador na Nicarágua. John Poindexter, Colin Powell, Richard Armitage, Otto Reich, Roger Noriega, todos trabalhavam na América Latina durante a presidência de Reagan. Todos foram trazidos de volta para a Casa Branca por George Bush filho depois de a Corte Suprema (recheada de republicanos) ter legitimado a fraude eleitoral da Flórida nas eleições presidenciais de 2000 [6] .

Assim, no início de 1980, oficiais do exército e da marinha argentina chegaram à Guatemala para dar treinamento de técnica contra-insurrecional ao regime de Lucas Garcia. Juntamente com conselheiros do Chile e de Israel deram assistência aos esquadrões da morte guatemaltecos, originalmente criados pela CIA nos anos 60. Estima-se que 200 mil pessoas tenham sido mortas pelo exército guatemalteco durante a prolongada resistência popular às ditaduras apoiadas pelos EUA naquele país. Em agosto de 1981, o vice-diretor da CIA, Vernon Walters, providenciou um encontro na Cidade da Guatemala com o objetivo de consolidar uma força anti-sandinista com treinamento na Argentina [7] .

Entre 1981 e 1983, membros do Batalhão 601 da Argentina, a unidade responsável por grande parte do terror na própria Argentina, trabalharam com instrutores israelenses fora da Guatemala. Em El Salvador eles ajudaram a treinar assassinos como Roberto D'Aubuisson (que planejou a morte do Arcebispo Oscar Romero). Em Honduras ajudaram a organizar tanto o infame esquadrão da morte Batalhão 3-16 como os assassinos em massa dos Contra nicaragüenses. A partir de 1983 os israelenses treinaram Carlos Castaño e outros líderes atuais dos esquadrões da morte paramilitares AUC [8] .

JOHN NEGROPONTE, VICE-REI FASCISTA

Pode parecer estranho hoje que Elliot Abrams e John Negroponte tenham auxiliado os fascistas argentinos (que refinaram os tormentos de vítimas judias em Buenos Aires torturando-as com retratos de Adolf Hitler ao fundo). Mas Abrams e Negroponte fizeram exatamente isso. Oficiais argentinos treinaram integrantes do exército hondurenho em técnicas de repressão em massa enquanto John Negroponte foi embaixador em Tegucigalpa de 1981 a 1985. Lá ele trabalhou lado a lado com o chefe das Forças Armadas hondurenhas Gustavo Álvarez Martínez para impor um estado de “segurança nacional” ao estilo argentino – quer dizer, um estado policial fundado em execuções extrajudiciais.

Como embaixador dos EUA em Honduras, John Negroponte mostrou um cínico desprezo pela legitimidade e pelo Congresso dos EUA, violando vergonhosamente a Emenda Boland que restringia o auxílio aos Contra. Com a recomendação de Negroponte, o governo Reagan deu a Alvárez Martínez a Legião do Mérito em 1983 por “encorajar a democracia”. Álvarez Martínez foi responsável pelo desaparecimento de 140 sindicalistas, estudantes e outros líderes do movimento popular hondurenho entre 1981 e 1984. Em 1989, em um caso exemplar, o Tribunal Inter-Americano de Direitos Humanos condenou Honduras pelo desaparecimento forçado de quatro pessoas entre 1981 e 1983. Durante aquele período, sob o vice-reinado de Negroponte, terroristas argentinos e israelenses ajudaram o exército hondurenho a refinar suas técnicas de repressão.

Traficantes e sauditas eram os financiadores. Esse treinamento não era de graça. Quem o pagava? Principalmente o contribuinte americano através de ajuda militar à Argentina e a Israel. Mas quando era difícil obter recursos legais, fontes ilícitas também serviam, incluindo receitas com drogas e dinheiro canalizado através do Banco de Comércio e Crédito Internacional (BCCI), cortesia de ligações entre George Bush pai, a família real saudita e a família Bin Laden [9] . O BCCI reconheceu que lavava dinheiro do cartel das drogas de Medellín, que mais tarde figuraria no escândalo Irã-Contras.

Nesse período, tanto a Colômbia quanto Taiwan deram treinamento. Mas os principais países envolvidos eram a Argentina e Israel. Para facilitar as coisas, Israel instalou na Guatemala uma indústria para fabricar rifles Galil. Por um acordo estabelecido em outubro de 1981, 200 oficiais do exército guatemalteco participaram de cursos de contra-insurreição em Buenos Aires que incluíam o uso de “técnicas de interrogatório”. Entre os “instrutores", estava Ricardo Cavallo.

O ESCÂNDALO CAVALLO

Em 11 de junho deste ano as autoridades mexicanas confirmaram uma ordem de extradição contra Ricardo Cavallo pelo juiz espanhol Baltasar Garzón por crimes contra a humanidade durante o terror na Argentina [10] . Cavallo é acusado de 337 seqüestros políticos, 227 desaparecimentos forçados e o roubo de crianças de prisioneiros políticos. A história de Cavallo tem raízes na Operação Condor e estende-se até a atual administração Bush.

Cavallo e seus colegas Jorge Radice, Jorge Acosta e outros foram torturadores das Forças Armadas argentinas. Eles forçavam suas vítimas a assinar procurações que lhes permitiam alienar suas propriedades, contas bancárias e pertences. Cavallo também trabalhou lado a lado com o exército boliviano comandado por Luis Garcia Meza no início dos anos 80, quando a Bolívia era virtualmente governada por traficantes de drogas.

Com seu capital ilícito, Cavallo e seus amigos criaram as empresas de segurança e controle de dados Martiel e Talsud na Argentina. Eles fizeram negócios com a Seal Lock, uma companhia argentina que era representante da empresa dos EUA Advantager Security Systems. A Martial era representante da casa da Moeda do Brasil, a CONSAD da Argentina, a Ciccone Calcográfica [11] e a firma de cartões inteligentes francesa Gemplus [12] . A Talsud e a Martial eram virtualmente intercambiáveis, ambas trabalharam para imprimir o dinheiro do presidente Mobutu, favorito da CIA, no Zaire em 1993.

Em 1995, a TTI, subsidiária da Bridas, e a Seal Lock ajudaram a Talsud a obter negócios lucrativos na província argentina de Mendoza. Em 1996, a Talsud ganhou o contrato para emissão de carteiras de motorista na província argentina de La Rioja. Os clientes da Seal Lock incluíam o Ministério das Relações Exteriores da Argentina, o Banco Central argentino, o Registro Nacional da Bolívia, a Shell do Paraguai e a empresa marítima ZIM de Israel. Cavallo e seu irmão Oscar também criaram uma empresa em El Salvador chamada Sertracen, estreitamente associada ao exército salvadorenho. A Sertracen emite carteiras de motorista e portes de arma em El Salvador.

Em agosto de 1998, Cavallo entrou no México como turista, miraculosamente conseguindo visto de residência após um mês. Em um ano, sua companhia Talsud estava participando de concorrências para o departamento de trânsito mexicano (RENAVE), juntamente com a Gemplus e a companhia mexicana CIFRA. Em 7 de setembro de 1999, eles ganharam a concorrência garantindo uma receita anual estimada em 400 milhões de dólares.

O escândalo Cavallo/RENAVE estourou no início do ano no México e em meio a evidências crescentes de irregularidades. O vice-ministro do Comércio Raul Tercero, que autorizou o negócio com a RENAVE, foi achado num bosque próximo à Cidade do México com sua garganta cortada. Ele deixou várias cartas defendendo-se de acusações de corrupção.

Os parceiros de negócios de Cavallo têm uma desafortunada tendência para morrer violentamente. Em outubro de 1998, durante um escândalo de propinas envolvendo a IBM, Marcel Cattaneo, irmão do dono da CONSAD, empresa cliente de Cavallo, foi achado pendurado num poste. O aparente suicídio foi seguido por mortes igualmente suspeitas. Em junho de 1998, um amigo do presidente Carlos Menem, o megaempresário Alfredo Yabran, associado à subsidiária da De La Rue Ciccone Calcográfica, foi encontrado morto. Em agosto do mesmo ano, Jorge Estrada, ex-chefe de Cavallo no centro de tortura da ESMA (Escola de Mecânica da Armada – NT) e acionista da Martiel foi encontrado morto, outro suicídio aparente.

VETERANO DA OPERAÇÃO CONDOR NO MÉXICO

Como Cavallo, alguém mais entrou no México em 1998, mas não como turista – o embaixador dos EUA Jeffrey Davidow [13] . Davidow era conselheiro político na embaixada dos EUA no Chile de 1971 a 1974. Em Santiago, ele estava ao par de segredos da embaixada quando a CIA e a agência de segurança chilena DINA organizavam a quadrilha de pistoleiros que mais tarde assassinou importantes figuras da oposição chilena, Carlos Prats em Buenos Aires e Orlando Letelier em Washington. No México, Davidow continuou a aperfeiçoar as habilidades que aprendera no Chile, encobrindo abusos de direitos humanos em Chiapas e cultivando relacionamentos dúbios com empresários que lidavam com drogas – tudo o que podia se esperar de um veterano da Operação Condor.

O escândalo Cavallo aumentou as preocupações no México e no resto da América Latina quanto às notícias de que a empresa de prospecção de dados Choicepoint comprava informações confidenciais de companhias como a Talsud e a Martiel sobre populações inteiras de países centro e sul americanos. As pessoas receiam violações da legítima privacidade de latino-americanos viajando ou morando nos Estados Unidos. A Choicepoint foi a companhia cuja subsidiária DBT bagunçou o processo eleitoral na Flórida permitindo que George Bush vencesse a eleição presidencial de 2000 [14] .

ABUSO DE DADOS – A CONEXÃO CHOICEPOINT

É difícil conseguir pormenores precisos sobre quem está vendendo à Choicepoint essa informação confidencial [15] . Mas pode-se ter uma idéia do utilidade de todos esses dados pelo papel que John Poindexter vislumbrou para o seu programa Total Information Awareness (TIA) no Estado cada vez mais policial de John Ascroft (Procurador Geral dos EUA – NT). Embora Poindexter, condenado por mentir ao Congresso durante as audiências do caso Irã-Contras, possa ter saído de cena após o fiasco do “mercado futuro de terrorismo” da DARPA, o TIA actua sob diferentes disfarces, como o programa MATRIX em vários estados dos EUA, principalmente a Flórida.

Richard Armitage, um dos conspiradores do Irã-Contras, era membro da diretoria da Database Technologies (DBT/Choicepoint Inc) antes de assumir um cargo no governo Bush filho. Agora é vice-secretário de Estado de Colin Powell. A Choicepoint é parceira da empresa de prospecção de dados SAIC cujo site proclama que “desenvolveu uma aliança estratégica com a Choicepoint Incorporated a fim de proporcionar a nossos clientes uma coleta de informações rápida e sem esforço a partir de bancos de dados públicos. A Choicepoint Incorporated mantém milhares de gigabytes de dados de arquivos públicos” [16] . Os clientes da SAIC incluem a Guarda e Reserva Nacional do Exército dos EUA, o Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos e a British Petroleum Amoco. Antes de se tornar secretário de Estado, Donald Rumsfeld pertencia ao Conselho de Administração da BP Amoco.

BP-Amoco? Soa como Bridas-Pan American Energy... de volta à conversa entre Shimon Peres e Carlos Bulgheroni. Engraçado como os tempos mudam e amigos de outrora se indispõem.

No início dos anos 90 a Bridas obteve concessões para a exploração de petróleo no Turquemenistão. Em 1997 estavam negociando com o regime Talibã do Afeganistão a construção de um oleoduto naquele país. A Bridas viu-se competindo pelos favores dos talibãs com a Unocal, uma companhia petrolífera dos EUA duramente criticada por suas operações em Myanmar (Birmânia), controlada pelo exército.

Richard Armitage [17] trabalhou para a Unocal juntamente com outro personagem do Irã-Contras, Robert Oakley. O regime talibã favorecia um acordo com a Bridas. A Bridas e a Unocal acabaram brigando nos tribunais dos EUA. A Bridas perdeu. Ao mesmo tempo, entre 1997 e 1998, a política dos EUA no Afeganistão azedou [18] . De novembro de 2000 a agosto de 2001, a Argentina teve suas finanças arruinadas por bancos dos EUA e pelos mercados financeiros internacionais [19] . Em outubro de 2001 os EUA invadiram o Afeganistão.

Essa é uma boa ilustração da doutrina Bush: nenhum país poderá representar uma ameaça ao que os EUA considerarem como seus interesses, nem mesmo um Estado-cliente amigo ex-terrorista como a Argentina. A Bridas pôde ver como as coisas iam indo e deixou-se levar pela corrente. Em 1997 ela associou-se à BP Amoco. Renascida como Panamerican Energy, a Bridas está trabalhando com a BP Amoco para explorar gás e reservas petrolíferas por toda América Latina, mas principalmente na Argentina, e de forma controversa, na Bolívia. A BP Amoco beneficia-se dos ativos da Bridas na Ásia Central.

OPERAÇÃO CONDOR – BEM, OBRIGADO

A progressão do Chile, Argentina, Uruguai passando pela América Central até a Venezuela e a Colômbia da atualidade é evidente. Os mesmos atores aparecem de tempos em tempos. Elliot Abrams, John Negroponte, Colin Powell, Richard Armitage, John Maisto, Roger Noriega e Oto Reich – todos circulam entre empregos confortáveis no governo dos EUA e a plutocracia empresarial que determina a política de governo dos EUA.

Todos eles participaram de uma forma ou de outra na conspiração Irã-Contras para enganar o Congresso. Abrams foi indiciado e considerado culpado pela Comissão Parlamentar de Inquérito mas indultado por George Bush pai. Richard Armitage escapou de ser processado porque a CPI carecia de recursos. Eles haviam sido exauridos com o desmascaramento do ex-secretário da Defesa Caspar Weinberger, também indultado por Bush pai. Agora Powell, Armitage, Maisto, Noriega e Reich estão conspirando para derrubar o democraticamente eleito Hugo Chávez na Venezuela e tentando aprofundar o envolvimento militar dos EUA na Colômbia. Na Guatemala, um velho parceiro, o assassino em massa Ríos Montt está ameaçando derrubar violentamente o regime democrático duramente conquistado pelo país.

Nada disso tem algo a ver com qualquer “guerra contra o comunismo”, “guerra contra as drogas” ou “guerra contra o terror”. Os Estados Unidos e a União Européia estão na América Latina pelas mesmas razões dos colonialistas espanhóis, portugueses, britânicos, franceses e holandeses antes deles – recursos naturais e mão-de-obra barata, combinados hoje em dia com a extração neocolonial da “dívida” contraída à força. Os métodos são a privatização, desmantelamento das economias de agricultura familiar, e mercados abertos impostos pelo FMI e Banco Mundial por meio de clientes locais a fim de favorecer multinacionais como a BP-Amoco, Monsanto, Cargill e outros nomes demasiado familiares.

Para a opinião pública dos Estados Unidos as lições da América Latina deveriam ser muito claras. A filósofa francesa Simone Weil escreveu certa vez que as pessoas na Europa ficavam chocadas com os nazistas porque estes praticavam na Europa os métodos que as potências européias aplicavam às suas colônias. Agora é a vez dos Estados Unidos. Os indivíduos vulgares atualmente dominando a Casa Branca estão pondo em prática dentro de casa aquilo que fizeram durante três décadas ao promoverem o terror na América Latina.

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NOTAS

1. A Bridas é uma companhia de produção e exploração de energia. Ela opera na América Latina e Ásia Central. Possui uma joint venture para exploração e produção com a BP Amoco chamada Pan American Energy. A companhia possui 40% da Pan American Energy (60% é propriedade da BP Amoco). A Pan American Energy LLC é uma companhia registrada em Delaware, EUA (tirado da BP Amoco e sites relacionados).

2. Para a citação de Hill, vide: www.icai-online.org/72616,46136.html , entre várias outras

3. "Guatemala: Laboratorio estadounidense del terror", fevereiro de 2002. Gustavo Meoño Brenner, Nuevo Diario, Guatemala. Esse artigo cita: Ariel C. Armony "La Argentina, los Estados Unidos y la Cruzada Anti-Comunista en América Central, 1977-1984" Editorial Universidad Nacional de Quilmes, 1999; Stella Calloni "Operación Cóndor, pacto criminal" Ediciones La Jornada, Ciudad de México, 2001; "Las intimidades del proyecto político de los militares en Guatemala". Jennifer Schirmer, Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales, Guatemala, 1999.

4. A mesma equipe ajudou a criar em 1975 o Comitê para o Perigo Presente, no qual Paul Wolfowitz era uma figura de destaque.

5.Hernando Calvo Ospina, "Pinochet, la CIA y los terroristas cubanos", 23 de agosto del 2003, www.rebelion.org .

6. Colin Powell é secretário de Estado. Richard Armitage é vice-secretário de Estado. John Maisto é representante dos EUA para a Organização de Estados Americanos. Roger Noriega é secretário-assistente de Estado para assuntos do Hemisfério Ocidental. Otto Reich é enviado especial para iniciativas do hemisfério ocidental.

7. Depoimento de Edgar Chamorro, ex-organizador dos Contra à Corte Internacional de Justiça na Haia, 5 de setembro de 1985.

8. Jeremy Bigwood, Narco News, "Israel y los paramilitares colombianos" de www.rebelion.org 15 de agosto de 2003

9. A administração Reagan também utilizou o BCCI para enviar fundos aos mujahedin afegãos nos dias em que Bin Laden era um herói dos EUA. Dois ex-diretores da CIA, Richard Helms e William Casey estavam envolvidos com o BCCI antes que este confessasse ter lavado dinheiro para o Cartel das drogas de Medellín. William Casey morreu antes que as audiências do Irã-Contras fossem realizadas. Entre diversas fontes: "Grupo de armas dos EUA se dirige para Lisboa" The News, Portugal's English language Weekly, 4 de abril de 2003. www.globalresearch.ca ; "À qui profite le crime? Les liens financiers occultes des Bush et des Ben Laden" Réseau Voltaire 11 septembre 2001

10. Fontes de informações sobre Cavallo: artigo de Olga Viglieca, Hector Pavon e Guido Braslavsky. Clarín-Zona. Argentina 10 de setembro de 2000; "Renave: los porqué de un fracaso" Jorge Fernández Menéndez. Semanario Milenio. Mexico, 14 de setembro de 2000; "El largo brazo de la mafia argentina", José Steinsleger La Jornada. Mexico 24 de setembro de 2000; "Se expanden las empresas del ex marino Ricardo Cavallo licencia." Mario Fiore. Los Andes. Mendoza. Argentina 17 de agosto de 2001; "Tiene Cavallo Información Estrategica" Jorge Carrasco A. La Reforma. Data incerta.

11. Uma subsidiária da De la Rue que produzia passaportes para o governo mexicano. A De la Rue atualmente é proprietária da Sequoia, companhia de sistemas de votação eletrônica dos EUA, que também é em parte propriedade da sócia do grupo Carlyle, a companhia de investimentos americana Madison Dearborn, que se apossou da participação da Jefferson Smurfit na Sequoia.

12. A Texas Pacific Group recentemente fez um grande investimento de entre 300 e 500 milhões de dólares na Gemplus para aumentar a participação da Gemplus nos mercados de comunicações sem fio, comércio eletrônico e segurança da Internet internacionais.

13. "Comportamento limítrofe", Al Giordano. The Boston Phoenix. 16 a 23 de dezembro de 1999

14. Greg Palast, 2 de novembro de 2002,"A Reeleição de Jim Crow: Como a Equipe de Jeb Bush está tentando roubar a Flórida de novo" e seu livro "A Melhor Democracia que o Dinheiro Pode Comprar"

15. "Imperio de control", Dieter Drüssel. www.rebelion.org , 1º de setembro 2003. Drussel menciona a Silnica, controalda pelos costarriquenhos, na Nicarágua. Em El Salvador e na Guatemala as preocupações públicas estão focadas na Sertracen e InforNet.

16. Site da SAIC

17. Relatório da Comissão Especial do Irã-Contras "a Comissão Independente deixou de processar Armitage devido a que os recursos limitados da OIC estavam focados no caso contra Weinberger e porque as provas contra Armitage, ainda que substanciais, não alcançaram o limiar das provas além da dúvida razoável.

18. Diversos sites--" Petróleo e Gás do Afeganistão e Turcomenistão, e o Oleoduto Projetado" Timeline, www.worldpress.org/specials/
www.thedubyareport.com/oilwar.html - "A Enron Desempenhou um Papel Central nos Eventos que Antecipavam a Guerra", Martin Yant. Columbus Free Press. 10 de abril de 2002

19. "A Argentina não caiu por si só - Wall Street forçou a dívida até o limite", Paul Blustein. The Washington Post. 3 de agosto 2003

[*] Toni Solo é um ativista radicado na América Central. Contato: tonisolo52@yahoo.com .

O original encontra-se em Counterpunch . Tradução do Círculo Bolivariano de São Paulo .


Este artigo encontra-se em http://resistir.info .

sábado, 5 de janeiro de 2008

Os vôos do Condor revelados


Autor do mais exaustivo estudo sobre a repressão a militantes de esquerda no Cone Sul nos anos 70, liderada pelo Chile, o jornalista norte-americano John Dinges afirma, em palestra na USP, que a participação do Brasil na operação se limitou a fornecer informações e a treinar agentes estrangeiros

* SYLVIA MIGUEL
.

A base documental que o jornalista norte-americano John Dinges usou para escrever o livro Os anos do Condor – Uma década de terrorismo internacional no Cone Sul impressiona. Dinges usou 24 mil relatórios sobre o Chile e 4 mil sobre a Argentina, escolhidos dentre os documentos desclassificados durante a administração do ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton e que por muito tempo ficaram em poder da CIA, a agência de inteligência norte-americana. Cópias de correspondências entre a CIA e a Agência de Inteligência do Chile (Dina), além do Archivo del horror, descoberto em 1992 no Paraguai, e de outras 2 mil páginas liberadas por agências norte-americanas a pedido do próprio jornalista, respaldado pela Lei da Liberdade de Informação daquele país, completam o material. Tudo isso sem contar as 200 entrevistas com envolvidos diretamente nos fatos, sejam eles opositores ou militares que protagonizaram as ações sangrentas sob a égide da Operação Condor – assim chamada em alusão ao nome da ave-símbolo do Chile, país de onde foram orquestradas as táticas militares no contra-ataque terrorista.

Apesar das duas horas de atraso, ocorrido por problemas no aeroporto que o forçaram a entrar no Brasil através da Argentina, a palestra que proferiu sobre a obra – seguida de debate com a participação dos professores Sérgio Adorno, do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP, e Rafael Antonio Duarte Villa, do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP – lotou o miniauditório do Departamento de Antropologia, na segunda-feira, 6 de junho. A edição em português, da Companhia das Letras, tem informações que não haviam sido publicadas na versão em inglês, como, por exemplo, a de que o braço da Operação Condor no Brasil foi o ex-presidente João Baptista Figueiredo.

Para Sérgio Adorno, o livro certamente se tornará referência para os que pesquisam o tema. “Durante os anos em que morei no Chile, de 1972 a 1978, nunca me senti ameaçado durante o governo de Salvador Allende, mas na era Pinochet vivi uma fase de grande terror”, contou na palestra Dinges, que na época trabalhava como colaborador do jornal Washington Post e outros veículos. “Vasculharam minha casa duas vezes e me levaram preso para interrogatório. Levaram a mim, minha esposa e outras duas pessoas para a Via Grimaldi, o campo de tortura mais importante do Condor naquele momento.”


Modelo socialista

No clima do ideário social-marxista que tomava conta do Chile nos anos 70, o líder Allende subiu ao poder em 4 de setembro de 1970 com apoio de Fidel Castro, para desespero dos Estados Unidos, dos capitalistas e das oligarquias. Há relatos de que a CIA tentou evitar a posse do presidente. Mas este sobe ao poder e declara-se socialista, dando início ao desemprego em massa, com a fuga de capital estrangeiro e das grandes mineradoras norte-americanas. “É preciso entender que a Operação Condor aconteceu durante esse momento de radicalizações. No início eu achava que a experiência militar do Brasil era coisa do passado e que o Chile, sim, iria experimentar um regime diferente, que favoreceria os pobres e que seria um modelo socialista. Mas isso representava um perigo que os Estados Unidos não conseguiriam suportar”, disse o jornalista, que é também professor da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. O governo de Allende foi derrubado em 11 de setembro de 1973 pela Força Aérea e o Exército chileno. A ditadura de Pinochet durou mais de 16 anos.

“Porque lançar corpos no Rio La Plata está criando problemas para o Uruguai, como a aparição de cadáveres mutilados nas praias, fornos crematórios dos hospitais do Estado estão sendo usados para a incineração de subversivos capturados” (Documento da Força Aérea Brasileira, 1977).

A famosa campanha repressiva internacional do Condor, promovida entre as décadas de 60 e 80 através de uma conexão entre as polícias políticas do Chile, Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai, teve seu vôo final em 1980, numa ação envolvendo guerrilheiros peruanos. “O Peru tinha abandonado seu governo militar de inclinação esquerdista e, em 1980, era o membro mais recente do Condor”, relata o livro. Entre os prisioneiros desta que é provavelmente a última operação estava a famosa ativista política argentina Noemi Gianotti de Molfino, uma das fundadoras do grupo Mães da Plaza de Mayo.

A Operação Condor conseguiu êxito em todas as metas a que se propôs, disse Dinges. Entre seus principais efeitos, o jornalista enumera, além das mortes de políticos e importantes líderes de esquerda, o medo imposto aos exilados – “Qualquer exilado ou membro de esquerda sabia que não estava mais seguro em nenhuma parte do mundo”, disse – e o desmantelamento da Junta Coordenadora Revolucionaria (JOC), grupo organizado e com verba para lançar uma guerra de guerrilha em quatro países.

“Iremos até a Austrália, se necessário, para pegar os nossos inimigos” (Manuel Contreras, ex-diretor da Polícia Política de Pinochet, citado pela CIA).


O assassinato do influente ex-embaixador do Chile em Washington, Orlando Letelier, morto por atentado a bomba em seu carro em território norte-americano, mostrou que as asas do Condor pairavam livremente fora do Cone Sul, como também ficou demonstrado em ousadas ações no continente europeu. Um ex-presidente da Bolívia e dois dos mais proeminentes líderes políticos do Uruguai são alguns exemplos, entre os cerca de 30 mil torturados e mortos pela coligação militar, incluindo exilados sob a proteção da ONU.

Nos anos do Condor (1973-1980), a pecha de “terrorista” e “subversivo” caía sobre os opositores às ditaduras anticomunistas da América Latina, que haviam chegado ao poder com forte colaboração dos Estados Unidos. Apoio técnico e liderança estratégica eram a principal ajuda dos norte-americanos, como parte de uma “proposta política continental dentro da Guerra Fria”, segundo Márcia Guena, mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina (Prolam) da USP, onde apresentou a dissertação de mestrado “Operação Condor: uma conexão entre as polícias políticas do Cone Sul da América Latina entre as décadas de 60 e 80” (leia o texto ao lado).

“[O ministro das Relações Exteriores da Argentina] Guzzetti foi aos Estados Unidos esperando certamente ouvir algumas reprimendas fortes, firmes e diretas sobre as práticas de violação dos direitos humanos de seu governo. Em vez disso, retornou num estado de júbilo, convencido de que não há problema real com os Estados Unidos a respeito dessa questão” (embaixador Hill, num telegrama criticando o então secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger).


“Quem aqui acredita que Allende foi assassinado?”, perguntou Dinges à platéia. Como resposta aos que levantaram o braço, respondeu: “Ele se suicidou e isso está comprovado historicamente”. Para o jornalista, esse episódio é um exemplo de como a história cria mitos a partir de fatos incompletos ou inconclusos. Segundo ele, a verdadeira extensão da atuação da CIA na Operação Condor ainda repousa numa aura de mitos.


Sobre a CIA e os Estados Unidos terem efetivamente concebido e financiado a operação clandestina internacional dos governos militares do Cone Sul, Dinges insiste que esse é mais um mito. “Falo muito sobre isso no livro. A CIA participou dando treinamento aos agentes da Dina, fornecendo aparato técnico, especialmente sistemas comunicacionais, e integrando o grupo de Inteligência na troca de informações. Não acho que ela seja responsável pela criação da Operação Condor. Para mim isso é uma criação do Chile. O importante é enfatizar que os assassinos eram os latino-americanos. A CIA não chegou a matar pessoas”, defendeu.

Para Dinges, a política ambígua exercida pelos Estados Unidos nos anos do Condor revela um aspecto importante para entender a política norte-americana. “Os Estados Unidos não impulsionaram os assassinatos em massa, não há evidências de que fomentaram aquelas ações. Há evidências, porém, de que tentaram barrar algumas operações. Houve tentativas, mesmo débeis, de proteger os direitos humanos”, afirmou, ao responder a uma pergunta sobre as responsabilidades dos Estados Unidos em relação às vítimas do terror.

Em abril de 1975, os relatórios de inteligência mostravam que Contreras era o principal obstáculo para uma política razoável de direitos humanos dentro da Junta, mas um comitê formado por diversos órgãos governamentais orientou a CIA a manter relações com Contreras. Alguns membros da CIA recomendaram estabelecer uma relação remunerada com Contreras” (Relatório Hinchey).



Dinges avalia que o Brasil conseguiu sair relativamente “limpo” da Operação Condor, pois ele não encontrou documentos comprovando que o País efetivamente tomou parte nas ações que classifica de fase 3, a que envolvia assassinatos propriamente ditos. “Eu diria que o Brasil foi muito sutil e diplomático e tomou parte especialmente no fornecimento de informações. A inteligência brasileira funcionava incrivelmente bem, tanto que treinou os agentes da Dina. Não há documentos provando que tomou parte nos assassinatos do Condor. Há nomes de brasileiros citados nos documentos, entre eles o ex-presidente João Baptista Figueiredo”, disse.

O Chile, que administrou tudo, conseguiu sair da coligação com o saldo de 3 mil mortos, um contraste gritante em relação aos seus vizinhos. Das 100 mil pessoas detidas para interrogatórios naquele país, em torno de 3 mil foram mortas. “Enquanto no Chile morriam entre 5% e 10% dos que eram detidos, nos outros países quase todos os interrogados morriam após tortura. Na Argentina, havia uma probabilidade de que 80% dos detidos fossem mortos. Isso se explica pelo fato de que os outros países aperfeiçoaram o que o Chile desenvolveu. Por isso Pinochet ainda merece ser o símbolo da violência”, disse.

Para o professor Sérgio Adorno, além de obra de referência, Os anos do Condor é uma oportunidade para reavivar a memória e revelar fatos que, embora praticados há décadas, ainda fazem parte do presente. “Os elementos autoritários da cultura ainda não foram superados. Não é só uma questão de atribuir responsabilidades, mas de estarmos alertas ao fato de que Auschwitz sempre pode retornar”, disse. Dinges coloca algumas de suas descobertas no site

http://www.johndinges.com/condor.Grande parte dos documentos que pesquisou está disponível no endereço eletrônico do Freedom Information Act – programa de acesso a informações do Departamento de Estado norte-americano (http:// www.foia.state.gov).



O jornalista John Dinges: milhares de documentos e centenas de entrevistas para compor o livro que revela as ações de governos latino-americanos contra militantes de esquerda nos anos 70

Obstáculos para a verdade

O fato de grande parte dos documentos de alto grau de sigilo ainda permanecer resguardada não permite que a história das ditaduras recentes do Cone Sul seja contada de forma completa, segundo a pesquisadora Márcia Guena. Márcia é autora da dissertação de mestrado “Operação Condor: uma conexão entre as polícias políticas do Cone Sul da América Latina entre as décadas de 60 e 80”, apresentada em 1998 ao Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina (Prolam) da USP. “O que fazemos é um entrecruzar de informações a partir do que está disponível. Muitos documentos ainda permanecem censurados, inclusive nos Estados Unidos”, afirma Márcia, citando como exemplo o site do Freedon Informatiom Act (Foia), do Departamento de Estado norte-americano (www.foia.state.gov). Nele, há documentos de seis páginas em que aparece uma tarja preta e apenas duas linhas disponíveis para consulta. “Não temos ainda uma história completa sobre os acontecimentos.”

Na sua dissertação, Márcia estudou 400 documentos do Archivo del horror, descoberto em 1992 no Paraguai. “Meu objetivo foi mostrar a participação brasileira na Operação Condor a partir da documentação paraguaia”, diz. Em seu estudo, o papel brasileiro aparece mais ligado ao “fornecimento de informações e à aliança de inteligência”, afirma Márcia, concordando com as investigações feitas pelo jornalista John Dinges. “Não encontrei nenhum documento referindo envolvimento do Brasil nos assassinatos promovidos pela Operação Condor. Uma possível exceção foi o episódio do casal uruguaio Lílian Celibert e o marido, preso em Porto Alegre. Mas isso não está documentado nos arquivos e sim relatado pelo grupo Tortura Nunca Mais.”

Além disso, da mesma forma que Dinges, Márcia conta que não encontrou documentos provando que a CIA era financiadora das operações. “A ligação da CIA e de outros órgãos do governo norte-americano está mais relacionada ao envio de informações. Mas não podemos pensar na Operação Condor num contexto diferente da Guerra Fria. Os Estados Unidos promoveram várias operações de cunho clandestino e esta foi só mais uma, envolvendo as ditaduras militares do Cone Sul, com a conivência da CIA, do FBI e do Departamento de Estado dos Estados Unidos. Diretamente, não se pode comprovar a coordenação dos Estados Unidos, mas se pode
provar isso indiretamente”, afirma Márcia.
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Jornal da USP - 13 a 19 de junho de 2005 ano XX no.728